Náufragos, Traficantes e Degredados

Eduardo Bueno · Capítulo 3 de 13

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Náufragos, Traficantes e Degredados

II – Vespúcio e o Batismo da América

II

VESPÚCIO E O BATISMO DA AMÉRICA

 

O destino do Brasil começou a ser traçado dois meses após a partida de João da Nova para a Índia, quando D. Manoel armou uma nova expedição com o objetivo único de explorar o território que Cabral avistara um ano antes e averiguar que riquezas ele porventura possuiria. No dia 10 de maio de 1501, uma frota de três caravelas, comandada por Gonçalo Coelho, zarpou de Lisboa em direção ao Brasil. A bordo de um dos navios seguia o florentino Américo Vespúcio – a quem se deve o único relato existente dessa viagem. Vespúcio, que até poucas semanas antes servia aos Reis Católicos, Fernando e Isabel, de Aragão e Castela, fora recentemente contratado pela Coroa portuguesa, provavelmente por recomendação de seu conterrâneo, o banqueiro Bartolomeu Marchioni.

Amigo de reis, ministros, embaixadores e banqueiros, tendo convivido com os maiores artistas de seu tempo (e da própria história da humanidade) Américo Vespúcio era rico e culto, mas acabaria se revelando também homem presunçoso, muitas vezes arrogante e capaz de sonegar informações relativas às suas viagens, além de ser conivente com falsificações e versões apócrifas de suas cartas, com o

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objetivo explícito de “obter alguma fama após a morte”. E tal objetivo Vespúcio seria capaz de atingir em proporções muito maiores e impactantes do que ele jamais poderia supor.

Nascido em Ognissanti, um bairro de Florença, em 9 de março de 1454, Vespúcio era o terceiro filho de Anastácio Vespúcio (Vespucci, em italiano) e Lisa di Mini. Sua família era de classe alta e dela faziam parte um embaixador, um bispo e um banqueiro – todos amigos dos poderosos Médici, a família que levara Florença ao apogeu político e financeiro.

Na infância, Vespúcio estudou no Convento de São Marco, em Florença, sob supervisão direta de seu tio, o frade dominicano Giorgio Antonio Vespúcio. Típico homem do Renascimento, sábio helenista e latinista, frade Giorgio também foi o professor particular de Piero Soderini – nobre que iria se tornar o gonfaloneiro (um dos principais mandatários) da República de Florença e que, desde os bancos da escola, era amigo íntimo de Vespúcio.

Aos 17 anos, em 1471, Américo começou a Embora nascido em

trabalhar como contador na casa comercial e bancária berço de ouro, Américo

de Lorenzo di Pierfrancesco de Médici. Embora entre Vespúcio seria, de início,

1478 e 1480 Américo tivesse sido secretário de seu tio, conhecido apenas como

Guidantonio Vespúcio, que era embaixador de parente de Simonetta Florença em Paris, junto à corte de Luís XII (que Vespúcio, a belíssima Américo conheceu pessoalmente), seu trabalho no adolescente que serviu de

banco dos Médici era basicamente burocrático. Em modelo para o quadro O

1491, após 20 anos de serviços tediosos, Vespúcio foi Nascimento de Vênus (a

enviado para Sevilha, na Espanha, para ser um dos seguir), pintado por executivos da empresa dirigida por Juanoto Berardi, Botticelli em 1484. Há

sócio dos Médici. indícios de que o próprio

Lorenzo de Médici fosse

apaixonado por Simonetta.

 

Foi após sua chegada à Espanha, em 1491, que Vespúcio começou a se tornar um dos personagens mais controversos da história dos descobrimentos. Ele tinha quase 40 anos de idade. Seu novo patrão, o banqueiro e armador Juanoto Berardi, era um dos principais financiadores das viagens marítimas patrocinadas pelos Reis Católicos. Berardi possivelmente foi o responsável pela armação da esquadra com a qual Colombo descobriu a América em 1492. No ano seguinte, se tornou agente e procurador dos negócios de Colombo junto à corte espanhola.

Foi nessa condição que, em abril de 1495, Berardi se comprometeu a entregar aos reis Fernando e Isabel 12 navios – entre os quais a nau e as duas caravelas com as quais Cristóvão Colombo faria sua terceira viagem ao Novo Mundo, prevista para o início de 1497. Mas Berardi morreu em dezembro de 1495, e a pesada responsabilidade de entregar uma dúzia de embarcações recaiu sobre Vespúcio. Só no início de 1498 Américo conseguiu aprontar os navios – tornando-se, dessa forma, amigo de Colombo.

Em maio de 1498, Cristóvão Colombo partiu da Espanha e, dois meses depois, chegou pela primeira vez à América do Sul. Um ano depois, o próprio Vespúcio decidiu se fazer ao mar. Numa carta posterior, ele iria revelar que estava cansado de notas cambiais e de trâmites burocráticos. Aos 45 anos, achava que novos ares e um pouco de aventura lhe fariam bem. Por isso, embarcou na frota comandada pelo truculento Alonso de Hojeda e zarpou de Cádiz em 18 de maio de 1499. Daquele dia em diante, novos ares e aventura não mais lhe fariam falta. Simonetta Vespúcio foi

Aparentemente, Vespúcio horrorizou-se com a eleita “Rainha da Beleza”

brutalidade de Hojeda e decidiu se separar da de Florença em 1471. Ela

expedição. Desembarcou na ilha Hispaniola (hoje morreu de tuberculose em

Haiti/Santo Domingo), no Caribe, após ter visitado o 1476, aos 23 anos. O

golfo de Pária e o litoral da Venezuela. A bordo de pintor Piero de Cosimo a

outro navio, retornou à Espanha, aonde chegou nos retratou, de memória, anos

primeiros dias de junho de 1500, antecipando-se em depois, e pôs uma serpente

um mês ao retorno de Hojeda. em seu pescoço para

No dia 18 de julho de 1500, em Sevilha, Vespúcio simbolizar a doença que a

redigiu uma carta de 15 páginas endereçada a seu vitimara (acima). Na

patrão, mesma época, outro pintor, Lorenzo de Médici. Nela, narrou

minuciosamente sua viagem, omitindo o nome de Domenico Ghirlandaio,

Hojeda e se auto-intitulando o comandante da retratou Vespúcio (abaixo)

expedição. Era a primeira das várias cartas e dos como figurante do quadro

muitos exageros que, em breve, fariam a fama de Madonna della

2 Misericordia. Este é o único

Vespúcio.

retrato autêntico de

Em fins de 1500, uma cópia dessa correspondência

Vespúcio.

parece ter chegado ao rei D. Manoel, de Portugal, talvez por intermédio do banqueiro Bartolomeu Marchioni. Em janeiro de 1501, D. Manoel enviou a Sevilha o florentino Giuliano del Giocondo, funcionário graduado de Marchioni, com a missão de contratar Vespúcio.

É provável que o orgulhoso D. Manoel estivesse tão interessado em requisitar os serviços de Vespúcio pelo fato de que, naquele momento, havia grande carência de navegadores experientes em Portugal. Quase todos se encontravam envolvidos em outras missões: Cabral ainda estava em alto-mar, retornando da Índia, para onde João da Nova acabara de zarpar. Dali a poucos dias, Gaspar Corte Real partiria outra vez em direção à América do Norte, deixando Lisboa em 20 de maio de 1501 para seguir a mesma rota que, um ano antes, já o levara ao litoral do Canadá. Vasco da Gama – condecorado como Almirante das Índias – se preparava para retornar ao Oriente, chefiando a chamada “Esquadra da Vingança”, que iria zarpar de Lisboa em 15 de fevereiro de 1502. E o grande Bartolomeu Dias, que em 1488 fora o primeiro navegador a dobrar o cabo da Boa Esperança, estava morto – embora disso D. Manoel ainda não tivesse conhecimento.

Américo Vespúcio chegou a Lisboa em fevereiro de 1501. Manteve um breve contato com o rei D. Manoel e, na segunda semana de maio, partiu para o Brasil. Essa viagem não só eternizaria seu nome como iria provocar uma grande revolução nos conceitos geográficos da Europa.

INTERLÚDIO EM BEZEGUICHE

Com Vespúcio a bordo – provavelmente como cosmógrafo ou, talvez, como piloto – a esquadra comandada por Gonçalo Coelho zarpou rumo às Canárias. Dali, seguiu em direção à baía de Bezeguiche (hoje Dacar), em frente ao arquipélago de Cabo Verde, na África, aonde chegou no dia 2 de junho. Lá, a frota deparou com o navio de Diogo Dias, irmão de Bartolomeu Dias, que, um ano antes, se desgarrara da armada de Cabral, fora parar na Etiópia e agora estava retornando para Portugal com apenas seis homens a bordo. No dia seguinte, por uma extraordinária coincidência, também chegavam àquele mesmo porto africano, vindos de Calicute, dois navios da esquadra de Cabral. Durante 13 dias, as tripulações desses seis navios portugueses permaneceram em Bezeguiche, no Senegal. Os homens de Cabral e de Diogo Dias descansavam das fadigas do mar, enquanto os de Gonçalo Coelho abasteciam os navios de água e lenha para a viagem ao Brasil. Ao longo de duas semanas, os capitães puderam trocar muitas informações.

As notícias que compartilharam lhes deram a certeza de que as terras descobertas na margem oeste do Atlântico deviam fazer parte de um continente. Afinal, em abril de 1500, ao mesmo tempo que Cabral descobria o território que hoje constitui o Brasil, Gaspar Corte Real percorrera as vastidões geladas do Canadá. Pouco antes disso, em companhia de Hojeda, Américo Vespúcio estivera nas Guianas, na Venezuela e no Caribe. Não restavam dúvidas de que aquela vasta extensão de terra

o o

– que se prolongava desde 45 de latitude norte até pelo menos 15 de latitude sul – deveria estar interligada. Começou a nascer o conceito de um Novo Mundo: as terras que Colombo fora o primeiro a vislumbrar em 1492 não eram a Ásia, mas um novo e desconhecido continente (veja boxe lateral adiante).

Para Vespúcio, porém, mais importante do que essa nova visão da geografia planetária – da qual ele se aproveitaria amplamente – foi o fato de que, durante aqueles dias memoráveis em Bezeguiche, ele pôde obter também informações detalhadas sobre a Índia e seu rico comércio de especiarias. Embora agora trabalhasse para o rei D. Manoel, Vespúcio se mantinha extremamente leal ao seu patrão original, Lorenzo de Médici. E nada interessava mais aos Médici e a Florença do que o comércio de pimenta e canela – cujo monopólio estava nas mãos de Veneza, eterna rival e única república europeia que podia negociar diretamente com os turcos de Constantinopla (obtendo, assim, lucros extraordinários com a distribuição das especiarias para o resto da Europa). Fora justamente esse o motivo que levara os banqueiros florentinos e genoveses a financiar as expedições ultramarinas dos portugueses, cujo objetivo era atingir a Índia por mar e furar o bloqueio estabelecido pela aliança entre turcos e venezianos.

Vespúcio obteve informações preciosas não da boca A Quarta Parte do

dos capitães portugueses, mas através de um dos mais Mundo intrigantes personagens da história dos descobrimentos:

Foi o historiador

Gaspar da Gama, também conhecido como Gaspar

Capistrano de Abreu

da Índia. Judeu polonês de caráter errante, Gaspar

(1853-1927) o primeiro a

vivera por anos em Alexandria, no Egito, tendo

perceber as extraordinárias

chegado à Índia por volta de 1470. Em setembro de

repercussões do encontro

1498, ao visitar um dos navios de Vasco da Gama –

entre Vespúcio e a frota de

quando eles estavam ancorados na ilha de Angediva,

Cabral em Bezeguiche. Em

próxima a Calicute –, foi considerado um espião a

1900, em seu admirável

serviço dos mercadores árabes e acabou capturado

livro O descobrimento do

pelos portugueses. Levado para Lisboa, converteu-se ao

Brasil pelos portugueses,

cristianismo, adotou o sobrenome de seu poderoso

Capistrano dedicou um

padrinho de batismo e passou a circular com

capítulo inteiro a esse

desenvoltura pela corte de D. Manoel. Em março de

encontro e às suas

1500, embarcou como intérprete na frota de Cabral –

consequências. De acordo

com o qual estava, agora, retornando da Índia.

com o historiador cearense,

Depois de longas conversações com Gaspar da Gama, Vespúcio escreveu uma carta de cerca de dez foi graças às informações

páginas para Lorenzo de Médici. Datou-a em 14 de obtidas em Bezeguiche que

junho de 1501 e, por um dos navios da frota de Cabral, Vespúcio pôde concluir que

a enviou para Portugal, de onde ela foi remetida para as novas terras descobertas

Florença. No dia seguinte, 15 de junho, enquanto por Colombo não eram a

Cabral zarpava para Lisboa, a frota de Gonçalo Ásia, mas sim parte de um

Coelho partia para o Brasil. 3 continente. Foi por isso

A PRIMEIRA EXPLORAÇÃO OFICIAL DO que, ao retornar à Europa, BRASIL Américo Vespúcio lançou a

tese de que estivera em um

Por mais de dois meses, os navios de Gonçalo “novo mundo”. Coelho enfrentaram primeiro as enervantes calmarias equatoriais do Atlântico e, depois, “o pior tempo que jamais um viajante

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experimentou, com muitos aguaceiros, turbilhões e tempestades”. A tormenta durou mais de dez dias. Então, a 17 de agosto de 1501, quando comida, lenha e água começavam a escassear, a expedição avistou terra. A frota levara 67 dias para fazer o mesmo trajeto que, um ano e meio antes, Pinzón percorrera em apenas 13.

Apesar de Vespúcio afirmar que as três caravelas ancoraram num lugar

o

localizado a 5 de latitude sul – o que remete à foz do rio Mossoró, na praia de Areias Alvas, quase na divisa entre Rio Grande do Norte e Ceará –, o local mais provável do desembarque parece ter sido a praia dos Marcos, no Rio Grande do

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Norte, cerca de 150 quilômetros ao sul de Areias Alvas.

Ao desembarcar nessa praia de ondas fortes e areia fofa, os portugueses não viram ninguém. Mas, na manhã do dia seguinte, enquanto os marinheiros enchiam os tonéis de água fresca, colhiam palmitos e cortavam lenha, um grupo de indígenas surgiu no alto de um pequeno morro, próximo à praia. Embora os marujos lhes oferecessem guizos e espelhos, os nativos se recusaram a manter qualquer contato – exatamente como haviam feito os Potiguar encontrados por Pinzón. No dia 19 de agosto, dois marinheiros obtiveram permissão para descer a terra, penetrar na mata e negociar com os nativos. Gonçalo Coelho se comprometeu a aguardá-los durante cinco dias.

Seis dias se passaram e nenhum dos homens retornou aos navios. Então, na manhã de 24 de agosto – quando a frota já se encontrava ancorada havia uma semana – a praia se encheu de mulheres. Gonçalo Coelho enviou a terra dois batéis com alguns homens a bordo. Um grumete desembarcou e foi logo cercado pelas nativas, que “o apalpavam e o examinavam com grande curiosidade”. Quando ele estava no meio delas, uma mulher desceu do monte com um tacape nas mãos, aproximou-se do jovem marinheiro e, pelas costas, lhe desferiu um golpe na nuca.

“Então”, diz Vespúcio, “as outras mulheres Embora várias imediatamente o arrastaram pelos pés para o monte, incorreções geográficas e

ao mesmo tempo que os homens, que estavam alguns exageros tenham

escondidos, se precipitavam para a praia armados de sido encontrados nas arcos, crivando-nos de setas, pondo em tal confusão a cartas de Vespúcio, o

nossa gente, que estava com os batéis encalhados na episódio do “banquete areia, que ninguém acertava lançar mão das armas, antropofágico”, do qual foi

devido às flechas que choviam sobre os barcos. vítima um dos marinheiros

Disparamos quatro tiros de bombarda, que não de seu navio, foi, ao que

acertaram, mas cujo estrondo os fez fugir para o tudo indica, verídico. monte, onde já estavam as mulheres despedaçando o Afinal, o caso serviu para

cristão e, enquanto o assavam numa grande fogueira, ilustrar o mapa conhecido

mostravam-nos seus membros decepados, devorando-como Kunstman II, feito os, enquanto os homens faziam sinais, dando a em 1503 (ou início de

entender que tinham morto e devorado os outros dois 1504). Como a carta na

cristãos.” qual Vespúcio descreve o

Esse trecho – incluído na famosa Lettera que episódio só foi escrita em

Vespúcio escreveria em Lisboa em 4 de setembro de agosto de 1504, o mapa

1504, enviando-a para seu amigo de infância Piero não pode ter se baseado

Soderini, um dos principais mandatários de Florença – nas informações de se constituiria na primeira descrição da antropofagia Vespúcio. Para fazer a

dos nativos da América na qual a vítima era um gravura reproduzida europeu. Como é fácil supor, a narrativa causou abaixo, o cartógrafo profundo impacto na Europa e transformou a carta anônimo que desenhou o

num grande sucesso editorial. mapa deve ter sido

Apesar da indignação de seus subordinados – entre informado da morte e

eles Vespúcio –, Gonçalo Coelho não permitiu deglutição do marujo por

retaliações aos indígenas e determinou que a frota outro membro da zarpasse imediatamente, dando continuidade à expedição – o que é uma

exploração da costa em direção ao sul. Com o garantia a mais da calendário litúrgico nas mãos, a expedição foi veracidade do caso. batizando todos os acidentes geográficos do litoral brasileiro pelos quais cruzou. O primeiro deles foi o cabo de Santo Agostinho, próximo ao Recife, avistado em 28 de agosto, dia consagrado a esse santo. Em 4 de outubro de 1501, a expedição chegou à foz de um grande rio, que, pelo mesmo motivo, batizou de São Francisco. Ali, na atual fronteira entre os estados de Sergipe e Alagoas, os navios teriam permanecido ancorados por quase um mês, sem que até hoje se possa saber o motivo de uma parada tão longa.

Deixando o São Francisco para trás em fins de O Juramento do outubro, em companhia de três indígenas que Degredado decidiram juntar-se à expedição, a frota de Gonçalo

Ao retornar a Portugal,

o

Coelho chegou, em 1 de novembro de 1501, à baía a bordo de um dos navios

que batizou de Todos os Santos. Lá, os marinheiros da expedição de Gonçalo

estabeleceram relações amistosas com os nativos. O Coelho, Afonso Ribeiro e o

próprio Vespúcio diria mais tarde, em uma de suas outro degredado (cujo cartas, que, durante essa estadia, havia “comido e nome se desconhece) dormido durante 27 dias” com “os naturais da terra”. prestaram um depoimento

Antes de partir, os portugueses compraram dez cativos juramentado perante o

que os nativos estavam se preparando para matar e tabelião Valentim comer em ritual antropofágico. Na volta à Europa, os Fernandes. O documento,

venderam como escravos. conhecido como Ato

A próxima parada da frota foi na baía Cabrália, Notarial de Valentim próxima a Porto Seguro, onde, um ano e oito meses Fernandes, datado de 20 de antes, o Brasil fora avistado pela primeira vez pelos maio de 1503, guarda

portugueses. Na praia, assinalada com uma cruz, várias semelhanças com a

Gonçalo Coelho recolheu os dois degredados que carta Mundus Novus, que haviam sido deixados por Cabral. Durante quase dois Vespúcio redigiria mais

anos, os Tupiniquim os haviam tratado como tarde, o que permite supor hóspedes. De um desses homens, Afonso Ribeiro, que o florentino também se

Vespúcio iria obter uma descrição detalhada da vida baseou no depoimento de

cotidiana e dos hábitos dos nativos do Brasil. Tal Ribeiro para fazer sua

depoimento, somado à sua experiência pessoal, lhe vívida descrição dos serviria de base para a redação de duas cartas. costumes dos indígenas do

Em Porto Seguro, naquele início de dezembro, a Brasil, embora ele próprio

frota de Gonçalo Coelho também recolheu toras de assegure ter vivido 27 dias

pau-brasil – a árvore que, em breve, iria definir o entre eles. De todo modo,

nome e o futuro daquele território. Seguindo sua Vespúcio raramente citava

jornada para o sul, as três caravelas chegaram a um suas fontes. local esplendoroso no primeiro dia de 1502. Era uma Valentim Fernandes, ampla “boca de mar”, cercada de vastas montanhas alemão da Morávia, era

recobertas de mata luxuriante. Julgando se tratar da foz autor, editor, impressor,

de um rio, os exploradores batizaram o lugar com o tradutor e tabelião público

nome de Rio de Janeiro. Um ano mais tarde, em sua que vivia em Lisboa e fora

segunda viagem ao Brasil, Vespúcio voltaria ao local – escudeiro da rainha D.

que os nativos chamavam de Guanabara – e ficou tão Leonor, mulher do rei D.

extasiado com sua beleza quanto da primeira vez. João II e irmã do rei D.

Santos Nomes Cinco dias depois de Manoel. O documento

Quem primeiro propôs a avistar o Rio de Janeiro, original redigido por

tese de que a expedição de a frota ancorou em outra Fernandes se perdeu e só

Gonçalo Coelho batizou os bela enseada. Como 6 de ficou conhecido a partir da

acidentes geográficos com o janeiro é dia de Reis, cópia feita em 1504 pelo

nome do santo do dia foi batizou-a de Angra dos clérigo alemão Líbero

Francisco de Varnhagen, Reis, nome que até hoje se Wigenhoist, que vivia em

em 1854. Alguns mantém. Os dias Colônia.

historiadores discordam estavam quentes, o mar

tranquilo e chuvas eventuais refrescavam os homens e

dessa teoria, que só seria

realçavam os perfumes exalados pela mata. “Algumas

factível se os navios de

Coelho tivessem vezes me extasiei com os odores das árvores e das

flores e com os sabores dessas frutas e raízes, tanto que

permanecido ancorados

por um mês na foz do rio pensava comigo estar perto do Paraíso Terrestre”,

São Francisco – sem escreveu Vespúcio. “E o que direi da quantidade de

pássaros, das cores das suas plumagens e cantos,

motivo aparente para

 

pausa tão longa. De todo quantos são e de quanta beleza? Não quero me estender 6 modo, nenhum desses nisto, pois duvido que me deem crédito.”

historiadores propôs uma Em fins de janeiro, as caravelas entraram em uma

explicação mais engenhosa baía ao fundo da qual existia uma ilha, baixa e

para justificar a recoberta por mata muito fechada. Por motivo ainda

nomenclatura da costa. desconhecido, tal ilha foi chamada de Cananeia,

Quanto à origem do nome rompendo com o esquema de batizar os acidentes

“Cananeia”, a tese mais geográficos com o nome dos dias santos. Durante essa

provável é a de que algum passagem por Cananeia no verão de 1502, Gonçalo

integrante da expedição de Coelho teria abandonado ali o mais enigmático

Gonçalo Coelho tivesse degredado da história do Brasil: o homem que, 25

acompanhado Vasco da anos mais tarde, ao ser encontrado pela expedição do

Gama à Índia em 1498 e, espanhol Diego Garcia, passaria a ser conhecido como

julgando que a ilha, o Bacharel de Cananeia (e cuja vida atribulada será

avistada em 27 de janeiro narrada mais adiante, no capítulo V).

de 1502, no litoral sul de Cananeia, localizada no litoral sul de São Paulo,

São Paulo, era de tal forma iria se tornar um dos locais mais importantes do Brasil

semelhante à região de na primeira metade do século XVI, e não apenas por

Cananor (próxima a causa da presença do Bacharel. Afinal, era exatamente

Calicute, na Índia), sugeriu ali que passava a linha estabelecida pelo Tratado de

que ela fosse batizada com Tordesilhas – embora isso os portugueses ainda não

nome que fizesse referência soubessem. a essa similaridade. Outra Mas, com certeza, os integrantes da expedição de

tese é de que Cananeia só Gonçalo Coelho já tinham notado que, a partir de

teria sido batizada por Cabo Frio (uns 200 quilômetros ao norte da cidade do

Martim Afonso de Sousa Rio de Janeiro), a costa brasileira começava a se

em 1531, em homenagem à inclinar nitidamente para sudoeste. Esse recuo em

índia Caniné, uma nativa direção ao poente deve ter sido observado com

que se tornara concubina preocupação, pois deixava claro que – de acordo com

do grande capitão. as estipulações de Tordesilhas – aquele vasto território

não estaria dentro das possessões da Coroa lusa, mas na zona pertencente à Espanha.

Ao zarpar de Cananeia, em 15 de fevereiro de 1502, com água, mantimentos e lenha suficientes para seis meses de navegação, Gonçalo Coelho e seus comandados pareciam estar conscientes desse fato. Tanto é que, embora seguisse navegando para o sul, a frota foi se afastando do litoral, guinando para leste – em direção à África. Mas a rota seguida a partir de então continua sendo um mistério. Segundo Vespúcio, ao distanciar-se da costa, as caravelas navegaram para sudeste por 49 dias, percorrendo mais de cinco mil quilômetros em alto-mar, sem avistar terra.

Então, a 3 de abril de 1502, despencou uma terrível tempestade austral. Os marinheiros tiveram que arriar rapidamente todas as velas. Com os mastros nus, as caravelas balançaram sobre vagalhões funestos durante 72 intermináveis horas. Os ventos eram gélidos e as noites, muito longas. Segundo Vespúcio, em 6 de abril a escuridão perdurou por 15 horas. A essa altura, a frota estava em meio ao oceano

o

Atlântico, a 53 de latitude sul – equivalente à localização da atual cidade de Punta Arenas, na Patagônia chilena, nos confins do continente americano.

Na manhã de 7 de abril, em meio a um nevoeiro denso, a expedição julgou ter visto terra. “Era uma costa brava”, escreveu Vespúcio, “e nela não avistamos porto nem gente. Mas era tanto o frio que ninguém da frota o podia remediar nem suportá-lo, de modo que, vendo-nos em tanto perigo e tormenta que não enxergavam os navios uns aos outros, pelo grande mar que fazia e pela grande cerração, decidimos partir sem demora a caminho de Portugal.”

 

No mapa acima, as rotas das duas viagens de Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio ao Brasil.

Não se sabe que terra é essa que Vespúcio disse ter avistado. Alguns historiadores

o

supõem que fossem as ilhas Geórgias do Sul, que ficam a 54 de latitude sul, uns mil quilômetros a leste das Malvinas. O mais provável, porém, é que Vespúcio e seus homens tenham avistado apenas um iceberg. De fato, naquelas latitudes flutuam imensos blocos de gelo, em cima dos quais pousam albatrozes e gaivotas, ressaltando a impressão de que se trata de ilhas.

De todo modo, a esquadra logo guinou para nordeste. Depois de navegar por pouco mais de um mês, os navios chegaram a Serra Leoa, na costa ocidental da África, no dia 10 de maio de 1502 – um ano exato após a partida de Lisboa. Depois de 15 dias nesse porto africano – onde uma das caravelas, infestada pelo caruncho (inseto similar ao cupim), foi queimada –, os dois navios restantes partiram para os Açores. No dia 22 de julho de 1502, a primeira expedição enviada ao Brasil enfim entrava no porto de

Lisboa. Depois de 14 meses de viagem, as notícias que Acima, a reprodução da

ela trazia eram decepcionantes: na terra descoberta por folha de rosto da primeira

Cabral, nem ouro nem especiarias haviam sido edição francesa da carta

encontrados. A Coroa logo encontraria uma outra Mundus Novus, publicada maneira de explorar aquele vasto território ocidental. em latim, em Paris, em

A FARSA DE MUNDUS NOVUS 1506, pelo editor Jean

No início de agosto de 1502, uns dez dias após ter Lambert. desembarcado em Lisboa, Américo Vespúcio tornou a escrever para Lorenzo de Médici narrando os acontecimentos relativos à viagem que fizera sob o comando de Gonçalo Coelho (cujo nome, como de hábito, não citou uma única vez). A carta, de apenas cinco páginas, estava repleta de insinuações sobre a natureza paradisíaca das terras recém-visitadas e fazia uma descrição vivaz, mas comedida, dos espantosos costumes de seus habitantes nativos. Fluente e elegante, a narrativa há de ter entretido o refinado patrão de Vespúcio. Depois de circular entre os Médici, a carta foi arquivada no Códice Strozziano, na biblioteca de Florença, e lá permaneceu esquecida

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por quase três séculos.

Em agosto de 1504, porém, um dos primeiros A ilustração a seguir é a

grandes sucessos da história da literatura começou a primeira gravura ser vendido nas feiras e praças de Augsburgo, na produzida na Europa para

Alemanha – e, logo a seguir, nos mercados e nas representar os indígenas do

portas das igrejas de Paris e de Amsterdã, de Roma, de Brasil. Trata-se de uma

Sevilha e até de Praga. Era um panfleto de 15 páginas, xilogravura feita pelo escrito em latim, incrementado por algumas ilustrações gravador alemão Johann

e com um título bastante sugestivo: Mundus Novus. Froschauer para ilustrar a

Seu autor chamava-se Américo Vespúcio. A narrativa primeira edição da carta

vinha em forma de carta e seu destinatário era Lorenzo Mundus Novus, publicada di Pierfrancesco de Médici. em Augsburgo em 1504. A

O texto de Mundus Novus se concentrava nos imagem pertence ao aspectos mais sensacionalistas da viagem de Vespúcio. arquivo da Biblioteca

A vida sexual dos indígenas era narrada com profusão Pública de Nova York. Ao

de detalhes libidinosos; os rituais tétricos do banquete mostrar pedaços de corpos

antropofágico vinham descritos com perturbadora humanos pendurados em

minúcia. Em cada parágrafo havia a evidente uma árvore e um nativo preocupação de ressaltar a exuberância daquela parte devorando o braço de uma

do mundo, a estranheza de seus animais, o tamanho vítima, essa imagem

descomunal de suas árvores, a lascívia e a crueldade de causou profundo impacto

seus habitantes humanos. na Europa. Ao fundo,

veem-se dois navios dos

viajantes portugueses.

 

O grande interesse que a recente descoberta das novas terras despertava na Europa somado ao tom escandaloso da narrativa transformaram Mundus Novus num sucesso editorial instantâneo. Só no ano de seu lançamento, a carta atribuída a Vespúcio teve 12 edições consecutivas, totalizando cerca de quatro mil exemplares vendidos – números impressionantes para o século XVI. Antes do fim de 1505, o livro já havia sido traduzido para o alemão, o francês, o italiano, o holandês, o espanhol e o tcheco. Cada edição era enriquecida por novas ilustrações encomendadas pelos editores. As primeiras imagens da América publicadas na Europa foram as gravuras feitas para estimular a vendagem do panfleto assinado por Vespúcio.

E, no entanto, Mundus Novus era uma falsificação feita a partir da carta escrita em Lisboa, em agosto de 1502. A mera comparação entre a narrativa original e o livreto posto à venda em toda a Europa deixa claro que Mundus Novus era uma versão exagerada da carta sóbria e acurada que Vespúcio enviara para Lorenzo de Médici. Escrita em latim vulgar, repleta de contradições geográficas e de erros náuticos primários, Mundus Novus fora publicada com o objetivo de atingir um público interessado em obter informações sobre um mundo misterioso e até então desconhecido. Um novo mundo.

Até que ponto Vespúcio esteve diretamente envolvido com a fraude é uma questão que jamais foi e provavelmente nunca será elucidada. Mas, como ele estava vivo durante o auge do sucesso do livreto, pode-se supor que tenha sido no mínimo omisso, se não de todo conivente, com os exageros publicados em seu nome – os quais jamais desmentiu. Como foi justamente a partir do sucesso de Mundus Novus que o nome de Vespúcio começou a se tornar conhecido em toda a Europa letrada, é pouco provável que os exageros lhe tenham desagradado.

Ainda assim, apesar de Mundus Novus ter ajudado a propagar a ideia de que as terras descobertas por Colombo não eram parte da Ásia, mas um novo continente, não foi essa a carta que acabou fazendo com que o “Novo Mundo” fosse batizado com o nome de Américo Vespúcio. Dois anos e uma nova viagem ao Brasil ainda seriam necessários antes que Vespúcio atingisse plenamente seu objetivo de “obter

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alguma fama após a morte”.

O NOVO MUNDO GANHA UM NOVO NOME

De fato, no dia 10 de junho de 1503, 11 meses depois de ter retornado a Portugal, Américo Vespúcio voltou a partir para o Brasil – e outra vez em companhia de Gonçalo Coelho, o comandante com o qual ele havia rompido. A frota era formada por seis caravelas e levava como pilotos João Lopes Carvalho e João de Lisboa, homens que, mais tarde, iriam desempenhar, como se verá, papel importante na história do Brasil. Zarpando de Lisboa, os seis navios seguiram direto para Santiago, uma das ilhas de Cabo Verde, escala normal de quase todas as expedições.

Dali, por determinação de Gonçalo Coelho, a frota navegou para sudeste, em direção a Serra Leoa, para escapar das calmarias equatoriais do Atlântico (nas quais, um ano antes, a expedição anterior ficara retida por quase dois meses). Embora duramente criticada por Vespúcio, a tática deu certo, pois no dia 10 de agosto de 1503, menos de um mês depois de zarpar de Serra Leoa rumo ao Brasil, os navios depararam com uma ilha, “coisa de grande altura no meio do mar,

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verdadeira maravilha da natureza”. Tal ilha foi então batizada de São Lourenço. No ano seguinte, porém, passaria a ser chamada de Fernando de Noronha – em homenagem ao chefe do consórcio que havia arrendado o Brasil, obtendo o monopólio do comércio de pau-brasil, e que havia financiado a expedição.

Ao se aproximar da ilha, o navio de Gonçalo O Naufrágio Coelho teria se chocado contra um banco de recifes e

Em 1987 as sociedades

encalhado, de acordo com Vespúcio. A tripulação se

privadas Una Cultural,

salvou, mas a caravela não. Então, após transferir

presidida pelo historiador e

cerca de 20 sobreviventes para o navio onde estava

arqueólogo Márcio

Vespúcio (do qual ele próprio seria o capitão) Coelho

Werneck da Cunha, e

ordenou que Américo fosse procurar um “bom porto”

Águas Claras Produções

na ilha – onde, mais tarde, a frota deveria se

Submarinas, presidida pelo

reencontrar, assim que Coelho tivesse recuperado o que

mergulhador Randal

ainda fosse possível salvar do navio.

Fonseca, se associaram

Por uma semana Vespúcio garante ter permanecido para iniciar as pesquisas

ancorado sozinho em Fernando de Noronha – que ele subaquáticas em busca dos

descreveu como sendo “farta de água fresca e doce, com vestígios da caravela de

infinitas árvores, cheia de aves marinhas e terrestres, Gonçalo Coelho, que inumeráveis e tão familiares que se deixavam sem naufragou nas medo apanhar à mão, com duas léguas proximidades da ilha de (aproximadamente 12 quilômetros) de comprimento e Fernando de Noronha no uma (6 quilômetros) de largura, em que efetivamente dia 10 de agosto de 1503.

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nenhum homem estivera ou hábitara”. Só no oitavo Em 1992, o então dia uma das caravelas da frota chegou ao porto que presidente Fernando Collor

Vespúcio encontrara – e ainda assim apenas para se interessou pelo projeto e

informar que Gonçalo Coelho e os outros três navios já os pesquisadores haviam zarpado em direção ao litoral do Brasil. obtiveram licença do

Vespúcio diz ter partido então no mesmo rumo, Ibama e do Instituto

indignado por ter sido deixado para trás e sentindo-se Brasileiro do Patrimônio

ludibriado pelo capitão-mor. Quatro dias mais tarde, Cultural para vasculharem

chegou ao cabo de Santo Agostinho, na atual costa de as profundezas marinhas

Pernambuco. Dali, seguiu costeando o litoral até em busca dos vestígios do

entrar, 17 dias mais tarde, na baía de Todos os Santos, mais antigo naufrágio de

que ele e Gonçalo Coelho haviam descoberto um ano navio europeu ocorrido em

antes e onde, supostamente, toda a frota deveria se território brasileiro. De

reencontrar. “Mas esperamos ali bem dois meses e acordo com as quatro dias e nada aconteceu”, relatou Vespúcio. investigações de Werneck e

Então, julgando que os demais navios haviam se Fonseca, o naufrágio teria

perdido “pela soberba e loucura de nosso capitão”, o ocorrido nas cercanias dos

florentino decidiu assumir o comando da expedição e recifes atualmente dar continuidade à missão da qual ela fora incumbida, chamados de Espigões,

“porque a ordem que recebêramos do rei era seguir o próximos à ilha dos Sinos

rumo da navegação precedente, qualquer que fosse o (abaixo). Uma camada de perigo que houvesse”. Assim, em fins de novembro de dez metros de calcário deve

1503, as duas caravelas zarparam para o sul, recobrir o que restou do

navegando cerca de 260 léguas, ou aproximadamente navio. 1.600 quilômetros.

Em maio de 1504 chegaram a Cabo Frio, no atual estado do Rio de Janeiro.

Ali a expedição A Feitoria permaneceu durante cinco

A imagem abaixo, feita

meses, “erguendo uma

pelo ilustrador Belmonte

fortaleza e carregando os

em 1954, representa as

navios com pau-

primeiras feitorias erguidas

brasil”. Apesar de pelos 11

portugueses no

Vespúcio ter usado o Brasil. Eram termo “fortaleza”, estabelecimentos bastante tratava-se apenas de uma simples, cercados por uma feitoria: simples paliçada paliçada de madeira. erguida em torno de um Em 1986 os casebre e de algumas historiadores Márcio roças. Foi o primeiro Werneck da Cunha e estabelecimento lusitano Penha da Silva Leite no Brasil – um posto encontraram a base de avançado da civilização uma muralha de pedra em europeia em meio à

floresta tropical. Segundo Cabo Frio que julgaram ser o relato de Vespúcio, 24 vestígios da feitoria de homens foram deixados Vespúcio, que teria, assim, ali, presumivelmente os pelo menos os alicerces integrantes da caravela de feitos de rocha. Ainda não Gonçalo Coelho que está comprovado que se Vespúcio recolhera em trata das ruínas do mais Fernando de Noronha. antigo estabelecimento Com eles ficaram 12 europeu fundado no Brasil, bombardas e mas, de qualquer modo, mantimentos para seis Werneck e Silva Leite meses. conseguiram que o local

É possível que, no fosse registrado junto à período em que Vespúcio Divisão de Proteção Legal estava em Cabo Frio, seu do Instituto Brasileiro do desafeto, Gonçalo Coelho, Patrimônio Cultural estivesse poucos (IBPC).

quilômetros mais ao sul,

fundeado na baía de

Guanabara. Lá, o

comandante da frota

também teria decidido

construir uma feitoria, já

que, a partir de 1504, a

expressão “carioca” – que

em tupi significa “casa de

branco” – passaria a ser

associada à baía de

Guanabara. Esse

estabelecimento teria destino mais auspicioso do que a feitoria de Vespúcio: ele sobreviveu até 1517, quando o navegante Cristóvão Jaques decidiu transferi-lo para a ilha de Itamaracá, em Pernambuco.

Mas não existem provas definitivas de que a chamada “Carioca” tenha sido de fato erguida por Gonçalo Coelho. Alguns historiadores, em especial Fernando Lourenço Fernandes, acreditam que a feitoria de Coelho na verdade ficava na ilha do Gato, hoje ilha do Governador, no fundo da baía de Guanabara e então habitada pelos Temiminó, inimigos dos Tamoio, que ocupavam o restante da baía e logo se tornariam inimigos dos portugueses e aliados dos franceses.

Enquanto o rancho fortificado de Cabo Frio estava sendo construído, Vespúcio organizou uma expedição para explorar a região. Com uma tropa de 30 homens, ele percorreu 40 léguas (uns 250 quilômetros), provavelmente pelo vale do rio São João, até deparar com a barreira da serra dos Órgãos. A marcha durou cerca de um mês. Foi a primeira incursão dos europeus pelo interior do Brasil – mas, além de “broncas

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tribos nômades” vivendo em meio a uma natureza exuberante, Vespúcio não

encontrou nada de valor. Então, julgando ter “pacificado toda a gente daquela

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terra”, retornou ao porto onde seus navios estavam ancorados. Deixando para

trás o primeiro povoado habitado por europeus no Brasil, ele partiu de volta para Portugal em abril de 1504.

A LETTERA Publicada na forma de

Em 18 de junho – um ano e oito dias depois de ter um livreto, a Lettera – cuja deixado Lisboa –, Américo Vespúcio estava de volta à folha de rosto está Europa. Como de hábito, tratou de escrever para os reproduzida na gravura

nobres florentinos relatando suas experiências no além- abaixo – foi posta à venda

mar. Dessa vez, o destinatário da carta era Piero em Florença no dia 9 de

Soderini, um dos mandatários de Florença e amigo de julho de 1506. Era um

infância de Vespúcio. A correspondência, datada de 4 folhetim de 32 páginas,

de setembro de 1504, ficaria conhecida como Lettera a escrito em italiano, com 25

Soderini, ou simplesmente Lettera. Dois anos mais centímetros de largura por

tarde, ao ser publicada em forma de folhetim, ela 40 centímetros de altura. O

desfrutaria de um sucesso ainda maior do que o de livreto foi impresso por

Mundus Novus. Seu êxito foi tão extraordinário que as Gian Stefano di Pavia a

terras descobertas por Colombo, e por outros pedido do livreiro Piero

exploradores que o seguiram, passaram a ser Paccini. Mas, na Itália, as chamadas de América. vendas foram um fracasso:

Ironicamente, a carta que eternizou o nome de apenas cerca de 400

Vespúcio seria também responsável por uma exemplares foram avalanche de críticas ao seu comportamento – pelo comercializados e a carta

menos nos círculos eruditos. Afinal, alguns anos após a nunca passou da primeira

morte de Vespúcio, a análise detalhada da Lettera faria edição. com que ele passasse a ser acusado de charlatão. O manuscrito original da carta para Soderini nunca foi encontrado. O texto mais próximo da versão original é o folhetim chamado Lettera di Amerigo Vespucci delle isole nuovamente trovate in quatro suoi viaggi (“Carta de Américo Vespúcio sobre as ilhas recentemente achadas em suas quatro viagens”). Desde o título, o livreto fora escrito para provar que Vespúcio havia feito não três, mas quatro viagens ao Novo Mundo.

O mais desconcertante é que a “nova” viagem descrita pela Lettera teria sido feita antes das três expedições nas quais a presença de Vespúcio está comprovada por uma série de documentos (ou seja: a viagem com Alonso de Hojeda em 1499 e as duas expedições com Gonçalo Coelho, em 1501 e 1503). De acordo com a Lettera, Vespúcio teria partido de Cádiz em maio de 1497 e, após navegar por 18 meses, descobrira os litorais de Honduras, México, parte da planície de Yucatan e o sul da Flórida. Ao retornar para a Espanha, em outubro de 1498, teria se tornado, assim, o primeiro europeu a percorrer vastas extensões da América Central e da América do Norte.

Mas hoje está provado que tal viagem nunca se realizou, já que nenhum outro documento e nenhum outro cronista se refere a ela. Américo Vespúcio – ou alguém interessado em glorificar seu nome e enriquecer com a venda dos panfletos que narravam tantas peripécias – simplesmente a inventou, misturando informações tiradas dos diários de Colombo, do livro de Marco Polo e de outras cartas do próprio Vespúcio. Ao contrário de Mundus Novus, porém, as mentiras publicadas na Lettera eram tão flagrantes que a farsa parecia destinada ao fracasso. Tanto é que o folhetim publicado em Florença em julho de 1506 vendeu pouco e não passou da

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primeira edição. No resto da Europa, porém, aconteceria exatamente o contrário.

Tudo começou na França. Em fins de 1505, surgira no vilarejo de Saint-Dié, na região dos Vosges, entre Nancy e Estrasburgo, uma pequena academia de eruditos chamada Ginásio Vosgense. Influenciado pelo espírito do Renascimento e contando com o generoso patrocínio do mecenas Renato II, duque de Lorena, um grupo de intelectuais, liderado por um certo Vautrin Lud, decidiu se dedicar ao estudo das questões cosmográficas e das descobertas ultramarinas que tanto empolgavam os humanistas da Europa. Desse grupo fazia parte o matemático, cosmógrafo e desenhista Martin Waldessemüller.

Aproveitando-se das novas técnicas de impressão – O geógrafo grego inventadas por Johann Gutenberg em 1455 – e do

Cláudio Ptolomeu (c.90-

sucesso que as obras geográficas, especialmente os

164), autor do livro

mapas e o livro escrito pelo grego Ptolomeu no início Geografia, é considerado o da era cristã (veja boxe ao lado) estavam obtendo na fundador dessa ciência.

Europa, o Ginásio Vosgense passou a publicar relatos Durante 14 séculos suas

de viagem. Uma de suas primeiras obras foi concepções da realidade justamente uma versão em latim da Lettera a Soderini, geográfica do mundo foram

lançada com o título de Quatuor Americi Vespucci consideradas inatacáveis –

Navigationes (“As quatro navegações de Américo e eram defendidas inclusive

Vespúcio”). Traduzido do italiano por Jean Basin, com pela Igreja. No início do

introdução de Mathias Ringmann e mais de dez século XVI, as descobertas

ilustrações, o livro, lançado em 25 de abril de 1507, foi ultramarinas dos um sucesso instantâneo. Só no ano de seu lançamento, portugueses e dos foi reeditado sete vezes. Em 1508, foram 12 as espanhóis começaram a

reedições. Quase dez mil exemplares seriam vendidos derrubar as teses arcaicas

na Europa. de Ptolomeu. Ironicamente,

Mas não foi só. Para acompanhar essa versão sua obra estava no auge da

latina da Lettera, o Ginásio Vosgense resolveu publicar popularidade, pois, desde o

também, no mesmo volume, uma Introdução à advento da imprensa Cosmografia de Ptolomeu. Embora as novas (inventada em 1455 por

descobertas feitas por portugueses e espanhóis Johann Gutenberg), o livro

estivessem derrubando quase todas as teorias desse e os mapas de Ptolomeu

geógrafo grego que vivera no século I, a obra de tinham se transformado

Cláudio Ptolomeu, ironicamente, estava em alta. Desde numa das maiores fontes

o advento da imprensa, o florescente mercado editorial de renda dos editores e

europeu fora inundado pela publicação de dezenas de tipógrafos europeus. Uma

edições de livros de geografia clássica. Os 27 mapas das primeiras revisões que Cláudio Ptolomeu fizera séculos antes – embora críticas da obra do pai da

ultrapassados – se tornaram um anacronismo Geografia foi justamente a rentável. feita por Martin

Por iniciativa do jovem cosmógrafo Martin Waldessemüller. Waldessemüller, o Ginásio Vosgense decidiu “revisar e ampliar” a obra de Ptolomeu, tendo como base as “descobertas” feitas por Vespúcio. E assim, em um texto que se tornaria profético, Waldessemüller escreveu: “Agora que uma outra parte do mundo, a quarta, foi descoberta por Americum Vesputium, de nada sei que nos possa impedir de denominá-la, de direito, Amerigem, ou América, isto é, a terra de Americus, em honra de seu descobridor, um homem sagaz, já que tanto a Ásia como a Europa receberam nomes de mulheres.”

Em um dos mapas que fez para acompanhar o livreto de 52 páginas, Waldessemüller usou pela primeira vez a palavra “América”, colocando-a sobre o território que representa o Brasil, na mesma latitude em que se localiza Porto Seguro (veja esse mapa logo adiante). O novo continente estava batizado.

Cristóvão Colombo morrera quase que exatamente um ano antes, em 20 de maio de 1506, amargurado e na miséria. Os eruditos de Saint-Dié não ignoravam suas descobertas. Mas, até pelo menos 1514, muitos geógrafos – Waldessemüller entre eles – acreditavam que as ilhas achadas por Colombo em outubro de 1492 de fato eram os limites ocidentais da Ásia, enquanto que a América do Sul (supostamente descoberta por Vespúcio na viagem de 1497 e de fato explorada por ele próprio entre 1501 e 1504) seria um continente autônomo, totalmente separado delas ou, quando muito, interligado ao arquipélago por um istmo. Foi só depois da descoberta do oceano Pacífico, feita por Vasco Nuñez de Balboa em setembro de 1513, que os cartógrafos do século XVI passaram a ter uma ideia um pouco mais próxima da realidade. E somente após o descobrimento do estreito de Magalhães, em 1519, o quadro geográfico iria adquirir molduras mais definidas.

Em fins de 1513, cedendo às pressões da Coroa castelhana, Martin Waldessemüller retirou sua proposta de batismo. Chegou a sugerir que o Novo Mundo fosse chamado de Colômbia. Mas era tarde demais: as múltiplas ressonâncias da palavra América caíram no gosto popular. Em 1516, até o genial Leonardo da Vinci passaria a utilizar esse nome, colocando-o em um mapa que preparou a pedido da poderosa família Médici.

Mapa de Waldessemüller, feito em 1506, no qual o nome “América” aparece pela primeira vez.

Vinte anos mais tarde, quando ficou claro que Vespúcio – ou alguém agindo em seu nome, com ou sem conhecimento dele – havia forjado a viagem de 1497, o nome “América” começava a se popularizar na Europa, tendo sido adotado até por cartógrafos portugueses e, embora com muita relutância, aceito até pelos espanhóis. Dessa forma, a “quarta parte do mundo” acabou sendo batizada com o nome de um homem que não fora o seu descobridor. De acordo com um texto escrito em 1900 pelo historiador brasileiro Capistrano de Abreu, “a falsidade e a galanteria” foram “pavoneadas pela imprensa e, por força delas, temos hoje o nome de americanos”.

A UTOPIA

Por volta de 1510, um exemplar da tradução da Lettera feita pelo Ginásio Vosgense foi parar nas mãos do reverendo inglês Thomas Morus. Entusiasmado com a leitura das Quatro viagens, Morus então escreveu seu clássico A Utopia, lançado na Basileia, na Suíça, em latim, em 1516, com a obra sendo editada por ninguém menos que Erasmo de Roterdã. O livro se tornou de imediato um dos clássicos do pensamento humanista e foi dos primeiros a fazer a idealização da América, servindo-se dela como contraponto para uma visão crítica da velha Europa. O Novo Mundo ofereceria, dessa forma, a chance de um recomeço, no qual supostamente não seriam repetidos os erros do passado.

O herói da Utopia é um velho marujo português, Thomas Morus nasceu

Rafael Hitlodeu (ou Hythlodaeus – “contador de em Londres em 1478. Fez

histórias”, em grego), que, “jovem ainda, abandonou seus estudos em Oxford e

sua fortuna e, devorado pela paixão de correr o lá, em 1497, conheceu

mundo, juntou-se a Américo Vespúcio nas três últimas Erasmo de Roterdã. Em

de suas quatro viagens, cujo relato hoje se lê em quase 1514, depois da ascensão

todo lugar”. Embora fiel companheiro de Vespúcio, ao de Henrique VIII, passou a

final da expedição Hitlodeu pediu permissão ao capitão fazer parte do Conselho

e decidiu que “não retornaria à Europa com ele”, pois Real. Em 1532, quando o

resolvera ficar junto com “os 24 homens que foram rei abjurou o catolicismo,

 

deixados em uma fortaleza, nos confins do Novo Morus, então ligado à 15 Mundo”. Igreja Romana, pediu

Por algum tempo, Hitlodeu viveu na feitoria criada demissão do cargo de

por Vespúcio próximo ao Rio de Janeiro. Mas então ele Grande Chanceler, que

e cinco companheiros decidiram percorrer o mundo. ocupava desde 1532. No

Primeiro, viajaram para o Oriente, dobrando o cabo ano seguinte, ofendeu da Boa Esperança, tendo alcançado até a Taprobana mortalmente a rainha Ana

(as opiniões diferem se se tratava do Ceilão ou de Bolena, recusando-se a

Sumatra, próximo de Málaca). Mas, desiludidos com assistir à sua coroação e a

o que viram lá, empreenderam a viagem de volta, jurar-lhe fidelidade. Foi

outra vez em direção ao Novo Mundo. Após uma série condenado à morte por

de desventuras, acabaram chegando à ilha de Utopia – crime de alta traição, preso

um mundo igualitário, onde os nativos viviam em na torre de Londres e

perfeita harmonia política, social e ecológica. decapitado em 1535.

As indicações dadas por Morus sobre a localização de Utopia permitem supor que ele se baseou na ilha de Fernando de Noronha, descoberta por Vespúcio na mesma viagem na qual ele fundou a feitoria. Na vida real, porém, o destino dos 24 homens deixados por Américo Vespúcio em Cabo Frio nada teve de utópico: eles foram trucidados pelos índios, “por causa dos

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conflitos havidos entre eles”.