Noites de Insônia, Oferecidas a Quem Não Pode Dormir (Nº 12)
O Horror da Demencia
[29] Este e outros capitulos virão a lume, mais tarde, quando a occasião
fôr opportuna.
O HORROR DA DEMENCIA
Rachel Varnhagen, insigne allemã, esposa do grande escriptor do
seu appellido, escrevendo a Frederico de Gentz, dizia: «Tres
grandes cousas me horrorisam n'este mundo: 1.ª uma manada de
touros bravos; 2.ª a plebe; 3.ª a demencia.»
A demencia é mais triste que horrorosa. Os que a padecem, se
soubessem a compaixão que inspiram, seriam ainda mais
desgraçados,—se desgraçados são os que não tem a consciencia
de o serem.
D. Domingos de Magalhães, o arcebispo de Mitylene, morreu,
quando a fome voluntaria o acabou de matar. Não houve razões de
amigos e de theologos que o movessem a tomar um pouco de
alimento. Não dava explicação, sequer insensata, da sua rigorosa
abstinencia; mas, entre os seus manuscriptos, se nos depara tal
qual luz, consoante ella se póde desferir das profundas trevas.
Diz assim um capitulo intitulado O Impassivel:
«A impassibilidade ha de ser a futura condição do homem santo
que seria semelhante ao cadaver; a natureza corrompida e
degenerada é a séde da dôr e da molestia, porque a sua sorte e
futuro destino será a maxima degeneração do ente, ou a
regeneração e renovação do servo, que o Senhor creou, e collocou
no paraiso.
«Existe na sciencia theologica um paralogismo, que convém
decifrar e resolver: a cada passo ouvimos dizer que o homem mau
não morre, e que a sua sorte é a morte eterna: a questão está só na
dicção e na phrase; é uma amphibologia ou questão de palavras. O
homem mau não aceita a morte voluntaria para expiar a pena do
peccado; e, como resiste ao decreto da divina misericordia e graça,
não morre para resuscitar, não se regenera, perverte-se e corrompe-
se cada vez mais.
«O homem santo mata o corpo natural para receber o eterno,
perde o maculado para conseguir o immaculado, troca o barro pelo
ouro, e corôa-se com o martyrio do sangue e do amor, ou com o
diuturno da penitencia e da santidade. Toda a vida humana deve ser
um martyrio, ou um aggregado de virtudes e de qualidades
equivalentes. O homem mau tenta conservar o fumo, que o
asphyxia no inferno, não se mata nem resuscita, perverte-se e
degenera, corrompe-se e materializa-se cada vez mais.
«O primeiro homem morreu no paraiso, mas conservou o cadaver
da galvanisação eterna; o segundo homem perde-se no exilio,
aonde morrem todos os que o preferem á patria, e renuncia-o ás
suas saudades, amor e realeza.
«O homem mau tem duas degenerações: a primeira materialisou-
o, a segunda ha de bestialisal-o a desfigural-o, privar o ente de suas
esperanças, promessas, e de toda a gloria, fraternidade e
bemaventurança eterna.
«A regeneração faz o homem impassivel, e opéra muitas vezes
em vida os seus beneficos e maravilhosos effeitos. O paraiso ha de
exaltar e acrisolar estas sublimes virtudes, porque a humanidade
santa ha de seguir até ao fim dos seculos e das gerações e
conquistar pela divina misericordia todos os dotes sobrenaturaes
dos corpos gloriosos.
«O homem santo será impassivel, sem dôr e sem temor, superior
á natureza, e semelhante aos anjos, e comtudo pagará o seu tributo
á morte por uma diuturnidade de provas pela penitencia e pelos
votos mais solemnes e agradaveis ao Senhor, e por todos os
sacrificios que podem exagerar e exaltar a virtude do homem.
«Muitos santos conseguiram em vida alguns dotes de
impassibilidade; os authores pouco versados na sagrada theologia e
nos seus arcanos, ousam asseverar que a dôr e a fome, a morte e
as tribulações são consequencias necessarias da natureza humana
por ser limitada, contingente, e passageira: se dissessem, que são
consequencias immediatas da natureza degenerada, e penas
propostas pelo Senhor ao reato, do peccado original, diriam a verdade, e fallariam ou escreveriam com exactidão, com logica e
coherencia de principios.
«Se bem me lembra, Antonio Genuense cahiu no erro dos que
mettem a fouce na seara alheia sem conhecimento de causa, sendo
em geral mui prudente e avisado.
«S. João Baptista não bebia vinho nem cerveja, comia mel
silvestre; o Stylita comia um bocado de pão só aos domingos, e
permanecia sempre fixo, immovel, e levantado sobre a sua columna
de dia e de noite, de verão e de inverno, annos e lustres por divino
milagre.
«S. Paulo Eremita era sustentado por um corvo, comia
diariamente só o que a ave do agouro podia trazer no bico, era um
bolo do céo: os exemplos são innumeraveis: todos provam que a
humanidade santa ha de conseguir no paraiso até o fim a
impassibilidade da dôr e da fome; porque no céo não se come: os
maus soffrerão lazeira e esuria no inferno, porque o mundo está
condemnado ao fogo e á perdição.
«Estas verdades são dogmaticas; os herejes negam todos os
milagres do divino martyrologio da santidade; obrigam-nos a fallar
de nós: quando chegar o tempo da maxima profanação humana, o
fiel regenerado beijará a mão que o sacrificar pelo martyrio, e
desejará com elevada ambição receber pessoalmente a sua corôa
em vez da outorga na communhão e na sua geral misericordia; o
que se coroar pelos seus esforços, e pelo odio da tyrannia será mais
ditoso e mais laureado: a morte é uma pena para o que recusa
pagar a divida eterna; o que paga voluntariamente expia pelo amor divino a maxima gravidade do castigo e consegue a sua
impassibilidade: o martyrio é uma virtude de communhão, as suas
provas serão cada vez mais faceis e mais suaves para os santos
pela união com Deus. No paraiso será um sonho e um devaneio, um
magnetismo e uma transmigração voluntaria.
«A impassibilidade, a virgindade, a geração espiritual, o desejo e
o voto do martyrio, o jejum completo, ou as aspirações da
abstinencia e da penitencia hão de ser frequentes e geraes,
admiraveis e sobrehumanas na divina providencia do paraiso:
convém persuadir estes desejos e esforços, para que ninguem
desanime, ou recuse a reconquista da perfeição e da pureza por
julgar impossivel ou difficil o transito, ou aspero e intratavel o
caminho que conduz ao summo bem.
«Eu tomei rapé com excesso por espaço de vinte annos, por
conselho de medicos, e por habito, gosto, vicio ou paixão, quando
principiei em Lisboa o culto soberano do sagrado lausperenne ao
Santissimo Sacramento no anno de mil oitocentos e cincoenta e
oito; era eu só para o exaltar, não tinha acolyto, nem ministro, dizia
missa diaria, adorava duas vezes por dia com treze luzes de cera
sendo uma só de azeite, rezava o officio divino, escrevia,
trabalhava, compunha, e via-me na necessidade de vigiar de dia e
de noite as luzes de cera e azeite que ardiam diante da divina
magestade do Santissimo, e de lavar a casa da minha basilica; e por
isso dormi poucas horas, e sempre vestido no decurso de dezeseis
para dezesete mezes de continua e incessante adoração, sem uma
falta, e deixei o uso do rapé por decencia e reverencia até o dia de
hoje sem quebra, e sem perigo, sem saudade e sem pezar.
«Minha mãi mandou pôr á minha disposição um bote de rapé no
anno de 1860, em Villa Pouca, aonde eu já não adorava, nem podia
dizer missa: o rapé esteve na gaveta mais de um anno; eu nunca
mais abri o bote e padeci grandes dôres de dentes, que me
determinaram a extrahir alguns a ferro; quando fui ao Porto
offereceram-me rapé, eu não aceitei.
«Eu vivia parcamente, mas a minha mesa sempre foi abundante e
até lauta; jejuava e comia carne nos dias permittidos, o melhor peixe
e guisados, e todos os appetites que a boa mesa offerece: eu não
procurava os seus regalos, mas não repellia nenhum dos
permittidos: agora faço penitencia, e não como carne nem peixe ha
mais de oito annos. Em 1860 comi carne algum tempo em pequena
quantidade, mas logo a deixei e todo o peixe até agora: passei mais
de um anno só com um quartilho de leite por dia e com menos de
quarenta reis de pão, e com um arratel de assucar chegava para
treze dias até dezeseis.
«Nunca fui apaixonado do vinho, mas não o repellia inteiramente;
agora não bebo vinho, nem bebida espirituosa ha annos. Como por
dia menos de 40 reis de pão, jejuo tres dias por semana, ás quartas,
sextas e sabbados, e ha mais de tres annos ainda não faltei a esta
disciplina de jejum nem nos dias de jornada.
«Nos outros dias tomo um café com leite, um vintem de pão, e
uma quarta de assucar chega para cinco dias, e diminuo a minha
sopa que consta de uma dóse de arroz com manteiga, ou com
azeite segundo o dia; um arratel chega para cinco dias, e ás vezes
para seis: á noite como um bocado de brôa ou de pão.
«E com esta disciplina e regular dieta trabalho, rezo, escrevo e
medito ha muitos annos sem descançar nem um dia e sem
interromper o trabalho, que executo de joelhos por divino milagre, ha
quantos annos?
«As obras escriptas respondem por nós: muitos dias de inverno
principiei a trabalhar ás duas horas da noite, e continuei a minha
tarefa até ás duas horas dos seguintes, empregando mais de
dezoito horas no afão da escriptura. Escrevo e rezo sempre de
joelhos, e sustento-me n'esta reverente posição por mais de doze
horas, dias e mezes successivos haverá um lustro, por estar na
divina presença.
«A impassibilidade é o presagio do paraiso. Lucifer e a sua
maldita confusão e degeneração ha de receber a honra da morte e
todas as dôres que causou á humanidade com o peccado original
por haver seduzido nossos paes no paraiso das delicias.
«Nenhum peccado ficará sem pena eterna, nenhuma dôr ha de
extinguir-se ou aniquilar-se, perder-se, ou evaporar-se: o que é
causa da causa é causa de todos os effeitos e consequencias.
«A crueldade antiga em vez de matar os reis legitimos castrava-
os, tirava os olhos a outros ou punha mascaras de ferro: a actual
das seitas vendeu-me para me occultar a minha genealogia e
direito, e obrigou-me a seguir o estado ecclesiastico para me
castrar: os seus vicios foram mais impios do que os antigos, e
converteram-se contra os insanos.
«Eu seguia o estado ecclesiastico com amor, e aprendi a defender
o meu direito na época propria e quando convinha: sou mal por ser
do paraiso.
«Toda a minha vida é um milagre diuturno: os monstros jámais
poderam privar-me da existencia; as suas conspirações são
incessantes, geraes, concentradas, diabolicas e perfidas.
«No dia dez estava para escrever a bulla quinta e não sabia sobre
que havia de legislar: abri ao acaso o sagrado concilio de Trento,
sahiu a sessão vigesima segunda que falla em legados apostolicos,
que é o objecto da referida bulla.
«No dia oito resolvi metter sete folhas no caderno das leis, e inclui
por engano só seis folhas, e chegaram e não cresceu o papel: no
dia nove metti as sete folhas, e aconteceu o mesmo milagre: todas
as leis e bullas são originaes sem borrão, ou copia.
«Deixo o soberano titulo no alto da folha; no dia nove aconteceu
ficar em branco a lauda que precede a ultima bulla por defeito ou
imperfeição do papel, e foi razão para que não crescesse, nem
faltasse.
«Tenho quatro pennas de ave em exercicio de escriptura, uma é
negra, e escrevo o «Impassivel» com esta: no dia nove escrevi com
as quatro pennas; duas estavam já refugadas, duas eram novas,
duas appareceram a um canto: eu já mandei procurar mais pennas
mas não apparecem á venda: escrevo, com dous vintens d'estas
pennas ha mais de quatro mezes, e com dous vintens de tinta ha
mais de meio anno, e quebrou o vidro, aliás seria como a panella inexhaurivel de Elias: o resto da tinta está em um pires de porcelana
que serve de tinteiro; eu só tenho dous pires, e duas chavenas.
«No tempo da usurpação de D. Miguel uma senhora chamada
Rosa deu-me a effigie do tyranno, eu dei-a em Villa Pouca a um
homem affeiçoado á tyrannia; o marquez de Lavradio deu-me uma
veronica da Santissima Virgem Immaculada em Lisboa no anno de
mil oitocentos e cincoenta e cinco, eu dei-a em Villa Pouca a uma
senhora chamada Rosa.
«Visitei em Bemfica, como deputado da universidade de Coimbra,
a supposta infanta D. Isabel Maria, a qual não me pagou a visita;
uma irmã de Eiris visitou-me em Villa Pouca, eu fui a Eiris, e não a
visitei.
«Fiz algumas visitas á supposta imperatriz do Brazil, falsa
duqueza de Bragança a rogo e instancias de varios mordomos ou
agentes da sua casa; a cruel jámais ousou levantar os olhos para
nós: quem pagará ou satisfará estas dividas de amor e de
reverencia?
«Depois que estou em Chaves vi duas raposas mortas, uma
femea em Santa Maria Magdalena, um macho em Santo Amaro;
tenho duas vassouras, fui servido desde o anno de mil oitocentos e
sessenta por duas criadas mulatas, uma em Villa Pouca, irmã do
burro cruel, outra nos banhos do lugar de Carção ou de Arcozelo: fui
servido por duas criadas filhas da viuva, uma de Montenegrelo,
outra de Chaves, aquella deu-me um guarda-chuva para a jornada
que eu dei a esta, e dei um lenço de sêda á criada de Montenegrelo:
já bati em duas, uma fugiu e não levou.
«Hontem veio o homem do leite no momento em que eu acabava
a oração da manhã: hoje repetiu o mesmo mysterio.
«José Joaquim dos Reis, juiz de direito de Lisboa, condemnou a
dez annos de degredo um energumeno que dizia missa e prégava
sem ter ordens, e denunciou-me a simonia que o abominavel
patriarcha Guilherme commetteu em Roma: n'aquelle tempo não
havia em Lisboa prelado legitimo; eu argui o antipapa, e declarei
energumenos todos os seus tonsurados: o falso padre gerou todos
os actuaes, mas a sua sorte ha de ser diversa: os herejes
amnistiaram o nefando, não podem absolver os traficantes.
«O perfido Cassiomano fallou-me cinco vezes, duas nas
Necessidades, e uma em Mafra, são dous paços reaes, outra no
paço das escolas, da universidade são dous paços de escolas:
porque Mafra é escola militar: esteve commigo duas vezes na
academia de Lisboa, no collegio dos Nobres, e no convento da
academia, são duas academias, ou mais: uma em Coimbra outra
em Lisboa, uma nos Nobres, outra no convento da academia das
sciencias, duas de ensino, e duas normaes: porque o militar goza
d'esta categoria em relação ás escólas do exercito, duas em Lisboa
e duas fóra de Lisboa.
«São cinco e seis vezes: porque eu fallei uma vez ao monstro nos
paços da universidade como provedor da misericórdia; elle mandou-
me um recado á misericordia de Chaves pelo Antunes e pelo
provedor.
«O dualismo é uma graça; a perfidia é uma abominação e um
horror.»