Meninos de Ouro

Daniel James Brown · Capítulo 3 de 10 · parte 2/3

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Meninos de Ouro

Segunda parte – 1934 – Resiliência

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Joe com seu banjo

CAPÍTULO 7

 

O remo de competição é uma arte, não um esforço frenético. As provas são vencidas com a força da mente e a força dos braços. É preciso tirar os adversários da cabeça desde a primeira remada. Os pensamentos devem estar concentrados em você mesmo e em seu barco; sempre positivos, nunca negativos.

– George Yeoman Pocock

 

Enfileirados na amurada da barca, Joe Rantz e seus companheiros de guarnição perscrutavam a água usando as mãos para proteger os olhos do sol do fim da tarde. Fazia duas horas que eles haviam derrotado os calouros da Califórnia. Agora era a

a

vez de a 1 guarnição enfrentar os rapazes de Ky Ebright.

O que aconteceu nos minutos seguintes entrou para os anais como uma das maiores corridas de seniores da história da rivalidade entre Califórnia e Washington. Imediatamente após a corrida, Frank G. Gorrie, da Associated Press, enviou à sua base no Leste um entusiástico relato que seria lido em todo o país: “Os dois célebres oitos largaram a toda na superfície ensolarada do lago como se estivessem algemados, alternando-se na liderança por uma diferença de centímetros. Califórnia logrou uma pequena vantagem inicial, cedeu-a à altura da primeira milha, pôs-se à frente outra vez na milha e meia, ficou para trás na segunda milha quando Washington deu três séries sucessivas de ‘10 fortes’, voltou forte um momento depois (…).”

Joe assistia, fascinado, ao desenrolar do drama. Os estudantes pediam insistentemente a Washington que “partissem para cima”, que aumentassem o ritmo e acabassem com a Califórnia. Cal golpeava a água ao vigoroso ritmo de 36 remadas por minuto, mas o timoneiro de Washington, Harvey Love, manteve o ritmo constante e relativamente tranquilo de 31 remadas por mais de 2,5 milhas, o estritamente necessário para manter o barco na disputa, pedindo séries de 10 fortes quando ameaçava ficar muito para trás e logo retomando o ritmo constante para preservar sua guarnição. Quando, porém, depois de várias tentativas fracassadas da Califórnia de se distanciar, o barco que marcava a linha de chegada entrou em seu campo de visão, Love comandou: “Agora! Força máxima!” A voga saltou para 38 e logo depois para 40. Washington avançou, célere. Califórnia hesitou um instante e Washington cruzou a linha pouco mais de um segundo à frente, estabelecendo o novo recorde da prova em 16m33s4.

Uma corrida eletrizante. Mas para Joe e os demais calouros foi, sobretudo, uma aula sobre como Al Ulbrickson, seu diretor técnico a partir do outono seguinte, construía suas vitórias. De certa forma, era a lição que Tom Bolles já havia ministrado ao esconder de Ebright os melhores tempos de seus calouros e dizer aos rapazes que deixassem Cal “botar o pescoço pra fora”. A Joe, em especial, a prova principal ensinou outra lição. Para derrotar um adversário do seu nível, talvez até superior, não bastava dar tudo do início ao fim: era preciso dominá-lo mentalmente. Numa prova parelha, quando o momento crítico se apresentava, você tinha que saber algo que ele não sabia: que no fundo do seu ser você ainda tinha uma reserva, algo ainda não mostrado e que, ao ser revelado, faria com que ele duvidasse de si próprio e hesitasse na hora da verdade. Como tantas outras coisas na vida, o remo era em parte uma questão de confiança, em parte uma questão de conhecer o próprio coração.

Nos dias que se seguiram à célebre corrida Califórnia-Washington, os calouros tiveram outra queda abrupta de rendimento. Seus resultados eram cada vez mais desanimadores. Davam a impressão de ter perdido todo o foco. Quanto mais Tom Bolles urrava em seu megafone, mais lentos eles pareciam ficar.

Remando sob o sol quente num dia preguiçoso do início de maio, a letargia foi tanta que os rapazes não conseguiram cruzar a tempo o caminho de um rebocador que levava uma chata. Expelindo fumaça negra, ele se precipitou sobre o barco, apitando e buzinando a toda velocidade enquanto John Merrill, o timoneiro, gritava: “Para trás! Para trás!” Em pânico, o remador da posição quatro se atirou de qualquer jeito na água fazendo o barco quase virar. O rebocador deu uma guinada a bombordo e roçou a proa do barco, por pouco não atingindo o rapaz que mergulhara. Bolles, que assistiu a tudo de sua lancha, ficou furioso. Puxou o remador ruborizado de dentro da água, deu a partida e retornou à garagem.

A guarnição também voltou em total silêncio. Bolles os esperava no cais, andando de um lado para outro e esbravejando, dedo em riste, que iria recomeçar do zero para a regata de junho em Poughkeepsie. Ninguém podia achar que tinha vaga garantida só por ter derrotado a Califórnia. Joe ficou perplexo. A vaga que por um momento lhe pareceu certa estava aberta novamente. Naquela mesma semana, a faculdade o informara que estava quase reprovado em Educação Física, disciplina que deveria ser substituída pelo remo.

Como costuma acontecer no fim da primavera, em meados de maio o tempo em Seattle passou de ensolarado a chuvoso, colocando os calouros uma vez mais às voltas com ventos contrários, mãos dormentes e marolas de proa. Mas para surpresa deles próprios e dos treinadores, quanto pior ficava o tempo, melhor eles remavam.

Foi remando contra um cortante vento norte num daqueles dias cinzentos e chuvosos de fins de maio, em que a retirada da pá fazia espirrar água para todo

a

lado, inclusive para o interior do barco, que Joe e seus colegas da 1 guarnição de calouros fizeram o tempo de 10m35s, quatro segundos acima do recorde da distância. A bordo do Alumnus, George Pocock assistiu à performance. Ao desembarcar, foi até um repórter que o esperava na garagem e lhe fez uma surpreendente declaração: “Tom Bolles tem em mãos um ótimo barco para águas agitadas”, disse, de modo tranquilo mas convincente. “Não fica devendo nada a qualquer outro que eu já tenha visto.”

Vindo de Pocock, um homem modesto e reservado que não era dado a exageros, muito menos em se tratando da capacidade de uma guarnição de calouros, aquilo foi como uma proclamação divina. Tom Bolles parou de falar em recomeçar do zero. No final, os mesmos nove calouros que haviam batido a Califórnia é que iriam a Poughkeepsie disputar o título nacional.

o

Na noite de 1 de junho de 1934, mais de mil fãs lotaram o salão de mármore da estação ferroviária de King Street, em Seattle, para festejar o embarque da equipe de remo de Washington num trem da Great Northern, o The Empire Builder, rumo a Poughkeepsie. Gritos de guerra e fanfarras da banda marcial da universidade contribuíam para elevar ao máximo o moral das guarnições – a de calouros em particular. Poucos deles conheciam o mundo além do oeste de Washington e a maioria nem sequer viajara de trem. E ali estavam eles, prestes a cruzar o continente. Para garotos que cresceram ordenhando vacas, cortando toras e empilhando tábuas, que conheciam pelo nome metade dos habitantes de suas cidades e cujos pais lhes contavam histórias sobre a primeira vez que haviam visto um automóvel e uma casa com iluminação elétrica, tudo aquilo era inebriante.

Confortavelmente instalado num vagão Pullman, Joe mal conseguia acreditar no rebuliço que, visto da janela esverdeada de sua poltrona, transbordava do saguão para a plataforma. Ele, que nunca fora celebrado por coisa alguma, agora fazia parte de algo que, mais do que simples admiração, era objeto de uma espécie de lisonja. Sentia-se cheio de orgulho, mas também tenso por um inquietante desconforto. Voltavam à tona coisas sobre as quais, naqueles dias, estivera tentando não pensar.

Naquela noite, enquanto o Empire Builder atravessava a passagem Stevens da cordilheira das Cascatas e se lançava sobre os trigais do leste de Washington, os rapazes tratavam de se divertir. Jogaram cartas, contaram piadas obscenas, correram e jogaram bola nos corredores do vagão até caírem exaustos em seus beliches.

A farra continuou no dia seguinte quando alguém apareceu com uma caixa de bexigas. Das barulhentas plataformas que separam os vagões, eles arremessaram alegremente os balões cheios de água em todos os alvos que se apresentaram no percurso de Montana a Dakota do Norte – vacas pastando nos campos, automóveis empoeirados à espera nas passagens de nível, cães adormecidos nas plataformas das pequenas estações –, sempre saudando suas vítimas atônitas com o lema “Curve-se a Washington”.

Desinibido pelas brincadeiras com os balões, Joe criou coragem para tirar do estojo o violão que trouxera consigo. Alguns veteranos, curiosos, se aproximaram enquanto ele afinava o instrumento. Concentrado nos acordes, Joe enveredou pelo repertório que costumava tocar no secundário – canções juvenis e de vaqueiros que aprendera na Mina de Ouro e Rubi e nas estações de rádio de Sequim.

Os rapazes, que a princípio apenas ouviam, começaram a se entreolhar, logo a dar risadinhas e, finalmente, a assoviar e gritar. “Olhem só! Joe, o caubói!”, berrou um. “Ei, pessoal, venha ouvir Rantz, o remador trovador!”, disse outro, para os que observavam a cena no corredor.

Intimidado, Joe ergueu os olhos e parou de tocar abruptamente, no meio de “The Yellow Rose of Texas”. Com o rosto em chamas, a mandíbula cerrada e os olhos frios e duros como pedra, pôs o violão de volta no estojo o mais rápido que pôde e se retirou para outro vagão.

Nada poderia ter sido mais doloroso. A música, que o animara nos momentos mais tristes de sua infância, que o aproximara das pessoas na escola, que lhe trouxera amigos e o ajudara a sobreviver nos dias mais difíceis de Sequim, a música que era seu especial talento e motivo de orgulho, de repente se voltara contra ele revelando toda a sua falta de sofisticação. No momento em que começava a se sentir parte de algo maior, voltara a ser um excluído.

Ao chegar a Nova York, em 6 de junho, a equipe de Washington teve que levar seus barcos para uma velha garagem em ruínas em Highland, na margem oriental do rio Hudson, do outro lado da ponte que vinha de Poughkeepsie. A bem da verdade, a instalação não passava de um galpão precário construído sobre palafitas e aberto às correntes de vento. Uma água mal-cheirosa saía dos chuveiros, diretamente do Hudson para as cabeças dos atletas.

Tom Bolles mandou os calouros para a água naquele mesmo dia, ansioso para ver seu desempenho numa raia desconhecida. Era a primeira vez que eles iriam remar num rio, na verdade a primeira vez que iriam remar em outro lugar que não o lago Washington. O clima opressivo, quente e pegajoso era diferente de tudo a que estavam acostumados. Ao chegarem à água com o barco – o City of Seattle – já estavam encharcados de suor. Havia uma ligeira brisa, mas até o vento lhes pareceu pastoso. Tiraram, então, as camisetas, mergulharam-nas nas águas poluídas do Hudson e tornaram a vesti-las, o que só fez tornar a umidade ainda mais insuportável. Bolles mandou que remassem rio acima durante alguns minutos, em ritmo de aquecimento, e subiu na lancha para acompanhá-los. Quando os julgou preparados, levou o megafone à boca e ordenou que fizessem um tiro. Os rapazes se inclinaram sobre os remos e partiram, mas Bolles nem se deu ao trabalho de olhar para o cronômetro. De pronto pôde ver que estavam longe de seu melhor ritmo. Pior, pareciam cansados, claramente prostrados pelo calor, ziguezagueando pela raia. Embora soubessem lidar com praticamente qualquer quantidade de vento e marolas no lago Washington, no Hudson era diferente – as marolas, baixas e longas, pegavam o barco de lado deixando as pás dos remos ora totalmente fora da água ora mergulhadas em excesso. Os efeitos da maré e da correnteza os confundiam. Não esperavam que a água se movesse sob o barco, muito menos que os levasse aonde eles não queriam ir. Bolles pegou o megafone, ordenou “Escora!” e acenou para retornarem à garagem. Precisava falar com Pocock.

Desanimados, os rapazes guardaram o barco, tomaram banho e iniciaram a longa caminhada ao longo da ferrovia litorânea até o barranco que levava à pensão de Florence Palmer, onde estavam alojados. A casa da Sra. Palmer era pequena e sua diária, acessível. Os parcos produtos de sua cozinha nem de longe davam conta do apetite dos mais de 20 rapazes altos e robustos, mais um punhado de treinadores e timoneiros. Depois de comer o que havia disponível, eles subiram, cambaleantes, para os quartos no sótão – seis em cada um – para dormir, a despeito do calor úmido e sufocante, em beliches que mais pareciam instrumentos de tortura.

A regata da Associação Interuniversitária de Remo (IRA, na sigla em inglês) em Poughkeepsie era uma instituição célebre, com raízes profundas na história do remo dos Estados Unidos.

O primeiro grande espetáculo de remo da América foi uma corrida em 1824, na baía de Nova York, entre um grupo de quatro barqueiros locais num Whitehall de 24 pés, o American Star, e outro, e formado por quatro marinheiros de um navio de guerra britânico em visita ao país, num barco similar, o Certain Death. Com a guerra de 1812 e o incêncio da Casa Branca ainda relativamente frescos na memória, os ânimos estavam exaltados, especialmente do lado americano. Os nova-iorquinos venceram a corrida – e levaram o polpudo prêmio de mil dólares – remando de The Battery a Hoboken, ida e volta, diante de uma entusiástica plateia estimada entre 50 mil e 100 mil espectadores, na época o maior público já reunido no país para assistir a um evento desportivo.

Na década de 1830, clubes de remo privados começaram a surgir em várias cidades americanas. Por volta de 1840 algumas universidades do Leste já tinham suas próprias equipes. A primeira competição universitária de remo dos Estados Unidos, na verdade o primeiro evento esportivo interuniversitário organizado no país, reuniu Harvard e Yale em 1852, no lago Winnipesaukee, estado de New Hampshire. Com pouquíssimas interrupções – grandes guerras que obrigaram os jovens a trocar os estudos por afazeres mais arriscados –, a regata Harvard-Yale foi disputada todos os anos desde 1859. Durante boa parte desse período, ela foi um dos principais eventos esportivos do país. Em 1869 Harvard enfrentou a instituição de maior prestígio da Grã-Bretanha, Oxford, numa competição no Tâmisa. Oxford derrotou Harvard perante uma imensa multidão, mas o evento teve tanta publicidade nos Estados Unidos que gerou uma explosão de interesse pelo remo. Deu-lhe também a aura elitista que perdura até os dias de hoje.

Outras universidades do Leste criaram, então, suas próprias equipes e começaram a competir entre si, de igual para igual. No entanto, Harvard e Yale não disputaram nenhuma outra competição interuniversitária que não o seu confronto anual, e não houve nada que se parecesse com um campeonato nacional até 1895, quando, incentivados pela abertura da Estrada de Ferro Central de Nova York, as universidades Cornell, Colúmbia e Pensilvânia decidiram formar a Associação Interuniversitária de Remo e se reunir anualmente em Poughkeepsie, uma raia de 4 milhas às margens do rio Hudson onde amadores e profissionais vinham remando desde a década de 1860. Quase imediatamente após a primeira disputa, vencida por Cornell em 21 de junho de 1895, outras universidades começaram a ser convidadas, tornando este evento a mais prestigiosa regata de remo do país, mais até do que a corrida anual Harvard-Yale, o equivalente ao campeonato nacional.

No início do século XX surgiram vários clubes de remo nos enclaves da alta sociedade. Hotéis de luxo e transatlânticos – incluindo o Titanic – instalaram aparelhos de remo para que os hóspedes pudessem manter a forma e imitar seus heróis. Na segunda década do novo século, dezenas de milhares de aficcionados – cerca de 125 mil em 1929 – iam a Poughkeepsie para assistir à regata anual e milhões a acompanhavam pelo rádio. A regata chegou a rivalizar com grandes eventos esportivos nacionais como o Kentucky Derby (hipismo), o Rose Bowl (futebol americano) e a World Series (beisebol).

Durante a maior parte do primeiro quarto de século, as regatas foram totalmente dominadas pelas escolas do Leste. Nenhuma universidade do Oeste se atreveu a competir até 1912, quando Stanford conquistou um distante sexto lugar. No ano seguinte, Hiram Conibear trouxe pela primeira vez uma equipe de Washington, quase inteiramente formada por rapazes simples do interior. Ficou em terceiro, resultado que impressionou os fãs e a imprensa do Leste. Em 1915, Stanford surpreendeu obtendo o segundo lugar. Um jornalista nova-iorquino observou: “Stanford poderia ter vencido se tivesse um barco menos tosco.” Na verdade, Stanford optara por deixar seu elegante Pocock em casa, em Palo Alto, e utilizar um barco construído no Leste.

Nos 10 anos seguintes, porém, as universidades do Oeste – Califórnia, Stanford e Washington – só ocasionalmente retornaram a Poughkeepsie. Era difícil justificar a viagem. Além do custo de transportar equipes inteiras e seus frágeis barcos ao outro lado do país, os rapazes eram recebidos no Leste com a incômoda mescla de presunção, condescendência e, ocasionalmente, declarado escárnio. Aficcionados, ex-alunos, jornalistas esportivos e a imprensa em geral estavam acostumados a ver filhos de senadores, governadores, barões da indústria e até de presidentes – não de agricultores, pescadores e lenhadores – remando no Hudson.

Até que, numa noite chuvosa de junho de 1923, a equipe principal de Washington reapareceu em Poughkeepsie sob a liderança de seu novo treinador Russell “Rusty” Callow. Depois de saltar à frente dos demais competidores, as guarnições de Washington e da Academia Naval entraram praticamente empatadas na reta final. Foi aí que o timoneiro de Washington, Don Grant, cujos comandos eram abafados pelo vozerio do público, ergueu sobre a cabeça uma bandeira vermelha (cortada às pressas de um estandarte de Cornell antes da corrida) para sinalizar aos rapazes que era o momento de dar tudo. O voga de Washington, Dow Walling, com uma das pernas grotescamente inflamada por três enormes furúnculos, deslizou em seu carrinho, lançou as pernas à frente e aumentou o ritmo para além das furiosas 40 remadas por minuto já em curso. O barco acelerou e Washington obteve, por pequena margem, a primeira vitória do Oeste na regata da IRA. Exultante, a guarnição do Husky tirou Walling cuidadosamente do barco e mandou-o direto para o hospital. Aficcionados e jornalistas atônitos se reuniram ao redor dos rapazes no píer, crivando-os de perguntas: “A Universidade de Washington fica no distrito de Colúmbia? Onde fica exatamente Seattle? É verdade que alguns dos rapazes são lenhadores?” Exibindo largos sorrisos, eles pouco disseram, mas saíram distribuindo totens em miniatura.

Assistindo ao término da prova na lancha dos treinadores, George Pocock se esgoelava de um modo pouco característico. Mais tarde, o sempre reservado inglês confessou: “Devo ter me comportado como uma criança.” E tinha bons motivos. Ele construíra o barco de cedro-espanhol com que Washington vencera a corrida. Foi a primeira vez que o Leste teve a chance de travar contato com seu trabalho. Poucos dias depois de retornar a Seattle, chegaram à sua oficina encomendas de oito novos barcos. Menos de uma década mais tarde, a maioria dos barcos da regata de Poughkeepsie era obra de Pocock. Em 1943, todos eram – 30, no total.

O Dr. Loyal Shoudy, proeminente e fanaticamente leal ex-aluno de Washington, ficou tão impressionado com a conquista que, naquela noite, levou os rapazes a Nova York para homenageá-los com um jantar de gala e um show. No jantar, cada membro da guarnição encontrou em seu prato uma nota de 10 dólares e uma gravata roxa. Por muitas décadas, prevaleceu a tradição de se homenagearem os remadores de Washington, ao final de cada temporada, com um “jantar Loyal Shoudy” em que cada um ganhava, em seu prato, uma gravata roxa.

No ano seguinte, 1924, com o jovem Al Ulbrickson na voga, Washington voltou a vencer a prova principal, dessa vez de forma esmagadora. Repetiu o feito em 1926, com Ulbrickson remando o último quarto de milha com o músculo de um dos braços distendido. Em 1928, os California Bears de Ky Ebright ganharam seu primeiro título em Poughkeepsie a caminho da medalha de ouro olímpica daquele ano e, novamente, em 1932. Em 1934, as escolas do Oeste começavam finalmente a ser levadas a sério. Ainda assim, para a maioria dos que, todo mês de junho, acompanhavam as provas no Hudson em seus iates, fossem de Manhattan ou dos Hamptons, era natural presumir que o Leste iria, desta vez, recuperar o lugar que lhe coubera, desde sempre, no topo do mundo do remo.

Por mais que abalasse as legiões de aficcionados do Leste, a ascensão das equipes do Oeste encantou os editores de jornais de todo o país na década de 1930. Ela se ajustava perfeitamente a uma lenda esportiva mais ampla que impulsionava as vendas de jornais e os cinejornais desde que a rivalidade entre dois pugilistas prendeu a atenção do país da década de 1920 – um homem simples do Colorado, descendente de índio cherokee, chamado Jack Dempsey e um ex-fuzileiro naval do Leste chamado Gene Tunney. A rivalidade Leste-Oeste chegou ao futebol americano com o East-West Shrine Game anual, disputado todo mês de janeiro, e se intensificou com o Rose Bowl, até então o que havia de mais parecido com um campeonato universitário nacional. Pouco depois, ela ganharia mais um alento quando um cavalo de corrida pouco sofisticado chamado Seabiscuit surgiu na cena do Oeste para desafiar e derrotar o favorito do mundo do turfe, o rei dos hipódromos do Leste, War Admiral.

Um aspecto notável das rivalidades Leste-Oeste era que os representantes do Oeste quase sempre encarnavam certos atributos contrastantes com os de seus adversários: autodidatas, toscos, incultos, nativos, fortes, ingênuos e talvez, aos olhos de alguns, um tanto rudes. Seus congêneres do Leste, por sua vez, pareciam via de regra bem-educados, sofisticados, endinheirados, refinados e talvez, aos seus próprios olhos pelo menos, um pouco superiores. Havia, provavelmente, pelo menos alguma verdade nessas linhas dintintivas. Mas a percepção que se tinha dessa rivalidade no Leste trazia muitas vezes elementos de esnobismo, o que irritava os atletas do Oeste e seus fãs.

Outra fonte de irritação entre a gente do Oeste era a constante reafirmação dos preconceitos do Leste pelos jornais de circulação nacional, para os quais era como se além das Montanhas Rochosas só existisse a China. A própria imprensa do Oeste parecia, às vezes, se curvar a esse padrão. Na década de 1930, mesmo depois das vitórias de Washington e Califórnia em Poughkeepsie, o Los Angeles Times, por exemplo, deu muito mais espaço a temas como o público presente, as guarnições, as substituições e as preliminares do Leste do que às vitórias indiscutíveis e os tempos recordes dos barcos do Oeste.

Não existia ninguém melhor do que Joe e os calouros de Washington presentes à regata de Poughkeepsie de 1934 para representar o Oeste nessa rixa regional. As dificuldades econômicas dos anos recentes haviam tornado ainda mais nítidos os traços que os distinguiam dos rapazes que estavam prestes a enfrentar. A regata de 1934 se desenhava, portanto, como um novo capítulo do embate entre o privilégio e o prestígio do Leste e a franqueza e o vigor físico do Oeste. Para dizê-lo com todas as letras, seria um confronto entre os endinheirados e os sem dinheiro.

Nos dias que antecederam a regata, os treinadores da maior parte das 18 equipes envolvidas na disputa decidiram comandar treinos noturnos, tanto para poupar seus rapazes do calor cruel do meio-dia quanto para ocultar, sob o manto da escuridão, seus tempos e estratégias de corrida dos adversários e da legião de jornalistas esportivos em Poughkeepsie.

O dia da corrida, sábado 16 de junho, amanheceu claro e quente. Ao meio-dia começaram a chegar, de trem e automóvel, torcedores de toda a Costa Leste – os homens tirando os paletós e as gravatas e as mulheres pondo os chapelões e óculos escuros. No meio da tarde, a cidade de Poughkeepsie já pulsava de gente. Os saguões dos hotéis e os restaurantes estavam apinhados de pessoas tomando todo tipo de bebida gelada, muitas delas com álcool, agora que a proibição fora suspensa. Nas ruas, ambulantes abriam caminho em meio à multidão vendendo cachorros-quentes e sorvetes na casquinha.

Durante toda a tarde, bondes lotados desceram a encosta de Poughkeepsie até a beira do Hudson. Uma névoa cinzenta pairava sobre o rio. Barcas brancas transportavam os torcedores para a margem oeste, onde um trem de observação com 13 vagões com arquibancadas os aguardava. Às 17 horas, mais de 75 mil pessoas se aglomeravam às margens do rio, sentadas nas praias, de pé nos deques, empoleiradas em telhados, barrancos e cercas ao longo da raia, tomando limonada e abanando-se com exemplares do programa.

A prova dos calouros seria a primeira, com a distância de duas milhas, seguida de hora em hora pela prova de segundas guarnições, de três milhas, e pela de primeiras guarnições, de quatro milhas. Ao levarem o City of Seattle da garagem para o rio, Joe e seus companheiros puderam, pela primeira vez, apreciar o espetáculo que era a regata de Poughkeepsie. Exatos 1.600 metros rio acima a partir da velha ponte ferroviária – uma longa estrutura em treliças de aço com 2.063 metros de extensão, construída em 1889 – ficava a linha de largada, formada por uma fileira de sete barcos idênticos ancorados, cada um com um fiscal encarregado de segurar a popa do barco designado para aquela raia até a ordem de largada. Cerca de 800 metros rio abaixo, dezenas de outros fiscais se posicionavam na nova ponte rodoviária. Entre as duas pontes, e até a linha de chegada, uma multidão de torcedores se amontoava nos conveses dos iates ancorados, muitos vestidos a caráter, com roupas náuticas brancas e quepes azuis com tranças douradas. Canoas e barcos a motor ziguezagueavam entre os iates. O único espaço livre eram as sete raias no meio do rio. A poucos metros da linha de chegada se destacava um reluzente barco branco da guarda-costeira, o Champlain, amarrado a um imponente e carrancudo destróier da Marinha dos Estados Unidos com sua tripulação pronta para saudar os aspirantes de Annapolis. Rio acima e rio abaixo, uma variedade de grandes barcos de cascos negros – escunas e corvetas do século XIX –, com seus cordames cobertos de galhardetes, completavam o cenário.

Quando os barcos das guarnições de calouros se aproximaram, finalmente, da linha de largada, as lanchas dos treinadores foram posicionadas atrás de cada um com os motores ligados, fazendo borbulhas e cuspindo fumaça. Um leve odor de diesel pairava sobre o rio. Tom Bolles, com seu chapéu da sorte, gritava instruções de última hora para seu timoneiro George Morry. Washington estava na raia três, bem ao lado do Orange de Syracuse, na dois. Treinado por Jim Ten Eyck, uma lenda do remo de 84 anos – famoso por ter competido em 1863, um dia após a batalha de Gettysburg –, o Orange vencera três das últimas quatro provas de calouros. Era o favorito defendendo seu título.

O calor diminuíra não mais do que um ou dois graus. Um esboço de vento norte agitava levemente a água escurecida pela bruma do fim da tarde. Nas velhas escunas, os estandartes se agitavam preguiçosamente. Quando os rapazes de Washington colocaram seu barco em posição, o fiscal de largada da raia três estendeu o braço e segurou sua popa. Morry mandou que George Lund endireitasse a proa. Depois ergueu a mão para sinalizar que o barco estava pronto. Joe Rantz respirou fundo, totalmente concentrado. Roger Morris ajustou a empunhadura do remo.

Ao soar o tiro de largada, Syracuse saltou imediatamente à frente ao ritmo de 34 remadas por minuto, seguida de perto por Washington, com 31. Todas as outras – Colúmbia, Rutgers, Pensilvânia e Cornell – começaram quase que imediatamente a ficar para trás. No primeiro quarto de milha, parecia que o Orange de Syracuse iria, como previsto, permanecer na liderança. Na meia milha, porém, Washington pusera uma pequena vantagem sobre ele sem aumentar a voga. Ao passar a marca da milha sob a ponte ferroviária, os fiscais ali posicionados deram uma salva de três tiros, indicando que o barco na raia três, Washington, estava à frente faltando uma milha para o final. Lentamente, a proa do barco de Syracuse entrou no campo de visão de Joe e começou a desaparecer. Ele o ignorou, preferindo se concentrar em suas remadas, puxando com força, regular e confortavelmente, sem grande esforço. Na milha e meia, alguém no centro do barco de Syracuse enforcou. O Orange hesitou um instante, mas logo recuperou o ritmo. Mas já não adiantava. Washington estava dois barcos e meio à frente. Cornell, em terceiro, quase desaparecera oito barcos atrás. George Morry virou-se, deu uma rápida olhada e se espantou com o tamanho de sua vantagem. Mesmo assim, tal como na vitória sobre a Califórnia no lago Washington, em abril, aumentou a voga nas últimas centenas de metros só para dar espetáculo. Outra salva de três detonações foi ouvida quando os rapazes de Tom Bolles cruzaram a linha de chegada com a espantosa vantagem de cinco barcos sobre Syracuse.

Milhares de famílias reunidas ao redor de aparelhos de rádio nas cozinhas e salas de estar de Seattle e Sequim festejaram e aplaudiram ao ouvir a salva final. Não era para menos: os peões, pescadores e estivadores do estado de Washington, garotos que nove meses antes nem sabiam o que era um remo, tinham batido as melhores guarnições da Costa Leste e se tornado campeões nacionais na categoria de calouros.

Os rapazes se cumprimentaram, remaram até o barco de Syracuse para recolher suas camisetas troféus, apertaram-lhes as mãos e saíram vagarosamente para sua garagem. Içaram o City of Seattle até a plataforma flutuante e executaram o ritual universal das guarnições vitoriosas – o caldo no timoneiro. Quatro rapazes agarraram Morry antes que ele pudesse escapar pela rampa, balançaram-no três vezes de um lado para outro pelos braços e pernas e atiraram-no longe nas águas do Hudson. Morry deu voltas no ar agitando as pernas e os braços antes de cair espetacularmente de costas, espirrando água para todo lado. Depois de ajudá-lo a sair daquela água fétida, todos foram para a garagem tomar seu próprio banho malcheiroso. Nesse meio-tempo, Tom Bolles corria ao escritório da Western Union em Poughkeepsie para telegrafar a Seattle. O mesmo fazia George Varnell, do The Seattle Times: “Hoje, ninguém neste país está mais feliz do que esses rapazes. Podem apostar.”

Mas não foi somente o povo de Washington que aplaudiu e atentou para o que acabara de acontecer. Havia, nos calouros de Washington, algo mais que chamou a atenção de quase todos os que estavam em Poughkeepsie naquele dia, assim como de todos os aficcionados por remo, em todo o país, que acompanharam a corrida pelo rádio ou leram sobre ela nos jornais do dia seguinte. O The New York Times – símbolo do establishment da Costa Leste – classificou a corrida como “estupenda”. E não foi por causa da larga margem da vitória, nem do impressionante tempo de 10m50s. Foi pelo modo como aconteceu. Do tiro de largada à salva final, os rapazes de Washington haviam remado como se pudessem manter aquele ritmo por mais 2, 3 ou até 10 milhas. Remaram com tanta tranquilidade, tão “serenamente”, como disse o Times, tão absolutamente senhores de si que, no final, em vez de desmoronar ofegantes em seus carrinhos como costuma acontecer ao final de cada corrida, eles permaneceram eretos, olhando calmamente ao redor, como se tivessem saído para um exercício vespertino e se admirado – com os olhos arregalados, como autênticos rapazes do Oeste – de ver tamanha comoção.

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Uma hora mais tarde, a 2 guarnição de Syracuse alegrou o dia de seu venerado treinador ao resistir a uma violenta investida do barco da Academia Naval – a despeito das sirenes do destróier chamando seus rapazes à ação – e ganhar a segunda corrida do dia.

Ao se aproximar a terceira e mais importante prova do dia, a corrida das primeiras guarnições, o sol já começara a se pôr deixando cair sobre o rio uma sombra lamacenta e melancólica. Al Ulbrickson esperava calmamente, passeando pela orla, o momento de entrar com George Pocock e Tom Bolles no vagão de imprensa do trem de observação quando um repórter se aproximou e lhe perguntou se estava nervoso. Fingindo pouco-caso, Ulbrickson se disse perfeitamente calmo, sem perceber que havia colocado o cigarro ao contrário na boca. A verdade é que Ulbrickson queria, mais do que qualquer outra coisa no mundo, vencer a corrida principal em Poughkeepsie. Ainda não conseguira fazê-lo como treinador, e as pessoas que pagavam seu salário em Washington estavam atentas ao fato. Além

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disso, havia contas a acertar. Em abril, momentos após a vitória da sua 1 guarnição sobre a Califórnia no lago Washington, a Associated Press divulgou, num

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artigo que todo o país leu no dia seguinte, a seguinte versão: “Embora a 1 guarnição dos Bears não tenha conseguido superar a dos Huskies (...) sua desesperada investida final provou que eles estão a caminho dos Jogos Olímpicos de 1936.” Ou seja, a vitória de Washington fora mostrada ao país inteiro como obra do acaso. Era o tipo de coisa que deixava Al Ulbrickson furioso.

A corrida principal de Poughkeepsie em 1934 veio a ser, de fato, um duelo entre os rapazes de Ulbrickson e os de Ebright. Todos os barcos largaram juntos e seguiram emparelhados nos primeiros 100 metros. Mas, na primeira das quatro milhas do percurso, as duas universidades do Oeste já contavam com boa vantagem sobre todas as demais. Califórnia assumiu a liderança, perdeu-a pouco depois e recuperou-a mais adiante. Na milha e meia, porém, Washington retomou a liderança. Os dois barcos se aproximaram da ponte ferroviária com Washington à frente, mas, ao passar por debaixo da estrutura, Califórnia reduziu a diferença para poucos centímetros. Entraram na última milha absolutamente empatados e assim permeneceram, remada a remada, nos três quartos de milha seguintes. No último quarto, porém, Califórnia soltou toda a força de seu voga Dick Burnely – um atleta desengonçado, mas extremamente forte, de quase 2 metros de altura – e passou à frente. Washington esmoreceu e cruzou a linha de chegada com três quartos de barco de desvantagem. Ebright conquistara seu segundo título consecutivo da Associação Interuniversitária de Remo, vingara a derrota no lago Washington e validara a conclusão a que chegara, em abril, o jornalista da Associated Press.

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Para a 1 guarnição de Washington, a viagem de volta seria longa e melancólica. Na aparência, Al Ulbrickson reagira à derrota com estoicismo. Brincou com os rapazes no trem tentando animá-los, mas, depois que eles se dispersaram, ficou sozinho, bufando sua frustração. Da última vez que Ky Ebright conquistara o título da Associação, conquistara também o ouro olímpico, fato que o The New York Times prontamente destacou. A comparação não era lá muito adequada, como Ulbrickson sabia muito bem. Ainda faltavam dois anos para os Jogos Olímpicos de 1936. Mas ele tinha que encarar a dura realidade: Ebright parecia ter uma capacidade especial de ganhar as corridas realmente importantes.

Dez dias depois Joe Rantz faria outra viagem de trem, que lhe permitiria apreciar, pela janela empoeirada de seu assento, o desenrolar da mais nova calamidade que assolava o país.

Após a vitória em Poughkeepsie ele foi à Pensilvânia visitar seus tios Sam e Alma Castner, que cuidaram dele quando sua mãe morreu. Depois, partiu para Nova Orleans. Passeou pela cidade nevoenta admirando os imensos navios que subiam o Mississippi acima do nível da rua e comeu pratos enormes e baratos de gumbo e jambalaya, com caranguejo e camarão. Deleitou-se, também, com os ritmos e as melodias de jazz e blues que se derramavam nas noites cálidas e sedosas recendendo a uísque e jasmim, pelas ruas do French Quarter.

Agora estava a caminho de casa, atravessando um país que começara a secar e ser varrido pelo vento.

Aquele verão foi excepcionalmente quente em grande parte dos Estados Unidos, embora viesse a ser, sob esse aspecto, tragicamente eclipsado pelo de 1936. Nas Dakotas, em Minnesota e Iowa, as temperaturas de verão chegaram cedo. Em 9 de maio os termômetros ultrapassaram a marca dos 42ºC em Sisseton, Dakota do Sul. Em 30 de maio chegaram a 45ºC. Naquele mesmo dia fez 42,8ºC em Spencer e Iowa, e 42,2ºC em Pipestone, Minnesota. Ao mesmo tempo, parou de chover. Sioux Falls, na Dakota do Sul, teve somente 2,5 mm de chuva naquele mês, bem no meio da safra de milho.

Das planícies setentrionais o calor e a aridez se irradiaram para todo o país. Em junho, mais da metade dos Estados Unidos estava sob um calor intenso e condições de seca extrema. Os 10 estados com as mais altas temperaturas médias do país naquele verão eram todos do Oeste. E o pior da onda de calor não foi no Sudoeste, onde as pessoas o esperavam e as lavouras e os estilos de vida já lhes eram adaptados. No Meio-Oeste, e até nas regiões normalmente verdes do Noroeste, o calor estorricou imensas extensões de terra.

Nada podia brotar em tais condições e, sem milho, sem trigo e sem feno o gado não tinha como sobreviver. Preocupado, o secretário de Agricultura Henry Wallace enviou uma expedição ao deserto de Gobi para ver se alguma espécie de relva lá existente era capaz de sobreviver no deserto em que vinham rapidamente se transformando o Oeste e o Meio-Oeste dos Estados Unidos.

No entanto, o calor e a seca eram, sob alguns aspectos, o de menos. Em 9 de maio uma colossal tempestade de poeira se ergueu no leste de Montana, atravessou as Dakotas e Minnesota, jogou 12 milhões de toneladas de terra sobre Chicago e seguiu seu caminho até os céus de Boston e Nova York. Em novembro de 1933 as pessoas que estavam no Central Park viram, horrorizadas, o céu escurecer. Algo como 350 milhões de toneladas de solo superficial foi pelos ares somente nessa tempestade. O The New York Times declarou ser essa “a maior tempestade de poeira da história dos Estados Unidos”. Mas as grandes tempestades, e o maior sofrimento, ainda estavam por vir.

Joe viajou para o norte e o oeste em meio às paisagens tingidas de sépia de Oklahoma e do leste do Colorado. O país inteiro parecia estorricado pelo sol abrasador. Salvo pelo movimento do próprio trem, tudo parecia absolutamente imóvel, como que à espera do próximo ataque. A poeira trazida pelo vento se amontoava ao longo das cercas. Fileiras irregulares de talos de milho, raquíticos, com a metade da altura de um homem e com as folhas reviradas de tão secas, estendiam-se desoladas pelos campos ressequidos. Moinhos de vento dormiam com suas lâminas de aço galvanizado cintilando ao sol. O gado, de cabeça arriada e costelas já salientes, fuçava apaticamente o fundo dos reservatórios onde a lama rachada formava mosaicos duros como pedra. Num rancho do Colorado, Joe pôde ver da janela do trem homens matando o gado faminto e atirando suas carcaças em valas imensas.

Mas o que mais chamou sua atenção foram as pessoas. Sentadas nas varandas, debruçadas nas cercas ou caminhando descalças pelos campos em macacões desbotados e vestidos de fazenda rústica, elas levavam a mão à testa para ver passar o trem com uma expressão fria e dura, como que invejando seus passageiros por poderem ir embora daquela terra esquecida por Deus.

Era exatamente o que alguns já haviam decidido fazer. Um fluxo pequeno e esporádico de velhos automóveis com pneus remendados seguia rumo ao Oeste pela estrada esburacada paralela à linha férrea. Amarradas ao teto iam cadeiras velhas, máquinas de costura e tinas de lavar roupa; nos bancos traseiros, crianças sujas de terra, avós desdentados, cães, colchões enrolados, trouxas de roupa de cama e caixas de comida enlatada. Muitos retirantes simplesmente abandonaram suas casas, deixando a porta da frente aberta para os vizinhos se servirem do que ficara para trás – sofás, pianos e camas impossíveis de levar no teto do carro. Alguns deles, sobretudo homens solteiros, em geral não tinham automóvel para transportar seus pertences e seguiam a pé pela estrada empoeirada carregando, com seus chapéus e paletós de domingo, malas velhas amarradas com cordas e trouxas penduradas nos ombros. Seus olhos às vezes se cruzavam com os de Joe quando o trem passava, apressado.

Depois de cruzar todo o estado de Washington vindo do leste, o trem começou a subir a cordilheira das Cascatas. Havia alertas de incêndio espalhados por toda a Floresta Nacional, onde nos meses recentes madeireiros desempregados vinham ateando fogo à mata para conseguir trabalho como bombeiros. Então o trem desceu, finalmente, para o relativo frescor do estuário de Puget, talvez a única região dos Estados Unidos livre do calor escaldante naquele verão.

Ao chegar, porém, a Seattle, Joe descobriu que, se o tempo não estava tão quente, dos ânimos não se podia dizer o mesmo. Uma disputa trabalhista há muito latente entre os cerca de 35 mil membros da Associação Internacional de Estivadores e as companhias de navegação havia explodido em várias cidades portuárias da Costa Oeste. O conflito custaria oito vidas. Em Seattle, ele chegou ao clímax no dia 18 de julho, na zona portuária, onde 1.200 trabalhadores enfrentaram policiais a cavalo armados com cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo para impedir que os navios fossem descarregados por fura-greves, entre os quais membros do grêmio estudantil da Universidade de Washington e jogadores de futebol americano contratados pelas companhias. Foi um verdadeiro inferno. A batalha campal se estendeu durante vários dias, pelas docas e ruas à beira-mar de Smith Cove, deixando dezenas de feridos de ambos os lados. Grevistas armados com grossos pedaços de madeira atacaram posições da polícia. A polícia montada lançou cargas de cavalaria sobre os grevistas, golpeando-os com cassetetes. O prefeito Charles Smith mandou o chefe de polícia instalar bases de metralhadoras no Píer 91, mas ele não apenas se recusou como lhe entregou o distintivo.

Enquanto o país ardia sob o sol inclemente e a violência se alastrava pelos portos do Oeste, o diálogo político nacional azedava também. Embora Franklin Roosevelt governasse havia já um ano e meio, o mercado acionário tivesse se estabilizado momentaneamente e o nível de emprego registrasse uma ligeira alta, para milhões de americanos – a maioria – os tempos difíceis pareciam piores do que nunca. A oposição fustigava o novo presidente, mais preocupada com seus métodos do que com seus resultados. Num discurso transmitido pelo rádio a todo o país em 2 de julho, Henry Fletcher, presidente do Partido Republicano, atacou o New Deal do presidente classificando-o de “uma ruptura antidemocrática com tudo o que é distintivamente americano”. Ameaçador, ele previu consequências terríveis para o que lhe parecia uma radical experiência socializante baseada na ampliação do papel e dos gastos do governo: “O cidadão americano deve estar pensando ‘Talvez eu esteja melhor do que no ano passado, mas me pergunto se estarei melhor quando vierem os impostos; e o que dizer dos meus filhos e dos filhos dos meus filhos?’” Dois dias depois o senador William Borah, de Idaho, por muitos considerado um republicano progressista, advertiu que as políticas de Roosevelt estavam comprometendo os próprios fundamentos da liberdade americana: “Esta insidiosa paralisia burocrática ameaça a liberdade de imprensa e coloca a nação sob o jugo da tortura, do déficit colossal e da desmoralização.”

No entanto, uma grande iniciativa começara a sacudir aquele verão escaldante nos confins do país. Na escuridão da madrugada de 4 de agosto, habitantes de Seattle entraram em seus automóveis e rumaram para o alto das Cascatas; moradores de Spokane encheram de sanduíches suas cestas de piquenique, puseram-nas nos bancos traseiros de seus carros e rumaram para o oeste; o chefe George Friedlander e uma delegação de índios colville vestiram camurças, mocassins e cocares cerimoniais e rumaram para o sul; no fim da manhã, as estradas do leste de Washington se cobriram de automóveis convergindo de todas as direções para um local improvável chamado Ephrata, uma cidade pequena e desolada de 516 habitantes nas Scablands, não muito longe do rio Colúmbia e de um cânion seco de 80 quilômetros de extensão chamado Grand Coulee.

No meio da tarde, 20 mil pessoas se aglomeravam em Ephrata atrás de um cordão de isolamento. Em algum lugar no meio delas estavam George Pocock e sua família. Quando Franklin Delano Roosevelt surgiu na plataforma à sua frente, com a piteira afirmativamente voltada para cima, a multidão o saudou com uma ovação. Inclinado sobre o pódio e apoiando-se com as duas mãos, Roosevelt começou a falar. Em tom comedido, mas com emoção crescente, expôs os imensos benefícios que a nova represa de Grand Coulee traria àquela terra árida em troca dos 175 milhões de dólares de fundos públicos que iria custar: 5 mil quilômetros quadrados de deserto recuperados para a agricultura, irrigação abundante para milhões de hectares de terras agrícolas, imensas quantidades de energia barata que poderia ser exportada para todo o Oeste e milhares de novos empregos na construção da hidrelétrica e da infraestrutura de irrigação exigidas pela barragem.

Durante a fala, a multidão o interrompia vez e outra com ondas de aplausos e gritos emocionados. Ao falar da água do Colúmbia correndo até o mar sem que sua energia fosse aproveitada, ele destacou o caráter nacional da grande tarefa que tinham pela frente: “Não se trata de um problema do estado de Washington; não se trata de um problema do estado de Idaho; se trata de um problema que diz respeito a todos os estados da União.” Tirou um lenço do bolso e o esfregou na testa suada. Então prosseguiu: “Nós veremos, com nossos próprios olhos, eletricidade e energia tão baratas que hão de se tornar artigos de uso comum (...) em todas as casas ao alcance de uma linha de transmissão.”

E concluiu, falando diretamente aos homens e mulheres ali reunidos: “Vocês têm grandes oportunidades e as estão agarrando com dignidade (...). Saio daqui hoje com a sensação de que esta obra está bem encaminhada; de que avançaremos na direção de um bom projeto; e de que o levaremos a cabo em benefício do nosso país.” Ao encerrar, foi ovacionado outra vez.

Muitos dos presentes jamais esqueceriam esse dia. Para eles, foi uma alvorada, o primeiro sinal de uma autêntica esperança. Se pouco se podia fazer individualmente para reverter a situação, talvez se pudesse fazer algo coletivamente. Talvez as sementes da redenção não estivessem somente na perseverança, no trabalho duro e no individualismo, mas em algo ainda mais fundamental – a ideia simples de que todos poderiam se ajudar remando junto.

George Pocock trabalhando em sua oficina

CAPÍTULO 8

 

Um bom barco precisa ter vida e resiliência para se harmonizar com a sincronia da guarnição.

– George Yeoman Pocock

 

Oguarda-florestal se aproximou furtivamente por trás de Joe, em pé num banco de cascalho do rio Dungeness observando o poço à procura de salmões. Seus passos eram abafados pelo ruído da água corrente. Calculando, pelo físico de Joe, que não o venceria num embate corpo a corpo, o guarda pegou um pedaço de pau, mirou com cuidado e deu-lhe um golpe na parte de trás da cabeça. Joe caiu desacordado. Voltou a si momentos depois, a tempo de ver Harry Secor enfurecido perseguindo o guarda rio abaixo com uma vara pontuda como uma lança. O guarda desapareceu floresta adentro, mas Joe e Harry sabiam que voltaria com reforços. O negócio acabou ali. Eles nunca mais pegaram nenhum salmão.

Depois de sua viagem pelo país, Joe passou o resto do verão de 1934 na casa ainda inacabada da rua Silberhorn, em Sequim, tentando desesperadamente juntar dinheiro para mais um ano de faculdade. Como sempre, cortou feno, cavou valas, dinamitou tocos de árvore e espalhou asfalto quente na rodovia 101. Mais que tudo naquele verão, porém, trabalhou na floresta com Charlie McDonald. Decidido a construir um novo telhado para sua casa, Charlie levou Joe rio acima certa tarde, com seus cavalos de tiro atrelados a uma carroça, em busca de troncos de cedro. A parte mais alta de sua propriedade fora desmatada pela primeira vez havia apenas 12 anos. Os madeireiros puderam escolher à vontade a madeira virgem que ainda crescia ao longo dessa parte do Dungeness – pinheiros altíssimos e sólidos cedros-vermelhos. Alguns cedros tinham mais de 2 mil anos de idade e seus tocos – de mais de dois metros de diâmetro e outro tanto de altura – erguiam-se como monumentos ancestrais em meio a um emaranhado de moitas, arbustos, ervas rasteiras e choupos jovens. Interessados naquela fartura de cedro por sua utilidade no revestimento de coberturas e paredes, os homens que os derrubaram só pegaram a parte intermediária dos troncos, deixando para trás longas seções do topo, onde havia galhos, e da base, onde os troncos começavam a se alargar e a grã da madeira já não era direita. Boa parte do que haviam deixado ainda tinha utilidade, mas só para quem soubesse ler a madeira, decifrar sua estrutura interna.

Continuar: parte 3 de 3