Noites de Insônia, Oferecidas a Quem Não Pode Dormir (Nº 12)
Restauração de um Documento Historico Valioso
RESTAURAÇÃO
DE
UM DOCUMENTO HISTORICO
VALIOSO
Rebello da Silva, na sua Historia de Portugal, reportou-se a um
documento que o snr. Ferdinand Denis encontrára na bibliotheca
real de Paris, relativo á historia dos motins sequentes á perda de D.
Sebastião, e publicára no Portugal pittoresco.
O nosso historiador não trasladou o documento, com quanto fosse
importante. E ajuizadamente procedeu; porque, sendo elle versão
do portuguez, difficil senão impossivel seria revertel-o á fórma
original. Poderia Rebello da Silva pedir o fiel traslado d'esse papel,
incluso no codice n.º 10:241, e dal-o no corpo da sua historia, como
testemunho das velhas regalias populares nas crises grandes de
Portugal; mas dependendo isso de esmeros, pausas e minudencias
que se descasam da indole peninsular, o documento ficou
desconhecido, apesar da traducção do historiador francez.
E, não obstante correr ahi uma versão miserrima do Portugal
pittoresco, o documento alli reproduzido incute suspeitas de falso,
porque não tem, no torneio e na phrase, algum vestigio do dizer
portuguez de 1579.
E, todavia, não posso já duvidar que Martim Fernandes, sapateiro,
e Antonio Pires, oleiro, no 1.º de junho de 1579, estando os fidalgos
reunidos na igreja do Carmo para jurarem fidelidade ao cardeal-rei
D. Henrique, entraram ruidosamente na assembléa, e proromperam
pedindo que lhes ouvissem a falla que iam fazer em nome do povo
de Lisboa.
E não duvido, porque sei o que foi a liberdade portugueza até que
D. João IV começou de a jarretar á feição do seu genio despota, e
porque tenho presente o discurso do mestre sapateiro, escripto
ainda no mesmo papel onde lh'o deram para o decorar.
E como é bem cabido mostrar o original em face do retraduzido
no Portugal pittoresco, sob palavra do snr. Ferdinand Denis, aqui os
defronto, e ponho como advertencia aos que aceitam, sem critica, a
historia que nos vem de torna-viagem.
ORIGINAL VERSÃO
Senhores. Temos sabido que Senhores. Consta-nos que varias
algumas pessoas principaes e nobres das principaes pessoas, e alguns
descuidadas de suas obrigações e nobres, esquecidos das obrigações a
honras fallam de fazer cousas contra o que estão ligados, e fazendo da honra
bem commum e seguridade d'estes pouco cabedal, usam de uma
reinos, a que determinamos de acudir linguagem, e praticam actos contrarios
como bons portuguezes, e lembrados á segurança d'estes reinos. Como
do que fizeram os moradores d'esta bons portuguezes estamos decididos
cidade no tempo d'el-rei D. João I e a dar remedio a este mal, porque nos
d'outros reis, por tanto pedimos a lembramos do que fizeram os
vm.ces como a cabeças e membros habitantes d'esta cidade no tempo de
principaes d'esta republica que nos D. João I, e no de outros monarchas.
ajudem e que não percam sua honra e Rogamos a vossas senhorias, como
direito por parcialidades nem preitos primeiras pessoas da republica, que a
particulares; que sejam vm. ces certos ajudem a sustentar; e que não percam
que para uso e para defensão de a sua honra e direito, dando orelhas á
nosso direito e castigo dos inquietos parcialidade, ou olhando a
portuguezes estamos promptos com circumstancias particulares de alguns
20:000 homens d'esta cidade e seus individuos. Podem vossas senhorias
termos, os quaes ajuntaremos em ficar certos de que para a defensa de
duas horas sendo necessario, e nossos direitos, e castigo dos
poremos fogo ás casas dos que já portuguezes versateis, estamos
agora começam de fallar e tratar promptos a levantar-nos com 15 ou
contra o bem commum e socego 20:000 homens d'esta cidade, e seus
d'estes reinos, o que não poremos em arredores. Se fôr necessario, duas
execução em quanto esperamos horas bastarão para os reunir, e
castigo e remedio por outra via. iremos incendiar as habitações dos
que começam a fallar e a obrar contra
E pareceu-nos que deviamos de o bem geral. Com tudo, não
fazer esta lembrança n'este estado e recorreremos a taes meios em quanto
nos outros dous para com mais tivermos esperança de obter remedio
seguridade tratarem todos do bem e castigo por outro modo. Talvez
commum e quietação d'estes reinos conviesse lembrar isto ao estado da
sem receio de força nem violencia nobreza, assim como aos dous outros
nem outros medos cautelosos e
estados, para que toda a assembléa
prejudiciaes, e para se não ouvir mais trate com plena segurança, do bem
d'aqui por diante os que impossibilitam commum, e da tranquillidade d'estes
tudo sem lhe darem nem procurarem reinos, sem temor da força, violencia,
remedio, os quaes todos se deviam e e de meios preventivos ou damnosos.
devem de haver por mais suspeitosos. Esperamos que mais se não attenderá
á voz dos que julgam tudo impossivel,