Noites de Insônia, Oferecidas a Quem Não Pode Dormir (Nº 12)
D. João Iv e as Regateiras
Lida esta carta, que não elucida o mysterio, dir-se-ha que o
proprio José de Seabra ignorava o crime que lhe assacára o
aleivoso a quem o rei prestára credito. Observe-se que esta
ignorancia, se fosse dissimulada, seria tambem indecorosa; e, sobre
tudo, offensiva do ministro Mello e Castro, que não podia ignorar os
delictos do homem destinado a ser seu collega no ministerio. Como
quer que fosse, a memoria do ministro de D. Maria I está illibada. O
motor dos seus infortunios é insondavel. Estes segredos, vulgares
nos governos despoticos, se deixam laivos de infamia, é na
memoria dos monarchas.
D. JOÃO IV E AS REGATEIRAS
O que elle tinha sobre tudo era o talento dos solertes velhacos.
Primeiramente requestou com meiguices os fidalgos que, depois
de afagados, o acclamaram.
Assentado, mas não seguro, no throno, cerceou a confiança aos
fidalgos, e fez-se o idolo da canalha a fim de estribar-se n'ella,
quando a nobreza irritada se bandeasse novamente com Hespanha.
Assim lh'o aconselhára o seu ministro Lucena, em 1641; e, n'esse
mesmo anno, a plebe rodeou o rei ameaçado pelos nobres, e applaudiu o supplicio dos marquez de Villa Real, duque de
Caminha, conde de Armamar, D. Agostinho Manoel e outros.
Francisco de Lucena, que emprestára o cutelo para a degolação dos
traidores, foi mais tarde convicto de perfidia e degolado.
As cidadãs que mais se estremaram na celeuma das praças
contra os conspiradores, foram as regateiras da Ribeira,
capitaneadas por uma virago mulata, de alcunha a Maranhã. Esta
mulher privava muito com o rei. D. João IV mandava parar o coche,
quando a encontrava, dava-lhe a mão, e detinha-se em risonha
palestra com a regateira. Assim o conta o diplomata D. Luiz da
Cunha ao principe, que depois foi José I, em carta que corre
impressa: O snr. D. João IV... mandava entrar no estribo do seu
coche a celebre «Maranhã» que dominava todas as regateiras da
Ribeira para se fazer mais popular, pois costumamos dizer que a
voz do povo é a voz de Deus, o que nem sempre se verifica.
Outra regateira, não menos notavel em seu real beneplacito,
chamava-se Brigida d'Alfama. No dia 1 de dezembro de 1640 foi ella
quem de envolta com os petintaes levou de rojo o cadaver de Miguel
de Vasconcellos.
Brigida, quando soube que o marquez de Villa Real e seus
cumplices eram presos por traidores, pediu a qualquer poeta
cesareo que lhe escrevesse cousa que ella pozesse nas regias
mãos do seu soberano.
O poeta, provavelmente, trocando versos pelas colladas de
Brigida d'Alfama, escreveu uma Silva, com que a regateira se foi ao
paço mui aforçurada, e logrou, sem demora, entregar a D. João IV.
Eis a Silva:
Fôra descompostura
de grande atrevimento
(rei, que o mereceis ser de mil imperios),
sem ter prima tonsura
do poetico assento
tão cheio de grandezas e mysterios,
n'esta tosca Ribeira
cantar de vós a musa regateira.
Mas amor, que perdido
nos estanques passados
em que vendia carne aos tres estados
quiz, por vêr se melhora de partido,
ser cego de papeis, e a mim por musa,
que com sciencia infusa,
com quarta, ou gorgoleta
entre nos contubernios de poeta.
Amor é pois que abona
estas dôces reliquias de capona,
que Brigida começa
a entoar subida na tripeça,
por não ser o Bandarra,
que cantou cysne, o que aprendeu cigarra.
Chegue-se pois a bordo
com juizo pernialto,
para critiquizar, qualquer figura,
que aqui não canta tordo,
nem melro, que em contralto
esperdiça seu mal pela espessura.
Não ha aqui ruisenhor no bosque frio,
maganão de assobio,
e entre dôces avenas
ramilhete com voz, harpa com penas;
as minhas cantilenas
accentos são mais graves
do solidario inquisidor das aves,
que authorisado canta
compassos de guela por garganta,
hymnos á noite fria,
que viuva do dia
em anaguas se veste
bordadas de ouro sobre azul celeste.
Mas entremos no thema
e este breve intervallo
sirva de frontispicio do libello.
Escondida postema
em troiano cavallo
para tornar Lisboa um Mongibello
tinha a perfidia grega
de negra inveja, e de malicia cega,
mas lá de cima a intelligencia boa,
que ampara vossa authentica pessoa
quebrou as armadilhas
ás torpes sevandilhas
que bichinhos da terra
gigantes contra o céo sonhavam guerra;
e descobrindo o lusitano zelo
a ponta do novello
poz a cousa em estado
que quem vinha por lã, foi tosquiado.
A mim não me destouca
a [19] primaz alimaria,
que era astuta serpente;
nem a cabeça louca
da poesia varia
do marquezote simples, e innocente;
nem os mais inimigos,
que da coca tocados
da esperança vã de altos estados
deram com o cabedal por esses trigos.
Tu és só que me matas,
ó Cochambre em sapatas[20],
tu, que aguia real com louco assombro
praticavas com o sol hombro por hombro
e inquinaste a lysia bizarria
de tua tão vidrada fidalguia
em affrontoso thalamo
ferindo pactos com Baeça, e Alamo[21].
Quando por sorte, ou erro
da vinha quasi morta
as velhas cepas, a maleza occulta,
é medicina o ferro:
umas, justificada a fouce corta,
outras, prudente o enxadão sepulta,
e trocando-lhe a fórma
a vinha assim reforma
pai de familias destro.
Toma o ginete um sestro,
degenera em sendeiro
das leis da fidalguia
da sua paternal cavallaria
prudente o cavalleiro
cobre com atafaes torpes, e feios
o que havia de ornar jaez e arreios.
Não sois de engenho tardo,
entendei-me o remoque, que é bernardo.
O franco, que do carro
da deusa da batalha
as avenas agora modifica;
o inglez bizarro
com toda a mais canalha
que aos altares de Marte se dedica
a vêr este interlunho
todos estão com os olhos como punho.
Se podaes esta parra
julgarão que se anima
vosso valor para fazer vindima,
se a deixaes á solta, e se desgarra
dirá vosso adversario,
que possuis o reino por precario.
N'este transe, senhor, n'esta apertura
será fraqueza a minha piedade,
pouco valor a magnanimidade,
e falta de poder qualquer brandura.
Pese tudo a prudencia a ouro fio
entenda-me che pò, que me entend'io.
Não sei se o mesmo, se outro vate patriota, escreveu e distribuiu
primorosamente calligraphados alguns exemplares da seguinte
poesia—tão sanguinaria quanto boçal—quando ainda fumegavam
no cadafalso do Rocio os cadaveres dos conjurados, cujo supplicio
pedira Brigida de Alfama:
ÁS MORTES DE D. LUIZ DE MENEZES, MARQUEZ DE VILLA REAL, DE D. MIGUEL DE
NORONHA, DUQUE DE CAMINHA, DE RUY DE MATTOS DE NORONHA, CONDE DE
ARMAMAR, DE D. AGOSTINHO MANOEL, OS QUAES MANDOU DEGOLAR NA
PRAÇA DO ROCIO, EL-REI D. JOÃO O IV, E MAIS TRES, E UM BAEÇA,
ARRASTADOS, ENFORCADOS, E ESQUARTEJADOS TODOS POR TRAIDORES,
HOJE 29 DE AGOSTO DE 1641.
Ao marquez de Villa Real
Senhor marquez, eu quizera,
(testemunha me é Jesus)
de vos trocar o capuz
por sêda de primavera;
mas vossa condição fera
teve a culpa d'este mal;
que havieis de ser leal
apesar de mil traições,
quem tem tão nobres brazões
como os de Villa Real.
Ao duque de Caminha
E vós, duque, porque não
podéreis isto fazer,
mudando de parecer,
pois do marquez a tenção
era sómente traição:
e já que mal attentado
e com tão pouco cuidado
vos quizestes derrotar,
para tudo se acabar,
soffrei o ser degolado.
Ao conde de Armamar
Em theatro hão de parar
vinte e dous annos de idade,
e de Braga a falsidade
faz a taes transes chegar [22]! Mas se o conde de Armamar
olhára para seu tio
no dia de nosso brio
que jogava o esconder,
nunca viera a perder
em tal peça tal feitio[23].
A D. Agostinho Manoel
Um Manifesto fizeste
que foi manifesto a todos,
e agora com baixos modos
a tudo contradisseste.
Outro tambem compozeste
quando estiveste na côrte;
e, por não seguir o norte
com que por cá navegaste,
por indiscreto, ficaste
tambem manifesto á morte[24].
Ao mesmo
E já que de tal maneira
te quizeste manifestar,
sabe-te determinar
n'esta hora derradeira:
não sendo tal a cegueira
com que até agora viveste,
se no que compozeste
te mostraste declarado,
hoje que és degolado
sente o mal que te fizeste.
Ao perro do Baeça
Habito de Christo a vós?[25] Maldito seja o judeu
que lá na côrte o vendeu
tal como vossos avós!
Padecei tormento atroz,
neto de uma cominheira:
porque me dava canceira
quem não era a Deus fiel
que escapasse de um cordel,
escapando da fogueira.
A opulencia de Pedro de Baeça provinha-lhe da senhora com
quem casára. Os trinta mil cruzados não lh'os aceitaram a troco da
vida; mas lá foram depois, em nome da lei, buscal-os ao casal da
viuva. Reduzida a penuria extrema, esta mulher fugiu para a
Hollanda, onde morreu soccorrida por parentes que eram hebreus.
[19] D. Sebastião de Mattos, arcebispo de Braga.
[20] Talvez D. Agostinho Manoel de Vasconcellos.
[21] Jorge Gomes Alamo, e um filho, que entraram no Limoeiro, onde
foram atormentados, e nada revelaram. Os historiadores não se occupam em lhes averiguar o destino.
[22] Este conde era sobrinho do arcebispo de Braga.
[23] No dia da acclamação do duque de Bragança, o arcebispo de
Braga correu perigo de ser assassinado como amigo de Castella. E, não obstante as demonstrações hostis d'este prelado, D. João IV chamou-o ao seu conselho, afastando alguns fidalgos que jogaram a cabeça, tirando-o da cobarde inercia de Villa Viçosa.
[24] D. Agostinho Manoel de Vasconcellos, além de outras obras
estimadas, escreveu: Manifesto na acclamação d'el-rei D. João IV, 1641.