Meninos de Ouro

Daniel James Brown · Capítulo 2 de 10 · parte 2/3

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Meninos de Ouro

Primeira parte – 1899-1933 – Os ciclos por que passaram

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Sem outro lugar para ir, Harry Rantz pôs a família inteira no Franklin e tomou o rumo nordeste, para o campo de mineração onde trabalhava como mecânico especializado desde o ano anterior. Fundada em 1910 por John M. Schnatterly, a mina estava localizada no distante extremo setentrional de Idaho, junto à fronteira com o estado de Montana, onde o rio Kootenai corre para o sul vindo da Colúmbia Britânica. Seu primeiro nome, quando Schnatterly disse ter encontrado um veio do metal rádio, que valia milhões de dólares, fora “Mina de Ouro e Rádio de Idaho”. Quando ficou claro que não havia rádio algum e o governo ordenou que mudasse a sua denominação, Schnatterly não hesitou em rebatizá-la “Mina de Ouro e Rubi de Idaho” muito embora os “rubis” não fossem mais do que pequenas granadas ocasionalmente encontradas entre os rejeitos. No começo da década de 1920, a mina ainda não havia produzido quase nenhum ouro nem rubis, tampouco granadas.

Quase todos os mais de 30 trabalhadores da mina viviam com suas famílias dentro do campo, num assentamento chamado Boulder City. Suas precárias construções – 35 pequenas casas de madeira, toscas e idênticas, com banheiros externos, uma serralheria, uma oficina, um alojamento para solteiros, uma igreja, uma serraria movida a energia hídrica e uma modesta usina hidrelétrica – ficavam encarapitadas numa encosta às margens do córrego Boulder, ligadas entre si por uma rede de passadiços de madeira. Entre os pinheiros de um platô acima do campo ficava a escola – uma cabana de um só cômodo revestida com placas de cedro –, cuja frequência era pouca e irregular por causa da escassez de crianças no campo. Uma estrada de terra com grandes sulcos ziguezagueava morro abaixo até a ponte sobre o rio Kootenai, na fronteira do estado de Montana, além da qual ficavam o armazém e o refeitório da companhia.

Apesar de desolado, para um inventor como Harry o assentamento era o lugar ideal para tentar esquecer Spokane. Toda a sua energia e todos os seus prodigiosos talentos mecânicos eram aplicados na reparação e na manutenção da serra hídrica, da trituradora elétrica, da escavadeira a vapor Marion, de 45 toneladas, além de todo tipo de veículos e máquinas da mina.

Joe com Harry, Thula, Mike e Harry Jr. na Mina de Ouro e Rubi

Para Joe, Boulder City era uma festa. Quando seu pai operava a imensa escavadeira, girando de um lado para outro, Joe se empoleirava na traseira do monstro para brincar de carrossel. Mais tarde Harry construiu, trabalhando durante a noite na oficina da companhia, um quadriciclo que Joe empurrava pela estrada até o alto do morro para descer em alta velocidade, gritando a plenos pulmões pela sucessão de retas e curvas fechadas até o outro lado do rio. Lá chegando, pulava da engenhoca e começava tudo de novo, até ficar escuro demais para enxergar a estrada. Estar em movimento, ao ar livre, com o vento batendo em seu rosto, o fazia se sentir vivo – livre da ansiedade que, desde a morte de sua mãe, parecia o tempo todo à espreita em algum canto de sua mente.

Quando chegou o inverno e a encosta da montanha se cobriu de neve, Harry resgatou o equipamento de soldagem e montou um trenó para Joe escorregar estrada abaixo a velocidades ainda mais assustadoras. Para completar, Joe descobriu um carrinho de mina que corria sobre uma estrutura paralela ao córrego Boulder. Quando não havia ninguém por perto, ele levava Harry Jr. até o alto do morro, ajudava-o a subir no carrinho, dava impulso e os dois desciam, a toda velocidade, berrando de alegria.

Quando não estava descendo o morro, ajudando na trituradora ou estudando na escola, Joe subia as montanhas da Floresta Nacional de Kaniksu, a quase 2 mil metros de altitude, em busca de chifres de veado e outros tesouros, nadava no Kootenai e cuidava da horta que plantara junto à cerca que delimitava o terreno da cabana de sua família.

Para Thula, no entanto, Boulder City era o lugar mais desolado que poderia existir – insuportavelmente quente e poeirento no verão, úmido e lamacento na primavera e no outono, e imundo praticamente o ano inteiro. O inverno piorava tudo. Em dezembro, um ar gelado descia do vale Kootenai, na Colúmbia Britânica, entrava pelas frestas e pelos buracos de sua frágil cabana e penetrava quaisquer camadas de roupa ou cobertas em que ela tentasse se refugiar. Sobrecarregada com um bebê de colo e uma criança entediada e chorosa, Thula começava a ver seu enteado, cada vez maior e mais incontrolável, como uma indesejável lembrança do famigerado casamento anterior de seu marido. Em nada ajudava o fato de Joe passar horas a fio a dedilhar uma guitarra havaiana, cantando e assobiando as canções cômicas de que ele e seu pai tanto gostavam; tampouco o fato de Harry entrar em casa todo sujo de graxa e serragem, comportamento que teve um fim abrupto numa fria noite em que Thula o empurrou porta afora aos berros: “Tire essa roupa imunda e vá se lavar no rio!”

Obedientemente, Harry se sentou numa tora, tirou as botas e a roupa toda, menos as ceroulas de algodão, e saiu descalço por uma trilha pedregosa até o córrego Boulder. Daí em diante, independentemente da estação e da temperatura, passou a se banhar devidamente no riacho e a entrar em casa com as botas nas mãos e o macacão pendurado no braço.

Na casa dos pais, Thula fora sempre valorizada não apenas por sua beleza – que superava a de sua irmã, Thelma – e seu extraordinário talento com o violino, mas também por seu gosto refinado e sua natureza sensível. Tão sensível que todos na família lhe creditavam uma espécie de sexto sentido, ideia que foi dramaticamente reforçada ao lerem o jornal do dia 15 de abril de 1912 algumas horas depois de Thula ter acordado subitamente durante a noite gritando coisas sobre um iceberg, um imenso navio que afundava e gente pedindo socorro.

Instruída e talentosa, Thula decidira buscar uma vida mais refinada do que a que uma fazenda de trigo poderia lhe oferecer. Perdida em Boulder City, suas poucas relações sociais consistiam agora de ignorantes e rudes esposas de mineiros e lenhadores, uma realidade dolorosa e distante do acalentado sonho de tocar como primeiro violino de uma grande orquestra sinfônica. Nem praticar direito ela podia. No inverno, seus dedos ficavam enrijecidos demais para dançarem no braço do violino e, no verão, tão rachados e doloridos por causa do ar seco de Idaho que mal conseguia segurar o arco. Seu violino ficava quase o tempo todo na prateleira, como que rindo das intermináveis pilhas de louça e fraldas que tinha para lavar – o tipo de coisa que sua irmã Thelma, não ela, crescera fazendo. Agora, Thelma vivia confortavelmente numa bela casa em Seattle. Quanto mais ela pensava na injustiça de tudo aquilo e lamentava o que estava perdendo do mundo lá fora, mais a tensão crescia dentro de casa.

A gota d’água veio numa tarde quente de verão. Grávida do terceiro filho, Thula passara a maior parte da tarde ajoelhada limpando o piso da cabana e sentia as costas latejando de dor. Ao se aproximar a hora do jantar, ela deu início à rotina noturna no fogão: colocar a lenha, tirar o ar frio da chaminé e alimentar a chama até conseguir fogo suficiente. A fumaça queimava-lhe os olhos. Acesa a chama, pôs-se a pensar no que iria preparar para aquela noite. Com o limitado orçamento e a escassa variedade de alimentos disponíveis no armazém da companhia, era difícil servir uma refeição decente todas as noites e mais ainda conservá-la ali tempo suficiente para que seus filhos pudessem comer: Joe, crescendo rapidamente, devorava a comida antes que Thula tivesse acabado de colocá-la na mesa. Ela sempre tinha medo de que não fosse sobrar comida para os próprios filhos.

Irritada por não saber o que fazer, começou a mover as panelas em cima do fogão para abrir espaço quando ouviu de repente, do lado de fora, um grito seguido de um choro longo e doído. Era a voz de Mike. Thula deixou as panelas sobre o fogão e saiu em disparada pela porta da frente.

Joe estava no jardim, agachado, cuidando da horta. Para ele, a horta era uma imensa fonte de orgulho, uma espécie de santuário sob sua guarda. Quando levava para casa uma cesta de tomates frescos ou uma braçada de espigas de milho, e à noite os via na mesa do jantar, sentia estar contribuindo com a família, ajudando Thula e compensando, quem sabe, tudo o que tivesse feito recentemente para irritá-la. Naquela tarde, ele arrancava as ervas daninhas da horta quando, ao se virar um momento, deu com Mike, então com um ano e meio, tentando imitá-lo arrancando do chão, todo feliz, cenouras ainda não crescidas. Furioso, ele se virou e gritou com Mike, que soltou um berro. No instante seguinte, Joe olhou para a varanda e viu Thula, com o rosto vermelho de raiva. Ela desceu a escada, apanhou Mike do chão, levou-o para dentro e bateu a porta.

Quando Harry chegou do trabalho naquela noite, Thula já o esperava na porta de casa para exigir que levasse Joe até os fundos, fora de sua vista, e lhe desse uma surra. O marido se limitou a dar-lhe uma bronca. Ela explodiu com o que considerou falta de disciplina e disse que estava desesperada, que se sentia numa prisão e que não viveria mais sob o mesmo teto que Joe. Era ele ou ela. O menino tinha que ir embora para que ela continuasse naquele lugar esquecido por Deus. Incapaz de apaziguá-la e de aceitar a ideia de perder uma segunda esposa, subiu e disse ao filho que ele precisaria sair de casa. Joe tinha 10 anos.

Na manhã seguinte, bem cedo, Harry o levou até a escola. Chegando lá, deixou o filho sentado na escada e foi falar com o professor. Joe ficou esperando sob o sol da manhã, desenhando círculos no chão com um pedaço de pau e fitando melancolicamente um pássaro azul que se empoleirara num ramo de árvore e começara a chilrear para ele, como que a repreendê-lo. Depois de um longo tempo, o pai e o professor saíram e apertaram as mãos. Haviam chegado a um acordo. Em troca de um lugar para dormir na escola, Joe teria que juntar gravetos e cortar lenha suficiente para abastecer, dia e noite, a imensa lareira da escola.

Assim começou o exílio de Joe. Como Thula não lhe dava mais comida, todas as manhãs antes da aula, e à noite também, ele descia ao refeitório para ajudar a cozinheira da companhia, Mãe Cleveland, em troca de café da manhã e jantar. Seu trabalho era carregar as pesadas bandejas de comida – pratos cheios de panquecas e bacon de manhã, nacos de carne e batatas fumegantes à noite – da cozinha ao refeitório, onde mineiros e madeireiros de macacões sujos ocupavam longas mesas cobertas com papel de embrulho branco, falando alto e comendo com voracidade. Quando acabavam de comer, Joe levava os pratos sujos para a cozinha. À noite, subia o morro até a escola para cortar madeira, fazer as tarefas escolares e dormir da melhor maneira possível.

Joe tinha abrigo e comida, mas seu mundo ficara sombrio, limitado e solitário. Não havia, no campo, garotos da sua idade com quem fazer amizade. Seus companheiros mais próximos – os únicos desde que se mudara para Boulder City – eram seu pai e Harry Jr. Morando agora na escola, ele sentia falta da época em que os três formavam uma espécie de frente de resistência ao crescente mau humor de Thula, em que fugiam para trás da cabana para jogar bola entre os pinheiros e brincar na terra ou se sentavam ao piano para batucar suas músicas favoritas quando ela não estava por perto; dos momentos em que ficava sozinho com o pai, na mesa da cozinha jogando cartas enquanto Thula praticava violino, ou embaixo do capô do Franklin apertando e ajustando as peças do motor enquanto Harry lhe explicava a finalidade e a função de cada uma. Acima de tudo, sentia saudade das noites em que ele e o pai se sentavam na varanda da cabana para olhar o incrível turbilhão de estrelas brilhando na escuridão absoluta do céu de Idaho, respirando o ar gelado à espera de uma estrela cadente para fazer pedidos.

“Continue olhando”, dizia o pai, “e fique atento. Nunca se sabe quando alguma vai cair. A gente só não consegue vê-las quando para de olhar.”

O garoto cresceu depressa naquele verão, sobretudo na vertical, embora as caminhadas morro acima e morro abaixo tivessem lhe dado massa muscular nas pernas e coxas, e o manejo cotidiano do machado na escola e o transporte de bandejas no refeitório houvessem começado a esculpir a parte superior de seu corpo. Comia com entusiasmo à mesa de Mãe Cleveland, mas sempre queria mais. A comida não passava muito tempo longe dos seus pensamentos.

Certo dia de outono, o professor levou Joe e os outros alunos à floresta para uma aula prática de história natural. Pararam diante de um velho tronco apodrecido, onde crescia um grande fungo branco – um bulbo compacto e carnoso de bordas rugosas e recortadas. O professor o colheu, ergueu-o no ar e anunciou tratar-se de um cogumelo couve-flor, Sparassis radicata, não apenas comestível, mas delicioso quando cozido em fogo brando. Para Joe, a notícia de que era possível encontrar comida de graça em tocos de árvores foi uma revelação. Naquela mesma noite, deitado em seu beliche a olhar para as vigas do teto, ele se deu conta de que a descoberta do fungo continha uma lição muito maior do que qualquer uma aprendida em uma mera aula de ciências. Quem mantém os olhos bem abertos pode encontrar coisas valiosas nos lugares mais improváveis. O segredo era aprender a reconhecer uma coisa boa quando a visse, por mais estranha ou inútil que parecesse à primeira vista e independentemente de quem a tivesse ignorado e deixado para trás.

 

George Pocock, Rusty Callow, Ky Ebright e Al Ulbrickson

CAPÍTULO 3

 

À sua maneira, todo bom treinador de remo ensina aos seus homens a autodisciplina necessária para obter o máximo da mente, do coração e do corpo. Por isso, a maioria dos ex-remadores lhe dirá que foi no barco de corrida que aprendeu as lições mais importantes de sua vida, e não em sala de aula.

– George Yeoman Pocock

 

Oremo competitivo é uma atividade de extraordinária beleza precedida por castigos brutais. Ao contrário da maioria dos esportes, que se vale fundamentalmente de grupos musculares específicos, o remo utiliza, de forma intensa e repetida, quase a totalidade dos músculos do corpo. E as exigências musculares do remo não se dão a intervalos irregulares, mas em rápida sequência, durante um período prolongado, repetidamente e sem trégua. Certa ocasião, depois de assistir a um treino dos calouros de Washington, o jornalista Royal Brougham, do Seattle Post-Intelligencer, admirado com a severidade do esporte, observou: “Numa prova de remo não há pedido de tempo nem intervalo para beber água ou tomar fôlego. O sujeito tem que ficar o tempo todo com os olhos grudados no pescoço vermelho e suado do companheiro à sua frente e remar até que alguém lhe diga que acabou (...). Amigo, o remo não é esporte para molengas.”

No remo, os músculos dos braços, pernas e costas – quadríceps, tríceps, bíceps, deltoides, grandes dorsais, abdominais, isquiotibiais e glúteos, principalmente – fazem a maior parte do trabalho pesado, impelindo o barco à frente contra a resistência implacável da água e do vento. Enquanto isso, dezenas de pequenos músculos do pescoço, dos punhos, mãos e pés se encarregam da sintonia fina que garante o balanceamento do corpo, necessário para conservar o delicado equilíbrio que mantém nivelado o barco de 60 centímetros de largura – a largura aproximada da cintura de um homem. O resultado desse trabalho muscular de grande e pequena escala é a queima de calorias e o consumo de oxigênio a taxas inigualadas por qualquer outra atividade humana. Fisiologistas calcularam que uma prova de remo de 2 mil metros – o padrão olímpico – impõe uma sobrecarga fisiológica equivalente à da disputa de duas partidas de basquete consecutivas, e em não mais do que seis minutos.

Numa competição de alto nível, remadores bem preparados devem ser capazes de inalar e consumir nada menos do que oito litros de oxigênio por minuto; a média entre os homens é de quatro a cinco litros. Remadores olímpicos conseguem aspirar e processar a mesma quantidade de oxigênio que um cavalo de corrida puro-sangue. Cabe observar, no entanto, que essa extraordinária taxa de consumo de oxigênio só é útil até certo ponto. Ainda que 75% a 80% da energia produzida por um remador numa prova de 2 mil metros seja energia aeróbica alimentada por oxigênio, as corridas sempre começam, e geralmente terminam, com fortes sprints – tiros ou arrancadas que demandam níveis de produção de energia muito superiores aos da capacidade normal do corpo, qualquer que seja a absorção de oxigênio. O corpo passa, então, a gerar energia anaeróbica, produtora, por sua vez, de grandes quantidades de ácido lático, que se acumulam rapidamente no tecido muscular. O resultado é que os músculos começam a gritar de dor pouco depois da largada e vão assim até linha de chegada.

E não são só os músculos que gritam. A ossatura a que todos esses músculos estão ligados também está sujeita a enormes pressões e tensões. Sem treinamento e condicionamento físico adequados – às vezes até com eles – remadores de alto nível tendem a sofrer de uma grande variedade de problemas nos joelhos, quadris, ombros, cotovelos, costelas, pescoço e, acima de tudo, na coluna vertebral. São lesões e queixas que vão de bolhas a tendinites severas, além de bursite, deslocamento de vértebras, lesões do manguito rotador e fraturas por estresse, sobretudo das costelas.

O denominador comum de todos esses distúrbios são as dores lancinantes. E essa é, talvez, a primeira e mais importante coisa que um candidato a remador tem que aprender sobre o remo de competição em alto nível. A questão não é se vai doer nem quanto vai doer, mas o que você vai fazer e como vai reagir quando a dor tomar conta do seu corpo.

Tudo isso logo ficou muito claro para Joe Rantz e os demais candidatos à guarnição de calouros da Universidade de Washington no outono de 1933.

Todas as tardes, depois da aula, Joe fazia a longa caminhada até a garagem de barcos, vestia a camiseta e o calção e ia para o ritual diário da pesagem, que tinha por objetivo lembrar aos rapazes que cada quilo que entrava no barco tinha que ser justificado em termos de energia produzida e assegurar que nenhum deles ficasse abaixo do peso por excesso de treinamento. Depois de consultar, na lousa, a guarnição a que fora designado no dia, Joe se juntava ao grupo reunido na rampa em frente à garagem para ouvir as instruções do treinador Bolles.

Nas primeiras semanas, Bolles tratou de um tema diferente a cada dia, dependendo de fatores tão imprevisíveis quanto o tempo em Seattle e os desacertos técnicos observados no treino anterior. Joe logo percebeu, no entanto, que sempre havia dois temas principais (e interligados) nessas preleções. Os rapazes eram alertados para o fato de que o caminho que haviam escolhido era inimaginavelmente difícil; que o corpo e o caráter de cada um seriam colocados à prova nos meses seguintes; que poucos entre eles – somente os que mostrassem resistência física e força mental quase sobre-humanas – levariam o “W” estampado no peito; e que a maioria desistiria antes das festas de fim de ano, talvez para praticar esportes menos exigentes do ponto de vista físico e mental, como o futebol americano. Mas Bolles costumava falar também sobre experiências que mudaram as vidas das pessoas. Acenava com a perspectiva de cada um se tornar parte de algo maior do que si, de encontrar em seu interior algo que ainda não sabia possuir e de passar da infância à idade adulta. Às vezes ele mudava o tom de voz para comentar os momentos quase místicos – de orgulho, júbilo e profunda afeição pelos companheiros de equipe – que os remadores viviam na água, momentos que eles iriam guardar para contar aos netos quando envelhecessem. Momentos que até os deixariam mais perto de Deus.

Ocasionalmente, nessas preleções, os rapazes notavam que alguém, ao fundo, os observava em silêncio, ouvindo tudo com atenção. Era um homem de seus 40 anos, alto como quase todos os que estavam na rampa, com óculos de armação grossa e olhos sagazes e penetrantes. Tinha testa grande e usava um estranho corte de cabelo – comprido e ondulado na parte de cima, porém cortado logo acima das orelhas – que aumentava suas orelhas e dava a impressão de ter uma cuia na cabeça. Usava quase que invariavelmente um avental de carpinteiro, coberto de serragem vermelha e aparas de cedro. Falava com um nítido sotaque britânico da alta sociedade e uma entonação característica de Oxford ou Cambridge. Vários rapazes sabiam que ele se chamava George Pocock e construía barcos de corrida no sótão da garagem, não somente para Washington, mas para equipes de remo de todo o país. Nenhum deles, porém, sabia ainda que muito do que acabavam de ouvir da boca de Bolles – o coração e a alma de suas palavras – tinha origem na tranquila filosofia e nas profundas reflexões daquele britânico.

Quase se pode dizer que George Yeoman Pocock nasceu com um remo nas mãos. Veio ao mundo no dia 23 de março de 1891, em Kingston upon Thames, diante de uma das melhores águas para a prática do remo que existem no mundo. Descendia de uma longa linhagem de construtores de barcos: seu avô paterno ganhava a vida – como, durante séculos, seus antecessores – fabricando barcos a remo para os barqueiros profissionais que prestavam serviços de balsa e táxi marítimo no rio Tâmisa, em Londres.

O avô materno de Pocock também trabalhara no negócio da construção naval, projetando e construindo uma grande variedade de pequenas embarcações, entre elas a Lady Alice, especialmente projetada para que Henry Stanley fosse à procura do Dr. David Livingstone na África Central em 1874. Seu tio Bill construíra o primeiro barco de corrida sem quilha em sua oficina sob a Ponte de Londres. Seu pai, Aaron, construíra barcos de corrida para o colégio Eton, onde os rapazes das famílias abastadas disputavam provas de remo desde a década de 1790. Foi na garagem de barcos do Eton, na margem do Tâmisa oposta ao imponente castelo de Windsor, que George cresceu. Aos 15 anos ele se tornou formalmente aprendiz de seu pai e, durante os seis anos seguintes, trabalhou ao lado dele na construção de tudo o que era necessário para conservar e ampliar a frota de barcos de corrida do Eton.

Mas George não apenas construía barcos como aprendeu a remá-los – e muito bem. Estudou com afinco o estilo dos barqueiros do Tâmisa – caracterizado por remadas curtas, mas potentes, com pegadas e finais rápidos – e o adaptou às corridas. O estilo desenvolvido por ele em pouco tempo se mostrou superior à remada longa que tradicionalmente se ensinava no Eton. Os aristocratas que ficavam no Tâmisa após os treinos da faculdade descobriram que George e seu irmão, Dick, inferiores a eles na escala social, invariavelmente os deixavam para trás em seu barco. Em pouco tempo os irmãos Pocock começaram a dar aulas informais de remo a gente como o jovem Anthony Eden, o príncipe Prajadipok do Sião e o lorde Grosvenor, filho do duque de Westminster.

George Pocock, por sua vez, também aprendeu com os rapazes bem-nascidos do Eton. Por natureza, ele era inclinado a fazer tudo a que se propunha da maneira mais perfeita – dominar cada uma das ferramentas que lhe caía nas mãos na oficina do pai, remar do modo mais eficiente possível, construir os barcos de corrida mais elegantes e de melhor desempenho. Agora, sentindo na pele o tormento das distinções de classe na Grã-Bretanha e ponderando a diferença entre o modo como ele e seu pai falavam e o modo como os outros falavam com eles, decidiu trocar seu sotaque cockney natural pela fala “educada” dos rapazes a quem servia. E, para surpresa de quase todos, conseguiu. Sua voz clara logo se destacou na garagem de barcos, não como afetação, mas como questão de orgulho e demonstração de seu profundo compromisso com a beleza, a precisão e o que viria a ser uma busca permanente por seu ideal.

Impressionado com a perseverança de George e sua capacidade na água, seu pai o inscreveu numa corrida profissional, a Sportsman Handicap, em Putney on Thames, quando ele tinha 17 anos. Disse ao filho que ele poderia construir seu próprio barco para a disputa na garagem do Eton e deu-lhe alguns conselhos que George nunca esqueceu: “Ninguém vai perguntar quanto tempo foi preciso para construí-lo; só irão perguntar quem o construiu.”

Com todo cuidado, calma e rigor, George construiu, então, um skiff de pinho norueguês e mogno com o qual conseguiu o primeiro lugar no pódio em Putney on the Thames, derrotando, em três provas eliminatórias, um total de 58 adversários. Voltou para casa com 50 libras em dinheiro – uma pequena fortuna. Pouco tempo depois, seu irmão, Dick, o superou, conquistando o maior troféu do remo: nada menos do que o bicentenário Doggett’s Coat and Badge.

George treinava para buscar a vitória na Doggett’s Coat and Badge quando, no fim de 1910, seu pai foi demitido do emprego no Eton por conta da fama de ser demasiado tolerante com os homens que trabalhavam para ele. Privado de seus meios de subsistência, ele buscou trabalho na zona portuária de Londres. George e Dick, não querendo ser um fardo para o pai, decidiram emigrar para o Canadá ocidental, onde se dizia ser possível ganhar 10 libras por semana trabalhando na floresta. Fizeram as malas, juntaram suas ferramentas, compraram passagens de terceira classe para Halifax com o dinheiro ganho nas corridas e, a bordo do vapor Tunisian, partiram de Liverpool.

Duas semanas depois, em 11 de março de 1911, após atravessar o Canadá de trem, os Pocock chegaram a Vancouver com 40 dólares canadenses no bolso. Atordoados, sujos e famintos, eles caminharam da estação ao centro da cidade sob uma chuva fria e melancólica. George completava 20 anos naquele dia. Dick era um ano mais velho. Inesperadamente à deriva no mundo, sem saber o que iriam fazer em seguida, eram forasteiros numa primitiva cidade de fronteira totalmente diferente do ambiente austero mas confortável do Eton. Embora dentro dos domínios do rei, sentiram-se em outro planeta. Acharam um quartinho num edifício de alvenaria no centro da cidade por 18 dólares semanais e saíram imediatamente à procura de trabalho. Com apenas duas semanas de aluguel nos bolsos, pegaram o primeiro que apareceu: Dick como carpinteiro no hospital psiquiátrico da localidade vizinha de Coquitlam e George num campo de exploração madeireira no rio Adams, fora de Vancouver, onde se esfalfava subindo e descendo a montanha para satisfazer o insaciável apetite de um guincho a vapor por lenha e água. Depois de um mês serrando madeira e carregando baldes de água da margem do rio até o guincho, ele retornou a Vancouver e conseguiu, nos estaleiros, um emprego relativamente leve que não lhe exigia acompanhar o ritmo de uma máquina a vapor. Mas era um trabalho cruel e perigoso, que lhe custou dois dedos.

Em 1912 as coisas começaram a melhorar para os Pocock. Informado da reputação que tinham na Inglaterra, o Clube de Remo de Vancouver encomendou-lhes a construção de dois single skiffs por 100 dólares cada. Instalados num galpão flutuante abandonado a 50 metros da costa em Coal Harbour, eles iniciaram o que viria a ser o trabalho de suas vidas – fabricar magníficos barcos de corrida. Trabalhavam sem parar na oficina, na parte de baixo, parando somente à noite para dormir no andar de cima, onde não havia calefação.

As condições eram terríveis. A luz do dia atravessava o telhado e o vento e a chuva penetravam as enormes frestas das paredes de madeira. Tomavam banho pulando da janela do quarto na água gelada e salgada da baía. Para beber água, tinham que remar até uma fonte pública no parque Stanley. Às vezes o galpão se soltava da âncora durante a noite e ficava à deriva na baía de Vancouver, entre os transatlânticos que chegavam e partiam. Na maré baixa ele se assentava sobre um banco de lama, com 25 graus de inclinação de um lado a outro. Na alta, as toras flutuantes que sustentavam a construção permaneciam ancoradas à lama. George descreveu, mais tarde, sua rotina diária: “Quando a água entrava na oficina nós nos refugiávamos no quarto lá em cima e tentávamos prever o que viria a seguir. A certa altura, as toras se soltavam da lama, rangendo e rugindo, e a construção subia, como um submarino que emerge à superfície, derramando água por todos os lados. Podíamos, então, voltar a trabalhar – até a próxima mudança da maré.” Apesar de tudo, a tarefa foi concluída e, em pouco tempo, a fama deles se espalhou pelo país, garantindo novas encomendas. Em meados de 1912, os irmãos Pocock, de 20 e 21 anos, começaram a sentir o gosto da terra firme sob os pés.

Foi então, num dia cinzento e tempestuoso, que George Pocock viu, pela janela da oficina, um sujeito grande e desengonçado, com uma cabeleira ruiva já meio grisalha solta ao vento, remando “feito um caranguejo desnorteado”. O sujeito parecia estar tentando chegar à oficina, mas seu progresso estava sendo quase nenhum. As remadas eram tão canhestras e ineficazes que os Pocock acharam que ele devia estar bêbado. Foram, então, buscar um gancho para fisgar o barco. Com todo cuidado, trouxeram-no à oficina. Ele sorriu, estendeu a mão enorme e disse, com voz retumbante: “Meu nome é Hiram Conibear. Sou o treinador da equipe de remo da Universidade de Washington.”

Conibear – que viria a ser chamado de pai do remo de Washington – tornara-se treinador não por ter algum conhecimento sobre o remo, mas por não haver ninguém disponível para assumir o cargo. Fora ciclista profissional numa época em que oito homens montavam numa bicicleta de múltiplos assentos para disputar, em acidentadas pistas de terra, corridas improvisadas que terminavam muitas vezes em espetaculares e sangrentas colisões. Passou a ser preparador físico de futebol universitário e atletismo e, mais recentemente, da equipe do Chicago White Sox, campeã mundial de beisebol de 1906. Ao chegar à Universidade de Washington, em 1907, contratado como técnico de atletismo e preparador físico da equipe de futebol americano, sua única experiência no remo fora um treinamento de quatro semanas, no verão de 1905, com um barco de quatro remos no lago Chautauqua, em Nova York. Mesmo assim, em 1908 ele passou a ocupar, por absoluta falta de alternativa, o posto de treinador de remo de Washington em substituição a dois voluntários.

Conibear, segundo aqueles que o conheciam bem, era “simples, direto e destemido”. Ele assumiu a nova tarefa com um prazer característico – que George Pocock chamou, mais tarde, de “ardente entusiasmo”. Na falta de uma lancha de treinador, ele corria de um lado para outro à beira do lago Washington gritando, com um megafone, uma mescla de gíria de beisebol, terminologia de remo e uma enorme variedade de exuberantes palavrões. Xingava tanto, tão alto e de um modo tão criativo que os moradores das margens do lago foram reclamar com a Universidade. Convencido de que a instrução do remo precisava ser mais científica, decidiu estudar livros de anatomia e textos de física. Apropriou-se de um esqueleto humano do laboratório de biologia, prendeu-o ao assento de um barco, amarrou suas mãos a um cabo de vassoura e pôs-se a observar atentamente seus movimentos enquanto os estudantes que o auxiliavam o manejavam para simular vários tipos de remadas. Convencido de que estava no rumo certo em relação à mecânica do esporte, voltou sua atenção para os barcos. Washington só contava com barcos caseiros, muitos deles notavelmente redondos, vagarosos e sujeitos a se partir quando remados com força. Um deles era tão roliço e instável que Homer Kirby, timoneiro da equipe de 1908, dizia que para mantê-lo nivelado era preciso que os tripulantes repartissem o cabelo bem no meio e mascassem o tabaco dividindo-o por igual entre as bochecas.

O que Conibear queria agora eram barcos como os que se fabricavam na Inglaterra – longos, esbeltos e elegantes. Barcos velozes. Quando soube que dois construtores de barcos ingleses tinham fixado residência um pouco ao norte, em Vancouver, foi atrás deles.

Ao encontrar a oficina flutuante em Coal Harbour, ele disse aos Pocock que planejava criar uma marinha inteira de barcos a remo. Queria comprar uma frota, talvez uns 50, certamente não menos do que 12 barcos de oito remos. Queria que os Pocock se mudassem imediatamente para Seattle. Eles teriam uma oficina no campus – seca e em terra firme – onde construiriam a frota.

Atônitos, mas encantados com o tamanho da potencial encomenda, os Pocock visitaram Seattle e, em seguida, telegrafaram ao pai, na Inglaterra, dizendo-lhe que fosse correndo para Washington porque eles haviam arranjado trabalho suficiente para os três. Só quando Aaron já estava a caminho, no meio do Atlântico, foi que George e Dick receberam uma carta circunspecta de Conibear admitindo que sua oferta fora prematura. Ele só tinha dinheiro para comprar um barco, não 12. Ao receber a má notícia, Aaron respondeu aos seus filhos secamente: “Vocês deviam ter lembrado que o Sr. Conibear é americano.”

Apesar das expectativas radicalmente reduzidas, os Pocock foram abrigados no campus de Washington, e Hiram Conibear começou a perceber que George Pocock era muito mais do que um qualificado construtor de barcos. Ao ver os remadores de Washington na água, George imediatamente identificou, na mecânica de suas remadas, falhas que nem um milhão de testes com um esqueleto poderiam corrigir. Relutante em dar conselhos a quem não os pedira, ficou calado. Mas quando Conibear começou a lhes pedir opiniões sobre a técnica de seus pupilos, George foi se abrindo. Para começar, ensinou os fundamentos da remada que aprendera na infância com os barqueiros do Tâmisa e transmitira aos rapazes do Eton. Conibear ouviu com interesse e aprendeu rapidamente. Dessas conversas, logo surgiu o que veio a ser chamado de “remada Conibear”. Sua inclinação para trás era menor, sua pegada mais rápida e sua puxada mais curta, porém mais potente. Os remadores ficavam mais eretos ao final da remada, prontos para deslizar para a frente e começar a seguinte com mais rapidez e menos dificuldade e incômodo. Nitidamente diferente da remada que havia muito se praticava nas escolas do Leste (e no Eton), com sua exagerada inclinação e sua longa recuperação, ela quase imediatamente começou a render a Washington as suas primeiras vitórias significativas. Em pouco tempo, as próprias escolas do Leste começaram a observar a “remada Conibear” e a tentar descobrir como algo tão heterodoxo podia ser tão bem-sucedido.

Conibear faleceu poucos anos depois, em 1917, ao subir num galho alto de uma árvore do seu quintal para pegar uma ameixa e cair de cabeça. A essa altura, Washington já se tornara um competidor sério na Costa Oeste, adversário digno das Universidades de Stanford, da Califórnia e da Colúmbia Britânica, a caminho de se tornar, no remo, o que Conibear sempre sonhara: “a Cornell do Pacífico”.

Depois da Primeira Guerra Mundial, Dick Pocock se mudou para a Costa Leste atendendo a um convite da Universidade de Yale para construir seus barcos. George permaneceu em Seattle, para onde começaram a afluir, de todo o país, encomendas de barcos de qualidade. Nas décadas seguintes, uma sucessão de treinadores e equipes de Washington aprendeu que o inglês que trabalhava em silêncio no sótão da garagem de barcos da universidade tinha muito a lhes ensinar sobre o remo. Ele passou a ser visto como um tipo raro, um expert do remo. Ninguém se igualava a ele na compreensão dos detalhes do esporte – a física da água, da madeira e do vento e a biomecânica dos músculos e dos ossos.

A influência de Pocock, porém, não se limitou ao seu domínio do lado técnico do esporte. Na verdade, só começou aí. Observando, ao longo dos anos, sucessivas guarnições de remadores e o esforço desses rapazes fortes e orgulhosos para dominar as sutilezas do esporte, estudando-os e trabalhando com eles, aconselhando-os e ouvindo-os declarar seus sonhos e confessar suas deficiências, George Pocock também aprendeu muita coisa sobre seus corações e suas almas. Aprendeu a ver esperança naqueles que já a haviam perdido e a perceber a habilidade onde ela era obscurecida pelo ego ou pela ansiedade. Compreendeu a fragilidade da segurança e o poder redentor da confiança. Detectou a resistência da delicada teia de afeto que às vezes se formava entre os rapazes, fosse uma dupla ou uma equipe inteira, esforçando-se ao máximo para fazer seu melhor. Em suma, passou a compreender que esses vínculos quase místicos de confiança e afeto, quando corretamente alimentados, eram capazes de elevar uma tripulação a níveis inusitados, de transportá-la a um patamar em que nove rapazes se tornavam uma coisa só – algo indefinível, tão em sintonia com a água, a terra e o céu que o esforço de remar era substituído pelo êxtase; algo raro e sagrado a se almejar com devoção. Nos anos decorridos desde sua chegada ao remo de Washington, George Pocock se tornou, em silêncio, seu sumo sacerdote.

Anos mais tarde, um timoneiro de Washington resumiria da seguinte maneira o sentimento das centenas de rapazes que ele influenciou: “À sua presença, os remadores de Washington sempre se punham de pé, pois ele simbolizava aquilo que leva os filhos de Deus a ficarem de pé.”

Todos os dias, depois que Tom Bolles encerrava a preleção e George Pocock retornava à oficina no sótão da garagem, os rapazes pegavam os longos remos de pás brancas em seus suportes, levavam-nos até a água e se preparavam para remar. Nem de longe prontos para adentrar o delicado recinto de um barco de corrida, todos tinham que aguardar a sua vez de embarcar no Old Nero, o venerável barco de iniciação da universidade. Com fundo chato, um longo passadiço longitudinal e lugar para 16 novatos, ele servia como campo de provas de calouros desde 1907, pouco depois de o programa de remo de Washington surgir.

Enquanto os calouros de 1933 se debatiam com seus remos, Tom Bolles e Al Ulbrickson, de terno cinza de flanela e chapéu, caminhavam de um lado para outro no passadiço do Old Nero. Ulbrickson se limitava a observar os rapazes, em silêncio, para avaliá-los. Bolles, ao contrário, berrava instruções o tempo todo – para segurarem o remo da forma correta, acertarem o ângulo da lâmina na água, endireitarem as costas, dobrarem os joelhos, esticarem os joelhos, puxarem com mais força num momento, afrouxarem no seguinte. Era atordoante e exaustivo. A função do Old Nero era, em parte, dissuadir aqueles que, por temperamento, não eram talhados para o esporte e fazê-los cair na real antes de saírem quebrando remos e barcos de corrida que custavam muito dinheiro. Mesmo se esforçando até quase perder o fôlego, os rapazes mal conseguiam empurrar o Old Nero, lenta e erraticamente, pelo Canal em direção às águas encrespadas do lago Washington. Na luta para absorver tudo e sincronizar seus esforços, a única constante era o medo de cometer algum erro crasso da longa lista de Bolles.

Ninguém precisou, no entanto, levar bronca para aprender que se as pás dos remos afundassem demais na água, com o ângulo errado, em descompasso com os outros, ou se ficassem submersas por uma fração de segundo extra no final da remada, só iam conseguir enforcar o remo – “pegar caranguejo”, como se dizia. O remo ficaria irremediavelmente preso na água, imobilizado como se um gigantesco crustáceo tivesse emergido das profundezas e se agarrado à pá com toda força. O Old Nero iria em frente, o remo não. Seu operador levaria um tranco violento no peito e cairia do assento ou, se não soltasse o remo a tempo, seria catapultado para dentro da água. Para todos eles, portanto, cada remada representava o perigo de uma humilhação pública espetacular, molhada e gelada.

De todo o grupo de calouros, o único que já havia remado alguma vez na vida era Roger Morris. Antes da Grande Depressão, sua família residira numa pequena casa de madeira no lado ocidental da ilha Bainbridge, no estuário de Puget. Quando menino, Roger passava o verão remando em Manzanita, uma linda enseada azul abrigada do vento pelas montanhas Olympic. Alto e forte, Roger era capaz de ir com seu barco tão longe quanto quisesse, o que ficara provado quando, aos 12 anos, remou 25 quilômetros por causa de uma dor de dente até o conforto de sua casa no bairro de Fremont, em Seattle, onde entrou para total assombro de sua mãe. A bordo do Old Nero, porém, Roger logo percebeu que seu estilo livre de remar atrapalhava mais do que ajudava quando o negócio era dominar as tecnicalidades do remo de competição que Tom Bolles e Al Ulbrickson ensinavam na década de 1930.

A verdade é que nenhum dos calouros achou fácil dominá-las. Para conseguir uma remada minimamente suave e potente, eles tinham que aprender a executar uma série de movimentos sincrônicos cuidadosamente coordenados. O remador se sentava de frente para a popa do barco com o tronco curvado sobre os joelhos, os braços estendidos à frente e as duas mãos agarradas ao cabo do remo. Na primeira fase da remada – a pegada – ele deixava a pá entrar na água e inclinava o tronco com força para trás, na direção da proa, mantendo as costas totalmente retas. Quando os ombros atingiam a vertical do tronco, ele dava início à puxada mandando as pernas à frente e fazendo o carrinho deslizar enquanto trazia o remo em direção ao peito, contra a resistência da água, com toda a força combinada dos músculos do braço, das costas e das pernas. Com o remo junto ao peito, ele atingia a máxima inclinação do corpo para trás, um ângulo de cerca de 15 graus em relação à vertical. Na fase seguinte, a finalização, ele deixava as mãos caírem até a linha da cintura e tirava a pá de dentro da água de forma rápida e incisiva, girando o pulso da mão mais próxima à água para colocar a lâmina paralela à superfície. Para iniciar a recuperação, era preciso girar os ombros para a frente, empurrar o remo com os braços na direção da popa e puxar os joelhos na direção do peito, impelindo o corpo para a frente sobre o carrinho de volta à posição inicial, o tronco curvado sobre os joelhos. Com o barco deslizando à frente, o remador girava outra vez o cabo do remo, recolocando a pá em posição perpendicular à superfície para a próxima pegada, deixava-a entrar na água no mesmo instante que o faziam todos os outros e repetia todo o procedimento quantas vezes fossem necessárias, no ritmo exigido pelo timoneiro com seu pequeno megafone preso à cabeça.

Quando corretamente executados, esses movimentos impeliam o barco à frente de maneira fluida e potente. Mas era preciso manter um ciclo ininterrupto, uniforme – encolhendo e esticando o corpo no mesmo ritmo e com a mesma quantidade de energia de todos os demais remadores. Uma tarefa enlouquecedoramente difícil. Era como se oito homens em pé num tronco flutuante que ameaçava girar cada vez que alguém se movia tivessem que golpear oito bolas de golfe no mesmo instante e com a mesma força, mandando-as para o mesmo ponto, num ciclo ininterrupto de três ou quatro segundos.

Os treinos duravam três horas todas as tardes, estendendo-se, a partir de outubro, pelas noites cada vez mais precoces e frias do outono. Os rapazes saíam da água com as mãos feridas e cheias de bolhas, os braços e as pernas latejando, as costas doendo e o corpo inteiro encharcado de uma mistura pegajosa de suor e água salgada. De volta à garagem, eles colocavam os remos em seus suportes, punham os calções e camisetas para secar nos armários aquecidos a vapor, vestiam-se e começavam a longa e penosa caminhada colina acima de volta ao campus.

A cada noite, Joe Rantz registrava, com satisfação, o número cada vez menor de rapazes que escalavam a colina. E outra coisa: os primeiros a cair fora haviam sido justamente os das calças bem passadas e dos sapatos engraxados. Numa época em que remadores de sucesso eram capa da Life e primeira página do The Saturday Evening Post, pertencer à equipe da universidade e tornar-se um dos maiorais do campus parecia a muitos deles um modo de subir na escala social. Só não contavam com as extremas exigências físicas e psicológicas do esporte. A dor cobrava o seu preço, mas Joe não se importava. Dor não era novidade para ele.

 

Centro de Sequim

CAPÍTULO 4

 

É difícil fazer o barco andar à velocidade desejada. O inimigo, claro, é a resistência da água, já que é preciso deslocar um volume de água equivalente ao peso dos homens e equipamentos. Mas a água é o que nos sustenta, o inimigo é nosso amigo. Na vida acontece o mesmo: os problemas que devemos superar nos sustentam e, ao final, nos fortalecem.

– George Yeoman Pocock

 

Numa noite de tempestade de novembro de 1924, Thula Rantz entrou em trabalho de parto na cabana na Mina de Ouro e Rubi. Enquanto ela gemia na cama, Harry foi correndo até Bonners Ferry, a 30 quilômetros de distância por estradas sinuosas, para buscar um médico. Na única estrada que saía da cidade, deu com uma ponte danificada. Consertou a ponte com a ajuda de mineiros, chegou ao destino pretendido e retornou a tempo de receber das mãos do médico sua primeira filha, Rose. Mas o sofrimento durara a noite inteira.

Para Thula, foi o fim. Estava farta da cabana, da Mina de Ouro e Rubi e de Idaho. Poucas semanas depois a família entrou no Franklin, pegou Joe na escola e foi para Seattle, morar no porão da casa dos pais dela em Alki Point. Pela primeira vez em um ano, todos moravam sob o mesmo teto.

Não deu certo. Thula, com mais um bebê para cuidar, não se sentia mais feliz no exíguo porão de Alki Point do que na cabana de Boulder City. E Joe parecia, como sempre, estar atrapalhando. Então, quando Harry arranjou um emprego de mecânico na madeireira Hama Hama, no canal Hood – a meio dia de viagem de Seattle, a oeste, por carro e balsa –, Joe teve que sair também. Harry levou o filho, ainda com 10 anos, para morar com a família Schwartz, perto do campo de extração de madeiras.

Em 1925, Harry conseguira economizar um pouco do dinheiro ganho na Hama Hama para dar entrada na compra de uma oficina mecânica e loja de pneus em Sequim, no norte da península Olympic. A loja ficava bem no centro da cidade, na rua Washington, no caminho de quem estivesse viajando de Seattle a Port Angeles ou mais além. Parecia uma boa localização, e possibilitava a Harry voltar a fazer o que mais gostava: mexer com automóveis. A família inteira se mudou, então, para um pequeno apartamento em cima da loja. Joe foi matriculado na Escola Sequim e passava os fins de semana ajudando o pai com os carros, mexendo em carburadores e aprendendo a vulcanizar a borracha – em parte pelo desejo de exercitar seus talentos mecânicos, em parte para ficar fora do caminho de Thula. Quando, num acidente envolvendo o prefeito de Sequim – que se distraíra com a passagem de uma jovem –, o Franklin da família teve sua estrutura seriamente danificada, Harry foi indenizado com um modelo mais novo e deu o antigo a Joe para que treinasse consertando-o. Sua segunda filha, Polly, nasceu naquele ano. Com a consolidação do negócio, ele comprou uma pequena fazenda com 65 hectares de floresta recém-derrubada a sudoeste da cidade. Lá, começou a construir, com as próprias mãos, uma casa para a família.

Sequim se assentara sobre uma vasta pradaria entre os picos nevados dos montes Olympic, ao sul, e as águas azuis do estreito de Juan de Fuca, ao norte. Era possível avistar a ilha de Vancouver no horizonte. A sotavento das montanhas e protegida das tempestades de sudoeste provenientes do Pacífico, a região era muito menos chuvosa do que a maior parte do oeste de Washington, com mais dias de céu azul do que encobertos. O clima era tão seco, na verdade, que os primeiros colonos encontraram cactos em alguns lugares. Era o tipo de cidade onde as pessoas se juntavam em mutirão para construir uma nova igreja, para tomar sorvete nas tardes de domingo e se divertir nos bailes públicos de sábado à noite. Em Sequim, o açougueiro do bairro podia ser também o bombeiro voluntário que salvaria a sua casa de um incêndio ou o vizinho que ajudaria a reconstruí-la. As índias da tribo vizinha Jamestown S’Klallam trocavam receitas com a esposa do pastor tomando café no Dryke’s, os velhos se reuniam em frente aos correios nas tardes de sábado cuspindo rios de saliva tingida de tabaco em escarradeiras estrategicamente localizadas, os garotos vendiam melões roubados de pomares locais ao caminhão de frutas da Honolulu Pete estacionado na Seal Street e as crianças comiam cachorro-quente de graça no açougue Lehman’s por parecerem famintas e ganhavam barras de chocolate na farmácia Brayton só porque diziam “por favor”.

A casa que Harry começou a construir em sua chácara tornou-se um empreendimento interminável. Com a ajuda de Joe, ele cavou uma vala para desviar ilegalmente a água de um canal de irrigação ligado ao rio Dungeness e montou uma serraria movida a energia hídrica. Derrubou as poucas árvores retorcidas que a madeireira deixara de pé obtendo madeira suficiente para montar a estrutura da casa e revestir parte dela com folhas de cedro. Construiu também uma enorme lareira com seixos que Joe e ele retiraram do Dungeness. Mas nunca tinha tempo, dinheiro e material suficiente para terminá-la. Ela estava ainda pela metade quando decidiu vender a oficina e a loja e se mudar com a família.

Nos anos seguintes, e na medida do tempo disponível, Harry e Joe avançaram na construção. Fizeram uma grande varanda na frente da casa, um galpão, um galinheiro que em pouco tempo abrigaria mais de 400 galinhas e um estábulo improvisado para ordenhar as seis vacas leiteiras que pastavam entre os tocos de árvore. Montaram uma roda volante e um gerador acoplado à roda-d’água que movia a serraria, estenderam a fiação para o interior e instalaram, penduradas nas vigas, lâmpadas incandescentes que bruxuleavam devido à oscilação do volume de água no canal de irrigação. Mas não chegaram nem perto de terminar a casa.

Para Joe, o estado da casa não fazia muita diferença. Ele tinha outra vez algo parecido com um lar e um novo mundo para explorar. Nos fundos havia uma área de quase meio hectare que no verão ficava repleta de morangos silvestres. Na primavera, a água jorrou com tanta força sobre a roda-d’água que escavou um tanque de quase 3 metros de profundidade por 7,5 metros de comprimento onde se juntavam cardumes de salmões e trutas que vinham do Dungeness pelo canal de irrigação. Com uma rede instalada na ponta de um pau comprido, que guardava atrás da casa, Joe pescava sempre que queria comer peixe no jantar. Os bosques além da propriedade eram povoados de ursos e pumas, motivo de uma compreensível preocupação de Thula com a segurança de seus filhos e de fortes emoções para Joe, quando, à noite, escutava o barulho dos ursos pescando no tanque e os guinchos dos pumas acasalando na escuridão.

Joe era um aluno aplicado e bastante popular. Seus colegas o achavam sociável, descontraído, piadista – uma companhia realmente divertida. Os que o conheciam mais de perto sabiam, no entanto, que de repente e sem nenhum motivo aparente ele ficava, às vezes, taciturno – nunca desagradável ou hostil, mas reservado, como se tivesse dentro de si algo que não podia ser tocado.

Era o queridinho da Srta. Flatebo, a professora de música. Por meio de barganhas e da generosidade dos amigos, montou uma curiosa coleção de instrumentos de cordas – um bandolim, vários violões, uma antiga guitarra havaiana e dois banjos. Praticando diariamente na varanda, depois de cumpridas as tarefas escolares, aprendeu, com paciência e obstinação, a tocar todos esses instrumentos. Levava sempre um violão na viagem de ônibus para a escola. Sentava-se no banco de trás e começava a tocar e cantar as suas músicas favoritas. Atraídos pela diversão, os colegas se reuniam no fundo do ônibus para ouvir e cantar junto. Não demorou para Joe descobrir que tinha uma admiradora, uma garota chamada Joyce Simdars, de cachos loiros e sorriso atraente, que estava sempre por perto, cantando com ele em perfeita harmonia.

Continuar: parte 3 de 3