O Bem e o Mal
VII Felicidades
VII
Felicidades
O apparecimento de Ladislau Tiberio no alto da serra, que se arqueia sobre a casa de Villa Cova, foi saudado com o agitar de dous lenços brancos. O moço, segundo convenção feita, apeou, cortou uma haste de castanheiro, arvorou n’ella o seu lenço, e floreando-o de cima da cavalgadura, deu-se pressa na descida.
Quando tal viram, Christina, a rir e a chorar, lançou-se aos braços de Peregrina, e foram ambas ajoelhar diante do oratorio. Como a alegria as não deixava exprimir palavra, era-lhes preciso fallar em silencio com Deus.
Meia hora depois, entrava no quinteiro Ladislau, e as duas senhoras, arrebatadas como se a boa nova igualmente as deliciasse ambas, correram a ouvir a confirmação do que disséra a bandeira branca.
—É certo?—exclamou Christina.
—É certo, minha senhora.
—Deixa-me ir um criado a S. Julião dar parte a Casimiro?—tornou ella.
—Vamos logo todos; mas, se v. ex.ª quer, mande o criado já.
—Então não: vamos todos... quero eu dar-lhe a nova. E meu pai está bom? e minhas irmãs?
—Não vi suas irmãs; seu pai está inquieto; mas, como tem bom coração, Deus o socegará.
Abraçaram-se outra vez as duas amigas, e Ladislau, entre risonho e lagrimoso, gosava o não menor quinhão de sua alegria.
Fez-se logo noute, e esperaram que nascesse a lua para sahirem ao ingreme e despedrado caminho da igreja.
Por volta das dez horas, chegaram á lapa da Crasta, no viso da serra interposta, e lobrigaram um vulto.
—É elle!—exclamou Christina, lançando-se da egua.—É meu marido!
Casimiro Bettancourt correu ao encontro d’ella, e murmurou:
—Que dizes, Christina?
—O pai consentiu!—disse ella abafada pela commoção.
E Casimiro, desprendendo-se dos braços de Christina, foi cingir com o peito o sereno Ladislau, que ficara segurando as redeas da egua.
—Meu salvador!—exclamou o moço.
—Seu amigo, como amigo de todos os infelizes que amam!— disse Ladislau e ajuntou logo:
—O senhor que está aqui é que meu cunhado melhorou.
—O sr. vigario veio confessar um moribundo na aldeia, que está ao fundo da serra, e eu, com licença d’elle, vim até aqui para ver o fumo da casa de Villa Cova.
—Bem!—tornou Ladislau.—Vamos.
—Eu vou a pé—disse Christina—dá-me o teu braço, Casimiro.
—Ámanhã—atalhou Ladislau—ámanhã se encostará ao braço de seu marido, minha senhora.
Christina córou; e Casimiro tomou as redeas da egua para ella saltar ao albardão.
Ouviu-se um prolongado assobio como o dos caçadores em montados: era o vigario que chamava o hospede. Casimiro respondeu, e Peregrina, puchando do peito, quanto pôde, a voz, gritou:
—Cá vamos todos.
E, como todos rissem do agudissimo falsete da jubilosa Peregrina, o vigario percebeu logo a impaciente felicidade que não pôde esperar pelo dia seguinte.
E subiu a ladeira até encontrar o grupo.
—Abençoou Deus a tua resolução, já vejo!—disse padre João Ferreira ao cunhado.
—Abençoou: pódes tu abençoal-os, meu irmão.
E os dous ficaram alguns passos atrazados, para irem conversando sobre os successos de Pinhel, e os futuros em que os noivos não pensavam, nem era generoso dizerem-lh’os.
Ninguem dormiu, n’aquella noite, na residencia de S. Julião. O vigario sahiu, ante-manhã, a solicitar licença do arcipreste para casar os contrahentes sob sua responsabilidade sem o previo pregão de banhos. Obtida, voltou á egreja, e ouviu de confissão os desposados; e, em seguida á ceremonia da communhão, ligou-os, abençoou-os e disse-lhes:
—Ficam sendo os dous uma só alma para as alegrias e para as provações. Deus voltará a sua face divina d’aquelle dos dous que attribuir ao outro o seu infortunio; e nós, os amigos de ambos, verteremos lagrimas de sangue se os virmos infelizes, infelizes á mingua de conformidade e fortaleza. Deus os tenha de sua mão.
Celebrado o matrimonio, almoçaram na residencia, e sahiram para Villa Cova, onde Brazia, azafamada com o jantar, e duplamente ditosa com o segundo casamento, dava ares de não ter o miolo fixo, no dizer dos outros creados.
A felicidade d’este dia não tem historia: ou se a tem, conte-a o leitor que a experimentou. Mas o meu leitor, casado por paixão, precisamente foi obrigado a attender aos comprimentos de amigos e parentes, uns a louvarem-lhe a noiva, outros a louvarem-n’o a si, estes a brindarem-n’o com vinho, aquelles a perguntarem-lhe pelo dote da mulher: barafunda esta que o não deixou sentir a sua felicidade.
Ora, na casa de Villa Cova, á mesa nupcial, além dos noivos, estavam o vigario, os donos da casa, o carpinteiro de Pinhel, e a velha Brazia. Os noivos repetiram em miudos a historia dos seus amores, os medos, as tristezas, os jubilos, o intenderem-se com a linguagem pactuada das flores. N’este ponto, Brazia ria muito e dizia que os namorados eram o peccado. As espertezas de José-pastor foram contadas por Christina com amostras do bem que queria ao rapasinho. Pediu ella ao marido que se não esquecesse nunca do muito que lhe deviam, e lembrou-se de o mandar estudar para padre se algum dia fosse remediada de bens de fortuna.
—Hade sahir bom padre!—atalhou a ridentissima velha.—Se assim souber espreitar as ciladas do cão tinhoso, muitas almas hade ganhar p’ra Deus!
Com estas e outras festejadas palestras passaram o dia. Ao escurecer, tornou o vigario á sua igreja, com promessa de voltar no dia seguinte, a fim de se conversarem cousas muito importantes.
E nós vamos já ao ponto d’estas conversações decorridas á sombra d’uns altos castanheiros, que pareciam ter alli ficado da idade de ouro para darem testemunho de um feito d’outras eras.
—Diz tu o que tens a dizer, Ladislau—estas palavras proferiu o vigario, logo que as duas senhoras se assentaram na grossa e retorcida raiz d’um castanheiro, e Casimiro á beira d’ellas.
Ladislau voltou-se para seu cunhado e disse:
—Porque não has de ser tu?
—Quem melhor exprime a idéa é quem dignamente a concebeu.
—Pois fallarei—tornou o moço: deteve-se breve espaço, e disse— o sr. Casimiro Bettancourt recebeu educação e tem espiritos que não são para vida aldean, e d’esta aldeia a mais desacompanhada e triste que ser póde. Isto é bom para mim, que nasci cá, e por todas essas pedras e arvores tenho cobrado um affecto de solitario, que todo outro viver se me affigura intoleravel. Que fará o sr. Casimiro, passados estes primeiros dias, em tal solidão? Perguntará a si mesmo: «Que faço eu aqui? Em que empregarei as minhas forças? Porque molde talharei o meu futuro?» Quando assim se interrogar, a resposta será uma melancolica indecisão, com vêr cerrados os caminhos para onde o animo o impelle. Vamos vêr se podemos abril-os para pouparmos o nosso Casimiro á desconsolação de cruzar os braços e dizer: «não sei!» O nosso amigo contou-me que, no collegio, estudava mathematicas, para o fim de seguir a carreira das armas.
—É verdade—disse Casimiro.
—Pergunto eu se lhe agrada recomeçar ou continuar os seus estudos, e ser militar.
—Desejava-o, tenho-o desejado sempre; mas a vida militar desprotegida é má; e, nas minhas circumstancias, o estudar foi e é impossivel agora.
—Não é. O meu amigo assenta praça, e requer licença para estudar em Lisboa, Porto, ou Coimbra. Tenho estas informações de meu cunhado. Eu offereço-lhe os meios precisos para se alimentar com sua senhora em qualquer das cidades que escolher, e assim se habilita para alguma vez me pagar o adiantamento que fôr preciso.
—Mas o meu dote...—interrompeu Christina, com fidalgo animo.
—Não se falla no seu dote—retorquiu Ladislau.—O sr. Ruy de Nellas deu o consentimento; mas não dá dote.
—O dote de minha mãi...—tornou ella.
—V. ex.ª não pede dote nenhum: eu disse a seu pai que a sustentação de sua filha e marido não corriam á obrigação d’elle. Está desobrigado o sr. Ruy de Nellas. Em resumo, o sr. Casimiro quer ser homem, quer a sua independencia, quer empregar dignamente as faculdades, que Deus não dá para ocios ou desperdicios. Resolve-se a abraçar a minha lembrança?
—De toda a vontade, e com o mais reconhecido coração. Diz-me uma voz intima que eu poderei desempenhar-me.
—Tambem a mim m’o diz—ajuntou Ladislau.
—Desempenham-se todos os que trabalham—ajuntou o vigario.— O principal estimulo que o sr. Casimiro leva para o seu engrandecimento é querer mostrar a seu sôgro que se fez homem.
—Quem me faz homem é este anjo! exclamou Casimiro, abraçando o marido de Peregrina, a qual já estava chorando, quer fosse a proxima ausencia de Christina, quer o enthusiasmo da boa acção de seu marido a enternecesse a lagrimas.
Volvidos quinze dias, iam sahir de Villa Cova os noivos com destino a Coimbra. Ao despedirem-se, como Ladislau levasse á mala de Casimiro o dinheiro contado para as despezas do primeiro trimestre, o hospede acudiu dizendo que tinha intactos os duzentos mil réis que seu tio lhe dera. Mestre Antonio, que fôra assistir á despedida do sobrinho, resistiu ás instancias de Ladislau, não querendo reembolsar o dinheiro, e levou a sua liberalidade ao ponto de offerecer á esposa de seu sobrinho uns brincos de ouro, que elle chamava cabaças, os quaes tinham sido de sua mulher. Liberalidade dissemos; e, com tudo, o valor real do presente orçava por dezeseis tostões! Assim era que elle amava muito aquella memoria, e o desprender-se d’ella foi o mais que podia fazer a sublime rudeza do coração do operario! Dera a sorrir os duzentos mil réis, e foi, ás escondidas, enchugar as lagrimas, quando se viu privado das arrecadas de sua mulher! Ó santos corações do povo! mas do povo das montanhas, direi; do povo, que ainda não sahiu á praça vociferando que é rei porque é povo.
Christina tirou das orelhas uns brincos de preço, que usava em casa de seu pai, e adornou-se com os modestos, que lhe dera o artista; depois, voltando-se a Peregrina, disse-lhe:
—Acceitas uma lembrança da tua amiga pobre, da amiga que vai subsistir dos teus beneficios? E, tomando-lhe a cabeça contra o seio, obrigou-a suavemente a receber os seus brincos, e beijou-a em ambas as faces.
—Acceita, Peregrina—disse Ladislau—que a tua senhora e amiga vai mais enfeitada com a dadiva do pobre.
Partiram, acompanhadas até grande distancia pelo vigario, irmã, Ladislau e Brazia. Mestre Antonio não houve rasões que o demovessem de ir a pé ao lado de Christina, até ao Porto.
Como pernoitassem n’uma estalagem da aldeia de Pena verde, encontraram um feitor da casa de Ruy de Nellas, acompanhando duas cargas de bahus. O feitor, pasmado do encontro, não atinava a decidir-se se devia cumprimentar ou desprezar a filha de seu amo. A menina porém, que se não julgava despresivel, perguntou ao seu antigo creado d’onde vinham aquelles bahus.
—Do Porto—disse breve e seccamente o conductor.
—Que levam?
—O enxoval da sr.ª morgada.
—Pois a mana Guiomar casa?
—Casa á vontade de seu pai—tornou o feitor, carregando de censura as palavras, e collocando-se de esguelha.
Casimiro Bettancourt, que presenceara o dialogo, desceu ao pateo da estalagem, onde estava o feitor; travou-lhe das lapelas da jaqueta, e disse:
—Olha de frente para a filha de teu amo, e responde-lhe.
—Já respondi—disse o homem um pouquinho inquieto da segurança da sua pessoa.
Casimiro perguntou á sobresaltada senhora o que queria ella saber do seu creado.
—Nada...—balbuciou Christina, temerosa do resultado.
—Descobre-te—disse elle ao creado.
O feitor tirou o chapéu com as mãos ambas.
—Diz áquella senhora com quem casa tua ama, e responde ao mais que ella te perguntar.
—Casa com o sr. D. Sueiro, de Miranda, que a foi pedir, e tambem ia pedir a sr.ª D. Christina para o sr. D. Alexandre.
—Deixa-o, deixa-o!—disse Christina.
—Levas as duas orelhas—ajuntou Casimiro, largando-o—porque és creado do sr. Ruy de Nellas. Tu consideras menos a filha de teu amo do que eu os seus lacaios.
E, tornando ao quarto de Christina, disse-lhe risonho:
—Que excellente casamento te fiz perder!...
D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça!
—Pois sim, disse ella muito de riso e mimo, mas se tornas a assustar-me, arrependo-me de não ter respondido ás cartas do idiota Alexandrinho... que vamos encontrar em Coimbra... Não sabes que elle está em Coimbra?
—Sabia, e então? Dar-se-ha caso que a vergontea ostro-goda me queira cahir sobre as costas? É preciso temer os Vito Alarcões!... Deus nos defenda!
Festejou ella muito os tregeitos de medo comico com que Casimiro abrenunciou o rival temeroso, e não pensaram mais n’isso.
Tomou o estudante uma casa menos de modesta, fóra de portas em Santo Antonio dos Olivaes. Em redor da casa fechava-se o arvoredo de alamos, platanos e choupos. A mobilia era rigorosamente academica: as conhecidas cadeiras como inventadas para descadeirar os occupantes; a meza de pinho pintado de verde; a tarima de espaldar de taboado com silvas de flores amarellas, imaginarias, e superiores ás mais inventivas das florestas americanas. Tudo isto, porém, e o restante, que pouco mais era, limpo, repintado, e lustroso alegrava a casinha. Depois era no mez de abril, o abril de Coimbra, regorgeado de aves, arrelvado de boninas, copado de sombras, e harmonioso de murmurios. E, depois, o amor, a paz, o descanço de tamanhas batalhas, aformosentavam a vivenda de Santo Antonio dos Olivaes, o amor, por sobre tudo, alindava, encantava, e vestia da innocencia e das alfaias do eden aquelle silencioso abrigo de duas almas fugidas ao mundo, e recolhidas em si e em Deus.
Principiou Casimiro a recordar os seus passados estudos, emquanto corria aquelle anno lectivo, para no immediato se matricular. Raras vezes ia á cidade dar conta ao leccionista dos seus estudos preparatorios. Como o tempo lhe sobejava, lia ou ouvia ler Christina, que dava aos livros unicamente as horas feriadas das suas occupações domesticas. Raro dia, deixavam de escrever algumas linhas a Ladislau e Peregrina, dizendo aquelles nadas que são um nunca findar entre pessoas que se presam.
Desceram, uma tarde de junho, ao Mondego, e subiram á beira da margem esquerda. Paravam a intervallos para ouvirem o rumoroso suspirar da folhagem, e o soido da limpha sobre que os salgueiros se dobravam a remirar-se no espelho limpido.
Christina inclinou a face ao seio de seu esposo, e murmurou tão de leve, que parecia afinar a voz pelo som d’aquellas harpas eolias da ramagem:
—Como somos felizes, ó Casimiro!...
—E eu cuidava que não havia felicidade n’este mundo! disse elle, comprimindo-lhe a face com a mão tremente de meiguice.
—Como não ha de havel-a para os que amam o Senhor, e não fazem mal ao seu semelhante!
—Eu devia esperar este bem, Christina; porque fui muito desgraçado... Não fui?
—Eras... mas, desde que eu te amei...
—Fui muito mais desgraçado, filha... Então é que eu me vi pobre, desvalido, sem pai, sem mãi... Que palavra, Christina!... MÃI!... Nunca os meus labios proferiram esta palavra no seio de uma mulher! Nunca, nem na minha desamparada orphandade, correu para mim uma mulher chamando-me filho!... Como pude eu ser privado das caricias de minha mãi!? Como pôde ella abandonar-me, e esquecer-me!? Porque não disse meu pai se ella era morta?!...
—Ahi estás tu a entristecer-te!—atalhou a esposa—Não quero!... Vem cá! Olha, Casimiro, eu chamo-te filho, filho de minha alma, do meu coração! Amo-te mais que todas as mãis! Se alguma vez chorares, eu te consolarei, com um carinho, que as mãis não sabem. Defender-te-hei com mais coragem que ella. Morrerei por amor de ti, porque és tudo que eu tenho. Se Deus me der filhos, heide amal-os menos que a ti, meu amado esposo!... Vês-me tu a mim triste por ter deixado pai e irmãs?... É verdade que meu pai aborrecia-me e minhas irmãs desprezavam-me mas por amor de ti, Casimiro, por amor de eu te querer dar esta felicidade...
—Perdôa-me!—disse elle, beijando-a com estremecimento—Não me lembres o que soffreste, que eu cuidarei que me argues de ingrato. Olha que a minha tristeza é suavissima, ó minha filha. Lembrou-me meu pai, e os seus ultimos affagos; tive saudades de minha mãi, que nunca vi; são uns desejos, que parecem vaticinio de que hei de ainda encontral-a. Vê tu que loucura, que poesia! É este sitio, estas arvores, e a serenidade do céu que me fazem scismar assim... As pessoas, que têm a sua alegria circumscripta ao curto espaço da sua casa, não devem vir meditar nos lugares em que o espirito carece de voar ás raias do infinito. A tristeza está n’ellas, filha. O espirito retrahe-se sobre si mesmo, e doe-se da sua fraqueza. O que é ver ir aquella ave pelo azul do céu fóra, e dizer: «onde irás tu?» É desejo de romper esta rêde de ferro que nos cerca, rasgar os fechados horisontes da alma, e sondar em que mundo irei com o teu espirito perpetuar a minha existencia. E a devanear n’isto, accordam-se na alma todos os enlevos e saudades... Então vejo a sombra de minha mãi e de meu pai, a passarem, a fugirem, como sonhos. Ditoso é o meu accordar, porque te encontro, ó anjo da minha vida!...
E, dizendo, abraçou-a soffregamente, e bebeu-lhe as lagrimas, exclamando:
—É assim que minha mãi devia chorar, quando me lançou de si!...
—Mas eu—exclamou Christina—aperto-te ao meu coração, filho!