O Bem e o Mal

Camilo Castelo Branco · Capítulo 10 de 22

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O Bem e o Mal

IX D. Alexandre é espalmado

IX

D. Alexandre é espalmado

 

Decorreram dez mezes sem successo digno de menção, a não ser o nascimento do primogenito dos bemaventurados de Villa Cova. Recebeu na pia baptismal o nome de seu avô, sob cuja egide os paes o offereceram. Foi padrinho o vigario, e madrinha D. Christina, representada pela velha Brazia, a creada octogenaria, que já não morre sem o contentamento de pôr as mãos no neto do santo, que ella conhecêra creança. E, com este espiritual parentesco, pagou Ladislau os setenta annos de companhia da sua serva.

Casimiro Bettancourt cursava o primeiro anno mathematico, e era furriel de infanteria. Continuava a viver retirado da mocidade, excepto d’aquelles que o procuravam como auxiliador na interpretação de suas lições.

Um d’estes disse-lhe, uma vez, que, no curso de leis, andava um rapaz provinciano, que detrahia publicamente Casimiro Bettancourt.

—Que diz elle de mim?—perguntou Casimiro.

—Miserias...

—Que são miserias?

—Diz que tu és sobrinho de um carpinteiro.

—Isso é verdade: sobrinho de um honrado carpinteiro. Que mais diz? Vamos ás miserias...

—Que roubaste a senhora com quem és casado.

—Tambem é verdade. Fugimos para nos casarmos. Que mais?

—Diz que pagaste assim indignamente os beneficios que devias ao pai d’ella.

—Não procedi bem; mas todo o homem de coração me ha de absolver. Como não a amei nem a raptei por ella ser rica, e não vivo nem pretendo viver do patrimonio d’ella, a minha dignidade é invulneravel.

Isso não diz elle... mas eu ainda te não disse quem elle é...

—Já sei: é D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça.

—É isso.

—Que diz elle em contrario do que eu affirmo?

—Que tu vives do producto das joias, que tua senhora subtrahiu ao pai.

—Mente!—disse serenamente Casimiro, e accrescentou:—Não quero ouvir mais. Ouviram-lh’o muitas testemunhas?

—No botequim da Rua-larga. Eramos mais de vinte rapazes, e passavas tu n’essa occasião.

—Se desejas servir-me...

—Se desejo!... Quebro-lhe a cara, se isso te apraz.

—Não, meu amigo. Eu sou um homem como elle. O que eu te peço é que tomes nota das pessoas que ouviram a calumnia, para mais tarde pedires a presença d’ellas.

—Facilmente: eu te digo os nomes... Eram...

—Escuso. Basta que tu saibas. São horas de estudarmos a lição.

E abancaram tranquillamente.

Volvidos oito dias, Casimiro Bettancourt disse ao condiscipulo:

—Amanhã é sabbado. Peço-te que reunas ás seis horas da tarde, no botequim da Rua-larga, os teus amigos, caso aconteça lá ir D. Alexandre de Aguilar.

—Vai sempre: das oito horas em diante está embriagado.

—Com tanto que não o esteja ás seis...

—Isso é raro. Quando o está ás seis, é porque já se tinha embriagado ás tres.

—Optimo! Espera-me lá.

Este dialogo correu na alamêda fronteira á casa. O academico escondia-se de sua mulher.

No seguinte dia, disse Casimiro a Christina:

—Depois de jantar, vou ver um condiscipulo doente. É a primeira tarde que passas sem mim, filha.

—É verdade!...

—Mas não has de soffrer, não? A saudade é uma companhia.

—Dizes-me isso com ar tão triste, Casimiro?

—É a saudade, minha querida!

—Pois não vás.

—Prometti ir; mandei-lhe dizer que ia...

—Deixa-me ver os teus olhos...—exclamou ella aproximando-se de golpe.

—Que tem os meus olhos?!

—Lagrimas! tu choras, Casimiro!

—Não...

—Um segredo! um segredo para a tua Christina!

—Serei eu um fraco!—disse elle como a si proprio, imaginando-se sósinho.

—Fraco por chorar? Se não tens razão, és... mas tu, Casimiro, nunca assim te vi!... Não sahirás hoje mais... juro-t’o.

—Não jures, filha, que hei de sahir...

—E dizes-m’o assim com esse imperio!?

—É a honra...

—A honra!... Tu não vaes ver um condiscipulo doente.

—Não. Menti-te, Christina. Perdôa-me.

—Pois que é?!—atalhou ella sobresaltada.

Casimiro relatou exactamente o facto descripto, mostrou umas cartas recem-chegadas de Villa-Cova, e perguntou:

—Devo ir, Christina?

—Vai!—exclamou ella—Vai, já que eu sou mulher!

E momentos depois, porque era mulher, abraçou-se n’elle, e soluçou:

—Ó Casimiro!...

—Quê, filha?

—Sê prudente, sim?

—Recommendas-m’o a mim?! Não viste que eu soffri oito dias, em silencio, a affronta!?

E desprendeu-se dos braços d’ella.

Entrou no botiquim da Rua-larga com tão pacato semblante, como se ali não fosse para mais que aligeirar as horas felizes da mocidade.

Os que o conheciam encararam em D. Alexandre de Aguilar.

O fidalgo de Miranda não conhecia Casimiro. Viu aquelle sugeito fardado de infanteria 6, e disse:

—Isto é já botiquim de soldados?

—É um academico: o primeiro premiado de mathematica.

—É aquelle—ajuntou outro—de quem tu contaste as proezas casamenteiras.

—Ah! o sobrinho do mestre Antonio! lá me quiz parecer que devia ser furriel.

Isto fôra dito, muito á puridade, aos circumstantes, que não se riram.

O amigo de Casimiro aproximou-se da meza e disse-lhe:

—Estão todos.

—D. Alexandre como visse esta aproximação, ponderou:

—Elles conhecem-se?!... Quem é este academico, que lhe falla? este que chamam Vilhena?

—É filho segundo de uma casa distincta de Braga.

—Cuidei que fosse filho primeiro de algum chapeleiro de Braga...

Casimiro pagou a chavena de café, ergueu-se e foi a passo mezurado á banca de D. Alexandre.

O fidalgo encarou n’elle, e logo nos circumstantes, como quem diz: «que quer o tolo?!»

E os academicos que, formavam cerco á meza, abriam fileiras ao lado, arrastando os bancos.

Bettancourt fez um gesto cortez aos rapazes, e disse:

—O senhor D. Alexandre de Aguilar conhece-me?

—Se o conheço...

Casimiro fez um gesto de cabeça affirmativo.

Conheço-o de o ver agora ahi, e dizerem-me quem o sr. é.

—Que sabe o sr. da minha vida?—tornou Casimiro.

—Que sei da sua vida?!

—Dispensemos o ecco, sr. D. Alexandre. Quem pergunta sou eu. Que sabe da minha vida?

—E se eu lhe disser que não lhe dou satisfações? Agora sou eu quem pergunta.

—Respondo-lhe que o sr. é um infame, e depois arranco-lhe a lingua.

O fidalgo Alarcão Parma d’Eça ia a dizer o quer que era, e engasgou-se.

Casimiro Bettancourt continuou no mesmo tom de serena conversação:

—Disse v. ex.ª que eu era sobrinho de um carpinteiro. Disse verdade. Que eu raptara uma senhora, cujo marido sou. É certo. Ajuntou que eu estava vivendo das joias, que minha mulher roubára a seu pai. Mentiu. Vejo que esta palavra não inquieta grandemente o sangue azul de v. ex.ª Ainda assim, quero imaginar que o sr. D. Alexandre me pede provas da sua aleivosia.

Tirou Casimiro do bolço interno da fardêta duas cartas. Abriu a primeira, lançou-a sobre a meza, e disse:

—Conhece essa lettra?

—Conheço—respondeu D. Alexandre—é de meu tio Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo.

—Pai de minha mulher—ajuntou Casimiro, voltando-se aos academicos circumpostos; e fallando para elles, continuou:

—Como eu soubesse que o sr. D. Alexandre me alcunhava de receptador dos furtos de minha mulher, escrevi a um homem de bem, pedindo-lhe que se apresentasse ao sr. Ruy de Nellas, meu sogro, perguntando-lhe se sua filha, no acto da fuga, subtrahira de casa algum objecto de valor, e o declarasse por escripto. Esta segunda carta é a resposta da pessoa encarregada; e diz:

«O correio só dá tempo a dizer-lhe que o sr. Ruy de Nellas, apenas me ouviu, e escreveu a declaração que contheuda remetto, e mostrou-se espantado de que a calumnia propale o que elle nunca disse; e de o não ter dito m’o jurou pela alma de sua mulher, e honra de suas filhas. Sem mais. Seu amigo, P. João Ferreira.»

—Leia-a agora o sr. D. Alexandre a declaração de seu tio.

—Leia-a o senhor!—bradou com grande esforço de falsa coragem o calumniador esmagado.

—Leia-a!—tornou Casimiro com um lançar de olhos fulminante.

O fidalgo tomou o papel nas mãos convulsas, e deixou-o logo cahir.

—A covardia cega-o!—disse Casimiro sorrindo—Algum dos cavalheiros tem a bondade de ler?

O mais chegado de D. Alexandre leu o seguinte:

 

«Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro

que minha filha Christina Elisiaria, não subtrahiu de minha casa valor algum, nem os seus proprios vestidos e adresses, quando fugiu para casar-se com Casimiro Bettancourt. E por isto ser verdade, mui espontaneamente, e com juramento aos santos Evangelhos o declaro agora e sempre. Pinhel, 22 de abril de 1839.—Ruy de Nellas, etc.»

 

—Está reconhecida a assignatura?—disse Casimiro.

—Está—respondeu o estudante, que lera—E quando não estivesse já o sobrinho a tinha reconhecido.

—Isso não valia nada—tornou o furriel.—Nenhum dos cavalheiros prestaria fé ao reconhecimento do sr. D. Alexandre de Aguilar. Declare, pois, o sr. D. Alexandre que mentiu infamissimamente e offereça a cara para que todos lhe cuspam n’ella.

O fidalgo ergueu-se, e bramiu:

—O senhor!...

—Que mais?—perguntou Casimiro.

—Insulta-me?

—Não. Obrigo-o a sentar-se, que me incommoda vel-o de pé.

E, dizendo, baixou-lhe no alto da cabeça uma palmada, que effectivamente o fez apoiar-se sobre as ilhargas.

E, voltando-se com rosto faceto aos academicos disse:

—O espectaculo foi feio, que o miseravel não dá sequer um soffrivel truão com medo. Agradeço a attenção dos cavalheiros, mórmente com o sobrinho de um carpinteiro, que, por não ser nobre tem vontade de ser honrado.

Sahiu do botiquim acompanhado de quasi todos os estudantes. Os poucos, que ficaram como petrificados, por não saberem que dizer a D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça, retiraram-se cabisbaixos.

Casimiro estugou o passo, caminho de Santo Antonio dos Olivaes, e encontrou a esposa anciada, fóra de casa.

Contou-lhe, sem fatuidade, o essencial do acontecido, e reservou o facto da monumental palmada na cabeça. O delicado moço julgou melindrar sua mulher, dizendo-lhe que castigára com a mão um seu parente.

Foi o successo estrondosamente contado e applaudido em Coimbra, tanto porque era de razão applaudil-o como por ser no tempo em que a mocidade academica, popular e burgueza na maxima parte, desadorava os fidalgos castellãos, e não perdia lanço de os metter a riso.

D. Alexandre, no dia seguinte, foi para Miranda, em busca de romanso e solidão para pensar na vingança de covarde, que não podia já ser de outra natureza.

Vamos no rasto d’este reptil.

O extraordinario da chegada do estudante, quando as aulas estavam abertas e os actos não começados, devia ser de algum modo explicado a D. Sueiro e á parentella alvorotada. Contou elle que tinha tosse; e o caso foi que tossiu. O medico da casa apalpou-o, auscultou-o, e decidiu-se pela tosse, em concordancia com a faculdade medica de Coimbra, que mandára a ares patrios o mancebo, ameaçado de coisa séria. Em verdade, a pertinacia da embriaguez reduzira D. Alexandre a um viver morbido, asthenico, e analogo ao do ethico; e já não admira que a palmada capital do sadio Casimiro o fizesse sentar.

Suppunha D. Sueiro que o casamento de Christina era muita parte na doença do irmão, e curava de remediar o mal de amor com os amores novos da cunhada que tinha em casa, galante menina, Mafalda de nome. Era a vigessima nona Mafalda n’aquella familia de Pinhel. Entrando n’este numero a santa infanta Mafalda, fundadora do mosteiro de Arouca, irmã de D. Affonso II, que tambem era da familia, pelos modos, e sem duvida nenhuma.

Se a menina o amava não sei, nem averiguei, por ser demais na pauta d’este escripto; o que me consta é que D. Alexandre, tão adentrado estava com os seus calculos de vingança, que não dava pela prima, nem se lisongeava do seu amor.

A unica pessoa de Miranda, com quem se abria o fidalgo, era um desertor de cavallaria, muito dos Alarcões, especie de molosso da casa, sob cujas telhas estava a seguro.

As intelligencias de D. Alexandre com o desertor são obvias; curava de comprar-lhe o braço vingador; mas, tão em segredo, que nunca viesse á luz a sua segunda ignominia.

Conchavaram-se de barato. D. Alexandre daria ao desertor basta quantia a transportal-o ao Brasil, e o desertor, em mesquinha paga de tamanho beneficio, mataria Casimiro Bettencourt.

N’este accordo, pediu D. Alexandre ao morgado que lhe deixasse levar como creado o desertor, visto que a plebe academica se bandeara contra os estudantes fidalgos e devotos da causa vencida. Annuiu promptamente o irmão, contente de vêr que D. Alexandre recobrava côres, e olvidara Christina.

Abertas as aulas voltou o moço á Universidade, com o seu vingador, por tal arte disfarçado, que dava de si um rustico cavallariço, incapaz de fazer mal a folego vivo.

Os amigos dos annos anteriores fugiam-lhe, e novos nenhum lhe apertava a mão. O opprobio do fidalgo era ainda materia de ociosos, revivido com a sua presença.

Preoccupava-o a traça de fazer conhecido Casimiro ao seu matador: cousa não facil na multidão de mil e tantos moços, entre os quaes raro se via o solitario de Santo Antonio dos Olivaes.

O solicito confidente de D. Alexandre tomou sobre si o encargo de conhecer Casimiro, e esperava tiral-o pelas feições que lhe vira em Pinhel, quando elle era mocinho de quinze annos.

N’este intento, foi como de passeio a Santo Antonio dos Olivaes; e, logo por fortuna, ao dobrar o combro de uma azinhaga, viu um sujeito de farda militar com uma senhora pelo braço.

—Cá está o homem!—disse entre si, e deteve-se a examinal-o, sem attentar em Christina, que o examinava a elle. Casimiro, por sua parte, nem deu tento do reparo do caminheiro.

Ora, Christina tinha visto aquelle homem em Pinhel, recebêra da mão d’elle uma carta de D. Alexandre, e lembrava-se de ter ouvido dizer ao primo D. Sueiro que aquelle soldado de dragões era o seu guarda fiel, e com elle iria ao inferno atacar Satanaz.

O desertor, porém, olvidou-se-lhe Christina, e nem por sombra imaginou ser reconhecido.

A senhora estremeceu... e duvidou. Já elle se havia sumido, quando ella disse:

—Acautella-te, meu filho!

—De quê?

—Vi agora um creado dos de Miranda... Não póde deixar de ser elle... Veio com o Alexandre, e anda a espreitar-te.

—Que tem isso, Christina?

—Tem, que elle é um malvado... Ai meu Deus! d’aqui em diante não tenho momento de socego! Queres que nos vamos embora d’este ermo? Aluga casa na cidade. Pódes ser assaltado no caminho. Tu és valente, meu Casimiro; mas d’uma traição ninguem se livra!

—Os prevenidos livram-se—atalhou Casimiro.—Não vejo causa para mêdo; mas, se has de viver inquieta, mudemos, filha.

—Sim: faz-me isso, que é annos de vida que me poupas!

Andava Casimiro em procura de casa, quando recebeu a seguinte carta de Ladislau:

«Meu compadre. Vai ser surprehendido com a minha

 

petição, á qual subscrevem minha mulher e meu cunhado. Logo que esta receber, metta-se a caminho com a sua senhora, e venham direitos á sua casa de Villa Cova. Iremos os tres esperal-os a meio caminho. Perder um anno da Universidade não faz implicancia á sua futura sorte, se ella tem de ser boa. Esperamol-os; porque não posso acreditar que meus compadres faltem ao seu Ladislau.»

 

Casimiro leu, e disse:

—Vamos, e vamos hoje.