Náufragos, Traficantes e Degredados

Eduardo Bueno · Capítulo 4 de 13

Páginas do PDF

Náufragos, Traficantes e Degredados

III – A Terra do Brasil

III

A TERRA DO BRASIL

 

A pesar dos exageros e incorreções, a Lettera de Américo Vespúcio para Piero Soderini com certeza continha várias passagens verídicas. Uma delas é o trecho no qual, referindo-se ao final de sua primeira viagem ao Brasil, realizada entre maio de 1501 e julho de 1502, Vespúcio afirma: “Nessa costa não vimos coisa de proveito, exceto uma infinidade de árvores de pau-brasil (…) e já tendo estado na viagem bem dez meses, e visto que nessa terra não encontrávamos coisa de metal algum, acordamos nos despedirmos dela.”

Deve ter sido exatamente esse o teor do relatório que Vespúcio entregou para o rei D. Manoel, em julho de 1502, logo após desembarcar em Lisboa, ao final de sua primeira viagem sob bandeira portuguesa. O diagnóstico de Vespúcio selou o destino do Brasil pelas duas décadas seguintes. Afinal, no mesmo instante em que era informado pelo florentino da inexistência de metais e de especiarias no território descoberto por Cabral, D. Manoel já vinha concentrando todos os seus esforços na busca pelas extraordinárias riquezas do Oriente.

Estímulo para isso não lhe faltava: ainda em julho de 1501, um ano antes de ler o relatório de Vespúcio sobre as diminutas potencialidades comerciais do Brasil, o monarca havia recebido o próprio Pedro Álvares em audiência na corte. Retornando da Índia, o descobridor do Brasil trazia três caravelas repletas de pimenta, gengibre, noz-moscada, almíscar, açafrão, sândalo, âmbar, seda e porcelanas, além de alguns diamantes, pérolas e rubis. Nove das 13 embarcações com as quais Cabral partira de Lisboa em março de 1500 haviam naufragado, e mil homens estavam mortos – a maioria nos naufrágios, outros em combate contra mercadores árabes, na Índia. Ainda assim, o valor das mercadorias obtidas por Cabral foi duas vezes maior do que os gastos com a expedição.

Era normal, portanto, que D. Manoel voltasse sua atenção e todos os seus esforços para a conquista da Índia. Como a Coroa não possuía recursos financeiros nem humanos para atuar em duas frentes (ou três, já que as feitorias estabelecidas ao longo da costa ocidental da África continuavam ativas), o rei decidiu arrendar para a iniciativa privada a exploração das terras encontradas na margem ocidental do oceano Atlântico. Assim, no segundo semestre de 1502 D. Manoel assinou um “contrato de arrendamento” do Brasil com um consórcio de ricos mercadores lusitanos. Esse contrato determinava as condições sob as quais deveria ser explorado comercialmente o vasto território do qual Vespúcio tinha acabado de retornar.

Foi uma solução engenhosa, mas não original. Em novembro de 1469, o rei Afonso V, um dos antecessores de D. Manoel, havia tomado decisão semelhante. Mais interessado na África do Norte do que na distante África negra, aquele monarca firmara um contrato com um certo Fernão Gomes, abastado comerciante de Lisboa, passando-lhe a responsabilidade de organizar todas as viagens ao longo do litoral africano. Em troca do monopólio do comércio de pimenta-malagueta (e da possibilidade de traficar também ouro, marfim e escravos vindos da Guiné), Fernão Gomes era obrigado a descobrir 100 léguas (ou cerca de 600 quilômetros) de costa por ano durante cinco anos, e a entregar ao rei uma renda anual de 200 mil reais. O prazo foi depois aumentado para seis anos.

A decisão de D. Manoel de fazer um contrato semelhante com um consórcio de comerciantes liderado por Fernando de Noronha viria a ter enorme repercussão no primeiro quarto de século da história do Brasil. Ainda assim, nem um único documento relativo a essa resolução foi encontrado nos arquivos portugueses. Os termos da negociação só se tornaram conhecidos graças a uma carta escrita por um agente italiano.

Em 3 de outubro de 1502, Pietro Rondinelli, comerciante florentino residente em Sevilha, enviou para o governo de Florença uma correspondência na qual dizia: “Américo Vespúcio estará aqui dentro em poucos dias, o qual suportou bastantes fadigas e teve pouco proveito, pois merecia mais do que o ordinário; e o rei de Portugal arrendou a terra que ele descobriu [sic] a certos cristãos-novos, que são obrigados a mandar todos os anos seis navios e descobrir 300 léguas [cerca de 1.800 quilômetros] anualmente, e a fazer uma fortaleza no território descoberto e mantê-la nos ditos três anos. No primeiro ano, nada pagam à Coroa. No segundo, pagam 1/6 [do valor total da mercadoria] e no terceiro, 1/4 e fazem conta de trazer pau-

1

brasil e escravos e talvez achem coisa de proveito.”

Como muitos dos negociantes de Florença, a família Os Cristãos-Novos

Rondinelli era ligada à fiação, tecelagem e tingimento

Eram chamados de

de tecidos. E a informação de que a exploração do pau-

cristãos-novos os judeus

brasil fora concedida a um conhecido grupo de

convertidos ao cristianismo

cristãos-novos portugueses era uma notícia importante

por força de decretos reais,

para a indústria têxtil – que, naqueles dias, já se

assinados em Portugal a

tornara o motor do desenvolvimento geral da

partir de 1497.

economia europeia.

Posteriormente, várias leis

No final do século XV, graças ao Renascimento, as e alvarás regulavam – ou

populações urbanas da Europa tinham enfim

suprimiam, de acordo com

redescoberto os requintes da moda. O despojamento

o momento histórico – a

medieval ficara distante. Em todas as camadas sociais, proteção a esse grupo de

os trajes passaram a distinguir cada vez mais o sexo e recém-convertidos. O a personalidade dos usuários. Os homens termo “cristão-novo” não abandonaram as vestes de sarja em favor das meias era usual no vocabulário

colantes, da túnica e do colarinho pregueado. Entre cotidiano: a palavra mais

ambos os sexos difundiu-se a paixão pelos tecidos designava uma fórmula

bonitos, e os panos pesados deram lugar às sedas e ao jurídica do que outra coisa

veludo. E, o mais importante: a púrpura deixou de ser qualquer. Na prática, eram

uma cor exclusiva de reis e autoridades eclesiásticas chamados de “conversos”,

para entrar definitivamente na moda. “batizados em pé”,

Desde o século XI, a Europa estava familiarizada “marranos”, “anussins” ou

com o pau-brasil, embora de uma espécie diferente “gente nação”. daquela encontrada no Brasil. Nativa de Sumatra, a árvore – chamada, em malaio, de “sapang” (do sânscrito “patanga” ou “vermelho”) – era exportada para a Índia desde tempos imemoriais. Dali, os mercadores árabes a levavam para o Egito, pela via do mar Vermelho. Usado desde a aurora da era cristã para tingir as sedas e os linhos trajados pelos nobres do Oriente, o pó de sapang concedia a esses tecidos “um suntuoso tom carmesim ou purpúreo”. Após a penetração dos cruzados na Palestina, a Europa ficou conhecendo várias substâncias tintoriais do Oriente – e nenhuma lhe agradou mais do que o “brasil”.

As primeiras referências à chegada desse produto à Europa datam de 1085, quando o desembarque de uma “kerka de bersil” (ou “uma carga de bersil”) foi registrado nas alfândegas de Saint-Omer, na França. Pouco mais tarde, o termo francês evoluiu para “brezil”. Junto com a França, a Itália logo se tornaria uma grande consumidora de pau-brasil e registros desse comércio puderam ser encontrados nos arquivos das alfândegas de Ferrara (em 1193), Módena (1221) e Gênova (1243). Na Itália, a árvore passou a se chamar “bracire”, ou “brazili” e, mais tarde, “verzino” – que foi o termo empregado por Vespúcio na Lettera a Soderini. Com o nome de brasil, o “pau-de-tinta” já chegara à Espanha e a Portugal

2

por volta de 1220.

Cristóvão Colombo foi o primeiro a vislumbrar árvores de pau-brasil em meio às florestas do Caribe, e registrou sua existência na carta que enviou aos Reis Católicos em 1495. Em 1498, em sua terceira viagem à América, Colombo chegou a recolher 20 quintais (pouco mais de uma tonelada) da madeira nas matas do golfo de Pária, na Venezuela, e os levou para Sevilha. Em janeiro de 1500, Pinzón carregou seus navios com 350 quintais (ou 21 toneladas) de pau-brasil, recolhidos nas praias do Nordeste do Brasil, ou talvez na região de Pária. Poucos meses mais tarde, junto com as cartas que anunciavam a descoberta da ilha de Vera Cruz, Gaspar de Lemos levava para Portugal as primeiras toras da árvore que, em breve, acabaria misturando seu nome ao vasto território onde Cabral havia aportado em meio à sua jornada para a Índia.

Os especialistas europeus em corantes naturais logo perceberam que o pau-brasil nativo da América do Sul (cujo nome científico viria a ser Caesalpinia echinata) não era tão eficiente quanto o similar oriental (a Caesalpinia sappan). De todo modo, com as rotas comerciais com o Oriente bloqueadas desde 1453 (devido à tomada de Constantinopla pelos turcos), a variedade oriental do pau-brasil se tornara produto caríssimo. A descoberta de uma espécie equivalente no Ocidente foi saudada com entusiasmo.

As toras de pau-brasil, levadas para Lisboa, eram O Peso do Dinheiro

reembarcadas para Amsterdã para serem reduzidas a

O ducado era uma

pó. O pó – usado para tingir os tecidos – era revendido

moeda de ouro utilizada

na França e na Itália. A exaustiva tarefa de cortar e

por vários países da

raspar a duríssima madeira até transformá-la em pó

Europa, cunhada pela

grosso era dada a prisioneiros, e essa indústria tornou-

primeira vez em Veneza

se virtualmente um monopólio do governo holandês.

por volta de 1280. Do

Dois prisioneiros, trabalhando ao longo de um dia

século XIII ao século XVII,

inteiro, produziam 27 quilos de pó por jornada.

foi a principal moeda de

Apesar de sua utilidade e da demanda, o pau-brasil referência e de câmbio na

trazido da América do Sul valia bem menos do que, Europa – uma espécie de

por exemplo, a pimenta importada da Índia. Um dólar nos dias de hoje. Um

quintal (60 quilos) de pau-brasil era vendido em ducado valia 3,5 gramas

Lisboa, no início do século XVI, por cerca de 2,5 de ouro. Em Portugal, além

ducados. Um quintal de pimenta podia ser do ducado, havia várias

comercializado em Portugal, nessa mesma época, por moedas em circulação. A

mais de 30 ducados. Além disso, embora a Índia principal delas era o

ficasse muito mais longe da Europa que o Brasil e a cruzado (abaixo), criado navegação até lá fosse muito mais perigosa, era bem em 1489 pelo rei Afonso V.

mais fácil obter e transportar pimenta do que carregar Embora o cruzado fosse a

e transportar para Lisboa o duríssimo pau-brasil – moeda circulante, a moeda

mesmo que, para isso, os europeus sempre tenham de conta e de referência dos

contado com a ajuda dos nativos. lusos continuou sendo o

De todo modo, Fernando de Noronha logo percebeu real, criado pelo rei D.

as possibilidades que o negócio lhe abria, especialmente João I em 1398. Um

porque o rei se comprometera a proibir a importação cruzado valia 400 reais.

do pau-brasil do Oriente, garantindo a Noronha e a Além dos cruzados – e dos

seus sócios o monopólio do “trato do pau-de-tinta”. As escudos criados pelo rei D.

vantagens mútuas da transação ficam claras numa Duarte em 1435 e dos

carta escrita em 1506 por um comerciante italiano que justos e espadins de D.

vivia em Lisboa, um tal Lunardo de Cha Masser. Eis a João II –, também carta: circulavam em Portugal

“De há três anos para cá, foi descoberta uma terra moedas cunhadas na nova da qual se traz todos os anos 20 mil quintais [ou Espanha, como a onça

1.200 toneladas] de brasil, o qual é tirado de uma (que valia 14 reais) e,

árvore grossa que é muito pesada; mas que não tinge especialmente, o maravedi,

com a perfeição em que o faz o nosso do Levante [do antiga moeda árabe (que

Oriente]. Não obstante, despacha-se muito do referido valia 27 reais; um ducado

brasil para Flandres, e para Castela e Itália e muitos era igual a 375 outros lugares; o qual vale 2,5 ducados o quintal. O maravedis). referido brasil foi concedido a Fernão de Loronha, cristão-novo, durante dez anos por este Sereníssimo rei, por quatro mil ducados ao ano; o qual Fernão de Loronha manda em viagem todos os anos à dita Terra Nova os seus navios e homens, a expensas suas, com a condição que este Sereníssimo rei proíba que daqui em diante se extraia da Índia. O qual brasil em Lisboa lhe fica com todas as despesas por meio ducado o quintal;

3

na qual terra há bosques inteiros deste brasil.”

Da relação de Cha Masser conclui-se que o grupo Loronha ou liderado por Fernando de Noronha gastava dez mil Noronha? ducados por ano para trazer 20 mil quintais de pau-

Nos documentos do

brasil para Lisboa. Uma vez em Portugal, o produto

século XVI, Fernando de

lhes rendia 25 mil ducados, dos quais quatro mil

Noronha é chamado de

deviam ser pagos ao rei. O lucro líquido anual era,

Fernão de Loronha – e

portanto, de 11 mil ducados.

provavelmente esse era o

O DONO DO BRASIL seu verdadeiro nome.

Tanto Pietro Rondinelli quanto Lunardo de Cha Jamais ficou provado que

Masser se referem a Fernando de Noronha e a seus ele tivesse ascendência sócios como sendo cristãos-novos – ou seja, como bem judaica. O que parece certo

se sabe, judeus recém-convertidos ao cristianismo. é que, embora tenha

Pesquisas genealógicas realizadas sobre o homem que chegado a Portugal vinda

arrendou o Brasil, no entanto, nunca chegaram a ser da região das Astúrias, na

conclusivas. Espanha, a família de

A primeira referência a Fernão de Loronha nos Loronha era originária da

arquivos portugueses surge em uma “carta de quitação Inglaterra – muito de débitos”, assinada por D. Manoel em 26 de março possivelmente da região de

de 1498, na qual o monarca se refere a ele como Lotheringen, na fronteira

“tratador das nossas moradias” (o comerciante com a Escócia, de onde

responsável pelo abastecimento das despensas reais) procederia o nome durante os anos de 1494-96. No mesmo ano da carta “Loronha”, que, com o

que declarou Loronha livre de dívidas com a Coroa, ele passar dos anos, por erro

foi feito cidadão de Lisboa, com direito a “todas as na leitura e redação de

graças, privilégios, honras, liberdades e franquezas que documentos, tornou-se

4 Noronha.

têm e gozam todos os cidadãos da referida cidade”.

Antes de 1500, Loronha estivera diretamente envolvido com o comércio de pimenta-malagueta, sendo, junto com o banqueiro florentino Bartolomeu Marchioni (com o qual mais tarde se associaria), um dos principais negociantes desse produto em Portugal. Depois da descoberta do caminho marítimo para as Índias, em 1498, Fernão de Loronha se tornou também armador, enviando, por conta própria, algumas naus à Índia. Um dos navios que fez parte da frota de João da Nova, que partiu para a Índia em 1501 e fez escala no Brasil, foi armado por ele.

Em 16 de janeiro de 1504, Fernando de Noronha se tornou donatário de uma bela ilha localizada no meio do oceano Atlântico. Tal ilha provavelmente fora descoberta em 1502 e batizada de ilha da Quaresma. Redescoberta no ano seguinte por Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio, foi chamada de ilha de São Lourenço (por ter sido avistada a 10 de agosto, dia consagrado a esse santo). Ao ser doada pelo rei a Fernando de Noronha, a ilha se tornaria a primeira capitania hereditária do Brasil – e logo passaria a ser conhecida pelo nome do donatário. Até meados do século XVII, esse território insular seguiu sob a posse dos descendentes de Fernando de Noronha.

Pouco depois de ter recebido a ilha, Noronha, de acordo com alguns historiadores, pensou em transferir a sede de sua rede internacional de negócios de Lisboa para Londres. Tanto é que, em 26 de agosto de 1506, o rei D. Manoel assinou um alvará no qual lhe recusou licença para usar o brasão que lhe fora recentemente concedido pelo monarca inglês Henrique VII. Para essa suposta decisão de Noronha pode ter contribuído o recrudescimento dos sentimentos antis-semitas em Portugal, já que, em abril de 1506, muitos cristãos-novos foram trucidados em Lisboa “pela

5

plebe excitada pelos frades dominicanos”.

De todo modo, em 1524 Fernando de Noronha ainda morava em Lisboa, na rua Nova dos Mercadores, a mais refinada da cidade. E, em 28 de junho daquele ano, o rei D. João III, sucessor de D. Manoel, o fez fidalgo de armas e lhe mandou dar um brasão especial, mais requintado do que o brasão inglês que Noronha fora impedido de usar quase duas décadas antes. Por essa época, é provável que Fernando

de Noronha também já estivesse associado à família Acima, o brasão de

alemã Függer, uma das mais ricas da Europa e de armas concedido a cujos interesses ele seria representante em Portugal. Fernando de Noronha pelo

Embora certos historiadores afirmem que Fernando rei D. João III, em junho

de Noronha teria vindo ao Brasil como comandante da de 1524, em substituição

primeira expedição enviada sob as estipulações do ao brasão que lhe fora

contrato firmado em 1502, essa possibilidade é de todo dado pelo monarca inglês

improvável. Homem tão influente e rico não iria se Henrique VII, e que expor aos perigos do mar e às agruras de uma viagem Noronha tinha sido oceânica. De qualquer forma, mesmo após o impedido de usar enquanto encerramento do contrato original (que durou de vivesse em Portugal. agosto ou setembro de 1502 a setembro de 1505 e, ao que tudo indica, de imediato foi renovado por mais três anos), Noronha seguiu ligado ao “trato do pau-de-tinta”. Seus navios continuaram a ser enviados ao Brasil pelo menos até 1511. Em 1513, sabe-se que o monopólio do pau-brasil estava nas

6

mãos de um tal Jorge Lopes Bixorda, “armador e capitão de navios”.

O PAU-DE-TINTA Embora tenha se

No Brasil, o pau-brasil crescia quase que tornado a principal e quase

exclusivamente entre o Rio Grande do Norte e o Rio de única fonte de renda que

Janeiro, na planície costeira, em meio à exuberância da Portugal encontrou no Mata Atlântica. Havia três pontos específicos da costa Brasil, o pau-brasil não foi

onde as árvores se concentravam em maior estudado nem classificado quantidade: entre o Rio de Janeiro e Cabo Frio; ao sul pelos portugueses. O da Bahia, nos arredores de Porto Seguro; e em primeiro estudo científico

Pernambuco, nas proximidades da ilha de Itamaracá sobre a árvore foi (de onde provinha a madeira de melhor qualidade, o realizado em 1648 pelos

chamado “brasil fino”). Justamente por isso, aí seriam botânicos Willem Piso e

fundadas as primeiras feitorias. George Marcgrav na

A árvore de pau-brasil era frondosa, com folhas de monumental Historia um verde-acinzentado quase metálico e belas flores Naturalis Brasilae, feita amarelas. Havia exemplares extraordinários, tão sob os auspícios do conde

grossos que três homens não podiam abraçá-los. O Maurício de Nassau, obra

tronco vermelho ferruginoso chegava a ter, algumas na qual foi publicada a

vezes, 30 metros, embora a altura média fosse de 20 primeira ilustração metros. Os índios a chamavam de ibirapitanga – ou botânica do pau-brasil

“pau vermelho”. Eles o conheciam há séculos e usavam (abaixo). A planta foi sua madeira dura para fazer arcos e sua tinta para classificada em 1789 pelo

tingir de vermelho penas brancas. Era uma árvore grande botânico Lamarck,

sagrada. que a chamou de

A experiência ensinou aos portugueses (e aos Caesalpinia echinata. O franceses, que os seguiriam de imediato) que, para fins gênero “Caesalpinia” fora

de tinturaria, o pau-brasil deveria ser derrubado, criado em homenagem ao

durante o inverno, nos dias de lua nova, enquanto que, botânico e médico do papa

no verão, o corte mais propício era durante a lua Clemente VIII André

crescente. Essa, no entanto, parece ter sido a única regra Cesalpino, e a seguida para o abate da árvore. A exploração do “pau- denominação “echinata” de-tinta” foi feita num ritmo tão feroz que, ao longo de provém do étimo grego

todo o século XVI, portugueses e franceses levaram, em “ouriço” e se refere aos

média, oito mil toneladas da madeira por ano para a espinhos abundantes do

Europa. pau-brasil.

Só no primeiro século de exploração, cerca de dois milhões de árvores foram derrubadas – uma espantosa média de 20 mil por ano, ou quase 50 por dia. Cada navio levava cerca de cinco mil toras por viagem. Em 1550, segundo o pastor francês Jean de Lery, em um único depósito, pertencente aos contrabandistas franceses no Rio de Janeiro, havia 100 mil toras de pau-brasil estocadas. Não é de se estranhar, portanto, que, já em 1558, as melhores árvores só pudessem ser

7

encontradas a mais de 20 quilômetros da costa.

Em 1605, a Coroa, alarmada com os relatórios que informavam que, se o corte indiscriminado prosseguisse, “as madeiras virão a

8

acabar e se perder de todo”, passou a controlar a extração e até espalhou alguns guardas-florestais nas zonas onde a extração era mais comum. Mas a árvore estava virtualmente extinta. O impacto que as

Embora o comércio de pau-brasil fosse estimulado ferramentas de metal por portugueses e franceses, quem derrubava, causaram na vida dos

descascava, atorava e transportava os troncos do pau- indígenas pode ser medido

de-tinta eram os indígenas que viviam ao longo da pelas consequências que

costa brasileira, especialmente os Tabajara, os elas tiveram no próprio

Tupiniquim e os Tupinambá (além dos Potiguar, mas, comércio do pau-brasil:

nesse caso, praticamente só quando se tratava de enquanto com seus antigos

negociar com os franceses). O desempenho e o esforço machados de pedra os

dos índios foi bem resumido por Jean de Lery, que nativos levavam cerca de

viveu no Rio de Janeiro entre novembro de 1556 e três horas para derrubar

março de 1557, durante a desastrada experiência da um pé de pau-brasil, com

França Antártica. Em seu livro Viagem à Terra do machado de ferro o mesmo

Brasil, publicado em 1578, o calvinista Lery escreveu: serviço podia ser feito em

“Quanto ao meio de carregar essa mercadoria [o pouco mais de 15 minutos,

pau-brasil], direi que tanto por causa da dureza, e de acordo com estudos

consequente dificuldade em derrubá-la, como por não feitos por Herman von

existirem […] animais para transportá-la, é ela Ihering em 1894. A arrastada por meio de muitos homens; e se os gravura abaixo é do livro

estrangeiros que por aí viajam não fossem ajudados Viagem à Terra do Brasil,

pelos selvagens, não poderiam sequer em um ano de Jean de Lery, publicado

carregar um navio de tamanho médio. Os selvagens, em 1578. em troca de algumas roupas, chapéus, facas, machados […] cortam, serram, racham, atoram e desbastam o pau-brasil, transportando nos ombros nus às vezes de duas a três léguas [de 13 a 20 quilômetros] por sítios escabrosos, até a costa junto aos navios ancorados, onde os marinheiros o recebem.”

Bastaram uns poucos anos para que os indígenas percebessem o que os europeus queriam no Brasil, fossem eles portugueses ou franceses. Para os índios, a princípio, era indiferente que lusos e franceses fossem inimigos mútuos e disputassem entre si o comércio do pau-brasil e até a própria posse do Brasil. As alianças entre estrangeiros e indígenas só começariam a se formar depois, quando os nativos tiveram a oportunidade de distinguir claramente entre os “perós” – como eles chamavam os portugueses de pele e cabelos morenos – e os “mair”, apelido dado aos louros

9

franceses vindos, boa parte deles, da Normandia ou da Bretanha.

De início, os nativos ficaram encantados com as bugigangas que os europeus lhes ofereceram como “resgate”: espelhos, avelórios (vidrilhos), contas, pentes, cascavéis (guizos) e pedaços de pano. Assim que a novidade passou, lusos e franceses tiveram que substituir essas quinquilharias baratas por ferramentas de metal (tesouras, anzóis, facas e machados). Então, de um momento para outro, as tribos tupis do litoral brasileiro saíram da Idade da Pedra para ingressar na Idade do Ferro. Foi uma revolução instantânea.

Além dos machados, os anzóis tornaram a pesca mais fácil e as facas se revelaram um grande aliado contra os perigos e desconfortos da floresta. Ansiosos por obter os cobiçados objetos de metal, os nativos muitas vezes se antecipavam à chegada dos portugueses (ou à dos franceses), abatendo várias centenas de árvores.

Divididas em toras de 1,5 metro de comprimento e cerca de 30 quilos cada, elas ficavam estocadas em pontos estratégicos. A cada ano, os indígenas eram obrigados a ir mais longe, mata adentro, em busca de bons exemplares de pau-brasil, que, antes de 1501, cresciam praticamente no limite da praia. Além da imprevidência e da ganância dos próprios nativos, as queimadas que eles faziam para desbastar a mata ajudaram a reduzir consideravelmente o número de exemplares de pau-brasil. Atualmente, a árvore cujo nome foi usado para batizar o Brasil sobrevive praticamente apenas em reservas florestais e jardins botânicos e só lentamente começa a ser reintroduzida em seu ambiente natural.

AS FEITORIAS

Por volta de janeiro ou fevereiro de cada ano, as toras de pau-brasil, derrubadas pelos índios ao longo de vários meses, eram levadas para as feitorias construídas no litoral pelos portugueses. Tais feitorias em nada lembravam os entrepostos comerciais que os lusos tinham começado a fundar em 1448 na ilha de Arguim, no litoral da Mauritânia, na África, e que depois se estenderiam por toda a costa ocidental da África, pela costa do Malabar, na Índia, e, mais tarde, chegariam até os distantes Japão e China. No Brasil, elas eram como aquela que Américo Vespúcio fundou em Cabo Frio: um mero galpão de madeira cercado por uma paliçada de toras pontiagudas, tendo por mobília somente arcas e caixotes, e onde, ao longo do ano inteiro, ficavam apenas três ou quatro homens.

Em 1519, havia quatro feitorias no Brasil: as de Cabo Frio e do Rio de Janeiro, uma em Pernambuco e outra na Bahia. Dois desses quatro postos avançados do império português no Brasil ficavam em ilhas: na ilha Comprida, em Cabo Frio, e na de Itamaracá, em Pernambuco. Já a feitoria do Rio de Janeiro – cuja história é nebulosa – teria sido fundada por Gonçalo Coelho em 1504 e alguns historiadores acham que ela se erguia entre as atuais praias do Flamengo e da Glória, junto à foz do riacho chamado Carioca. Mas ela provavelmente também ficava numa ilha: a ilha do Gato (hoje do Governador), no fundo da baía de Guanabara.

A vida cotidiana dos homens deixados um ano inteiro (e às vezes até por mais tempo) nessas feitorias era monótona. O regimento ao qual eles deveriam se submeter deixava claro que seus contatos com os nativos e com o território selvagem que os cercava deveriam se restringir ao estritamente necessário. Um dos únicos divertimentos do escrivão e de seus poucos auxiliares durante seu solitário engajamento nos trópicos era ensinar os papagaios a falar.

De fato, junto com o pau-brasil – e com alguns macacos e saguis e a pele de certos felinos –, essas aves eram o principal produto de exportação do Brasil. O impacto que esses animais falantes e de plumagem exuberante provocaram – a princípio na corte, em Lisboa, e depois em boa parte da Europa Ocidental – foi tal que, de 1502 a 1505, o Brasil foi chamado de Terra dos Papagaios.

Por volta de fins de abril e princípios de maio de cada ano, as naus – que zarpavam de Lisboa em fins de fevereiro ou início de março, para melhor aproveitar as correntes e os ventos – chegavam para recolher o pau-brasil estocado nas três ou quatro feitorias espalhadas pelo imenso litoral do Brasil. Os homens engajados no tráfico de pau-brasil eram chamados de brasileiros – “do mesmo modo que se dizem baleeiros os que vão à pesca das baleias, e que se denominavam negreiros os que se ocupavam do tráfico de africanos, e que algum dia se disseram pimenteiros os que andavam traficando pimenta”, conforme escreveu Francisco de Varnhagen em 1854. O nome dado a esses traficantes de pau-brasil acabaria se estendendo a todos os nascidos no futuro país. Ainda de acordo com Varnhagen, se as regras gramaticais tivessem sido corretamente aplicadas, os nativos do Brasil deveriam se chamar brasilienses.

A NAU BRETOA

O dia a dia dos primeiros “brasileiros” pode ser minuciosamente reconstituído graças a um documento de 14 páginas chamado Livro da Viagem e Regimento da Nau Bretoa. Embora seja um texto árido e estritamente burocrático, sua leitura atenta permite obter detalhes saborosos sobre como se dava o então chamado “trato do pau-brasil” pelos portugueses no início da segunda década da presença europeia no Brasil.

A Bretoa – assim chamada por ter sido construída nos estaleiros da Bretanha, no norte da França – pertencia a um consórcio de mercadores formado por Fernando de Noronha, pelo banqueiro florentino Bartolomeu Marchioni, pelo sobrinho dele, Benedeto Moreli, e por um certo Francisco Martins, todos com certeza sujeitos endinheirados, embora nenhum deles pudesse ser comparado a Marchioni, que era o homem mais rico de Portugal.

A tripulação da Bretoa era constituída por 36 homens. O capitão, um Cristóvão Pires, também devia ser homem de posses, pois o regimento indica que ele morava na rua Nova dos Mercadores, no coração de Lisboa e sem dúvida a mais nobre da capital. Os demais oficiais da nau eram o escrivão Duarte Fernandes, o mestre de navegação Fernão Vaz e o piloto João Lopes de Carvalho, que já estivera no Brasil em 1503-4, como piloto de uma das caravelas da expedição de Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio. Carvalho acabaria se tornando a figura-chave da viagem da Bretoa. Treze marinheiros, 14 grumetes e quatro pajens completavam a tripulação.

A nau partiu de Lisboa em 22 de fevereiro de 1511, um sábado. Em geral, os navios zarpavam de Portugal nos fins de semana para que os familiares pudessem acompanhar a partida e se despedir – muitas vezes para sempre – dos parentes que embarcavam.

Só no dia 12 de março, em alto-mar, o capitão leu as ordens que recebera em Lisboa e as comunicou aos subalternos. De acordo com elas, a Bretoa deveria dirigir-se “o mais direta e rapidamente possível” à costa brasileira, onde sua missão era “obter a maior carga de pau-brasil de boa qualidade, com a menor despesa possível”.

No dia 6 de abril de 1511, a tripulação da Bretoa vislumbrou a foz do rio São Francisco, na divisa dos atuais estados de Sergipe e Alagoas. Onze dias mais tarde, a 17 de abril, o navio fundeava na baía de Todos os Santos, onde permaneceria por 27 dias. Aquela era uma escala habitual e o próprio Vespúcio, como já se viu, também havia passado “dois meses e quatro dias” ali em 1503. E um ou dois anos antes da chegada da Bretoa, nas cercanias daquela belíssima baía

Descoberto em 1844,

naufragara o homem que os nativos iriam batizar de

nos arquivos da torre do

Caramuru e que lá viveria por cerca de 50 anos.

Tombo, em Lisboa, por

Foi durante aquela estada da Bretoa na Bahia que

Francisco Adolfo de

ocorreu um incidente, considerado “gravíssimo” pelos

Varnhagen e publicado

oficiais: no dia 5 de maio, o escrivão Duarte Fernandes

pela primeira vez por ele

deu pela falta de alguns machados e machadinhas. Eles

em 1854, na primeira

haviam sido roubados por um ou mais tripulantes e

edição de sua monumental

usados no comércio ilegal de aves, penas e macacos

História Geral do Brasil, o

com os Tupinambá.

Livro da Viagem e

Para investigar o roubo, o capitão incumbiu o Regimento da Nau Bretoa

próprio escrivão e um certo João de Braga, que não tem 14 páginas fazia parte da relação original de tripulantes da Bretoa. manuscritas, redigidas e

Braga era o encarregado da feitoria então existente na assinadas pelo escrivão do

baía de Todos os Santos, fundada não se sabe quando navio, Duarte Fernandes.

nem por quem. Sem que o caso tivesse sido esclarecido, a Bretoa zarpou da Bahia em 12 de maio de 1511 levando João de Braga, possivelmente porque ele estava encarregado de descobrir quem roubara as ferramentas e também porque seria transferido para a feitoria de Cabo Frio.

No dia 26 de maio, a Bretoa ancorou na ilha Comprida, onde possivelmente se erguia a mais antiga feitoria do Brasil, fundada por Vespúcio em 1504. Os tripulantes começaram a carregar o navio em 12 de junho. Ao longo de 15 dias de trabalho, eles transportaram uma média de 330 toras diárias – o equivalente a oito toneladas.

Como, dos 36 tripulantes, seis eram oficiais, quatro eram seus pajens (ou criados pessoais) e 13 eram marujos (que, de acordo com uma longa tradição, se recusavam a fazer qualquer outro serviço que não pertencesse às funções ligadas à condução e manutenção do navio), o carregamento do pau-brasil foi realizado pelos 14 grumetes. Em jornadas de dez horas de trabalho, cada um carregou cerca de 24 toras por dia – média de uma tora de 30 quilos a cada 25 minutos. O total atingido pela carga da Bretoa foi de 5.008 toras, cujo peso ultrapassava as 100 toneladas.

A leitura do regimento da nau Bretoa – que pretendia regular cada passo de seus tripulantes – revela que o navio era uma espécie de quartel flutuante cuja única missão além-mar era a obtenção do maior lucro no menor tempo possível. Em tese, não havia nada de aventuresco na vida dos primeiros “brasileiros”. Praticamente tudo lhes era vetado. Não podiam ultrapassar os limites da feitoria. Não podiam visitar terra firme. Não podiam falar e muito menos negociar com os indígenas. Não podiam pernoitar fora da nau. E não podiam sequer praguejar: aqueles que “arrenegassem” de Deus, da Virgem ou dos santos seriam multados em três mil reais e passariam um tempo na cadeia na volta a Portugal. Os rigores da lei parecem indicar quão movimentado era o dia a dia dos recolhedores de pau-brasil e revela as “infrações” que mais cometiam: praguejavam, dormiam com as nativas, comerciavam com os índios, fugiam da feitoria, ou do navio, e iam para terra.

De todo modo, os oficiais também estavam submetidos a ordens estritas. Tudo que entrasse ou saísse do navio tinha que ser minuciosamente anotado pelo escrivão – até as agulhas. Tudo era numerado: as peças de “resgate” (facas, anzóis e machados), que saíam do navio diretamente para as mãos do feitor, e as toras que nele entravam. Eis um trecho do regimento: “Todos os paus do dito brasil que se carregarem na dita nau entrarão nela e se arrumarão perante vós e perante vosso escrivão, que os assentará com boa-fé em seu livro, de tal forma que não possa haver nisso nenhum erro e a arrumação deles [os paus], a mandareis fazer de tal modo que possa trazer a dita nau a maior soma que puder, sem vir coisa alguma dela de vazio.”

Qualquer demora inexplicada ou escala desnecessária custaria ao capitão o seu ordenado e alguns dias na prisão. Além de supervisionar o embarque da carga, os oficiais tinham uma outra responsabilidade: deveriam evitar a qualquer custo a deserção e a fuga dos marinheiros ou grumetes. É o que fica claro no seguinte trecho do regimento: “Vos lembrareis de terdes grande vigia na gente que vos acompanha, de maneira que não se possa na dita terra se lançar nem ficar nenhum deles, como algumas vezes já fizeram, o que é coisa muito odiosa ao comércio e ao serviço do dito Rei.” Dessa determinação – e do fato de dois grumetes terem desertado da armada de Cabral – é lícito supor que um significativo número de marinheiros fugia das naus e procurava abrigo junto aos indígenas.

A única brecha num regulamento de resto extremamente restritivo era a possibilidade, aberta a todos os tripulantes, de trazer para Portugal animais silvestres do Brasil – especialmente papagaios, macacos e felinos de pequeno porte, como jaguatiricas, todos muitíssimo apreciados como animais de estimação e, portanto, bastante valiosos tanto em Portugal quanto na França. A negociação para obter tais animais, no entanto, deveria ser feita exclusivamente por intermédio do feitor e nunca diretamente com os índios.

Os “brasileiros” da nau Bretoa se serviram amplamente da única chance de obter algum lucro pessoal com sua árdua jornada: mais de 60 animais foram levados para Lisboa, entre eles 15 papagaios, 12 felinos e seis macacos, além de saguis e tuins. Só um certo Jurami, criado de Bartolomeu Marchioni, adquiriu oito papagaios, sete felinos e cinco macacos. Nesse caso, porém, deve tê-los comprado não para si, mas para o patrão. Ao todo, esses animais foram avaliados em oito mil reais, valor sobre o qual o escrivão recolheu “um quinto”, referente aos impostos régios.

O regulamento da Bretoa também proibia expressamente que se desse “carona” aos indígenas, especificando que, por mais que eles insistissem, nenhum deveria ser levado para Portugal. O motivo para tal proibição, explicado pelo próprio regulamento, é bastante curioso. Como muitos dos nativos que decidiam embarcar por livre e espontânea vontade para Portugal acabavam morrendo a bordo dos navios ou na Europa, e como os poucos que lá chegavam raramente retornavam, seus parentes julgavam que os portugueses “os haviam comido, conforme era costume entre eles próprios”.

É interessante contrapor esse detalhe a outro documento da época, a Nova Gazeta da Terra do Brasil, na qual se afirma que, muitas vezes, era difícil conter o ímpeto dos nativos, “dispostos a embarcar de qualquer maneira, pois achavam que iam para a Terra da Promissão”.

Embora o regimento também especificasse que “nenhum mal ou dano” deveria ser “cometido contra os naturais da terra”, a nau Bretoa levou 36 escravos para Lisboa – número igual ao da tripulação original do navio. Eram 26 mulheres e dez homens. Só o capitão Cristóvão Pires adquiriu “dois moços e três moças, além de

10

uma moça, que levou por encomenda de Francisco Gomes”. O despenseiro

Jurami, criado do banqueiro Marchioni, comprou “um homem e quatro moças” – não para si, mas para o patrão. O fato de os tripulantes da Bretoa terem “resgatado” quase o triplo de “moças” em relação ao total de homens levou pelo menos dois historiadores a concluir que tais escravas eram utilizadas “basicamente como objetos

11

sexuais”.

Em princípios de agosto, a nau Bretoa zarpou de Cabo Frio, e no dia 11 de outubro de 1511 ancorou em Lisboa. A viagem durara exatos oito meses e, apenas com o pau-brasil, o lucro de Fernando de Noronha, Bartolomeu Marchioni e seus dois sócios chegou a quatro mil ducados.

Antes da partida para Portugal, porém, o feitor João de Braga e o escrivão Duarte Fernandes concluíram que os culpados pelo roubo das machadinhas e cunhas, ocorrido três meses antes na baía de Todos os Santos, eram o piloto João Lopes de Carvalho e um certo Pedro Annes, marinheiro. Embora jurassem inocência, ambos ficaram desterrados no Brasil.

É provável que João de Braga também tenha permanecido em Cabo Frio, em substituição ao feitor anterior, que retornou com a Bretoa para a Europa depois de uma permanência de quatro ou cinco anos no Brasil. Alguns anos depois, João Lopes de Carvalho e Pedro Annes seriam encontrados, por outra expedição, no Rio de Janeiro.

Com efeito, poucos meses depois do desterro, Carvalho e Annes fugiram do Cabo Frio e se instalaram no Rio, não se sabe se na feitoria lá existente ou se em alguma das muitas aldeias espalhadas pelo entorno da baía de Guanabara – muito provavelmente em uma aldeia, pois, como se verá, a partir dali, eles viriam a desempenhar um papel importante na história das viagens marítimas e da exploração do litoral brasileiro, e nesse momento sua ligação pregressa com os nativos ficaria evidente.

O NOME DO BRASIL

Por causa do crescente número de navios que, como a nau Bretoa, vinham, todos os anos, recolher sua carga de “pau-de-tinta”, o território que, em 1500, Pedro Álvares Cabral batizara de Ilha de Vera Cruz (e, logo a seguir, Terra de Vera Cruz e, pouco depois, Terra de Santa Cruz) iria se tornar, a partir de 1510, conhecido quase que exclusivamente por “Terra do Brasil”, depois de ter sido também “Terra dos Papagaios”.

Ainda assim, embora essa quarta designação tenha se consagrado, não há como comprovar que o Brasil tenha adquirido seu nome por causa do pau-brasil – ou, pelo menos, exclusivamente por isso. Afinal, apesar de os livros didáticos e o senso comum estabelecerem uma relação direta entre o nome do país e o nome da árvore, a origem da palavra “brasil” é misteriosa e repleta de ressonâncias. Há mais de 20 interpretações sobre a origem do étimo, e as discussões ainda parecem estar longe do fim.

O certo é que a palavra “brasil” é muito mais antiga do que o costume de utilizar o “pau-de-tinta” para colorir tecidos. Mais certo ainda é que a lenda e a cartografia antigas assinalavam, em meio às névoas do mar Tenebroso (como era conhecido o oceano Atlântico), a existência de uma ilha mitológica chamada Hy Brazil. Uma ilha móvel, “ressonante de sinos sobre o velho mar”, e que se afastava dos navegantes assim que eles se aproximavam dela.

Apesar do emaranhado na selva de palavras, o mais provável é que “brasil” provenha do francês “bersil”, mais tarde “brésil”, cujo significado mais provável é, de fato, “brasa”. Por outro lado, também é certo que “brasil” advém do celta “bress”, origem do inglês “to bless” (abençoar) – e que esse termo foi usado para batizar a ilha da Bem-Aventurança, a lendária Hy Brazil, que teria sido descoberta no ano de 565 pelo monge irlandês São Brandão.

O que pode ter acontecido, no alvorecer do século XVI, é que dois “brasis”, de origem e significado distintos, se fundiram para nomear um novo e auspicioso território – a Terra do Pau-Brasil, que também poderia ter sido a Ilha da Bem-

12

Aventurança.