O Bem e o Mal
XVII Contrastes
XVII
Contrastes
Ia a turbulenta comitiva, que seguiu até casa de Bettancourt. A faisca electrica de enthusiasmo, recebida nos lances do tribunal, conflagrou animos juvenis, em bellicoso arrebatamento contra a policia e a tropa; por maneira que, as duas familias levavam um prestito de centenares de mancebos, urrando vivas á academia, e morras aos futricas e aos soldados. Casimiro parou algumas vezes no intuito de arengar aos moços; porém, a cada palavra conciliadora respondia o fremir de muitas vozes, a pedirem sangue e vingança?
—Parecem-me canibaes!—dizia Ruy de Nellas ao vigario.—Esta rapaziada não tem quem a governe!? Pobres pais e mãis!
Conseguiram entrar em casa, e accommodar os pequenitos, que vinham chorando de medrosos da vozeria, Mafalda nos braços do avô, e o filho de Ladislau nos do padre João.
Casimiro sahiu á janella a dizer expressões de reconhecimento que a turba desattendia, clamando sempre vingança, e pedindo ao academico que tomasse o commando dos estudantes para vingar a morte do valente que o defendera a elle.
Por entre os amotinados circulavam pessoas de respeito, pacificando os animos, ou enganando-os para mais azado lanço. A custo, porém se dispersaram, comprommettidos a reunirem-se no sahimento de Guilherme Lira.
Aquietou-se a rua.
O velho sentou-se entre a filha e o genro, lançando-lhes os braços em volta do pescoço. Alegremente conversou, ora queixando-se de não o terem muitas vezes importunado com rogos de perdão, ora promettendo-lhes em dobro a amisade, que lhes não déra mais cedo.
—Nada de Coimbra—dizia elle a Bettancourt—Vamos para Pinhel, que tu não tens necessidade de ser official com tanto trabalho. A legitima de tua mulher vai augmentando, sou eu que a tomo a juros; e, emquanto eu viver, estareis em casa, sem dispender do vosso. É preciso pagarem se as dividas de dinheiro, que as de amor nunca se pagam. Este Ladislau é um grande moço, é o pai no rosto e no coração. Este padre João sei eu bem o que elle é; creou-se debaixo das minhas telhas, e ha de vir a ser bispo, se a virtude é qualidade para ser bispo. Em quanto á cachorra da Peregrina, esta, se não fosse do Ladislau, havia de casar commigo, que está guapa, esbelta, e uma perfeita dama. Vocês riem-se? Talvez pensem que se eu quizesse dar madrasta á minha Christina, andaria muito tempo a farejar nas boas familias da provincia!... Ora agora, tu, Casimiro, deixa-te de mathematicas, faz te lavrador, toma á tua conta os cazeiros da nossa casa, melhora-me os bens livres quanto pudéres, bemfeitorias e mais bemfeitorias nos prasos de nomeação, que eu quero deixar o menos que possa ser ao D. Sueiro, áquelle vil enroupado em habitos fidalgos. São uns lacaios todos, desde o morgado até D. Alexandre, e a minha Guiomar lá se fez com elles, que nem já se dignou escrever-me no dia dos meus annos! Deixai-a commigo... Vamos a saber: vocês não jantam? O contentamento é boa iguaria; mas vejam sempre se me guizam o contentamento com umas batatas e umas fatias de presunto. Vocês comem o contentamento, e eu o resto.
Sahiu Ladislau a tomar o jantar no Paço do Conde, visto que em casa ninguem atinava a saber onde estavam as panelas.
Entretanto, continuou o infatigavel fidalgo:
—Vou logo escrever a minha irmã, a contar-lhe o succedido. Tenho vontade de a vêr; não queria morrer sem a vêr! Foi para Lisboa aos treze annos: era um lyrio de brancura, e galanteria. Nunca mais a vi... Velha não póde estar, que eu levo-lhe vinte annos de vantagem... Bella vantagem, não tem duvida!... Talvez a convide a vir passar comnosco em Pinhel alguma temporada; mas ella sahe lá de Lisboa! Disse-me um deputado que a condessa vive lá no ultimo fausto, e é visitada por tudo que tem um nome grande na aristocracia e na politica. Será ella constitucional? Isso lá me custa; mas, em fim, o marido era-o; e justo é que ella herde as convicções de quem herdou seiscentos mil cruzados em dinheiro, que os vinculos foram a quem tocaram. Fez uma asneira minha irmã em enviuvar sem filhos.
Ninguem lhe cortava a jovial parlenda ao velho, até que chegou Ladislau com dous moços carregados de vitualhas. Á excepção de Ruy de Nellas, os convivas debicaram levemente as iguarias. Casimiro comêra regularmente no dia em que fôra preso; e, solto, entretinha-se a repartir o prato entre os pequenos. Não parecia ser a satisfação da alma que lhe tornava fastidioso o alimento; pelo contrario, revia-lhe o semblante uma extraordinaria melancholia.
É que o moço via diante de si continuamente a imagem de Guilherme, que, vinte e quatro horas antes, tinha dito a Christina: «Ámanhã já v. ex.ª janta em casa com seu marido.» E abstinha-se de revelar a sua mágoa para não compungir a esposa e amigos, que tão alegres estavam, e perdoavelmente esquecidos do commensal do dia anterior, áquella hora amortalhado!
Era já proposito de Casimiro sahir da Universidade, e ir buscar sua vida em qualquer parte ou mistér. Aquelle anno era o segundo já perdido. Entrou-se da certeza que a desgraça lhe atravancava o caminho das sciencias. Elle amava o estudo, deleitava-se nas asperidões da mathematica, e ia desatar-se para sempre e saudosissimo dos seus livros, das suas oito horas de estudo, da sua banqueta de pinho pintada, e de toda aquella pobreza limpa, que as mãos de sua mulher transformavam em jaspes, mognos, razes e ouro.
O convite de ir para Pinhel, com o sogro, seu amigo, entrar no goso das honras da illustre familia, ostentar a benemerencia da sua probidade, regendo a avultada casa, vingar-se assim pacificamente dos de Miranda, nenhum d’estes incitamentos lhe descontava nas dôres. Será paradoxal o dizer que Bettancourt mais se queria refugiar no casal de Villa Cova com sua mulher e filha, e antes de melhor rosto acceitaria o seu prato á meza de Ladislau? Pois é uma sublime verdade esta! Casimiro olhava em Ladislau, no vigario, e sua irmã, e dizia-se: «Ó meus amigos, a minha dôr inconsolavel será deixar-vos. Eu hei de fugir sempre para as vossas serras, em quanto tiver vida para me lembrar o que fostes para mim e minha mulher nos dias de desamparo!»
—Cuidei que te vinha trazer mais alegria, Casimiro—dizia o fidalgo.
—V. ex.ª desculpe a minha tristeza—responde Casimiro—Enterra-se hoje um meu amigo.
—Pois sim, bem sei que deves ter pena do rapaz; comtudo, cada coisa tem seu logar. Conversa com a gente, abre um riso n’esse rosto, e faz que eu me não persuada que sou aqui de mais para a tua satisfação.
Casimiro levou aos labios a mão do velho, e disse:
—V. ex.ª está gracejando; mas ainda assim, magoa-me. Eu poderia esperar muitas melhorias á minha sorte, que ainda hontem era desgraçadissima no dizer do mundo; porém, a vinda de v. ex.ª com tão amoravel perdão, tamanho bem é que nem eu sonhava. V. ex.ª dirá se eu...
—Não me dês sempre excellencia, Casimiro; chama-me alguma vez pai, se queres que eu te chame filho.
Beijou-lhe de novo a mão, em quanto Christina, tomando o maior quinhão do contentamento d’aquella adopção paternal, abraçou-se ao pescoço do velho, e acariciou-o infantilmente.
Ao anoitecer, Casimiro pediu licença para sahir.
—Onde vaes?—acudiu Ruy de Nellas.
—Vou acompanhar o cadaver de Guilherme Lira.
Encararam-se mutuamente, e voz nenhuma contrariou a piedade do amigo.
Ladislau, tomando licença de sua mulher, seguiu o compadre. O vigario ficou em companhia de Ruy e das senhoras.
Christina, ao despedir-se do esposo, no patamar da escada, disse-lhe em modelação supplicante:
—E se houver desordem?...
—Eu farei que haja paz, minha filha.
—Então vaes na idéa de te envolveres na desordem?
—Não, filha, vou na ideia de evital-a. Limpa as lagrimas, Christina, não appareças assim diante de teu pai, que me accusará de duro para ti. Bem sabes que sagrado dever eu vou cumprir, minha filha.
Sahiram.
Raro academico faltou ao sahimento do cadaver. As alas negras moviam-se vagarosas, tristes e com os olhos em terra. Ao lampejar das tochas rebrilhavam muitas lagrimas.
Guilherme Lira morrera propugnando pelos brios academicos, diziam: era um engano. Guilherme morrera, suicidando-se. É verdade que, no correr de quatro annos, mão terrorista pesára sobre a gente coimbran, avêssa aos academicos, de cujo pão vivem. Soldados e verdeaes respeitavam a batina, porque Guilherme Lira vestia uma. Sobravam razões de gratidão áquelle desgraçado; mas o seu morrer, o derradeiro arrojo, não era já valentia; fôra um ir metter o peito ás espingardas que o abocavam.
Foi o cadaver lançado á cova. N’este acto, Casimiro sahiu de entre a multidão que rodeava a sepultura, e lançou sobre o cadaver a primeira pá de terra. Depois cruzando as mãos sobre o peito, e sem desfitar os olhos da cabeça empannada e ensanguentada do morto, disse:
—«Alli está a mocidade e a força; alli está um mancebo que deixou mãi n’este mundo; n’isto parou o grande alento d’onde os infortunios da vida desviaram as torrentes dos influxos do céu. Este homem seria um anjo do bem, se melhores condições da mocidade o não houvessem saturado de odio contra o mundo. Eu sei a historia d’esta existencia perdida, senhores. Este moço era bom; derramou inutilmente os balsamos do coração; achou-se vasio de amor; e repletou-se de peçonha e odio. Cansou-lhe a coragem para a resignação; sobreveio-lhe o delirio da vingança, vingança cega, sêde voraz de sangue; mas observai, senhores, que a tentação nem sempre venceu o instincto do céu com que fôra dotado este moço. Aquelle homem teve tantos amigos, tantos que, entre vós, um só não ha que se peje de mostrar as lagrimas. As minhas seria vergonhoso que se não vissem: eu hei de choral-as longo tempo... Vós sabeis que as portas do carcere se me abriram hoje, porque esta sepultura vai ser fechada. E eu, na presença de centenaros de testemunhas, e por aquella redemptora cruz, vos juro que acceitaria a minha prisão perpetua em troca da vida d’este homem, que era vosso, assim como tinha sido meu defensor...»
—Vingança! vingança!—bradaram algumas vozes de estudantes, que agitavam os gorros, e as tochas.
Espectaculo para terror era aquelle em volta de um cadaver!
E o brado, conglobado de mil brados, respondeu:
—Vingança!
Casimiro ergueu a mão, pedindo silencio, e exclamou:
—Paz! paz! é que eu vos peço, em nome de vossas mãis, em nome das cans do velho pai, que espera amparar-se em vosso braço! em nome de vossas irmãs que fiam do vosso auxilio o seu futuro! em nome das almas candidas que vos sorriem ao coração dias de maior felicidade! Paz vos peço eu, meus amigos, apontando-vos este moço que está por aquelles labios frios contando o que é a desordem, o que é a guerra, o que é desencaminhar-se um homem da estrada, onde ha espinhos, para tomar pela estrada onde ha abysmos. Que util lição, que excellente preceptor não está sendo este cadaver! Lembrai-vos, senhores, que este moço tem mãi.
Entrai com o espirito no coração das vossas. Avaliai o amargor das lagrimas que verterá cada uma das santas do amor, se um de vós cahir n’aquell’outra sepultura. Consenti que eu falle n’este instante pelo brado de todas, e vos peça o que ellas supplicantes a cada um de vós pedem: «Paz, meu filho!»
Callou-se Casimiro. Respondeu o ciciar da respiração alta do immoto auditorio. Retirou-se elle da margem da cova, e caminhou triste por entre a multidão, que deixára pender o braço sobre a arma escondida sob a capa. D’ahi a pouco, os academicos debandavam em grupos, e o silencio d’aquella sepultura estendeu-se pela face da cidade.
Ao sahir do cemiterio viu Casimiro diante de si a esposa, o sogro, o vigario e Peregrina.
—Viemos ouvir-te, filho—disse commovido o velho.
—É superior á nossa admiração, sr. Casimiro!—disse o vigario.
—Eu sou apenas superior aos maus pela virtude de os lastimar— respondeu Casimiro, dando o braço ao sogro, cuja sensibilidade lhe quebrantava as forças.
Desde logo, a pedido de Ruy de Nellas, começaram as senhoras os aprestos para a jornada no dia immediato á tarde. O velho futurava o rompimento de alguma revolução academica, a intervenção pacificadora de Casimiro, e a fortuita desgraça de ser empenhado pela honra a coadjuvar o partido dos estudantes.
A esta hora, meia noute seria, D. Alexandre de Aguilar, infamado, despresado, e solitario na sua angustia, esvasiava garrafas de cognac, no intento de aturdir-se e responder com a gargalhada do ebrio ao grito da vergonha. Os deploraveis perdidos, que se valem d’esta triaga, parece que a si proprios se estão castigando com mais crueza do que poderia castigal-os a justiça humana. Noute alta, o ébrio batia com a cabeça nas vidraças de sua janella, farpava a face nas arestas dos vidros, e rugia imprecações contra Deus. As patrulhas acummulavam-se á sua porta, e gargalhavam das estupidas objurgatorias do moço. Acudiam os academicos visinhos, e bradavam-lhe:
—Calla-te ahi, miseravel; afoga-te em cognac; não appareças mais á luz do sol; mas calla-te, besta, que, para seres fera, só te falta a bravura.
O tumulento fitava o ouvido, e respondia com roucos insultos requintados em obscenidades de alcouce.
De madrugada, o neto dos Parmas d’Eça acordou de frio que tinha o peito ensopado no proprio vomito.
Sentou-se, circumvagando os olhos espavoridos por sobre a desordem que o rodeava. Ergueu-se cambaleando, recahiu n’uma poltrona, escondeu o rosto entre as mãos, e chorou.
Oh! aquellas lagrimas é que não eram infames.
O desgraçado lembrou-se que, cinco annos antes, tinha mãi, e que a prophetica senhora muitas vezes lhe dissera: «Presagia-me o coração que has de ser desgraçado, meu filho.»
—Porque?—perguntava elle.
—Porque tens dezesete annos; sahiste hontem do collegio e já hoje escarneces a religião de teus pais. Assim tão cedo deixaste estragar o coração!... D’aqui a annos, nem por amor do teu nome, nem por calculo, serás honrado!
E, cinco annos depois, e só então, lhe lembraram as palavras de sua mãi!... Era o seu anjo da guarda que as recebera então, e agora lh’as offerecia á memoria, como lenimento unico d’aquella funda ulcera do descredito, desgraça, e infamia.
Na noute d’esse dia, D. Alexandre desappareceu de Coimbra, foi caminho de Lisboa, d’ahi pediu sua legitima a D.Sueiro e sahiu de Portugal. Ha vinte e tres annos que foi, e não voltou.