Noites de Insônia, Oferecidas a Quem Não Pode Dormir (Nº 12)
Aos Diplomatas Descontentes
—Antes de lastimar-se, olhe para a sua barriga—disse o medico.
—É verdade!—disse pasmadamente o enfermo—é verdade! eu
não tinha reparado.
E ou por estar convencido ou por imitação, riu-se tambem com o
medico.
—
Este livro da Hygiene das dôres não é dos mais imprestaveis no
catalogo da bibliotheca medica. Ha molestias nervopathicas que se
modificam pela explosão das lagrimas, outras pelo espirro, e
algumas pelas convulsões do riso.
AOS DIPLOMATAS
DESCONTENTES
Se suas excellencias, os senhores secretarios e addidos de
ministros e embaixadores se queixam da parcimonia dos seus
ordenados—e accusam de mesquinhos os governos, indifferentes
ao esplendor dos enviados que representam este Portugal, tão
pomposamente representado em tempos antigos—bem sei eu onde elles podem, se quizerem, colher as provas de liberalidade dos
governos absolutos com que confundam a sovinaria dos governos
liberaes.
Um diplomata, que brilhou nos tempos prosperos, e me lembra,
como exemplo, é Duarte Ribeiro de Macedo. Dizem d'elle os
biographos, e particularmente José Maria da Costa e Silva, que
nunca enviado portuguez a Paris tão grandes honras recebeu na
côrte de Luiz XIV. Nove annos alli residiu o solerte diplomata,
ganhando de dia para dia a consideração de Portugal e os gabos
dos ministros com quem lidou.
Em 1668 nol-o descreve Costa e Silva melhorado na florente
carreira, já como enviado ordinario.
Não nos diz que ordenados Duarte Ribeiro recebe, nem que luxos
estadeia na côrte de França; mas do contexto de duas cartas suas e
ineditas, facil nos é conjecturar o despendio, o fausto, a ostentação
quasi reprehensivel d'aquelle representante, se o não quizerem
desculpar por elle ser algum tanto poeta.
Os periodos, que vão lêr-se, devem pruir de inveja os espiritos
descontentes dos senhores secretarios, addidos, e enviados de hoje
em dia; conformem-se no entanto, confrontando o Portugal de
Duarte Ribeiro de Macedo com o Portugal dos que hoje em dia o
representam, a jantarem em restaurantes de 2 francos por cabeça.
Vejamos as scintillações de estylo de um enviado ordinario na
embriagante atmosphera de Paris que o aureolava com as suas delicias. As cartas datadas em 1669 e 1670 são adereçadas ao
regedor das justiças, D. Rodrigo de Menezes.
«...... Dir-lhe-hei a v. s.ª como passo ha quatro mezes. Jeronymo
José da Costa me assistiu dous, mas porque a tardança dos
provimentos o fazia desconfiar, não quiz valer-me d'elle, e pedi
1:000 francos ao conde de S. Comberg, dizendo-lhe que era para
um emprego meu. Não me atrevi a escrever que achava este
recurso, para que não désse causa a maior descuido. Já estão
pagos estes dous credores; mas não estou livre de cuidar que
recahirei no mesmo achaque. Creia v. s.ª que não sei como acerto a
servir sua alteza[27] sempre entre os temores de que me ha de faltar
o necessario para o servir no mez que vem, se me acaba o
provimento. Verjus levou carta minha para o snr. conde da Torre. O
que n'ella pedia era que sua alteza me mandasse pagar ou recolher,
e confesso a v. s.ª que não posso servir com taes faltas. Se eu
disser a v. s.ª o que me tem custado os portes de Madrid, Hollanda e
Inglaterra ha v. s.ª de se admirar! Sua alteza, pela mercê que me
faz, a qualquer carta minha manda logo acudir: a falta está da parte
dos executores das suas ordens... etc.»
Se este periodo não deixa bem definida a situação brilhante do
enviado ordinario, ha outro mais explicito:
«... Eu me acho em tal estado que pedi um dia d'estes dez
dobrões emprestados. No ultimo de fevereiro se me acabaram as
mezadas, e entro em quarto mez de empenho. Até a carne para
comer me trazem fiada... Tire-me v. s.ª d'aqui ainda que seja á custa
da liberdade.»
D'estas e outras cartas reveladoras de opulencia, de alegria, e
patriotica vaidade no serviço de Portugal é que os biographos
deprehenderam que o desembargador Duarte Ribeiro, enviado
ordinario a Paris, alli fôra recebido com grandes honrarias (diz Costa
e Silva) poucas vezes tributadas a ministros estrangeiros, e tantas e
tamanhas que até fiavam d'elle a carne os magarefes parisienses.
E, como prova de que a sua abastança não era fineza, mas sim
obrigação da patria que lh'a dava, acrescenta o biographo que
Duarte Ribeiro, no longo prazo de nove annos que se demorou em
França, no exercido d'esta missão importante, promoveu com todo o
zelo e sagacidade de que era dotado os interesses e vantagens da
nação que representava.
Da comparação da opulencia de Duarte Ribeiro com a pobreza
dos diplomatas do nosso tempo, infere-se que elle comia vacca
fiada porque era um inepto, ao passo que os seus successores no
officio andam por lá saturados de trufas porque sabem manter
perspicacissimamente o equilibrio internacional.
[27] D. Pedro, o regente, irmão de Affonso VI.