O Bem e o Mal
XII Serenidade da innocencia
XII
Serenidade da innocencia
Ás dez horas de uma noute de janeiro de 1840, Christina, convidada pela limpidez da lua, tão brilhante n’aquellas noutes, se o céu está desannuviado, chegou á janella, sem correr as vidraças. Do exterior não podia ser vista, que era completa a escuridade dentro; viu, porém, Christina, dous homens parados na rua, com as cabeças muito conchegadas, em agitada e inaudivel conversação. Teve mêdo, e correu ao gabinete do marido a chamal-o. Casimiro, pé ante pé, segundo a esposa lhe recommendava, espreitou, e, sem hesitação, disse:
—Um é D. Alexandre; o outro não conheço. Vejamos o que fazem.
—Vê!—disse Christina—olharam para a janella do teu quarto.
—É uma contemplação estupida!—redarguiu Casimiro.
—Agora esconderam-se debaixo das janellas.
—Quererão escalar a casa?!—tornou elle em ar de mofa.
—Quem sabe?! Olha... lá deram um encontrão á porta do quintal!
—É que são ratoneiros de couves. Que podem elles querer do quintal senão as tuas couves gallegas?
—Tu brincas, meu Casimiro!... Olha que isto é sério!... E não passa patrulha nenhuma!...
—Calla-te, creança! Se te ouvem, perderemos este espectaculo gratuito. Deixa vêr no que isto dispara. Lá vem outro estudante, rente pela parede d’alem! como elle se embuça!...
—Parou!—disse Christina agitada.
—Será da malta?! As couves não chegam para todos.
—Lá vai para baixo.
—E os outros seguem-no.
—Já não seguem.
—Elles ahi voltam, outra vez para a sombra.
—Outro empurrão á porta da escada!—murmurou Christina alvoroçada e tremula.
—Então o negocio não é de horta! Teremos hospedes assim mal-criados! Ver-me-hei forçado a recebêl-os com igual delicadeza!
A arma unica de Casimiro Bettancourt era uma enferrujada espada de seu pai. Tirou-a de baixo do leito, e disse á esposa:
—Deixa-me a escada livre, e não temas.
—Á escada não vais: póde vir um tiro!
—Não vem tiro nenhum: apaga todas as luzes.
Dous estrondosos encontrões metteram dentro a fragil porta. Christina soltou um ai, e involuntariamente correu ao leito onde a menina chorava acordada pela rija pancada.
Casimiro estava no topo da escada, e viu do lado da rua um homem de batina academica apanhar de hombro a hombro com um pau as costas, do que elle affirmára ser D. Alexandre. Os dous aggressores saltaram ao meio da rua, e Casimiro, ia na colla d’elles, quando Christina, com a menina nos braços, lhe estorvou o passo, exclamando:
—Casimiro, Casimiro! pela tua filhinha te rogo!
A catastrophe, tão almejada de Guilherme Lira, rematava assim na rua.
Ayrão, logo que o amo levou a primeira pancada, correu de faca sobre Guilherme, e recebeu em cheio peito uma choupada, e segunda no ventre. Já cambaleava moribundo, quando recebeu a terceira, e bateu nas lages com a face morta.
D. Alexandre ia fugindo, com a maxima velocidade de sua prudencia, quando uma segunda bordoada o apanhou pela nuca. Rugiu e afocinhou, forçado por um doloroso raspar de ferro na orelha direita.
Guilherme volveu a sondar a respiração do desertor, e responsou-o ao diabo.
D’alli correu á escada de Casimiro, e chamou-o.
—Quem é?—respondeu Casimiro com a espada apontada.
—O Lira. Creio que estão ambos mortos; um de certo. Agora, acautella-te... Já está gente nas janellas. Posso sahir pela porta de traz? Aqui reconhecem-me.
—Sahe—disse Casimiro—Vem por aqui... Quem mataste?
—Boa pergunta! A besta-féra não se levanta mais; o outro desconfio que está vivo. Deixal-o viver... Por aqui?... bem... Adeus! Segredo de sepultura, ouviste?
—A recommendação é indigna de mim.
Guilherme Lira entrou no Becco das Flores, e sumiu-se de travessa em travessa, reapparecendo, vestido á futrica, na Couraça dos Apostolos.
Quando chegou occupavam a rua centenares de pessoas. Em redor do cadaver de Ayrão estavam muitos estudantes de envolta com a policia. Nenhum academico reconhecia o morto, que trajava batina, bem que tivesse illeso o rosto. Emquanto a este, esperou-se o dia para lavrar-se auto.
D. Alexandre já tinha sido transportado em braços, e moribundo, segundo diziam os que lhe viram o rosto ensanguentado, e ouviram o archejar estertoroso do peito comprimido pelo derramamento das costas.
A visinhança dizia que vira entrar um homem de batina e capa nas escadas de Casimiro Bettancourt. A opinião geral decidiu que fôra Casimiro o assassino, visto que o sugeito entrado não sahira.
Christina chorava, e dizia, ouvindo as vozes da rua:
—Que será de nós? Prendem-te, Casimiro. Fujamos... vamos para Villa Cova.
—Socega, filha. Se me prenderem, hão de soltar-me! Attende-me, Christina: Nunca dirás uma só palavra com referencia a este acontecimento. Nunca proferirás o nome de Guilherme Lira. Nunca dirás que eu estou innocente. Juras-m’o?
—E tu... perdido, meu infeliz amigo... perdido!—atalhou ella, archejante de gemidos—desgraçado por minha causa!
Casimiro apertou-a ao seio, e disse-lhe:
—Crês em Deus?
—Se creio em Deus...
—Crês que a justiça divina me faça padecer innocentemente?...
—Mas a justiça humana...—interrompeu ella.
—Mulher de pouca fé!... Se visses a serenidade do meu espirito, vias em mim a influição de Deus!
As authoridades superiores, avisadas do acontecimento e do author indigitado do crime, mandaram guardar por soldados as avenidas da casa de Casimiro, para o prenderem de dia.
O academico deitou-se á sua hora regular, e obrigou a alvoroçada esposa a deitar-se com a filhinha inquieta.
Ás tres horas e meia da manhã rebentou de subito um ruido estridoroso na rua, depois de alguns repetidos brados das sentinellas.
Chegava a «Sociedade da Manta» acaudilhada por Guilherme Lira, em numero de vinte e tantos bravos, armados de refes e clavinas.
Os soldados outros tantos seriam. Á primeira carga inesperada, a tropa titubeou entre fugir ou defender-se, e, n’esta perplexidade, soffreu o desaire de ser desarmada e contundida com as proprias armas.
Libertas as portas, Guilherme chamou Casimiro, subiu e disse imperiosamente:
—Foge!
—Não fujo.
—Como não foges?
—Não: salva-te tu, que eu me livrarei da justiça.
—Não livras: diz toda a gente que tu mataste o homem. Alexandre está vivo, e diz que foste tu quem mataste o seu creado, e lhe tiraste a elle a orelha.
—Deixaste sem orelha o homem?
—Nada de riso: foges ou não?
—Já te disse, Guilherme: vai na certeza de que o teu nome nunca será envolvido na minha justificação.
Uma vez de fóra disse:
—Olha que tocam as cornetas na Sophia, ó Lira! Vem, que não temos partido contra o regimento.
—Adeus!—concluiu Guilherme—Oxalá que te não arrependas!
—Fujamos!—exclamou Christina.
—Porque me não attendes, filha? disse maviosamente Casimiro, e desceu a fechar a porta.
Poucos segundos depois, estava a rua cogulada de soldados, e muitas vozes diziam que o assassino tinha fugido com os academicos.
—O melhor é arrombarem as portas, camaradas!—dizia um cidadão—Que fazem vossês ahi, se elle fugiu? É arrombar que não ha outro modo de saber se elle está.
—Arrombar!—contrariou um alferes—a Carta Constitucional prohibe arrombar; mas bate-se a ver se falla alguem.
—Ou isso—disse o cidadão prudente.
O alferes bateu urbanamente. Casimiro abriu de prompto a janella do seu quarto, e perguntou:
—Quem é?
—Ah!—disse o alferes—está em casa?
—Estou em casa. Não quer mais nada?
—Não sr. Foi para sabermos... dizia-se que não estava lá ninguem... Perdoará o incommodo.
—Boas noutes—respondeu Casimiro. Depois, baixou a vidraça, e disse a Christina—A rua está vistosa! As armas refrangem a lua, e dão a lembrar uma illuminura da idade média! Apaga a luz da saleta, que eu gosto de ver este arraial de batalha, que me parece um sonho!
—Ó Casimiro!—balbuciou ella—como tu pódes rir, e eu sinto-me aqui morrer!
—És fraca. Nunca te tinha conhecido esse aleijão! Parecias-me uma natureza perfeita em amor, em brios, e em força. A força é que te falta, minha debil filha!
—Enganas-te, Casimiro!—replicou ella—É que eu era tão feliz!...
—E ámanhã que impede que o sejas?
—Ámanhã... estarás preso!....
—E então? A luz do teu amor teme de romper as grades da cadeia?! A nossa filhinha hesita entrar lá comtigo? Não vai commigo a imperturbavel consolação da consciencia?
—Mas eu tambem vou...
—Pois irás, filha. Quem te veda de estar com teu marido preso?!
Conversaram n’este sentido longo tempo; e já a final, Christina estava conformada com a ideia da prisão, e logo cuidou em enfardelar os fatinhos da filhinha, emquanto o marido escrevia a seguinte carta:
«Meu caro compadre.
«D. Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, e o seu
creado está morto. Este acontecimento deu-se á porta da minha caza, ha cinco horas. O povo, a academia, e as authoridades indigitam-me como author do successo. Esperam que nasça o sol para me prenderem.
«Escrevo-lhe agora, 4 horas da manhã, receando que os
interrogatorios me tirem o tempo no correr do dia.
«Minha mulher tem estado attribulada, mas, como appelei
do seu coração para a sua coragem, vejo-a reanimado e esperançosa da minha absolvição em despeito do povo, da academia e das authoridades.
«Peço aos meus amigos que não se afflijam, e me creiam
forte bastante para luctar com o mal do mundo. Refugio-me na vossa estima, e sou o vosso irmão agradecido, C. Bettancourt.»
Ao apontar o sol, a authoridade administrativa, auxiliada pela militar, bateu á porta de Casimiro, e esperou instantes. O proprio academico desceu a abrir, e offereceu ceremoniosamente a sua casa.
—Está o sr. preso—disse o administrador.
—Já o sabia—respondeu Casimiro.
—Bem. V. s.ª acompanha-me. Irá comnosco o sr. alferes da companhia.
—Como queiram: vou só, vou com v. sr.ᵃˢ, vou com a escolta: para mim é de todo o ponto indifferente.
—Dispenso a força, sr. alferes, disse o administrador: póde v. s.ª mandal-a recolher com o sargento; o sr. alferes tem de ficar para solemnisar a prisão d’este academico que é furriel.
—Se querem subir...—disse o preso.
—Não, senhor: vá, e volte, que nós esperamos.
O administrador, em quanto Casimiro subiu a dar as ultimas palavras de conforto a sua mulher, disse ao commandante da força:
—Este homem ou está innocente, ou excede tudo que eu tenho visto em coragem!
—Será cynismo? replicou o militar.
—É cynismo, não pode deixar de ser cynismo—optou o cidadão que propozera o arrombamento das portas.
No entanto, Casimiro dizia a Christina, depois de beijar Mafalda:
—Eu escrevo-te de casa do administrador, dizendo-te o meu destino; naturalmente irei de lá para a cadeia; e tu, como boa gerente da casa—continuou elle jovialmente—irás lá ter, depois de ter dado as ordens para o jantar. Olha que a instauração de um processo por crime de morte não obriga a jejum, minha filha. Lembra-te que as consciencias puras concorrem muito para o bom appetite, e são optimas auxiliares do estomago. E adeus, até logo.
Christina ajoelhou com a filha nos braços, e orou. E, orando, ouvia dizer fóra:
—Mas como elle vai direito e senhor seu!
—Elle se entortará quando lhe pezarem nas costas os caibros da Portagem!
—Terá pena ultima?—perguntava uma rapariga de má vida, e acrescentava: coitadinho! é tão novo, e de mais a mais casado, e tem uma filhinha!...
—Deixal-o ter!—atalhava uma velha, que vinha da missa d’alva, e ia ouvir a segunda, para depois ir ouvir a terceira—Deixal-o ter! Quem mata, morra! As forcas não se inventaram para os que morrem, é para os que matam.
O axioma foi applaudido pelo cidadão prudente, e outros sujeitos honestos, cuja garganta zombára muitas vezes da corda de esparto do Livro V das Ordenações.
E Christina callava a oração para escutar, e orava para não ouvir.
Perguntou a authoridade a Casimiro Bettancourt o nome, a naturalidade, os annos, o estado, a profissão, etc. E proseguiu:
—A voz publica e as apparencias dão-no ao senhor como homicida de um homem ainda desconhecido, e tambem o incriminam de espancador de D. Alexandre de Aguilar, cuja vida está ainda duvidosa. O sr. Bettancourt é réu d’estes crimes?
Casimiro não respondeu.
—Ouviu a pergunta que lhe fiz?—tornou a authoridade suspeitando a surdez do preso.
—Ouvi, sim, senhor.
—Que responde?
—Nada.
—Nada?! é boa essa!... Matou ou não matou?
—Se ha provas de que fui eu, porque m’as pedem? Se as não ha, porque me prendem?
—A lei manda interrogar os réus.
—Póde ser; mas não obriga os réus a responder.
—O silencio é uma confissão—redarguiu o administrador.
—É o anexim «quem calla consente» arvorado em axioma juridico. Boa hermeneutica!
—Modere as suas ironias, que a occasião é inopportuna, sr. Bettancourt. D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça diz que fôra atacado pelo sr. Casimiro, quando passava á sua porta.
—Se o diz, elle o provará.
—A visinhança depõe que v. s.ª entrára em sua casa depois de ter deixado morto um homem e o outro cahido.
—Já sei: ouvi o parecer de meus visinhos antes de v. s.ª os interrogar.
—E que diz a isto senhor?
—Nada.
—Diz que está innocente?
—Já tive a honra de dizer a v. s.ª que não digo nada. As provas responderão por mim, e a lei me julgará.
—Está claro. Vai v. s.ª recolher-se á cadeia, e esperar lá a nota da culpa.
—Posso ser visitado por minha mulher e minha filha?
—Sim, senhor, em quanto a policia julgar isso indifferente ao processo.
—E quando póde impecer ao processo que eu veja minha familia?
—Ha casos...
—Bom. Recebo as suas ordens.
—Vai acompanhal-o um official do juizo. O sr. Bettancourt inspira-me confiança, e por isso o allivio do vexame de ir com soldados.
—Agradeço a confiança; mas os soldados não me vexam: cumpra v. s.ª o seu dever de authoridade.
—Vá, e pense sériamente na sua situação, que é grave, sr. Bettancourt. Póde ser que o senhor esteja innocente; mas as suas desavenças anteriores com D. Alexandre condemnam-no. Póde ser que v. s.ª matasse em justa defeza: se assim foi, convém attenuar a culpa com essa circumstancia. Esse seu systema de responder com o silencio, sobre ser excentrico, é confirmativo da imputação. Dou-lhe este conselho, movido pela sympathia que me causa a sua abnegação e como despreso da vida. Sei que tem familia, e avalio as angustias de sua consorte; por isso lhe peço que se abstenha d’esse stoicismo inutil, e—peior ainda—prejudicial. Se póde, decline de si a responsabilidade de um homicidio, que é sempre e em todos os casos deshonra. Se matou, negue, negue sempre!—acrescentou o administrador, collando-lhe no ouvido os labios.
Casimiro agradeceu o conselho com um sorriso, e sahiu á direita do official de justiça.
Á porta da authoridade, quando Casimiro sahiu, agglomerava-se um cento de pessoas, gentio baixo, regateiras da praça de Sansão, serventes, gaiatos, e alguns cidadãos honestos, nomeadamente o oraculo da Couraça dos Apostolos. A custo rompeu o aguazil a multidão, que se premia em redor de Casimiro, e lhe roçava as faces com o halito acre da aguardente.
—Chamo soldados!—bradou o official de justiça.
—Não é preciso—disse um academico, que estanceava mais distante n’um grupo de estudantes.
E, tirando a carreteira das mãos de um lavrador, cresceu sobre a multidão, e apanhou quatro cabeças da primeira paulada. A rua, momentos depois, estava deserta, como se passasse n’ella a ira do Senhor.
—Foge que é o Lira!—diziam muitas vozes, convulsas de terror, menos o cidadão da Couraça dos Apostolos, que levou a sua cabeça ao visinho boticario.
Era, com effeito, Guilherme Lira, cujo sangue refervia em phrenesi, e sêde de beber o sangue da humanidade. Infurecia-o o remorso de ter deixado vivo D. Alexandre! Saber elle que o vil declarava ter sido assaltado por Casimiro, espicaçou-lhe o odio e a ancia de ir estrangulal-o em casa. Depois, via Casimiro preso, sabia já as suas respostas á authoridade, pungia-o o arrependimento de o perder, quando cuidava salval-o de inimigos infames, e não poder salval-o, sem se declarar elle mesmo o aggressor!
O governador civil, o reitor, as authoridades subalternas, receiosas de sublevação academica, instigada por Guilherme Lira, preveniram a tropa, e assignaram ordens de prisão dos mais celebres desordeiros, no caso de motim.
A este tempo estava na cadeia Casimiro Bettancourt, contrastando, com sua quietação, o reboliço que fremia cá fóra. Christina seguira-lhe os passos, e entrara apoz elle. Mafalda ia muito risonha e fagueira. Não fallava, mas gesticulava as suas caricias, e pendurava-se do collo do pai, beijando-lhe os olhos.
E Christina observava em redor de si a nudez, a sombra, a immundicie da salêta. Queria chorar; mas pejava-se do esposo, e retinha-se para o não affligir.
—Voltas a casa, minha filha?—disse Casimiro—Olha que são dez horas, e nós costumamos almoçar ás nove. Basta de sacrificio á justiça humana, Christina! Uma hora é de mais!
—Tu não estás muito triste, pois não, meu Casimiro?—exclamou ella, cingindo-lhe o pescoço, com quanto carinho podem exprimir as angustias supremas.
—Se estou triste!... Quando me viste mais risonho, Christina!... Alegre, minha esposa, alegre como esta creança que te sorri! A minha consciencia está serena como a d’esta menina; por isso nos vês tão contentes ambos!