Náufragos, Traficantes e Degredados
VII – A Expedição de Martim Afonso
VII
A EXPEDIÇÃO DE MARTIM AFONSO
A chegada do degredado Gonçalo da Costa e dos náufragos Melchior Ramires e Henrique Montes à Espanha causou profundo impacto e dissabor em Portugal. Afinal, embora fossem homens de baixa condição social, eles eram portadores de notícias tão extraordinárias que chegaram mesmo a ser recebidos em audiência na corte – e por ninguém menos que o próprio imperador Carlos V.
Apesar de envolvido na guerra contra Francisco I da França, Carlos V encontrou tempo para escutar pessoalmente os fabulosos relatos sobre a serra da Prata e o Rei Branco. E tratou de iniciar o planejamento para uma grande expedição cujo objetivo era a fundação de uma cidade castelhana na boca do estuário do Prata. Comandada – e financiada – pelo fidalgo Pedro de Mendoza, essa expedição de fato zarpou de Sevilha em fins de 1534, e nela Gonçalo da Costa e Melchior Ramires ocupavam cargos da mais alta importância.
Mas a guerra contra os franceses atrasou os esforços dos espanhóis: quatro anos antes, em 1530, o rei D. João III já havia enviado uma nova frota portuguesa para explorar o Prata. Ela era comandada por Martim Afonso de Sousa e levava, como “provedor da armada”, Henrique Montes e, como “língua da terra” (intérprete), Pedro Annes (marinheiro da nau Bretoa que, 20 anos antes, acusado de roubo, fora desterrado no Rio com João Lopes de Carvalho).
Antes mesmo que as notícias sobre o julgamento de Caboto chegassem a Portugal, o rei D. João III já sabia tudo sobre a viagem dele ao Prata. Afinal, o piloto da caravela de Roger Barlow – que havia ancorado em Lisboa antes de chegar a Sevilha para pedir reforços para Caboto – era o português Rodrigo Álvares. Fora ele quem divulgara as notícias “sobre as costas do ouro e da prata entre os homens do mar do porto de Lisboa, que não tardaram a fazê-las chegar aos ouvidos do
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rei”.
Por isso, quando D. João III soube da chegada a Sevilha do degredado Gonçalo da Costa e do náufrago Henrique de Montes – ambos portugueses –, tentou atraí-los a Lisboa. O primeiro a ser chamado foi Gonçalo de Costa. Por volta de outubro de 1530, o rei enviou seus agentes a Sevilha com a missão de levarem o ex-degredado para Portugal. Quando Gonçalo da Costa chegou a Lisboa, foi de imediato conduzido à corte. Depois de 20 anos de exílio, lá estava o caçador de escravos, genro do misterioso Bacharel de Cananeia, em frente ao seu soberano. E quem precisava dele era o monarca…
Apesar das promessas do rei – que “lhe perguntou coisas sobre o rio de Solís, que
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os portugueses chamam da Prata” –, Gonçalo fugiu de Lisboa, “porque, como não lhe deixaram retornar a Sevilha para pegar mulher e filhos, teve medo que o detivessem e deixou o reino sem que ninguém soubesse e sem se despedir de Sua
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Alteza”. O assédio ao ex-degredado e seus desdobramentos ficaram conhecidos porque, em 17 de fevereiro de 1531, a imperatriz D. Isabel, mulher de Carlos V, escreveu ao seu embaixador em Lisboa, Lope de Mendoza, ordenando-lhe que descobrisse tudo sobre a expedição que D. João III “pretendia enviar ao Prata”.
De fato, durante sua breve estada em Portugal, Gonçalo da Costa soubera que D. João estava preparando o envio da frota de Martim Afonso de Sousa. Conforme a imperatriz diria a seu embaixador, Gonçalo da Costa também “suspeitou que a dita expedição vai partir com dois ou três fins: expulsar os franceses da costa do Brasil, explorar o rio Marañón, que diziam ficar em sua demarcação, e fazer algumas fortalezas nos portos – como o porto de São Vicente –, pois levam muita artilharia grossa e porque, deste porto, que também fica na sua demarcação, pensam em
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entrar por terra ao rio da Prata”.
Quando a carta de D. Isabel chegou a Lope Hurtado de Mendoza, a armada de Martim Afonso já estava no Rio de Janeiro. Tinha partido de Lisboa no dia 3 de dezembro de 1530, com um galeão, duas naus, duas caravelas e 400 homens a bordo. Seus objetivos estratégicos eram exatamente aqueles que Gonçalo da Costa informara à imperatriz: punir os franceses, explorar o rio Marañón (como se chamava então o Amazonas, avistado por Pinzón 30 anos antes) e fundar uma fortaleza em São Vicente. O propósito primordial da missão, porém – e muito mais importante do que os demais –, era a exploração do rio da Prata.
Por isso, um dos tripulantes mais importantes da armada era o português Henrique Montes. Ao contrário de Gonçalo da Costa, Montes aceitara as “mercês” de D. João III e fugira para Portugal com uma de suas mulheres (as outras duas ficaram na Espanha). Em 16 de novembro Montes foi feito “cavaleiro da Casa Real”
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e nomeado “provedor da armada de Martim Afonso, quer no mar, quer na terra”. Um destino surpreendente e de todo glorioso para um ex-náufrago.
Quatro dias depois da nomeação de Henrique Montes, foi a vez de Martim Afonso de Sousa receber cartas reais que lhe conferiam “grandes poderes”. Feito capitão-mor da armada, Martim Afonso poderia doar terras em sesmarias e criar e nomear tabeliães e oficiais de justiça. Tinha também poder de vida e morte sobre aqueles que o acompanhavam, com exceção dos fidalgos, que deveriam, em caso de problemas, ser julgados no reino. Martim Afonso fora incumbido de levar a lei e a ordem para o vasto território que permanecia ocupado apenas por náufragos espanhóis, traficantes franceses e degredados portugueses, que “viviam de acordo
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com a lei natural”, cercados de muitas mulheres e escravos nativos.
As circunstâncias excepcionais que cercaram a expedição de Martim Afonso levaram alguns historiadores a afirmar que ele partia com a missão de colonizar o Brasil. Antes dessa viagem, D. João III já vetara dois projetos colonizadores, apresentados por Cristóvão Jaques e João Melo da Câmara, irmão do donatário da ilha de São Miguel, nos Açores. Em 1529, Jaques propusera ao rei levar, à própria custa, mil colonos para o Brasil. O projeto foi recusado, pois o rei considerava Jaques um homem autoritário e independente demais. Melo, por seu turno, se comprometera a enviar, sem ônus para a Coroa, “dois mil homens de muita sustância que podem levar consigo cavalos e gados e todas as coisas necessárias para
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o frutificamento da terra”. Mas D. João III também ignorou essa proposta. Na verdade, não há indícios de que o rei estivesse interessado em povoar o Brasil antes de 1532. Como seus antecessores, ele também preferia ocupar a Índia.
Ao escolher Martim Afonso, seu amigo de infância O Amigo do Rei (leia texto lateral a seguir), o verdadeiro objetivo de D.
Martim Afonso de
João III não era o de dar início ao povoamento do
Sousa nasceu na Vila
Brasil. O que o monarca de fato pretendia – além de
Viçosa, em 1500, pouco
combater o abuso dos traficantes franceses e explorar o
depois de Cabral ter
Amazonas – era se apoderar da foz do grande rio que,
descoberto o Brasil. Era
segundo todas as evidências, conduziria à fabulosa
cavaleiro de alta linhagem.
serra da Prata e aos misteriosos e opulentos domínios 8 Por parte de pai, descendia
do Rei Branco. de Martim Afonso
Com isso sonhavam também os 400 homens que Chichorro, filho bastardo
embarcaram com Martim Afonso. É o que se pode do rei Afonso III, e seu avô
deduzir da carta que o embaixador Lope de Mendoza materno fora mestre-sala
enviou em resposta à imperatriz D. Isabel, na qual ele do rei Afonso V. Martim
afirma que os tripulantes que partiram na frota o Afonso passou a infância
fizeram, quase todos, voluntariamente, “por vontade na corte, onde conviveu
própria e sem salário”. 9 com o futuro rei D. João Frei Gaspar da Madre de
Deus confirma a notícia ao afirmar que “famílias III. Quando este assumiu o
inteiras” acompanharam a expedição: “Vão para o rio trono em 1521, convocou
da Prata! E bastava escutar essa voz para que não Martim Afonso para fazer
faltasse quem quisesse alistar-se”, escreveu o frade em parte do Conselho Real.
Memória para a História da Capitania de São Além de treinado na arte
10 da guerra, Martim Afonso
Vicente.
era também um homem de
Martim Afonso partiu de Lisboa em 3 de dezembro
letras, discípulo do grande
de 1530. Avistou o cabo de Santo Agostinho em fins de
matemático português
janeiro de 1531. Num sinal evidente de que os franceses
Pedro Nunes, que foi seu
continuavam ignorando o acordo firmado entre D.
professor na juventude.
João III e Francisco I, a expedição deparou, já em seu primeiro dia no Brasil, com um navio normando carregando pau-brasil. Martim Afonso tratou de combatê-lo de imediato. Os entrelopos foram capturados e informaram que havia outros navios franceses ao sul do cabo de Santo Agostinho, possivelmente na ilha de Santo Aleixo, a uns 30 quilômetros dali.
Para lá rumou Pero Lopes de Sousa, irmão de Martim Afonso e redator do diário de bordo no qual foram registrados todos os acontecimentos da viagem (leia nota lateral a seguir). Pero Lopes enfrentou os franceses, que resistiram até lhes acabar a pólvora. Depois da rendição dos inimigos, Pero Lopes capturou suas duas naus, toda a sua artilharia e um grande carregamento de pau-brasil. O irmão de Martim Afonso então retornou para as proximidades da ilha de Itamaracá, uns 40 quilômetros ao norte do Recife. Deixou
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seus feridos instalados “numa casa de feitoria que ali havia”: era o estabelecimento
que Cristóvão Jaques fundara 15 anos antes. Foi ali que Pero Lopes e Martim Afonso se reencontraram, dias mais tarde. Todos esses acontecimentos se deram no início de fevereiro de 1531.
Logo a seguir, a frota se dividiu em três para melhor cumprir sua missão. Sob o comando do capitão Diogo Leite, as caravelas Rosa e Princesa foram enviadas para o norte, com a missão de explorar o rio Marañón, que Pinzón descobrira e percorrera exatos 31 anos antes. Uma das naus capturadas aos franceses partiu para Portugal, carregada com 70 toneladas de pau-brasil e 30 prisioneiros normandos. O restante da expedição – duas naus e um galeão, sob a chefia de Martim Afonso e Pero Lopes – zarpou em direção ao rio da Prata, seu objetivo primordial.
Em fins de março, enquanto os irmãos Sousa ainda estavam na Bahia, Diogo Leite chegou até a baía de Gurupi, atual divisa do Maranhão com o Pará. Devido ao mau tempo, ele não conseguiu explorar o rio Amazonas. Foi forçado a retornar a Lisboa sem ter cumprido sua importante missão e sem tomar posse do Amazonas.
O CARAMURU
No dia 13 de março de 1531, os navios de Martim Afonso chegaram à baía de Todos os Santos, local já bem conhecido pelos portugueses desde que a expedição de Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio lá chegara, 30 anos antes. Ali, a expedição encontrou um náufrago que vivia há mais de duas décadas no Brasil. Os índios o chamavam de Caramuru e ele iria se tornar uma figura-chave na história colonial do Brasil. O Caramuru estava casado com a índia Paraguaçu –
O Diário de Bordo
com a qual tinha vários filhos. Paraguaçu era filha do principal chefe guerreiro da região e, graças ao A fonte primordial para
casamento, Caramuru havia adquirido posição a reconstituição da proeminente entre os Tupinambá da Bahia. expedição de Martim
o O lugar de destaque e Afonso de Sousa foi Por influência do poema redigida por seu irmão e se respeito dos de Santa Rita Durão, chama Diário da Tupinambá por durante muitos anos se Navegação de Pero Lopes Caramuru se manteriam acreditou que Paraguaçu de Sousa . por muito tempo. Tanto é fora batizada de Catarina
que, 18 anos mais tarde, O documento original se em homenagem à rainha
foi graças à sua presença perdeu, mas em 1839 o da França, esposa do rei
– e às boas relações que historiador Francisco de Henrique II – que, segundo
ele mantinha com os Varnhagem, então com 23 a lenda, teria sido inclusive
nativos – que Tomé de anos, descobriu, na a madrinha do casamento. Sousa, o primeiro Biblioteca do Palácio Real Uma década antes de governador-geral do da Ajuda, em Lisboa, uma Santa Rita Durão, porém, Brasil, decidiu se instalar cópia do Diário. Embora o historiador e frade justamente na Bahia e incompleto e malcuidado, o franciscano Antônio de
fundar ali, em maio de documento – um códice Santa Maria Jaboatão
1549, a primeira capital com 41 páginas, repleto de tentara provar que o nome
do Brasil, Salvador. anotações e emendas feitas cristão dado a Paraguaçu
Não por várias mãos – era se sabe era, na verdade, uma
exatamente quando o autêntico e se revelou um homenagem à rainha
navio tesouro historiográfico. do Caramuru Catarina de Portugal,
naufragou na Bahia. De mulher de D. João III. No acordo com seu próprio entanto, documentos relato, o naufrágio se encontrados no Canadá, dera em 1509 ou 1510. no século XX, e citados Aparentemente, apenas pelo historiador J. F. de ele sobreviveu ao desastre Almeida Prado que vitimou toda a comprovam que a tripulação. Os fatos que verdadeira madrinha de se seguiram ao naufrágio Paraguaçu foi Catarina des seriam envoltos em lenda Granhes, mulher de depois que frei José de Jacques Cartier, fundador Santa Rita Durão de Québec e da Nova escreveu o poema épico França, no Canadá.
Caramuru, em 1781. Abaixo, retrato de Muitas das informações Caramuru, feito em 1838. referentes à vida e à
narrativa do misterioso
náufrago foram extraídas
dessa obra de ficção e, a
partir de então – e até
hoje –, tratadas como
fatos históricos.
O Caramuru se
chamava Diogo Álvares
Correia e nascera em
Viana do Castelo, norte de Portugal. A própria origem do apelido foi romantizada por Santa Rita Durão. Segundo o frade, “Caramuru” queria dizer “Dragão Saído do Mar” ou “Homem do Trovão”. O real significado da palavra, porém, parece ser “moreia”, espécie de enguia – peixe-elétrico que dá “choque”. Ao ser visto pelos nativos, entre as rochas, após o naufrágio, Diogo Correia teria disparado seu mosquete para o ar, apavorando os indígenas. “Como a moreia é um peixe comprido e fino como a espingarda e faz estremecer e fere, assim os nativos batizaram seu portador”, escreveu o historiador Francisco de Varnhagen em 1854. Outros pesquisadores, porém, acham que a palavra provém de “caray-muru”, que significa “homem branco molhado”.
Antes da chegada de Martim Afonso, Caramuru já socorrera espanhóis e franceses e até tinha sido levado para a França, onde se casou oficialmente com Paraguaçu, batizada de Catarina, em homenagem à madrinha, Catarina des Granhes, mulher do navegador Jacques Cartier (leia nota lateral anterior). Cinco anos após o encontro com Martim Afonso, Caramuru testemunharia o desembarque do primeiro donatário da capitania da Bahia, Francisco Pereira Coutinho.
Apesar de seu poder e de sua amizade com os nativos, Caramuru não conseguiu impedir a revolta dos Tupinambá contra os colonos escravagistas que vieram com Francisco Pereira Coutinho – talvez até a tenha incentivado. O fato é que um conflito violento eclodiu por volta de 1545 –, e nele foi morto o próprio donatário. Quatro anos mais tarde, Caramuru prestaria auxílio ao governador Tomé de Sousa, de 1549 até 1553. Ele morreu com quase 70 anos, em 5 de outubro de 1557.
Em meados de março de 1531, depois de considerar as nativas da Bahia “tão
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formosas quanto as mais belas moças da Rua Nova, de Lisboa”, Martim Afonso
partiu para o Rio de Janeiro. Na bela Guanabara, decidiu descansar a tropa e consertar os navios. Na atual praia do Flamengo, fundou uma pequena vila, cercada por uma paliçada, com “uma casa forte”, uma ferraria e um estaleiro. Ali, enquanto Henrique Montes era encarregado de obter mantimentos para a viagem ao rio da Prata – suficientes para 300 homens durante um ano –, o capitão ordenou a construção de dois bergantins de 15 bancos cada um.
Durante os quatro meses em que a expedição esteve no Rio, Martim Afonso repetiu o que Américo Vespúcio fizera três décadas antes: enviou quatro homens em missão de reconhecimento ao sertão. Passados 31 anos da descoberta do Brasil, aquela era a segunda incursão oficial ao interior do território. Por três décadas os portugueses tinham “negligenciado o interior daquelas terras, contentando-se de as
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andar arranhando ao longo do mar, como caranguejos”, para citar a frase que
frei Vicente do Salvador escreveu em 1627.
Por dois meses, os homens de Martim Afonso percorreram 115 léguas (ou 700 quilômetros) – 65 das quais por montanhas imponentes e 50 por um grande platô descampado. Na volta, trouxeram um “grande rei”, senhor de toda aquela região, que veio com “grandes pedaços de cristal e a notícia de que no rio Paraguai havia
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muito ouro e prata”. Segundo o historiador Capistrano de Abreu, os homens de
Martim Afonso subiram a serra da Mantiqueira e chegaram a São Paulo. E, de acordo com o historiador luso Jaime Cortesão, esse “grande senhor” era Tibiriçá, cacique de Piratininga, a aldeia que daria origem à cidade de São Paulo, e sogro do soturno degredado João Ramalho, que Martim Afonso iria encontrar alguns meses mais tarde.
A TRÁGICA JORNADA DE PERO LOBO
o
No dia 1 de agosto de 1531, após quatro meses no Rio de Janeiro, a frota de Martim Afonso partiu para o sul. No dia 12, ancorou em frente à ilha de Cananeia, que Pedro Annes e Henrique de Montes com certeza já conheciam. Annes, “língua da terra”, foi enviado a terra, num batel, para fazer contato com os nativos. Cinco dias mais tarde, retornou trazendo consigo o misterioso Bacharel de Cananeia, um dos muitos genros dele, chamado Francisco de Chaves, e mais “cinco ou seis castelhanos”. Esses homens eram os desertores da nau de D. Rodrigo de Acuña que, fazia sete anos, viviam nos domínios do Bacharel.
Pero Lopes de Sousa, autor do Diário da expedição, não citou o nome do Bacharel, que, assim, permanece sem confirmação. Disse apenas que ele vivia “degredado ali havia 30 anos”. Martim Afonso estabeleceu boas relações com o autêntico senhor daquelas terras. Tanto que lhe doou uma sesmaria, embora o Bacharel nunca tenha podido legalizá-la e permanecesse vivendo à margem da lei.
Dos homens que subiram a bordo naquele dia, quem mais falou foi Francisco de Chaves. Ele garantiu que, se lhe dessem homens suficientes, “voltaria para aquele porto, no espaço de dez meses, com 400 escravos carregados de ouro e prata”. A proposta entusiasmou Martim Afonso.
o
No dia 1 de setembro de 1531, Francisco de Chaves entrava pela selva, acompanhado pelo capitão Pero Lobo e por mais 40 besteiros e 40 espingardeiros. A tropa pretendia atacar as aldeias limítrofes do Império Inca, localizadas dois mil quilômetros a oeste dali. Era uma reprise da aventura de Aleixo Garcia, realizada sete anos antes. Embora Francisco de Chaves e Pero Lobo não pudessem suspeitar, seu destino seria igual ao de seu antecessor.
Liderado por Chaves, o exército de Pero Lobo partiu de Cananeia por um dos ramais que conduziam ao Peabiru. Então cruzou o rio Iguaçu pouco acima de sua estrondosa foz e entrou no território dos temíveis Payaguá. Os indígenas impediram o avanço da tropa e depois a atraíram para campo raso, onde Pero Lobo foi morto. “Com esse revés”, conta o historiador Sérgio Buarque de Holanda, “sentiram-se tão desarvorados os expedicionários sobreviventes que deliberaram retroceder. Tornando ao rio Paraná, receberam-nos os índios da região com fingidas mostras de amizade, propondo-se dar-lhes passagem em suas canoas. Para esse efeito, trouxeram-nas furadas, mal tapadas de barro as fendas e aberturas. De sorte que, já no meio do rio, retiraram o barro, com o que se alagaram as canoas e, assim, dos portugueses, os mais se afogaram ao peso das armas que levavam, e alguns que apanharam vivos mataram-nos a flechadas e nenhum sobrou. Fora-lhes possível o estratagema por serem aqueles índios grandes nadadores e não haver o que lhes estorvasse os movimentos, pois que andavam nus. Com a malícia e traição de que se valeram nesse caso, terminou tristemente a jornada daqueles portugueses, da qual pode-se dizer foi, cronologicamente, a primeira entrada paulista da qual existe
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documentação.”
Enquanto a expedição de Pero Lobo partia para seu trágico destino na selva, Martim Afonso e Pero Lopes zarparam rumo ao Prata. O litoral era todo conhecido por Pedro Annes e Henrique Montes. Mas não foi uma jornada fácil. Na ida, um dos bergantins fez escala na ilha de Santa Catarina e lá encontrou 15 castelhanos. Eles confirmaram a notícia de que “havia muito ouro e prata sertão adentro e traziam
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mostras do que diziam”. A seguir, navegando pela costa do Rio Grande do Sul e
do Uruguai, Martim Afonso e Pero Lopes tiveram grandes dificuldades.
Segundo o próprio Martim Afonso, ele passou “por muitas tormentas, até por derradeiro me dar uma tão grande que se perdeu a nau em que eu ia e escapei em
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uma tábua”. Esse naufrágio se deu no dia 21 de outubro de 1531, na entrada do estuário do Prata, próximo a Punta del Este. O capitão-mor só se salvou por ser bom nadador. Embora tenham pescado “18 mil peixes em um só dia, entre corvinas
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e anchovas”, os lusos tinham perdido quase todos os mantimentos que Henrique
Montes obtivera no Rio de Janeiro. Por isso – e pelo mau estado das naus e pelos fortes temporais de verão –, Martim Afonso foi forçado a desistir de explorar o rio da Prata.
Ainda assim, enviou Pero Lopes com 30 homens num bergantim rio Paraná acima, sob a orientação de Henrique Montes. Não se sabe até onde Pero Lopes avançou, mas provavelmente não passou da foz do rio Carcarañá, onde Caboto fundara o forte Sancti Spiritus cinco anos antes. Ali, apesar de saber que estava em território espanhol, Pero Lopes fincou marcos – então chamados “padrões” – com inscrições em português, tomando posse da terra em nome do rei D. João III.
Os marcos colocados por Pero Lopes de Sousa dariam origem a uma polêmica secular entre Portugal e Castela, travada em torno da posse do rio da Prata. Os portugueses – até então ferozes defensores do Tratado de Tordesilhas – passaram a advogar a tese de “posse por achado”, baseados no fato de o rio da Prata ter sido descoberto em 1514 por João de Lisboa e Estevão Fróis. Tal decisão equivalia a rasgar o Tratado de Tordesilhas, mas foi a ela que Portugal se agarrou. A questão diplomática eclodiria com estrondo 150 anos mais tarde, em 1680, quando os lusos fundaram a Colônia do Sacramento na margem esquerda do Prata, em frente a Buenos Aires.
o
No dia 1 de dezembro, Pero Lopes e seus homens decidiram descer o Paraná e retornar para a foz do estuário, onde Martim Afonso e os demais integrantes da expedição os aguardavam. No primeiro dia de 1532, toda a frota partiu de volta para o Brasil, chegando a Cananeia no dia 16 de janeiro. Cinco dias mais tarde, transferiram-se para São Vicente, local combinado para o reencontro com a tropa de Pero Lobo. Mas a expedição já fora trucidada pelos nativos.
Por um ano e três meses Martim Afonso permaneceu em São Vicente e acabou fundando ali a primeira cidade portuguesa no Brasil. Alguns historiadores, no entanto, afirmam que essa não teria sido uma decisão formal. Foi basicamente com a intenção de dar continuidade à exploração das riquezas do Prata que cerca de 250 integrantes da expedição de Martim Afonso simplesmente se deixaram ficar em São
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Vicente, “mais como hóspedes do que como colonizadores”.
O PATRIARCA DOS MAMELUCOS
Outros motivos podem ter contribuído para que vários homens de Martim Afonso decidissem se estabelecer em São Vicente. Um deles pode ser deduzido de uma carta escrita em 1554 pelo padre José de Anchieta. Além de buscar fortuna fácil em terra virgem, na qual não havia “nem lei nem rei” e onde abundavam “a caça, a pesca e os frutos silvestres”, os colonos portugueses também depararam com nativas “que andam nuas e não sabem negar-se a ninguém, mas ainda elas mesmas assediam e importunam os homens, metendo-se com eles nas redes, pois consideram
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uma honra dormir com cristãos”.
Outro fato, de natureza mais prática, influiu na decisão dos colonos de se deixarem ficar em São Vicente. Além de ser considerado “a porta de entrada para o sertão” e o caminho natural para a serra da Prata, o local já era conhecido como “porto dos Escravos” – sede de um incipiente tráfico de cativos indígenas. Quem dera início, ali, a essa lucrativa atividade fora uma figura insólita que atendia pelo nome de João Ramalho.
Não se sabe se João Ramalho era náufrago ou degredado. Sabe-se apenas que estava no Brasil desde pelo menos 1508. Como Caramuru, Ramalho se tornara genro do maior líder guerreiro da região. De fato, entre suas muitas concubinas, a principal era Bartira, ou M’boy (“Flor de Árvore”, em tupi), filha de Tibiriçá, chefe dos Guaianá e futuro aliado dos portugueses.
Martim Afonso e João Ramalho se encontraram no verão de 1532, em São Vicente. Mas Ramalho não vivia à beira-mar: havia pelo menos duas décadas, ele se instalara no topo do planalto, acima da serra do Mar, nas proximidades da atual cidade de Santo André, a cerca de 100 quilômetros da costa. Dali ele dirigia o tráfico de escravos do interior para o litoral. Foi Ramalho quem conduziu Martim Afonso serra acima, pela trilha escabrosa do Paranapiacaba (“lugar do qual se vê o mar”), caminho cujo traçado era similar ao da atual via Abaixo, retrato Anchieta, a estrada que liga Santos a São Paulo. romantizado de João Ramalho era o senhor de todo aquele vasto e ainda Ramalho e um de seus
desconhecido território, onde, por causa dele, os muitos filhos, feito em 1954
portugueses iriam se instalar poucos anos mais tarde. por J. Wasth Rodrigues
Existem várias lendas em torno dessa figura por encomenda do Museu
enigmática. O que se pode dizer com certeza é que João Paulista. Ramalho era venerado, temido e respeitado pelos nativos. De acordo com depoimentos posteriores, ele podia “arregimentar cinco mil índios, enquanto o rei de Portugal só ajuntaria dois mil”. O cálculo foi feito pelo aventureiro alemão Ulrich Schmidel, que em 1553 trilhou o Peabiru desde Assunção, no Paraguai, até São Vicente. Ao passar por Santo André, achou-a com o “aspecto de um covil de bandidos” e ficou aliviado ao saber que “Johanes Reimelle” não estava lá, mas no
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sertão, escravizando índios.
Se João Ramalho infundia terror em homens como Schmidel, é fácil supor o que acharam dele os jesuítas que chegaram em seguida. Em carta escrita em agosto de 1553, o padre Nóbrega diria que a vida de Ramalho era “uma petra scandali para nós (…) Tem muitas mulheres e ele e seus filhos andam com as irmãs [de suas esposas] e têm filhos delas. Vão à guerra com os índios e suas festas são de índios, e assim vivem, andando nus como os mesmos índios”.
Apesar das declarações de Nóbrega, Ramalho não havia virado índio. Tornou-se, isso sim, o patriarca dos mamelucos, o primeiro branco do Brasil a gerar uma dezena de filhos mestiços – os mesmos que, anos mais tarde, iriam compor o grosso do contingente das bandeiras paulistas e que revelariam violência inigualável na escravização dos indígenas do sertão.
O fato de João Ramalho viver “amancebado” com Bartira levaria o jesuíta Simão de Lucena a excomungá-lo em 1550. Mas, em 1553, Nóbrega percebeu que seria impossível levar adiante a obra de catequese sem o aval de Ramalho e passou a se empenhar pessoalmente para que ele casasse com Bartira. O casamento enfim se realizou e Bartira foi batizada com o nome de Isabel. Em julho de 1553, o governador-geral Tomé de Sousa nomeou Ramalho capitão-mor da vila de Santo André. Ao escrever para o rei, Sousa diria que Ramalho tinha “tantos filhos, netos e bisnetos que não ouso dizer a Vossa Alteza. Ele tem mais de 70 anos, mas caminha nove léguas [cerca de 54 quilômetros] antes de jantar e não tem um só fio branco na
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cabeça nem no rosto”.
Em 1560, por ordem de Mem de Sá, terceiro governador-geral, Ramalho se transferiu de Santo André para São Paulo – e, dois anos depois, salvou a cidade de um ataque dos Carijó. Em 1564, recusou o cargo de vereador. Quatro anos depois, o jesuíta Baltasar Fernandes diria que Ramalho tinha “quase 100 anos, estando entre os índios e vivendo não sei de que maneira, e não querendo nada de nossa ajuda nem mistérios”. Fernandes relatou também um acidente sofrido pelo patriarca em andanças pelo sertão, afirmando que “sua hora cedo virá”.
Mas João Ramalho só morreu em 1580, com mais de 95 anos de idade. Graças a sua liderança e aliança com os índios, graças ao seu conhecimento das trilhas que percorriam o planalto e graças ao rendoso tráfico de escravos que ele inaugurara, São Vicente e São Paulo acabaram se tornando as mais importantes vilas do sul do Brasil.
O processo de inserção de João Ramalho na história do Brasil se iniciou depois de seu encontro com Martim Afonso, no verão de 1532. As relações entre o capitão-mor e o patriarca dos mamelucos foram frutíferas e respeitosas. Há indícios de que Martim Afonso conversava, negociava e se aconselhava constantemente com João Ramalho.
Tempo para isso não lhe faltou, pois Martim Afonso permaneceu em São Vicente até maio de 1533. Completados 18 meses desde a partida de Pero Lobo, o capitão-mor desistiu de esperá-lo e partiu para Portugal, não sem antes fazer de João Ramalho “guarda-mor da Borda do Campo” e determinar que só ele poderia “resgatar” (negociar) com os índios. Como o Bacharel de Cananeia, Ramalho também recebeu vasta sesmaria.
Durante o ano e meio que ficou em São Vicente, Martim Afonso não organizou uma nova expedição ao rio da Prata por vários motivos. Primeiro, ele tinha esperanças que Pero Lobo e Francisco de Chaves voltassem de sua viagem “com 400 escravos carregados de ouro e prata”. Depois, fora convencido pelo próprio João Ramalho de que o caminho terrestre até o Peru era menos exigente do que a jornada fluvial rio Paraná acima. Além disso, o tempo estivera horrível: por meses a fio choveu em São Vicente.
Em maio de 1532, um ano antes de partir, Martim Afonso enviara seu irmão Pero Lopes para o Nordeste do Brasil. Após uma escala no Rio e outra na Bahia (onde desertaram três marujos), Pero Lopes chegou a Pernambuco no dia 4 de agosto. Lá, encontrou a feitoria de Cristóvão Jaques (onde, em fevereiro de 1531, ele próprio havia deixado seus feridos convalescendo) ocupada por 70 franceses. Esses homens tinham sido deixados ali pela nau A Peregrina. Por 18 dias, Pero Lopes os combateu ferozmente. Matou seis e prendeu 64, dos quais mandou enforcar 20. Após reconstruir e armar a feitoria, zarpou para Portugal, onde chegou no início de 1533,
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com mais de 40 prisioneiros.
Em agosto de 1533, seis meses após o retorno de Pero Lopes, Martim Afonso aportava em Lisboa. Poucas semanas mais tarde, chegavam a Portugal as notícias mais desalentadoras possíveis para os lusos e para os dois irmãos que tinham tentado conquistar a serra da Prata. Em árduo contraste com o destino inglório da excursão de Pero Lobo, um bando de aventureiros espanhóis, liderado por um ex-criador de porcos chamado Francisco Pizarro, acabara de realizar “a mais
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extraordinária façanha da história da conquista do Novo Mundo”. Em novembro
de 1532, com 153 homens e 27 cavalos, Pizarro havia descoberto e fora capaz de conquistar o império do lendário Rei Branco – que, então, era o Inca Atahualpa, filho de Huayna Capac.
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O “feitiço do Peru” paralisou toda a atividade exploratória e colonizadora dos
portugueses (e dos espanhóis) na “costa do ouro e da prata”, como era chamado, então, o litoral que vai de Cananeia até a foz do rio da Prata. Esse efeito estagnador se tornaria ainda mais completo depois de 1545, quando os espanhóis descobriram também a “sierra de la Plata”. Como o próprio Rei Branco, esse lugar lendário, ao qual se referiam os índios do sul de São Paulo, de Santa Catarina e das margens do Prata, existia de fato: era o cerro de Potosí, montanha de 600 metros de altura, quase toda de prata pura e da qual os conquistadores extraíram seis mil metros cúbicos do metal – fortuna que causou grande impacto na economia europeia.
Até o fim da primeira metade do século XVI, no entanto, nem os próprios espanhóis tinham plena consciência dos entornos geográficos de suas descobertas. Foi apenas em 1549 que, partindo de Assunção, o capitão espanhol Domingo de Irala chegou a Chuquisaca, na Bolívia (onde Aleixo Garcia estivera 25 anos antes), e pôde concluir, então, que o Rei Branco das lendas indígenas era o Inca e que a “sierra de la Plata” era Potosí.
A conquista do Peru e a descoberta de Potosí fizeram com que “o caminho terrestre que conduzia do litoral atlântico ao Paraguai (o Peabiru) perdesse todo o seu valor, o Prata fosse esquecido pelo colonizador e desprezado por seus sequazes e a vida platense se recolhesse sobre si mesma”, como escreveu o historiador paulista
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Caio Prado Jr.
Decepcionados por não terem conseguido conquistar o império do Rei Branco, Martim Afonso de Sousa e seu irmão Pero Lopes jamais retornaram ao Brasil, voltando todas as suas ações e atenções para a conquista e o comércio com a Índia e deixando abandonadas as capitanias hereditárias que o rei D. João III decidira lhes dar logo após ambos terem retornado para Lisboa.
De fato, enquanto Martim Afonso e Pero Lopes ainda estavam no Brasil, o rei D. João III – alarmado pela captura da nau francesa A Peregrina e firmemente aconselhado por seus assessores – decidiu, enfim, iniciar a ocupação e colonização do Brasil. Para fazê-lo, dividiu a colônia em 12 capitanias hereditárias e as repartiu entre membros da burocracia estatal.
Martim Afonso e Pero Lopes ganharam seus lotes. Martim Afonso se tornou dono de São Vicente e do Rio de Janeiro. Pero Lopes recebeu um lote vizinho a São Vicente e outro mais ao sul, que se estendia desde a ilha do Mel, no Paraná, até Laguna, em Santa Catarina. Como prêmio por sua luta contra os franceses, Pero Lopes foi agraciado com um terceiro lote em Itamaracá, em Pernambuco.
Mas o Brasil jamais voltou a interessar os dois irmãos. Pero Lopes morreu num naufrágio, em 1539, quando retornava da Índia, onde cometeu grandes atrocidades contra árabes e hindus. Quanto a Martim Afonso, em suas memórias, redigidas em 1557, ele citaria o Brasil uma única vez, e apenas para dizer que, aqui, gastara “perto
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de três anos, passando muitos trabalhos, muitas fomes e muitas tormentas”.
A criação das capitanias hereditárias não ajudou a modificar o panorama desolador que se abatera sobre o Brasil após a descoberta do Peru. Em Portugal se espalhara, nessa mesma época, a tese de que “o ouro, prata, pedras preciosas são
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somente para os castelhanos e que para eles os reservou Deus”. Um espanhol se
encarregaria de debochar dos portugueses afirmando que “as melhores minas do
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Brasil são capturar e matar [índios] tapuias”. Um poeta luso o ecoou,
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assegurando que tudo de bom estava “para além do Brasil”.
O trauma era tal que, em 1549, fracassado o projeto das capitanias hereditárias, Tomé de Sousa, primeiro governador-geral e primo-irmão de Martim Afonso de
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Sousa, veio para o Brasil ainda disposto a transformá-lo em “um outro Peru” –
milagre que ele evidentemente não pôde concretizar. Meio século havia se passado desde a descoberta de Cabral e o Brasil continuava dependendo das ações de náufragos como Caramuru e de degredados como João Ramalho, enquanto o principal, e quase único, negócio dos colonos instalados no seu litoral continuava sendo a escravização dos nativos, comércio incrementado pelo obscuro Bacharel de Cananeia, ao mesmo tempo que os traficantes franceses de pau-brasil seguiam com sua atividade em largas porções do litoral.
Náufragos, traficantes e degredados seguiam definindo o destino ainda incerto do vasto território cuja exploração havia ajudado a desvendar e batizar “a quarta parte do mundo”.
O PODER E O VALOR DAS MOEDAS
Embora alguns estudiosos queiram atribuir a origem da palavra “moeda” aos fenícios, povo que deu origem ao mercantilismo internacional, o mais provável é que o étimo provenha do latim “moneta” – uma referência ao lugar onde os romanos cunhavam suas moedas: o templo de Juno Moneta. O uso e a cunhagem de moedas, no entanto, era costume anterior ao apogeu de Roma e remonta ao século VIII a.C. O rei Creso, da Lídia, teria sido o primeiro a usar o ouro para cunhar suas moedas. No século III da era cristã, o ouro – devido à escassez e ao valor – caiu em desuso. Mas, no século XII, o costume de utilizar o metal foi ressuscitado pelas moedas comerciais das repúblicas italianas de Veneza e Florença. Em 1283, o doge Giovanni Dandolo (1280-1289) cunhou em ouro a moeda chamada “zecchino” (de Zecca: Casa da Moeda). O zecchino – chamado “sequim” em Portugal – tinha 3,5 gramas de ouro e trazia a seguinte inscrição em latim: Sit Tibi, Christe, Datus Quem Tu Regis, Iste Ducatus, que quer dizer: “Seja a Ti, Cristo, dedicado este Ducado” (“Ducado”, nesse caso, era a própria nação que cunhara a moeda). Por causa disso, o zecchino ficou conhecido como ducado. Durante cinco séculos, a moeda manteve o valor equivalente ao seu peso em ouro: 3,5 gramas.
Na Europa do século XVI, os preços eram praticados em ducados. Por exemplo: um quintal (ou 60 quilos) de pimenta valia cerca de 35 ducados e um quintal de pau-brasil, 2,5 ducados (8,75 gramas de ouro). Uma nau valia aproximadamente mil ducados (ou 3,5 quilos de ouro) e uma arroba (ou 15 quilos) de açúcar, meio ducado. Conforme dito neste livro, Portugal pagou à Espanha 350 mil ducados (ou 100 quilos de ouro) pela posse das ilhas Molucas.
O ducado circulava em Portugal, mas a principal moeda da nação era o cruzado. Vinte e cinco cruzados valiam um ducado. Embora a moeda circulante fosse o cruzado, a moeda de conta em Portugal era o real (cujo plural, até 1580, era reais, e não réis, como seria a partir de então) – que não circulava mais desde fins do século XV. Um cruzado valia 400 reais. Uma nau valia 25 mil cruzados e a sua artilharia equivalia a dez mil cruzados. Um escravo negro valia cerca de três mil cruzados e um nativo do Novo Mundo, mil cruzados. A manutenção de um pelotão de 150 soldados durante um ano, em Angola, na África, custava 7.500 cruzados em 1536.
Um serralheiro ganhava 175 cruzados por ano; um ferreiro, 150, e um condutor de carroças, 25 cruzados anuais.
Havia muitas moedas em circulação em Castela –
entre elas a dobra, a onça, o dobrão e o peso. Mas a principal moeda de conta era o maravedi (ou morabitino, maravedim ou ainda amaravidil), de origem árabe, cujo nome remete à dinastia dos Almorávidas, que reinou na Espanha. Os Reis Católicos Fernando e Isabel desvalorizaram 18 vezes o maravedi. Ainda assim, 375 maravedis equivaliam a um ducado. Um maravedi valia 27 reais e um quintal de pau-brasil era vendido, em 1504, por 1.865 maravedis.