Noites de Insônia, Oferecidas a Quem Não Pode Dormir (Nº 12)
Fielding
É extravagante cousa que publicasse um livro tão a favor de quem, no mesmo anno, o mandou degolar como inimigo.
[25] Pedro de Baeça, mercador muito rico, era cavalleiro do habito de
Christo. Foi este o que melhormente pareceu comprehender a abjecção dos seus inimigos, offerecendo trinta mil cruzados pela vida. Elle sabia que o avô do rei, e os avós dos seus juizes se tinham vendido por menos a Philippe II.
FIELDING
Quatro mezes antes de morrer, o visconde de Almeida Garrett,
passeando em Lisboa, no cemiterio dos inglezes, com Francisco
Gomes de Amorim, fallou assim ao seu extremoso amigo, defronte
da inscripção tumular do romancista britannico Henri Fielding:
«Não leia isso que é tudo mentira; a unica verdade que ahi está é
o nome de Henrique Fielding, e ninguem o sabe ou não se lembram
d'elle. Pois foi um grande nome! Walter Scott chama a Fielding o pai
do romance inglez e la Harpe disse que o Tom Jones é o primeiro
romance do mundo. Apesar de tudo esta enorme tumba de pedra
encerra um punhado de cinzas que foram consideradas em quanto as animava uma multidão de paixões revoltas!... agora... quem sabe
que ellas estão ahi? O que o epitaphio não diz é que Henrique
Fielding viverá eternamente no Tom Jones, como Squire Western. O
que tambem não diz esse estupido epitaphio é que nem a Inglaterra
nem ninguem se lembrou da viuva nem dos filhos d'este homem
illustre, que morreram ignorados, depois talvez de terem vivido
como mendigos entre homens poderosos de estado que foram
condiscipulos e se diziam amigos de seu pai... Ah! mundo
enganador!...[26]»
Tristissimo lance, se os filhos de tão estremecido pai mendigaram!
Eram criancinhas quando elle morreu em Lisboa, no anno de 1754.
Forçado pela enfermidade a procurar o clima de Portugal, sahiu
d'entre as caricias e lagrimas da esposa e filhos no dia 24 de junho
de 1754.
A carta, que elle escreveu n'esse mesmo dia, e a ultima que
deixou sentida e chorada na terra natal, dizia assim:
«Hoje quarta-feira, 24 de junho de 1754, nasceu o sol mais triste
que eu vi em minha vida, e me já achou acordado na minha casa de
Fordhook. Cogitava eu que, á luz d'esse sol, veria, pela derradeira
vez, e diria o ultimo adeus, aos objectos queridos que eu amava
com a ternura de mãi. Não me tinham ainda callejado as doutrinas
da philosophia que me ensinára a supportar a dôr e desprezar a morte. Em tal situação, não podendo vencer a natureza, deixei-me
vencer d'ella, que me subjugou como se eu fosse a mais fragil
mulher. Pretextando consolar-me, induziu-me a ir gozar oito horas
na companhia das minhas criancinhas, e com certeza, o que ahi
soffri n'esse curto espaço excedeu todos os padecimentos da minha
enfermidade. Ao meio dia fui pontualmente avisado de que me
esperava a carroça. Abracei os meus filhos um por cada vez, e
embarquei no carro com alguma resolução. Minha mulher que
procedera com o verdadeiro heroismo de um philosopho, dado que
seja ao mesmo tempo mãi extremosa, seguiu-me com a filha mais
velha. Alguns amigos me acompanharam, e outros se despediram
de mim, elogiando a minha coragem com louvores mui pouco
merecidos.»
E não viu mais aquelle sol triste que se espelhára nas lagrimas de
seus filhos!
Que importava o céo, e o sol, e a fragrancia de Portugal áquelle
doente excruciado na solidão de Lisboa, por saudades dos seus,
atormentadas pela desesperança de voltar a vêl-os! Se lhe não seria
mais suave a morte, rodeado dos filhos, e com a mão já morta e
ainda quente nos labios d'elles!
Pouco mais de tres mezes viveu. Expirou quando as folhas
despegaram e fremiram seccas no chão, revolvidas pelo nordeste,
aquella toada sinistra que faz pensar no gemer final dos moribundos
a quem as primeiras nevoas congelaram o sangue no coração.
O seu ultimo dia foi o oitavo de outubro de 1754. Tinha quarenta e
oito annos.
Não alcancei noticia do destino que tiveram os filhos de Fielding.
Pobres sei eu que ficaram, porque seu pai, dado que os amasse
muito, ou lhes não grangeou, ou era já tarde quando lhes quiz
grangear o patrimonio.
Fielding achou-se uma vez com 1:500 libras, e uma propriedade
que rendia 200, no condado de Derby. Montou carruagem,
phantasiou librés de côres claras, que se renovavam de mez em
mez, hospitalidade de principe, lautos banquetes, saraus, caçadas,
a mais fidalga e desastrada imprevidencia, consoante ás tradições
de seu avô o conde de Denbigh, e de seu pai o general Edmundo
Fielding. No trajecto de tres annos, não tinha um palmo de terra,
nem um schilling do patrimonio de sua primeira mulher.
Depois, aceitou o lugar de juiz de paz, especie de commissario
subalterno de policia. Collocado em circumstancias proprias ao
intento, começou a estudar as ladroeiras e a perseguir os ladrões.
No entanto, escrevia novellas; e, gravando em eterno bronze o Tom
Jones, creou o romance em Inglaterra.
Se a experiencia lhe fosse mestra e inspiradora, poderia, como
escriptor, reparar as perdas de fidalgo. Tom Jones foi pago por 700
libras, e Amelia por 1:000.
Ás alegrias da gloria do ouro, seguiram de perto os rebates da
morte. A vida estava gasta nos proprios desperdicios. A alma, no
maximo esplendor das suas faculdades, requeria coração vigoroso onde fecundasse as grandes aspirações. Como prova da sua
immortalidade, o corpo deperecia, os pulmões deslaçavam-se, e ella
entre as regiões infinitas e as tristezas do quasi moribundo,
lampejava ainda os derradeiros clarões da Viagem a Lisboa, em que
Fielding chorou e sorriu, mesclando aos impetos da satyra os mais
desconsolados quebrantos da amargura.
Quando fordes ao cemiterio dos Cyprestes, attentai n'aquelle
tumulo, pensai em tudo que é triste; mas não lhe rezeis pela alma,
que essa está irremissivelmente condemnada. Henrique Fielding
não era dos nossos, não era catholico. Que pena!