Náufragos, Traficantes e Degredados
I – Os Espanhóis Descobrem o Brasil
I
OS ESPANHÓIS DESCOBREM O BRASIL
A praia estava deserta. Não havia ninguém ao longo da enseada nem nas densas matas que a cercavam. A areia, porém, se encontrava repleta de pegadas, num sinal claro de que a terra era habitada. Tal evidência não impediu que os marujos recém-desembarcados gravassem seus nomes e os de seus navios nas árvores e nas rochas costeiras e, a seguir, imprimissem o dia, o mês e o ano de seu desembarque, tomando posse daquele território em nome da Coroa de Castela.
Era 26 de janeiro de 1500 e os homens comandados pelo capitão Vicente Yáñez Pinzón tinham acabado de descobrir o Brasil.
Embora polêmica, a afirmação se baseia em fontes primárias e em pesquisas confiáveis. A viagem de Pinzón foi bem documentada, e cronistas do século XVI se referem a ela em detalhes. Passados cinco séculos, porém, o local no qual os navios de Pinzón aportaram ainda divide os historiadores. Para alguns pesquisadores portugueses, os espanhóis teriam desembarcado ao norte do cabo Orange, atual fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa. Mas, para seus rivais castelhanos – que se basearam no depoimento do próprio Pinzón –, o desembarque se deu no cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco.
Foi apenas em 1975 que o então capitão de mar e guerra e, mais tarde, contra-almirante Max Justo Guedes, à época diretor do Serviço de Documentação Geral da Marinha Brasileira, estabeleceu, de maneira irrefutável, que Pinzón e seus homens chegaram à ponta de Mucuripe, hoje incorporada à área urbana da cidade de Fortaleza, capital do Ceará – e a meio caminho entre o cabo Orange e o de Santo Agostinho (veja mapa mais adiante).
Max Justo Guedes se baseou nos documentos originais que descrevem a jornada
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de Pinzón, na polêmica judicial que se seguiu à viagem e, acima de tudo, em um mapa feito em 1501 pelo cosmógrafo Juan de la Cosa.
Graças ao depoimento dos cronistas da expedição, Na Barra dos sabe-se que a terra surgira à frente de Pinzón e de seus Tribunais homens poucas horas antes do desembarque. Era uma
As chamadas
longa ponta, alta e verdejante, que entrava mar
Probanzas del Fiscal foram
adentro, como um dedo, cercada de dunas de areia
o pleito judicial que Diego
muito alva e resplandecente. Os marinheiros a
Colombo, filho de
avistaram com satisfação e alívio, já que, poucos dias
Cristóvão Colombo,
antes, em alto-mar, a expedição passara por
moveu contra a Coroa de
momentos terríveis: as quatro caravelas haviam
Castela para assegurar os enfrentado uma tempestade que se prolongara por uma direitos do pai. Todos os
semana. Quando muitos dos homens a bordo já navegadores que consideravam aquela viagem sem volta, o sol brilhou participaram da descoberta
outra vez. As águas do mar se tornaram turvas, da América foram ouvidos
coalhadas de plantas marinhas e de areia em e prestaram depoimentos
suspensão, sinal de que eles estavam se aproximando juramentados. As da terra. audiências se iniciaram na
Pouco antes das 10 horas da manhã do dia 26 de ilha de São Domingos, no
janeiro de 1500, montado na gávea, no alto do mastro Caribe, em dezembro de
de uma das caravelas, um marinheiro avistou os 1512 e se encerraram em
contornos azul-esverdeados do que parecia ser um agosto de 1515, em grande cabo. Uma sonda foi lançada e indicou 16 Sevilha, na Espanha. braças (ou 28 metros) de profundidade. As Tanto Pinzón quanto os embarcações avançaram com cuidado, ancorando a principais capitães de sua
cerca de 10 quilômetros da vasta enseada de águas frota foram ouvidos cálidas e verdosas. Alguns botes foram enviados a durante o julgamento. Em
terra e a cerimônia de posse foi realizada seu depoimento, Pinzón
imediatamente. afirmou que havia
O chefe da missão, aportado no cabo de Santo Vicente Pinzón , era um
navegador experiente. Oito anos antes de desembarcar Agostinho, em Pernambuco
no Brasil, ele tinha acompanhado Cristóvão Colombo – mas provavelmente se
na gloriosa viagem que, a 12 de outubro de 1492, os equivocou, ou mentiu. conduzira a certas ilhas misteriosas, repletas de árvores e de “gente nua (…) de
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corpos bonitos e cara muito boa (…) mansos e pacíficos”. Embora tal arquipélago na verdade ficasse no mar do Caribe, tanto Colombo como Pinzón concluíram de imediato que haviam chegado ao litoral oriental da Ásia.
Apesar de em janeiro de 1500 essa tese parecer cada vez menos provável, Colombo e o próprio Pinzón continuavam acreditando que as terras que tinham descoberto em 12 de outubro de 1492 eram parte de Cipango (o Japão de Marco Polo) e que eles haviam encontrado o caminho marítimo que conduzia da Europa para a Ásia pela rota do poente. Mas o fato é que quase uma década se passara desde então e as opulentas cidades do Oriente, com suas sedas e suas especiarias, ainda não haviam sido encontradas nem por Colombo nem por nenhum de seus seguidores. Por Nascido em 1460,
isso, nos primeiros anos do século XVI vastas Vicente Yáñez Pinzón extensões do oceano Atlântico continuavam sendo (acima) era nativo de
percorridas pelos espanhóis em busca de uma terra que Palos, um dos principais
não estava lá. portos do sul da Espanha.
Dessa vez, Pinzón havia financiado a expedição do Lá mesmo, por volta de
próprio bolso. Com o dinheiro que recebera como 1489, ele conhecera prêmio pela descoberta de 1492, ele armou quatro Cristóvão Colombo. Junto
caravelas e contratou cerca de 150 homens, entre os com seus irmãos, Martin
quais seus sobrinhos Arias Pérez e Diogo Fernández, Alonso e Francisco, Vicente
mais os pilotos Juan de Umbria, Juan de Xerez e Juan não apenas aceitou Quintero – veteranos das três primeiras viagens de participar da viagem de
Colombo. No dia 18 de novembro de 1499, a frota alto risco que Colombo
zarpou em direção às ilhas Canárias, localizadas diante havia convencido os reis
da costa ocidental da África. Fernando e Isabel, de
Antes do Natal de 1499, as quatro caravelas já Aragão e Castela, a
aportavam em Santiago, uma das ilhas do financiar como bancou, arquipélago de Cabo Verde, na qual permaneceriam junto com os irmãos, um
ancoradas por cerca de três semanas. Então, no dia 13 oitavo dos custos da
de janeiro de 1500, Pinzón partiu rumo ao sudoeste, expedição. Escalado para
em direção às novas terras que o próprio Colombo e ser o capitão da caravela
Alonso de Hojeda tinham descoberto havia pouco mais Niña, Vicente também se
de um ano e que ficavam ao sul das ilhas do Caribe, tornou o maior
achadas em 1492. Como seus dois antecessores, Pinzón responsável pelo
também esperava chegar às porções continentais da recrutamento da
Ásia. tripulação: foi ele quem
à partida de Santiago, representa a rota de Pinzón uma rota que até então tudo correu bem e os segundo três interpretações. jamais havia sido ventos alísios A primeira indica sua Nos oito dias seguintes O mapa a seguir marujos de Palos a seguir convenceu os relutantes empurraram os navios chegada ao cabo Orange. percorrida. Ao contrário de
desejado. Mas a 21 historiador luso Duarte retorno à Espanha, em de janeiro, assim que a Leite, em 1926. A segunda, 1493, já rompido com frota cruzou o equador e estabelecida de Pinzón no rumo Essa tese foi defendida pelo morreu poucos dias após o Francisco e Martin (que
a estrela Polar – um Guedes, marca sua chegada permaneceria fiel ao símbolo por Justo Colombo), Vicente
localização universal de ao Ceará e é a mais almirante genovês até a para os provável. A terceira o navegantes – “afogou-se” conduz até o cabo de Santo morte dele, em maio de no horizonte norte, Agostinho (PE) e baseia-se 1506. “nasceu uma terrível nas afirmativas feitas pelo tempestade de ondas e próprio Pinzón em 1515.
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turbilhões de vento”. Por
uma semana, vagalhões enormes e os ventos uivantes que os acompanhavam quase fizeram soçobrar as caravelas. Elas só conseguiram “seguir seu caminho com
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grande perigo”.
Ironicamente, o mau tempo acabaria permitindo a Pinzón realizar uma das mais rápidas travessias entre Cabo Verde e o Brasil. Suas caravelas gastaram apenas 13 dias para cobrir uma distância de 1.400 milhas náuticas (ou cerca de 2.390 quilômetros) – trajeto que custaria cerca de um mês de viagem a quase todas as expedições subsequentes, entre as quais a comandada pelo português Pedro Álvares Cabral. E então, na manhã de 26 de janeiro de 1500, vencidos todos os perigos do mar, Pinzón e seus homens desembarcaram em um cabo.
Eles o chamaram de “Santa Maria de la Consolación”. Era a ponta do Mucuripe, no Ceará.
Ali, Pinzón permaneceu apenas um dia ou dois. Durante a noite, após o desembarque, seus homens tinham visto grandes fogueiras ardendo a distância, na costa que se estendia em direção ao noroeste. Na manhã de 27 (ou 28) de janeiro, a frota zarpou naquela direção. Depois de navegar pouco mais de 100 quilômetros, os navios chegaram à foz de um rio tão belo que Pinzón o batizou com o nome de rio Formoso. Provavelmente era o atual rio Curu, 120 quilômetros ao norte de Fortaleza.
Na gravura acima, uma
Na praia, às margens do rio, havia cerca de 40 nativos. Os espanhóis desembarcaram em quatro versão romanceada do
escaleres e tentaram estabelecer contato com eles. Mas confronto entre os homens
de Pinzón e os Potiguar, às
guizos, colares de contas e espelhos não foram capazes de atraí-los e os indígenas mantiveram distância. De margens do rio Curu, no
Ceará, publicada por autor
repente, um deles lançou à areia um objeto dourado:
anônimo em 1886.
era “uma vara”, diz um dos cronistas da expedição, ou
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uma “barra de dois palmos”, de acordo com outro. Quando um dos marujos adiantou-se e se agachou para apanhá-la, os nativos se jogaram sobre ele. Armado de espada e escudo, o marinheiro lutou para se defender, mas foi morto por um golpe de tacape desferido pelas costas. Um conflito violento eclodiu então entre cerca de 20 espanhóis e os 40 nativos.
Em outubro de 1500, menos de um mês após ter retornado à Espanha, Pinzón manteve um encontro com o sacerdote, militar e historiador italiano Piero Martir de
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Anghiera – que veio a se tornar o principal cronista daquela viagem. Durante uma tarde inteira, Pinzón contou a ele o que teria se passado às margens do rio Curu. Eis a narrativa do capitão, conforme redigida por Anghiera:
“Dentro do rio, aqueles homens belicosos cercam o bote, avançam temerariamente e agarram da margem o corpo dos escaleres. São trucidados a lança e a espada como ovelhas, porque estavam nus. Nem assim se retiram. Arrebatam do poder dos nossos um barco, depois de trespassado e morto com uma seta o seu mestre; os outros puderam safar-se. Para concluir em breves palavras [pois tão ansiosamente me fazes ver que te retiras]: mataram oito dos nossos com setas e dardos e mal houve um que não recebesse alguma ferida. Se suas setas tivessem sido ervadas [envenenadas], nenhum dos nossos teria conservado a existência.”
Esse primeiro encontro entre espanhóis e indígenas no Brasil é surpreendente e em tudo desigual àquele que, três meses mais tarde, aguardaria os portugueses, na Bahia. A explicação é simples: enquanto Cabral e seus homens encontraram-se com os Tupiniquim e estabeleceram com eles uma relação pacífica, os marujos de Pinzón desembarcaram no território dos Potiguar e podem tê-los provocado.
Os Potiguar – “comedores de camarão”, em tupi – eram cerca de 90 mil. Seu território se estendia desde o rio Acaraú (100 quilômetros ao norte do Curu) até a altura da atual cidade de João Pessoa (uns 600 quilômetros mais ao sul). Embora
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os Potiguar fossem agressivos, alguns historiadores acham que Pinzón não contou toda a verdade sobre o episódio. O fato de ele, pouco mais tarde, ter capturado 36 nativos para vendê-los como escravos na Espanha parece indicar que, naquele primeiro encontro, os espanhóis teriam tentado prender alguns indígenas – e foram rechaçados por eles.
O fato é que, após o embate às margens do rio Curu, Pinzón e seus homens decidiram partir, seguindo a linha da costa, rumo ao noroeste. No dia seguinte ao combate, vislumbraram outro acidente geográfico do litoral brasileiro. Era uma ponta arenosa, tão formosa e bem-feita que se assemelhava a “um vermelho bico de
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cisne mergulhando no oceano”. Decidiram chamá-la de “Rostro Hermoso” (ou “Face Linda”). Tratava-se da ponta de Jericoacoara – cuja beleza hoje atrai turistas de todo o mundo. Ali, Pinzón mandou fincar uma cruz com os brasões da Coroa de Castela e seguiu em frente, acompanhando os caprichosos contornos do litoral. Alguns dias mais tarde, outro capitão espanhol, Diego de Lepe, encontrou essa cruz. Poucas semanas depois, Lepe cruzaria com a frota de Vicente Pinzón, sem vê-la.
Nos primeiros dias de fevereiro de 1500, a 40 léguas (cerca de 240 quilômetros) a nordeste da ponta de Jericoacoara, os homens de Pinzón viveriam a mais surpreendente experiência de sua viagem. Ela se iniciou quando eles escutaram um estrondo contínuo e inquietante. A seguir, seus navios foram agitados por correntes fortíssimas. Então os marujos perceberam que as águas pelas quais navegavam já não eram salgadas: os baldes jogados do convés voltavam cheios de água doce.
Pela primeira vez na história, os europeus deparavam com o fenômeno que os indígenas chamavam de pororoca (“estrondo”, em Tupi-Guarani). Era o majestoso encontro das águas do rio Amazonas com as águas do oceano Atlântico.
Vencendo a maré e balançando sobre ondas de quase dois metros, Pinzón seguiu em frente e logo chegou à imensa foz de um rio, “uma boca que saía no mar 15
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léguas (cerca de 90 quilômetros), com grandíssimo ímpeto”. Os espanhóis concluíram que um curso d’água tão monumental só poderia “nascer em vastos
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montes” e que necessariamente precisaria percorrer uma enorme distância antes de
se tornar poderoso a ponto de “adoçar” o mar. Tiveram então a certeza de que a terra que ele banhava deveria ser parte de um continente: a Ásia, julgaram eles.
Aquele “mar doce” estava coalhado de ilhas – algumas enormes; todas “felizes pela fertilidade do solo”; a maioria “habitada de gente mansa e sociável, mas pouco úteis para os nossos porque não possuem produtos desejáveis, a saber: ouro e
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pedrarias”. A frota de Pinzón estava na baía de Marajó. Os nativos chamavam a
região de Mariatambal. Pinzón manteve o nome, mas batizou aquele imenso curso d’água de Santa Maria de la Mar Dulce. Tinha acabado de descobrir o maior rio do planeta – o mesmo que, 40 anos mais tarde, seria chamado de Amazonas pelo primeiro explorador que o navegou da nascente à foz, o também espanhol Francisco de Orellana.
Pinzón decidiu explorar o interior da região, que julgava ser “a Índia além do
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Ganges, nas proximidades da grande cidade de Catai (a China)”. Seus navios
subiram o curso do rio imenso, avançando contra a corrente e percorrendo cerca de 50 léguas (aproximadamente 300 quilômetros) com muita dificuldade. As margens eram densamente habitadas e repletas de aldeias. Havia árvores tão grandes “que
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um cordão de 16 homens unidos pelas mãos não era capaz de abraçá-las”. Os
animais eram todos desconhecidos e pareciam monstruosos. Um deles, um enorme sariguê (espécie de gambá), foi levado para a Espanha, aonde chegou morto, mas
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seu corpo, “bem conservado, causou a admiração de quantos o viram”.
A exploração se prolongou por duas semanas. À noite, quando os navios ancoravam, da floresta ecoavam ruídos assustadores. Durante o dia, milhares de pássaros enchiam o ar com o trinado maravilhoso de seu canto. “Para não retornar sem ganho”, conta Anghiera, “[Pinzón] levou daí 36 escravos, pois outra coisa não achou”, embora, a cada novo encontro, os nativos lhe assegurassem que “dentro da terra havia grande quantidade de ouro” – ou pelo menos foi isso que os espanhóis entenderam dos sinais que os indígenas lhes faziam.
AS JORNADAS DE LEPE E DE HOJEDA
Enquanto os navios de Vicente Pinzón se encontravam navegando pelas águas escuras do Amazonas, uma outra expedição espanhola cruzou ao largo da baía de Marajó. Era uma frota de três caravelas, chefiada por Diego de Lepe – que, por coincidência ainda maior, era parente de Pinzón.
Lepe também partira de Palos, no início de dezembro de 1499. Como seu primo, ele zarpou em direção às Canárias e, a seguir, ancorou na ilha do Fogo, uma das dez que constituem o arquipélago de Cabo Verde, localizado defronte à costa do Senegal, na África. Dali, partiu rumo ao sudoeste, decidido a seguir a rota que Cristóvão Colombo descobrira em sua terceira viagem à América, em maio de 1498, e que já fora singrada pela expedição de Alonso de Hojeda e pela própria frota de Pinzón. Como os que tinham partido antes dele, Lepe também pretendia chegar aos fabulosos reinos de Cipango e Catai.
Ao cabo de 20 dias de navegação oceânica, Diego de Lepe avistou terra. Como restam pouquíssimas fontes para a reconstituição de sua viagem, não se sabe ao certo em que ponto da costa brasileira seus navios aportaram, no início de fevereiro de 1500. Alguns historiadores acham que foi no cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Outros afirmam que foi no cabo de São Roque, o ponto da costa brasileira geograficamente mais próximo da África, localizado a uns 100
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quilômetros ao norte da atual cidade de Natal, no Rio Grande do Norte. Dali, Lepe
teria seguido em direção ao sul, mas, ao perceber que a costa se inclinava em direção ao sudoeste, fez a volta e partiu para o norte, seguindo a mesma rota que Pinzón percorrera um mês antes.
Quando a frota chegou à baía de Marajó, Lepe A Viagem de Lepe
deparou com aldeias fumegantes e nativos enfurecidos. Apenas três fontes Provavelmente era o resultado da recente passagem de
originais se referem à
seu primo Pinzón por ali. Mas disso Diego de Lepe não viagem de Diego de Lepe à
pôde obter notícia, já que, a cada desembarque, os
América. São elas: uma
indígenas atacavam seus homens com redobrada
carta que os Reis Católicos,
ferocidade. Certa ocasião, segundo a narrativa do frei Fernando e Isabel, Bartolomeu de las Casas, 11 tripulantes da frota foram
enviaram ao bispo de
surpreendidos quando enchiam barris com água de um
Córdoba, Juan Rodrigues
córrego e mortos numa praia baixa e lamacenta. de Fonseca, em 15 de
Depois de capturar 20 escravos, provavelmente em novembro de 1500; a
algum lugar da costa hoje pertencente ao Maranhão, narrativa da viagem feita
Lepe seguiu rumo às ilhas do Caribe, onde os espanhóis pelo historiador frei já haviam estabelecido alguns vilarejos. Durante esse Bartolomé de las Casas; e
percurso, feito em abril de 1500, Diego de Lepe se as menções feitas à tornou o descobridor de toda a faixa litorânea que vai expedição durante o do cabo Norte, no atual Amapá, à foz do Oiapoque, o processo judicial chamado
rio que hoje delimita a fronteira entre o Brasil e a de Probanzas del Fiscal, já Guiana Francesa. citado.
O trecho seguinte do litoral – aquele que se estende do Oiapoque ao rio Corantijn (na atual fronteira entre o Suriname e a Guiana) – havia sido descoberto menos de um ano antes pelo espanhol Alonso de Hojeda, que navegara por ali em companhia do piloto e cartógrafo Juan de la Cosa e de um cosmógrafo florentino chamado… Américo Vespúcio. A presença de Vespúcio e de Juan de la Cosa nessa viagem a vincula à história do Brasil. Vale a pena, portanto, recordá-la. Para isso, contudo, é aconselhável recuar um pouco no tempo e averiguar o papel até então desempenhado por Hojeda na trama dos descobrimentos.
Alonso de Hojeda (ou Ojeda), jovem e temerário fidalgo, era o típico conquistador espanhol. “Alto e atraente”, dizem que ele despertava “a atenção tanto de mulheres quanto de homens”. Mas, além de corajoso e destemido, era também
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homem “ganancioso, rude e extremamente cruel”. Depois de participar, desde
muito jovem, da luta pela reconquista cristã da Península Ibérica, ele se tornara um dos favoritos da rainha Isabel, mulher do rei D. Fernando. Diz a lenda que a soberana teria ficado impressionada com as piruetas que o jovem fidalgo fora capaz de realizar, pendurado em uma viga suspensa na Giralda, uma torre de mais de 50 metros no centro de Sevilha.
Fato ou ficção, a verdade é que Alonso de Hojeda se tornou também um protegido de D. Juan Rodrigues de Fonseca, bispo de Córdoba e responsável por todos “os negócios da Índia”. Foi provavelmente para agradar aos dois principais admiradores de Hojeda – a rainha e o bispo – que Colombo o escolheu como capitão de uma das caravelas que fariam parte de sua segunda viagem à América. O almirante teria o resto da vida para lamentar a decisão.
De fato, em setembro de 1493, Colombo e Hojeda partiram da Espanha a bordo de uma armada imponente, com 17 navios e 1.200 tripulantes. Embora eles tenham descoberto as ilhas de Porto Rico, Jamaica e Hispaniola (hoje dividida entre Haiti e República Dominicana), a viagem foi um fiasco. Após cometer uma série de atrocidades contra os nativos, Hojeda fugiu para Cuba sem comunicar ao almirante. De lá, retornou para a Espanha. Ao chegar à Europa, conseguiu se livrar de todas as punições, não só por suas relações na corte, mas também porque Colombo – que já se revelara péssimo administrador – estava caindo em desgraça com os Reis Católicos. Desse modo, suas acusações contra desertores como Hojeda foram solenemente ignoradas.
Ainda assim, em 1498, cinco anos após os desastrados episódios que marcaram essa segunda expedição ao Caribe, Colombo conseguiu obter financiamento para uma terceira tentativa de encontrar, a oeste da Europa, as ricas cidades do Oriente – as mesmas que Marco Polo havia visitado e descrito dois séculos antes.
Ocorre que, apenas três dias antes de Colombo Abaixo, retrato do Rei
zarpar de Sevilha, Vasco da Gama tinha chegado à Católico D. Fernando, de
Índia – embora disso, naquele momento, nem Aragão, marido da rainha
Cristóvão nem ninguém na Europa tivesse notícia. D. Isabel, de Castela, e,
Com efeito, em 27 de maio de 1498 os portugueses junto com a esposa, haviam sido capazes de concretizar um sonho principal financiador das acalentado por quase um século: após contornar a viagens de Colombo. África e cruzar o oceano Índico, Gama tinha descoberto a rota que conduzia da Europa ao reino das especiarias pelo único caminho marítimo possível.
Na verdade, fora apenas porque ficara sabendo que seu genro, o rei D. Manoel, de Portugal, havia enviado aquelas três caravelas comandadas por Vasco da Gama com a missão de atingir a Índia por mar – e porque soubera também que o rei da Inglaterra, Henrique VII, tinha acabado de contratar o genovês Giovanni Caboto para que ele tentasse descobrir um caminho marítimo para a China através do mar do Norte – que D. Fernando havia decidido dar uma nova (e supostamente última) chance para Colombo.
Ao partir de Sevilha, em 30 de maio de 1498, Colombo decidiu mudar de tática, alterando radicalmente a rota que havia percorrido em suas viagens anteriores. Seguiu direto até as Canárias, mas aí, ao invés de guinar para oeste, no rumo dos ventos alísios – rota que o conduziria novamente ao Caribe –, o almirante preferiu descer ao longo do litoral africano e seguiu até o arquipélago de Cabo Verde. Só então guinou para o poente, cruzando o Atlântico em latitudes mais próximas da linha do equador (veja a rota das quatro viagens de Colombo a seguir).
De acordo com o historiador americano Samuel O mapa a seguir mostra
Eliot Morison (1887-1976), ao escolher essa rota, o a rota seguida por descobridor da América estaria, na verdade, disposto a Colombo em suas quatro
comprovar uma informação que o rei D. João II, de viagens à América. Na
Portugal (morto em 1495), teria lhe dado em 1493: a terceira delas, ao chegar às
de que ao sul das ilhas do Caribe, que o próprio Canárias, o almirante Colombo havia descoberto um ano antes, existia um decidiu “descer” até as ilhas
continente. de Cabo Verde e só então
Fosse assim ou não, o fato é que, ao meio-dia de 31 guinar para oeste. Essa
de julho de 1498, Cristóvão Colombo se tornou (sem o rota guarda certas saber) o descobridor oficial da América do Sul. semelhanças com o Embora cinco anos antes ele tivesse obrigado seus caminho marítimo seguido
homens a jurar, sob terríveis ameaças, que a ilha de por Vasco da Gama, cerca
Cuba era terra firme, a verdade é que só naquele de um ano antes. Isso
momento o almirante estava enfim aportando em parece ser o indicativo de
extensões continentais. que Colombo de fato
estava seguindo os conselhos que lhe teriam
sido dados pelo rei D. João
II, de Portugal.
Mais uma vez, porém, a primeira terra avistada era apenas uma ilha. Colombo batizou-a de Trinidad – nome que se mantém até hoje. Logo a seguir, a pequena frota (constituída por uma nau e duas caravelas, tão diferente da portentosa esquadra com 17 embarcações que ele orgulhosamente comandara em sua segunda viagem, entre setembro de 1493 e junho de 1496) chegou ao golfo de Pária, na costa da atual Venezuela.
Colombo cruzou então pelo delta do rio Orenoco e navegou ao longo do litoral da Venezuela, passando por uma grande ilha que chamou de Margarita. Em seguida, o almirante guinou para o norte, voltando a singrar, pela terceira vez em sua vida, as águas translúcidas do Caribe.
Apesar de os indígenas de Pária assegurarem que a região era rica em pérolas, Colombo não explorou a terra firme. Ao rei D. Fernando ele justificou essa atitude com duas explicações: primeiro, seus navios seriam “grandes demais para
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aproximar-se da costa”. De fato, as duas caravelas utilizadas naquela viagem tinham, respectivamente, 100 e 70 toneladas de arqueação. Seu calado era, portanto, bem maior do que o das caravelas “boas para descobrir” usadas pelos portugueses em explorações costeiras (que, em geral, tinham entre 25 e 40 toneladas). Além disso, o almirante estava “com os olhos quase perdidos por não dormir, devido às longas
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vigílias que havia tido”.
Em 18 de outubro de
Cristóvão Colombo
1498, a nau capitânia da
frota de Colombo partiu retornando acorrentado
da para a Espanha, depois de ilha de São
ser destituído de seus
Domingos, no Caribe,
em direção à Espanha, cargos na América. para comunicar as novas descobertas. O próprio Colombo permaneceria por mais dois anos no Caribe (de onde só retornaria em outubro de 1500, acorrentado e destituído de seus cargos). Em dezembro de 1498, quando a capitânia chegou a Sevilha, as
A Rainha Católica Isabel, notícias sobre as pérolas do golfo de Pária se
de Castela, que era espalharam pelo reino. Vários aventureiros se
contrária à escravização dispuseram a verificar a veracidade daquelas
dos nativos do Novo informações. Quem primeiro obteve licença real para
Mundo. explorar a região – concedida pelo bispo Fonseca e
sancionada pela rainha Isabel – foi justamente… o belo
e inescrupuloso Alonso de Hojeda, o desafeto de Colombo.
Assim, em 18 de maio de 1499, financiado por banqueiros e mercadores de Sevilha, e acompanhado pelo cosmógrafo Juan de la Cosa e pelo florentino Américo Vespúcio (que talvez também tenha ajudado a financiar a expedição), Hojeda partiu de Cádiz com três caravelas. A tripulação era formada “pelos homens mais
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brutais” que Hojeda pudera recrutar – de tal forma que o historiador Samuel E.
Morison chamou a frota de “uma esquadra semipirata”. De fato, na viagem de ida, Hojeda vendeu armas e pólvora para os árabes no porto de Safi, no Marrocos; tomou uma caravela portuguesa que navegava ao longo da costa africana, incorporando-a à sua frota; e saqueou a casa da filha da amante de Colombo, Doña Beatriz de Pereza y Bobadilla, nas Canárias.
Em fins de junho de 1499, após cruzar o Atlântico, A Viúva Negra
a expedição avistou terra. Provavelmente era o litoral Foi no dia 2 de
das Guianas. Seguindo rumo ao noroeste, Hojeda
setembro de 1492, quando
cruzou pelo soberbo delta do Orenoco e, como chegou à ilha de Gomera,
Colombo antes dele, se espantou com o volume d’água
uma das Canárias, durante
que esse rio jogava contra o mar – fenômeno muito
a viagem que o levaria a
similar à pororoca provocada pelo Amazonas e que descobrir a América, que
Pinzón vislumbraria seis meses mais tarde. Ali, de
Cristóvão Colombo
fato, Hojeda obteve algumas pérolas, mas logo se
conheceu Doña Beatriz de
incompatibilizou com os indígenas, depois que eles se Pereza y Bobadilla, viúva
recusaram a fornecer alimentos para a sua tripulação;
do antigo governador de
20 nativos – provavelmente os chefes – foram passados Gomera. Segundo o relato
a fio de espada em frente à tribo estarrecida. de alguns de seus
Em seguida, a frota de Hojeda penetrou no golfo de marinheiros, Colombo Pária, que Colombo descobrira um ano antes, passou teria se interessado por ela.
pela ilha Margarita e, a seguir, descobriu as atuais Em 2 de outubro do ano
Bonaire e Curaçao, entrando no golfo de Maracaibo. seguinte, ao retornar do
Dentro dessa ampla baía, os espanhóis viram uma Caribe, Colombo tornou a
aldeia erguida sobre palafitas. Hojeda chamou-a de aportar em Gomera, para
Venezuela, ou “pequena Veneza”. Sem saber, estava rever Doña Beatriz. Em
batizando um futuro país. maio de 1498, Colombo
Em fins de maio de 1500, depois de inúmeros voltaria a Gomera para se
ataques a aldeias localizadas em várias ilhas do Caribe encontrar com a amante.
(e quando a esquadra de Cabral já havia deixado Mas o caso terminou
Porto Seguro, zarpando em direção à Índia) a frota de abruptamente quando o
Hojeda iniciou seu retorno à Espanha. Levava 232 almirante soube que, pouco
escravos a bordo – embora a rainha Isabel, convencida antes, Beatriz mandara
da inalienável “liberdade natural” dos nativos, tivesse enforcar um homem que
proibido terminantemente a escravização dos espalhara o boato de que habitantes das terras recém-descobertas. ela e Colombo tinham um
Pelos curiosos meandros da História, essa viagem caso. O corpo desse de Alonso de Hojeda acabaria estabelecendo uma homem ficara exposto na
estreita e peculiar relação com a história do Brasil. frente do castelo de Doña
Começando pelo fim: em 1854, Francisco Adolfo de Beatriz até apodrecer. Mais
Varnhagen (1816-1878), um dos mais profícuos tarde, ela se casou com D. historiadores brasileiros, defendeu a tese (e a ela se Alonso de Lugo, capitão da
manteve fiel até a morte) de que Hojeda fora o Gran Canária, tido como
primeiro europeu a chegar às terras que hoje pertencem um homem tão cruel
ao Brasil. Tese essa que, na época, teve, como é fácil quanto ela mesma. A filha
supor, grande impacto e repercussão nos círculos de Doña Beatriz se acadêmicos e no meio intelectual. chamava Inés de Pereza e
De acordo com vivia na ilha de Lanzarote, Varnhagen, um mês uma das Canárias. Ao após partir das Canárias, saquear a casa dela,
Hojeda teria aportado Hojeda teria obtido uma
não nas Guianas, mas fortuna em joias. Esses
quase dois mil casos foram narrados por quilômetros mais ao sul, Samuel E. Morison. no delta do rio Assu, no
atual Rio Grande do
Norte, quase na fronteira
com o Ceará, e só então
seguido até a Venezuela. Juan de la Cosa, Ocorre que Varnhagen companheiro de Colombo foi induzido ao erro pela na descoberta da América e carta que Américo cartógrafo que fez o Vespúcio redigiu em primeiro mapa no qual foi Sevilha, em 18 de julho representado um trecho do de 1500, e enviou para litoral do Brasil, então Lorenzo di Pierfrancesco ainda identificado como de Médici, narrando sua uma ilha. atribulada jornada em
companhia de Hojeda (cujo nome não citou uma única vez, dando a entender que ele próprio chefiara a missão). Mas Vespúcio ou mentiu, ou se equivocou nas medições astronômicas, errando em cerca de dez graus a latitude das terras então visitadas. Sabe-se hoje que a expedição de Hojeda e Vespúcio com certeza não esteve ao sul das Guianas.
De todo modo, a própria presença de Américo Vespúcio na frota de Hojeda é o segundo ponto em comum entre essa viagem e a história do Brasil. Afinal, menos de um ano após seu retorno à Espanha, Vespúcio passaria a servir o rei de Portugal, partindo para uma nova expedição – quando, então, de fato viria ao Brasil. Por fim, foi também depois de acompanhar Hojeda em 1498 que o piloto e cartógrafo Juan de la Cosa produziu o primeiro mapa a representar a América – e também o primeiro no qual aparece um trecho do litoral brasileiro.
Companheiro de Colombo em suas duas primeiras viagens, em 1492 e 1493, Juan de la Cosa foi recrutado, ou se alistou, na expedição de Hojeda. Nascido em Biscaia, na Espanha, em 1460, era um navegador com larga experiência. Na viagem que culminara com o descobrimento da América, em 1492, havia sido o capitão (e, segundo alguns historiadores, era o proprietário) da nau Santa Maria, na qual viajou o próprio Colombo e que naufragou no Caribe. Nos documentos relativos à expedição subsequente, realizada já no ano seguinte, 1493, La Cosa surge nos documentos identificado apenas como “mestre na arte de fazer cartas de marear”. E foi justamente com essa qualificação que seu nome acabou se vinculando à história do Brasil.
Com efeito, ao retornar a Sevilha, em maio de 1500, ele começou a fazer o mapa que entraria para a história da cartografia mundial. Em junho, quando a carta já estava sendo desenhada, La Cosa ficou sabendo que uma expedição portuguesa, comandada por Pedro Álvares Cabral, havia descoberto “uma ilha’’ no Atlântico,
o
mais ou menos a 15 de latitude sul. Tal informação havia chegado à Europa através da caravela de Gaspar de Lemos, que Cabral mandara retornar a Portugal com a notícia do descobrimento. De imediato, La Cosa tratou de incluir essa suposta “ilha” em sua obra.
No último dia de setembro de 1500, depois de ter deixado o Amazonas e seguido para o Caribe, Vicente Pinzón também retornara à Espanha. Há indícios de que, ao chegar a Sevilha, Pinzón se encontrou com Juan de la Cosa na primeira semana de outubro, quando o mapa já estava quase pronto. Ao final do mês, La Cosa partiria novamente para o mar. Antes de zarpar, porém, teve tempo de acrescentar à sua obra o trecho que representa a costa brasileira, desde o Ceará até o Amapá – trecho esse que lhe fora descrito por Pinzón.
O mapa de Juan de la Cosa se tornaria a principal A seguir, a reprodução
prova de que Pinzón foi o primeiro navegador europeu do trabalho feito por Max
a desembarcar oficialmente em terras hoje brasileiras,
Justo Guedes, do Serviço
embora, até os estudos pioneiros de Max Justo Guedes Geral de Documentação da
(1927-2011), concluídos em 1975, fosse bastante difícil
Marinha Brasileira, no
precisar exatamente onde. O próprio mapa tem uma
qual ele justapõe os
trajetória atribulada: desapareceu no final do século contornos do mapa de
XVI e só foi reencontrado em 1828, quando um
Juan de la Cosa aos
diplomata holandês, o barão de Walckenaer, o contornos de um mapa
adquiriu de um antiquário parisiense. Em 1832, atualizado do litoral Alexander von Humboldt estudou o mapa na própria brasileiro. Foi baseado
biblioteca de Walckenaer e divulgou sua existência ao nessa justaposição que
mundo científico. Em 1853, o Museu Naval de Madri Justo Guedes pôde concluir
conseguiu adquirir a obra de La Cosa e a incorporou que Vicente Pinzón aportou
ao seu acervo, do qual faz parte até hoje. na ponta de Mucuripe, no
Ceará, tornando-se, assim,
o primeiro navegador europeu a desembarcar
oficialmente no Brasil.
Foi lá, no ano seguinte, que Varnhagen o examinou e concluiu que Alonso de Hojeda estivera no Brasil em junho de 1499, seis meses antes de Pinzón e nove antes de Cabral. Mas seus estudos – que, mais do que no mapa de La Cosa, se fundamentaram no relato feito por Américo Vespúcio – estavam equivocados. Atualmente está provado que Hojeda não esteve em território brasileiro.
ENTRAM EM CENA OS PORTUGUESES A seguir, reprodução
De qualquer forma, tudo isso não foi mais do que parcial do mapa de Juan
um mero prelúdio. Afinal, embora de fato tenham de la Cosa, o primeiro a
precedido Cabral em cerca de três meses, as expedições representar a América. As
de Pinzón e de Diego de Lepe não tiveram, como bem bandeiras com uma cruz
se sabe, consequências práticas para a história do representam os territórios
Brasil. Em primeiro lugar, Pinzón e Lepe estavam pertencentes à Espanha e as
seguindo a nova rota aberta por Cristóvão Colombo bandeiras com um em busca de Cipango e de Catai – e o próprio Colombo quadrado ao centro (de acordo com Samuel E. Morison, seu mais mostram as possessões respeitável biógrafo) só seguira esse novo caminho portuguesas. As duas graças às informações que lhe dera o rei D. João II, de pequenas ilhas no meio do
Portugal. Atlântico representam o
território avistado por Pedro Álvares Cabral em
22 de abril de 1500.
Além disso, a costa visitada por Pinzón e por Lepe – um litoral baixo e lamacento, percorrido por tribos ferozes e banhado por correntes marítimas contrárias e perigosas – era de tal forma agreste que permaneceria inexplorada até o começo do século XVII, só sendo conquistada, e a muito custo, pelos portugueses Pero de Sousa e Martim Soares Moreno a partir de 1604. E por via terrestre.
E, de todo modo – soubesse ou não o rei D. João II da existência de uma “nova parte do mundo” sobre a qual teria comentado com Colombo –, o certo é que, no segundo semestre de 1497, quando navegava em direção à Índia, Vasco da Gama já pressentira, ele próprio, a existência dessas mesmas terras. Com efeito, no dia 22 de agosto daquele ano, depois de zarpar das ilhas de Cabo Verde, rumo à Índia, Gama e seus homens avistaram, em pleno mar, aves marinhas voando “muito rijas, como
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aves que iam para terra”. Gama não pôde, nem quis, desviar sua rota para segui-
las, mas a aparição foi registrada no seu diário de bordo. Naquele momento, os navegadores portugueses estavam interessados na verdadeira Índia – que eles sabiam que ficava a leste, para além do oceano Atlântico, depois do cabo da Boa Esperança –, e não nas terras que Colombo descobrira a oeste.
Mas, em junho de 1499, logo que Vasco da Gama retornou a Lisboa com a notícia longamente aguardada de que a Índia podia ser alcançada por mar, o rei de Portugal, D. Manoel, sucessor de D. João II, tratou de organizar o envio de uma nova expedição para o fabuloso reino das especiarias. Em sua jornada de ida, essa expedição poderia explorar também a margem ocidental do Atlântico, cuja posse Portugal assegurara desde o Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494.
Assim, em 9 de março de 1500, oito meses após o retorno de Gama a Portugal – e enquanto Vicente Pinzón e Diego de Lepe já navegavam pelos limites setentrionais da América do Sul –, uma frota imponente, formada por dez naus e três caravelas, zarpou de Lisboa, com 1.500 homens a bordo. Sob o comando de Pedro Álvares Cabral, essa armada fora incumbida da missão de instalar uma feitoria em Calicute, na costa ocidental da Índia. Lá, deveria obter – pela diplomacia ou pelas armas – o monopólio do comércio de pimenta e canela, que, até então, se mantinha nas mãos de mercadores árabes. Esse era o objetivo primordial da missão comandada por Cabral.
Porém, antes de partir, Cabral manteve vários encontros com Vasco da Gama. O descobridor da Índia redigiu instruções náuticas detalhadas para o futuro descobridor do Brasil. Esse documento – que Cabral levou consigo a bordo – sobreviveu aos séculos e o rascunho dele está preservado na torre do Tombo, em
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Lisboa. Seguindo tais indicações, a frota de Cabral zarpou de Lisboa em direção à
Índia pela rota que Gama e, antes dele, Bartolomeu Dias, tinham estabelecido.
Depois de 44 dias de viagem, no entardecer de 22 de abril de 1500 – quando a frota, por motivo nunca plenamente compreendido, se encontrava muito mais a oeste do que o necessário para contornar o cabo da Boa Esperança (a última ponta da África) –, Cabral e seus homens vislumbraram um morro alto e redondo, que batizaram de monte Pascoal. Esse morro fica no sul da Bahia. Foi a descoberta oficial do Brasil pelos portugueses. Os fatos e desdobramentos da jornada de Cabral estão narrados em detalhes no livro A viagem do descobrimento, primeiro volume da Coleção Brasilis.
Durante os dez dias seguintes, a frota de Cabral permaneceu ancorada em uma esplêndida enseada tropical, hoje chamada baía Cabrália, uns 20 quilômetros ao norte da atual Porto Seguro, reconhecendo o novo território. Durante esse tempo, manteve pacífica convivência com os nativos. Os indígenas com os quais os homens de Cabral fizeram contato eram os Tupiniquim – tribo tupi com a qual mantiveram um relacionamento bem mais amistoso do que aquele de Pinzón e Lepe com os Potiguar.
No dia 2 de maio, deixando em terra dois degredados (e dois grumetes que desertaram), Cabral partiu para a Índia. Na mesma manhã, a naveta de mantimentos (esvaziada de seu conteúdo) seguiu para
Vasco da Gama, o
Lisboa, sob o comando de Gaspar de Lemos, levando a
descobridor do caminho
bordo cerca de 20 cartas (entre as quais a célebre
marítimo para as Índias.
missiva de Pero Vaz de Caminha) nas quais Cabral, seus capitães e os escrivães da armada narravam a descoberta para o rei D. Manoel.
Enquanto a frota de Cabral navegava para o sul (seguindo o litoral possivelmente até a altura de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, antes de guinar para sudeste, em direção ao cabo da Boa Esperança, e daí para a Índia), a naveta de Gaspar de Lemos avançava em direção ao noroeste, acompanhando a costa brasileira provavelmente até o cabo de São Roque, no Rio Grande do Norte – já que este acidente geográfico também aparece no mapa de La Cosa.
Em junho de 1500, a naveta de Lemos aportou em Lisboa. A bordo, além das cartas, de vários papagaios e alguns macacos, de amostras minerais de pouco valor e de toras de pau-brasil, o navio levava um índio (que Lemos provavelmente capturara após ter se separado de Cabral, já que o comandante fora terminantemente contrário ao aprisionamento de nativos). O primeiro indígena brasileiro a desembarcar em Portugal causou espanto na corte. Ele foi “recebido com alegria do Rei e do Reino. Não se cansavam os grandes e pequenos de ver e ouvir o gesto, a falla, os meneos daquelle novo indivíduo da geração humana”, de acordo com o que
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escreveu o padre Simão de Vasconcelos, em 1658, sem citar suas fontes.
D. Manoel e seus assessores atribuíram a descoberta de Cabral a “um milagre” e logo imaginaram que a nova terra seria “mui conveniente e necessária à navegação da Índia”, já que ali Cabral “corrigiu suas naus e tomou água” – embora, “pelo
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grande caminho que tinha para andar”, não pudesse explorar o território virgem.
De fato, tudo parecia indicar que o Brasil seria a escala ideal em meio à longa viagem oceânica até a Índia. Tanto que a frota seguinte que D. Manoel enviou para o Oriente partiu de Portugal com instruções específicas para fazer pouso no Brasil. Essa expedição – a terceira que chegaria a Calicute, após as de Gama e Cabral – zarpou de Lisboa em 10 de março de 1501, um ano e um dia após a partida de Cabral. A viagem foi financiada pelo banqueiro florentino Bartolomeu Marchioni, que vivia em Lisboa e já havia arcado com boa parte das despesas da frota de Cabral. Outro banqueiro florentino, Girolamo Sernige, financiara a viagem de Vasco da Gama em 1497.
Composta por três naus e uma caravela, a terceira frota da Índia era comandada pelo fidalgo João da Nova. Àquela altura, embora já tivesse sido informado da descoberta do Brasil, o rei D. Manoel ainda não tinha notícia alguma do que sucedera com Cabral – nem mesmo se ele tinha conseguido chegar ao Oriente. Mas, naquele momento, Cabral não apenas chegara à
Índia como já havia até iniciado a viagem de retorno. Reprodução seiscentista
Em abril de 1501 – enquanto os navios de Cabral se da nau a bordo da qual
preparavam para dobrar o cabo da Boa Esperança, João da Nova seguiu para
deixando para trás o oceano Índico e voltando a a Índia em março de 1501,
singrar o Atlântico –, João da Nova avistava o cabo de fazendo escala no Brasil
Santo Agostinho, em Pernambuco. Depois de Pinzón, em abril. Lepe e Cabral, João da Nova se tornava, assim, o quarto navegador europeu a percorrer o Nordeste brasileiro em um período de menos de 15 meses.
Nada se sabe sobre sua permanência no Brasil, que deve ter sido muito breve: apenas o tempo suficiente para reabastecer os navios com água fresca e víveres e limpar os cascos. Nos anos seguintes, porém, os portugueses concluiriam que o Brasil não era tão “conveniente e necessário para a navegação da Índia” quanto o rei e seus assessores de início haviam suposto.
E então, por cerca de 30 anos, aquele vasto território seria virtualmente abandonado pela Coroa portuguesa, sendo arrendado para a iniciativa privada e se tornando uma espécie de imensa fazenda extrativista de pau-brasil.
Iriam se iniciar as três décadas menos documentadas e mais desconhecidas da história do Brasil.