Meninos de Ouro

Daniel James Brown · Capítulo 3 de 10 · parte 3/3

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Meninos de Ouro

Segunda parte – 1934 – Resiliência

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Charlie conduziu Joe por entre tocos e troncos caídos, ensinando-o a decifrar o que havia por debaixo da casca. Rolava os troncos com um gancho e batia neles com a parte de trás da machadinha para sentir, pelo som, sua solidez; alisava-os com as mãos em busca de nós ocultos e irregularidades; e se agachava nas extremidades cortadas para examinar os anéis de crescimento e obter uma noção de quão compacta e regular seria a grã da madeira. Joe ficou fascinado com o fato de conseguir enxergar na madeira o que os outros não conseguiam ver; empolgado, mais uma vez, com a ideia de que as coisas que os outros ignoravam e deixavam para trás podiam ter algum valor. Quando Charlie encontrou um tronco que lhe pareceu adequado e explicou a Joe por que tinha chegado a essa conclusão, cortaram-no com uma serra horizontal em pedaços de 60 centímetros –; o tamanho de uma telha –; e puseram-nos na carroça.

Mais tarde, Charlie ensinou Joe a perceber as sutis indicações de forma, textura e cor que lhe permitiam dividir a madeira em boas telhas e a ver pontos ocultos de fragilidade e resistência. Mostrou também ao jovem como partir uma tora em quartos perfeitos com um malho e cunhas de ferro; como usar o martelo de madeira para bater na enxó de lenhador – uma lâmina reta com um longo cabo perpendicular, a principal ferramenta do fazedor de telhas de madeira – no sentido transversal ao da grã; como inserir a enxó uniformemente em todo o comprimento da peça; como escutar a madeira quando ela começava a “responder” à separação das fibras dizendo-lhe, com estalidos, que estavam prontas para se dividirem ao longo do plano pretendido; como torcer decisivamente a enxó na madeira, no momento certo, para soltar a placa, limpa e elegante, de cara lisa e suavemente afunilada de um lado ao outro, pronta para ser aplicada a um telhado.

Em poucos dias Joe adquiriu o domínio da enxó e do malho e já era capaz de avaliar uma tora e parti-la em telhas com quase a mesma perícia e a mesma rapidez de Charlie. Um ano de remo lhe dera uma força prodigiosa nos braços e ombros, permitindo-lhe cortar peças de cedro com a eficiência de uma máquina. Uma pequena montanha de telhas já se acumulava ao lado do celeiro de McDonald. Orgulhoso de sua nova habilidade, Joe descobriu que o trabalho de moldar o cedro se harmonizava com ele de um modo indefinível mas elementar: satisfazia o fundo da sua alma e dava-lhe paz. Em parte era o mesmo velho prazer que sempre tivera de dominar novas ferramentas e resolver problemas práticos – descobrir os ângulos e planos em que o cedro se partiria ou não com perfeição; em parte era a natureza profundamente sensual da tarefa. Joe gostava de ouvir os sussurros da madeira antes de se partir, quase como se estivesse viva; e quando ela finalmente cedia às suas mãos era como se se desnudasse inteira em maravilhosos e imprevisíveis tons de laranja, creme e bordô. E no exato momento em que se abria, a madeira enchia o ar com seu perfume. O aroma doce e picante que emanava do cedro recém-partido era o mesmo da garagem de barcos da Universidade quando Pocock estava trabalhando no sótão. Havia uma fascinante conexão entre o que Joe fazia agora no meio de uma pilha de telhas recém-cortadas, o que Pocock fazia rotineiramente em sua oficina e o que ele próprio tentava realizar nos barcos de Pocock – algo a ver com a aplicação deliberada da força, a coordenação cuidadosa da mente e dos músculos e a súbita revelação do mistério e da beleza.

Joe se reapresentou na garagem em 5 de outubro de 1934. Era uma tarde radiante, muito parecida com aquela de quando estivera lá pela primeira vez, como calouro,

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no outono anterior. A temperatura girava em torno dos 21 C e o sol brilhava nas águas do Canal exatamente como naquela ocasião. Só uma coisa havia mudado: a prolongada seca do verão baixara drasticamente o nível do lago, expondo suas margens barrentas e deixando o cais flutuante alto e seco – numa palavra, inútil. Por algum tempo, pelo menos, os rapazes seriam obrigados a descer com os barcos até a margem e entrar na água.

Mas o que mais havia mudado era a atitude do grupo com quem Joe remara ao longo de todo o ano anterior. Era indisfarçável a altivez com que todos agora circulavam pela garagem, de calção e camiseta, ajudando Tom Bolles a registrar os novos calouros. Afinal, eram os campeões nacionais de sua categoria. E, como segundanistas, agora era sua vez de ficar de braços cruzados na porta da garagem se divertindo com o nervosismo dos calouros na fila da primeira pesagem; os novatos tentavam tirar os remos dos suportes sem esbarrar uns nos outros e subiam desajeitadamente a bordo do Old Nero.

Para além do troféu que haviam trazido de Poughkeepsie, Joe e seus companheiros segundanistas tinham boas razões para estar confiantes e otimistas a respeito da temporada que se iniciava. No período de aulas, Al Ulbrickson fazia questão de desestimular entre seus pupilos a leitura das páginas esportivas dos jornais. Nada se ganhava, e muito se podia perder, dando-se trela às especulações diárias de Royal Brougham e George Varnell no Post-Intelligencer e no Seattle Times. Mas ele não tinha como impedir que os rapazes lessem os jornais durante as férias. Na manhã seguinte à regata de Poughkeepsie, em junho, Varnell disse o que muita gente de Seattle pensou ao ouvir a corrida pelo rádio: “Esses calouros de Washington são uma potencial guarnição olímpica para 1936.” Especulou-se também durante o verão que, de modo a prepará-los para uma candidatura olímpica, Al Ulbrickson

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faria bem em lhes dar o status de 1 barco da Universidade ainda este ano,

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atropelando a 1 e 2 guarnições remanescentes – uma ideia altamente improvável, mas que já ganhara o domínio público e era discutida, à boca pequena, entre os próprios segundanistas.

A verdade, por outro lado, é que essa sugestão já se alojara em algum canto da mente de Al Ulbrickson. Várias considerações a favoreciam. Em primeiro lugar, a incrível facilidade com que os calouros haviam vencido a corrida de Poughkeepsie em junho; depois, o fato de constituírem um grupo excepcionalmente forte e atlético,

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com média de 86 quilos, mais encorpados e musculosos do que os meninos da 1 e

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da 2 guarnição – o que significava um enorme potencial de energia bruta no barco. Sua mecânica era cheia de defeitos técnicos, mas nada que não pudesse ser corrigido. O caráter era importante, e isso não lhes faltava: eram impetuosos, honestos e estavam acostumados ao trabalho duro; e ainda jovens o bastante para serem moldados. E, o mais importante de tudo, nenhum deles estaria formado antes do verão olímpico de 1936.

Ulbrickson não tinha, é claro, a menor intenção de colocá-los a par dessas reflexões. Tudo que ele não queria era ver seus novos campeões de salto alto, achando que por terem vencido as duas milhas para calouros em junho venceriam também as 4 milhas para primeiras guarnições no ano seguinte. A história, agora, era outra – o dobro do tempo e, sob vários aspectos, muito mais do que o dobro da dificuldade. Era preciso, desde já, tratar de melhorar a capacidade atlética, desenvolver a disciplina mental e aprender a botar e tirar o remo da água sem levar metade do lago Washington para dentro do barco. Eles eram bons, mas ainda verdes. Para se tornar o que Ulbrickson esperava que se tornassem, cada um teria que desenvolver – e manter em equilíbrio – aquela rara mescla de ego e humildade que distingue os grandes remadores. Por ora, o que se via na garagem era algo bem diferente: muito ego e pouca humildade.

O ano anterior estivera basicamente a cargo de Tom Bolles. Agora, fossem como

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2 ou como 1 guarnição, os rapazes ficariam sob o comando de Ulbrickson. Bolles o aconselhara a acompanhar de perto dois deles. Um era George Hunt, da posição dois, o caçula do barco com 17 anos e 1,91 metro de altura, apelidado de “Shorty” – baixinho. Absolutamente indispensável e muito esforçado, porém tenso e nervoso, era um sujeito que às vezes tinha que ser tratado com luvas de pelica, como um cavalo de corrida.

O outro era Joe Rantz, da posição três, o louro de cabelo à escovinha que Ulbrickson descobrira, dois anos antes, no ginásio do Roosevelt. Bastava olhar para ele para saber que era mais pobre que rato de igreja. Mas Bolles garantiu que Rantz era capaz de remar mais forte e por mais tempo do que qualquer outro no barco – quando estava a fim. O problema era que nem sempre estava. Sua temporada de primavera fora muito irregular – um dia bom, outro ruim. Por querer fazer tudo à sua maneira, ganhara o apelido de “Sr. Individualidade”. Era fisicamente robusto, independente, simpático e sabia que tinha boa aparência, mas era estranhamente sensível. Parecia ter vulnerabilidades ocultas, pontos fracos que não podiam ser mencionados caso se quisesse obter dele alguma coisa, embora ninguém, nem mesmo seus companheiros, fizesse a menor ideia de quais fossem, de onde tinham vindo e nem se valia a pena aturá-los. E Al Ulbrickson não era de perder tempo tentando descobrir os pontos sensíveis de um garoto melindroso.

O treinador pegou o megafone, mandou os segundanistas se reunirem na rampa e se posicionou um pouco acima para ficar mais alto do que eles. Ulbrickson dava valor a esse tipo de coisa. Para comandar todos aqueles marmanjos, nem tão mais jovens do que ele e, em muitos casos, igualmente voluntariosos, precisava usar todas as circunstâncias a seu favor. Ajeitou a gravata, tirou a chave Phi Beta Kappa do bolso do colete e começou a girá-la no ar, como sempre fazia nessas ocasiões. Fixou o olhar num ponto acima da cabeça de todos por um momento, sem dizer nada, esperando que se calassem. E então, sem nenhum preâmbulo, começou a lhes dizer como ia ser.

“Não quero ninguém aqui comendo frituras”, decretou. “Nem qualquer outro tipo de porcaria. Vocês têm que comer é muita verdura. Precisam comer comida saudável e nutritiva, como a que a mãe de vocês faz em casa todo dia. Quero todo mundo deitado às 10 da noite e de pé pontualmente às 7 da manhã. Não quero ninguém fumando, não quero ninguém bebendo, não quero ninguém mascando tabaco. E essas regras valem para o ano inteiro, enquanto estiverem remando comigo. Não se pode passar seis meses maltratando o corpo e querer remar nos outros seis. Vocês devem se cuidar o ano inteiro. E não quero boca suja na garagem nem em nenhum outro lugar ao alcance dos meus ouvidos. Quero todo mundo estudando com afinco e tirando boas notas. Não quero que ninguém decepcione os pais ou os colegas de guarnição. Agora, vão remar.”

O esforço de Ulbrickson para baixar a bola dos segundanistas teve resultados contraditórios. Duas semanas mais tarde ele tomou uma decisão que, por mais que tentasse disfarçar, revelava o tamanho da sua confiança no grupo. Na escalação preliminar para a nova temporada escrita na lousa da garagem, todos notaram que

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quatro das cinco guarnições candidatas ao 1 barco eram, como de costume, formadas por uma mescla de rapazes das diferentes categorias do ano anterior:

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alguns do 2 barco de calouros, alguns das duas guarnições de aspirantes ao 1

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barco e alguns do próprio 1 barco. Só um barco permanecera intacto: o de Joe, o 1 de calouros. De início, pelo menos, os segundanistas permaneceriam exatamente onde estavam em junho, quando sua vitória fora saudada pelas salvas disparadas da ponte rodoviária de Poughkeepsie: George Lund na proa, Shorty Hunt na posição dois, Joe Rantz na três, Chuck Hartman na quatro, Delos Schoch na cinco, Bob Green na seis, Roger Morris na sete, Bud Schacht na voga e George Morry de timoneiro. A escalação do barco era uma evidência palpável e inegável de que as especulações a respeito dos segundanistas tinham fundamento – eles eram de fato especiais e Ulbrickson confiava muito neles como unidade. Mas para que ninguém, especialmente os próprios segundanistas, tirasse conclusões precipitadas, Ulbrickson colocou a guarnição de Joe numa posição da lista muito distante daquelas que

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indicavam um status elevado dentro da equipe: não era o 1 nem o 2 , era o 5 barco, o grau mais baixo da escala, último lugar onde se esperava encontrar sérios

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candidatos ao 1 barco da Universidade para a primavera seguinte.

Os rapazes não sabiam como interpretar essa ambiguidade. Embora não fossem particularmente íntimos, sentiam-se felizes por continuar remando juntos – até porque o faziam muito bem. Mas em face do título conquistado, sentiram aquilo como um injustificado rebaixamento. A atitude do novo treinador os intimidou a ponto de acabar com a pose deles. Estava claro que Ulbrickson era mais durão do que Bolles e que esta temporada seria muito mais difícil do que a anterior.

A temporada de outono começou. Joe, em particular, se esforçava para manter o ânimo, e não apenas por causa do status do barco, da dureza dos treinos e dos inevitáveis dias de chuva e frio que sabia ter pela frente. Mas por causa de seus problemas pessoais. Mesmo tendo trabalhado o verão inteiro, tinha ainda menos dinheiro do que no ano anterior. Uma simples sessão de cinema no sábado à noite agora lhe parecia uma extravagância. Seu namoro com Joyce se resumia a encontros na lanchonete para comer bolachas com “sopa de tomate” feita de ketchup com água quente. O anel de diamante no dedo de Joyce era um conforto para os dois, mas Joe às vezes se perguntava se seria capaz de cumprir as promessas que ele representava.

Questões familiares também o consumiam. Joe resolvera, finalmente, perguntar ao irmão Fred onde estava seu pai, e ele, depois de muitas evasivas, disse que Harry, Thula e seus filhos estavam morando ali mesmo em Seattle. Haviam estado lá o tempo todo, desde a fatídica noite de 1929 em que foram embora abandonando Joe em Sequim.

Primeiro eles se mudaram para um casebre caindo aos pedaços à beira do lago, numa Hooverville. Não chegava a ser um barraco, mas não era muito melhor. A casa tinha apenas dois cômodos, um com um vaso sanitário e uma pia que servia de banheiro e cozinha, outro com um fogão a lenha num canto que servia de sala e quarto para os seis. À noite, os caminhões passavam roncando a centímetros da porta da frente enquanto prostitutas e malandros vadiavam sob a luz da rua. Os ratos frequentavam os cantos dos dois cômodos. Harry fora para Seattle em busca de trabalho, mas agora vivia com o auxílio do governo.

Não ficaram muito tempo no casebre, mas o lugar para onde foram era só um pouquinho melhor – uma casa antiga em Phinney Ridge, a oeste do lago Green, que fora construída em 1885 e não tivera reparo nem melhoria desde então. Tinha uma tomada elétrica e uma estufa, que de pouco ou nada lhes servia por não terem dinheiro para a lenha. Pendurada no morro, era continuamente fustigada pelas rajadas do vento gelado que soprava do Ártico sobre a cidade. Thula, desesperada para aquecer a casa e pôr alguma comida na mesa, começou a frequentar as cantinas populares e a cooperativa local da Liga dos Cidadãos Desempregados, uma organização criada pelos socialistas do bairro para distribuir alimentos e lenha aos indigentes. Seus membros se dedicavam a recolher restos de produtos agrícolas dos campos do leste de Washington e lenha das Cascatas e levá-los para Seattle. Mas as opções da cooperativa eram escassas. A maior parte das refeições que Thula conseguia oferecer aos seus filhos consistia de ensopados de nabo, repolho, batata e carne picada. Como raramente havia lenha para o fogão, ela cozinhava sobre o ferro de passar roupa virado ao contrário.

O pai de Thula falecera em 1926, mas sua mãe morava numa casa grande poucos quarteirões morro abaixo, depois da avenida Aurora, perto do lago Green. Mary LaFollette, que nunca se entusiasmara com o casamento de Thula, agora fazia questão de deixar clara sua insatisfação com Harry e o rumo que as coisas haviam tomado. Sua ajuda à família se resumia a deixar que a filha levasse as crianças todo domingo de manhã à casa dela para tomar mingau. E só. Uma tigela de mingau por semana e nada mais. O ritual parecia concebido para enviar uma mensagem. Oitenta anos depois, a voz de Harry Jr. ainda falhava ao se lembrar: “Uma tigela. Uma vez por semana. Eu não conseguia entender.” Mas Thula, sim. Mandou o marido sair de casa e só voltar quando arranjasse um emprego. Harry foi para Los Angeles e retornou seis meses depois, com uma motocicleta, mas desempregado.

Depois de um novo ultimato, Harry finalmente conseguiu um emprego de mecânico-chefe na queijaria e padaria Golden Rule, em Fremont. A Golden Rule era tão ferozmente contra o sindicato que, nos anos seguintes, viu-se no centro de uma grande rixa trabalhista e um boicote de toda a cidade. Em consequência, os salários eram baixos. Mas eram salários, e Harry não estava em condições de barganhar. Mudou-se, então, com a família para uma casa pequena, mas decente, na esquina da rua 39 com a Bagley, não muito longe da padaria e do extremo norte do lago Union, onde Joe remava quase toda tarde. Foi lá que Joe os encontrou no outono de 1934, depois de conseguir, enfim, que Fred lhe desse o endereço.

Não foi propriamente um encontro. Joe e Joyce pegaram o Franklin e foram até a casa certa tarde. Estacionaram na Bagley, respiraram fundo e subiram de mãos dadas um lance de escadas de concreto até a varanda. Dava para ouvir que alguém tocava violino dentro de casa. Joe bateu na porta holandesa amarela e o violino emudeceu. Uma sombra se moveu atrás das cortinas de renda da parte superior da porta. Passado um momento de hesitação, Thula abriu a porta até a metade.

Não pareceu particularmente surpresa de vê-los. Joe ficou com a impressão de que ela esperava por isso havia muito. Thula olhou para Joyce, fez um gesto amistoso com a cabeça, mas não os convidou a entrar. Houve um longo momento de silêncio. Ninguém sabia o que dizer. Joe viu em Thula um misto de infelicidade e cansaço. Aparentava muito mais do que seus 36 anos. Tinha o rosto pálido e tenso, e os olhos um tanto encovados.

Foi Joe quem quebrou o silêncio.

– Olá, Thula. Viemos ver como vocês estão.

Thula olhou para ele com uma expressão velada, sem dizer nada. Depois falou, baixando os olhos:

– Estamos bem, Joe. Estamos bem agora. Como você está indo na faculdade?

– As coisas estão ótimas. Estou na equipe de remo.

– Sim, Fred nos disse isso. Seu pai está muito orgulhoso de você. Como estão seus pais, Joyce?

– Estão bem... – Joyce começou a responder. – Para falar a verdade, meu pai está bem doente. Ele trabalha demais.

– Sinto muito por isso – disse Thula.

Thula mantinha a porta apenas entreaberta, bloqueando a entrada com o próprio corpo. Joe percebera que ela falava olhando o tempo todo para baixo, como que examinando os próprios pés para encontrar neles a resposta para alguma coisa.

Finalmente, Joe perguntou:

– Podemos entrar por alguns minutos? Dar um oi para as crianças?

– Não, Joe. É melhor não. De qualquer forma, o seu pai está no trabalho e as crianças estão com os amigos.

– Podemos voltar outra hora para uma visita, então?

Thula pareceu de repente ter encontrado o que estava procurando. Ergueu os olhos abruptamente ao nível dos de Joe.

– Não – disse, agora com uma voz mais fria. – Vá cuidar da sua vida, Joe. Continue longe da nossa.

Dito isso, fechou a porta suavemente e deslizou a tranca para sua posição com um leve clique metálico.

Durante todo o trajeto de volta, a cabeça de Joyce fervia. Fazia anos que ela vinha tentando pacientemente desvendar a história dos pais de Joe e o que acontecera exatamente em Sequim e, antes disso, na Mina de Ouro e Rubi. Joe lhe falara muitas vezes sobre a morte de sua mãe e a longa e solitária viagem de trem à Pensilvânia. Ligando tudo, Joyce não conseguia entender como Thula podia ter sido tão insensível com um menino órfão de mãe nem como Harry podia ter aceitado isso tão passivamente. Mais que tudo, porém, a incomodava o fato de Joe não parecer guardar mágoa de tudo aquilo e continuar tentando agradar os dois como se nada tivesse acontecido. Quando Joe encostou no meio-fio para deixá-la no trabalho, na casa do juiz, ela explodiu:

– Por que você faz isso, Joe? Por que continua fingindo que eles não lhe fizeram nenhum mal? Eles o abandonaram, sozinho, sem nada. Que tipo de mulher faria uma coisa dessas? Que tipo de pai agiria assim? Como é possível você não estar irado com eles? Por que não exige que eles o deixem ver seus irmãos e suas irmãs? Por quê, Joe? Explique para mim.

Ela estava quase chorando quando terminou.

Ao olhar para Joe no banco ao lado pôde ver, por entre as lágrimas, que os olhos dele também estavam cheios de dor. Mas ele não olhava para ela. Mirava em frente, por sobre o volante, com a mandíbula travada.

– Você não entende – murmurou ele. – Eles não tinham outra escolha. Eram bocas demais para serem alimentadas.

Joyce ponderou um momento, depois disse:

– Eu só não entendo como você não sente raiva.

Joe continuva a olhar à frente pelo pára-brisa.

– A raiva consome a sua energia. Devora você por dentro. Não posso seguir em frente gastando a minha com isso. Quando eles foram embora, usei tudo o que tinha dentro de mim para sobreviver. Agora, preciso manter o foco. Tenho que cuidar de mim mesmo.

Joe se retirou para a vida da garagem. Apesar das brincadeiras dos rapazes com seu gosto para roupas e estilos musicais, e de só ficar realmente à vontade na companhia de Roger e Shorty, ali, pelo menos, ele se sentia conectado a um propósito. Os rituais do remo, seu jargão, os detalhes técnicos que vinha se esforçando para dominar, a expertise dos treinadores e até mesmo sua série de regras e proibições pareciam dar ao ambiente da garagem uma espécie de estabilidade e ordem que desde muito tempo parecia faltar ao mundo lá fora. Os brutais treinamentos vespertinos o deixavam exausto e dolorido, mas de alma leve e limpa, como se tivesse sido esfregada com uma escova bem dura.

Muito mais que o soturno cubículo no porão da Associação Cristã de Moços e até do que a casa eternamente inacabada de Sequim, a garagem se tornara para Joe uma espécie de lar. Ele gostava da luz se derramando pelas vidraças das enormes portas de correr, das pilhas de cascos polidos em seus suportes, do silvo do vapor nos aquecedores, do constante bater de portas dos armários, da mistura de cheiros de cedro, verniz e suor. Costumava demorar para ir embora depois dos treinos, cada vez mais fascinado pelo fundo da garagem e pelas escadas que levavam à oficina de Pocock. Não passava por sua cabeça subi-las sem ser convidado por medo de interromper o “Sr. Pocock”, como os rapazes invariavelmente o chamavam, com uma espécie de veneração. Não que Pocock a cultivasse – muito ao contrário. Ele costumava ficar no flutuante durante os preparativos para os treinos, mexendo na regulagem dos barcos, trocando ideias com os rapazes e dando conselhos e sugestões sobre este ou aquele ajuste nas remadas. Na verdade, por não ter mais do que o secundário, Pocock tendia a acreditar que era ele quem devia especial deferência aos universitários.

Mas a cultura de Pocock alcançava territórios muito além do seu nível de educação formal, como ficava logo evidente a todos que o conheciam. Suas leituras abarcavam uma ampla gama de temas, como religião, literatura, história e filosofia. Era capaz de citar Browning, Tennyson e Shakespeare de cor, sempre de maneira oportuna e apropriada, sem nenhuma presunção ou pedantismo. Era assim que, apesar de modesto, o vasto conhecimento e a suave eloquência de Pocock impunham respeito absoluto, principalmente quando estava na oficina exercendo seu ofício. Ninguém jamais o interrompia no trabalho.

Joe olhava para o alto da escada, admirado, mas continha sua curiosidade. Notara, porém, uma inusitada atividade na oficina naqueles dias. Em parte porque os programas de remo de todo o país haviam deixado de comprar equipamentos após a crise de 1929, em parte por causa dos recentes sucessos de Washington em Poughkeepsie com barcos de Pocock, as encomendas se multiplicaram naquele verão. Pocock tinha oito pedidos de oito com timoneiro na fila, alguns para escolas da elite do remo, como Academia Naval, Syracuse, Princeton e Pensilvânia. No início de setembro, ele se correspondeu com Ky Ebright, em Berkeley, num tom muito diferente do usado no ano anterior. Sem qualquer espírito de vingança, como convinha ao cavalheiro que era, mas visivelmente confiante, ele disse: “Se você tem intenção de comprar alguma coisa, meu caro, eu o aconselho a não esperar demais. Depois de dois anos terríveis os rapazes do Leste estão acordando para o fato de que vão precisar de equipamento. Isso significa que estaremos ocupados.” Quando Ebright respondeu questionando os preços, foi a vez de Pocock ser firme: “O preço de um oito com timoneiro é 1.150 dólares. Fique certo de uma coisa, Ky, eu me recuso a entrar na corrida pelo ‘oito com’ mais barato do país. Não posso construir todos, mas tenho bons motivos para crer que ainda construo os melhores.”

Na verdade, George Pocock já vinha construindo os melhores barcos, e por uma boa margem. E não os construía, apenas: os esculpia.

Visto por um lado, um barco de corrida é uma máquina com um propósito estritamente definido: permitir que um grupo de atletas se desloque sobre um espelho-d’água da maneira mais rápida e eficiente possível. Por outro, ele é uma obra de arte, expressão da insaciável fome de ideal, beleza, pureza e graça que caracterizam o espírito humano. Grande parte da genialidade de Pocock como construtor de barcos consistia em saber combinar seus inexcedíveis talentos de fabricante de máquinas e artista.

Pocock aprendeu seu ofício com o pai, no Eton, usando ferramentas manuais simples – serras, martelos, formões, plainas e lixadeiras. E continuou a usá-las mesmo depois que equipamentos elétricos mais modernos e eficientes chegaram ao mercado na década de 1930. Isso se devia à sua forte propensão a ser tradicional em tudo, à sua convicção de que as ferramentas manuais lhe propiciavam maior controle dos detalhes da obra e à sua aversão ao barulho produzido pelas máquinas. Habilidade artesanal exigia meditação, o que exigia silêncio. Mas o mais importante, sem dúvida, era seu desejo de alcançar maior intimidade com a madeira – sentir-lhe a vida com as mãos e transmitir ao barco algo de si mesmo, de seu orgulho e de seu afeto.

Antes de 1927 ele fabricava seus barcos exatamente como o pai lhe ensinara na Inglaterra. Primeiro construía sua delicada estrutura em freixo e abeto sobre um suporte metálico em “I” perfeitamente plano, de 18 metros de comprimento. Depois montava o casco com lâminas de cedro-espanhol cuidadosamente afixadas por meio de milhares de pregos e parafusos de latão cujas protuberâncias tinham que ser laboriosamente lixadas a mão antes da aplicação de camadas de verniz naútico. O ajuste e a fixação das lâminas eram particularmente trabalhosos e estressantes. Uma escapada do formão ou uma martelada imprecisa podia pôr a perder dias inteiros de trabalho.

Em 1927 ele introduziu um aperfeiçoamento que revolucionou a construção de barcos de corrida nos Estados Unidos. Ed Leader, sucessor de Hiram Conibear como treinador da equipe de Washington, vinha sugerindo a Pocock havia alguns anos fazer um barco de cedro-vermelho nativo, uma espécie de grande porte abundante no estado de Washington e na Colúmbia Britânica. O cedro-espanhol (Cedrela odorata, na verdade nem cedro nem espanhol, mas uma espécie sul-americana da família do mogno), além de caro, por ser importado da América do Sul, era também sabidamente frágil, obrigando a contínua manutenção da frota de barcos da Universidade. Pocock se interessou pela ideia. Conhecia desde muito a leveza e a durabilidade das antigas canoas indígenas de cedro que ainda se viam, de vez em quando, no estuário de Puget, mas fora dissuadido pelo treinador Rusty Callow, madeireiro em seus anos de juventude, que, como a maioria dos madeireiros, acreditava que o cedro só servia para revestir coberturas e paredes. Quando Pocock, seguindo o próprio instinto, começou finalmente a experimentar o cedro-vermelho em 1927, acabou surpreendido por suas inúmeras qualidades.

O cedro-vermelho é uma madeira prodigiosa. Sua baixa densidade a torna fácil de esculpir – com formão, plaina ou serra manual – e sua estrutura celular aberta lhe dá leveza e poder de flutuação – o que no remo significa velocidade. Sua grã compacta e uniforme lhe dá a resistência e a flexibilidade necessárias para curvá-la sem deformar, retorcer ou selar. Não guarda resina nem seiva, mas suas fibras contêm uma substância química chamada tujaplicina, um conservante natural altamente eficaz contra o apodrecimento, que lhe dá também um delicioso perfume. É bonita de ver, propicia um bom acabamento e pode ser polida até ficar brilhante, o que é essencial para se obter o fundo liso e livre de atrito que um bom barco de corrida precisa ter.

Em pouco tempo Pocock se tornou adepto do cedro-vermelho e passou a peregrinar pelo noroeste em busca da melhor madeira. Depois de longas viagens até as serrarias fumacentas da península Olympic e as florestas ainda virgens da Colúmbia Britânica, acabou encontrando o que buscava nos bosques nevoentos do lago Cowichan, na ilha de Vancouver – um cedro de grã compacta em toras longas e retas que lhe rendiam elegantes pranchas de 18 metros de comprimento por meio metro, ou mais, de largura. Dessas pranchas conseguia extrair pares idênticos de tábuas muito mais finas, delicadas folhas de cedro de 5/32” de espessura, uma o espelho da outra, com grã de igual padrão. Colocando esses pares exatos nos dois lados da quilha, obtinha uma simetria perfeita na aparência e no desempenho do barco.

Essas folhas de cedro flexíveis permitiram também que Pocock eliminasse a interminável tarefa de pregar as tábuas às cavernas. Ele agora prendia as folhas de madeira à estrutura do barco, cobria o conjunto com mantas pesadas e usava o vapor desviado do sistema de aquecimento da garagem para fazer com que o cedro cedesse, assumindo a curvatura imposta pela estrutura. Ao desligar o vapor e retirar as mantas três dias depois, as folhas de cedro estavam perfeitamente moldadas. Tudo o que tinha a fazer, então, era secá-las e colá-las à estrutrura. Era a mesma técnica que os povos indígenas da costa do Salish usaram durante séculos para moldar seus relicários de madeira. Os esbeltos barcos resultantes eram não apenas mais bonitos do que os de cedro-espanhol, mas também comprovadamente mais velozes. Harvard encomendou um dos primeiros a sair da oficina de Pocock a título de experiência e logo informou que ele baixara em vários segundos os melhores tempos de suas guarnições.

Depois que a película de cedro era aplicada ao barco, Pocock instalava os trilhos, os assentos, as braçadeiras, o leme e os acabamentos. Orgulhava-se de usar em seus produtos uma variedade de madeiras do Noroeste – sugar pine nas quilhas, ash na estrutura, abeto sitka nas bordas e assentos e cedro-amarelo do Alasca nas falcas. Este último era especialmente apreciado por mudar de cor com o passar do tempo, de marfim velho a mel, combinando com o vermelho lustroso do casco. Em seguida, estendia pedaços de seda sobre os castelos de popa e proa e os cobria com verniz. Depois do verniz seco e endurecido, formavam-se, nas duas extremidades do barco, superfícies amarelas translúcidas, belas e frágeis. Para terminar, dava acabamento ao casco de cedro polindo-o manualmente, horas a fio, com pó de pedra-pomes e trípoli, cobrindo-o com delicadas camadas de verniz náutico e polindo-o novamente, quantas vezes fossem necessárias, até ficar brilhante como água parada. Consumia quatro galões de verniz para obter o resultado desejado. Somente quando o barco cintilava a ponto de parecer ter vida própria e querer sair deslizando é que Pocock o declarava pronto para uso.

Havia mais uma coisa a respeito do cedro, uma espécie de segredo que Pocock descobriu por acidente tempos depois que os novos barcos já estavam em uso. Expostos à água, os barcos tendiam a ficar com as proas e popas sutilmente curvadas para cima, razão pela qual as pessoas começaram a chamá-los de “banana boats”. Meditando sobre esse efeito e suas consequências, Pocock acabou chegando a uma surpreendente conclusão: embora o cedro não expandisse ou dilatasse na transversal da grã da madeira quando molhado, portanto não se deformando, ele o fazia, sim, ligeiramente, na longitudinal da grã, podendo chegar a uma polegada de dilatação no sentido do comprimento do barco, 18 metros em se tratando de um oito com timoneiro. Como o cedro era afixado seco à estrutura do barco, mas molhava depois de ser regularmente utilizado, a madeira buscava se expandir ligeiramente no sentido do comprimento. Porém, já que a estrutura interior do barco, feita de freixo, continuava absolutamente seca e rígida, essa expansão era impedida. O revestimento de cedro, então, se comprimia, erguendo as extremidades e conferindo-lhe o que os construtores de barcos chamam de “arqueamento”. O resultado era que o barco inteiro ficava submetido a uma tensão sutil, porém constante, causada pela compressão insatisfeita do revestimento, como se fosse um arco esperando ser liberado. Isso dava ao barco um aspecto de coisa viva, uma tendência a saltar à frente na pegada que nenhum outro projeto ou material era capaz de imitar.

Para Pocock, essa infatigável elasticidade – essa propensão para retornar à origem, para se opor à resistência – era a magia do cedro, a força invisível que dava vida ao barco. E, no que lhe dizia respeito, um barco que não contivesse vida era indigno dos jovens que davam a alma para movê-lo sobre a água.

No fim de outubro, Ebright escreveu a Pocock. Queria encomendar um barco, mas que fosse especialmente projetado para ele – com menos arqueamento. Pocock ficou escandalizado. Depois de meses alegando que vinha recebendo equipamento de qualidade inferior, Ebright agora queria um barco menos veloz que os seus melhores, um barco indigno do seu talento como artesão. Pocock respondeu com uma longa e detalhada explicação técnica sobre seu projeto, propondo, no entanto, pequenas modificações destinadas a apaziguar Ebright sem comprometer a integridade do barco. Ebright retrucou com argumentos técnicos e arrematou: “Sei que você conhece como ninguém a arte de construir barcos, mas novas ideias talvez sejam proveitosas para todos nós (...). Desconfio de que não irá gostar do tom desta carta, George.” Pocock de fato não gostou, mas deixou para lá. Afinal, tinha encomendas de quase todas as grandes escolas de remo do país. Ebright que decidisse se iria ou não querer um barco.

Tempos depois, Ebright pediu um barco. Quando ficou pronto, Pocock recrutou oito rapazes para embarcá-lo no porto de Seattle pagando um dólar a cada um.

A guarnição saiu remando no próprio barco pelo Canal até o extremo sul do lago Union, onde o retiraram cuidadosamente da água, colocaram-no emborcado sobre suas cabeças – uma tartaruga de cedro de 16 pernas e mais de 18 metros de comprimento – e começaram uma curiosa jornada de quase 2,5 quilômetros pelo centro de Seattle. Cruzaram a rua Mercer e seguiram para o sul pela Westlake, mergulhando no trânsito do centro da cidade. Ainda com o barco sobre as cabeças, ninguém enxergava nada além dos próprios pés e das costas de quem ia à frente. Um timoneiro liderava o grupo acenando com as mãos para alertar os veículos e gritando instruções na linguagem do remo: “Escora!” “A bombordo!” “Acelera!” E lá iam eles, esquivando-se de bondes e ônibus, abrindo o ângulo para dobrar as esquinas, levantando o barco de vez em quando para enxergar o caminho. No distrito comercial da Quarta Avenida, as pessoas paravam nas calçadas e acorriam à entrada das lojas para vê-los passar, entre risos e aplausos. Viraram, finalmente, à direita na Colúmbia, desceram a ladeira, atravessaram apressadamente a via férrea e chegaram, sãos e salvos, ao porto, onde despacharam o barco para a Califórnia. Em breve iriam enfrentá-lo no estuário de Oakland.

A tensão na garagem de Washington aumentou naquele mês de outubro. Os

a

insistentes rumores de que, na primavera, os segundanistas seriam promovidos a 1 guarnição da universidade deixou todo mundo apreensivo. Al Ulbrickson mantinha silêncio sobre o assunto, como de hábito, mas os mais velhos intuíam que isso era por si só um mau sinal. Por que motivo ele não rebatia os boatos dizendo que os segundanistas teriam a sua vez no ano seguinte, como costumava acontecer? Já não havia, no vestiário nem durante a retirada e guarda dos remos, as brincadeiras e gozações de sempre. Em vez de gracejos inofensivos, olhares gelados. Na água, trocavam-se vaias quando os treinadores não podiam ouvir.

Mas não era só na garagem que o clima se deteriorava. Depois de alguns dias de garoa, na manhã de 21 de outubro as portas do inferno se abriram para lançar sobre Seattle um vendaval que fez o do outono anterior parecer uma brisa primaveril.

Este sinistro capítulo da série de eventos climáticos extremos que varreram o estado de Washington em meados da década de 1930 veio sem nenhum preâmbulo, surgiu do nada. Às 9 horas a cidade vivia uma típica manhã cinzenta de final de outono, com ventos fracos de sudeste – não mais de 8 quilômetros por hora – apenas suficientes para encrespar as águas do lago Washington. Uma hora depois, um vento constante de 80 quilômetros por hora começou a soprar do sudoeste. Ao meio-dia, rajadas de até 120 quilômetros varriam a superfície do lago Washington. Em Aberdeen, na costa do Pacífico, os ventos chegaram a 145 quilômetros por hora. A região de Seattle nunca vira vendaval semelhante.

No Píer 41, o transatlântico President Madison rompeu suas amarras e adernou sobre o vapor Harvester, afundando-o. Em Port Townsend, o pesqueiro Agnes afundou também, matando cinco pescadores de Seattle. Trinta passageiros tiveram que ser resgatados do Virginia V, um dos últimos barcos da histórica “frota mosquito” da cidade, que teve a sua superestrutura destruída num choque com o cais. No campo, telhados de celeiros e anexos inteiros foram arremessados no ar. Um hangar do Boeing Field – na época o principal aeroporto de Seattle – desabou, destruindo várias aeronaves. No hotel Alki, uma parede de alvenaria desmoronou matando um hóspede chinês em sua cama. Em uma Hooverville, telhados de zinco saíram voando e vários barracos desabaram deixando seus ocupantes atônitos entre os destroços. Homens famintos se juntaram diante da vitrine de uma padaria à espera de que ela desmoronasse para poderem pegar o pão fresco do outro lado. No campus da Universidade de Washington, claraboias do ginásio de basquete cederam, abetos gigantes tombaram e cinco setores de cadeiras temporárias do estádio de futebol foram levados pelo vento. A ventania durou seis horas e meia, quase ininterrupta, deixando um saldo de 18 mortos, milhões de metros cúbicos de madeira virgem no chão, milhões de dólares em danos materiais diversos e Seattle sem nenhuma comunicação com o mundo exterior.

Depois vieram as chuvas, como sempre. Não o dilúvio do ano anterior, mas mais dias de chuva do que sem chuva pelo resto do mês de outubro e todo o mês de novembro, além de uma quantidade incomum de ventanias menos potentes provenientes do Pacífico. Uma das poucas vantagens atribuídas às equipes de remo da Costa Oeste era a impossibilidade, no Leste, de se treinar ao ar livre durante o inverno, quando os rios congelavam. Os treinamentos eram feitos em tanques cobertos, pobres substitutos das autênticas raias. “É como estar sentado numa banheira com uma pá”, dizia um treinador. Já os rapazes de Washington, habituados às intempéries, tornavam-se cada vez mais resistentes e aptos a remar em águas agitadas. Mas não se podia remar se o barco afundasse – uma ameaça cada vez mais séria e constante naquele mês de novembro de 1934. Ulbrickson foi obrigado, por isso, a suspender os treinos durante dias a fio. Era exigente, mas não queria que ninguém se afogasse no lago Washington. Em meados de novembro, estava com duas semanas de atraso em seu cronograma.

A um mundo de distância naquele mesmo mês de novembro de 1934, no luxuoso estúdio de cinema Geyer-Werke, na Harzer Strasse, em Berlim, Leni Riefenstahl trabalhou dias e noites a fio em sua Lytax na montagem de 121 mil metros de material filmado no congresso do Partido Nazista em Nuremberg. De avental branco, passava até 16 horas diárias na mesa de edição, madrugada adentro, comendo quase nada, os olhos cansados porém atentos às milhares de tiras penduradas diante dos painéis luminosos que cobriam as paredes.

O filme que nasceria daquele processo extenuante, O triunfo da vontade, foi um marco da iconografia nazista. Até hoje é considerado um monumento à capacidade da propaganda de fomentar o poder absoluto e justificar o ódio irrestrito. Leni Riefenstahl seria celebrada por sua realização o resto da vida.

O congresso de Nuremberg de 1934 foi, em si mesmo, um hino ao poder, um evento cuidadosamente concebido para concentrá-lo e promovê-lo. A partir do momento em que Adolf Hitler desceu das nuvens em Nuremberg, em 4 de setembro, todos os seus movimentos, todas as suas imagens, cada palavra dita por ele e por seus asseclas foram cuidadosamente premeditados para reforçar a noção de que o Partido Nazista era não apenas invencível, mas o único objeto legítimo de fervor político e até religioso. E mais, de que a nova religião alemã estava totalmente incorporada à pessoa do líder, sua autêntica encarnação.

Os principais coreógrafos do congresso foram Albert Speer, arquiteto-chefe de Hitler e projetista do gigantesco set de filmagem em que se transformou Nuremberg; Joseph Goebbels, controlador do valor global de propaganda do evento – a “mensagem”, em linguagem moderna; e Leni Riefenstahl, cuja tarefa era filmar não apenas o comício, mas, ainda mais importante, o espírito que o presidia, amplificar sua mensagem e transmiti-la a um público muito mais amplo do que os 750 mil membros do partido reunidos em Nuremberg naquela semana.

Era uma aliança tensa, forçada, principalmente entre Leni e Goebbels. A crescente influência de Leni impunha a Goebbels o problema de entender como uma mulher podia desempenhar um papel tão importante quando ele nem sequer entendia por que a sua se opunha tão energicamente aos seus inúmeros casos extraconjugais.

Após a guerra, Leni disse que de início hesitara em fazer o filme, temendo a interferência de Goebbels e do seu poderoso Ministério da Propaganda. Na autobiografia escandalosamente revisionista que escreveu em causa própria, ela afirma que só concordou em fazer o filme depois que Hitler lhe prometeu manter Goebbels à distância, o que, aliás, ela mesma já fora obrigada a fazer no plano pessoal: ele estava tão fascinado por seus encantos e tão determinado a tê-la como amante que fora certa noite ao seu apartamento e se ajoelhara a seus pés implorando seus favores antes de ser enxotado porta afora. Goebbels nunca a teria perdoado por essa humilhação.

Apesar de tudo, e independentemente da veracidade da versão de Leni Riefenstahl sobre seu relacionamento com Goebbels, o congresso de 1934 e o filme de Riefenstahl fizeram grande sucesso. O triunfo da vontade foi tudo o que ela esperava dele e é ainda hoje considerado por muitos o mais bem-sucedido filme de propaganda de todos os tempos. Com uma equipe de 172 pessoas, entre as quais 18 cinegrafistas em uniformes da SA misturados à multidão, Leni filmou o evento de todos os ângulos possíveis, usando técnicas pioneiras – câmeras em carrinhos sobre trilhos, câmeras em plataformas móveis para tomadas aéreas dinâmicas, câmeras em buracos cavados no chão para tomadas de baixo para cima das grandes figuras nazistas. Tudo foi capturado: meio milhão de membros do partido perfeitamente uniformizados, ora em formações retangulares maciças ora marchando em passo de ganso; os discursos de Rudolf Hess, Goebbels e do próprio Hitler, socando o pódio e cuspindo saliva com os olhos em chamas; a arquitetura monumental de Speer, os edifícios que davam peso e solidez à ideia de força esmagadora, os vastos espaços abertos sugestivos de ambição ilimitada; o fantasmagórico desfile da SA na segunda noite, com seus rostos iluminados contra o negro da noite por tochas bruxuleantes, flashes de magnésio e fogueiras; as fileiras de camisas-negras da SS marchando em passo de ganso diante de Heinrich Himmler; e os enormes estandartes estampados com suásticas tremulando ao fundo de cada tomada. Quem quer que tenha gravada em sua mente alguma imagem do poder e da pompa nazista, decerto a recebeu, direta ou indiretamente, de O triunfo da vontade.

No entanto, as cenas mais hediondas do filme de Leni Riefenstahl talvez sejam as de aspecto mais inocente. Elas foram filmadas no terceiro dia do congresso, durante o discurso de Hitler às dezenas de milhares de jovens da Hitler-Jugend, a Juventude Hitlerista, e seu ramo iniciante, a Deutsches Jungvolk. O serviço na Juventude Hitlerista ainda não era obrigatório, portanto esses jovens eram autênticos adeptos, doutrinados com um feroz antissemitismo – garotos de 10 a 18 anos vestindo bermuda, camisa cáqui, lenço no pescoço e braçadeiras com suásticas, olhando para o mundo como bons escoteiros nazistas. Muitos estavam destinados a se tornar membros da SA e da SS.

No pódio, Hitler lhes falou em linguagem direta, com o braço erguido e o punho cerrado: “Queremos um povo obediente”, vociferou, “vocês devem praticar a obediência! Diante de nós está a Alemanha. Dentro de nós arde a Alemanha. Atrás de nós segue a Alemanha!” Enquanto isso, as câmeras de Leni se moviam lentamente entre os jovens enfileirados, com lentes em ângulo ligeiramente elevado sobre seus rostos. Uma suave brisa outonal despenteava-lhes os cabelos, quase todos louros. Seus olhos, iluminados pela confiança, brilhavam de fervor. Seus rostos eram tão encantadores, tão imaculados, tão perfeitos que até hoje, mesmo neste velho filme em preto e branco, quase se pode ver o rosado de suas bochechas. Contudo, muitos desses rostos eram de jovens que anos depois arrancariam crianças chorosas dos braços de suas mães para enviá-las a câmaras de gás; que mandariam mulheres polonesas se despir e se enfileirar à beira das trincheiras para fuzilá-las pelas costas; que trancariam todas as mulheres e crianças da cidade francesa de Oradour-sur-Glane num celeiro para em seguida incendiá-lo.

Leni Riefenstahl fez um bom trabalho. Hitler ficou satisfeito. Pouco menos de dois anos depois, em 1936, ela teria a chance de fazer outro filme de propaganda pródigo em imagens de juventude, graça e beleza, mas destinado a ser uma imensa e sinistra fraude contra o mundo inteiro.

Terminado o trimestre de aulas, Joe voltou para sua casa em Sequim, onde, mais uma vez, passaria o Natal com a família de Joyce. Esperara todo o outono pelas festas de fim de ano para estar com ela em outro lugar que não a deprimente lanchonete da universidade.

Já estava pronto para deixar a cidade quando teve a atenção despertada por uma manchete do Washington Daily: “Adultos endividados e desempregados”. A matéria o abateu. A dívida média dos diplomados era de 200 dólares, dizia ela, e a dos formados há quatro anos de mais de dois mil. Nos dois casos era uma imensa quantidade de dinheiro para alguém como Joe. Mas o que mais o surpreendeu, aquilo de que se lembrou anos mais tarde, foi a revelação de que “mais de metade dos homens entrevistados estavam obtendo seus diplomas universitários sem nenhum gasto próprio, mas financiados por pais e parentes que não esperavam reembolso”. Toda a luta de Joe para permanecer na faculdade se baseava na perspectiva de um futuro mais promissor. Nunca lhe ocorrera que as portas do mercado de trabalho poderiam não estar abertas para o portador de um diploma universitário. Mais uma vez se deu conta de que muitos de seus colegas não tinham que se preocupar com dinheiro por terem quem pudesse investir neles milhares de dólares que nunca receberiam de volta. Foi o suficiente para despertar a antiga ansiedade e a insegurança sempre à espreita dentro de sua alma. Só que agora com um novo ingrediente – uma venenosa pitada de inveja.