O Bem e o Mal

Camilo Castelo Branco · Capítulo 17 de 22

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O Bem e o Mal

XVI O julgamento

XVI

O julgamento

 

Ao cabo de cincoenta dias estava o processo prompto para entrar em julgamento. Dominava em Coimbra a opinião de ser inevitavelmente condemnado Casimiro de Bettancourt. A innocencia que algumas pessoas apregoavam, era em geral recebida, a riso, como um paradoxo.

A alma de Christina confrangia-se, e os labios sorriam ainda. Era ella só quem ainda simulava esperanças; mas que supplicios surdos lhe custava dissimulação!

Ladislau e o vigario em vão queriam imital-a. A sua tristeza era como as trevas do cego que não se allumiam ao tremor convulso da palpebra. Queriam esperançar-se e de toda a parte lhes soava como irremediavel a sentença. Rosnava-se em compra de jurados: não era preciso arguir ao suborno a condemnação. Casimiro estava sem defeza: o seu silencio impressionava favoravelmente as almas distinctas; o vulgacho, porém, que havia de julgar das provas, daria importancia nulla á mudez do réu. Os protectores de D. Alexandre eram os mais graudos fidalgos de Coimbra e cercanias. Por Casimiro Bettancourt ninguem pedia. O padre e o cunhado, reduziam-se a promover o andamento rapido do processo, pagando liberalmente as despezas e actividade do procurador. Isto era bastante; mas faltava muito.

Ruy de Nellas affligia-se a cada nova carta desanimadora que recebia; entretanto, a solução favoravel em Lisboa era um respiradouro para elle e para os poucos amigos do preso.

Designado o dia do julgamento, o pai de Christina escreveu a sua irmã, contando-lhe os pormenores do casamento da filha, as desventuras do genro, a sua innocencia no crime assacado, a indefeza pertinaz em que se pozera, o mysterio do homicidio, a certeza de que o silencio de Casimiro Bettancourt era um heroismo de honra, talvez novo. Rematava pedindo á condessa de Asinhoso, que patrocinasse em Lisboa sua sobrinha, que era mãe e esposa extremosa.

Na ante-vespera da audiencia, travaram desordem uma malta de academicos richosos com as patrulhas nocturnas. Alguns estudantes retiraram feridos, e invocaram Guilherme Lira, em nome da honra academica. O chefe da Sociedade da Manta respondeu que n’uma das proximas noutes, seria vingada a academia.

No dia immediato entrou Guilherme no escriptorio de um tabellião, e pediu meia folha de papel sellado. Assignou-se no fundo da lauda, e fez que o notario lhe reconhecesse a assignatura.

Recolheu a casa, e deteve-se algum espaço, escrevendo no branco da folha assignada e reconhecida. Fechou em fórma de officio, lacrou, e escreveu algumas palavras no involucro. Depois fez algumas cartas: uma subscriptada a D. Joaquina Soares de Lira, sua mãi, residente em Evora; outra a sua irmã, casada em Extremoz; e ainda uma terceira brevissima, dirigida a uma senhora, que tinha o segredo da ferocidade d’aquelle homem. Terminava assim: «Não te cito para o céu nem para o inferno. Chamo-te diante do teu proprio remorso. Viste-me um anjo aos dezoito annos; e fizeste de mim isto que sou. Não te accuso: lá tens dentro d’alma o teu algoz. É tempo de acabar.»

Deitou a carta na caixa postal, e foi á cadeia, segundo o seu costume quotidiano, vêr Casimiro. Eram quatro horas da tarde. Estava o jantar na meza. Guilherme sentou-se ao lado de Christina, e comeu com appetencia. De uma vez inclinou-se ao ouvido da senhora e disse-lhe:

—Ámanhã já v. ex.ª janta em sua casa com seu marido...

Christina soltou um brado de alegria.

—Que é?!—inquiriram todos.

Guilherme fitou-a e descahiu as palpebras.

Era impôr-lhe silencio, e ella abafou a revelação, que lhe crispava nervosamente os labios, e arquejava o seio.

Esperaram, brevemente a resposta com anciedade. Christina fitou os olhos supplicantes no academico, e elle, erguendo-se, disse:

—Póde fallar, minha senhora, d’aqui a instantes.

E abraçou Casimiro, beijando-o nas faces ambas; abraçou Christina osculando-lhe a fronte; apertou affectuosamente as mãos de Peregrina, Ladislau e padre João; affagou as duas creancinhas, e sahiu de golpe.

Casimiro chamou-o com vehemencia, e elle não voltou.

Referiu Christina o que lhe ouvira. Casimiro concentrou-se, pensou alguns minutos, e disse:

—Não mentiu. Ámanhã jantaremos em liberdade.

Pediram-lhe o sentido das palavras do academico.

Bettancourt respondeu:

—Ámanhã.

Notaram todos que a tarde e noute d’aquelle dia foram as mais tristes horas de Casimiro na sua prisão de dous mezes. E, comtudo, Christina escondia o seu contentamento.

Eram dez horas da noute, quando Casimiro ouviu grande grita e o estrondo de alguns tiros. Estava já sósinho, passeando febrilmente na saleta, e disse entre si:

—É agora.

O alarido e o tiroteio continuaram.

Collou o ouvido ás portadas da janella, e ouviu dizer na rua:

—Mataram o Lira.

Meia hora depois recahiu tudo em silencio quebrado pelas passadas das patrulhas em tresdobro. E o carcereiro bateu de manso á porta de Casimiro, e disse:

—Dorme?

—Não. Póde entrar.

—Vou contar-lhe o que vai. O seu amigo Lira espancou as patrulhas, que encontrou desde o bairro alto até á rua do Coruche. A Sociedade da Manta appareceu em armas, atacou reforço, que sahiu do quartel. Quando ia retirando para o Monte Arroio a estudantada debaixo de fogo, o Lira ficou atraz, sem arma nenhuma, a não ser o varapau de choupa que mettia a peito dos soldados. Tinha elle recuado até ás grades de Santa Cruz, quando cahiu morto com uma bala atravessada de fonte a fonte. Meu filho vem de observar. Faz dó ver um homem tão valente assim morto como se mata qualquer poltrão!...

—Obrigado á sua noticia.

—O sr. ficou triste devéras!—tornou o carcereiro—Tem razão, que elle era seu amigo d’uma vez!... Boas noites, sr. Bettancourt. Ámanhã é o dia da grande batalha, espero em Deus que...

O carcereiro tão certo estava da condemnação, que não ousou concluir a phrase da esperança em Deus.

Mal se abriram as portas da cadeia, entraram Christina e os amigos a contarem o successo. A justiça ia tomar conta do espolio do morto. Coimbra estava agitada de terror. Esperava-se grande lucta da academia com a tropa no acto do enterro de Guilherme. Suppunha o padre que se não abrisse o tribunal, para obviar o azo da desordem. Contou Ladislau que o estudante, na vespera, tinha ido reconhecer a sua assignatura a um tabellião. Christina, que tudo sabia, esperava que seu marido fosse salvo por uma declaração de Guilherme. Eram, porém, nove horas, e não apparecia alvará de soltura, nem contra ordem de julgamento.

Ás dez horas chegou o official de juizo para acompanhar o réu ao tribunal.

Logo á sahida do carcere, ouviu Casimiro dizer:

—É preciso ir acabando com os assassinos. Um já lá vai: este não tarda; os outros hão de ir quando lhes chegar a vez.

Quem tão sisudamente discreteava era o cidadão honesto da Couraça dos Apostolos, em cuja cabeça Guilherme deixára um signal inutil para a morigeração da pessoa.

Sentou-se Casimiro no banco dos réus. Christina, Peregrina, o padre e Ladislau ficaram fóra da teia. D. Alexandre de Aguilar, como parte, sentára-se entre o seu advogado e o representante do ministerio publico. Na acareação de author e réu, perguntado o primeiro se reconhecia em Casimiro Bettancourt o sujeito que espancára, o fidalgo respondeu:

—Não podia ser outro.

—Pergunto a v. ex.ª se é aquelle e não se podia ser outro— replicou o juiz.

—É aquelle.

Sahiram a depor as testemunhas de accusação. Eram concordes em dizer que viram entrar na casa do réo o sujeito que matára um homem, e deixára outro estendido. Recordaram todas as precedentes aggressões que o réu fizera contra o author, já no botequim da rua Larga, já na ponte. O cidadão honesto sobreexcedeu a má vontade das demais testemunhas, dizendo que o réu era sujeito de tão máus costumes que roubára uma filha a um fidalgo seu bemfeitor, e com a filha roubára as joias da familia.

—Esse infame está a mentir!—exclamou Christina.

Casimiro voltou-se para o lado onde estava sua mulher, e encarou-a fito, com severo olhar.

O juiz disse:

—A senhora não pode aqui fallar.

—O que ella diz não se escreve—accrescentou a faceta testemunha, sorrindo do alto da sua probidade.

—Querello da testemunha—disse o advogado do réu.

—Eu não querello da testemunha—emendou Casimiro.

—Em tempo competente resolverão—admoestou o juiz.

Convergiram todos os olhares sobre Casimiro.

Um dos jurados disse:

—Eu já não condemno aquelle homem!

—Porquê?!—perguntou o visinho.

—Aquelle homem está innocente ou é doudo.

—Qual doudo? aquillo é um grande farcista! Elle não querella da testemunha, porque sabe que roubou as joias.

Terminou o depoimento de accusação por parte do author e do ministerio publico.

Esperava-se por testemunhas de defeza: o escrivão disse que não estavam inscriptas nenhumas.

—É doudo ou não?—disse o jurado bem intencionado.

—Qual doudo? replicou o outro.—É tão patife que não tem quem o defenda.

Ia levantar-se o patrono de D. Alexandre, quando o administrador do concelho entrou na sala do tribunal, e entregou ao advogado do réo uma carta em fórma de officio.

O orador, que já tinha dito: «Srs. jurados!» suspendeu-se.

O patrono do réo leu uma meia folha de papel, e disse, em pé, com os cabellos hirtos:

—Sr. doutor juiz de direito, v. ex.ª me dirá se o debate deve continuar, depois de ler a declaração que remetto á consideração de v. ex.ª.

Machinalmente ergueram-se todos, auditorio, e jurados.

O juiz leu mentalmente, e passou o papel ao delegado. Trocaram breves palavras, e deram ao official de justiça o papel.

—Leia o sr. advogado do réo—disse o juiz.—Eu por mim intendo que terminou o debate.

—Sou de egual parecer!—ajuntou o ministerio publico.

O advogado de Casimiro, limpando as camarinhas do suor, leu com voz tremente de alegria e commoção d’alma:

 

«Declaro eu Guilherme de Noronha e Lira, estudante do 5.º

anno de direito, que fui eu quem matou, na noute de 16 de janeiro do corrente anno de 1840, um creado de D. Alexandre de Aguilar, e empreguei os meios de matar tambem o amo. Não tinha contra algum d’elles motivo de odio pessoal; mas, como inimigo jurado de poltrões covardes, e sabendo eu que elles espreitavam ensejo de matar Casimiro de Bettancourt, mancebo tão honrado como valente, protestei livral-o de tão miseraveis inimigos, atacando-os sósinho e sem mais arma que um páu de choupa, no momento em que elles tinham arrombado a porta de Casimiro para o irem matar entre sua mulher e sua filhinha d’um anno. Declaro mais que fui eu quem afugentou a companhia, postada ás portas de Casimiro na intenção de o arrancar ás garras da justiça; mas o meu amigo não quiz fugir, assegurando-me que se havia de salvar sem pôr em risco a minha segurança. E por tanto, resolvido a acabar com a vida, poucas horas antes de me deixar matar, faço esta declaração, e peço a Casimiro Bettancourt perdão de o ter infelicitado, quando cuidava que o beneficiava com o meu zêlo guardador da sua preciosa vida. Peço tambem perdão da inexplicavel fraqueza que me tolheu de eu ter feito esta declaração desde o momento que o meu amigo entrou no carcere. Eu sei que elle me perdoou; mas volto as minhas supplicas para a esposa attribulada, que tantas vezes, com um sorriso de amiga, devia execrar o causador das suas calamidades! Faço esta declaração debaixo dos olhos de Deus, e juro pela virtude de minha mãi que é verdade o que digo, e será infame quem me não acreditar. Coimbra 19 de março de 1840. Guilherme de Noronha e Lira».

 

D. Christina perdêra o alento nos braços de Peregrina. Muitos academicos romperam de salto a teia, e vieram parar no meio da sala. O advogado do réu, esquecido das praxes, foi abraçar o cliente, que parecia dar levemente conta da agitação do auditorio, e applicava o ouvido aos soluços da esposa. Os jurados limpavam as lagrimas, excepto um que tinha recebido uns vinte mil réis de D. Alexandre. O fidalgo-autor acachapara-se de modo, que parecia querer sumir-se debaixo da meza. O seu advogado lia a declaração, e carecia de coragem para impugnar-lhe a validade. O juiz dizia ao delegado:

—Deviamos esperar isto, ou cousa semelhante. Este homem, sem provar nada, tinha provado a sua innocencia.

E o delegado confirmava:

—Eu espero a minha vez de abraçal-o!

O cidadão honesto da Couraça dos Apostolos ia a sahir, quando Casimiro, que parecia absorto, disse:

—Sr. juiz, peço a v. ex.ª a graça de ordenar áquella testemunha, que se demore um instante.

—Quer querellar!—bradou o patrono.

—Não quero querellar—acudiu Casimiro, desabotoando uma carteira, d’onde tirou um papel, e accrescentou:

—Disse a testemunha que eu roubára as joias da familia de minha mulher. A testemunha faltou á verdade. Peço licença para ler, e offerecer ao exame das pessoas, que me escutam, a seguinte declaração de meu sogro «Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro que minha filha Christina Elisiaria não subtrahiu de minha casa valor algum, nem os seus proprios vestidos e adresses, quando fugiu para casar com Casimiro Bettancourt. E por isto ser verdade, mui espontaneamente, e com juramento aos Santos Evangelhos o declaro agora e sempre. Pinhel 22 de abril de 1839. Ruy de Nellas, etc.»

—Meu sogro está vivo para confirmar esta declaração.

—Confirmo!—bradou uma voz d’entre as turbas comprimidas na teia. E logo um gentil ancião de veneraveis cans, e nobre aspeito, com as faces arregoadas de lagrimas, entrou na clareira que a multidão lhe abria, e chegou á beira de Casimiro, e repetiu com a voz quebrada de soluços:

—Confirmo! confirmo! honrado moço, meu filho amado!

E abraçou-se n’elle, e logo na filha, que se lhe lançou aos pés, e em Ladislau e no padre, e na irmã, e em todos quantos vinham com olhos humidos, porque alli quantos choravam, e choravam todos, elle adoptava como amigos, como quinhoeiros da sua alegria!

Que momentos aquelles! Aquelle jubilo febril não matou, porque era santo, porque a Providencia divina se comprazia em contemplal-o!