Noites de Insônia, Oferecidas a Quem Não Pode Dormir (Nº 12)
A Dança
e que não querem dar nem procurar
remedio a semelhantes males.
O traductor, como se viu, não lhe soffreu o melindre que os dous
populares tratassem de vossas-mercês os fidalgos, safados (duas
vezes) á cobarde ignominia de Alcacer-quibir: deu-lhes senhoria.
Ah! bom relojoeiro de pag. 57!
A DANÇA
Gemem os prelos desde que a moral geme nos bailes.
Ha lendas medonhas, casos que eriçam os cabellos, castigos
infligidos a dançarinos. Leiam na Floresta do padre Manoel
Bernardes a lenda dos Bailarinos. Pois ainda ha passagens mais
escandalosas e funestas, por causa das danças; mas já não ha
quem as apregôe com virtuosa ira. Não ha ninguem que, ao outro
dia de um baile, clame na local ou no folhetim que um scelerado
ousou inclinar-se ao ouvido da donzella com quem dançava, e dizer-
lhe: vêr-te e amar-te foi obra de um momento. Sabem todos que as
phrases assim ardentes queimam as senhoras; mas ninguem propõe que os estylistas d'esta força sejam chamados ao
commissariado; ou que as damas sujeitas a ouvil-os se vistam de
amiantho, se Deus as não fadou com a virtude incombustivel de
salamandras.
Verdade é que o transigir com os maus costumes vem de longe.
Temos o exemplo de exemplares varões a quem competia pôr cobro
aos bailes. Aqui tenho eu um Tratado dos principaes fundamentos
da dança, publicado em 1767, pelo mestre d'aquella viciosa
pantomima, Natal Jacome Bonem, e licenciado pelo santo officio, e
pelo ordinario! Fr. Caetano de S. José, eremita augustiniano, doutor
em theologia, provincial da ordem, etc., foi o encarregado de
censurar officialmente o manuscripto do Tratado da dança. Se este
frade estivesse no prumo da sua missão, deixava-se cahir, com todo
peso de sua gravidade, sobre o mestre Natal, e esborrachava-o e
mais ao incendiario manuscripto.
Com bastante pejo das fraquezas d'este proximo, e para
escarmento de futuros frades censores de futuras danças,
reproduzo a opinião de fr. Caetano de S. José:
«Não me envergonho em obsequio do meu estado confessar ingenuamente se não
estendeu para a arte de dança nem ainda a curiosidade dos meus estudos: sei que
algumas especies d'esta mereceram no estabelecimento da disciplina ecclesiastica uma
bem severa reprehensão e merecida prohibição fundada na solemne profissão que fazem
os que pelo sacramento da regeneração se formam membros vivos de Jesus Christo e
filhos espirituaes da santa Igreja; não ignoro tambem que outras tem o justo louvor com o exemplo de um rei santo como David, dançando na presença da arca do testamento. Se os
preceitos da presente arte, expostos na verdade com toda a modestia se ordenarem para o
uso d'estas e outras de semelhante decencia e honestidade, nem serão oppostos á
santidade dos costumes, assim como o não são aos pontos essenciaes da nossa santa fé.
É o que posso informar, etc.»
Então que é o que informou o frade? Parece dizer que, se esta
Arte de dança leva em vista ensinar a bailar o sarambeque que o
santo rei David dançava adiante da arca, então sim, publique-se o
livreco; mas, se o author intenta regambolear as tibias de suas
discipulas em gavotas, cirandas e outros bailados lubricos, n'esse
caso o santo officio delibere o que lhe parecer.
Ora eu já vi, em Braga, dançar o santo David. Era um cancan a
só, um requebro desnalgado, um alçar de perna bruta e rija que, se
apanhasse a arca, daria com ella na cara do sol.
Voltando ao livro do francez Natal Bonem, acho n'elle excellentes
preceitos de educação que seriam, em substancia e fórma, bem
cabidos n'um dos compendios do snr. João Felix Pereira. O cap. VI,
por exemplo: Do modo que as senhoras devem andar, e se deve
apresentar. (Vê-se que era mais forte em dança que em
grammatica). Ahi vai o capitulo na integra. É lyrico, delicado e muito
de aproveitar:
«Não duvido, que se me accuse de ignorante, e de indifferente, ou de não saber
ensinar, senão aos homens; senão mostrára zelo, e attenção para a instrucção do bello
sexo: ellas, que são a alma da dança, e que lhe dão todo o brilhante, que ella tem; e
parece que a natureza a reveste de mais graça; porque sem a presença das senhoras a
dança não está tão animada; são ellas as que fazem nascer este ardor, e nobre emulação,
que se encontra entre ellas, e em nós, quando dançamos ambos, principalmente com
aquellas, que executam bem este nobre exercicio; nada me parece mais agradavel em
uma companhia, que de vêr dançar duas pessoas de um e outro sexo com seriedade; que
de applausos, e que de gostos para os circumstantes.
«Independentemente do que se tem dito em os capitulos precedentes, que tóco
igualmente a um, e a outro sexo? as mesmas reflexões são necessarias para as senhoras,
ellas devem voltar os pés para fóra, estender os joelhos, ainda que muitas pessoas
pretendem, que não se lhes conheçam estes defeitos, mas por tirar este engano,
principalmente para as senhoras moças, que por desmazelo, ou pouca curiosidade o não
façam; não quero senão o seu proprio voto, que se ponham diante de um espelho de vestir,
e que ellas andem alguns passos, observando o modo de bem andar, que está escripto
para os homens, e se encontrarão com outro ar, e conhecerão, que de ter a cabeça direita,
o corpo fica com maior firmeza, e os joelhos estendidos, os passos são mais seguros;
tenho feito uma reflexão, que me parece muito justa sobre o modo de saber levar bem a
cabeça, e é que uma senhora por muito engraçada, que seja em seu modo de levar a
cabeça, fará julgar differentemente de si, v. g. se ella a levar direita, o corpo bem posto,
sem affectação se dirá; eis aqui uma senhora, que tem um ar muito nobre; e se se deixa ir
com negligencia, se lhe chamará preguiçosa; se a deixa cahir para diante; bizonha, e se a
leva muito baixa, de pensativa, e de vergonhosa; e outras muitas cousas, que não escrevo
por não ser proluxo: desejo que todas as senhoras não façam o modo facil, que se vem
descrever, para que não cáiam em nenhum dos defeitos, que tenho recitado.
«Para bem andar é preciso ter a cabeça direita, os hombros baixos, os braços retirados
para traz, acompanhando bem o corpo; mas dobradas, as suas mãos uma em cima da
outra, com um leque na mão, e principalmente sem affectação.»
Não escrevia em estylo apocalyptico.
*
* *
Este francez que tanto polira e lapidára o bruto diamante das
damas lisbonenses da côrte de D. José I, tinha uma filha
esbeltissima, engraçada de todos os amavios francezes, e muito
esquiva aos amores dos discipulos de seu pai, até á hora fatal em
que o pé, n'um difficil passo de minuete com o deus frecheiro, lhe
escorregou em ladeira de flôres, e... ella lá vai com o conde-barão
d'Alvito embrenhar-se nas florestas de Cintra.
O mestre de dança bravejou, pediu vingança ás leis, ao direito
internacional, ao ministro omnipotente Sebastião José de Carvalho.
O ministro e as justiças sorriram, sob capa, do atribulado dançarino.
O marquez de Pombal, esse então era tão caroavel de francezas,
que ainda, aos 60 e tantos annos, escrevia epistolas amatorias a
uma, que por signal lh'as rejeitava com phenomenal honestidade.
Veja Historia do reinado d'el-rei D. José, pelo snr. Soriano, tom. II,
pag. 649 e seg.
Natal Jacome Bonem sahiu de Portugal, e deixou a filha, quando,
sobre a affronta, se viu ridiculisado pelas seguintes coplas que os
fidalgos enviavam uns aos outros:
AO ROUBO DE UMA FRANCEZA FILHA DO MESTRE DOS
MINUETES
Toda a terra falla e diz
que roubára assim á toa
certo Páris de Lisboa
uma Helena de Paris;
e que o rapto vingar quiz
seu pai que todo se abraza
por lhe levarem de casa,
ainda em peça, a melhor joia;
mas, porque não ardeu Troya,
ficou o velho uma braza.
A Páris lhe foi forçosa
esta eleição por estrella
não só como grega bella,
mas como deusa formosa.
Como a viu tão carinhosa,
tão bonita, tão astuta,
tão gordita, tão enxuta,
Páris lhe deu a maçã
e ella gosta da fruta.
Etc.
O poema d'aqui por diante leva a crueza até ao despejo da
phrase. Que tempo aquelle! Costumes de ouro! Roubava-se a filha a
um forasteiro, injuriava-se o pai com obscenas gargalhadas, a
vergasta da irrisão obrigava-o a transpôr as fronteiras com o
coração despedaçado! Reinava D. José I, o amante da marqueza de
Tavora, então viuva, e já consolada da perda do marido, que o
amante lhe mandára degolar e queimar no cadafalso de Belem.
Como este Portugal floreceu n'aquelles dias! O erario a trasbordar
de milhões e os subterraneos de lagrimas!