O Bem e o Mal

Camilo Castelo Branco · Capítulo 12 de 22

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O Bem e o Mal

XI Guilherme Lira

XI

 

Guilherme Lira

 

Seria ocioso, bem que alegre trabalho, contar os jubilos de Christina, retomando ao seio a filha, que seu pai e irmãs tinham beijado. Casimiro, homem não estranho a vanglorias, que parecem ser condição das indoles arremessadas ás glorias uteis, folgava de ver sua filha acariciada pelo fidalgo, cuja prosapia, o moço, nas verduras dos dezoito annos, sinceramente invejava. Ó barro humano!

Disse Ladislau que Ruy approvára a sahida de Coimbra, e esperava que o anno decorrido esfriasse a vingança de D. Alexandre, estando elle de mais a mais como vingado, fazendo crer que lhe fugia Casimiro. Era tambem este o parecer do vigario e de Ladislau. Casimiro, ainda assim, dizia contrariando:

—Não, meus amigos: o odio dos fracos é inextinguivel; é a unica força, a energia tenebrosa, que lhes deu a natureza.

No seguinte anno lectivo, voltou a Coimbra, com maior familia, o pobre grangeador do futuro. Doia-lhe ter de augmentar suas despezas, sahidas todas dos celleiros de Villa-Cova. Era grande magoa para o aberto coração de Ladislau entender em pacificar o espirito do seu amigo, fazendo-lhe sentir que escassamente lhe emprestava uma parte das sobras de suas colheitas. E santamente mentia Ladislau! A sua lavoura, comquanto grande, era toda de cereaes, vendidos por baixo preço, e urgentes ao consummo e vestir de sua familia. O que elle estava dispendendo era dinheiro antigo, que encontrára, ouro do seculo XVI, peculio amuado ao canto do armario de pau santo, em que seus tios padres iam annumerando algumas moedas, muitas menos que as derramadas pela pobreza.

Lembrava-se Christina de escrever ao pai, a pedir-lhe sua legitima materna. Casimiro, antes que ella expendesse o seu pensamento, atalhou-a n’estes termos:

—Sendo preciso, iria primeiro pedir a meu tio carpinteiro metade do seu estipendio de cada dia.

Peregrina, sabedora do intento, revelara-o ao marido.

Ladislau, a sós com a filha de Ruy de Nellas, queixou-se, observando-lhe que era crueldade obrigal-o a faltar á sua palavra, tendo elle dito a Ruy de Nellas que sua filha e marido nunca lhe pediriam meios de vida.

Os raros amigos de Bettancourt, assim que o viram em Coimbra, repetiram-lhe as calumnias divulgadas, fingindo não acredital-as. O mais sincero e rude ousou dizer-lhe:

—Déste um mau passo em fugir.

—Não fugi. O amigo, a quem devo a minha subsistencia em Coimbra, chamou-me, e eu fui.

—Não devias ir, tendo sido desafiado por D. Alexandre.

—Nunca fui desafiado.

—Como não foste!?

—Nunca fui desafiado; e, no caso de o ter sido, regeitaria a proposta. Não jogo friamente a vida, que é de minha mulher e de minha filha, contra a vida de D. Alexandre, que é um homem abjecto, nem contra a vida do mais extremado em probidade. Nunca para mim alguem provará a sua honra, batendo-se com victoria, nem o vencido terei em conta de deshonrado. O duello póde significar algumas vezes coragem, mas sentença absolutoria de um infame, nunca.

—Mas decididamente não fugiste ao duello?

—Offende-me a renitencia—respondeu Bettancourt molestado.

—Desculpa, que é a renitencia de um amigo zeloso de tua dignidade. A academia acreditou em D. Alexandre e nos propagadores do boato. Appareceram homens a dizerem que tinham sido agentes do desafio.

—Mentiram.

—Mas a mentira vingou.

—Estou resignado: já a vi impressa n’um jornal, e achei-me forte na minha consciencia.

—Mas a opinião publica...—voltou o academico, espicaçando, em nome da opinião publica, o animo impenetravel do marido e pai.

—Que queres que eu diga á opinião publica?

—Que a desmintas: escreve uma correspondencia.

—Não desço.

—Descer! pois é descer acudires por tua honra!?

—Se a consciencia me não accusa, que logro eu em constituir a academia meu juiz? Além de que, meu amigo, eu venho estudar. Falta-me o tempo para o util: como hei de eu ir dispendêl-o a entreter a curiosidade publica? Diz aos teus amigos que eu sou calumniado, e elles julguem-me a seu sabor.

—Faz o que quizeres: dou por cumprida a minha missão de amigo.

 

Christina vivia tranquilla. Ladislau, que lançara espias em Miranda, soubera que D. Alexandre sahira para Coimbra, e o desertor ficára. A nova agradou a Casimiro, receioso dos sustos da senhora.

Recomeçou o academico os estudos do segundo anno com fervor. Sabia que seus mesmos condiscipulos o detrahiam, lamentando, como usam lamentar inimigos, a nodoa da farda de um militar. O facto estrondoso do botequim da rua Larga tinha esquecido, ou era interpretado de varios modos, todos estupidos; que a malquerença faz timbre em ser estupida, quando não póde ser feroz. Todavia, a frechada não lhe vasava ao coração. O pai extremoso abroquellava-se com a filhinha, e dizia á esposa:

—Sêde o meu mundo. Aos teus olhos sou quem sou, minha amiga. Infamam-me lá fóra; mas diz-me tu, filha, que eu sou digno de ti.

N’um sabbado ao cahir da tarde, passaram á Ponte, vindos da Quinta das Lagrimas, Casimiro, e sua mulher.

D. Alexandre de Aguilar estava sentado com numerosos estudantes nas guardas da ponte. Ao perpassar Casimiro, o fidalgo de Miranda tossiu aquelle grunhido peculiar do insulto. Os academicos de sua parcialidade, em respeito á dama, abstiveram-se de acompanhar o amigo na trossa.

D. Alexandre, desenfreado como costumam os covardes no momento em que persuadem-se não o serem, disse:

—Não se envergonha aquella dama! Que ostentação e baixeza d’alma.

Christina ouviu. O que o amor nobre faz d’uma alma timida! Voltou-se contra o parente, e respondeu:

—É muito infame!

—Silencio!—disse Casimiro, apertando-lhe convulsivamente o braço.

D. Alexandre expediu uma cascalhada; e os academicos, indifferentes ao conflicto, disseram-se:

—Com effeito! é muito covarde o Bettancourt, que deixa assim insultar a mulher! Comprehendam lá a decantada historia do botequim!

Na extremidade da ponte, estava o academico, já conhecido por seus dialogos com Casimiro. O marido de Christina aproximou-se d’elle e disse-lhe:

—Conserva-te aqui um instante ao pé de minha mulher, que eu volto já.

—Não!—exclamou Christina.

—Christina—disse elle com um aspecto, que a esposa nunca lhe vira.

E caminhou ao longo da ponte, sem denotar arrebatamento na serenidade do passo.

Os academicos do bando de D. Alexandre disseram:

—É elle que vem!

O fidalgo desceu-se da guarda como quem se prepara a receber o aggressor. Não era isso. O mêdo pesa como chumbo na região abdominal. Foi o gravame do mêdo que mecanicamente o desceu.

Casimiro lançou-lhe a mão esquerda á garganta, e com a direita levou-lhe a cabeça a aresta da guarda.

Depois como o atordoado fidalgo escouceasse os couces instinctivos da defeza, o aggressor abarcou-o pela cintura, no proposito de o despejar ao Mondego. Acudiram-lhe muitos, sem, comtudo, arremetterem contra o furriel. Casimiro sentiu nas barbas mão estranha. Olhou com impetuosa furia, e viu Christina, que punha as mãos supplicantes. Descurvou os dedos da garganta do estudante, e deu o braço a sua mulher. Pelo ar quieto, com que elle sahiu ao fim da ponte haviam de imaginar que o sujeito acabava de abraçar um amigo!

Grande parte da academia parecia andar envergonhada depois d’este successo. Os detraidores, chamados por algum amigo de Bettancourt, a dizerem ácerca do facto, corriam-se, e gargarejavam o desmentido, que os suppliciava.

O academico, mais dolorido do descredito de Casimiro, seguiu-lhe os passos a casa, abraçou-o com transporte, e exclamou:

—Tu és um grande homem!

—Vem vêr minha filhinha como dorme docemente!—respondeu Casimiro.

—Que dirão agora os calumniadores?—tornou o academico.

—Que eu sou um assassino.

—Um bravo! um modêlo de dignidade.

—Como quizerem. Vem ver minha filha, se gostas de creancinhas.

Foram. A mãi, que, uma hora antes, sentira denodo viril para aggredir o insultador, estava agora chorando sobre as faixas da filhinha. Casimiro aconchegou-a de si e murmurou:

—Então? que é isso, filha?

—Tremo pela tua vida, Casimiro!

—Convence-te, Christina: eu não posso ser morto por D. Alexandre, nem por assassinos de sua paga.

O fidalgo dos Vitos Alarcões tractou da cabeça na cama uns quinze dias: parece que o granito lhe entrou dentro obra de meia pollegada, sendo que em tal cabeça nunca tinha penetrado cousa alguma outra. Fechada a brecha, metteram-se as ferias de Natal, e o convalescente foi para casa.

Ladislau, sempre attento aos passos do desertor, soube que chegara a Miranda D. Alexandre de Aguilar, de cujo infortunio na ponte já estava informado por carta de Christina, que incessantemente lhe pedia toda a vigilancia sobre o scelerado.

D. Sueiro deu logo tento da cicatriz da cabeça fraterna, e disse:

—Levaste ou cahiste, mano?

—Cahi do cavallo.

—Bom tombo! ias ficando sem um olho! Estás um limpo cavalleiro, não tem duvida!

E ficaram n’isto; mas as familias d’outros academicos de Miranda, de bocca em bocca, fizeram chegar ás orelhas de D. Sueiro de Aguilar a rija sova, que levara o irmão.

O senhor dos Coutos de Fervença e Caçarelhos Estevães e Villariça disse ao irmão:

—Como assim?

—Assim quê?—perguntou D. Alexandre.

—Corre que essa cicatriz foi bordoada que levaste! Foi ou não?

—Foi desordem: dei e levei.

—E ficaste mal?

—Fiquei ferido; mas sem deshonra. O adversario era valente como as armas.

—Quem?

—O marido de tua cunhada.

—O villão? E vive!...

—Por em quanto... vive.

—De que serve aqui o Ayrão?

Ayrão era a graça do desertor.

D. Sueiro acrescentou:

—Leva-o, e mostra-lh’o. Acabemos com isto de uma vez... Estou a ver quando o tio Ruy de Nellas recebe o genro em casa. Já lhe baptisou o filho, e, escrevendo a Guiomar, fallou-lhe de Christina com piedade. O tio Ruy degenerou. Se viver muito, ha de envergonhar-nos.

 

Foi para Coimbra D. Alexandre.

Ladislau recebeu a ponto a informação: o desertor ficára. Avisou-o de Villa-Cova. Christina exultou; mas, seis dias depois, recebeu novo aviso: o sicario partira aforrado, e em disfarce. A pontualidade d’estas informações deviam-se a um jornaleiro de Villa-Cova, o qual, industriado por Ladislau, fôra a Miranda pedir trabalho á casa dos Alarcões, e lá ficára servo de lavoura.

D. Alexandre concertára o plano do homicidio, com estupido ardil: já se lhe não dava que se lhe imputasse a morte de Casimiro; e, para desviar suspeitas de braço estranho, escondia o matador em casa.

Ayrão entrou de noite, e sumia-se de dia nos quartos escusos da casa. Os frequentadores dos jantares de D. Alexandre guardavam delicada reserva ácerca da desgraça do mez anterior. O amphitrião é quem, uma vez por outra, dizia:

—Tenho sêde de sangue!

Ou, bebendo até cahir, exclamava:

—Á saude do assassino, que ha de vingar a honra de vinte gerações de fidalgos de solar conhecido!

Defronte de D. Alexandre morava o estudante de direito Guilherme Lira.

Lira foi o mais esforçado e turbulento academico dos seis annos subsequentes á restauração da liberdade. Presidiu á famigerada

«Sociedade da Manta»[5]. Era o pau mais valente do riba-Tejo, e o mais figadal inimigo de poltrões.

Do fidalgo de Miranda tinha elle nojo, nojo favoravel ao covarde; se fosse odio, tel-o-ia desorelhado.

Observou Guilherme Lira que em casa do visinho D. Alexandre estava um homem de cara sinistra, o qual se escondia no escuro da casa assim que nas janellas fronteiras assomava gente. Lira espreitou, e viu-o, accendendo o cachimbo no charuto do amo, e gesticulando com aquelle especial geito das féras humanas, vesadas ao tracto da taverna, da feira, e da encruzilhada.

Guilherme sympathisava d’alma com Casimiro Bettancourt. Depois do facto da ponte, estando elle com o seu bando de bravos na Calçada, viu Casimiro, que vinha com sua esposa. Lira sahiu da roda, foi á frente do furriel, e disse, com os olhos em Christina:

—Dê-me v. ex.ª licença que eu abrace seu marido.

E pegou d’elle ao alto soffregamente, exclamando:

—Que pena que tu sejas casado, homem de figados, que te queria entregar o macête da minha loja!

Casimiro sorriu, agradeceu, e apertou-lhe affectuosa e modestamente a mão.

Isto explica a espionagem de Lira, e o aventar de prompto que o ignobil visinho traçava a morte de Casimiro.

Foi logo d’alli em procura do estudioso mathematico, e disse-lhe:

—Olha que o covarde tem uma besta-féra em casa. Estuda socegado, que eu te guardarei, porque não estudo, nem tenho que fazer.

—Agradeço—disse Casimiro—mas, em verdade te juro que não temo a besta-féra.

—Bem sei, rapaz, bem sei; mas o que eu te venho dizer é que não penses mesmo no modo de a mandar ao diabo. Isso cá se arranja. Adeus: não te quero roubar tempo.

Descubriu Guilherme que D. Alexandre sahia de noute, e com elle outro academico sobre quem a capa mal ageitada ia delatando a contrafacção.

Fez-se Lira encontrado com elles, metteu-lhes a cara, e reconheceu o assassino, sob o disfarce de estudante.

A traça do homicidio era desesperada. Como Casimiro passava as noutes estudando, Ayrão lembrara il-o matar em casa. O rancor applaudiu o alvitre, e accelerou a execução. D. Sueiro esporeava de lá os brios do mano e pasmava da demora.

Descubriu Lira que os visinhos por volta de dez horas paravam á sombra do Arco, que faz a extrema da Couraça dos Apostolos, onde morava Casimiro, e depois subiam distanceados a calçada, e o mais corpulento, que era o disfarçado, contra-punha de leve o hombro a uma porta de quintal, ou remirava a janella alumiada pelo clarão do candieiro, ao qual Casimiro estudava até duas horas da manhã.

As portas apalpadas não davam de si; arrombal-as com estrondo seria derrancar o plano.

Accudiu nova idéa ao homicida: chamar Casimiro á janella, e desfechar-lhe um tiro.

Reflexionou D. Alexandre, e previu que a opinião publica havia de reprovar o covardissimo feito.

Regeitou, por tanto a idéa, e reforçou-se na do assalto.

Casimiro Bettancourt ignorava o que ia cá fora em sete noutes successivas. Guilherme achou inutil avisal-o. Queria elle egoistamente para si a cabal satisfação de castigar os miseraveis, sem incommodo do estudante. A muito custo se refreára, durante as sete noutes, á espera de lhes comprehender o intento, e cahir sobre elles no momento de o praticarem.

Guilherme Lira desvellava-se e preoccupava-se d’esta catastrophe, como se vida de pai, irmão, ou amada corressem perigo!

Sublime doido! Sympathica loucura!