Meninos de Ouro

Daniel James Brown · Capítulo 2 de 10 · parte 3/3

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Meninos de Ouro

Primeira parte – 1899-1933 – Os ciclos por que passaram

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Para Joe, a chácara de Sequim parecia cada vez mais o paraíso na Terra. Para Thula, no entanto, era uma decepção a mais, não muito melhor do que Boulder City, o porão de seus pais em Alki Point ou o apartamento em cima da loja de pneus. Presa numa casa inacabada cercada de troncos apodrecidos e de todo tipo de animais selvagens, ela se sentia, como sempre, distante da vida sofisticada que imaginara para si. Tudo que dizia respeito à vida da fazenda a horrorizava – a ordenha diária das vacas, o cheiro de esterco impregnado no ar, a coleta incessante dos ovos, a limpeza diária da desnatadeira e as lâmpadas que não paravam de piscar. Detestava cortar gravetos para acender o fogão, o início da manhã e o fim da noite. E continuava irremediavelmente irritada com Joe, que chamava os amigos adolescentes para tocar música e fazer algazarra na varanda dia e noite.

Todas as desgraças de Thula pareceram se fundir numa única grande calamidade numa nevoenta manhã de inverno em que ela, ao se virar do fogão com uma frigideira cheia de bacon, batatas, cebolas e gordura quente, tropeçou em Harry Jr., que se deitara de costas, bem atrás dela, no chão da cozinha. A frigideira e tudo o que havia dentro caíram sobre o pescoço e o peito do garoto. Gritando alucinadamente, em coro com a mãe, Harry Jr. saiu correndo porta afora, arrancou a camisa e se atirou num banco de neve. Mas o mal já estava feito – seu peito estava horrivelmente queimado e coberto de bolhas. Ele sobreviveu, mas precisou vencer uma pneumonia, passar semanas num hospital das redondezas e perder um ano inteiro de aulas.

Após esse episódio, as coisas começaram a desandar novamente para toda a família Rantz. Um buraco se abriu na vida de Joe quando, na noite de 29 de setembro de 1929, a casa de Joyce Simdars foi totalmente destruída por um incêndio quando a família estava fora. Joyce foi morar com uma tia em Great Falls, no estado de Montana, até a casa ser reconstruída. De repente, a viagem diária no ônibus da escola não era mais a mesma.

Um mês depois, uma grande catástrofe se abateu sobre a economia rural dos Estados Unidos, que há algum tempo já enfrentava instabilidade. Enormes excedentes de trigo, milho, leite, carne de porco e carne bovina produzidos no Meio-Oeste causaram uma abrupta queda no preço das commodities. A cotação do trigo caiu a um décimo de seu valor de 10 anos antes. Em Iowa, um cesto de milho com cerca de 25 quilos valia menos do que uma caixa de chiclete. E o colapso dos preços já começara a se espalhar para a costa do Pacífico. A situação em Sequim, embora ainda não tão terrível quanto nas Grandes Planícies, era bastante delicada. Como inúmeras outras fazendas e granjas espalhadas por todo o país, a dos Rantz mal conseguia arcar com as despesas. Mas quando Harry e Thula Rantz viram, no Sequim Press de 30 de outubro, o que acontecera em Nova York nos dias anteriores, concluíram que o mundo havia mudado totalmente e que nem ali, no remoto extremo noroeste do país, eles estariam a salvo da tempestade que desabara sobre Wall Street.

Nas semanas que se seguiram, uma sucessão de acontecimentos funestos abalou a vida da família na rua Silberhorn. Cães vadios, abandonados pelas dezenas de famílias que haviam deixado suas propriedades naquele outono, começaram a aparecer diariamente na granja. Em bandos, eles agora perseguiam as vacas dos Rantz, que mugiam, aflitas, movendo-se pesadamente por entre os tocos de árvores enquanto os cães lhes mordiam as patas. Em pouco tempo elas pararam de dar leite, a principal fonte de receita da granja. Duas semanas depois, visons entraram no galinheiro e mataram dezenas de galinhas, deixando pilhas de carcaças ensanguentadas pelos cantos. E repetiram o feito, como que por esporte, algumas noites depois. Era a vez de o dinheiro dos ovos desaparecer. Anos mais tarde, Harry Jr. daria sua versão dos acontecimentos daquele outono: “Tudo de ruim aconteceu. Era como se alguém tivesse dito a Deus: ‘Acabe com eles!’”

Então, num chuvoso fim de tarde de novembro, Joe descera do ônibus da escola e caminhava por entre as poças até a porta de casa, já quase envolta na escuridão, quando viu o Franklin de seu pai com o motor ligado, o teto carregado de bagagens sob um encerado e rolos de fumaça branca saindo pelo escapamento. Ao se aproximar, viu as crianças sentadas no banco de trás, espremidas entre malas, olhando para ele pelos vidros embaçados das janelas. Thula, no banco dianteiro, olhava fixamente à frente, para a varanda da casa, onde Harry o aguardava, muito pálido e demonstrando cansaço. Joe subiu os degraus.

– O que houve, pai? Para onde estamos indo? – murmurou Joe.

Cabisbaixo, Harry ergueu os olhos e mirou a floresta escura e úmida por sobre o ombro de Joe.

– Não dá para continuarmos aqui, Joe. Não há mais nada a fazer. E Thula não quer ficar, de jeito nenhum. Ela insiste em ir embora.

– E para onde estamos indo?

Os olhos de Harry encontraram, finalmente, os de Joe.

– Não tenho certeza. Seattle, por enquanto, depois talvez Califórnia. Mas, filho, a questão é: Thula não quer que você vá. Eu ficaria com você, mas não posso. As crianças precisam mais de um pai do que você, que já é quase um adulto.

Joe ficou imóvel. Seus olhos cinza-azulados, cravados no rosto do pai, ficaram subitamente vazios e inexpressivos, como duas pedras. Atordoado, incapaz de assimilar o que acabara de ouvir, ele estendeu a mão até o parapeito da varanda para se equilibrar. A água da chuva caía pela borda do telhado, espalhando-se pela terra. Seu estômago dava voltas. Finalmente, ele balbuciou:

– Mas eu não posso ir com vocês?

– Não. Não daria certo. Olhe, filho, se há uma coisa que eu aprendi sobre a vida é que se você quiser ser feliz terá que aprender por si mesmo.

Com isso, Harry caminhou até o carro, entrou, fechou a porta e deu a partida. Mike e Harry Jr. assistiam a tudo pela janela traseira. O carro saiu pela estrada, as luzes traseiras diminuindo de intensidade até desaparecerem sob o manto escuro da chuva. Joe deu meia-volta, entrou em casa e fechou a porta. A cena inteira havia durado menos de cinco minutos. A chuva crepitava no telhado. A casa estava fria e úmida. As lâmpadas piscaram por um instante. Logo se apagaram novamente e não voltaram a acender.

A chuva ainda batia no telhado quando Joe acordou na manhã seguinte. A noite trouxera um vento que gemia nas copas dos abetos. Joe ficou um longo tempo na cama, recordando seus dias tristes no sótão da tia Alma, na Pensilvânia, ouvindo o apito distante do trem, oprimido pelo medo e pela solidão que lhe pesavam sobre o peito como que a empurrá-lo para dentro do colchão. A sensação retornara. Não queria sair da cama e não estava interessado em saber se sairia algum dia.

Acabou, porém, se levantando. Acendeu o fogo, pôs água para ferver, fez café e fritou bacon. Muito lentamente, à medida que o café clareava a sua mente e a cabeça parava de rodar, percebeu a aproximação sorrateira de uma nova ideia. Abriu os olhos e a agarrou. Deixou que ela entrasse, por inteiro, em seu coração. Sentiu, então, crescer dentro de si uma certeza, logo transformada em feroz determinação: estava farto de se ver na posição de garoto assustado, ferido, abandonado, o tempo todo a se perguntar por quê. O que quer que surgisse em seu caminho, não ia deixar esse tipo de coisa acontecer outra vez. De agora em diante, faria as coisas do seu jeito, encontraria o próprio caminho para a felicidade – como seu pai lhe ensinara. Provaria ao pai e a si mesmo que era capaz de fazê-lo. Não se tornaria um ermitão. Gostava demais das pessoas. Seus amigos o ajudariam a vencer a solidão. Mas nunca mais se permitiria depender deles, da família ou de quem quer que fosse para estar bem consigo mesmo. Sobreviveria, e por conta própria.

O cheiro e o gosto do bacon frito deram um poderoso estímulo ao seu apetite. Ainda com fome, levantou-se e começou a inspecionar a cozinha. Não havia quase nada – só umas caixas de aveia, um pote de picles, alguns ovos das poucas galinhas que sobreviveram, metade de um repolho e um pouco de mortadela na caixa de gelo. Não era muito para um rapaz de 15 anos com quase 1,80 metro de altura.

Preparou um mingau de aveia e sentou-se para continuar suas reflexões. Seu pai sempre lhe ensinara que todo problema tem solução. Mas sempre o alertara, também, para o fato de que às vezes a solução está nos lugares mais insólitos, onde menos se espera, e que é preciso estar sempre em busca de respostas novas e criativas. Lembrou-se, então, dos cogumelos de Boulder City. Para sobreviver, precisaria ter a cabeça no lugar, manter os olhos bem abertos para as oportunidades e não deixar que outras pessoas lhe ditassem o que fazer de sua vida.

Nas semanas e nos meses seguintes, Joe aprendeu a se virar. Reforçou o galinheiro com estacas de ferro para conter os ataques dos visons e tratou de guardar com zelo os poucos ovos que recolhia todas as manhãs. Vasculhava a floresta à caça de cogumelos – por causa das chuvas recentes, havia montes deles – para fritar na gordura que Thula deixara numa lata. Usava a sua rede para pescar os peixes que restavam no tanque atrás da roda-d’água, e colhia agrião e amoras para a salada.

Mas não poderia viver disso. Estava claro que precisava de dinheiro. Então pegava o velho Franklin que seu pai lhe deixara, ia até a rua Washington, no centro de Sequim, estacionava, sentava-se no capô e punha-se a cantar ao som de seu banjo na esperança de conseguir alguns trocados. Mas logo descobriu que, em 1929, ninguém tinha trocado para lhe dar.

O crash financeiro começara em Wall Street, mas seus efeitos se alastraram rapidamente para todo o país. O centro de Sequim era só desolação. O Banco de Sequim ainda operava, mas em poucos meses fecharia as portas, como acontecia diariamente com uma quantidade cada vez maior de estabelecimentos de todos os tipos. Joe cantava observado pelos cães sentados na calçada se coçando debaixo da chuva. Os motoristas dos carros que passavam espirrando lama para todo lado estavam mais preocupados em driblar os buracos da rua do que em apreciar sua arte. Sua plateia era formada, basicamente, por um barbudo conhecido na cidade como Russo Doido, um personagem que vivia perambulando pelas ruas, descalço, falando sozinho.

Joe cavou ainda mais fundo em sua imaginação. Meses antes, ele e seu amigo Harry Secor haviam descoberto, no rio Dungeness, um poço verde e profundo em que enormes salmões – alguns com mais de 1,20 metro de comprimento – iam desovar. Para pegá-los, decidiu usar um gancho em forma de anzol que encontrara no celeiro e agora levava escondido no bolso.

No início de uma nevoenta manhã de sábado, Joe e Harry se puseram a caminho do poço em meio ao emaranhado de choupos e amieiros que margeiam o Dungeness, evitando os guardas florestais que patrulhavam regularmente o rio na época da desova do salmão. Cortaram uma boa vara de amieiro novo, amarraram o anzol e se aproximaram sorrateiramente do rio caudaloso e gelado. Depois de tirar os sapatos e arregaçar as calças, vadearam em silêncio até as corredeiras acima do poço. Com Joe devidamente posicionado, Harry começou a atirar pedras grandes dentro do poço e a bater na superfície com um pedaço de pau. Em pânico, os peixes correram na direção de Joe, que os esperava no banco de areia. Ele apontou a vara para um bem grande, enfiou o anzol na água e o fisgou habilmente por debaixo da guelra, onde o gancho não deixaria marcas. Depois de muita gritaria e água espirrada para todo lado, Joe conseguiu, aos tropeções, trazer o salmão até a margem e deixá-lo a debater-se num banco de cascalho.

Naquela noite, sozinho em casa, Joe se refestelou com o salmão. Nos dias que se seguiram, tratou de transformar sua pesca ilegal num negócio. Todo sábado à tarde, caminhava 5 quilômetros até a cidade com um ou mais salmões enormes pendurados numa vara de salgueiro passada sobre os ombros, as caudas arrastando na poeira. Levava-os até a porta dos fundos do açougue Lehman’s e de residências diversas por toda a Sequim, onde os vendia por dinheiro ou os trocava por manteiga, carne e combustível para o Franklin, ou por qualquer outra coisa de que precisasse no momento, assegurando aos seus clientes, com solenidade e bom humor, que ele próprio os pescara, sim, senhor, com linha e anzol.

Mais tarde naquele mesmo inverno, encontrou outra oportunidade de negócio. Com a Lei Seca em plena vigência e o Canadá a apenas 25 quilômetros de distância do outro lado do estreito de Juan de Fuca, Sequim se tornara um movimentado porto de entrada de todo tipo de bebida alcoólica. Boa parte dela se destinava aos bares clandestinos de Seattle, mas um contrabandista local se especializara em clientes residenciais. Toda sexta-feira à noite, Byron Noble percorria a periferia da cidade em seu elegante Chrysler preto para deixar garrafas de gim, rum e uísque atrás de mourões estrategicamente localizados nas cercas das casas de seus clientes, que já sabiam onde buscá-las. Não demorou muito para que Joe e Harry Secor também soubessem.

Vestidos com roupas pesadas e escuras, eles seguiam Noble em seu roteiro noturno pelas noites geladas, despejando o conteúdo dos frascos em jarros de vidro e substituindo-o por vinho de dente-de-leão fabricado por eles mesmos no celeiro de Joe. Imaginavam que em vez de os clientes de Noble desconfiarem que alguém roubara a mercadoria, eles iriam achar que haviam simplesmente recebido um lote estragado. Temendo, porém, que Noble ou algum cliente seu pudesse estar emboscado com uma arma à sua espera, Joe e Harry tinham o cuidado de não furtar seguidamente no mesmo local. Depois de uma noite de trabalho, Joe depositava seus jarros, cheios de bebida de boa qualidade, atrás dos mourões de seus próprios clientes, discretamente cultivados.

Quando não estava pescando ou roubando bebida, Joe trabalhava em todo tipo de serviço honesto que lhe caísse nas mãos. Arrancou tocos de árvores das pastagens de seus vizinhos cavando túneis dentro deles e levantando-os do solo com longas barras de ferro. Quando esse método não funcionava, metia-lhes bananas de dinamite por baixo, acendia o pavio e saía em disparada para não ser atingido pela erupção de lama e pedras que jorrava do chão. Cavou canais de irrigação usando apenas uma pá. Cortou enormes toras de cedro que desciam pelo Dungeness na primavera com um machado de cabo longo e duplo gume, para fazer mourões. Cavou poços. Construiu celeiros rastejando sob as vigas e martelando sem parar. Operou manualmente os desnatadores das leiterias e carregou latões de leite de 50 quilos nos caminhões de entrega da cooperativa leiteira Dungeness-Sequim. Sob o céu azul pálido do verão, trabalhou nos campos da periferia de Sequim cortando feno a foice, carregando-o em carroças com o forcado e içando-o, às toneladas, aos sótãos dos celeiros de seus vizinhos.

Com tudo isso, Joe ficava a cada dia mais forte e autossuficiente. Apesar de tudo, permaneceu na escola e tirava boas notas. Terminada a jornada diária, porém, só lhe restava retornar à casa inacabada e vazia, onde passava a noite sozinho. Fazia suas refeições solitárias numa das extremidades da grande mesa onde antes a família se reunia em jantares barulhentos, depois lavava seu prato, secava-o e punha-o de volta no alto da pilha que Thula deixara para trás, no armário da cozinha. Sentava-se, então, ao velho piano de sua mãe, na sala, para preencher a casa vazia e escura com as singelas melodias que dedilhava em suas teclas, ou acomodava-se nos degraus da varanda com seu banjo para cantar baixinho canções que só ele ouvia.

Nos meses que se seguiram, Joe procurou novas oportunidades em Sequim. Trabalhou em tempo parcial para seu vizinho da rua Silberhorn, Charlie McDonald, que ganhava a vida como madeireiro derrubando os imensos choupos que cresciam nas terras pedregosas às margens do rio Dungeness. O trabalho era penoso. Os choupos eram tão imensos – seus diâmetros tão grandes – que Joe e Charlie levavam às vezes mais de uma hora para derrubar um único deles com uma serra, um interminável vaivém a quatro mãos para cortar, lentamente, o cerne branco e macio da árvore. Na primavera, a seiva jorrava dos cepos a mais de um metro de altura quando as árvores tombavam. Em seguida, eles cortavam os galhos com machados, arrancavam as cascas com longas barras de ferro e atrelavam as toras aos cavalos de tiro de Charlie – Fritz e Dick – para removê-las da floresta e levá-las a uma fábrica de pasta de celulose em Port Angeles.

Charlie tivera as cordas vocais quase totalmente destruídas por gás tóxico na Primeira Guerra Mundial, e o melhor que conseguia produzir eram grasnidos e sussurros. Joe se encantava com o fato de Charlie conseguir comandar seus morosos cavalos com interjeições quase inaudíveis ou, às vezes, com um simples assovio ou aceno de cabeça. A um simples sinal de Charlie, Fritz e Dick se agachavam sobre as ancas para receberem os arreios. Outro sinal, e os dois se levantavam e começavam a puxar, com movimentos perfeitamente sincronizados, como se fossem um único animal. E puxavam com toda a força. Trabalhando juntos – Charlie explicou a Joe – os cavalos conseguiam produzir muito mais do que o dobro da capacidade de tiro de cada um. Eles puxariam até a tora se mover, os arreios se partirem ou seus corações pararem de bater.

Com o tempo, Joe passou a jantar algumas vezes, em troca de trabalho, na casa dos McDonald. E logo tornou-se muito popular entre as filhas pré-adolescentes, Margaret e Pearlie. Costumava ficar com elas até a hora de dormir cantando e tocando banjo ou jogando dominó e pega-varetas deitado no tapete da sala de estar.

Logo descobriu como ganhar algum dinheiro de um modo divertido. Ele e dois de seus amigos de escola, Eddie Blake e Angus Hay Jr., formaram uma banda com Joe no banjo, Eddie na bateria e Angus no saxofone. O trio tocava jazz nos intervalos dos filmes no cinema Olympic em troca de ingressos, animavam sessões de quadrilha no Grange Hall, em Carlsborg, e, nas noites de sábado, tocavam na localidade vizinha de Blyn, onde um agricultor transformara seu galinheiro na Chicken Coop, a pista de dança mais popular de Sequim com a simples instalação de algumas gambiarras. O ingresso era gratuito para as moças e custava 25 centavos de dólar para os rapazes, mas Joe e seus companheiros de banda não pagavam nas noites em que se apresentavam. Isso era muito importante para ele. Joyce Simdars retornara de Montana semanas antes e o ingresso gratuito significava que poderia levá-la aos bailes. No entanto, para sua imensa frustração logo descobriu que Joyce só podia ir aos bailes nas raras ocasiões em que sua mãe estivesse disponível para acompanhá-la, empertigada e vigilante no amplo e macio banco traseiro do Franklin, com total controle do perigoso território.

Se tinha uma coisa que Joyce Simdars queria nessa vida era que sua mãe fosse menos vigilante.

A família Simdars era austera e a educação de Joyce, extremamente rígida. Descendentes de imigrantes alemães e escoceses estabelecidos como pioneiros em Sequim, seus pais acreditavam que o trabalho era um fim em si mesmo, endireitava os espíritos rebeldes e nunca era demais. Na verdade, o pai de Joyce estava a ponto de se matar de trabalhar. Mesmo sofrendo de cardiomegalia e reumatismo, ele seguia lavrando seus campos à moda antiga – atrás de uma junta de mulas. No fim de sua vida, as mulas praticamente o arrastavam do início da manhã até a noite, seis dias por semana.

Joyce Simdars aos 16 anos

Era, no entanto, pela mãe, em especial por suas ideias religiosas, que Joyce mais se sentia oprimida. Enid Simdars abraçara os rigores da Ciência Cristã, uma crença segundo a qual o mundo material e todo o mal que o acompanhava eram ilusórios; a única realidade era a espiritual. Isso significava, entre outras coisas, que somente a oração poderia curar males como o reumatismo que afligia seu marido – ou seja, que ir ao médico era perda de tempo. Significava também algo que afetou profundamente a vida da moça em seus primeiros anos: Enid acreditava que a única Joyce que existia era a “boa”; a “má” era uma impossibilidade teológica. Uma menina que tivesse esse aspecto era, por definição, uma impostora disfarçada de sua filha. Quando Joyce se comportava mal, deixava de existir para a mãe. A “Joyce má” tinha que ficar sentada numa cadeira sem poder se levantar até a “Joyce boa” reaparecer espontaneamente. Em consequência, a menina passou grande parte de sua infância às voltas com a noção de que ter maus pensamentos e mau comportamento a tornavam não apenas indigna de amor como seriamente ameaçada de deixar de existir. Muitos anos mais tarde ela ainda se lembrava de seus momentos na cadeira, chorando e dizendo a si mesma: “Mas eu ainda estou aqui... eu ainda estou aqui...”

Seu refúgio era a vida ao ar livre. Detestava o trabalho doméstico, em parte porque ele não tinha fim na casa dos Simdars, em parte porque a mantinha presa numa redoma sob o olhar atento de sua mãe. Para piorar, com cerca de 15 anos Joyce já começara a sofrer de artrite, aparentemente uma herança genética do pai. Lavar pratos, esfregar pisos e limpar janelas eram tarefas repetitivas que agravavam a dor que sentia nas mãos e nos pulsos. Sempre que podia, ela saía para trabalhar na horta ou cuidar dos animais com o pai. Embora pouco afetuoso – mais propenso a abraçar o cão da família do que os próprios filhos –, ele ao menos parecia vagamente feliz em tê-la por perto. Além disso, esse tipo de trabalho tinha aspectos interessantes, como solucionar problemas práticos e criar coisas novas, que atendiam a considerável e florescente curiosidade intelectual que faziam de Joyce uma aluna excepcionalmente talentosa. Da fotografia ao latim, ela mergulhava de cabeça em tudo o que lhe despertava interesse. Adorava lógica e gostava de decompor e reconstituir objetos, fosse um discurso de Cícero ou um moinho de vento. No final do dia, porém, eram as tarefas domésticas e o olhar vigilante da mãe que a esperavam no ambiente rígido e sombrio de sua casa.

Foi assim que Joyce, ao ver Joe Rantz com seu violão no último banco do ônibus da escola cantando velhas canções com seu sorriso branco e arreganhado, ao ouvir sua risada ruidosa e sentir a jovialidade dos olhares que lhe lançava, sentiu-se atraída por ele como que por uma janela para um mundo mais amplo e ensolarado. Joe lhe pareceu a personificação da liberdade.

Joyce conhecia as circunstâncias da vida de Joe, sua existência marginal, suas perspectivas limitadas. Sabia que poucas garotas se aproximariam de um rapaz como ele e que tampouco ela deveria fazê-lo. No entanto, quanto mais observava sua capacidade de lidar com as situações, sua força, sua criatividade, seu gosto por enfrentar desafios e resolver problemas práticos, mais o admirava. Com o tempo, passou também a compreender que Joe, assim como ela, vivia atormentado pela insegurança. Acima de tudo, sentia-se maravilhada e exultante com o fato simples e inegável de que ele parecia gostar dela do jeito que ela era, boa ou má. Pouco a pouco, Joyce resolveu que encontraria uma forma de compensar o tratamento que o mundo até então dispensara a Joe Rantz.

No verão de 1931, Joe recebeu uma carta de Fred, seu irmão, agora professor de química no colégio Roosevelt, em Seattle. Ele queria que Joe fosse para Seattle, morar com ele e Thelma e concluir o secundário no Roosevelt. Formando-se num colégio tão conceituado, dizia a carta, Joe talvez conseguisse entrar para a Universidade de Washington. A partir daí, tudo seria possível.

Joe ficou alerta. Desde que Fred o levara para Nezperce, quando ele tinha 5 anos, Joe o achava muito dominador, tão interessado em ajudá-lo quanto em dirigir a sua vida. Fred parecia achar que seu irmão mais novo era um tanto inepto e que ele precisava corrigi-lo, sob vários aspectos. E justo agora, quando começava a se estabilizar, a se achar capaz de tomar conta de si mesmo, Joe não estava seguro de querer que Fred, ou outra pessoa qualquer, fosse lhe dizer o que devia fazer. Tampouco estava seguro de que queria morar com a irmã gêmea de Thula. E jamais cogitara entrar para a universidade.

Este último aspecto da carta de Fred, no entanto, o fez balançar. Além de sempre ter sido um bom aluno, dotado de enorme curiosidade em relação a uma infinidade de temas, agradava-lhe a ideia de pôr à prova sua capacidade intelectual. Acima de tudo, sabia que Sequim dificilmente lhe mostraria o caminho para o futuro que começava a imaginar – uma família com Joyce Simdars. O problema era que, para chegar lá, teria que se afastar de Joyce, pelo menos por algum tempo.

Decidiu aceitar. Fechou a casa em Sequim, disse a Joyce que voltaria no fim do ano letivo, pegou a balsa para Seattle e foi morar com Fred e Thelma e estudar no Roosevelt. Foi uma estranha mudança: pela primeira vez até onde conseguia se lembrar, fazia três refeições diárias, e sua vida se resumia a ir à escola e se dedicar aos seus interesses. Mergulhou de cabeça em ambos. Suas notas o levaram rapidamente ao quadro de honra do colégio. Entrou para o coral e aproveitou a oportunidade para cantar, fazer teatro e compor. Juntou-se à equipe de ginástica masculina e, graças à força extraordinária de seus membros superiores, destacou-se nas argolas, na barra fixa e nas paralelas. Às vezes saía à noite com Fred e Thelma para ir ao centro da cidade comer em bons restaurantes, ver filmes de Hollywood e até assistir a musicais no teatro da Quinta Avenida. Levava uma vida de tranquilidade e privilégios, o que só fazia confirmar o sentido de suas reflexões – queria, de fato, algo mais do que Sequim poderia lhe oferecer.

Um dia, na primavera de 1932, Joe treinava na barra fixa do ginásio quando notou que, em pé, junto à porta, um sujeito alto, de terno cinza-escuro e chapéu, o observava com atenção. Minutos depois que o homem saiu, Fred entrou no ginásio e pediu a Joe que fosse até a porta.

“Entrou há pouco um sujeito na minha sala de aula para perguntar sobre você”, disse Fred. “Era da Universidade de Washington. Ele me deu isto e pediu que fosse procurá-lo quando passar para lá. Talvez tenha um lugar para um cara como você.”

E entregou a Joe um cartão, onde se lia:

ALVIN M. ULBRICKSON

DIRETOR TÉCNICO DE REMO

DEPARTAMENTO ATLÉTICO DA UNIVERSIDADE DE WASHINGTON

Joe examinou o cartão por um momento, foi até o armário e o guardou na carteira. Não custava experimentar. Remar não poderia ser mais difícil do que derrubar choupos.

No verão de 1932, Joe estava de volta a Sequim depois de se formar com louvor no Roosevelt. Se quisesse mesmo entrar para a universidade, teria que juntar dinheiro para as anuidades, os livros e o aluguel. Precisaria trabalhar um ano inteiro só para arcar com os custos do primeiro ano. Depois se preocuparia com o segundo, o terceiro e o quarto.

Sentia-se feliz por estar em casa. Como havia suspeitado, Fred guiara todos os seus passos durante a maior parte do ano que passara em Seattle. Tudo com a melhor das intenções, sem dúvida, mas sufocando-o com suas recomendações incessantes e conselhos sobre tudo – das aulas a que deveria assistir à maneira correta de dar o nó da gravata. Fred dava palpite até sobre as garotas do Roosevelt com quem Joe deveria sair. Insinuava que Joyce era uma garota da roça e que ele devia pensar mais alto: uma garota da cidade. E não era só. No decorrer daquele ano, Joe começara a suspeitar, e depois a acreditar, que Fred e Thelma sabiam exatamente onde estavam seu pai, sua madrasta e seus meios-irmãos, e que não era muito distante dali. Chegou a essa conclusão por meio de fragmentos de conversas ouvidas ao acaso, diálogos bruscamente interrompidos, olhares rapidamente desviados e sussurros ao telefone. Cogitou confrontá-los, mas reconsiderou: era melhor tirar aquele assunto da cabeça. A última coisa que queria saber era que seu pai estava por perto e não fazia nenhuma questão de vê-lo.

Em Sequim, Joe trabalhava o tempo todo. Considerou-se sortudo por ter conseguido uma vaga no recém-criado Departamento de Conservação da cidade, para trabalhar durante o verão, por 50 centavos de dólar a hora, no asfaltamento da nova rodovia Olympic. O dinheiro era suficiente; o trabalho, brutal. Passava oito horas por dia despejando asfalto fumegante de caminhões e aplainando-o para a passagem dos rolos compressores. O calor implacável do asfalto somava-se ao do sol, como se estivessem competindo para ver qual iria matá-lo primeiro. Nos fins de semana cortava feno com Harry Secor e cavava valas de irrigação para os agricultores locais. No inverno, voltou à floresta com Charlie McDonald para derrubar choupos, cortá-los, atrelá-los aos cavalos e tirá-los da floresta debaixo de neve e granizo.

Havia, no entanto, um prêmio de consolação. O ônibus escolar já não deixava Joyce obrigatoriamente em sua casa, em Happy Valley. Agora, quase todas as tardes, ela ficava na rua Silberhorn, à margem do rio, e saía floresta adentro à procura de Joe. Ao se encontrarem, ele a abraçava bem apertado, cheirando – como Joyce se lembraria 70 anos depois, em seu leito de morte – a suor, madeira molhada e vida silvestre.

Num dia radiante de fins de abril, ela correu até Joe como de costume. Ao se encontrarem, ele a pegou pela mão e a levou a uma pequena campina entre os choupos da margem sul do Dungeness. Pediu-lhe que se sentasse na relva e aguardasse um instante. Afastou-se, então, alguns metros, abaixou-se e começou a vasculhar meticulosamente o terreno. Joyce sabia o que Joe estava fazendo. Ele sempre tivera um incrível dom para encontrar trevos de quatro folhas, que gostava de presentear-lhe como prova de seu amor. O fato de encontrá-los com tanta facilidade a impressionava, mas ele sempre dizia que não era questão de sorte, mas de ter os olhos abertos. “Você só não vai achar um trevo de quatro folhas”, costumava dizer, “se parar de procurá-lo.” Ela adorava isso: resumia em poucas palavras o que mais gostava nele.

Joyce deitou-se na grama e fechou os olhos, desfrutando o calor do sol no rosto e nas pernas. Depois de um tempo, mais curto que o habitual, percebeu Joe se aproximando. Ela se sentou e sorriu. “Encontrei um”, ele disse, sorrindo também.

Ele mostrou-lhe o punho fechado e ela abriu a própria mão, para receber o trevo. Mas à medida que Joe ia abrindo o punho vagarosamente, o que surgia dentro dele não era um trevo, mas um anel de ouro com um diamante pequeno e delicado, brilhando ao sol precioso da primavera.

 

Calouros no Old Nero

CAPÍTULO 5

 

O remo é, talvez, o mais exigente de todos os esportes. Iniciada a prova, não há pedido de tempo nem direito a substituições. Os limites da resistência humana são colocados à prova. Cabe, pois, ao treinador transmitir os segredos daquele tipo especial de resistência que emana da mente, do coração e do corpo.

– George Yeoman Pocock

 

Nos últimos dias do outono de 1933, a temperatura média em Seattle caíra a pouco

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mais de 4 C durante o dia e -6 C durante a noite. Do céu permanentemente encoberto caía uma garoa incessante. Um vento cortante soprava do sudoeste, deixando a superfície do lago Washington encrespada. Em 22 de outubro, a ventania estragou vários letreiros de edifícios no centro da cidade e deixou casas flutuantes à deriva no lago Union. Trinta e três pessoas tiveram que ser resgatadas de barcos de passeio atingidos pela tempestade no estuário de Puget.

Para os rapazes que ainda disputavam vagas na equipe de calouros, o tempo cada vez pior significava novas modalidades de sofrimento no Old Nero. A chuva caía sobre suas cabeças e seus ombros desprotegidos e, quando os remos batiam nas marolas, desagradáveis esguichos de água gelada eram lançados direto em seus olhos. As mãos ficavam tão entorpecidas que não dava para saber se a empunhadura do remo estava correta. Não sentiam as orelhas nem o nariz. A água do lago parecia sugar a energia e o calor de seus corpos mais depressa do que eles eram capazes de produzi-los. Seus músculos doloridos se contraíam em cãibras no momento em que paravam de movimentá-los.

Muitos desistiam. Em 30 de outubro, do grupo original de 175 candidatos a uma

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vaga no 1 e no 2 barco de calouros só restavam 80. Haveria um 3 e um 4 barcos, mas seus tripulantes dificilmente estariam em condições de competir na primavera, tampouco teriam chance de integrar a equipe da universidade. Tom Bolles decidiu que era hora de levar os melhores do Old Nero para os barcos de treinamento. Entre eles estavam Joe Rantz e Roger Morris.

Os barcos de treinamento eram muito parecidos com os tão almejados barcos de corrida, porém com alguns centímetros a mais na largura, fundo mais achatado e quilha. Apesar de consideravelmente mais estáveis que os de corrida, estes eram barcos excêntricos, propensos a emborcar e difíceis de manobrar. Para os candidatos, era um recomeço: teriam que aprender um conjunto de novas técnicas só para permanecerem aprumados sobre a água. De todo modo, trocar o Old Nero por algo que se parecia com um barco de corrida era o bastante no momento – Joe quase explodiu de orgulho ao se sentar num deles e ajustar os finca-pés pela primeira vez.

Para Joe e Roger, passar aos barcos de treinamento era uma doce recompensa pelos sacrifícios a que vinham se submetendo desde o início das aulas. Roger caminhava 8 quilômetros por dia, ida e volta, entre a casa de seus pais em Fremont e a faculdade, e, à noite, cumpria suas tarefas domésticas e acadêmicas. Nas noites de sexta e sábado, tocava saxofone e clarinete numa orquestra de jazz a que se juntara ainda no secundário – The Blue Lyres – para pagar a anuidade e contribuir com o orçamento familiar. Nos fins de semana, ajudava na firma de mudanças da família – a Franklin Transfer Company –, transportando camas, sofás e pianos por toda a cidade. Com quase metade das hipotecas dos Estados Unidos inadimplentes e cerca de mil execuções diárias, naquele outono o trabalho era bastante deprimente: desmontar casas de famílias que haviam trabalhado a vida inteira para adquiri-las. Era comum ver homens de olhos vazios e mulheres chorando na porta de entrada enquanto Roger colocava seus últimos pertences no caminhão e saía, não para outra casa, mas para o leiloeiro mais próximo. Toda vez que isso acontecia, ele sussurrava uma prece por sua família ter conseguido escapar desse infortúnio até ali. Tiveram que abrir mão da segurança e do conforto típicos da vida de classe média para trabalhar duas vezes mais de modo a ganhar cada centavo. Mas pelo menos não perderam a própria casa, como tantos outros.

Roger era um cara curioso. Não tinha papas na língua e falava de um modo brusco, quase grosseiro. Apesar de sua pouca sociabilidade, às vezes Joe se sentava ao lado dele no refeitório. Trocavam frases esporádicas, quase sempre sobre as aulas de engenharia. Em geral, comiam em silêncio. Um fio tênue, quase imperceptível, de afeição e respeito parecia ligá-los, algo que Joe não sentia em relação aos demais colegas do remo. Embora a maioria dos arrumadinhos já tivesse saído de cena, Joe ainda se sentia o patinho feio do grupo. Aparecia todos os dias com o mesmo suéter surrado, o único que tinha, alvo de comentários sarcásticos no vestiário: “E aí, trabalhador?”, implicavam os rapazes. “Como vai a vida na Hooverville?”

“Tentando pegar traça com essa coisa, Rantz?” Joe passou, então, a chegar cedo para trocar de roupa antes dos outros.

Toda tarde ele saía apressado da aula para o treino. De lá corria para a loja de artigos esportivos da universidade, onde trabalhava até a meia-noite. Depois tinha que subir a avenida University, sob chuva e escuridão, para chegar à Associação Cristã de Moços, onde trabalhava como zelador em troca de um quartinho onde mal cabiam uma cama e uma escrivaninha – um dos muitos cômodos resultantes da conversão de um antigo depósito de carvão no subsolo. Escuros e úmidos, eles abrigavam um eclético grupo de estudantes de ambos os sexos, entre os quais uma jovem e estonteante aluna de teatro chamada Frances Farmer, que em menos de dois anos estaria sendo vista por todos os outros nas telas dos cinemas. Mas não havia um autêntico convívio entre os habitantes do subsolo. Para Joe, seu quarto era pouco mais do que um cantinho onde se recolhia para fazer suas tarefas acadêmicas e esticar sua carcaça dolorida por algumas horas antes das aulas matinais. Nada que pudesse chamar de lar.

No entanto, por mais estafante que fosse para Joe aquele outono de 1933, nem tudo era trabalho e solidão. Joyce estava por perto, e isso era um consolo.

Ela fora a Seattle para ficar perto de Joe, mas também em busca de seus próprios sonhos. Seu excelente desempenho no secundário a pusera numa trajetória distinta da maioria de suas colegas de escola de Sequim. Embora não aspirasse a uma carreira fora de casa – queria formar uma família e ser uma boa mãe –, não tinha a menor intenção de viver uma rotina como a de sua mãe, em que as tarefas domésticas definiam e limitavam seu horizonte e sua visão de mundo. Queria uma vida intelectualmente rica, para a qual a universidade era a porta de entrada.

Ironicamente, porém, o único caminho que havia até seu objetivo passava por mais trabalho doméstico. Naquele mês de setembro, Joyce desceu da balsa no centro de Seattle, precisando desesperadamente de um lugar para morar e de dinheiro para pagar a anuidade, a alimentação e os livros. Depois de se matricular, passou uma curta temporada na casa de sua tia Laura. Naqueles tempos difíceis, uma boca a mais para alimentar era um peso considerável no já combalido orçamento da tia. Por isso, nas duas semanas seguintes acordou bem cedinho todos os dias para estudar as poucas ofertas de emprego que saíam nas páginas do Seattle Post-Intelligencer. Às vezes não passavam de meia dúzia, ao lado de longas colunas de anúncios de gente se oferecendo para trabalhar.

Tudo que Joyce podia oferecer aos empregadores (além de uma mente brilhante) era sua competência nos serviços de que menos gostava: limpar e cozinhar. Concentrou-se, pois, nos anúncios de serviço doméstico. Sempre que aparecia um, vestia sua roupa de domingo e, para economizar o dinheiro da passagem, caminhava quilômetros até o elegante bairro de Laurelhurst, a leste do campus, ou subia a pé as íngremes ladeiras que levavam a Capitol Hill, um bairro de ruas sombreadas e silenciosas e residências vitorianas imponentes. Na maioria das vezes, era recebida por mulheres esnobes, da elite da cidade, que a levavam às suas sóbrias salas de estar para fazê-la sentar-se em sofás enfeitados e lhe pedir referências e provas de sua experiência de trabalho – tudo que Joyce não tinha para lhes dar.

Numa tarde quente em Laurelhurst, depois de várias entrevistas desanimadoras, Joyce decidiu ir de porta em porta. As casas, ali, eram grandes e elegantes. Podia ser que alguma estivesse precisando de ajuda e não tivesse tido tempo de publicar um anúncio. Sentindo dores nos pés inchados e artríticos, suando a ponto de estragar o penteado, andou pelas ruas do bairro, de casa em casa, subindo longos acessos para bater, com toda a delicadeza, em suas formidáveis portas de entrada.

No fim do dia, um senhor idoso e de aspecto frágil – um eminente juiz local – veio à porta. Ouviu o que Joyce tinha a dizer, meneando a cabeça enquanto a examinava com atenção. Depois de um longo e estranho silêncio, ele disse, com voz áspera: “Volte amanhã de manhã e veremos se o uniforme da última empregada serve em você.”

Serviu. E, sem precisar de referências nem experiência, Joyce arranjou um emprego.

Agora, nas suas poucas horas de folga do fim de semana, ela e Joe iam de bonde ao centro da cidade para assistir a filmes de Charlie Chan ou Mae West por 40 centavos de dólar. Nas noites de sexta, dedicadas aos estudantes, não havia couvert artístico no Club Victor, o que significava poder dançar ao som da orquestra de Vic Meyers, um maestro local. Sábado era dia de futebol americano e toda partida acabava em dança no ginásio feminino. Eles iam a quase todas, com os 25 centavos do ingresso por conta de Joe. Mas dançar numa quadra de basquete ao som da orquestra da faculdade não era lá muito romântico – na verdade não muito mais do que no Chicken Coop, em Sequim. O que Joe mais queria, mas não podia, era levar Joyce aos lugares chiques que seus amigos frequentavam no centro da cidade, como o Trianon Ballroom, na Terceira Avenida com Wall Street, com seu imenso salão de madeira encerada para 5 mil pessoas, lustres deslumbrantes, paredes cor-de-rosa pintadas com cenas tropicais e palco coberto com uma concha prateada. Em lugares assim se dançava a noite toda ao som de músicos como Guy Lombardo e os Dorsey Brothers. Joyce jurava que não fazia questão, mas Joe sofria por não poder levá-la.

Em meados de novembro o campus fervilhava de agitação e expectativa com a aproximação dos jogos anuais contra a Universidade do Oregon. Como preâmbulo, disputou-se uma partida de futebol americano entre as equipes de calouros e de veteranos do remo. Massacrados, os calouros juraram se vingar na água.

Em 17 de novembro, o auge das festividades, uma tragédia lançou sua sombra sobre o campus. Um calouro chamado Willis Thompson, ao tentar acender uma fogueira numa reunião de estudantes, deixou cair gasolina na roupa, que se incendiou. Ele veio a falecer depois de uma semana de atrozes sofrimentos.

Outra sombra, agora absolutamente literal, desceu sobre o país naquele mesmo mês. Em 11 de novembro, depois de uma noite de ventania, os fazendeiros de Dakota do Norte e do Sul despertaram diante de algo nunca visto – o céu da manhã enegrecido pela terra que o vento levantara de seus próprios campos. A nuvem de poeira chegou a Chicago no dia seguinte e, poucos dias depois, ao norte do estado de Nova York, cujo céu ficou da cor de ferrugem. Mal sabiam os americanos que aquela tempestade, o primeiro “vento negro”, era apenas o prenúncio da Dust Bowl, o segundo ato da longa tragédia da década de 1930 e primeira metade da de 1940. Vendavais terríveis iriam destruir boa parte do solo arável das planícies. Subitamente privados de suas terras, suas casas, seus meios de subsistência, suas raízes e até sua confiança, centenas de milhares de retirantes sairiam vagando pelo continente, a maioria rumo ao Oeste em busca de empregos que, àquela altura, não existiam.

Sinais vindos da Alemanha prenunciavam a chegada do terceiro ato, o mais dramático da tragédia. Em 14 de outubro, Hitler abandonou abruptamente a Liga das Nações, suspendendo as conversações com a França e seus aliados sobre o desarmamento do país. Uma reviravolta profundamente preocupante que, na prática, revogava o Tratado de Versalhes e destruía as bases sobre as quais se assentava, desde 1919, a paz na Europa. Krupp – o lendário fabricante alemão de armas e munições – já começara a trabalhar secretamente numa encomenda inicial de 135 tanques Panzer I. No Panamá, observou-se um substancial aumento da quantidade de cargas de nitrato (usado na fabricação de munições) transitando pelo canal, entre o Chile e os Açores, com ordens de navegação ignoradas; rumo à Europa, mas com destino final desconhecido.

Naquele outono, americanos e estrangeiros de outras nacionalidades foram atacados por tropas de assalto em cidades alemãs por se recusarem a fazer saudações nazistas. Estados Unidos, Grã-Bretanha e Holanda alertaram Berlim para as “gravíssimas consequências” da repetição desses acontecimentos. No fim do outono, os relatos chegaram até mesmo à distante cidade de Seattle. O diretor da faculdade de engenharia da Universidade de Washington, Richard Tyler, que acabara de retornar da Alemanha, contou suas impressões num artigo no The Daily: “Hoje, o povo alemão tem medo de expressar suas opiniões sobre os assuntos mais triviais”, disse, acrescentando que qualquer opinião passível de ser interpretada como desabonadora do nazismo sujeitava seu autor a detenção e encarceramento sem direito a julgamento. Nem Tyler nem seus leitores sabiam, àquela altura, que os nazistas já haviam aprisionado milhares de dissidentes políticos num campo, inaugurado em março, nas redondezas da charmosa cidade medieval de Dachau.

Naquele outono, pouca gente nos Estados Unidos deu atenção ao relato de Tyler e a muitos outros, ainda mais sinistros, em especial de imigrantes judeus provenientes da Alemanha. Uma pesquisa de opinião entre os estudantes da Universidade de Washington para saber se os Estados Unidos deviam se aliar à França e à Grã-Bretanha contra a Alemanha mostrou um resultado parecido com o obtido em universidades espalhadas por todo ao país: 99% disseram “não”.

Na tarde de 28 de novembro, após os treinos do último dia do período letivo de outono, o treinador Tom Bolles pediu aos calouros que aguardassem na garagem de

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barcos para ouvir o anúncio dos selecionados para o 1 e o 2 barco. E se enfiou no gabinete de Al Ulbrickson.

Todos se entreolharam. Pelas vidraças embaçadas do cubículo que servia de escritório aos treinadores, os rapazes podiam ver Ulbrickson e Bolles debruçados sobre uma mesa estudando uma folha de papel. A garagem tinha o cheiro azedo de suor, mofo e meias úmidas característico da estação chuvosa. Os últimos raios de luz eram filtrados pelas janelas lá em cima e ocasionais rajadas de vento sacudiam as imensas portas de correr do salão principal. Enquanto os dois treinadores se demoravam no escritório, as brincadeiras e risadas típicas de fim de treino eram substituídas por um desconfortável silêncio. O único som era o das batidinhas provenientes do sótão, no fundo da sala, onde Pocock montava a estrutura de um novo barco.

Finalmente, Bolles saiu do escritório e subiu num banco com uma folha de papel na mão. Os rapazes fizeram um semicírculo ao seu redor.

Começou dizendo que aquela era uma seleção preliminar, que não apenas todos poderiam seguir competindo pelas vagas como ele os incentivava a fazê-lo e que ninguém se sentisse superior pelo fato de ter sido selecionado. Afirmou também que ninguém ali era insubstituível. E passou a ler os nomes, a começar pelos designados

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para o 2 barco – aqueles que fariam sombra aos supostos favoritos para o 1 barco de calouros.

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Quando Bolles terminou a leitura do 2 barco, Joe se virou para Roger, que olhava fixamente para o chão. Nenhum dos dois fora chamado. Mas a espera não

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foi longa. Bolles logo passou à leitura do 1 barco – proa, Roger Morris; posição dois, Shorty Hunt; posição três, Joe Rantz... Joe ouviu o restante da lista com o punho cerrado ao lado do corpo, num discreto gesto de exultação. Não queria comemorar de modo explícito na frente dos que haviam ficado de fora. Ao seu lado, Roger soltou a respiração, aliviado.

Enquanto os demais se encaminhavam para o chuveiro, os selecionados para a

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1 guarnição pegaram um barco de treino, suspenderam-no sobre as cabeças e levaram-no ao lago, já quase totalmente escuro, para uma remada comemorativa. Um vento leve, porém cortante, mexia a água. À luz tênue do pôr do sol, saíram remando na direção do Canal e da baía Portage, rumo ao lago Union, em busca de águas mais calmas do que as do vasto lago Washington.

A temperatura caíra abaixo de 4ºC. Na água, parecia ainda mais frio. Mas Joe nem se deu conta. Quando o barco entrou, deslizando suavemente, no lago Union, mal se ouvia o ruído do tráfego urbano. Era um mundo totalmente silencioso salvo pela voz do timoneiro comandando a cadência das remadas. O carrinho de Joe deslizava sobre os trilhos, num movimento constante para a frente e para trás. Seus braços e pernas iam e vinham naturalmente, relaxados. A pá branca de seu remo entrava na água fazendo um murmúrio quase inaudível.

No extremo norte do lago, o timoneiro gritou: “Escora!” Os rapazes puseram os longos remos a roçar na superfície e o barco foi parando devagar. Sobre suas cabeças, nuvens escuras contornadas pelo luar eram empurradas velozmente pelo vento. Ficaram todos em silêncio, a respiração pesada exalando baforadas brancas. Mesmo sem remar, sua respiração era sincronizada. Por um breve e frágil instante, Joe teve a impressão de que eram todos parte de uma coisa só, algo vivo, com alma própria. A oeste, faróis prateados passavam lentamente pelo arco estaiado de aço da ponte Aurora. Ao sul, as luzes cor de âmbar do centro de Seattle dançavam sobre as ondas. No alto de Queen Anne Hill, tremeluziam as luzes rubi das torres de rádio. Joe admirava a cena tomando longos sorvos de ar gelado, vendo tudo aquilo se transformar num borrão de cores desbotadas enquanto – pela primeira vez desde que sua família o deixara – seus olhos se enchiam de lágrimas.

Com o rosto virado de lado, Joe começou a remexer na forqueta de modo que os outros não o vissem. Não sabia de onde vinham essas lágrimas, nem o que significavam, mas algo dentro dele mudara, pelo menos por uns instantes.

Recobrado o fôlego, os rapazes ficaram conversando tranquilamente, sem piadas nem brincadeiras para variar. Falavam baixinho sobre as luzes da cidade e tudo mais que tinham diante de si. Então o timoneiro gritou: “Todos prontos!” Joe se virou para a popa, deslizou o carrinho à frente, deixou a pá branca do remo alcançar a água escura como petróleo, retesou os músculos e esperou o comando que o impeliria para dentro da escuridão bruxuleante.

No dia 2 de dezembro de 1933, começou a chover em Seattle como nunca antes e nunca desde então. Nos 30 dias que se seguiram, houve um único dia sem céu carregado de nuvens e apenas quatro sem precipitação. No fim do mês, os pluviômetros da Universidade de Washington registraram 362mm de chuva. Os do centro da cidade registraram 390mm, até hoje o recorde absoluto para qualquer mês do ano. Alguns dias eram de chuva fraca; outros, de temporal. De um jeito ou de outro, a chuva não cessava.

Em toda a parte ocidental do estado de Washington, os rios – Chehalis, Snoqualmie, Duwamish, Skykomish, Stillaguamish, Skokomish, Snohomish – transbordaram arrastando consigo inúmeras residências rurais. Milhões de toneladas de solo superficial foram levados para o estuário de Puget e vários distritos comerciais de comunidades ribeirinhas da fronteira canadense ficaram totalmente inundados. Ao norte de Seattle, o aumento do nível do rio Skagit rompeu vários diques nas proximidades de sua foz espalhando torrentes de água salgada por mais de 8 mil hectares das terras agricultáveis mais férteis do estado.

Em vários dos mais belos bairros altos de Seattle, como Alki, Madrona e Magnolia, casas deslizaram encosta abaixo e caíram no lago Washington e no estuário de Puget. Estradas se romperam e seguiram as casas rio abaixo. No centro da cidade, a água da chuva fez o esgoto transbordar pelos bueiros e inundar as ruas e áreas comerciais mais baixas do International District. Nas áreas miseráveis às margens da baía Elliott, a chuva incessante se infiltrou no tecido das habitações improvisadas, atravessou as coberturas metálicas enferrujadas dos barracos e dissolveu os chumaços de jornal amassado que vedavam suas paredes, enlameando o chão e encharcando de água gelada os velhos colchões usados pelos moradores.

Em meio a tantas desgraças, Joyce tirou alguns dias de folga no emprego assim que as provas do outono terminaram e foi com Joe a Sequim para o feriado de Natal. Joe foi ver sua casa na rua Silberhorn, fez uma visita aos McDonald, mas ficou hospedado na casa dos pais de Joyce. Depois de devidamente instalado no sótão, a mãe de Joyce fez questão de lhe mostrar um recorte de um jornal local com

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a seguinte manchete: “Joe Rantz na 1 guarnição”. Ele agora era o assunto da cidade, disse-lhe ela.