Náufragos, Traficantes e Degredados

Eduardo Bueno · Capítulo 5 de 13

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Náufragos, Traficantes e Degredados

IV – La Terre du Brésil

IV

LA TERRE DU BRÉSIL

 

S oa como uma coincidência quase constrangedora o fato de se chamar Bretoa a nau portuguesa graças à qual os detalhes relativos ao comércio de pau-brasil se tornaram conhecidos. Afinal, o navio recebera esse nome por ter sido construído em um estaleiro da Bretanha, no noroeste da França. E a indústria naval da Bretanha não apenas nascera com o prestimoso auxílio de mestres e carpinteiros portugueses como seria justamente a partir dali, e da vizinha Normandia, em especial dos portos de Rouen e Dieppe, que iriam zarpar os traficantes e contrabandistas de pau-brasil que, durante mais de três décadas, assolaram o litoral brasileiro. A ação desses homens – então chamados “entrelopos” (do inglês interloper) – não só causou grandes prejuízos financeiros a Portugal como levaria a França a contestar juridicamente e ameaçar na prática a soberania portuguesa sobre o Brasil.

Apesar de menos documentada que a dos “brasileiros” vindos de Portugal, a vida dos entrelopos franceses também pode ser reconstituída com alguma precisão. Embora restem apenas relatos esparsos – e nenhum deles de próprio punho –, não há dúvidas de que o cotidiano desses contrabandistas era bem mais aventuresco do que o dos feitores lusos. Talvez a própria aura de ilegalidade que cercava a operação – e o fato de ela estar, a princípio, ligada exclusivamente à iniciativa privada – concedesse aos franceses um grau de liberdade bem maior.

O fato é que, impossibilitados de fundar feitorias – que se tornariam alvo fácil para as expedições guarda-costas dos portugueses –, os franceses se limitavam a largar, em pontos estratégicos da costa, onde havia pau-brasil de melhor qualidade, alguns “contratantes” e intérpretes. Muitos deles, em sua maioria normandos, obtinham permissão para viver nas aldeias indígenas e acabavam estabelecendo com os nativos uma ligação de mútua cumplicidade. Alguns, segundo o depoimento dos cronistas Jean de Lery e André Thevet, se identificavam tanto com as peculiaridades da vida selvagem que acabavam por “adotar todos os costumes dos

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índios, chegando até à abominação de comer carne humana”. Havia intérpretes que se dispunham mesmo a usar enfeites e adereços indígenas, furando os lábios, raspando os pelos do corpo e se transformando em autênticos “índios louros”.

Não só pela via desses “índios brancos”, mas também porque, ao contrário do que ocorria com os portugueses, eles não estavam interessados em capturar escravos, os franceses foram capazes de estabelecer laços estreitos com várias nações indígenas do litoral brasileiro, nominadamente a Potiguar, a Tabajara e a Tamoio. A lealdade de alguns grupos nativos a esses seus “parentes” europeus seria de grande valia aos franceses quando, anos mais tarde, na baía de Guanabara, eles travaram com os portugueses (e seus aliados indígenas Tupiniquim e Temiminó) a luta decisiva pela posse do Brasil.

OS NAVEGANTES DO MAR DO NORTE

A Normandia e a Bretanha possuíam uma longa tradição náutica, incrementada a partir de 1438, quando alguns mestres e carpinteiros portugueses foram contratados por armadores normandos para ajudar na construção de barcas e barinéis (os navios que antecederam as caravelas e naus dos séculos XV e XVI). Tais embarcações eram utilizadas na pesca de arenque no mar do Norte.

No início do século XVI, as cidades de Dieppe e Rouen se consolidaram como os maiores polos da indústria têxtil da França. Suas tecelagens estavam entre as maiores e mais eficientes da Europa, e os bonnetries (chapéus e gorros) de Rouen eram famosos em todo o continente. Apesar da inimizade ancestral, os ingleses preferiam a moda francesa à sua própria e até os nobres de Florença e de Gênova vestiam capotes de lã e chapéus de feltro feitos na Normandia. Estava se iniciando o período em que, por mais guerras em que se envolvesse, a França continuaria ditando os modos e a moda até mesmo para seus inimigos.

Foi assim que, na virada do século XV para o XVI, uma explosiva equação se articulou nos portos de Rouen e Dieppe. Ela misturava uma longa tradição de pirataria com a intensa demanda por corantes naturais provocada pela indústria têxtil local. A esses dois fatores juntava-se o fato de que tanto a Inglaterra quanto a França se recusavam a aceitar a validade jurídica do Tratado de Tordesilhas – a partilha planetária feita em 1494 entre Portugal e Espanha, com bênção papal.

Portanto, quando se soube, na França, que um A Normandia, mais

vasto território havia sido encontrado por Portugal na especificamente a região do

margem oeste do oceano Atlântico e que essa região Pays de Caux, foi era uma fonte quase inesgotável de pau-brasil, a agraciada com excelentes e

informação funcionou como fermento para que os três profundos portos ingredientes relacionados acima resultassem numa marítimos, em especial os

única ação lógica: os franceses decidiram enviar seus de Dieppe (que quer dizer

navios para o Brasil. Embora nenhuma das viagens “profundo” em francês),

fosse “oficial”, é evidente que a Coroa francesa Honfleur, Fécamp e Le

estimulava o assédio “ilegal” de seus súditos às regiões Havre, além do tropicais do que viria a ser a América do Sul. movimentado porto fluvial

de Rouen, às margens do

rio Sena. Na vizinha

Bretanha, a natureza foi

mais avara e todos os

portos da região eram

perigosíssimos devido à

pouca profundidade e ao

seu fundo rochoso. Por

causa dessas dificuldades,

os bretões se tornaram

marinheiros hábeis e sua

fama se espalhou pela

Europa.

 

A VIAGEM DE GONNEVILLE

Na verdade, a conexão marítima entre a França e o Brasil se iniciara quase que imediatamente após a descoberta feita por Cabral. Graças à viagem de Pedr’Álvares, tanto os tecelões quanto os armadores da Bretanha e da Normandia ficaram sabendo, já desde 1504, da existência de uma região que, além de rica em pau-brasil, era imensa, desprotegida e muito mais próxima dos portos franceses do que a Índia ou Sumatra. O responsável pela divulgação dessa notícia teria sido um certo Binot Paulmier de Gonneville.

Binot Paulmier, nascido em Gonneville, vilarejo a 4 quilômetros da paróquia de Honfleur, era um burguês de natureza inquieta e aventureira. Por coincidência, ele e mais dois companheiros, Jean L’Anglois e Pierre le Carpintier, estavam em Lisboa em julho de 1501, quando Cabral retornou de Calicute para Portugal com três naus carregadas de joias e especiarias. A cidade havia preparado uma grande festa para

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saudar o retorno de Cabral – celebração que Binot provavelmente presenciou. Possivelmente, foi o impacto da cena que levou Gonneville a elaborar o ousado plano de também chegar à Índia.

Embora um alvará do rei D. Manoel proibisse, sob a dureza da lei, que mareantes lusos servissem a outras nações, Paulmier e seus companheiros contrataram, nas tavernas portuárias de Lisboa, dois ex-integrantes da frota de Vasco da Gama – Bastião de Moura e Diogo Coutinho – e os convenceram a partir numa viagem para o Oriente.

De volta a Honfleur, Binot obteve financiamento de seis ricos mercadores locais. Como Dieppe e Rouen, Honfleur era um porto de intensa movimentação, localizado na foz do rio Sena e fronteiro ao canal da Mancha. Foi ali que Gonneville armou um navio de 120 toneladas, L’Espoir (“A Esperança”), e conseguiu arregimentar 60 marujos.

Com víveres suficientes para dois anos e várias mercadorias para permuta, L’Espoir zarpou de Honfleur no dia 24 de junho de 1503 (apenas duas semanas depois de Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio terem partido de Lisboa em sua segunda viagem ao Brasil, e já tarde demais para aproveitar os melhores ventos e correntes). Orientado pelos “traidores” Bastião de Moura e Diogo Coutinho, o navio de Gonneville seguiu a rota tradicional descoberta pelos portugueses. Ancorou nas ilhas Canárias no dia 12 de julho e no dia 30 do mesmo mês chegou a Cabo Verde (de onde a frota de Coelho e Vespúcio zarpara no dia 10).

Depois de nove dias nesse porto africano, L’Espoir partiu em sua solitária viagem pelo Atlântico, ainda chamado de “mar-oceano”. Esse era um fato muito raro: as frotas em geral eram compostas por pelo menos três embarcações, e desde 1434 os portugueses não se aventuravam em jornadas atlânticas feitas em um só navio. Retido nas calmarias equatoriais, L’Espoir só cruzou a linha do equador no dia 12 de setembro. Desencadeou-se então uma tempestade que se prolongou por mais de dez dias. Quando o tempo enfim amainou, Bastião de Moura e Diogo Coutinho não foram capazes de dizer onde o navio se encontrava.

Por 40 dias, L’Espoir navegou sem rumo, como se estivesse à deriva. O escorbuto – o apavorante “mal do mar”, causado pela carência de vitamina C, encontrada em frutas e legumes (ausentes na dieta de bordo) – abateu-se sobre a tripulação e, de imediato, vitimou seis tripulantes. A 9 de novembro, quando a situação já era desesperadora, os marinheiros avistaram um emaranhado de algas e plantas marinhas – sinal claro de que a terra estava próxima. De fato, no dia seguinte, eles depararam com uma ilha solitária em meio ao Atlântico. Dois anos mais tarde, essa mesma ilha seria redescoberta por um capitão português, Tristão da Cunha, e

o

receberia seu nome. Sua localização é 37 15’ de latitude sul – na altura da atual cidade de Mar del Plata, na Argentina (veja mapa logo adiante). Ali, Paulmier parece ter desistido do sonho de ir à Índia, guinando bruscamente para noroeste. A explicação mais plausível para esse desvio de rota é o fato de que, impossibilitado de seguir para o Oriente, Gonneville teria decidido alcançar as terras que Cabral descobrira em 1500.

Mas quase dois meses ainda seriam necessários até Gonneville vislumbrar

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montanhas verdejantes e aportar às margens de “um rio semelhante ao Orne”, rio esse que deságua no canal da Mancha depois de cruzar a cidade de Caen, na Normandia. Era o dia 5 de janeiro de 1504, e o capitão normando Binot Paulmier se tornava o primeiro europeu a tocar em solo brasileiro ao sul da ilha de Cananeia (que Vespúcio e Coelho haviam descoberto dois anos antes, em janeiro de 1502). Convencionou-se que o “rio semelhante ao Orne” é a atual baía de Babitonga, o vasto estuário do rio Palmital localizado junto à ilha de São Francisco do Sul, no litoral norte de Santa Catarina, na atual fronteira com o Paraná, embora na verdade não existam provas concretas de que o desembarque tenha de fato se dado ali.

Viagem de Paulmier de Gonneville ao Brasil, realizada entre junho de 1503 e maio de 1505.

De todo modo, bem recebidos pelos índios, os franceses permaneceram seis meses ancorados lá. Os nativos se revelaram pacíficos. O líder local se chamava Arosca e ordenou que seus guerreiros suprissem os mareantes de carne de veado, frutas e pinhões. Arosca era um Carijó, tribo Guarani que, anos mais tarde, os jesuítas portugueses definiriam como “o melhor gentio de costa” e que os moradores de São Vicente escravizaram em larga escala.

Em 3 de julho de 1504, com o L’Espoir carregado de peles e penas, Binot de Paulmier resolveu retornar para a Europa. Os normandos haviam permanecido seis meses em companhia dos nativos sem que entre eles irrompesse nenhum conflito. Impressionado com a artilharia dos franceses – e convicto de que aqueles homens estranhos eram “anjos do céu” –, Arosca decidiu enviar para a França seu filho e herdeiro, o “príncipe” Essomeriq, um garoto de apenas 13 anos. Em companhia de seu tutor, que se chamava Namoa, Essomeriq partiu para Honfleur com a missão de “aprender a fazer canhões”, com os quais o ardiloso Arosca sonhava esmagar seus vizinhos e inimigos tradicionais, os Tupiniquim do litoral de São Paulo, futuros aliados dos portugueses e membros do mesmo grupo étnico que também vivia no litoral sul da Bahia.

A viagem de volta foi uma jornada de danação. Enfrentando as tormentas do inverno meridional, L’Espoir avançou ao longo da costa brasileira. As febres tropicais e o escorbuto dizimaram a tripulação. Até Essomeriq e Namoa foram acometidos pela doença. Namoa morreu. Julgando que o jovem príncipe também não fosse sobreviver, Binot Paulmier decidiu cristianizá-lo – e o batizou com o próprio nome. Mas o jovem e saudável Essomeriq se curou.

No dia 10 de outubro de 1504, Gonneville resolveu desembarcar para reabastecer o navio e descansar das fadigas do mar. Mas escolheu o lugar errado: ancorou numa praia habitada por selvagens ferozes e antropófagos. O L’Espoir provavelmente estava próximo à foz do rio Paraíba do Sul, na atual divisa entre os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo – território dos temíveis Goitacá (ou Waitaka), “tapuias” do grupo Jê, tidos como a mais agressiva dentre todas as nações do litoral brasileiro. Intrépidos pescadores de tubarão e canibais inveterados, os Goitacá puseram em fuga os alquebrados marujos de Gonneville.

Dez dias mais tarde, L’Espoir chegou à baía de Todos os Santos, onde seus tripulantes foram bem recebidos pelos Tupiniquim. Lá, os franceses puderam descansar e abastecer o navio com uma preciosa carga de pau-brasil. Então, na véspera do Natal de 1504, Gonneville zarpou pela terceira vez rumo à França. No dia 10 de fevereiro de 1505, cruzou o equador, dessa vez em direção ao norte. Em 9 de março, aportou nos Açores.

Dois meses mais tarde, em 7 de maio, Gonneville estava a apenas 150 quilômetros de casa. Mas, quando o L’Espoir cruzava ao largo de Jersey, uma das ilhas do canal da Mancha, o navio foi atacado primeiro por um pirata inglês, do qual se livrou apenas para deparar com um pirata bretão. Sem alternativa, Paulmier preferiu jogar o L’Espoir contra os recifes; seus marinheiros nadaram para terra, lutando para encontrar refúgio antes que fossem mortos pelos piratas.

Em 20 de maio de 1505, 28 homens famintos e esfarrapados entravam a pé em Honfleur. Eram os únicos sobreviventes da expedição de Binot Paulmier, entre os quais se incluíam ele próprio e seu afilhado, o jovem “príncipe” Carijó Essomeriq. Toda a carga do L’Espoir afundara ou fora saqueada e a Binot Paulmier restou

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apenas o frágil expediente de denunciar a violência dos piratas às autoridades locais.

Vendo-se, assim, impossibilitado de cumprir a promessa de levar Essomeriq de volta ao pai, Binot de Paulmier decidiu casá-lo com sua própria filha, Marie Moulin, e o fez herdeiro de todas as suas propriedades. Por mais de meio século, Essomeriq viveu em Honfleur, onde se tornou um cidadão conhecido e respeitado, com muitos filhos, netos e bisnetos. O príncipe indígena morreu em 1583, aos 94 anos. Em 1658, um de seus descendentes, Jean Paulmier, tornou-se abade e escreveu um livro, dedicado ao papa Alexandre VII, solicitando que se enviassem missionários ao sul do Brasil. Mas, então, os Carijó já estavam quase extintos, escravizados por

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bandeirantes e mamelucos de São Paulo.

Embora a viagem de Binot Paulmier de Gonneville tenha se configurado um fracasso comercial, ela parece ter alertado definitivamente os normandos para a existência do Brasil – um território amplo demais para que os portugueses pudessem controlar e no qual a madeira corante que tanto interessava à indústria têxtil da Normandia podia ser recolhida com facilidade. Não se sabe quantos navios normandos e bretões seguiram a rota aberta por Gonneville, mas com certeza foram dezenas. Raro é o relato feito por expedições portuguesas subsequentes no qual não se mencione a

Giovanni Verrazzano

presença de pelo menos uma nau francesa avistada em

nasceu em 1485, num

algum ponto do litoral brasileiro.

AS VIAGENS DOS IRMÃOS VERRAZZANO castelo a cerca de 50

quilômetros de Florença,

Por volta de 1524, os marinheiros normandos já na Toscana, Itália. Era de

haviam reconhecido (e ajudado a cartografar) origem nobre e foi criado

praticamente toda a costa brasileira do Maranhão ao dentro do espírito do

Rio de Janeiro, embora suas expedições continuassem humanismo renascentista,

sendo esparsas. A ligação marítima entre Honfleur- como seu conterrâneo e

Dieppe-Rouen e o Brasil parece ter se tornado mais contemporâneo Américo intensa e rotineira a partir das viagens dos irmãos Vespúcio. Junto com seu

Giovanni e Girolamo Verrazzano. Italianos originários irmão Girolamo, Giovanni

da Toscana, os Verrazzano se estabeleceram em se mudou para Dieppe por

Dieppe e viajavam sob bandeira francesa. Em sua volta de 1506. Lá, passou

primeira jornada, realizada em 1522, eles se tornaram a navegar nos navios

os primeiros navegadores europeus a chegar à ilha de pertencentes ao banqueiro e

Manhattan, onde hoje se ergue Nova York. comerciante Jean Ango.

Em julho de 1526, os irmãos partiram de Dieppe Sua morte provavelmente

com duas naus e dois galeões – dessa vez dispostos a ocorreu na ilha de chegar às Molucas, na Malásia. Foi uma viagem Guadalupe, possessão atribulada, repleta de naufrágios e tragédias. No francesa no mar do Caribe.

caminho de volta, sem ter conseguido atingir seu Segundo o relato de seu

objetivo (embora tenham vencido o cabo da Boa irmão Girolamo, Esperança e chegado até Sumatra), os Verrazzano testemunha ocular da cena,

tocaram pela primeira vez o litoral do Brasil, os índios Caribe

provavelmente em Pernambuco. Ali, encheram de devoraram “partes ainda

pau-brasil o porão da única nau que lhes restava. A trêmulas” do corpo do

valiosa carga pagou as despesas daquela triste jornada. navegador. O busto acima

Em maio de 1528, os irmãos tornaram a partir de pertence ao acervo da

Dieppe. Em julho, quando sua frota estava em uma National Gallery of Art, de

ilha do Caribe, Giovanni foi morto e devorado por Washington, D.C., EUA.

antropófagos diante do irmão e da horrorizada tripulação. Ainda assim, Girolamo prosseguiu em direção a Pernambuco, onde obteve novo carregamento de pau-brasil. No ano seguinte, o mesmo Girolamo viria ainda outra vez ao Brasil, abarrotando três naus com o “pau-de-tinta” – que os normandos chamavam de “bois rouge” (“madeira vermelha” em francês) ou de “arabutan” (palavra de origem tupi).

Foram as viagens de Girolamo Verrazzano que estabeleceram a rota ideal e os métodos de coleta de pau-brasil para as expedições seguintes dos franceses, cada vez mais frequentes a partir de então. Também é provável que tenha sido esse navegante toscano quem inaugurou o costume de deixar “intérpretes” normandos para viver entre os indígenas do Brasil e recolher as cargas de “bois rouge”.

Ao retornar ao local onde haviam deixado seus intermediários, os franceses disparavam dois tiros de canhão anunciando sua chegada. Então o “intérprete” (que, como os feitores lusos, também se especializava em ensinar os papagaios a falar) vinha para a praia e os índios iniciavam o carregamento de pau-brasil. Como os portugueses, os franceses também pagavam os nativos A ilustração abaixo

com quinquilharias, espelhos e machados. representa um marinheiro

A presença desses traficantes no litoral brasileiro normando perambulando

tornou-se tão comum que muitos acidentes foram pelo porto de Honfleur,

batizados com nomes como Porto Velho dos Franceses logo após chegar do Brasil,

e Porto Novo dos Franceses (ambos no Rio Grande do em companhia de seu

Norte), rio dos Franceses (na Paraíba), baía dos papagaio. A cena era

Franceses (em Pernambuco), boqueirão dos Franceses bastante comum na (em Porto Seguro) ou praia do Francês (próxima à Normandia durante a atual Maceió, em Alagoas). Outro ponto no qual os terceira década do século

navios normandos ancoravam com muita frequência XVI, quando muitos era a praia de Búzios, no Rio Grande do Norte, cerca animais e indígenas de 25 quilômetros ao sul de Natal. brasileiros podiam ser

O pau-brasil recolhido pelos entrelopos era vendido encontrados nos portos do

em Rouen por 1,2 ducado o quintal, a metade do preço norte da França e até em

praticado pelo grupo liderado por Fernando de Paris. Noronha (que era de 2,5 ducados o quintal). É natural, portanto, que as viagens dos traficantes franceses tenham causado grandes prejuízos financeiros a Portugal, diminuindo consideravelmente sua exportação de pau-brasil para a França.

O IMPÉRIO DE JEAN ANGO

Entre os homens que financiaram as expedições dos irmãos Verrazzano – e inúmeras outras que vieram depois – estava um personagem que iria criar vínculos cada vez mais estreitos com o Brasil. Era o mercador e banqueiro Jean Ango, futuro visconde de Dieppe. Protegido do cardeal d’Amboise – figura de grande importância na corte de Luís XII –, Ango (pronuncia-se Angô) financiara as primeiras expedições francesas à América do Norte. Patrocinou também as viagens de Jacques Cartier, fundador de Québec e da Nova França, no Canadá – território que, por duas décadas, foi quase propriedade privada do chamado “sindicato Ango”.

Os negócios de Jean Ango se estendiam das ilhas Britânicas à Turquia. A família tinha entrepostos na Itália, em Chipre, na Grécia e nos Países Baixos. Sua frota possuía mais de 50 navios, navegando sob bandeira própria. Nessa bandeira, Ango mandara colocar a lua crescente, símbolo dos países árabes, com os quais mantinha lucrativas ligações comerciais. A partir de 1510, os navios de Ango se dedicaram também à pirataria (ou “corso”) contra os navios A foto abaixo, extraída

portugueses, obtendo, entre 1515 e 1540, lucros do livro O Índio Brasileiro

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superiores a um milhão de cruzados. e a Revolução Francesa, de

Jean Ango se tornou também o principal Afonso Arinos de Mello

incentivador da ocupação francesa do Brasil. A Franco, mostra o castelo de

maioria dos navios que vinham recolher pau-brasil em Jean Ango em Varengeville,

Pernambuco, no Rio Grande do Norte e na Paraíba no norte da França. O

pertencia a ele. Entre 1525 e 1530, Ango ganhou tanto castelo ainda existe e está

dinheiro com o tráfico de “bois rouge” que mandou aberto a visitação pública.

construir em Dieppe uma belíssima mansão, toda feita em jacarandá e pau-brasil. Essa casa, palco de festas memoráveis frequentadas por príncipes e reis, por bispos e ministros (entre os quais o rei da França, Francisco I, e os príncipes da família Médici), vivia repleta de indígenas e de animais vindos do Brasil. Eles circulavam livremente pelo pátio interno, entre chafarizes e jardins.

Mas Jean Ango não morava nessa mansão. Ele vivia em um esplêndido castelo em Varengeville, pequeno povoado entre Rouen e Dieppe (foto anterior). Uma ala do Château de Varengeville fora decorada com motivos ornamentais inspirados pelo rendoso tráfico do pau-brasil. O palácio de Ango, bombardeado pelos ingleses em 1694, foi restaurado no século XIX e ainda pode ser visitado.

O TESTAMENTO DE ADÃO

O crescente assédio francês ao Brasil – de início, fruto da iniciativa privada – começara a se tornar, pelo menos a partir de 1524, política oficial, estimulada pelo rei da França, Francisco I d’Angoulême, que assumira o trono em 1515. Como seu antecessor, Luís XII, Francisco I não aceitava as estipulações do Tratado de Tordesilhas, o acordo que em 1494 não só dividira o mundo entre Portugal e Castela como também tornara o Atlântico um oceano fechado (mare clausum) a outros países. A França decidiu desafiar os “direitos adquiridos” das Coroas ibéricas sobre o Novo Mundo e lutar pela “liberdade dos mares” (mare liberum).

Houve poucos conflitos “oficiais” entre Portugal e O tráfico entre a França durante o reinado de Luís XII (1498-1515), já Normandia e o Brasil se

que as relações entre as duas Coroas se mantiveram tornou tão rendoso que,

estáveis. Embora os portugueses assegurassem que um por volta de 1550, chegou

número “passante de 300 navios” seus – cujo valor era a ser construída em Rouen

superior a um milhão de cruzados – tivessem sido uma esplêndida estalagem

capturados pelos corsários franceses ao longo de duas chamada L’Isle du Brésil

décadas, o rei D. Manoel sabia que seus súditos eram (A Ilha do Brasil). O

atacados por indivíduos fora da lei. Sua preocupação prédio foi derrubado em

tornou-se muito maior quando ele percebeu que 1867, mas dois dos Francisco I parecia decidido a incentivar essas ações. belíssimos entalhes que o

Ao assumir o trono, decoravam foram Francisco I tentara uma

aliança com Portugal, oferecendo a D. Manoel a mão preservados e estão no

de sua filha, a princesa Carlota. Mas a infanta morreu Museu Marítimo de Rouen

prematuramente e, a princípio, a aparente neutralidade (a seguir). Com cerca de 2 de Portugal pareceu ser o bastante para o monarca metros de comprimento por

francês. Mas, disposto a atacar as possessões de Carlos 50 centímetros de largura e

V em todos os quadrantes do globo, Francisco I logo 6 centímetros de espessura,

decidiu afrontar também as determinações do Tratado esses painéis – que de Tordesilhas. Ao justificar sua atitude, em uma carta originalmente eram

a um diplomata espanhol, o rei francês faria o mais coloridos – mostram os

ousado e mordaz dos comentários sobre o tratado. “O índios brasileiros cortando

sol brilha para mim como para todos”, disse ele. o pau-brasil e levando

“Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que suas toras nos ombros até

7 as naus francesas.

me excluiu da partilha do mundo.”

 

Em 1524, após o sucesso da segunda viagem dos irmãos Verrazzano ao Brasil, precisando de cada vez mais dinheiro e em íntima associação com Jean Ango (cujos navios e tripulantes lhe eram de grande valia na guerra contra Carlos V), Francisco I concluiu que, entre a dúbia neutralidade de Portugal e as riquezas que poderia obter no Brasil, a segunda opção lhe era bem mais vantajosa. E assim, virtualmente, oficializou o assédio à “terre du brésil”, rompendo todos os acordos de paz e tratados diplomáticos que firmara com Portugal. A crescente audácia dos franceses logo obrigaria a Coroa lusitana a agir.

O GUARDA-COSTAS CRISTÓVÃO JAQUES

Em fevereiro de 1526, o embaixador português na Francisco I, que passou

França, João da Silveira, escreveu uma carta à História como o primeiro

alarmante para o rei D. João III (filho e sucessor de D. dos reis absolutistas, subiu

Manoel que subira ao trono após a morte do pai em ao trono em 1515. No ano

1521). Silveira alertou o monarca para o fato de que seguinte, com a morte de

dez navios de corsários franceses estavam se Fernando de Aragão, o

preparando para zarpar de Honfleur. Vários deles se trono da Espanha foi

dirigiriam ao Brasil. D. João III resolveu agir com ocupado por um de seus

rapidez e rigor. Em fins de 1526 (ou início de 1527), ele netos, o arquiduque da

enviou a terceira expedição guarda-costas ao Brasil. Áustria, Carlos I. Em

Mais uma vez, ela seria chefiada pelo fidalgo Cristóvão 1519, Carlos I, aclamado

Jaques – que já estivera no Brasil em 1516 e em 1521, imperador, passou a se

como se verá nos capítulos V e VI. chamar Carlos V e se

Por muitos anos, julgou-se que Jaques fosse de tornou senhor de amplos

origem francesa (por causa da grafia do nome) – o que territórios, que incluíam a

tornaria sua vigorosa ação contra os entrelopos Espanha e suas colônias na

normandos ainda mais peculiar. Mas pesquisas América, Flandres, a

genealógicas realizadas em 1924 por Esteves Pereira Áustria, a Alemanha e

provaram que ele era de origem espanhola: os Jaques parte da Itália. Com as

eram originários do reino de Aragão e seu nome fronteiras ameaçadas pelo

provinha das vizinhas montanhas de Jaca. crescente poderio da Casa

Concessionário do comércio de pau-brasil de 1516 a da Áustria, Francisco I

1522, Cristóvão Jaques foi nomeado “governador das decidiu agir. Em 1521,

partes do Brasil” em fins de 1526. No início do ano atacou Milão e deflagrou a

seguinte, partiu de Portugal para combater os franceses guerra contra Carlos V.

com quatro caravelas e uma nau. Uma de suas caravelas seguiu para a Guiné e os demais navios chegaram a Pernambuco em maio de 1527. Ao aportar na feitoria que ele próprio havia fundado em 1516 na ilha de Itamacará, Jaques soube que quatro navios franceses estavam carregando pau-brasil na baía de Todos os Santos. Quem lhe deu a informação foi um ilustre e infeliz náufrago espanhol, D. Rodrigo de Acuña. Jaques dirigiu-se de imediato para a Bahia, disposto a atacar os invasores. Ao chegar lá, descobriu que um dos navios inimigos era justamente a caravela que ele tinha enviado para a Guiné. O barco fora capturado pelos franceses, que haviam “deitado ao mar” toda a tripulação.

O combate entre Jaques e os traficantes franceses foi travado em fins de junho de 1527 e se prolongou por um dia inteiro. Foi uma luta violentíssima. Houve dezenas de vítimas, mais de cem, provavelmente. Um ano depois, alguns sobreviventes franceses conseguiram retornar à França, onde fizeram um dramático relato do episódio para o rei Francisco I. Em seu depoimento, eles disseram:

“Depois de afundados os nossos navios, alguns de nossos súditos se saíram à terra e se meteram nas mãos dos selvagens. Antes, outros dos nossos súditos se meteram nas mãos e mercê dos ditos portugueses, esperando ser deles melhor tratados, porém eles, os ditos portugueses, enforcaram alguns dos nossos súditos e outros meteram e enterraram até os ombros e o rosto e depois os martirizaram

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cruelmente a setadas e tiros de espingarda.”

Informado das brutalidades cometidas por Jaques, o rei Francisco I se indignou. Em setembro de 1528, enviou uma carta veemente ao rei de Portugal, D. João III. Um embaixador francês, Glyas Hellie, partiu de Paris para entregar a carta e apresentar protestos formais. Durante nove semanas, D. João III negociou com os franceses, mas não fez concessões. Em fins de outubro de 1528, porém, D. João III decidiu destituir Cristóvão Jaques do cargo de governador do Brasil e determinar seu imediato regresso a Portugal. Os requintes de crueldade com os quais Jaques tratara os franceses na Bahia acabariam fazendo com que ele caísse em desgraça na corte.

Em outubro de 1529, quando 25 dos franceses capturados por Jaques continuavam presos em Lisboa – condenados à morte –, Francisco I enviou a Portugal um novo embaixador, Pierre de Lagarde. O objetivo dessa missão diplomática era não só obter a libertação dos cativos como também pedir um empréstimo de 400 mil cruzados a D. João III. Francisco I queria o dinheiro para uma causa dramática: em fins de 1525, derrotado na Itália, ele fora forçado a deixar seus filhos como reféns das tropas de Carlos V. O imperador exigia 400 mil cruzados de resgate.

Quando o embaixador Lagarde chegou a Portugal, encontrou um reino em dificuldades financeiras: em abril de 1529, D. João III comprara da Espanha as ilhas Molucas (na Indonésia) por 350 mil ducados. Ainda assim, o rei vislumbrou no episódio uma chance de solucionar os conflitos com a França. Primeiro, libertou os prisioneiros. Depois, ofereceu 100 mil cruzados a Francisco I, afirmando que, na verdade, estava dando os 400 mil pedidos: os restantes 300 mil, disse D. João III, deveriam ser descontados dos prejuízos causados pela ação dos franceses no Brasil.

Francisco I aceitou a proposta. Assim, em janeiro de 1530 um acordo foi firmado entre as duas Coroas. Através dele, o próprio almirante Philippe Chabot, comandante-chefe da marinha francesa, ficou encarregado de reprimir a ação dos piratas normandos, ganhando, para isso, uma quantia extra, paga por D. João III.

Mas a questão ainda não estava encerrada. Um mês após a assinatura do tratado, os portugueses capturaram um galeão e uma barca pertencentes a Jean Ango. Embora as duas embarcações estivessem em águas territoriais portuguesas, e cheias de mercadorias saqueadas de navios lusos, Ango se indignou e exigiu indenização. Chegou a afirmar que iria declarar ele próprio guerra a Portugal e anunciou que seus navios bloqueariam o porto de Lisboa.

Embora tais afirmações pudessem soar como bravata, o fato é que Jean Ango obteve de Francisco I uma “carta de corso”, ou seja, uma autorização legal para atacar navios portugueses e saqueá-los até obter butim equivalente a 200 mil cruzados. Dessa forma, Francisco I simplesmente ignorou o acordo que firmara com Portugal. O caso só foi resolvido em 15 de agosto de 1531, quando D. João III comprou a “carta de corso” do próprio Ango, enviando emissários à França e pagando 60 mil francos (equivalentes a 100 mil cruzados) pela “carta”. Só então os homens e os navios de Ango pararam de atacar os lusos e suspenderam o assédio ao Brasil.

Abandonado pelos amigos mais influentes e Por não concordarem

assediado pelos credores, Jean Ango morreu quase na com os direitos que miséria, em 1551. Foi enterrado na igreja de Saint- Portugal obtivera através

Jacques, em Dieppe, sob lápide decorada com figuras do Tratado de Tordesilhas,

dos índios brasileiros. os franceses instauraram

A PEREGRINA um processo judicial contra

Apesar de João III ter comprado a “carta de corso” a corte de Lisboa após a

(também chamada “carta de marca”) de Jean Ango e apreensão da nau A

assinado um acordo com Francisco I, nem assim a Peregrina. Graças aos ação de outros contrabandistas franceses cessou. Tanto registros desse tribunal é

é que, em setembro de 1531, os portugueses que os detalhes do episódio capturaram, em frente à cidade de Málaga, na se tornaram conhecidos. O

Espanha, próximo ao estreito de Gibraltar, no fato de A Peregrina Mediterrâneo, a nau La Pèlerine. A Peregrina retornava transportar em seus porões

do Brasil com o porão cheio de pau-brasil e outras a espantosa quantidade de

mercadorias. A nau foi avistada por acaso por um três mil peles de onça levou

navio português que partira de Lisboa para levar o o historiador americano

bispo D. Martinho a Roma, onde ele iria tratar do Dean Warren a dedicar ao

estabelecimento do Tribunal da Inquisição em tema duas páginas de seu Portugal. livro A Ferro e Fogo

A Peregrina (sobre a devastação da havia zarpado de Marselha para o

Brasil em dezembro de 1530, com 120 homens, 18 Mata Atlântica), canhões, munição e material de construção a bordo. especulando sobre o Um dos armadores da nau era o barão de Saint impacto causado por tal

Blancard, comandante da esquadra francesa do mortandade não só no Mediterrâneo. A missão, “militar, comercial, agrícola e meio ambiente, mas nos

9 próprios costumes

feitorial”, partiu com a aprovação de Francisco I,

indígenas. Abaixo, retrato

apesar de ele ter assinado o tratado com D. João.

do rei da França Francisco

Em março de 1531, A Peregrina chegou à feitoria

I, que rompeu todos os

que Cristóvão Jaques havia fundado em 1516 na ilha

acordos diplomáticos que

de Itamaracá, no litoral de Pernambuco. O feitor

fez com Portugal.

Diogo Dias, cinco portugueses e dezenas de índios aliados resistiram dois dias ao ataque dos franceses. Devido à desproporção de forças, foram forçados a se render e celebraram a paz com os inimigos. Mediante o pagamento de 400 ducados, chegaram a ajudá-los a construir uma fortaleza, feita para substituir a feitoria destruída pela artilharia francesa. Durante três meses, os entrelopos permaneceram instalados em seu novo fortim.

Em junho de 1531, deixando 70 homens no forte, os franceses partiram de Itamaracá. Dois meses mais tarde, foram capturados em Málaga. Nos porões de A Peregrina os lusos apreenderam cinco mil quintais (ou cerca de 15 mil toras, equivalentes a 300 toneladas) de pau-brasil, três mil peles de onça, 600 papagaios e 300 quintais (1,8 tonelada) de algodão, além de óleos medicinais, pimenta, sementes de algodão e amostras minerais. Ao todo, para fins de indenização, o valor da carga foi calculado pelos franceses em 62 mil ducados.

O preço das mercadorias foi visivelmente aumentado, já que, por cada quintal de pau-brasil, os contrabandistas exigiram oito ducados (o triplo do valor de mercado e cinco vezes mais do que o preço praticado por eles mesmos). O valor de cada papagaio foi calculado em seis ducados e cada pele de onça valeria três ducados. Esses números fornecem dados elucidativos para a compreensão das dimensões que o tráfico ilegal entre o Brasil e a França atingira na terceira década do século XVI – e do profundo impacto que ele teria sobre certas espécies de árvores e animais.

A compra da “carta de corso” de Jean Ango, a captura de A Peregrina e a subsequente destruição do fortim de Itamaracá por Pero Lopes de Sousa, em novembro de 1532, marcaram o fim do primeiro período de assédio dos franceses ao Brasil. Três décadas e meia ainda seriam necessárias antes que a França voltasse outra vez seus olhos para o Brasil – e, então, invadisse oficialmente o país em 1555, quando o navegador Nicolas Villegaignon fundou, no Rio de Janeiro, com o apoio do rei francês Henrique II, o enclave que seria chamado de França Antártica e que os portugueses precisariam de dez anos para destruir, enfim, acabando com a ameaça que os franceses representavam para os seus interesses no Brasil.