Náufragos, Traficantes e Degredados
V – O Rio das Grandes Riquezas
V
O RIO DAS GRANDES RIQUEZAS
A o contrário da França, a Espanha evidentemente concordava com as estipulações do Tratado de Tordesilhas. Afinal, a partilha do mundo, feita em 1494 com bênção papal, fora assinada de comum acordo entre Portugal e Espanha – e evitara, naquele momento, a guerra iminente entre as duas Coroas. Porém, como nenhum cosmógrafo era capaz de demarcar com precisão o local pelo qual passava a linha divisória estabelecida pelo tratado (e como a própria realidade geográfica da América permaneceria envolta em contornos nebulosos pelo menos até a descoberta do estreito de Magalhães, em 1519), os dois reinos ainda travariam muitos conflitos diplomáticos até que a situação se apaziguasse.
Os choques entre as Coroas ibéricas eram aumentados pelo fato de que reinava na Espanha grande confusão com relação à natureza da região que se estendia desde o cabo de Santo Agostinho (em Pernambuco) até Pária (na Venezuela) – zona que fora, toda ela, descoberta e explorada a partir de 1498 pelas expedições espanholas comandadas por Cristóvão Colombo, Alonso de Hojeda, Vicente Pinzón e Diego de Lepe.
Castela estava convencida de que toda essa área, que ficava ao sul do mar do Caribe, lhe pertencia por direito. Os espanhóis acreditavam também que o território que Cabral havia descoberto ao sul do cabo de Santo Agostinho era apenas uma ilha. Sobre os limites de Tordesilhas nas porções meridionais do que viria a ser o Brasil, o desconhecimento era ainda maior – na verdade, talvez fosse total, e, nesse caso, por parte das duas Coroas.
Mas Castela logo obteria novas informações sobre o território do Brasil. Afinal, no dia 5 de fevereiro de 1505 retornava para Sevilha o homem que mais conhecia a região que Cabral havia avistado em abril de 1500 e que ele próprio já havia explorado duas vezes: o florentino Américo Vespúcio.
Poucos dias antes, Vespúcio fora demitido pelo rei D. Manoel – ou talvez tenha se demitido… A carta escrita pelo mercador Piero Rondinelli (a mesma graças à qual o contrato entre D. Manoel e Fernando de Noronha ficou conhecido) afirmava, já em 1502, que Américo se julgava “mal pago” e estava insatisfeito com o tratamento que lhe era dispensado pelo rei de Portugal. Alguns historiadores, contudo, acham que foi o retorno de Gonçalo Coelho (que teria chegado a Portugal em janeiro de 1505, seis meses após o retorno de Vespúcio) que na verdade precipitou a demissão do florentino. Cabe lembrar que os dois haviam brigado durante sua segunda viagem conjunta ao Brasil e seus desencontros – primeiro na ilha de Fernando de Noronha e depois na Bahia – podem ter sido provocados por Vespúcio, embora em suas cartas o florentino afirme o contrário. Na verdade, até hoje não se sabe quem abandonou quem.
De todo modo, Américo Vespúcio não só deixou Portugal como, em 24 de abril de 1505, naturalizou-se castelhano. Logo a seguir, informou ao rei D. Fernando que o Brasil não era uma ilha, mas parte de um vasto continente, que se estendia desde o golfo de Pária, na Venezuela, até pelo menos Cananeia, no litoral sul do atual estado de São Paulo.
Ainda mais importante é que Vespúcio estava convencido da existência de um estreito, que se localizaria no meio ou ao fim dessa massa continental. Essa suposta passagem marítima para a Ásia conduziria a Málaca e às ilhas Molucas, território que ficava a leste da Índia e era tido como o lugar no qual “nasciam todas especiarias”. E o melhor é que Vespúcio averiguara que, a partir de Cabo Frio, a costa brasileira inclinava-se resolutamente para oeste. O suposto estreito, portanto, haveria de se localizar em território pertencente à Espanha. Com tal opinião concordavam os maiores navegadores espanhóis de seu tempo, Vicente Yañez Pinzón e Juan de la Cosa.
Em 7 de novembro de 1507, o rei D. Fernando convocou Vespúcio e Juan de la Cosa para irem a Burgos, no norte da Espanha. Lá já estavam D. Juan Rodrigues de Fonseca, bispo de Córdoba e responsável por todos “os negócios das Índias”, e os pilotos Vicente Pinzón e João Dias de Solis. Solis era um navegador português que um ano antes fugira de Portugal (onde havia sido condenado pelo assassinato da mulher) e que, tal como Vespúcio, também se naturalizara castelhano.
Embora fossem o mais estrito segredo de Estado, as três principais decisões tomadas pela chamada Junta de Burgos logo ficaram conhecidas em Portugal, graças a uma eficiente rede de espionagem. A primeira delas foi a nomeação de Américo Vespúcio para o cargo de piloto-maior da Espanha. Ele assumiu o posto em 22 de março de 1508, com um salário anual de 50 mil maravedis (veja sobre os
valores monetários em “O Poder e o Valor das Moedas“). A partir de então, nenhum navegador poderia exercer sua profissão sem antes ser examinado por Vespúcio e receber dele uma carta de habilitação.
A segunda decisão foi a de enviar uma expedição conjunta, comandada por Pinzón e Solis, para averiguar em que lugar do litoral sul do Brasil passava a linha de Tordesilhas. Por fim, ficou decidido também que Juan de la Cosa deveria partir para o Caribe em busca de uma passagem para o suposto “mar do Sul” – o oceano que, em tese, banharia a costa oeste da América e conduziria às desejadas ilhas Molucas. Ambas as viagens se concretizaram, embora, como se verá, sem resultados práticos.
Com efeito, Vicente Pinzón e Juan Díaz de Solís partiram rumo ao Brasil já no dia 23 de maio de 1508. Em fins de junho, tocaram o cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. É provável que tenha sido essa visita de Pinzón ao cabo que ainda hoje leve vários historiadores a julgar que ele também teria estado ali em janeiro de 1500, o que não ocorreu. De Pernambuco, supõe-se que a expedição conjunta tenha perlustrado a costa do Brasil até a altura de Cabo Frio. Sem terem encontrado uma passagem marítima para o oeste e já rompidos um com o outro em função de disputas surgidas durante a viagem, Pinzón e Solís retornaram à Espanha. Em 14 de novembro de 1509, com os navios repletos de pau-brasil, eles aportaram em Sevilha.
Considerado responsável pela briga que eclodira durante a viagem, Solís foi imediatamente enviado para a prisão. Já Pinzón, embora satisfeito com a punição do rival, decidiu que, após tantas agruras vividas no mar, era hora de se aposentar. Cinco anos depois, em 1514, o primeiro navegador europeu a ter Acima, retrato do bispo
chegado ao Brasil morria quase esquecido em sua Juan de Fonseca, chefe do
cidade natal, Palos, sem jamais ter voltado a navegar e Conselho das Índias e
antes de usufruir as honrarias e o brasão de armas que principal responsável pela
o imperador Carlos V concedeu não só a ele, mas a coordenação das viagens
toda a família Pinzón por seu papel na descoberta e enviadas pelos espanhóis
exploração da América. ao Novo Mundo.
Tão logo soube que a expedição Pinzón-Solís havia percorrido a costa do Brasil, D. Manoel enviou protestos formais ao rei D. Fernando, deixando mais tenso o clima entre as duas Coroas. Mas em breve as coisas iriam piorar ainda mais.
No dia 9 de junho de 1509, cerca de um ano depois de Solís e Pinzón terem zarpado em sua viagem conjunta, Juan de la Cosa partiu para o Caribe – e novamente em companhia de Alonzo de Hojeda, com o qual ele já havia viajado em 1499. Sempre bem relacionado na corte, Hojeda, apesar de todos os desmandos que cometera, fora designado pelo bispo Fonseca como governador da região do Darien (o istmo que faz a ponte entre a América Central e a América do Sul, nos atuais Panamá e Colômbia).
No dia 22 de fevereiro de 1510, os nativos atacaram Cartagena, na Colômbia, o povoado que Hojeda e La Cosa tinham fundado. Dos 70 espanhóis que estavam no vilarejo naquele momento, 69 foram mortos – entre eles o veterano Juan de la Cosa, então com 60 anos. Quando o único sobrevivente do massacre foi resgatado, ele relatou que La Cosa morrera de forma horrível. De fato, quando o corpo do homem que havia sido companheiro de Colombo na descoberta da América, que viajara com Vespúcio e fizera o primeiro mapa a representar o Brasil foi encontrado, estava inteiramente desfigurado e inchado, recoberto de flechas envenenadas e de espantosas chagas vermelhas.
Em 22 de fevereiro de 1512, exatos dois anos após a morte de La Cosa, morria em Sevilha, serenamente e em sua própria cama, Américo Vespúcio – o homem cujo nome tinha sido usado para batizar o Novo Mundo.
Com Vespúcio e La Cosa mortos e Pinzón aposentado, o rei D. Fernando nomeou, a 22 de março de 1512, Juan Díaz de Solís piloto-maior da Espanha. Solís fora solto em dezembro de 1511 e ainda recebera uma indenização de 37 mil maravedis, já que sua prisão foi considerada injusta. Seu salário passou a ser de 50 mil maravedis (dos quais deveria ser descontada uma pensão de dez mil maravedis que seria anualmente paga à viúva de Vespúcio, Maria Cerezo).
O “mar do Sul” seria finalmente avistado no dia 25 de setembro de 1513. Depois de uma jornada épica, Vasco Núñez de Balboa cruzou as montanhas e selvas do Panamá e enfim vislumbrou o oceano que banhava a costa oeste da América. De posse dessa informação – que a deixava com ampla vantagem sobre Portugal na corrida em busca desse território desconhecido –, a Coroa castelhana decretou que qualquer navio português encontrado navegando pelo Caribe fosse capturado e seus tripulantes imediatamente presos.
Menos de um ano depois, o capitão luso Estevão Fróis e sua tripulação se tornariam as primeiras vítimas dessa decisão. Mas a descoberta que a expedição de Fróis fizera pouco antes era, de certa forma, tão importante quanto o achado de Balboa – e teria profundo efeito na história das viagens de exploração enviadas ao sul do Brasil pelas duas décadas seguintes.
O RIO DO MACHADO DE PRATA
Estevão Fróis havia partido de Portugal nos primeiros meses de 1514 com duas caravelas. O capitão do outro navio era João de Lisboa, um dos maiores navegadores portugueses de seu tempo, veterano da viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1497, e piloto da expedição de Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio em 1503. A viagem de Fróis e Lisboa é a única missão exploratória enviada pelos portugueses ao Brasil entre 1503 e 1514 da qual se tem notícia. Mas, como ela só ficou conhecida por uma casualidade, é bem possível que tenha havido outras.
Não se sabe qual era o objetivo da jornada comandada por João de Lisboa e Estevão Fróis. O mais provável é que eles também tivessem sido incumbidos de descobrir onde terminava o continente americano e averiguar a existência do suposto estreito que conduziria ao misterioso oceano recém-descoberto pelos espanhóis.
A expedição fora financiada por D. Nuno Manoel e por Cristóvão de Haro. Cristóvão de Haro era um rico negociante belga, natural da Antuérpia, que vivia em Lisboa desde 1500 e já enviara frotas à Guiné e à Índia. Com duas caravelas e cerca de 70 tripulantes, os capitães Lisboa e Fróis partiram em fevereiro de 1514. Rumaram direto para o sul do Brasil e logo chegaram a Cananeia, descoberta havia uma década por Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio (e que, passados mais de dez anos, ainda se mantinha como o ponto extremo sul das viagens dos portugueses ao Brasil). A seguir, cruzaram pela ilha de São Francisco do Sul, em Santa Catarina, onde Binot Paulmier de Gonneville estivera dez anos antes.
Dali para o sul, todo o território era desconhecido. Irmãos Colaços
A costa com a qual Fróis e Lisboa então depararam D. Nuno era filho de
era inóspita, desprovida de portos naturais, com águas um bispo, D. João Manoel,
frias e escuras. Eles estavam no litoral do atual Rio com uma certa Justa
Grande do Sul, justo onde se inicia o maior trecho de Rodrigues, mulher solteira.
costa retilínea do planeta. De fato, de Laguna (em Quando o futuro rei D.
Santa Catarina) a Punta del Este (no Uruguai) não Manoel nasceu, em maio
existe uma só baía ou ancoradouro natural. Essa costa, de 1469, não foi com 660 quilômetros de extensão, é toda baixa e batida amamentado por sua mãe,
pelos ventos. Um trecho terrível para qualquer a rainha, mas exatamente
navegador e cuja inclemência atrasaria em dois séculos por Justa Rodrigues – que
o início de sua colonização. acabara de dar à luz D.
Em julho de 1514, Fróis e Lisboa chegaram ao que Nuno. D. Manoel e D.
parecia ser a boca do tão procurado estreito. A Nuno foram, portanto,
primeira coisa que eles avistaram foi um cabo, então irmãos colaços. Eles batizado de Santa Maria (nome que ainda se mantém). cresceram juntos na corte e
A expedição estava a 35o se de latitude sul, diante do tornaram grandes atual balneário de Punta del Este, no hoje Uruguai. E amigos. Ao assumir o
tinha simplesmente acabado de descobrir a foz do rio trono em 1498, D. Manoel
da Prata – que logo se tornaria um dos locais mais legitimou D. Nuno (que,
importantes da América e cuja conquista iria virar por ser filho de um bispo,
uma obsessão tanto para Portugal quanto para a era ilegítimo, um bastardo
Espanha. portanto) e o tornou
Fróis e Lisboa entraram no estuário, navegando 50 guarda-mor do reino, com
direito a um alto salário léguas (cerca de 300 quilômetros) por águas barrentas anual. e fluviais em direção ao misterioso interior do continente. Ao chegar às proximidades do local onde hoje fica Buenos Aires, a expedição foi detida pelo mau tempo. As tempestades do inverno meridional e o gélido e uivante vento sudoeste (que os gaúchos hoje chamam de minuano) impediram as caravelas de seguir adiante. Mas o que Lisboa e Estevão Fróis descobriram já era espantoso o suficiente.
A primeira coisa que os exploradores notaram ao desembarcar foi que os índios falavam uma língua muito diferente daquela utilizada por quase todas as tribos da costa do Brasil. Além disso, ao contrário dos desnudos nativos brasileiros, esses indígenas se cobriam com peles “de leão, lince e leopardo, de cheiro
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extraordinariamente agradável”. Tais peles (que, na verdade, eram de guanaco), os nativos as jogavam sobre o corpo nu, com o pelo para dentro, amarrando-as “com cintas de um palmo de largura” (eram os chiripás, que ainda fazem parte da indumentária dos gaúchos platinos). Eram homens altos, de longos cabelos negros e “corredios”. A João de Lisboa pareceram ser “gente de índole honrada, sem vício, de muito boa e livre condição, sem leis nem rei”.
Aquele era o primeiro encontro entre os europeus e os Charrua, aguerridos e indômitos nativos do Pampa, que caçavam emas com boleadeiras e viviam em tendas de couro. O que realmente interessava, porém, eram as notícias que esses índios deram para os portugueses. No interior daquela região, garantiam os Charrua, existiam “grandes montanhas onde a neve nunca desaparece”. Nos arredores delas vivia “um povo serrano, que possui muitíssimo ouro batido, usado à
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moda de armadura, na frente e ao peito”. A região toda era muito rica em prata, ouro, cobre e estanho. Para provar o que diziam, os Charrua mostraram aos portugueses (e depois lhes venderam) um machado de prata “igual aos machados de pedra que eles carregavam”.
Foi a primeira vez que os europeus ouviram falar do Peru e de seus habitantes, os ricos e poderosos incas. Em breve, encontrar esse povo e conquistar seu território se tornaria uma obsessão que por 20 anos traria várias expedições ao sul da América e reclamaria muitas vidas antes de se revelar… uma espantosa realidade.
Estevão Fróis e João de Lisboa batizaram aquele grande rio com o nome de Santa Maria. Mas como, ao retornarem para Portugal, seus marinheiros trataram de espalhar as extraordinárias notícias dadas pelos Charrua, o majestoso curso d’água daquelas misteriosas latitudes meridionais passou a ser chamado com o nome que mantém até hoje: rio da Prata – a estrada fluvial que conduziria a um reino fabulosamente rico. O machado de prata, levado para Portugal, foi dado ao rei D. Manoel como prova da existência de metais preciosos naquela região inexplorada.
Além das riquezas cuja existência foi revelada pelos Charrua, Fróis e João de Lisboa concluíram também que aquele rio deveria conduzir à costa oeste da América e que seria o caminho natural para as riquezas das Molucas.
NOTÍCIAS DA TERRA DO BRASIL
Na viagem de volta, os dois navios se separaram. Fróis ficou mais algum tempo na região do Prata, carregando sua caravela com aquelas “tão preciosas peles de animais silvestres, de magnífico forro, grossas como as da zibelina e alvas como as
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de marta”, enquanto João de Lisboa seguia para a feitoria do Rio de Janeiro. Ali, Lisboa encheu o navio de pau-brasil e partiu para Portugal no início de agosto. No dia 12 de outubro de 1514, sem suprimentos, sua caravela ancorou na ilha da Madeira, já próximo à Europa.
Nessa ilha, que os portugueses tinham descoberto e colonizado quase um século antes, João de Lisboa encontrou-se com um agente comercial que vivia lá. Esse homem era o representante local dos negócios da família Függer, a mais rica da Europa. Lisboa fez um relato sucinto da expedição, que foi transcrito pelo comerciante e, a seguir, enviado para a sede do império mercantil dos Függer, na Antuérpia.
Com o nome de Newen Zeytung aus Presilg Landt – ou Nova Gazeta da Terra do Brasil –, o folheto logo seria reproduzido e enviado aos principais executivos e acionistas da empresa. Segundo o depoimento do agente dos Függer, além de ter descoberto “a porta de entrada para uma região muito rica”, o navio de João de Lisboa chegara à ilha da Madeira com o convés “cheio de escravos, rapazes e moças”. Esses nativos, de acordo com o relatório, “pouco custaram aos portugueses, pois na maior parte lhes foram dados por livre vontade, porque o povo de lá pensa que seus filhos vão para a Terra da Promissão”.
Enquanto João de Lisboa falava mais do que devia na ilha da Madeira, relatando sua expedição a um mero agente comercial, Estevão Fróis vivia um destino dramático. Depois de deixar o rio da Prata em fins de julho de 1514, Fróis chegou ao litoral do Rio Grande do Norte com o navio avariado. Quando quis desembarcar para consertá-lo, foi atacado pelos indígenas. O mais surpreendente é que os nativos eram liderados por um certo Pedro Galego, náufrago ou degredado que tinha “os beiços furados e que andava, Em 1895 uma cópia
havia muito tempo, em companhia dos índios manuscrita da Newen Potiguar”. Pedro Galego ficaria conhecido como “o Zeytung aus Presilg Landt
espanhol que se fizera botocudo”.4 (cuja capa está Anos antes, ele já tinha sido visto pelo português Diogo Pais. reproduzida na ilustração
acima) foi encontrada nos
Impedido de consertar o leme, Estevão Fróis acabou
Arquivos dos Príncipes e
sendo empurrado pelas fortes correntes da chamada
Condes de Függer, em
costa leste-oeste (o trecho que vai do Rio Grande do
Augsburgo, na Alemanha.
Norte ao atual Amapá e que os portugueses
Seu descobridor, o
praticamente ainda não conheciam, justamente pelas
historiador Konrad
dificuldades de se navegar por ali em embarcações
Haebler, publicou-a
movidas a vela). E, assim, seu navio foi parar na ilha
imediatamente. Redigido
de Porto Rico, no Caribe, em pleno território espanhol.
em alemão gótico do século
Ali, em função das novas determinações do rei de
XVI, o folheto original
Castela, Fróis e seus tripulantes foram presos e
tinha 15 centímetros por 20
conduzidos a ferros para a ilha de Santo Domingo.
centímetros e apenas
Apesar de “submetido a suplícios e tormentos”, Fróis quatro páginas. Mas sua 5
não revelou nada sobre a descoberta do rio da Prata. importância historiográfica
De todo modo, os espanhóis estavam dispostos a foi enorme. Estudado, enforcá-lo, nem que fosse para se vingar da recente pouco depois, por execução de Diego de Lepe, o primo de Pinzón que 14 Francisco de Varnhagen e
anos antes estivera no Brasil e fora recentemente por Alexander von capturado pelos portugueses na Guiné e enforcado por Humbolt, o documento
determinação do rei D. Manoel. provou que o rio da Prata
Por dois anos, Fróis e 11 marinheiros havia sido descoberto pelos
permaneceram encarcerados no Caribe, sob constante portugueses, e não pela
ameaça de execução. Em setembro de 1516, eles foram expedição espanhola enviados para Sevilha e, seis meses mais tarde, comandada em 1516 por
acabariam sendo trocados por nove reféns espanhóis Juan Díaz de Solís, como
que Cristóvão Jaques havia prendido na ilha de Santa se julgara até então. Catarina, no litoral sul do Brasil. Esses nove prisioneiros espanhóis capturados por Jaques eram integrantes de uma expedição enviada ao Prata sob o comando de Juan Díaz de Solís.
A EXPEDIÇÃO DE SOLÍS AO PRATA
Embora Estevão Fróis não tenha revelado nada a seus captores, as notícias sobre a descoberta do rio da Prata e da possível passagem marítimo-fluvial para as Molucas logo chegaram à Espanha, possivelmente através da Nova Gazeta da Terra do Brasil.
É provável que o panfleto redigido na ilha da Madeira tenha sido enviado para Castela por Cristóvão de Haro, que era natural da Antuérpia, mantinha estreitas ligações comerciais com a família Függer e fora um dos financiadores da viagem de Fróis e João de Lisboa. Ele estava indignado com o rei D. Manoel, pois sete caravelas suas teriam sido roubadas por um feitor português na Guiné e Haro e seus sócios exigiam indenização. Em 1516, logo depois de D. Manoel ter decidido que não lhe pagaria nada, Haro resolveu transferir seus escritórios de Lisboa para Sevilha, abandonando de vez Portugal.
Quando ficou claro que o grande rio que Fróis e João de Lisboa haviam descoberto em julho de 1514 ficava em uma região ao sul de Cananeia – e, portanto, nos domínios legais de Castela –, o rei D. Fernando determinou que Juan Díaz de Solís partisse para explorar aquela região, bem como descobrir se as Molucas ficavam no hemisfério espanhol.
Embora ocupasse o cargo de piloto-maior da Espanha, Solís era um homem de reputação sombria. Acusado de ter matado a própria mulher, ele fugira espetacularmente de Lisboa, em abril de 1506 (leia nota lateral a seguir). Juan Díaz de Solís reapareceu em Lepe, próximo a Sevilha, no início de 1507. Ele era um navegador experiente, que estivera várias vezes na Guiné, fora para a Índia (provavelmente na frota de Gama) e talvez tivesse mesmo vindo ao Brasil como piloto de Gonçalo Coelho e Vespúcio em 1503.
Quando se soube em Portugal que Solís tinha sido No dia 5 de abril de
contratado por Castela, D. Manoel se indignou e
1506, quando a frota
escreveu para o rei D. Fernando exigindo que o piloto –
comandada por Tristão da
“banido e homiziado de meus reinos por delitos que o Cunha se preparava para 6 obrigam à pena de morte” – fosse imediatamente zarpar para a Índia, a
extraditado. Mas Juan Díaz de Solís já se naturalizara partida teve que ser adiada
castelhano e ocupava o cargo de piloto-maior, o mais porque Juan Díaz de Solís,
alto entre os navegadores espanhóis. D. Fernando, que era o piloto de uma
portanto, ignorou o pedido da Coroa portuguesa. das naus, simplesmente
D. Manoel ainda mandou que seu embaixador na não apareceu no porto.
Espanha, João Mendes de Vasconcelos, tentasse Quando o indignado subornar Solís e o persuadisse a voltar a Portugal. Mas Tristão da Cunha mandou
não houve acordo. Esse episódio revela o valor procurar o retardatário em
estratégico que o saber dos pilotos tinha para os reis casa, os marinheiros ibéricos e mostra a relação entre conhecimento enviados até lá geográfico e os ciclos econômicos, a ponto de uma descobriram que Solís deserção quase levar as Coroas a um conflito. havia matado sua mulher
No dia 8 de outubro de 1515, Juan Díaz de Solís na noite anterior e estava
partiu do porto de Lepe com duas caravelas, 70 desaparecido. tripulantes e mantimentos para dois anos e meio de Em Portugal, por causa
viagem. Sua missão era penetrar no estuário que Fróis da fama de beberrão e
e João de Lisboa tinham descoberto um ano antes, violento, Solís era explorar suas riquezas e averiguar se, porventura, ele conhecido pelo apelido de
conduziria até Málaca (na Malásia) e às Molucas. Bofes de Bagaço. “Essa Uma vez em Málaca (que os portugueses tinham alcunha lhe fora dada
descoberto em 1508 e conquistado em 1511), Solís porque, usando deveria fazer as medições astronômicas e verificar se “o frequentemente como berço de todas as especiarias” porventura também não bebida a aguardente que se
se localizava dentro do território que pertencia à extrai do bagaço das uvas,
Espanha. seu hálito dava a
A frota de Solís seguiu a rota tradicional: ancorou impressão de que os
nas Canárias e dali seguiu para o cabo de Santo pulmões (ou bofes) eram
Agostinho, passando por Cabo Frio, pelo Rio de cheios de bagaço”, escreveu
Janeiro e por Cananeia antes de aportar na ilha de o historiador Rodolfo Santa Catarina, de onde zarpou em direção ao Prata. Garcia. Abaixo, a Em janeiro de 1516, as caravelas de Solís chegaram à assinatura de Solís, de
foz do imenso rio que ele rebatizou de “mar Dulce” quem não existem imagens
(como Pinzón chamara o Amazonas, 15 anos antes). conhecidas. Ainda hoje, historiadores espanhóis seguem afirmando que essa foi a verdadeira descoberta do rio da Prata – refutando não apenas a viagem anterior de Estevão Fróis e João de Lisboa como negando também que Solís fosse português naturalizado castelhano.
De todo modo, a expedição tratou de explorar a região. “Foram sempre costeando a terra”, contou o cronista Herrera, “descobrindo montanhas e outros grandes penhascos, vendo gente nas ribeiras; e nestas margens do rio da Prata descobriam muitas casas de índios, e gente que com muita atenção estava vendo passar o navio, e com sinais ofereciam o que tinham pondo-o no chão. Juan Díaz de Solís quis ver que gente era aquela e tomar algum homem para trazer a Castela. Saiu em terra com tantos homens quantos podiam caber em um escaler. Os índios, que tinham emboscado muitos flecheiros, quando viram os castelhanos longe do
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navio, os cercaram e os mataram.”
Não foi só: “Tomando às costas os mortos”, prossegue Antônio de Herrera, “os índios se afastaram da margem, até onde os navios os podiam ver, e cortando as cabeças, braços e pés, assaram os corpos inteiros e os comeram. Este foi o fim trágico que teve João Dias de Solis.”
Foz do rio da Prata, com a localização da ilha Martin Garcia, onde Juan Solís foi morto.
Ainda hoje uma controvérsia paira sobre o assunto: os Charrua, senhores da região onde se deu a morte de Solís, não praticavam a antropofagia, ao contrário dos Tupi da costa do Brasil. De todo modo, os indígenas pouparam um dos homens que desembarcara em companhia do desafortunado capitão. Era o grumete mais tarde conhecido como Francisco del Puerto, um menino de 14 ou 15 anos. Solís e seus homens provavelmente foram massacrados na ilha hoje chamada de Martin Garcia, onde o rio Uruguai deságua no Prata. Mas dificilmente terão sido comidos pelos guerreiros que os abateram.
Como quer que tenha sido, depois de presenciar o massacre de seu capitão, os homens de Juan Díaz de Solís acharam mais prudente retornar à Espanha. Partiram imediatamente do Prata rumo ao litoral do Brasil. Mas então uma tempestade separou as duas caravelas.
O navio comandado por Francisco Torres, cunhado de Solís (que voltara a casar na Espanha), chegou à feitoria que os portugueses haviam fundado uma década antes no Rio de Janeiro. Mesmo sabendo que estava em território luso, Torres carregou seu navio de pau-brasil. Recolheu também o piloto João Lopes de Carvalho e o marinheiro Pedro Annes – que, quatro anos antes, haviam sido deixados em Cabo Frio como desterrados, em punição pelo roubo das ferramentas da nau Bretoa.
Nessa época, o nome “Rio de Janeiro” – dado por Vespúcio em 1502 – ainda não se tornara usual e o local era conhecido como baía dos Inocentes, pois Carvalho e Annes afirmavam que não eram culpados do furto. Os dois desterrados seguiram com Torres de volta à Europa. Chegaram a Sevilha no dia 4 de setembro de 1516.
Enquanto Francisco Torres estava no Rio de Janeiro, a outra caravela da expedição de Solís passava dificuldades no litoral sul do Brasil. Com o leme avariado, o navio tentou entrar na baía sul da ilha de Santa Catarina e afundou em frente à praia ainda hoje e por isso mesmo chamada de Naufragados. Não se sabe ao certo quantos homens se salvaram: talvez 18, talvez apenas 11. O certo é que alguns dos sobreviventes viveriam por mais de 15 anos ali, entre os Carijó. Alguns deles iriam, como se verá, desempenhar um papel preponderante na exploração do rio da Prata e na própria colonização do extremo sul do Brasil.
A PRIMEIRA EXPEDIÇÃO DE CRISTÓVÃO JAQUES
Quando se soube em Portugal que o rei D. Fernando, de Castela, tinha autorizado a partida da expedição de Juan Díaz de Solís ao Prata, houve profunda consternação em Lisboa. O rei D. Manoel de imediato determinou o envio de uma expedição guarda-costas ao Brasil. Para chefiá-la, escolheu o fidalgo Cristóvão Jaques, tido como homem de ações ríspidas e eventualmente cruéis.
A expedição de Solís teria ainda uma outra, curiosa e importante consequência para a história do Brasil: como julgou que Solís teria sido incumbido de iniciar a colonização das terras da América do Sul que ficavam sob jurisdição da Espanha, o rei D. Manoel, de Portugal, decidiu, pela primeira vez desde a descoberta de Cabral, enviar colonos para o Brasil.
De fato, por meio de um alvará assinado em julho de 1516, o monarca determinou que se dessem “machados e enxadas e toda a mais ferramenta às pessoas
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que fossem povoar o Brasil”. Mas o projeto não deu certo. Isso porque, segundo o fidalgo João de Melo Câmara, muitos dos colonos embarcados com Cristóvão Jaques eram “homens que estimam tão pouco o serviço de Vossa Alteza e suas honras, que [depois de desembarcar] se contentam com terem quatro índias por
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mancebas e comerem mantimentos da terra”.
Embora restem pouquíssimos documentos para a reconstituição da primeira viagem de Cristóvão Jaques ao Brasil, é provável que ele tenha partido de Lisboa em 21 de agosto de 1516. A frota era composta por três naus e levava cerca de 300 tripulantes; entre eles, como se viu, os primeiros colonos que vieram para o Brasil. Mas a missão de Jaques não era apenas defensiva e colonizadora. Pouco antes de partir, ele fora nomeado “comissário do pau-brasil” – ou seja, era o responsável por toda a organização do comércio da madeira corante, empreendimento que a Coroa deixara de privatizar e assumira para si a partir de 1515.
Por isso, Cristóvão Jaques navegou diretamente para a feitoria de Cabo Frio, que Américo Vespúcio havia fundado em 1504. Ao chegar lá, encontrou o estabelecimento abandonado: o feitor João de Braga, que havia sido deixado ali em 1511 pela nau Bretoa, havia seguido os desterrados João Lopes de Carvalho e Pedro Annes e se mudara para a baía dos Inocentes, no Rio de Janeiro.
Jaques então zarpou em busca da feitoria carioca, fundada por Gonçalo Coelho. Ao chegar ao Rio, em outubro de 1516, foi informado por João de Braga que a caravela do espanhol Francisco Torres tinha acabado de partir rumo a Sevilha – com o porão abarrotado de pau-brasil roubado aos portugueses e ainda levando consigo os dois desterrados, João Lopes de Carvalho e Pedro Annes. Braga disse também que a segunda caravela que fazia parte da expedição de Solís estava “atrasada” e ainda não passara pelo Rio. Disposto a interceptar os intrusos castelhanos, Jaques partiu para o sul.
Ao aportar na ilha de Santa Catarina, ele soube que o navio que procurava havia naufragado ali um mês antes. Jaques então desembarcou e logo conseguiu capturar sete dos 11 náufragos. Esses homens tinham se refugiado entre os pacíficos Carijó, habitantes da ilha e das suas vizinhanças. Com os espanhóis presos, Jaques retornou para a feitoria do Rio. Ali, carregou uma de suas naus com pau-brasil e a enviou para Lisboa, com os sete prisioneiros a bordo, enquanto ele próprio permanecia no Brasil.
Em 22 de abril de 1517, após uma sinuosa negociação diplomática, os sete náufragos de Solís acabaram sendo trocados por Estevão Fróis e seus 11 marinheiros, que, como já se viu, estavam presos havia três anos. Embora o acordo tenha libertado Fróis de uma situação aflitiva e potencialmente letal, Cristóvão Jaques parece ter se indignado com o desfecho da negociação. Quando soube que os homens que ele capturara tinham sido libertados. ficou com a sensação de que os havia livrado “do desterro entre selvagens e lhes fornecido passagem grátis para a
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civilização”. Jaques jamais voltaria a recolher os náufragos que encontrou no
Brasil e no Prata.
Enquanto as Coroas de Portugal e Castela articulavam a troca de prisioneiros, Cristóvão Jaques continuava no Brasil. Sua primeira decisão foi transferir a feitoria do Rio de Janeiro para Pernambuco. Até então, a principal vantagem da feitoria carioca residia no fato de sua localização ser desconhecida dos franceses e dos espanhóis. O abuso cometido por Francisco Torres mostrou que o segredo fora desvendado. Não havia mais sentido em manter um posto de recolhimento de pau-brasil em local que exigia dois meses a mais de viagem desde a Europa. Além da distância entre Pernambuco e Portugal ser bem mais curta, o pau-brasil obtido no Nordeste brasileiro era de melhor qualidade do que o do Rio de Janeiro, pois estava
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“claro que tal pau é produzido pela quentura do sol”.
Por isso, em 1517 Cristóvão Jaques fundou uma feitoria na ilha de Itamaracá. Documentos provam que, durante os quase três anos em que ficou no Brasil, Jaques enviou cargas anuais de pau-brasil para Portugal. No dia 9 de maio de 1519, ele próprio retornou a Lisboa.
O ESTREITO DE MAGALHÃES
Quatro meses depois do retorno de Cristóvão Jaques a Lisboa, zarpava de Sevilha aquela que estava destinada a se tornar a mais longa expedição marítima realizada até então na história da humanidade. Sua missão era descobrir o estreito que permitiria ligação entre o Atlântico e o misterioso oceano que banhava a costa oeste da América, cuja existência já era conhecida desde 1513. Embora partisse sob bandeira castelhana, a expedição fora planejada por três dissidentes portugueses. Um de seus principais pilotos também era um lusitano que alimentava profundos ressentimentos contra Portugal. Por fim, o financiador da viagem igualmente estava rompido com o rei D. Manoel e pretendia vingar-se dele auxiliando a Coroa de Castela.
Os três idealizadores da expedição eram o navegador Fernão de Magalhães, o cosmógrafo Rui Faleiro e o fidalgo Duarte Barbosa. O piloto chamava-se João Lopes de Carvalho e o homem que arcou com a maior parte das despesas atendia pelo nome de Cristóvão de Haro. Juntos, esses homens seriam responsáveis por uma das maiores descobertas da história das explorações. E causariam grandes prejuízos e transtornos a Portugal.
A partir de 1514, após inúmeros serviços prestados Fernão de Magalhães
a Portugal, Magalhães passara a lutar por um cresceu na corte do rei D.
aumento de soldo; seria uma espécie de indenização por João II, como pajem da
ferimento recebido em campo de batalha, no Marrocos. rainha, D. Leonor. O
Ao mesmo tempo, ele estava convencido de que a sucessor de D. João II, o
cidade de Málaca, na Malásia – de cuja conquista ele rei D. Manoel, era irmão
participara, em 1511 –, poderia ser mais facilmente de D. Leonor e conhecia
alcançada caso os portugueses seguissem a ideia Magalhães desde criança.
original de Colombo – ou seja, se navegassem para Em 1500, aos 20 anos de
oeste. Nesse ponto, era apoiado por um amigo pessoal, idade, Magalhães fez sua
o cosmógrafo Rui Faleiro. Enquanto aguardava uma primeira viagem para a
audiência com o rei, Magalhães concluiu – junto com Índia, na frota de João da
Faleiro – que Málaca (e as adjacentes ilhas Molucas) Nova (com direito a uma
provavelmente se localizava no hemisfério espanhol. escala no Brasil). Em
No outono de 1517, depois de longa e infrutífera 1505, retornou para o
espera, Magalhães foi informado de que D. Manoel Oriente em companhia de
não só não iria enviá-lo em uma viagem para D. Francisco de Almeida.
alcançar Málaca pela rota do oeste como também não Tomou parte na descoberta
lhe concederia aumento no soldo. Humilhado e de Málaca, na Malásia,
ofendido, Magalhães decidiu abandonar Portugal. No sob o comando de Diogo
dia 20 de outubro de 1517, ele e Rui Faleiro chegaram de Serqueira, em 1508, e
a Sevilha para apresentar seu projeto aos rivais ajudou a conquistar aquele
castelhanos. Na Espanha, foram recebidos por Duarte entreposto comercial em
Barbosa, um fidalgo, geógrafo e linguista português 1511, junto com Afonso de
que Magalhães conhecera na Índia anos antes e que Albuquerque. Em 1513,
também desertara para Castela. Barbosa apresentou participou do ataque a
Magalhães ao bispo Juan da Fonseca, principal Azamor, no Marrocos. Lá,
executivo dos projetos ultramarinos da Coroa foi ferido em uma perna.
espanhola. Ficou manco para o resto
Depois de inúmeras reuniões, avanços, recuos e da vida. Abaixo, retrato de
adiamentos, o mercador Cristóvão de Haro decidiu Magalhães feito em 1519.
financiar o projeto. Haro chegara a Sevilha um ano antes de Magalhães, depois de também haver rompido com D. Manoel. Na Espanha, ele estreitara seus vínculos com Jakob Függer II, conhecido como Jakob, o Rico – que, de fato, era o homem mais rico da Europa e vivia em Augsburgo, na Alemanha. Como representante dos Függer junto à corte espanhola, Haro multiplicara a própria fortuna.
Haro concordou em bancar três quartos das despesas totais com a armação da frota – calculadas em 8.751.125 maravedis – depois que Magalhães lhe assegurou ter visto, na corte de Lisboa, “um mapa que revelava a exata localização do estreito que conduzia às Molucas”. Esse mapa fora feito pelo geógrafo alemão Johannes Schöner em 1515, baseado nas descobertas da expedição de Estevão Fróis e João de Lisboa ao Prata.
Com quatro naus, uma caravela e 265 homens a Baseado nas bordo, Magalhães e Duarte Barbosa partiram do porto informações da Newen de Sanlúcar em 20 de setembro de 1519. Na noite Zeytung aus Presilg Landt
anterior, Rui Faleiro fora destituído do cargo de e na recente descoberta do
cosmógrafo, pois havia suspeitas de que enlouquecera. mar do Sul por Vasco de
João Lopes de Carvalho, o desterrado da nau Bretoa Balboa, um geógrafo que vivia na Espanha havia três anos (para onde, alemão, Johannes Schöner
convém lembrar, fora levado por Francisco Torres, (1477-1547), fez, em 1515,
capitão de uma das caravelas da expedição de Solís), um globo terrestre no qual
acabou se tornando piloto da nau capitânia Trinidad, desenhou o limite sul da
na qual viajava Magalhães. Seis dias após a partida, a América e o misterioso
frota ancorou em Tenerife, nas Canárias, onde oceano que banhava sua
Magalhães foi informado de que três de seus capitães costa oeste. Inspirado nesse
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pretendiam assassiná-lo “porque ele era português”. globo, Fernão de Magalhães redobrou a vigilância. Magalhães empreenderia
A 29 de novembro, a frota avistou o cabo de Santo sua gloriosa e trágica
Agostinho. Mas, como o piloto João de Carvalho viagem. soubera que Cristóvão Jaques havia fundado uma feitoria nas proximidades daquele ponto estratégico, ele sugeriu ao capitão-mor que os navios seguissem direto para a baía dos Inocentes – atual Guanabara, onde ele havia vivido por cinco anos. Magalhães concordou. E assim, ao entardecer de 13 de dezembro, lá estava Carvalho de volta ao seu antigo lar, no timão da Trinidad.
No instante em que entraram na Guanabara, os navios foram cercados por centenas de nativos. Muitos vinham em suas canoas, outros tantos a nado. Várias mulheres subiram a bordo. “Todas elas estavam nuas, eram muito jovens e se ofereciam aos marujos em troca de facas alemãs da pior qualidade”, escreveu o nobre aventureiro italiano Francisco Antonio Pigafetta, que se tornou um dos poucos sobreviventes e o principal cronista da viagem. Na véspera do Natal de 1519, Pigafetta disse ter visto uma das nativas, “das mais bonitas”, subir a bordo “em busca de um companheiro. Mas ao ver um prego do tamanho de um dedo, e julgando que ninguém a observava, enfiou-o rapidamente entre os dois lábios da
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vagina e jogou-se de volta ao mar”.
No dia seguinte à chegada da frota, João Lopes de Carvalho pediu permissão para desembarcar. Aquela parada no Rio de Janeiro tinha um significado muito especial para ele. No final da tarde, Carvalhinho, como era mais comhecido, voltou ao navio para apresentar a Magalhães a nativa que tomara por esposa durante seus anos de exílio no trópico. Junto com ela estava um garoto de 7 anos. Era o filho que João Lopes deixara
para trás em 1516 e agora estava de volta ao colo do Francisco Antonio pai. Pigafetta (acima) nasceu e
Um dia depois do Natal de 1519, quando a armada morreu em Vicenza (1491-
de Magalhães deixou o Rio, a nau Trinidad tinha um 1534). Era de família
novo tripulante: era o garoto Higito, mais conhecido nobre, originária da como “Niñito de Juan, el Piloto”. Um ano e meio mais Toscana. Chegou à tarde, logo após a morte de Magalhães, Niñito e o pai Espanha em 1519, como
seriam protagonistas de um dos destinos mais acompanhante do inusitados e um dos episódios mais dramáticos da monsenhor Francisco história das viagens exploratórias. Chiericato, embaixador da
No dia 11 de janeiro de 1520, 15 dias após deixar a corte de Roma junto a
Guanabara, Magalhães chegou ao rio da Prata – que Carlos V. Ao ser fica a 35 graus de latitude sul, exatamente como informado de que a mostrava o globo de Johannes Schöner e como haviam expedição de Magalhães
relatado tanto João de Lisboa como Juan Díaz de Solís. iria partir para as
Após explorar aquele vasto estuário por mais de um Molucas, pediu permissão
mês, Magalhães, embora tenha obtido dos nativos ao embaixador e ao
“uma taça de prata”, voltou para o Atlântico e seguiu imperador Carlos V para
para o sul, pois concluiu que o estreito que ele tomar parte na viagem.
procurava não era ali. Pigaffeta embarcou na nau
No dia 27 de novembro de 1520 – após terrível Trinidad e foi um dos 18
viagem de quase um ano através de um sinuoso únicos sobreviventes da
labirinto de ilhas e montanhas geladas e depois de terrível jornada – a
vencer a fome e o frio e debelar dois motins –, primeira que conseguiu dar
Magalhães pôde enfim vislumbrar as águas a volta ao mundo. Por translúcidas de um oceano imenso. Ele o chamou de volta de 1524, enviou seu
Pacífico. Tendo cruzado pela passagem que ficaria diário para a rainha da
França, Luísa de Sabóia, conhecida como estreito de Magalhães – e realizado mãe de Francisco I, que o
uma das maiores façanhas náuticas da História –, publicou em francês em
Magalhães batizou assim o oceano que ocupa quase 1531. metade do planeta, o mesmo que Vasco Núñez de Balboa havia avistado em setembro de 1513 e chamado de Mar del Sur.
A jornada através das vastidões do Pacífico foi tão medonha quanto a navegação através do estreito. Por quase três meses, colhidos por uma calmaria exasperante, os navios de Magalhães avançaram lentamente, sem avistar terra. Os homens tiveram que comer a sola dos próprios sapatos e um rato era uma iguaria que valia dois ducados. Então, a 13 de março de 1521, a expedição de Magalhães enfim chegou às atuais Filipinas, muito próximas às Molucas.
No dia 27 de abril, após um ano e meio no mar, a milhares de quilômetros de casa e a apenas 200 quilômetros da fonte das especiarias, que eram as Molucas, Magalhães morreu tragicamente. Na ilha de Cebu, uma das Filipinas, ele se envolveu num conflito corriqueiro entre dois rajás. Para agradar seu anfitrião, o rajá Zula, Magalhães atacou o rajá Lapu-Lapu. Na minúscula ilha de Mactan, ele acabaria sendo morto pelo próprio Lapu-Lapu, sucumbindo quando estava prestes a alcançar a “terra prometida” de todas as especiarias.
Depois de inúmeras ameaças de motim, assassinatos, torturas e mortes dentre os próprios sobreviventes da frota, João Lopes de Carvalho acabou se tornando capitão da nau Trinidad, enquanto um seu rival e inimigo de morte, Sebastião Elcano, assumia o comando da Victoria – estes eram os dois únicos navios restantes.
Embora a presença de mulheres a bordo fosse proibida, Carvalhinho conseguiu manter um harém particular com três nativas “extraordinariamente belas” que haviam sido capturadas, junto com outros 16 prisioneiros, num sultanato na ilha de Bornéu, durante as escaramuças cada vez mais frequentes daquela viagem. Ocorre que vários marinheiros também foram presos pelos nativos, e dentre eles o filho brasileiro de Carvalho, Niñito. Os eventos são confusos e nunca foram, nem serão, esclarecidos, mas o fato é que nunca mais se ouviu falar de Niñito, que teria permanecido prisioneiro de um rajá local, chamado Siripada, ao passo que Carvalhinho morreria a bordo da nau Trinidad em 14 de fevereiro de 1521, de “causas desconhecidas”, embora se suspeite que tenha sido envenenado por algum de seus inúmeros desafetos.
Com apenas 18 homens a bordo, a nau Victoria, um dos navios da frota de Magalhães, chegou a Sevilha em 8 de setembro de 1522, exatos dois anos após a partida. Seu capitão, o espanhol Sebastião Elcano, se tornou o primeiro homem a dar a volta ao mundo, e o português Fernão de Magalhães, embora morto, iria virar um herói castelhano.
Apesar da perda de quatro navios e da morte de 247 homens, a expedição deu lucro para seu financiador, Cristóvão de Haro. A Victoria trazia 520 quintais de cravo, além de grande quantidade de canela e noz-moscada. Só essas 25 toneladas de cravo foram vendidas por 7.888.634 maravedis. Para a Coroa castelhana, porém – além da notícia de que nos confins da América do Sul havia um estreito que conduzia ao Oriente –, o melhor foi saber que Málaca e as Molucas de fato ficavam dentro da zona espanhola da demarcação.
A SEGUNDA VIAGEM DE CRISTÓVÃO JAQUES
Em novembro de 1521, enquanto os navios da frota de Magalhães estavam chegando à ilha de Tidore, a mais rica das Molucas, Cristóvão Jaques partia de Lisboa para sua segunda viagem ao Brasil. Dessa vez, sua missão era explorar o grande estuário que Estevão Fróis e João de Lisboa haviam descoberto sete anos antes e no qual Juan Díaz de Solís morrera de forma tão trágica, em janeiro de 1516. Com apenas duas caravelas e 60 homens, Jaques zarpou de Portugal direto para a ilha de Santa Catarina. Ao chegar ali, recolheu um dos náufragos de Solís que ele não tinha conseguido capturar em setembro de 1516. Esse homem era português e se chamava Melchior Ramires. Durante os últimos cinco anos, junto com outros seis náufragos (provavelmente também do navio de Solís), Ramires tinha vivido entre os índios Carijó, no lugar que ficaria conhecido como porto dos Patos.
Melchior Ramires não apenas estivera com Solís no rio da Prata como, durante sua longa estada em Santa Catarina, tinha recebido dos Carijó a confirmação de que aquele rio de fato conduzia ao reino de um povo riquíssimo, que vivia em grandes montanhas nevadas. Tal informação era de fato impressionante: afinal, duas tribos inteiramente distintas (os Charrua e os Carijó), vivendo a mais de 1.500 quilômetros uma da outra (os Charrua na foz do rio da Prata e os Carijó em Santa Catarina), eram capazes de repetir uma história absolutamente igual. Foi a similaridade entre os dois relatos que deu a Melchior Ramires, e aos demais náufragos de Solís, a convicção de que o tal povo riquíssimo que vivia nas nevadas montanhas do oeste devia de fato existir.
Para escapar dos castigos normalmente impostos pelo duro Cristóvão Jaques aos inimigos (ou desertores) de Portugal – ou, talvez, para confirmar ele próprio a veracidade das informações que recebera dos índios –, Melchior Ramires concordou em acompanhar a expedição como guia. E assim, no verão de 1522, depois de terem zarpado de Santa Catarina, as duas caravelas lusas entraram no Prata, navegando mais de 200 quilômetros rio acima.
Em meados de janeiro, a frota de Jaques chegou à ilha de São Gabriel, na margem esquerda do Prata, em frente à atual cidade de Colônia do Sacramento e próxima ao local onde Juan Díaz de Solís fora morto. Ali, vivendo entre os índios, Jaques encontrou o grumete Francisco del Puerto, único sobrevivente do massacre que vitimara Solís. Francisco, então com 19 anos, confirmou as notícias que os Charrua já haviam dado para João de Lisboa e Estevão Fróis em 1514 e que os Carijó tinham reforçado para Melchior Ramires.
De acordo com as informações que Francisco del Puerto recolhera dos nativos ao longo de seis anos de convivência, existia a oeste dali uma serra da Prata: uma enorme montanha formada quase que exclusivamente desse metal precioso. Esse território era controlado por um poderoso Rei Branco, que vivia cercado de luxos inimagináveis e protegido por um exército bem armado e bem treinado.
Segundo os nativos, o melhor caminho até a serra da Prata e os riquíssimos domínios do Rei Branco era através do rio Paraná. O Paraná também desemboca no Prata, mas, ao contrário do vizinho rio Uruguai, o faz através dos meandros lamacentos de um complexo
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delta “que tem 22 bocas”. Com a certeza de que seria arriscado demais subir delta tão sinuoso com suas caravelas, Jaques deixou-as ancoradas na ilha de São Gabriel e entrou no Paraná com dois batéis, acompanhado por cerca de 20 homens.
Cristóvão Jaques descobriu então um território de
extraordinárias riquezas naturais. O rio Paraná era O rei D. Manoel, o
repleto de peixes, e suas margens, planas e recobertas Venturoso, protetor de de campos e matas, eram percorridas por “uma Cristóvão Jaques, morreu
infinidade” de avestruzes, veados, jaguares, lobos, em dezembro de 1521. raposas e “umas ovelhas selvagens, parecidas com
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camelos”. Essas “ovelhas” eram, na verdade, guanacos. Jaques subiu o Paraná
por 23 léguas (cerca de 140 quilômetros), até as proximidades da atual cidade de Rosário, na Argentina. Ali, os índios lhe deram “pedaços de prata e de cobre e
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algumas pedras com veios de ouro”. Mas asseguraram que a serra da Prata e o
território do suposto Rei Branco ficavam 300 léguas (1.800 quilômetros) rio acima, no topo das montanhas recobertas por neves eternas.
Sabendo que não poderia percorrer tal distância em simples batéis – meros barcos a remo, como eram –, Cristóvão Jaques retornou a suas caravelas e partiu de volta para Portugal em abril de 1522 disposto a organizar uma nova expedição. Ainda irritado com a troca dos náufragos de Solís pelos portugueses que tinham sido presos em Porto Rico – e decidido a cumprir a promessa de não levar outros náufragos de volta para a Europa –, ele simplesmente abandonou Francisco del Puerto entre os nativos da ilha de São Gabriel, assim como tratou de deixar Melchior Ramires no porto dos Patos, em Santa Catarina. A seguir, partiu para a feitoria que fundara seis anos antes na ilha de Itamaracá e ali, após carregar as caravelas com pau-brasil, deixou desterrado o piloto Jorge Gomes, com o qual tivera uma áspera discussão sobre questões náuticas.
Se soubesse o papel que a história reservava para aqueles três homens, é bem provável que Cristóvão Jaques não os tivesse deixado no Brasil.
Como quer que seja, ao chegar a Lisboa, no segundo semestre de 1522, Jaques ficou sabendo que seu protetor, o rei D. Manoel, havia morrido no dia 21 de dezembro do ano anterior. Viu-se, assim, privado de um canal direto com o soberano. D. João III, filho e sucessor de D. Manoel, não só demorou meses para receber Jaques na corte como também não aprovou o envio de uma nova expedição para subir o rio Paraná e descobrir a serra da Prata.
Depois de três anos de espera, Jaques, indignado, resolveu ceder ao assédio do embaixador castelhano em Lisboa, Juan de Zuñiga. Em troca de 50 mil maravedis, ele disse que revelaria a Castela tudo sobre “um maravilhoso rio de água doce, largo
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de 14 léguas na embocadura, e muito rico em prata, ouro e cobre”.
Ao embaixador logo pareceu que tal rio (que era o Paraná, e não propriamente o Prata) ficava em terras de Castela. A suspeita se confirmou quando Jaques foi “dissimuladamente e com muito medo” à pousada na qual Zuñiga marcara o encontro. Embora não tenha havido acordo entre o embaixador e o navegador, foi graças à carta que Juan de Zuñiga enviou ao imperador Carlos V, em 24 de julho de 1524, relatando esse encontro que a jornada de Jaques ao Prata e ao Paraná pôde ser conhecida.
A carta de Zuñiga foi descoberta em 1897 no arquivo de Simancas, na Espanha, desvendando assim mais uma espantosa trama na história da exploração e conquista da América que, de outra forma, sequer teria sido revelada. A sequência de fatos quase inacreditáveis que iriam se passar na região do Prata e no litoral sul do Brasil, no entanto, estava apenas iniciando.
Quando o rei D.
Fernando morreu, em 1516, foi sucedido por seu
neto, Carlos I, da Casa da
Áustria e herdeiro dos
Habsburgos. Ao chegar à
Espanha em 1517, Carlos
não falava castelhano e
rodeou-se de conselheiros
estrangeiros. Em 28 de
junho de 1519, ele se
tornou Carlos V, sendo
eleito imperador do Sacro
Império Romano-
Germânico. Embora
governasse a Espanha,
passava mais tempo na
Alemanha. Em 1556, ele
abdicou em favor de seu
filho Felipe II. No ano
seguinte, recolheu-se a um
mosteiro, onde morreu em
1558.