Náufragos, Traficantes e Degredados

Eduardo Bueno · Capítulo 7 de 13

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Náufragos, Traficantes e Degredados

VI – Fabulosa Jornada à Serra da Prata

VI

FABULOSA JORNADA À SERRA DA PRATA

 

E m 1524, enquanto Cristóvão Jaques mantinha um encontro clandestino, “em uma pousada”, com o embaixador de uma potência rival, o náufrago Melchior Ramires seguia vivendo no porto dos Patos, em Santa Catarina. Se o ríspido capitão pretendeu castigá-lo mantendo-o no desterro, a punição não parece ter surtido o efeito desejado. Evidências permitem supor que a vida de Ramires e de seus companheiros de exílio estava próxima do idílico. Não apenas isso: em breve, aqueles homens iriam desempenhar um papel-chave na história da exploração europeia da América e o próprio Ramires seria recebido por D. João III, o mesmo rei que se recusara a conceder audiência a Cristóvão Jaques.

Além de Melchior Ramires, são conhecidos os nomes de outros três náufragos de Solís. Eram eles Aleixo Garcia, Henrique Montes e um “mulato” chamado Francisco Pacheco. Não se sabe ao certo quantos tripulantes de Solís sobreviveram ao naufrágio de fevereiro de 1516 – além dos quatro citados e dos sete que Jaques capturara em agosto daquele ano. Sabe-se, isso sim, que ao retornar a Santa Catarina, em 1521, Jaques encontrou nove europeus vivendo no porto dos Patos. Mas talvez nem todos fossem náufragos. Afinal, ao passar pela ilha de Santa Catarina na viagem de ida para o Prata, no verão de 1516, Solís batizara a atual praia de Naufragados de “baía dos Perdidos”. O nome foi escolhido porque ali Solís deparara com alguns “homens brancos, desterrados por causa de suas

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malfeitorias”.

De qualquer forma, o acaso do naufrágio – ou o rigor do desterro – que levara aqueles homens a, subitamente, se encontrarem isolados da civilização numa remota ilha do litoral sul do Brasil iria adquirir extraordinária importância para a história da conquista da América do Sul. Fosse porque aquela era uma costa pouco percorrida e raramente visitada por outros navios europeus, fosse pelas condições favoráveis que eles logo passariam a desfrutar graças às boas relações que estabeleceram com os nativos, o fato é que os náufragos de Solís passariam dez longos anos em seu exílio nos trópicos. Durante esse período, eles concluíram que as notícias relativas ao Rei Branco e à fabulosa serra da Prata só poderiam ser verdadeiras, uma vez que todas as tribos da região repetiam as mesmas informações com os mesmos detalhes.

A princípio, os sobreviventes da expedição de Solís trataram de investigar por si próprios a veracidade da lenda. Depois, se empenharam em transmiti-la para todos os navegantes que, a partir de 1526, começaram a aportar em Santa Catarina. Os episódios daí decorrentes – hoje virtualmente ignorados pela historiografia oficial – iriam se tornar alguns dos acontecimentos mais importantes das três primeiras décadas da história do Brasil.

Inflamados pelas informações dadas pelos náufragos de Solís, portugueses e espanhóis iriam se empenhar na conquista do rio da Prata – considerado a “porta de entrada” para as riquezas de que falavam os indígenas. Por isso, as atenções das Coroas de Portugal e Espanha se voltariam para o litoral sul-brasileiro – e isso duas décadas antes que a colonização do Nordeste e o ciclo do açúcar se iniciassem com sucesso, incorporando, enfim, o Brasil ao jogo planetário das trocas mercantis.

Em 1517, um ano após o naufrágio, os homens de Solís – que a princípio tinham se instalado na ponta sul da ilha de Santa Catarina – deixaram a baía dos Perdidos e se transferiram para o continente, estabelecendo-se no lugar que ficaria conhecido como porto dos Patos. O porto dos (índios) patos ficava na baixada do rio Maciambu, entre as atuais enseada do Brito e praia da Pinheira, quase em frente à ponta sul da ilha (veja o mapa a seguir).

Em novembro de 1521, ali viviam nove europeus, Em 1663, o padre

cada um deles em companhia de três ou quatro jesuíta Simão de nativas. Todos tinham seus próprios escravos e Vasconcelos descreveu a

mantinham boas relações com os chefes locais. O mar baixada do Maciambu,

lhes fornecia tainhas, garoupas e mariscos em onde ficava o porto dos

profusão. Suas mulheres plantavam mandioca e Patos. Seu relato: “É uma colhiam pitangas, butiás e goiabas. Os guerreiros formosa enseada, coberta

Carijó os supriam de carne de anta e de veado e de de arvoredo, retalhada de

perdizes e marrecos. A abundância dessas aves era tal correntes de águas, que faria com que os Carijó ficassem conhecidos como povoada de feras somente,

“índios patos”. Embora impedidos de retornar à e tem tanta quantidade de

Europa, os náufragos de Solís serviam-se dos cedros e veados que parece o campo

perobas das matas de Santa Catarina para construir de caça de um rei; e se não

seus próprios barcos (os bergantins). Com os índios forem os tigres que os

aos remos, navegavam ao longo da costa sul do comem, serão infinitos.

Brasil, de Laguna até São Vicente, em São Paulo. Parece um viveiro de peixe

Várias vezes fizeram o percurso até Cananeia, onde e marisco para todo o

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vivia um grupo de degredados espanhóis. Altivos tempo e de toda a sorte.

capitães europeus logo iriam depender das informações Daqui foi levado o casco

dadas por esses homens. de ostra no qual um

O PEABIRU capitão de São Vicente

mandou lavar os pés de

No verão de 1524 Aleixo Garcia partiu do porto um bispo em lugar de

dos Patos para realizar uma das mais extraordinárias bacia.” jornadas da história do Brasil. Não se sabe quem ele era, nem onde ou quando nasceu. Sabe-se apenas que era português e que devia ser um sujeito tremendamente arrojado. Depois de viver durante oito anos entre os índios patos, Garcia estava familiarizado com as histórias referentes à serra da Prata e ao poderoso Rei Branco. A coerência entre os relatos feitos por nativos de várias e diferentes tribos o convencera de que – embora mirabolante – a história deveria ser verdadeira. Ele decidiu investigá-la pessoalmente.

Aleixo Garcia arregimentou um exército formado por dois mil índios flecheiros (Carijó, em sua maioria) e partiu para sua assombrosa jornada em direção ao Peru e às fabulosas riquezas do Império Inca. Junto com o grupo, seguiu o mulato Francisco Pacheco. Do porto dos Patos, a tropa de Garcia se dirigiu, provavelmente por mar, a bordo de bergantins e longas canoas indígenas, até a foz do rio Itapocu, considerado “a porta de entrada do sertão”. O Itapocu, que mantém o mesmo nome, fica próximo à atual praia de Piçarras, cerca de 20 quilômetros ao norte do Balneário Camboriú. Seguindo pela margem esquerda do Itapocu, o grupo penetrou no continente e deu início à caça ao tesouro.

Guiado pelos nativos, Aleixo Garcia venceu a serra do Mar e chegou a uma trilha indígena bem demarcada, que percorria as nascentes do rio Iguaçu, numa região de campos planos, repletos de araucárias, e de cuja existência ele já fora informado. Por essa trilha, ele pretendia seguir até o Paraguai. Tal caminho A Estrada Selvagem

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era chamado pelos Tupi-Guarani de Peabiru. Depois da jornada de

Não se tratava de uma mera vereda na mata: era Aleixo Garcia, o Peabiru se

quase uma estrada “larga de oito palmos (1,60 metro), tornou um caminho com mais de 200 léguas (ou 1.200 quilômetros) de bastante conhecido e muito

comprido”, sinalizada “por certa erva muito miúda percorrido. Por ele seguiria,

que, dos dois lados, crescia até quase meia vara (60 em 1531, a malfadada

centímetros), e ainda quando se queimassem os expedição de Pero Lobo,

campos, sempre nascia aquela erva e do mesmo um dos capitães de Martim

Afonso de Sousa. Por ali

4 passaram Alvar Nuñes

modo”.

Cabeza de Vaca em 1541 e

O Peabiru podia ser alcançado tanto a partir da foz

Ulrich Schmidel em 1553.

do Itapocu quanto de Cananeia, de São Vicente e de

Jesuítas como Pedro

São Paulo. Em algum lugar do planalto sul-brasileiro,

Lozano e Ruiz de Montoya

nas proximidades da atual cidade de Ponta Grossa

também o percorreram em

(PR), essas trilhas e ramais se juntavam ao Peabiru e,

suas missões de catequese

cruzando pelas nascentes dos rios Tibaji, Ivaí e Piquiri,

aos Guarani. Um século

seguiam pela margem direita do rio Iguaçu até sua foz,

mais tarde, seria também

no rio Paraná. Cruzando o Paraná, o Peabiru

pela via do Peabiru que

conduzia até o rio Paraguai e acabava na confluência

Raposo Tavares e outros

desse rio com o rio Pilcomayo, no local onde seria

bandeirantes paulistas

fundada, mais tarde, a capital do Paraguai, Assunção.

seguiriam para realizar

A grande área pantanosa do Chaco impedia que o

seus devastadores ataques

Peabiru se unisse à rede viária construída pelos incas,

às missões do Guairá, no

com estradas pavimentadas, pontes pênseis, pedágio e

atual estado do Paraná. O

postos de inspeção.

mapa anterior mostra a

Alimentando-se basicamente de mel silvestre, rota seguida por Aleixo

palmitos, milho e farinha de pinhão, a grande tropa de Garcia. O restante do

Aleixo Garcia levou cerca de quatro meses para vencer percurso pode ser visto no

a distância de cerca de mil quilômetros entre Santa segundo mapa a seguir. A

Catarina e o sítio da futura cidade de Assunção. A imagem acima mostra o

partir dali, é provável que tenha seguido por via fluvial, alemão Ulrich Schmidel

subindo o rio Pilcomayo até suas nascentes, nos percorrendo o Peabiru em

contrafortes dos Andes. 1553, montado em sua

Chegando até a atual província de Chuquisaca, no lhama e acompanhado de

sudeste da Bolívia, próximo da atual Santa Cruz de la seus guias. Sierra, Aleixo Garcia e seus dois mil Guarani atacaram os postos fronteiriços do Império Inca, localizados nas cercanias da atual cidade de Sucre. Garcia deve ter estado a menos de 150 quilômetros de Potosí, a fabulosa montanha de mais de 600 metros de altura, quase que inteiramente de prata pura, e local que dera origem à legenda da serra da Prata. O Rei Branco também

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existia: era o Inca Huayna Capac, que vivia em Cuzco, a capital imperial, localizada 600 quilômetros ao norte de Sucre.

O exército de flecheiros comandado por Aleixo Garcia atacou com ardor os vilarejos localizados nos arredores de Sucre e Potosí. Após encher cestos com taças de prata, peitorais de ouro e objetos de estanho, o grupo de guerrilheiros bateu em retirada, iniciando sua jornada de regresso a Santa Catarina. Mas, ao chegar às margens do rio Paraguai, a tropa foi atacada pelos temíveis Payaguá – índios extremamente ferozes que, dois séculos mais tarde, ficariam conhecidos como os “piratas do rio Paraguai”, aterrorizando os viajantes das monções (como eram chamados os comboios fluviais dos bandeirantes que, a partir de 1720, partiam de São Paulo para Cuiabá). Entre as centenas de mortos estava o próprio Aleixo Garcia.

 

Em fins de 1525, uns poucos sobreviventes da aventura de Aleixo Garcia conseguiram chegar ao porto dos Patos, mais mortos do que vivos. Entre eles estava o mulato Francisco Pacheco, um dos náufragos de Solís. Como prova da extraordinária (embora malsucedida) façanha, Pacheco mostrou a Melchior Ramires e a Henrique Montes algumas peças de prata e ouro saqueadas aos incas em Chuquisaca e fez um relato detalhado da expedição.

A partir de então, a febre de riquezas tomou conta daqueles dois companheiros de Aleixo Garcia que não haviam se arriscado a segui-lo na louca jornada até os Andes. Henrique Montes e Melchior Ramires logo iriam contagiar todos os viajantes europeus com os quais cruzaram a partir de então. Por intermédio deles, as notícias sobre a serra da Prata e o Rei Branco também iriam chegar aos ouvidos dos reis de Portugal e Espanha – e se tornariam a força motriz que impulsionou a exploração do rio da Prata e a ocupação do litoral sul do Brasil.

CABOTO, ACUÑA E GARCIA NO PORTO DOS PATOS

Em fins de outubro de 1526, um ano depois da morte de Aleixo Garcia, chegava à ilha de Santa Catarina o navegador veneziano Sebastião Caboto. Assim que ele ancorou, a primeira pessoa a subir a bordo de sua nau foi justamente Henrique Montes. E o relato que ele tratou de fazer impressionou todos os que o escutaram.

De fato, ao se encontrar com Caboto e com os capitães da frota, Henrique Montes assegurou que, caso lhe dessem ouvidos, “nunca os homens de uma armada seriam tão afortunados”, pois “havia tanto ouro e tanta prata no rio de Solís que todos

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ficariam ricos, e tão rico seria o pajem como o marinheiro”. De acordo com o depoimento de uma das testemunhas daquele encontro, “a alegria que tinha o dito Henrique Montes era tanta que, quando aquilo dizia, mostrando as contas de ouro,

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chorava”. Como não é difícil supor, o entusiasmo de Henrique Montes contagiou toda a tripulação de Caboto.

Por ironia, Sebastião Caboto só havia chegado ao porto dos Patos porque fora conduzido até lá por um dissidente português – o piloto Jorge Gomes, o homem que Cristóvão Jaques deixara desterrado na feitoria de Itamaracá em 1522. Os fabulosos relatos sobre as riquezas do rio da Prata feitos primeiro por Jorge Gomes e, depois, por Henrique Montes fariam com que Caboto simplesmente desistisse de sua missão original, que era seguir da Espanha para as ilhas Molucas via estreito de Magalhães.

O veneziano Sebastião

No início de 1518, dois anos após a trágica morte

Caboto era filho do grande

do piloto-maior Juan Díaz de Solís no rio da Prata,

navegador Giovanni

Caboto fora escolhido para substituí-lo. Seduzido por

Caboto, o homem que, sob

um salário de 125 mil maravedis – mais do que o

bandeira inglesa, tinha

dobro do de Solís –, Caboto deixou Veneza e se

percorrido vastas extensões

transferiu para Sevilha. Desses formidáveis

da América do Norte em

rendimentos anuais deveriam ser descontados os dez

1497 e em 1498. Sebastião

mil maravedis referentes à pensão da viúva de

acompanhara o pai em sua

Américo Vespúcio. Homem de caráter dúbio, Caboto

segunda viagem. Depois da

jamais pagou o que devia.

morte de Giovanni – cuja

Em fins de 1525, o novo piloto-maior de Castela foi

terceira expedição se

incumbido de partir em direção às Molucas seguindo a

perdeu nos icebergs da

rota aberta pela expedição de Fernão de Magalhães. Na

costa norte do Canadá – e

mesma viagem, Caboto deveria tentar atingir também

das subsequentes

Catai (a China) e Cipango (o Japão), além de procurar

discussões entre Sebastião e

pelos reinos mitológicos de Tarsis e Ofir – territórios

o rei Henrique VII, bíblicos nos quais se encontrariam as riquezas do rei relativas ao pagamento de

Salomão e cuja existência ainda era considerada uma uma pensão vitalícia, realidade. Caboto retornou para

Com três naus e 150 tripulantes, Sebastião Caboto Veneza. Lá, não conseguiu

zarpou da Espanha no dia 3 de abril de 1526. Seguiu a convencer o Conselho dos

rota tradicional: ancorou nas Canárias, fez escala em Dez de que a sereníssima

Cabo Verde e no dia 3 de junho de 1526 chegou ao república de Veneza cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Quando os também deveria tomar navios se aproximavam da costa brasileira à procura parte na corrida de um rio para se abastecer de água doce, uma canoa ultramarina. Então, em

indígena se acercou de uma das naus. A bordo dessa 1518, Caboto decidiu se

8 mudar para a Espanha.

piroga, junto com os nativos, “vinha um cristão”. Ele subiu a bordo e se apresentou a Caboto: era Jorge Gomes, o piloto português que acompanhara Cristóvão Jaques ao Prata e subira o rio Paraná em 1521, sendo depois abandonado por ele na feitoria de Itamaracá. Gomes encheu a mente de Caboto com histórias sobre as inesgotáveis riquezas do Prata.

Retido pelo mau tempo e pelas correntes contrárias da costa leste-oeste (que quase o empurraram para o Caribe, como acontecera com Estevão Fróis 11 anos antes), Caboto só conseguiu partir de Pernambuco em setembro de 1526, depois de uma permanência de três meses no Nordeste brasileiro. Provavelmente ele já desistira de chegar às Molucas e estava decidido a explorar o Prata. De todo modo, se tal decisão ainda não fora tomada, ela certamente o seria no dia 28 de outubro de 1526, quando, por indicação de Jorge Gomes, Caboto chegou ao porto dos Patos. Foi ali que o taciturno capitão veneziano se encontrou com o entusiástico Henrique Montes.

Poucos dias depois da conversa entre Montes e Caboto, um outro náufrago de Solís chegava ao porto dos Patos, vindo do sul, a bordo de um bergantim e acompanhado por meia dúzia de indígenas. Era Melchior Ramires, que, cinco anos antes, também acompanhara Cristóvão Jaques ao Prata e ao Paraná. Com detalhes ainda mais tentadores, Ramires confirmou as notícias dadas por Henrique Montes relativas à expedição de Aleixo Garcia e às extraordinárias riquezas do rio que seria a via natural de penetração até o local onde o próprio Garcia recolhera as taças de prata e os peitorais de ouro.

Àquela altura, Ramires não estava mais vivendo no porto dos Patos. Ele havia se transferido para o sul de Santa Catarina e estava morando no local chamado de porto de Don Rodrigo. O porto de Don Rodrigo ficava uns 60 quilômetros ao sul do porto dos Patos, provavelmente na atual praia de Imbituba (embora alguns pesquisadores achem que ficava em Laguna, o que também é possível). O local recebera esse nome porque, três meses antes do desembarque de Caboto, o capitão

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espanhol D. Rodrigo de Acuña chegara ali “meio desarvorado e faminto”, com seu navio com as velas rasgadas e os mastros rachados.

OS TORMENTOS DE D. RODRIGO

D. Rodrigo era capitão de um dos navios da frota comandada por Jofre de Loyasa, que partira de Sevilha no dia 25 de julho de 1525, nove meses antes de Caboto, e com a mesma missão: chegar às Molucas via estreito de Magalhães. Mas, ao se aproximar da entrada do terrível estreito, em pleno inverno austral, a frota de Loyasa foi varrida de volta para o litoral brasileiro. O navio de D. Rodrigo se desgarrou dos demais e foi dar no porto dos Patos.

Ao desembarcar, em agosto de 1526, D. Rodrigo horrorizou-se com a promiscuidade dos náufragos de Solís. Encontrou-os “amancebados com muitas

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negras” (como então eram chamadas as nativas) e com uma vasta prole de

crianças mestiças. O máximo que o casto D. Rodrigo pôde fazer foi mandar o capelão de seu navio batizar a meninada.

O efeito das conversas de Henrique Montes, Melchior Ramires e Francisco Pacheco sobre os tripulantes do navio de D. Rodrigo parece ter sido mais profundo do que o do batismo sobre as crianças. De acordo com o relato de D. Rodrigo, após ouvir as notícias sobre as riquezas do Prata e ver de que maneira viviam os náufragos de Solís, “a metade dos meus homens pensava em abandonar a nau, para

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ficarem todos ali, transformados em selvagens”.

De fato, foram 32 os homens da nau de D. Rodrigo Acuña que desertaram. Com apenas metade da tripulação, ele se apressou em se retirar do porto dos Patos e, dirigindo-se um pouco mais para o sul, instalou-se por uns meses em Imbituba (ou Laguna), onde consertou o navio o melhor que pôde e, assim que possível, zarpou em direção ao norte do Brasil. Mas seus problemas estavam apenas começando.

Ao chegar à Bahia, nove dos 30 homens restantes foram devorados por índios antropófagos e, logo a seguir, seu navio foi atacado por um galeão francês que negociava pau-brasil com aqueles nativos. Durante esse ataque, sua própria tripulação o abandonou, fugindo com a nau, enquanto o pobre D. Rodrigo – que negociava uma trégua com os franceses – foi deixado para trás, com apenas oito marinheiros, em um batel (ou escaler). Depois de 20 dias remando pelo litoral nordeste do Brasil, o infeliz capitão conseguiu chegar, “perdido, descalço e desnudo

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como um selvagem”, à feitoria de Itamaracá, na qual acabara de desembarcar Cristóvão Jaques.

Embora tenha sido D. Rodrigo quem alertou Jaques para a presença dos entrelopos franceses na Bahia, o pagamento que ele recebeu em troca foi o confinamento por 18 meses na feitoria de Pernambuco.

Meses mais tarde, quando Caboto chegou ao porto Henrique Montes dos Patos, Melchior Ramires estava vivendo no porto deixou “uma de D. Rodrigo em companhia de 15 dos 32 desertores contabilidade” de seus de D. Rodrigo de Acuña. Os demais haviam se serviços como “provedor”

mudado para Cananeia, onde moravam alguns da armada de Caboto: em degredados. Assim que soube da chegada da frota de troca de alguns anzóis,

Caboto, Ramires pegou seu bergantim e seus índios e se espelhos, contas e dirigiu para o porto dos Patos. Foi depois de conversar ferramentas de metal, ele

longamente com Henrique Montes e Melchior Ramires obteve dos Carijó a carne que Caboto – do alto de sua condição de piloto-maior de “293 veados e 194

da Espanha – decidiu trocar definitivamente o objetivo antas, mel em favos,

inicial de sua missão: em vez das Molucas, ele iria muitos feixes de milho, 40

explorar o Prata e o Paraná. cestos de inhame, um lote

Henrique Montes foi contratado para ser o de ostras e botas [jarros]

“provedor da armada”, ou seja, o responsável pelo de cauí [a bebida abastecimento dos navios. Além dele, um certo fermentada dos índios,

Durango, desertor da nau de D. Rodrigo, adquiriu dos usada em beberagens índios “398 galinhas”. Eram os patos que, a partir de cerimoniais]”, além de então, emprestariam seu nome aos Carijó. centenas de palmitos “para

Informado de que não poderia subir o rio Paraná salada na mesa de sua

em suas naus, Caboto encarregou Melchior Ramires da mercê”.

construção de um bergantim. Bergantins eram Abaixo, gravura pequenos barcos a vela e a remo, esguios e velozes, seiscentista representando

com cerca de 10 metros de comprimento, dois mastros os Carijó. de galé e oito a dez bancos para os remadores. Em cedro e peroba, o navio foi construído pelos índios, sob supervisão de Ramires.

Com o bergantim desmontado e acondicionado no porão de uma das naus, e com Melchior Ramires e Henrique Montes incorporados à tripulação, Sebastião Caboto partiu em direção ao “rio maravilhoso” em 15 de fevereiro de 1527. Pouco antes, em homenagem à sua mulher, Catalina Medrano, ele batizou a ilha em frente da qual estivera durante quase quatro meses com o nome de “Santa Catalina”. No porto dos Patos, Caboto deixou desterrado o capitão Francisco de Rojas. Rojas fora terminantemente contrário à mudança de planos e achava que Caboto, mesmo sendo piloto-maior, não tinha o direito de desistir da missão para a qual o próprio rei da Espanha o designara.

SEBASTIÃO CABOTO NO RIO DA PRATA

Em fins de março de 1527, Caboto entrou no vasto estuário do Prata. Navegou cerca de 300 quilômetros rio acima. Penetrou no rio Uruguai e ancorou nas proximidades da atual cidade de Carmelo, que ele batizou de São Lázaro (veja mapa a seguir). Era ali que então vivia Francisco del Puerto, o grumete que sobrevivera ao massacre de Solís e depois acompanhara Cristóvão Jaques Paraná acima. O jovem Francisco – que havia mais de dez anos estava vivendo entre os Charrua – confirmou a Sebastião Caboto o que Jorge Gomes e Melchior Ramires já haviam dito: o melhor caminho para chegar à serra da Prata era subindo o rio Paraná.

Deixando dois de seus navios e uma guarnição em São Lázaro, Caboto ordenou que o bergantim fosse montado e, no dia 8 de maio, com esse navio e uma caravela, acompanhado por Francisco del Puerto, Melchior Ramires, Henriques Montes, Jorge Gomes e

outros 80 homens, ele ingressou por uma das bocas do Na gravura acima, um

rio Paraná. Subindo o rio por mais de 300 bergantim. quilômetros, Caboto fundou um pequeno forte, Sancti Spiritus, na confluência do Paraná com um de seus afluentes, o Carcarañá, um pouco acima do local no qual Cristóvão Jaques suspendera sua exploração cinco anos antes. Sancti Spiritus, com suas paredes de taipa e telhado de palha, ficava entre as atuais cidades de Rosário e Santa Fé. Ali, Caboto e seus homens permaneceram durante sete meses.

Mapa da bacia do rio da Prata, mostrando os fortes construídos por Caboto e a rota do Peabiru.

No dia 23 de dezembro de 1527, a bordo do bergantim, também batizado de Santa Catalina, 25 homens – entre os quais Caboto, Ramires, Montes, Jorge Gomes e Francisco del Puerto – partiram para explorar o Paraná. Foi uma jornada terrível por um labirinto de ilhas, com correntes contrárias, sob o calor de um verão escaldante, com pouca comida, índios hostis, mosquitos aos milhões e febres palustres. Caboto subiu o Paraná até sua confluência com o rio Paraguai. No encontro entre os dois rios, optou por seguir Paraguai acima.

Mas, infelizmente para ele, avançou menos de 200 quilômetros por esse rio, devido às fortes correntes, e resolveu dar meia-volta antes de ter chegado à foz do Pilcomayo, o rio que o teria conduzido à “sierra de la Plata”. Assim, descendo o Paraguai, ele entrou novamente no Paraná e o seguiu por cerca de 200 quilômetros, até as proximidades da atual cidade de Posadas, na Argentina. Ali, fundou um novo fortim, chamado de Santa Ana (veja mapa anterior). Quatro meses haviam se passado desde que o bergantim partira de Sancti Spiritus – e nada fora encontrado.

Ao visitar o fortim de Santa Ana, um chefe indígena amistoso chamado Yaguarón informou a Caboto que o verdadeiro caminho para a serra da Prata era pelo rio Paraguai. Caboto então deixou alguns homens em Santa Ana e desceu o Paraná, disposto a subir novamente o Paraguai. Entre os homens deixados no fortim estava Francisco del Puerto. Mais tarde, certa noite, esse grumete – que vivera quase a metade de sua vida entre os índios – teria aberto o portão da paliçada, permitindo que os nativos matassem os espanhóis. Francisco del Puerto ficou vivendo entre os indígenas e nunca mais se ouviu falar dele. Entre os mortos no fortim de Santa Ana estava o desafortunado Jorge Gomes – um destino inglório para o piloto que fora desterrado em Itamaracá.

Em 7 de maio de 1528, três dias depois de ter partido de Santa Ana, quando descia o Paraná e já se encontrava a cerca de 70 quilômetros da confluência com o Paraguai, Sebastião Caboto deparou com uma cena simplesmente inacreditável: viu dois bergantins com bandeira de Castela subindo o rio. Caboto não tinha a menor ideia de quem poderia estar a bordo deles. Como ele logo descobriria, o chefe dos bergantins era o capitão Diego Garcia de Moguer.

Apesar do nome (Moguer é uma cidade da Espanha), Diego Garcia era um experiente piloto português que provavelmente havia acompanhado a expedição de Solís ao Prata em 1515. Mais tarde, como tantos portugueses antes e depois dele, desertou para a Espanha. Em setembro de 1526, Garcia fora nomeado capitão-general de uma armada financiada por Cristóvão de Haro. O objetivo da diminuta frota, constituída por apenas uma nau e um galeão e com uma tripulação de 100 homens, também era atingir as Molucas.

O motivo pelo qual três expedições (a de Jofre Loyasa, da qual fazia parte D. Rodrigo de Acuña, a de Caboto e a do próprio Diego Garcia) haviam partido da Espanha quase simultaneamente e com o mesmo objetivo pode ser explicado pelo fato de que a Coroa de Castela estava decidida a estabelecer sua soberania sobre as ilhas Molucas e a cidade de Málaca o mais clara e rapidamente possível.

As Molucas eram as ilhas que produziam as especiarias. Enviadas dali para a cidade de Málaca, elas abasteciam a Índia e faziam a riqueza dos mercadores árabes. Os portugueses tinham chegado ao sudeste da Ásia em 1508 e conquistado Málaca em 1511. Mas em 1522 a expedição de Magalhães voltara das Molucas com provas de que a região ficava dentro da demarcação espanhola.

As medições feitas pelos pilotos de Castela não foram aceitas em Portugal. Por isso, em maio de 1524 três cosmógrafos espanhóis e três portugueses, mais três pilotos e três “letrados” de cada país, se reuniram em Badajoz, na Espanha, para tentar definir por onde afinal correria a linha de Tordesilhas ao redor do globo. Muito mais do que o ponto do litoral brasileiro pelo qual passaria esse limite, o que realmente interessava, naquele momento, era a localização da linha no Oriente. Como a conferência resultou em impasse, Castela decidiu ocupar militarmente e o mais rápido possível as Molucas,“o berço das especiarias”.

O MISTERIOSO BACHAREL DE CANANEIA

Diego Garcia partira de Palos em 15 de agosto de 1527 (quando Caboto já estava há dois meses no fortim de Sancti Spiritus). Ao contrário de Loyasa e de Caboto, ele fora autorizado pelo bispo Juan de Fonseca a explorar também o Prata – possivelmente porque já estivera lá. Depois de se abastecer nas Canárias, os navios de Garcia seguiram para São Vicente, no litoral sul de São Paulo. Após breve escala nesse ponto estratégico (que logo ficaria conhecido como porto dos Escravos), Diego Garcia partiu para Cananeia, onde chegou no dia 15 de janeiro de 1528.

Nessa ilha, no mesmo dia ou no seguinte, Diego Garcia encontrou um dos personagens mais sombrios e enigmáticos da história do Brasil – o homem a quem ele chamou de Bacharel de Cananeia.

Não se sabe quem esse homem era, nem como ou quando havia chegado ao Brasil. Sabe-se, isso sim, que se tornara uma espécie de Rei Branco vivendo entre os índios; que tinha pelo menos seis mulheres, mais de 200 escravos e mais de mil guerreiros dispostos a lutar por ele; que era temido e respeitado por todas as tribos costeiras desde São Paulo até Laguna; e que não havia quem ousasse desafiar o seu poder. O Bacharel de Cananeia era o virtual senhor do litoral sul do Brasil. Quase tudo mais que se pode dizer sobre ele são meras conjecturas.

O Bacharel não era um náufrago, como Henrique Um falastrão

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Montes ou Melchior Ramires. Não fora desterrado, Apesar de o nome do

como Jorge Gomes. Não estava perdido, como D. mais misterioso degredado

Rodrigo de Acuña. O Bacharel de Cananeia era um da história do Brasil não

degredado. Mas não um degredado como Afonso ser conhecido com certeza, Ribeiro – o homem que fora deixado por Cabral em sabe-se que o Bacharel de

Porto Seguro em 1500 e recolhido por Vespúcio em Cananeia não era um

1502. Ao contrário de Ribeiro, o Bacharel não quis se “bacharel” no sentido usual

aproveitar das determinações do rei D. Manoel, de do termo, ou seja, “um

acordo com as quais qualquer degredado que indivíduo formado em retornasse a Portugal com informações sobre o Brasil alguma faculdade”. não apenas seria absolvido de seu crime como Embora no século XVI a

receberia uma gratificação de 500 ducados. palavra já fosse usada

No Brasil, o Bacharel de Cananeia encontrara uma basicamente para indicar

ocupação muito mais lucrativa do que meros 500 aqueles que cursavam a

ducados. Ele se tornou o primeiro e um dos maiores universidade, em sentido

traficantes de escravos do sul do Brasil – capaz de figurado ela também

negociar cerca de mil cativos por vez. Foi o Bacharel significava “individuo que

quem inaugurou, em grande escala, a prática que se habla mucho y fuera de

tornaria a principal atividade dos futuros colonos de propósito y de tiempo”, de

São Vicente e a primeira fonte de renda da cidade de acordo com o Diccionario São Paulo: a escravização dos índios Carijó. As de la Lengua Castellana

vantagens e o poder que obtinha com o tráfico eram editado pela Academia

tão evidentes que ele jamais parece ter aventado a Española em 1516. possibilidade de retornar a Portugal. Ainda assim, apesar de seu papel preponderante nos 30 primeiros anos da história do Brasil, sua real identidade permanece envolta em mistério.

Embora fosse analfabeto, ao retornar à Espanha, o capitão Diego Garcia ditou uma Memória de la Navegación, na qual fez um relato detalhado de sua viagem (redigido basicamente para atacar Caboto). Referindo-se ao dia 15 de janeiro de 1528, Garcia diria apenas ter encontrado “um bacharel português que vive ali faz bem 30 anos e tem muitos genros”. Num trecho posterior de seu relato, Garcia citou o nome do Bacharel. Mas “os estragos feitos pelos anos e a incúria dos homens que

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deveriam cuidar do documento” acabaram fazendo com que o papel se rasgasse

justamente no ponto em que o nome do primeiro grande senhor de escravos do Brasil estava registrado.

Apesar de o historiador Rui Diaz Gusmán ter afirmado, em sua obra clássica La Argentina, escrita em 1612, que o Bacharel se chamava Duarte Peres (ou Pires), documentos datados de 1540 e 1542 e descobertos em 1954 por Ernest Young permitem supor que seu verdadeiro nome era Cosme Fernandes Pessoa. O Bacharel seria, assim, o misterioso “mestre Cosme” encontrado, mais tarde, por outros viajantes em São Vicente e em Cananeia. Segundo Francisco de Varnhagen, o Bacharel fora deixado em Cananeia pela expedição de Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio em 1502 (o que corresponderia aos aproximados 30 anos aos quais se referiu Diego Garcia).

Apesar de português, o Bacharel iria estreitar progressivamente seus laços com desertores e exploradores espanhóis, aos quais forneceria não apenas escravos, mas bergantins, víveres e mulheres. Ele parecia estar consciente de que Cananeia ficava dentro das possessões castelhanas no litoral brasileiro – como de fato estava.

Um dos muitos “genros” do Bacharel de Cananeia era Gonçalo da Costa (ou Acosta), também português e que estava vivendo desterrado no sul do Brasil havia cerca de 20 anos. Naquele 15 de janeiro de 1528, Gonçalo da Costa começaria a desempenhar um papel fundamental na exploração do Prata e do Paraguai. Ele e o Bacharel prometeram fornecer 800 escravos a Diego Garcia em um período de um mês. Em troca desses cativos, Garcia se comprometeu a levar Acosta de volta para a Europa. Mas esse não foi o único negócio de que trataram o viajante espanhol e os degredados “brasileiros” em Cananeia.

O CONFLITO ENTRE CABOTO E GARCIA

Informado de que não poderia subir o rio Paraná a bordo de sua nau nem de seu galeão, Diego Garcia comprou o bergantim que pertencia a Gonçalo da Costa (o barco com o qual ele e seu sogro, o Bacharel, costumavam recolher escravos ao longo da costa e que já os conduzira algumas vezes ao porto dos Patos). Com a embarcação desmontada e Acosta a bordo, Garcia partiu para o Prata, aonde chegou em fevereiro de 1528. No fim do mês, na ilha de São Gabriel, em frente à atual Colônia do Sacramento, ele ancorou, montou o bergantim e subiu o rio Paraná. Cerca de 600 quilômetros adiante, deu de frente com o bergantim de Sebastião Caboto, que descia o mesmo rio. Era o dia 7 de maio de 1528.

Foi um encontro constrangedor para os dois capitães. Mais do que isso, foi o início de uma relação conflituosa que iria perdurar por três anos e que os levaria a se enfrentar nos tribunais da Espanha. De início, Garcia tentou forçar Caboto a desistir de suas explorações no Prata – já que ele não fora autorizado a realizá-las. Mas, apoiando-se em sua posição hierárquica superior e no fato de já estar na região havia mais de um ano – e, acima de tudo, respaldado pela superioridade numérica de seus homens e armas –, Caboto acabou conseguindo se impor a Garcia.

Primeiro, impediu-o de continuar subindo o rio Paraná. Em seguida, obrigou-o a retornar com ele ao forte de Sancti Spiritus. Por fim, mandou roubar as velas de seu bergantim. Ao fazê-lo, Caboto involuntariamente salvou Diego Garcia de ser morto pelos índios sublevados, que, com a cooperação de Francisco del Puerto, haviam massacrado a guarnição que Caboto deixara no fortim de Santa Ana, às margens do rio Paraná, em território hoje argentino.

Depois de alguns meses como prisioneiro virtual de Caboto no forte de Sancti Spiritus, Diego Garcia relutantemente concordou em unir-se a ele e ajudá-lo a explorar o Alto Paraná e o Paraguai. Assim, os dois capitães ordenaram a construção de sete bergantins e, em dezembro de 1528, zarparam rio acima. Alguns meses antes, uma das naus de Caboto e o galeão de Garcia tinham sido enviados de volta à Espanha em busca de reforços e víveres. Por quase um ano, Caboto e Garcia navegaram muitas léguas rio acima – na contracorrente, portanto –, explorando, sem sucesso, o Paraguai, o Paraná e seus tributários (sem entrarem no Pilcomayo). Os índios, as febres e a fome os atacaram incessantemente. Em setembro de 1529, esgotado e faminto, Diogo Garcia desistiu da empresa. Um mês mais tarde, Caboto fez o mesmo.

Em novembro de 1529, Diego Garcia retornou ao O Destino de Caboto

porto dos Patos. Lá, ele recolheu o capitão Francisco de

Sebastião Caboto

Rojas, que Caboto deixara desterrado ali em fevereiro desembarcou em Sevilha

de 1527. Então, seguiu para Cananeia, onde em 22 de julho de 1530 permaneceu por vários meses como hóspede do

(dez dias antes de Diego

Bacharel e do genro dele, Gonçalo da Costa, Garcia). Trazia apenas 28

desfrutando seus escravos e suas mulheres. Em junho

sobreviventes – e cerca de

de 1530, zarpou para a Espanha, levando consigo não

60 escravos. O processo

só Francisco de Rojas (para usá-lo como testemunha instaurado contra ele por

no processo que iria abrir contra Caboto), mas

Diego Garcia foi rápido e,

também o mulato Francisco Pacheco (náufrago de em março de 1532, Caboto

Solís e companheiro de Aleixo Garcia na foi condenado a pagar 100

extraordinária jornada pelo Peabiru) e o próprio

mil maravedis de multas e

Gonçalo da Costa. Este último levou consigo duas de indenizações ao rei e ao

suas mulheres, quatro filhos e sete filhas. Pacheco e próprio Garcia. Foi Costa pagaram por suas passagens fornecendo a Diego

também condenado a um

Garcia oito e 15 escravos, respectivamente. Em 2 de exílio de quatro anos em

agosto de 1530, Garcia aportou em Sevilha, com um

Orã, na Argélia. Poucos

total de 70 escravos a bordo – único resultado de seus

dias depois de a sentença

três anos de viagem. No dia 16 do mesmo mês, ter sido promulgada, apresentou queixa formal contra Caboto.

porém, o imperador Carlos

Em maio de 1530, Sebastião Caboto também V – que passava a maior

chegou a Cananeia, lá encontrando Diego Garcia bem parte do tempo na instalado nos domínios do Bacharel. Quando soube Alemanha – chegou a

que seu rival levaria Francisco de Rojas para a Sevilha e indultou Caboto.

Espanha, tentou forçar o capitão que punira com o O veneziano foi desterro a embarcar em seu próprio navio. Rojas, reconduzido ao cargo de

temendo ser assassinado, se recusou. No dia 28 de piloto-maior da Espanha e

maio, Caboto zarpou para a Espanha. A bordo, recebeu o soldo que fora

seguiam Melchior Ramires e Henrique Montes, que suspenso. Pelos 12 anos

haviam se mantido fiéis a Caboto ao longo daqueles seguintes, viveu em Sevilha,

três anos de explorações infrutíferas. Henrique Montes mudando-se em 1548 para

embarcou para a Europa levando consigo três de suas a Inglaterra, onde morreu

mulheres indígenas. logo a seguir.

A chegada na Espanha dos polígamos Gonçalo da Costa e Henrique Montes iria causar furor nas duas Coroas ibéricas – mas suas mulheres não tiveram nada a ver com isso. O que realmente interessava eram as fabulosas informações que eles detinham sobre a “sierra de la Plata”. Essas notícias eram tão vivazes e intensas que, pouco antes, já tinham sido capazes de arrefecer o interesse da Espanha pelas ilhas Molucas. Como logo se verá, elas também haviam despertado cobiça vertiginosa em Portugal.

Nos primeiros dias de outubro de 1528, a nau que Caboto enviara do Prata para a Espanha em busca de reforços havia aportado em Lisboa. Seu capitão era o inglês Roger Barlow (homem de confiança do negociante Robert Thorne, um dos financiadores de Caboto). Durante os dias em que permaneceu em Portugal, Barlow se encontrou com o embaixador da Espanha, Lope Hurtado. No dia 19 de outubro de 1528, Hurtado escreveu uma carta bombástica para o imperador Carlos V, na qual dizia que, se fossem verdadeiros “os maravilhosos descobrimentos” feitos pelos homens de Caboto, “indubitavelmente Vossa Majestade Imperial não necessitará

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mais da canela ou da pimenta, porque terá mais ouro e prata do que necessita”.

A carta foi levada a sério na Espanha. Tanto que, em 22 de abril de 1529, os emissários de Carlos V assinaram com representantes do rei D. João III de Portugal o Tratado de Saragoça, mediante o qual, em troca de 350 mil ducados, a Espanha abria mão do direito de explorar as Molucas, cedendo o “berço de todas as especiarias” a seus rivais lusos. Uma cláusula do tratado estabelecia que a Espanha deveria devolver o dinheiro caso, no futuro, ficasse provado que as ilhas não estavam dentro da sua jurisdição.

O Tratado de Saragoça solucionou o conflito entre as duas Coroas no Oriente. Mas, em breve, a luta diplomática iria se transferir para a região do rio da Prata.