O Bem e o Mal
X A victoria d’uma creancinha
X
A victoria d’uma creancinha
D. Mafalda de Nellas, voltando de Miranda a Pinhel, trazia a escalavrar-lhe o coração o espinho do despeito. Isto não induz a liquidarmos que a menina amasse o primo D. Alexandre. O despeito das senhoras basta a explical-o a indifferença mesma dos homens que ellas desamam.
Como quer que fosse, Mafalda saira de Miranda, odiando o cunhado de sua irmã, no dia seguinte ao da ida d’elle para Coimbra.
Eis aqui o que ella contou ao pai, logo que chegou:
—Estava eu n’uma das grutas da quinta, quando o primo Alexandre, sentando-se, sem me vêr, nas costas da gruta, deu um grande assobio. Fez-me curiosidade aquillo, e estive quieta para vêr o que sortia d’ali. Pouco depois, chegou um homem de grandes barbas, que eu já tenho visto em nossa casa, em companhia do mano Sueiro.
—Bem sei, o desertor—atalhou o pai.
—É isso: eu já tinha ouvido lá dizer á mana, que elle era desertor.
—E depois?
—Depois o primo, assim que elle chegou, disse-lhe:—Olha que vaes commigo para Coimbra. Está decidido—e o desertor respondeu: «Pois isso é que é preciso!»—Mas vê se aparas essas barbas, que tens cara de facinora—disse o primo—eu tenho medo que, em apparecendo morto o Casimiro, todos digam que foi obra do meu creado.—Eu quando tal ouvi comecei a tremer, e tive medo d’aquelle homem! Quiz dizel-o á mana Guiomar; mas ella falla tão mal do Casimiro e da mana Christina, que julguei imprudente dizer o que ouvira.
—E depois?—atalhou o velho com inquietação.
—Depois, estiveram a fallar em facadas e tiros. E o desertor dizia: «são dous palmos de ferro, fidalgo.» E tirou da algibeira uma navalha, que relusia, e tamanha, meu pai, como eu nunca vi! Ainda disseram mais coisas que não me lembram, e foi cada um para seu lado. Ó papá, elles irão matar o marido da mana Christina? Coitado!... por que é que o matam?
—Dá me papel e tinteiro, e um creado que apparelhe o macho para ir immediatamente a um recado.
Ruy de Nellas escreveu esta carta.
«Sr. Ladislau. Sei que alguem intenta matar em Coimbra o
marido de Christina. Ha tres dias que para ali partiu o assassino ou assassinos. Avise-o como seu amigo, para que se acautelle, ou se retire. Eu aborreço os infames, e as vinganças covardes: por isso me apresso a participar-lhe este plano, que oxalá não esteja executado, quando chegar a sua carta. Espero em Deus que não. Do seu amigo, Ruy de Nellas.»
O creado partiu a toda a brida.
Ladislau leu a carta em suores frios. Escreveu duas linhas de agradecimento a Ruy, e preparou-se para ir a Coimbra. Acaso entrára o vigario, e, lendo a carta, impediu de ir, allegando que o correio chegava primeiro.
Padre João e seu cunhado, sabiam os successos de Coimbra, e, sem se consultarem, nomearam D. Alexandre.
—Casimiro está vivo—disse com firmeza o padre.
—Quem n’ol-o assevera?!—perguntaram Peregrina e Ladislau.
—É o raciocinio. Alexandre é incapaz de matar de rosto ou á traição. Precisamente leva um sicario assalariado que eu conheço ha dez annos. Os faccinoras por estipendio são muito covardes, porque amam tanto a vida que, para sustental-a se expõem a perdel-a. Se D. Alexandre offendido vergonhosamente carece de animo para se desaffrontar, devemos crêr que ao carnifice alugado falte a coragem para accommetter o homem que o não offendeu. Além de que eu vou jurar que Casimiro se prepara contra as insidias do seu inimigo, e terá só de pelejar com um homem. Sobre todas essas conjecturas, roguemos a Deus pela vida do nosso amigo, e escreve-lhe a chamal-o em termos, que não assustem Christina.
Escreveu Ladislau a carta copiada no anterior capitulo; e, no dia seguinte, sahiram de Villa Cova, e, á segunda jornada, pernoitaram em Gouvea. Dous dias depois chegaram Casimiro e Christina.
A esposa de Ladislau, para abraçar sua comadre, pousou sobre o leito a creancinha que lhe adormecêra ao seio.
Christina, porém, como se não visse o fervor da amiga, ajoelhou á beira do leito, e beijou soffregamente o menino, que sorria aos affagos de algum anjo. Era bello de verem-se todos cinco, em redor da creança, como se para outro fim se não reunissem! Parece que ella lhes estava dizendo: «Distrahi vosso espirito de dores, que eu estou pedindo a Deus que vos defenda.»
Peregrina pôde furtar as caricias de Christina, tomando-a para si com força.
—Estava a invejar-te, minha comadre!—disse a esposa de Casimiro—mas olha, não devo invejar-te, não!...
E disse-lhe ao ouvido breves palavras, explicadas pela exclamação de Peregrina:
—Sim? e não m’o tinha dito!... que ditosas seremos com os nossos filhinhos!
O vigario sorriu-se, e murmurou:
—Não ha creanças mais creanças que as mães! Estas alegrias raras vezes lh’as recomeçam depois os filhos!...
Casimiro concentrou-se tristemente, e Christina disse:
—Não fallem em mãe diante de meu marido, por quem são!
—Fallem, fallem—disse Casimiro—que eu tenho de encontral-a no ceu pelo muito que a desejei n’este mundo.
E, tomando o braço de Ladislau, chegou a uma janella, e perguntou:
—Que é isto? Que significa esta chamada?
—Não m’o pergunte diante de sua senhora.
—Porque não? ella é forte. Se um dia me fraquearem os esteios da honra, minha mulher ha de fortalecer-m’os. Diga, meu compadre.
Ladislau mostrou a carta de Ruy de Nellas; e Christina, ouvindo-a ler, exclamou:
—Não te disse eu?... Era o desertor ou não?
—Era o desertor—respondeu o vigario.
—Pois sabia?—acudiu Christina.
—Disse-m’o a razão e a pratica dos valorosos barões de Miranda. V. ex.ª viu-o?
—Vi: mostrou-m’o o nosso anjo da guarda!... E meu pai é que te avisa, Casimiro! Quem me déra poder beijar-lhe a mão!
—Seu pai é um homem de bem ás direitas, minha senhora—disse o vigario—Seria um modêlo de virtuosos, se os preconceitos de raça o não molestassem. Porque não ha de v. ex.ª ainda beijar-lhe a mão? Esperemos.
—E agora?—disse Casimiro—que querem de mim? Será airoso que eu me vá esconder a Villa Cova das iras de D. Alexandre?
—É dever de marido e pai fugir o perigo—disse Ladislau— Sabemos que lhe sobra animo; porém agora, quer-se e requer-se que o coração seja maior que o animo. Sua senhora manda; o vigario aconselha; e minha mulher e eu rogamos. Falta-lhe paciencia para viver alguns mezes na tristonha casa da serra? É assim ingrato áquella terra agreste onde desabrocharam todas as flores da sua felicidade, meu compadre?!
—Ó meu amigo, meu generoso irmão!—exclamou Casimiro, nos braços de Ladislau—Vamos, vamos para Villa-Cova. Lá sei eu que tenho segura a vida, a alegria, e sempre viçosas as flores de felicidade, que se abriram no seu nobre coração, e para mim! Não é covardia fugir. Covardes são os que não tem uma esposa, e fogem; covardes são os que não tem amigos como vós, e fogem!
—E no filhinho não fallas?—disse Christina sorrindo-lhe com incantadora meiguice.
—Não o disse eu!—acudiu o vigario—Agora, quer s. ex.ª que todo o coração de seu marido esteja embebido do futuro filhinho! Valha-vos Deus, mães loucas do amor de vossos filhos, que sois capazes de ceder do coração dos maridos em beneficio dos pequerruchos, anjos purissimos a quem basta o bafejo do Senhor!
N’estas doces praticas, que eu, a mêdo, submetti á benevolencia do leitor, se passaram as horas do descanço, até ao repontar da alva, em que proseguiram sua jornada. Lá vão os felizes, escoltados por suas mesmas virtudes.
Entretanto, recebeu D. Alexandre de Aguilar a nova de ter sahido de Coimbra Casimiro Bettancourt, e o mesmo foi assoalhar, mediante alguns necessitados de sua recheada bolça, que o furriel se evadira, sabendo que ia ser desafiado a duello de morte. Correu o boato, justificado por circumstancias: a precipitação da sahida, o estarem abertas as aulas, o ignorar-se o intento da retirada, o ter dito Casimiro, na vespera, que procurava casa em Coimbra, tudo induzia a crer a atoarda molesta á reputada intrepidez do militar.
A Vedeta da Liberdade, jornal portuense, publicou uma correspondencia de Coimbra, em que se dizia em grypho: que um estudante militar, appellidado Bettancourt, fugira com a mulher para se não bater com D. Alexandre de Aguilar, academico brioso, a quem, no anno anterior, insultára. E accrescentava: O tal militar é avezado a fugas: uma vez fugiu com a filha d’um nobilissimo cavalheiro, onde seu tio carpinteirava agora; fugiu com as costellas incolumes, porque o tio carpinteiro não sabe endireitar costellas quebradas.
O jornal appareceu em Villa Cova subscriptado, a Casimiro de Bettancourt.
Casimiro leu a correspondencia em voz alta.
E Ladislau perguntou:
—Que é isso?
—É uma gazeta—disse o vigario.
—Uma gazeta?—reperguntou Ladislau.
—Sim.
—Mas... (desculpem a minha ignorancia...) como se faz isso?
—Isso que, meu irmão?
—Como se estampam esses insultos?
—Estampam-se.
—Então...—estou confuso, e vejo que me não percebem...—as gazetas servem de insultar? quem quer infamar alguem vai a casa do homem, que tem esse modo de vida, e diz-lhe: «imprima lá esse insulto», é isto?
—É isso—illucidou o padre—com o accrescento de que o dono do jornal recebe tanto por linha do insulto publicado.
Ladislau ergueu-se com nunca visto impeto de furia, e exclamou:
—Então isso é infame! e a civilisação que isso consente é a barbaria, é o escarneo de Deus e das leis de nosso paiz!
Casimiro sorriu, e disse:
—A indignação de meu compadre tem graça!... A que distancia este bom rapaz vive do mundo culto! Quer elle, talvez, que a civilisação esteja em Villa Cova, e a barbaria em casa do jornalista!... A gazeta, meu querido amigo, tem outra face, que o sr. vigario lhe não mostrou, e é que, se eu quizer insultar d’aqui D. Alexandre de Aguilar, o mesmo dono da gazeta me vende o espaço de seu papel, e imprime o meu insulto; e, no dia seguinte, vende o mesmo espaço para o louvor de D. Alexandre e meu. O dono d’este papel é como a estatua em que Aretino fixava as suas vaias aos reis e aos papas, n’um tempo em que papas e reis eram cousas sacratissimas e inviolaveis. Agora, que não ha nada defêso, com que direito me hei de eu queixar? Não me alistei eu no exercito que defende as instituições livres?! Seria paradoxo gritar eu contra uma alavanca do progresso, chamada nem mais nem menos que «Vedeta da liberdade»! Os homens livres passam deante da estatua de Pasquino, e descobrem-se. Assim como a discussão racional e illustrada aclara as escuridades e aplana os empeços da ideia util, por igual razão as injurias á pessoa, os ataques á moral de cada individuo servem de o abrir, á luz da analyse, e ver tudo o que elle lá tem dentro do coração e consciencia. A licença da imprensa é uma inquisição: em lugar de fogueiras tem atoleiros de lama. Das chammas do auto-de-fé sahiram almas purificadas, no crer de alguns theologos; e da alma da imprensa desbragada devem sahir as consciencias lavadas, no entender de alguns legisladores. Sejamos do nosso tempo, meu compadre.
—Pois, sim—disse Ladislau—mas deixe-me render louvores a Deus por me ter dado o nascimento n’estas serras! Eu não cuidei que era assim o mundo. N’este ultimo anno quantas paixões más que eu não conhecia! Meu mestre decerto as ignorava; senão, ter-m’as-ia dito. Os meus livros tambem m’as não disseram...
—É por que os seus livros são bons—atalhou Casimiro Bettancourt—A corrompida sociedade da Roma imperial não tinha gazetas; mas tinha historiadores e poetas. Se meu compadre os ler, imagina que maus inventores o querem deleitar com fabulas hediondas. O homem foi sempre mau; será mau até ao fim. A sociedade parece melhor do que foi, olhada collectivamente: é parte n’isto a lei, e grande parte o calculo. Cada individuo se constrange e infrea no pacto social para auferir as vantagens de o não romper: porém, o instincto de cada homem, em communidade de homem, está de continuo repuchando para a desorganisação. Eu acceito, como puros os corações formados na solidão, a não se dar a segunda hypothese do proverbio, que disse: homem sósinho, das
duas uma: ou Deus ou bruto[4]. Melhor seria dizer, com Santo Agostinho, ou anjo ou demonio. Ladislau formou-se aqui, rescende virtudes extraordinarias; mas, se fôr ás cidades, á feira dos vicios, sentirá coar-lhe um veneno corrosivo nas entranhas; e, a meia volta, perderá de vista a benigna estrella d’estas suas montanhas. Ó meu amigo, não se alongue do seu paraizo! não queira saber que nome tem, a dez leguas da sua aldeia, o que meu compadre chama dever, civilisação, amor, caridade e Deus.
Os gosos da vida domestica aligeiravam os mezes da inactividade de Casimiro. Ao quinto de residencia em Villa Cova, realisou-se a ventura saudada por Peregrina na estalagem de Gouvea: Christina foi mãi de uma menina, que trouxe do céu o seu quinhão de felicidade, do qual todos participaram.
Queria o pai que Ladislau e Peregrina fossem padrinhos; mas o vigario, consoante as velhas praxes de filhos casados contra vontade paternal, pediu que fosse convidado o avô, por carta de D. Christina.
Escreveu ella com humildade sem baixeza uma carta, onde se lia este periodo:
«É uma ternura filial que me anima a escrever a meu pai:
não é a necessidade que me obriga. Se sou pobre, ainda não tive occasião de sentir desejos de ser rica. O perdão de meu pai é que eu desejo e peço, se foi delicto o acto que está sendo a minha felicidade. Quizera um dia beijar as mãos de meu pai e dizer-lhe que tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex.ª como esposa de Casimiro.»
Foi lida a carta e discutida. O vigario achou duras algumas palavras d’aquelle relanço, e pediu a illisão das palavras: «se foi delicto o acto que está sendo a minha felicidade»; bem como: «tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex.ª como esposa de Casimiro.» As primeiras palavras foram substituidas: as ultimas não. Christina nem ao marido obedeceu.
Ruy de Nellas recebeu a carta, e leu-a sem rancor até ás expressões rebeldes á censura do vigario; mas, n’este ponto, rasgou o papel e disse ao portador:
—A resposta é esta: diz lá que eu é que não tenho vaidade nenhuma em ser padrinho de um filho do sr. Casimiro.
Tal resposta magoou medianamente a familia de Villa-Cova.
—É soberbo!—disse Ladislau.
—Preconceitos de raça—acrescentou o vigario.
—Não tem outra falha a excellente alma do sr. Ruy.
—Pois ha de ser padrinho da neta!—tornou Ladislau.
—Que capricho é esse, meu compadre?—perguntou Casimiro.
—Não é capricho: é batalha dada contra a soberba: havemos de amolgal-a com a brandura.
Na segunda dominga, posterior ao nascimento da menina, sahiu, ante-manhã, de Villa Cova Ladislau, uma ama de leite, e a creancinha. Chegaram a Pinhel ás nove horas, e elle entrou á igreja parochial, onde, por informações de mestre Antonio carpinteiro, Ladislau soubera que o fidalgo ia ouvir missa. A ama sentou-se no adro, e esperou, rodeada de meninos, que se acotovellavam para ver o rosado rosto da baptisanda.
Ladislau apresentou-se ao abbade, com uma carta do padre João Ferreira, e conversaram.
Ás dez horas tangeu a sineta á missa, e chegou o fidalgo com suas filhas, e foram ajoelhar na alcatifa da sua capella privativa. Antes do terceiro toque, o abbade aproximou-se de Ruy de Nellas, e disse-lhe:
—Faz v. ex.ª a esmola de fazer christã uma creancinha?
—Sim, abbade, pois não!
—E de escolher a madrinha?
—Será minha filha Mafalda.
Chamou elle a menina, e acercaram-se do baptisterio.
A ama entrou com a creança, chamada pelo sachristão.
A um lado, estava Ladislau com uma tocha, escondendo-se ao lance d’olhos de Ruy de Nellas.
Ao descobrimento da menina, Mafalda exclamou:
—Ai! tão linda que é!... Veja, papá! Ó manas, venham ver que perfeição!...
—Quem são os pais?—disse o fidalgo.
O abbade, como tivesse começado as ceremonias do sacramento, não respondeu; e, pouco depois, perguntou:
—Qual é o nome?
—É o meu—disse Mafalda.
Findo o acto, foram á sachristia lavrar no livro o assento baptismal.
O abbade escreveu á vista dos apontamentos, e leu depois para conhecimento dos padrinhos:
«Mafalda, natural de Villa-Cova, termo de Pinhel, filha legitima de Casimiro Bettancourt, natural de Santarem, e da ill.ᵐᵃ e ex.ᵐᵃ sr.ª D. Christina Elisiaria de Nellas Gamboa de Barbedo»...
—Como?!—exclamou o fidalgo—Como se intende isto? Que abuso foi este, sr. abbade?!
Ladislau sahiu do escuro da sachristia, e disse:
—O abuso é meu, sr. Ruy de Nellas. E v. ex.ª não me castiga, porque eu vou pôr em seus braços a creancinha a implorar o meu perdão e o de sua mãi.
E tomou a menina dos braços da ama, e depositou-a nos da madrinha, dizendo-lhe:
—Seja v. ex.ª a intercessora de sua irmã!
—Dê-lhe um beijo, papá! rogou maviosamente D. Mafalda.
O velho poz a mão na face da creança, e disse:
—Não tens culpa tu, pobre innocente!...
E o abbade continuou a leitura do assento baptismal, sorrindo, e olhando por cima dos oculos, para ver Ruy de Nellas, que deixava chupar-lhe a creança no dedo mendinho.
Ao sahirem da sachristia, o fidalgo disse á ama da creança.
—Vá lá a casa, depois da missa, mulher, e o sr. tambem se quizer.
Ladislau fez um signal de agradecimento.
Finda a missa, a menina foi levada a casa do avô. As quatro tias deram inquietações á ama, temerosa de que lhe abafassem a creança com beijos.
Entretanto, Ladislau contava a Ruy de Nellas os successos de Coimbra e os aleives da correspondencia da «Vedeta da Liberdade».
O velho ouviu-o em silencio; mas com ar de satisfação, em quanto aos brios de seu genro no justo castigo de Alexandre; porém, quando soube que as gazetas traziam o seu nome aparelhado com o do carpinteiro, irritou-se, e clamou:
—Quando pensei eu de andar pelas gazetas!... É o que minha filha me arranjou!...
Este accesso durou alguns segundos.
Continuaram a conversar serenamente. Eram horas de partir para Villa-Cova. O fidalgo mandou entrar a afilhada, e deu-lhe um beijo, e duas peças á ama.
E—caso unico!—apertou a mão do lavrador de Villa-Cova, e disse-lhe por ultimo:
—O tempo fará o resto. É cedo por ora! A ferida sangra ainda!
—O balsamo do Evangelho, sr. Ruy de Nellas...—respondeu Ladislau, sahindo.