Noites de Insônia, Oferecidas a Quem Não Pode Dormir (Nº 12)
Mania e Hypocondria
[26] Archivo Pittoresco, tom. III, pag. 140.
MANIA E HYPOCONDRIA
Certo maniaco imaginava que tinha morrido, e rogava aos
parentes e amigos que o enterrassem, porque o seu corpo
começava a apodrecer. Tres vezes, dentro d'um anno, o atacou
semelhante mania. Amortalharam-no, e fingiram que o levavam ao
cemiterio; porém, no caminho, estavam uns homens pactuados com
os parentes á espera do sahimento; e, quando a tumba ia passando,
começaram a dizer em voz alta:
—Ora graças a Deus, que morreu finalmente aquelle velhaco,
aquelle biltre, aquelle perversissimo scelerado!
O maniaco, ouvindo os insultos, irou-se grandemente, e
respondeu:
—Canalhões! se eu estivesse vivo, castigar-vos-hia a bengaladas,
para vos ensinar a não ter má lingua; infelizmente estou morto; e os
mortos não se vingam.
Replicaram os homens que não lhe tinham medo, e desafiaram-
no renovando as injurias.
Então o maniaco, erguendo-se de golpe, desembaraçou-se da
mortalha, e correu atraz dos homens, que o receberam a murros, e
tantos lhes pregaram na cabeça que lhe pozeram fóra de lá a idéa
que o atormentava.
O doente recolheu-se a casa bastante contuso; mas curado; e,
porque havia tres dias que jejuava, comeu á tripa fôrra.
Este caso, e outro da mesma seriedade, vem referidos em um
livro scientifico e mui circumspecto ultimamente publicado em
França. É a Hygiene das dôres, por mr. A. Dobay. Os francezes, ao
mesmo tempo que nos illustram, alegram a gente com estas
passagens que não são vulgares entre os maniacos portuguezes.
*
* *
Um hypocondriaco farto e rico imaginou-se doentissimo, e
resolveu nunca sahir do seu quarto. Dormia, comia e bebia como se
quer; mas soffria horrorosamente por todo o corpo; devia morrer de
morte affrontosa; estava ulcerado e gangrenado; pedia que o não
atormentassem, etc.
Fez quanto pôde para se curar; consultou os somnambulos mais
acreditados; encarapuçou-se com um barrete encerado; tomou
banhos egypcios, e poz sobre o estomago uma cataplasma egypcia:
tudo inutil. Depois experimentou o racahout, a revalenta, a mostarda branca, com igual resultado. A mostarda branca, que cura toda a
gente, fez-lhe mal a elle. Por ultimo, e em recurso extremo, tomou
preparados de ferro, de cobre, de ouro, bezoartos orientaes, o
cachundé chinez, o talekamapala dos selvagens americanos, e
nada de novo. Sempre doentissimo. Recorreu á escova electrica, ao
restaurador da vida. Tudo em vão. Parece incrivel uma cousa tão
verdadeira!
A conversação d'este sujeito versa sempre sobre o mesmo
assumpto: a sua molestia. Se alguem consegue distrahil-o por
momentos, esquece-se o homem dos seus atrozes flagicios.
Indo o medico visital-o uma manhã, queixava-se elle de que não
podia estender a perna direita; e, para mostrar a difficuldade que
sentia, estendia a perna.
—Então o senhor que mais quer?—perguntou o medico.
—Valha-me Deus, queria fazer isto!—e levantava a perna com a
maior presteza e facilidade.
O medico desatou ás gargalhaadas; e o doente, cahindo em si,
riu-se-tambem. Esta aventura distrahiu-o, e poz cobro ás lamurias.
D'outra vez, queixava-se ao medico de falta de appetite (comia
como quatro), e de se estar marasmando.
Ora, o homem tinha tão boas côres e tão proeminente abdomen
que o medico não pôde suster o riso. O doentinho, affrontado pela
galhofa do medico, pediu explicações.