O Círculo

Dave Eggers · Capítulo 1 de 2 · parte 1/7

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O Círculo

Livro II

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

Era uma criatura bizarra, fantasmagórica, vagamente ameaçadora, que não

parava nunca, mas ninguém que se visse diante dela conseguiria desviar os

olhos. Mae estava hipnotizada por ela, por sua forma cortante, suas barbatanas

semelhantes a lâminas, sua pele leitosa e seus olhos de lã cinzenta. Sem dúvida

era um tubarão, tinha seu formato característico, seu olhar malévolo, mas era de

uma espécie nova, onívoro e cego. Stenton o havia trazido de sua viagem à Fossa

das Marianas, no submersível do Círculo. O tubarão não era a única descoberta

— Stenton havia trazido águas-vivas, cavalos-marinhos, arraias-jamantas, todos

até então desconhecidos, todos quase translúcidos, etéreos em seus movimentos,

todos expostos numa série de aquários enormes que ele havia construído, quase

que do dia para a noite, para abrigá-los.

As tarefas de Mae eram mostrar os animais aos visitantes, explicar quando

necessário e ser, por meio da lente que trazia pendurada no pescoço, uma janela

para aquele mundo novo e para o mundo do Círculo em geral. Toda manhã, Mae

punha um colar, muito parecido com o de Stewart, só que mais leve, menor, e

com a lente em cima do seu coração. Ali, ela apresentava a imagem mais clara e

mais ampla. A câmera via tudo o que Mae via e até mais. A qualidade do vídeo

era tamanha que o público podia dar um zoom ou uma panorâmica, congelar ou

realçar a imagem. O áudio havia sido cuidadosamente projetado para focar nas

conversas mais próximas, registrando qualquer som ambiente ou quaisquer

vozes de fundo, porém mantendo-os em segundo plano. Em essência, significava

que todo ambiente em que Mae estivesse podia ser escaneado por qualquer um

que estivesse assistindo; os espectadores podiam concentrar o foco em qualquer

ponto e, com algum esforço, isolar e ouvir qualquer outra conversa.

Era possível obter informações sobre todas as descobertas de Stenton a

qualquer minuto, porém o animal pelo qual ela e seu público mais se

interessavam era o tubarão. Mae ainda não tinha visto o tubarão comer, mas

diziam que era insaciável e muito rápido. Embora cego, localizava

imediatamente seu alimento, fosse grande ou pequeno, fosse vivo ou morto, e o digeria com uma velocidade alarmante. Num instante, um arenque ou uma lula

eram jogados no tanque do tubarão e poucos momentos depois o tubarão

depositava no fundo do aquário tudo o que havia restado do animal — uma

minúscula substância acinzentada, semelhante a um punhado de cinzas. Esse ato

se tornava ainda mais fascinante em função da pele translúcida do tubarão, que

permitia uma visão desimpedida de seu processo digestivo.

Mae ouviu um aviso em seu fone de ouvido. “Horário da alimentação do

tubarão adiado para 1h02”, disse uma voz. Agora eram 12h51.

Mae olhou para o corredor escuro, para os outros três aquários, cada um

ligeiramente menor do que o anterior. O salão era mantido inteiramente às

escuras, sem iluminação, a fim de ressaltar melhor os aquários de um azul muito

vivo e as criaturas brancas e nebulosas em seu interior.

“Agora vamos passar para o polvo”, disse a voz.

O principal feed de áudio, do Guia Adicional para Mae, provinha de um fone

minúsculo e permitia que a equipe do Guia Adicional lhe fornecesse orientações

eventuais — sugerir que parasse a Máquina do Tempo, por exemplo, e mostrasse

a seu público um novo drone, movido a energia solar, capaz de percorrer

distâncias ilimitadas, atravessar continentes e oceanos, contanto que ficasse

devidamente exposto ao sol; Mae já fizera a mesma visita antes, naquele dia.

Uma boa parte de seu dia era tomada por aquilo, o tour por diversos

departamentos, a apresentação de produtos novos, feitos no Círculo ou

patrocinados pelo Círculo. Aquilo assegurava que cada dia fosse diferente do

outro. Nas seis semanas em que estava transparente, Mae tinha sido exposta a

quase todos os recantos do campus — desde a Era das Grandes Navegações até o

Antigo Reino, onde estavam trabalhando, mais por diversão do que qualquer

outra coisa, num projeto para prender uma câmera em todos os ursos-polares

remanescentes.

“Vamos ver o polvo”, disse Mae aos espectadores que a seguiam.

Mae passou para uma estrutura circular de vidro com quatro metros e oitenta

centímetros de altura e três metros e meio de diâmetro. Dentro, uma criatura

pálida e sem espinha, cor de nuvem, mas dotada de veias azuis e verdes, sondava

o ambiente, tateando e agitando os braços, como um homem quase cego que

procura seus óculos às apalpadelas.

“Esse é um parente do polvo telescópio”, disse Mae, “mas nunca tinham

capturado um exemplar vivo.”

Seu formato parecia se modificar continuamente, ora semelhante a um balão

ou bulbo, como se inflasse a si mesmo, confiante e aumentado, ora se encolhia,

se alongava, se esticava, se espraiava, incerto de sua forma verdadeira.

“Como podem ver, é muito difícil definir seu tamanho real. Uma hora parece que dá para a gente colocá-lo na palma mão. No minuto seguinte, ele ocupa

quase todo o espaço do tanque.”

Os tentáculos da criatura pareciam querer conhecer tudo: a forma do vidro, a

topografia do coral que estava embaixo dela, a sensação da água à sua volta.

“Ele é quase afetuoso”, disse Mae, vendo o polvo se esticar de uma parede à

outra, se alastrando como uma rede. Algo na sua curiosidade lhe conferia uma

presença sensível, repleta de dúvida e de carência.

“Stenton achou esse aqui primeiro”, disse Mae sobre o polvo, que agora se

elevava do chão, devagar, com ostentação. “Veio de trás do submersível e

disparou na sua frente, como se pedisse para ser seguido. Vocês podem ver

como ele deve ter se movido depressa.” O polvo agora estava se inclinando

dentro do aquário, impelindo o próprio corpo em movimentos semelhantes a um

guarda-chuva que abre e fecha.

Mae viu que horas eram. 12h54. Tinha alguns minutos para matar o tempo.

Manteve a lente voltada para o polvo.

Mae não tinha a menor dúvida de que todos os minutos de todos os dias eram

igualmente deslumbrantes para seus espectadores. Nas semanas em que Ela

estava transparente, houve tempo ocioso, um bocado de tempo ocioso, mas sua

tarefa, em primeiro lugar, era proporcionar uma janela aberta para a vida no

Círculo, para o sublime e o banal. “Aqui estamos na academia de ginástica”, ela

podia dizer, enquanto a mostrava pela primeira vez aos espectadores. “As

pessoas correm e suam e inventam maneiras de dar uma escapadinha sem ser

apanhadas.” Depois, uma hora mais tarde, ela podia estar almoçando,

descontraidamente e sem fazer nenhum comentário, na frente de outros membros

do Círculo, enquanto todos se comportavam, ou tentavam se comportar, como se

ninguém estivesse observando. A maior parte de seus colegas do Círculo sentia-

se feliz de estar sob a lente da câmera. Depois de alguns dias, todos os membros

do Círculo sabiam que aquilo era uma parte de seu trabalho e uma peça

elementar do Círculo, ponto final. Se eles deviam de fato ser uma empresa que

abraçava a transparência e as vantagens globais e infinitas do acesso aberto,

precisavam viver aquele ideal, sempre e em toda parte, e sobretudo no campus.

Felizmente havia coisas de sobra para iluminar e comemorar dentro dos muros

do Círculo. O outono e o inverno trouxeram o inevitável, tudo com a velocidade

de um ataque-relâmpago. Em todo o campus havia sinais que sugeriam a

Completude iminente. As mensagens eram cifradas, destinadas a atiçar a

curiosidade e a discussão. O que significa Completude? Pediam aos funcionários

que refletissem sobre aquilo, que mandassem respostas e escrevessem nos

murais de ideias. Todo mundo na Terra tem uma conta no Círculo!, dizia uma

mensagem bem popular. O Círculo resolve o problema da fome no mundo, afirmava outra. O Círculo me ajuda a descobrir meus ancestrais, declarava mais

uma. Nenhum dado, histórico, numérico ou emocional jamais irá se perder. Essa

foi escrita e assinada pelo próprio Bailey. A mais popular era O Círculo me

ajuda a me encontrar.

Muitos daqueles projetos estavam havia tempos nos estágios de planejamento

no Círculo, mas a oportunidade nunca tinha sido tão apropriada e o ímpeto foi

forte demais para que pudessem resistir. Agora, com noventa por cento de

Washington transparentes e os restantes dez por cento definhando sob a suspeita

de seus colegas e dos eleitores, a pergunta batia na cabeça deles com a força de

um sol inclemente: o que vocês estão escondendo? O plano era que a maioria

dos membros do Círculo ficasse transparente até o final do ano, mas por ora,

para resolver os problemas de programação e dar um tempo para que todo

mundo se habituasse à ideia, só Mae e Stewart estavam transparentes. A

experiência de Stewart, no entanto, acabou amplamente ofuscada pelo caso de

Mae. Ela era jovem e se movia muito mais depressa do que Stewart e sua voz —

os espectadores adoravam sua voz, a comparavam à música, diziam parece um

instrumento de sopro e um maravilhoso dedilhar de cordas —, e Mae também

estava adorando sentir a afeição de milhões fluindo através dela diariamente.

Mas também havia a questão de se acostumar com o funcionamento básico do

equipamento. A câmera era leve e, depois de alguns dias, Mae mal conseguia

sentir o peso da lente, mais leve do que um medalhão, sobre o osso esterno.

Tentaram várias maneiras de manter a lente sobre seu peito, inclusive com um

velcro preso à roupa, mas nada se mostrou tão eficiente, e tão simples, quanto

apenas pendurá-la em seu pescoço. O segundo ajuste, que ela achava sempre

fascinante e de vez em quando chocante, era ver — através de uma moldura

pequena em seu pulso direito — o que a câmera estava vendo. Ela havia quase

esquecido seu bracelete monitor de saúde no pulso esquerdo, mas a câmera

tornara essencial o uso daquilo, um segundo bracelete, no pulso direito. Era do

mesmo tamanho e do mesmo material que o do pulso esquerdo, só que com uma

tela maior a fim de acomodar a imagem de vídeo e um resumo de todos os seus

dados em suas telas de costume. Com um bracelete em cada pulso, ambos

confortáveis e com acabamento de metal escovado, Mae sentia-se como a

Mulher Maravilha e tinha algum conhecimento de seu poder — embora essa

ideia fosse ridícula demais para ser dividida com quem quer que fosse.

No pulso esquerdo, Mae via as batidas do coração; no direito, podia

acompanhar o que os espectadores estavam vendo — uma imagem em tempo

real captada pela sua lente, que permitia a Mae fazer qualquer ajuste necessário

para uma visão melhor. Também o número atual de seus espectadores, seus

índices e sua posição na classificação geral de audiência, e destacava os comentários mais recentes e os mais populares dos espectadores. Naquele

momento, parada na frente do polvo, Mae tinha 441 762 espectadores, o que

estava um pouco acima da sua média, mas ainda era menos do que ela esperava

alcançar enquanto apresentava as descobertas de Stenton no mar profundo. Os

outros números apresentados não eram surpresa. Ela estava alcançando a média

de 845 029 visitantes individuais de suas cenas ao vivo por dia e tinha 2,1

milhões de seguidores para o seu feed de zings. Mae não precisava mais se

preocupar em se manter no T2K; sua visibilidade e o imenso poder de sua plateia

garantiam Índices de Conversão e de Varejo Bruto estratosféricos e a mantinham

sempre entre os dez mais.

“Vamos ver os cavalos-marinhos”, disse Mae, e passou para o aquário

seguinte. Lá, entre um buquê pastel de corais e folhagens ondulantes de algas

azuis, ela viu centenas, talvez milhares, de pequeninas criaturas, menores do que

o dedo de uma criança, ocultando-se em esconderijos, galgando nas folhagens.

“Esses caras não são peixes lá muito amigáveis. Espere, será que chegam mesmo

a ser peixes?”, perguntou Mae, e olhou para o pulso, onde um espectador já

havia mandado a resposta. Sem dúvida, são peixes! Classe Actinopterygii. Da

família do bacalhau e do atum.

“Obrigado, Susanna Win, de Greensboro!”, disse Mae, e rezingou a

informação para seus seguidores. “Agora vejamos se conseguimos descobrir o

pai de todos esses cavalos-marinhos. Como vocês talvez saibam, o cavalo-

marinho macho é que gesta as crias no próprio corpo. As centenas de bebês que

vocês estão vendo vieram à luz logo depois que o pai chegou aqui. Agora, onde

ele está?” Mae caminhou em redor do aquário e logo o descobriu, mais ou

menos do tamanho de sua mão, deitado no fundo do tanque, encostado no vidro.

“Acho que está se escondendo”, disse Mae, “mas ele não parece saber que

estamos aqui do outro lado do vidro e que podemos ver tudo.”

Ela verificou o bracelete em seu pulso e ajustou um pouco o ângulo da lente, a

fim de obter a melhor visão do frágil animal. Estava todo encolhido, de costas

para ela, com ar exausto e tímido. Mae aproximou o rosto e a lente do vidro, tão

perto do cavalo-marinho que ela podia ver as nuvens minúsculas em seus olhos

inteligentes, as inconcebíveis sardas em seu focinho delicado. Era uma criatura

improvável, um péssimo nadador, mas semelhante a uma lanterna chinesa e

totalmente indefeso. O pulso dela destacou um zing com índices

excepcionalmente elevados. O croissant do reino animal, dizia o texto, e Mae o

repetiu em voz alta. Porém, a despeito de sua fragilidade, de algum jeito tinha

conseguido se reproduzir, dera vida a mais uma centena de criaturas como ele,

no tempo em que o polvo e o tubarão faziam uma ronda em seus tanques e

comiam. Não que o cavalo-marinho parecesse dar importância àquilo. Ele se mantinha à parte de sua prole, como se não tivesse a menor ideia de sua

proveniência e nenhum interesse pelo que acontecia com os filhotes.

Mae verificou que horas eram. 1h02. O Guia Adicional falou através de seu

fone de ouvido: “Alimentação do tubarão pronta”.

“Certo”, respondeu Mae, olhando para seu pulso. “Estou vendo uma porção de

pedidos para voltarmos ao tubarão e já passa de uma hora, portanto acho que vou

fazer isso mesmo.” Deixou o cavalo-marinho, que se virou para ela por um

momento, como se não quisesse que ela fosse embora.

Mae voltou para o primeiro e maior aquário, que continha o tubarão de

Stenton. Acima do aquário, viu uma jovem de cabelo preto crespo e jeans branco

de bainha dobrada, de pé, no alto de uma escada vermelha lustrosa.

“Oi”, disse para ela. “Sou Mae.”

A mulher parecia estar pronta para dizer: “Já sei”, mas então, como se

lembrasse que estavam sendo filmadas, adotou um tom estudado, encenado. “Oi,

Mae. Sou Georgia e vou alimentar o tubarão do sr. Stenton.”

E então, embora fosse cego e ainda não houvesse nenhum alimento no tanque,

o tubarão pareceu sentir que um banquete estava próximo. Começou a rodopiar

como um ciclone, subindo cada vez mais próximo da superfície. O número de

espectadores de Mae já tinha subido para mais quarenta e dois mil.

“Alguém está com fome”, disse Mae.

O tubarão, que até então parecera apenas ligeiramente ameaçador, agora

parecia cruel e totalmente consciente, a própria encarnação do instinto

predatório. Georgia tentava se mostrar confiante, competente, mas Mae viu

medo na trepidação de seus olhos. “Tudo pronto aí embaixo?”, perguntou ela,

sem tirar os olhos do tubarão, que rodava em direção a ela.

“Estamos prontos”, respondeu Mae.

“Muito bem, hoje vou alimentar o tubarão com uma coisa nova. Como você

sabe, ele tem sido alimentado com todo tipo de comida, desde salmão até

arenque e águas-vivas. Devorou tudo com igual entusiasmo. Ontem, tentamos

uma arraia-jamanta, que não achávamos que ele fosse apreciar, mas ele nem

hesitou, comeu com gosto. Portanto hoje vamos experimentar de novo uma coisa

diferente. Como podem ver”, disse ela, e Mae percebeu que o balde que ela

trazia era feito de acrílico transparente e dentro se via algo azul e marrom, com

pernas demais. Mae ouviu as pernas da criatura batendo nas paredes do balde:

uma lagosta. Mae nunca imaginou que tubarões comessem lagostas, mas não via

motivo para que não comessem.

“Temos aqui uma lagosta do Maine comum, que não sabemos se esse tubarão

é capaz de comer.”

Georgia talvez estivesse tentando causar uma boa impressão, mas até Mae ficou nervosa imaginando quanto tempo ela ainda ia segurar a lagosta suspensa

acima da água. Solte, pensava Mae. Por favor, solte logo.

Mas Georgia continuava segurando a lagosta acima da água, supostamente em

benefício de Mae e de seus espectadores. Enquanto isso, o tubarão tinha

percebido a lagosta, sem dúvida havia mapeado sua forma com os sensores que

possuía, quaisquer que fossem, e rodopiava cada vez mais depressa, ainda

obediente, mas já no fim de sua paciência.

“Alguns tubarões são capazes de processar as cascas de crustáceos como este,

outros não”, disse Georgia, que agora suspendia a lagosta de tal modo que sua

tenaz tocava preguiçosamente a superfície. Solte, por favor, pensou Mae. Por

favor, solte agora.

“Portanto eu vou jogar este carinha aqui no...”

Mas antes que pudesse terminar a frase, o tubarão se ergueu e abocanhou a

lagosta, tomando-a da mão da cuidadora. Na hora em que ela soltou um berro e

agarrou os dedos como se quisesse contá-los, o tubarão já voltara para o meio do

tanque, a lagosta tragada entre suas mandíbulas, enquanto a carne branca do

crustáceo espirrava pela boca larga do tubarão.

“Ele te mordeu?”, perguntou Mae.

Georgia balançou a cabeça, contendo as lágrimas. “Quase.” E esfregou a mão

como se tivesse sido queimada.

A lagosta tinha sido devorada e Mae viu algo horripilante e maravilhoso: a

lagosta estava sendo processada dentro do tubarão, na frente dela, numa

velocidade-relâmpago e com incrível nitidez. Mae viu a lagosta partir-se em

dúzias de pedaços, depois em centenas, dentro da boca do tubarão, depois ela viu

aqueles pedaços percorrerem o esôfago do tubarão, até seu estômago, e depois

até os intestinos. Em minutos, a lagosta tinha sido reduzida a uma substância

granular e particulada. Os dejetos saíram do tubarão e se depositaram no fundo

do aquário como se fosse neve.

“Parece que ele continua com fome”, disse Georgia. Estava de novo no alto da

escada, mas agora com um recipiente de acrílico diferente. Enquanto Mae

observava a digestão da lagosta, Georgia tinha apanhado uma segunda refeição.

“Isso aí é o que eu estou pensando?”, perguntou Mae.

“É uma tartaruga do Pacífico”, disse Georgia, suspendendo o recipiente que

continha o réptil. A tartaruga era quase do tamanho do tronco de Mae,

estampada com retalhos de azul, verde e marrom, um lindo animal, incapaz de se

mexer naquele espaço apertado. Georgia abriu a porta na ponta do recipiente,

como se convidasse a tartaruga a sair, se assim preferisse. Ela preferiu ficar onde

estava.

“Há pouca probabilidade do nosso tubarão já ter encontrado um animal como este, em razão da diferença de seus hábitats”, disse Georgia. “Esta tartaruga não

teria nenhum motivo para andar nas regiões onde habita o tubarão de Stenton e o

tubarão, por sua vez, certamente nunca viu as regiões matizadas de luz onde

vivem as tartarugas.”

Mae queria perguntar se Georgia ia mesmo dar aquela tartaruga para o tubarão

comer. Os olhos da tartaruga tinham avistado o predador mais abaixo e agora,

com a lenta energia que conseguia reunir, a tartaruga estava se espremendo no

fundo do recipiente. Dar aquela criatura gentil para o tubarão comer, a despeito

de qualquer necessidade científica, era uma coisa que ia desagradar a muitos

espectadores de Mae. Já estavam chegando zings no seu pulso. Por favor, não

mate essa tartaruga. Parece com meu avô! Porém havia uma segunda tendência,

que chamava atenção para o fato de que o tubarão era apenas um pouco maior do

que a tartaruga e não conseguiria engolir ou digerir o réptil, com seu casco

impenetrável. Mas exatamente na hora em que Mae ia questionar a iminente

alimentação do tubarão, uma voz no Guia Adicional soou no fone de ouvido de

Mae. “Espere. Stenton quer ver isso.”

No tanque, o tubarão estava rodopiando outra vez, parecia exatamente tão

voraz e esfomeado quanto antes. A lagosta não era nada para ele, um mero

petisco. Agora ele chegou mais perto de Georgia, ciente de que o prato principal

ia ser servido.

“Lá vamos nós”, disse Georgia, e inclinou o recipiente até que a tartaruga

começou a escorregar, lentamente, rumo à água cor de luz neon, que rodopiava

embaixo dela — os giros do tubarão tinham criado um redemoinho. Quando o

recipiente estava na vertical e a cabeça da tartaruga tinha surgido no limiar da

porta de acrílico, o tubarão não conseguiu mais esperar. Projetou-se para cima,

agarrou a cabeça da tartaruga em suas mandíbulas e puxou para baixo. E, a

exemplo da lagosta, a tartaruga foi consumida em segundos, mas dessa vez

exigiu uma mudança de formato que o crustáceo não havia demandado. O

tubarão pareceu desenganchar a mandíbula, duplicando o tamanho da boca,

permitindo que ela subjugasse facilmente a tartaruga inteira numa só bocada.

Georgia narrava os acontecimentos, dizia algo sobre como muitos tubarões,

quando devoravam tartarugas, viravam seu estômago pelo avesso e vomitavam o

casco depois de digerir as partes carnudas do réptil. Mas o tubarão de Stenton

tinha outros métodos. O casco pareceu se dissolver dentro da boca e do

estômago do tubarão, como uma bolacha encharcada de saliva. E, em menos de

um minuto, a tartaruga, toda ela, tinha virado cinzas. Saiu do tubarão da mesma

forma que a lagosta, em flocos que tombaram pesados no fundo do aquário,

unindo-se aos que tinham caído antes e indistinguíveis deles.

Mae estava observando aquilo, quando viu uma figura, quase uma silhueta, do outro lado do vidro, além da parede oposta do aquário.

Seu corpo era apenas uma sombra, o rosto era invisível, mas então, por um

momento, a luz que vinha de cima se refletiu na pele do tubarão que nadava em

círculos e incidiu no rosto da figura.

Era Kalden.

Fazia um mês que Mae não o via e, desde que ficara transparente, não havia

recebido nenhuma notícia dele. Annie tinha ido a Amsterdam, depois à China,

depois ao Japão, depois voltou para Genebra, e assim não tivera tempo para se

concentrar em Kalden, mas as duas haviam trocado mensagens esparsas a

respeito dele. Até que ponto deviam se preocupar com aquele homem

desconhecido?

Mas durante aquele tempo ele andou sumido.

Agora estava de pé do outro lado, olhava para ela, imóvel.

Mae quis chamá-lo, mas então ficou preocupada. Quem era ele? Será que

chamá-lo, captá-lo em sua câmera criaria uma cena? Será que ele ia fugir? Ela

ainda estava em choque com a digestão da tartaruga pelo tubarão, com a

ferocidade de olhos opacos do animal, e descobriu que estava sem voz, sem

forças para pronunciar o nome de Kalden. Então olhou fixamente para ele, que

olhou para ela, e Mae teve a ideia de que, se conseguisse captá-lo na câmera,

talvez pudesse mostrar a imagem para Annie e aquilo talvez levasse a algum

esclarecimento, alguma identificação. Porém, quando Mae olhou para o pulso,

viu apenas uma forma muito escura, o rosto dele obscurecido. Talvez a lente de

Mae não conseguisse alcançar Kalden, estivesse focalizando de um ângulo

diferente. Quando Mae procurou a forma de Kalden em seu pulso, ele recuou e

se afastou para as sombras.

Nesse meio-tempo, Georgia tagarelava sobre o tubarão e sobre aquilo que

tinham acabado de presenciar e Mae não tinha ouvido nada. Mas agora Georgia

estava no alto da escada, acenando, torcendo para que Mae tivesse terminado,

porque ela já não tinha mais nada para alimentar o animal. O espetáculo tinha

acabado.

“Então está bem”, disse Mae, agradecida pela oportunidade de ir embora e

seguir Kalden. Despediu-se, agradeceu a Georgia e caminhou depressa através

do corredor escuro.

Mae vislumbrou a silhueta dele através de uma porta distante e acelerou o

passo, tomando cuidado para não sacudir a lente nem chamar seu nome. A porta

por onde ele havia se esgueirado levava para uma sala de redação, um local

bastante lógico para Mae visitar em seguida. “Vamos ver o que está acontecendo

na redação”, disse ela, ciente de que todos lá dentro estariam conscientes de sua

aproximação ao longo dos vinte passos que a separavam da sala. Sabia também que as câmeras SeeChange no corredor, acima da porta, teriam captado a

imagem de Kalden e, mais cedo ou mais tarde, ela saberia se de fato era ele.

Todos os movimentos no interior do Círculo eram captados por alguma câmera,

em geral por três, e reconstituir os movimentos de qualquer pessoa, após o fato,

era uma questão de apenas alguns minutos de trabalho.

Enquanto se aproximava da porta da redação, Mae pensava nas mãos de

Kalden sobre seu corpo. As mãos a segurando por baixo, puxando-a para si,

pressionando o corpo dele para dentro dela. Mae ouvia o rumor baixo da voz de

Kalden. Sentia o sabor dele como um fruto fresco e molhado. E se ela o

encontrasse? Não poderia levá-lo para o banheiro. Ou poderia? Ela ia descobrir

um jeito.

Abriu a porta da redação, um espaço amplo que Bailey tinha projetado se

inspirando nas antigas redações de jornal, dotado de cem cubículos de paredes

baixas, máquinas de teletipo e relógios em toda parte; havia um telefone

analógico de estilo antigo em todas as escrivaninhas, com uma fileira de botões

brancos embaixo dos números, piscando sem ritmo. Havia impressoras antigas,

faxes, aparelhos de telex, máquinas de tipografia. A decoração, é claro, era só

um cenário. Todas as máquinas em estilo retrô não funcionavam. Os repórteres,

cujos rostos estavam agora voltados para Mae, sorrindo e dando bom-dia para

ela e para os espectadores, podiam fazer a maioria das reportagens usando as

SeeChange. Agora havia mais de cem milhões de câmeras em operação e

acessíveis em todo o mundo, tornando desnecessárias as coberturas pessoais e

feitas no local, sempre dispendiosas e perigosas, sem falar do gasto de carbono.

Enquanto Mae caminhava pela redação, a equipe acenava para ela, sem saber

se aquilo era uma visita oficial. Mae acenava em resposta, enquanto observava a

sala com atenção, ciente de que parecia distraída. Onde estava Kalden? Só havia

uma saída além daquela, portanto Mae atravessou a sala depressa, assentindo e

saudando, até alcançar a porta que ficava no fundo da sala. Ela a abriu, piscou os

olhos diante da luz clara do dia e viu Kalden. Estava atravessando o gramado

verde e vasto, passando pela escultura nova feita por aquele dissidente chinês —

Mae lembrou-se de que devia dar destaque à escultura em breve, talvez naquele

mesmo dia — e, naquele instante, Kalden se virou por um momento, como se

quisesse verificar se ela ainda o seguia. Os olhos de Mae encontraram os dele,

provocando um pequeno sorriso, antes de Kalden virar-se outra vez e caminhar

depressa em torno do Período das Cinco Dinastias.

“Aonde você está indo?”, perguntou a voz em seu fone de ouvido.

“Desculpe. Lugar nenhum. Estava só andando. Não importa.”

Mae tinha permissão para ir aonde quisesse, é claro — seus caminhos

sinuosos eram o que muitos espectadores mais apreciavam —, porém o escritório do Guia Adicional, mesmo assim, de vez em quando gostava de

verificar o que estava acontecendo. Enquanto estava sob o sol, com membros do

Círculo à sua volta, Mae ouviu seu celular tocar. Verificou seu pulso; não havia

nenhuma chamada identificada. Mae sabia que só podia ser Kalden.

“Alô?”, disse ela.

“Temos de nos encontrar”, disse ele.

“O quê?”, perguntou ela.

“Seus espectadores não podem me ouvir. Só ouvem você. Neste momento,

seus engenheiros estão se perguntando por que o áudio de entrada não está

funcionando. Vão consertar em poucos minutos.” Sua voz estava tensa, trêmula.

“Então, preste atenção. A maior parte do que está acontecendo precisa parar.

Estou falando sério. O Círculo está quase completo e, Mae, você tem de

acreditar em mim, isso vai ser ruim para você, para mim, para a humanidade.

Quando podemos nos encontrar? Se tiver de ser no banheiro, para mim está tudo

bem...”

Mae desligou.

“Desculpe”, disse o Guia Adicional em seu fone de ouvido. “Por algum

motivo, o áudio de entrada não funcionou. Estamos tentando consertar. Quem

era?”

Mae sabia que não podia mentir. Não tinha certeza de que alguém não tinha

ouvido Kalden. “Algum maluco”, improvisou Mae, orgulhosa de si mesma.

“Tagarelando sobre o fim do mundo.”

Mae verificou seu pulso. Já havia gente imaginando o que poderia ter

acontecido e como. O zing mais popular de todos: Problemas técnicos na sede

do Círculo? Próximo capítulo: Papai Noel se esquece do Natal?

“Diga a verdade para eles, como sempre”, disse o Guia Adicional.

“Está certo. Não tenho a menor ideia do que aconteceu”, disse Mae em voz

alta. “Quando souber, explico a todos vocês.”

Mas Mae estava abalada. Continuava parada, sob o sol, acenando de vez em

quando para membros do Círculo que percebiam sua presença. Sabia que seus

espectadores talvez estivessem imaginando o que poderia acontecer em seguida,

para onde ela estava indo. Mae não queria olhar seu pulso, pois sabia que os

comentários seriam de perplexidade e até de preocupação. Ao longe, viu algo

que parecia um jogo de croquet e, tendo uma ideia, seguiu naquela direção.

“Como todos vocês sabem”, disse ela quando estava perto o bastante para ver

e cumprimentar os quatro jogadores, que ela descobriu serem dois membros do

Círculo e um par de visitantes da Rússia, “nem sempre brincamos aqui no

Círculo. Às vezes temos de trabalhar, o que esse grupo está demonstrando. Não

quero incomodá-los, mas garanto a vocês que o que eles estão fazendo envolve resolução de problemas e algoritmos complexos e vai resultar no aprimoramento

dos produtos e serviços que podemos oferecer a vocês. Vamos prestar atenção.”

Aquilo lhe daria alguns minutos para pensar. Periodicamente, ela focalizava

sua lente em algo como aquilo, um jogo ou uma demonstração ou um discurso, e

isso permitia que a mente de Mae divagasse, enquanto os espectadores olhavam.

Mae conferiu a imagem em seu pulso e viu que seus espectadores, 432 028,

estavam dentro da média e que não havia nenhum comentário urgente, portanto

ela se concedeu três minutos, antes de ter que retomar o controle do feed. Com

um largo sorriso — pois certamente estava visível em três ou quatro câmeras

SeeChange instaladas ao ar livre —, Mae respirou fundo. Era uma nova

capacidade que ela havia adquirido, a capacidade de olhar para o mundo exterior

com um ar absolutamente sereno e até alegre, enquanto, dentro do crânio, tudo

era um caos. Ela queria ligar para Annie. Mas não podia ligar para Annie. Queria

Kalden. Queria estar a sós com Kalden. Queria estar de volta àquele banheiro,

sentada em cima dele, sentindo a cabeça de seu pênis pressionar e entrar. Mas

ele não era normal. Era uma espécie de espião ali. Uma espécie de anarquista, de

apocalíptico. O que ele queria dizer quando a advertiu do perigo da completude

do Círculo? Mae nem sequer sabia o que significava Completude. Ninguém

sabia. No entanto, ultimamente, os Sábios tinham começado a dar dicas sobre

aquilo. Num dia, em ladrilhos novos pregados por todo o campus, mensagens

cifradas surgiram: PENSE COMPLETUDE e COMPLETEM O CÍRCULO e O

CÍRCULO DEVE SER UM TODO, e tais slogans haviam despertado a desejada

curiosidade. Mas ninguém sabia o que aquilo significava e os Sábios não o

revelavam.

Mae viu que horas eram. Tinha observado o jogo de croquet por noventa

segundos. Só poderia manter aquela atitude de forma razoável por mais um ou

dois minutos. Portanto, qual era sua responsabilidade de informar aquele

telefonema? Será que alguém tinha de fato ouvido o que Kalden disse? E se

tivessem ouvido? E se aquilo fosse uma espécie de teste para ver se ela

denunciava uma ligação desonesta? Talvez aquilo fizesse parte da Completude

— um teste para medir sua lealdade, a fim de barrar o caminho de qualquer

pessoa ou qualquer coisa que impedisse a Completude. Ah, merda, pensou Mae.

Ela queria falar com Annie, mas sabia que não podia. Pensou em seus pais, que

lhe dariam bons conselhos, mas a casa deles estava transparente também, repleta

de câmeras do SeeChange — uma condição para o tratamento de seu pai. Talvez

ela pudesse ir até lá, encontrá-los no banheiro, quem sabe? Não. Na verdade,

fazia alguns dias que não entrava em contato com os pais. Tinham advertido

Mae de que estavam tendo certas dificuldades técnicas, voltariam a fazer contato

em breve, que a amavam, e depois disso não responderam nenhuma das mensagens dela nas últimas quarenta e oito horas. E naquele período ela não

havia verificado as imagens das câmeras na casa deles. Mae tinha de fazer

aquilo. Tomou nota disso mentalmente. Quem sabe podia ligar para os pais? Ver

se estavam bem e depois sugerir, de algum modo, que queria falar com eles

sobre algo muito pessoal e perturbador?

Não, não. Tudo isso era loucura. Tinha recebido um telefonema casual de um

homem que ela sabia ser doido. Ah, merda, pensou Mae, na esperança de que

ninguém conseguiria adivinhar o caos que vigorava em sua mente. Apreciava

estar onde estava, visível daquele jeito, apreciava ser um canal daquele jeito, um

guia para seus espectadores, mas aquela responsabilidade, aquela intriga

desnecessária, aquilo a deixava incapacitada. E quando experimentava aquela

paralisia, tolhida no meio de possibilidades e incógnitas absolutamente

excessivas, só havia um lugar em que ela se sentia bem.

 

À 1h44, Mae entrou no Renascimento, sentiu acima de si a saudação do

Calder que girava lentamente e pegou o elevador para o quarto andar. Subir pelo

prédio a acalmava. Caminhar pela passarela, com o átrio visível lá embaixo, lhe

proporcionava uma grande paz. Aquilo, a Experiência do Cliente, era seu lar,

onde não havia desconhecidos.

De início, Mae tinha ficado surpresa quando pediram que continuasse a

trabalhar em EC, pelo menos algumas horas por dia. Ela havia curtido seu tempo

ali, sim, mas supunha que a transparência acarretasse deixar tudo aquilo para

trás. “É exatamente essa a questão”, explicou Bailey. “Eu penso que, Número

Um, isso vai manter você ligada ao trabalho de nível básico que você fazia aqui.

Número Dois, acho que seus seguidores e espectadores vão gostar que você

continue a fazer esse trabalho de base. Vai representar um gesto de humildade

muito comovente, não acha?”

No mesmo instante, Mae ficou consciente do poder que exercia —

instantaneamente, ela se tornou um dos membros do Círculo mais visíveis — e

sentiu-se decidida a usar esse poder de maneira branda. Portanto Mae encontrara

tempo em todas as semanas para voltar à sua antiga equipe de trabalho, voltar

para sua mesa, que havia deixado vaga. Tinha havido algumas mudanças —

agora havia nove telas e os funcionários de Experiência do Cliente eram

incentivados a trocar muitos mais dados com seus clientes, a praticar uma

reciprocidade mais profunda, de formas muito mais abrangentes —, mas o

trabalho continuava essencialmente o mesmo e Mae descobriu que apreciava o

ritmo daquele trabalho, o teor quase meditativo de fazer algo que conhecia na

pele, ela se via tragada para EC em momentos de estresse ou de calamidade.

E assim, em sua terceira semana de transparência, numa quarta-feira ensolarada, Mae planejou ficar noventa minutos na Experiência do Cliente, antes

que o resto do dia a atropelasse. Às três, ela teve de fazer um tour na Era

Napoleônica, onde estavam projetando a eliminação do dinheiro físico — a

rastreabilidade da moeda da internet acabaria com vastas camadas de

criminalidade da noite para o dia — e às quatro ela deveria mostrar as

residências de novos músicos no campus — vinte e dois apartamentos

inteiramente equipados, onde músicos, especialmente aqueles que não

conseguiam ganhar a vida com a venda de sua música, podiam viver de graça e

tocar regularmente para os membros do Círculo. Aquilo preencheria a tarde de

Mae. Às cinco, ela devia comparecer ao anúncio do político mais recente a se

tornar transparente. Por que continuavam a fazer aquelas proclamações com

tantas fanfarras — agora chamavam aquilo de Clarificações — era um mistério

para ela e para muitos de seus espectadores. Havia dezenas de milhares de

políticos eleitos transparentes em todo o país e em todo o mundo, e o movimento

era menos uma novidade do que uma inevitabilidade; a maior parte dos

observadores previa a plena transparência governamental, pelo menos nas

democracias — e com as câmeras SeeChange, em breve, não haveria outra

forma de governo —, no prazo de dezoito meses. Depois da Clarificação, ia

haver uma batalha de comédia de improviso no campus, um levantamento de

fundos em benefício de uma escola rural no Paquistão, uma degustação de

vinhos e, por fim, um churrasco para o campus inteiro, com música de um coral

trance peruano.

Mae entrou na sala de sua antiga equipe de trabalho, onde suas próprias

palavras — SEGREDOS SÃO MENTIRAS; COMPARTILHAR É CUIDAR;

PRIVACIDADE É ROUBO — tinham sido fundidas em aço e dominavam a

parede inteira. O lugar fervilhava de novatos e todos eles ergueram os olhos,

alarmados e felizes de vê-la entre eles. Mae cumprimentou-os com um aceno,

saudou-os com uma reverência de brincadeira, viu Jared de pé na porta de seu

escritório e acenou para ele também. Em seguida, resolvida a fazer seu trabalho

sem espalhafato, ela sentou, fez o login e abriu as comportas. Respondeu três

questionários em rápida sucessão, obtendo uma avaliação média de 99. Seu

quarto cliente foi o primeiro a perceber que era Mae, a Mae Transparente, que

estava respondendo suas perguntas.

Estou vendo você!, escreveu a cliente, uma compradora de mídia para

importadores de produtos esportivos em Nova Jersey. Seu nome era Janice e ela

não conseguia se recuperar do choque de descobrir que podia ver Mae digitando

a resposta para suas perguntas em tempo real, na sua tela, bem do lado de onde

estava recebendo a resposta digitada de Mae. Sala de espelhos!!, escreveu ela.

Depois de Janice, Mae teve uma série de clientes que não sabiam que era ela quem respondia suas perguntas e Mae percebeu que aquilo a incomodava. Um

dos clientes, uma distribuidora de camisetas de malha em Orlando, chamada

Nanci, pediu a ela que entrasse na sua rede profissional e Mae prontamente

concordou. Jared havia falado com Mae a respeito de um novo patamar de

reciprocidade incentivada entre os membros da equipe de EC. Se você mandar

um questionário, esteja preparada para responder um também. E assim, depois

de ter se filiado à rede profissional da distribuidora de camisetas de malha de

Orlando, Mae recebeu outra mensagem de Nanci. Pedia a ela que respondesse

um breve questionário sobre suas preferências em roupas informais e Mae

concordou. Abriu o questionário, que percebeu que não era curto: abrangia ao

todo cento e vinte perguntas. Mas Mae sentiu-se feliz de responder todos os

itens, teve a sensação de que sua opinião era relevante, de que ela estava sendo

ouvida e que esse tipo de reciprocidade engendraria uma lealdade em Nanci e

em todos aqueles com quem Nanci entrasse em contato. Uma vez respondidas as

perguntas do questionário, Nanci lhe enviou um generoso muito obrigado e disse

que ela podia escolher uma camiseta a seu gosto e direcionou Mae para seu site

do consumidor. Mae disse que ia escolher uma camiseta mais tarde, porém

Nanci respondeu que mal podia esperar para saber que camiseta ela ia escolher.

Mae viu que horas eram no seu relógio; tinha perdido oito minutos no

questionário de Orlando, ultrapassando em muito o novo prazo para um

questionário, que era de dois minutos e meio.

Mae sabia que teria de acelerar o trabalho nos próximos dez questionários,

mais ou menos, para retornar ao tempo médio aceitável. Foi ao site de Nanci,

escolheu uma camiseta que mostrava a caricatura de um cachorro com roupa de

super-herói e Nanci lhe disse que aquela era uma excelente opção. Então Mae

passou para o questionário seguinte e estava no processo de uma fácil adaptação

de respostas prontas, quando chegou outra mensagem de Nanci. Desculpe

bancar a Senhorita Magoada, mas convidei você para entrar na minha rede

profissional, só que você não me convidou para entrar na sua e, embora eu

saiba que eu sou apenas uma fulana qualquer em Orlando, tive a impressão de

que eu tinha de lhe dizer que me senti desvalorizada. Mae disse a Nanci que não

tinha nenhuma intenção de fazê-la sentir-se desvalorizada, que ela andava muito

atarefada no Círculo, que havia esquecido aquela reciprocidade essencial, o que

ela rapidamente remediou. Mae terminou seu questionário seguinte, obteve uma

nota 98, e começou outro, quando recebeu mais uma mensagem de Nanci. Viu

minha mensagem na rede profissional? Mae viu todos seus feeds e não localizou

nenhuma mensagem de Nanci. Postei no quadro de mensagens da sua rede

profissional!, disse ela. E assim Mae foi àquela página, que não visitava com

frequência, e viu que Nanci tinha escrito: Oi, desconhecida! Mae digitou: Oi, você mesma! Mas você não é uma desconhecida!!, e pensou por um momento

que aquilo ia significar o fim de sua troca de mensagens, mas fez uma pausa

breve na página, com a sensação de que Nanci ainda não havia terminado. E não

havia mesmo. Que bom que você voltou! Achei que podia ter ficado ofendida

por eu chamar você de “desconhecida”. Jura que não ficou irritada? Mae jurou

que não estava irritada, respondeu com abraços e beijos, mandou dez sorrisos e

voltou a seus questionários, na esperança de que Nanci ficasse satisfeita e que as

duas estivessem numa boa. Preencheu mais três questionários, enviou pesquisas

de satisfação e viu que sua avaliação média estava em 99. Aquilo suscitou uma

enxurrada de zings de congratulações, os espectadores estavam felizes de ver a

dedicação de Mae com as tarefas do dia a dia do Círculo, essenciais para o

funcionamento normal do mundo. Muitos de seus espectadores, e eles mesmos

fizeram questão de dizer a ela, estavam trabalhando também em mesas de

escritório e, como ela continuava a fazer seu trabalho, voluntariamente e com

evidente satisfação, eles a encaravam como um exemplo e uma fonte de

inspiração. E aquilo dava uma sensação boa em Mae. Dava a sensação de que ela

era importante de verdade. Os clientes a tornavam melhor. E servi-los sendo

transparente tornava Mae muito melhor. Era o que ela esperava. Tinha sido

avisada por Stewart de que, quando milhares ou até milhões estivessem

acompanhando as imagens de sua câmera, ela daria o melhor de si mesma. Ia

ficar mais alegre, mais positiva, mais educada, mais generosa, mais inquisitiva.

Mas ele não falara sobre as diminutas alterações de seu comportamento que

aqueles aprimoramentos acarretariam.

A primeira vez que a câmera redirecionou suas ações foi quando Mae entrou

na cozinha para preparar alguma coisa para comer. A imagem em seu pulso

mostrou o interior de uma geladeira, enquanto ela procurava algo para beliscar.

Normalmente, Mae teria apanhado um brownie gelado, mas ao ver a imagem de

sua mão se dirigindo para o brownie, e se dando conta de que todo mundo estaria

vendo aquilo, Mae recuou. Fechou a porta da geladeira, pegou um punhado de

amêndoas na tigela que estava na bancada da pia e saiu da cozinha. Mais tarde,

naquele dia, teve uma dor de cabeça — causada, pensou ela, por comer menos

chocolate do que o habitual. Enfiou a mão na bolsa, onde tinha sempre uns

pacotes individuais de aspirina, porém, mais uma vez, na sua tela, Mae viu o que

todo mundo estava vendo. Viu a mão entrando na bolsa, vasculhando e, no

mesmo instante, ela se sentiu péssima e desprezível, como se fosse uma

dependente de pílulas.

Não tomou a aspirina. Todo dia Mae deixava de fazer coisas que ela não

queria querer. Coisas de que não precisava. Tinha parado de tomar refrigerante,

bebidas energéticas, comidas industrializadas. Em eventos sociais do Círculo, ela se limitava a tomar um drinque só e tentava sempre deixar um pouco no copo.

Qualquer coisa imoderada provocava uma saraivada de zings preocupados, por

isso ela se mantinha dentro dos limites da moderação. E achava aquilo

libertador. Estava livre do mau comportamento. Estava livre de fazer coisas que

não queria fazer, livre de comer e de beber coisas que não lhe faziam bem.

Desde que ficara transparente, tinha se tornado mais nobre. As pessoas a

chamavam de um modelo. As mães diziam para as filhas seguirem seu exemplo

e aquilo dava a Mae uma sensação de responsabilidade, e tal sentimento — com

os membros do Círculo, seus clientes e parceiros, com a juventude que via nela

uma fonte de inspiração — a mantinha centrada e fornecia o combustível de seus

dias.

Lembraram-na das perguntas das pesquisas do próprio Círculo e Mae ajustou

seus fones de ouvido e começou. Para seus espectadores, ela expressava suas

opiniões o tempo todo, sim, e sentia-se muito mais influente do que antes, mas

algo no ritmo mecânico e na natureza chamada-e-resposta daquelas pesquisas

dava uma sensação de carência. Passou para outra pergunta da pesquisa de

cliente e depois fez que sim com a cabeça. Soou a campainha distante. Ela fez

que sim com a cabeça.

“Obrigada. Está satisfeita com as condições de segurança dos aeroportos?”

“Sorriso”, respondeu Mae.

“Obrigada. Você aprovaria mudanças nas condições de segurança dos

aeroportos?”

“Sim.”

“Obrigada.”

“As condições de segurança dos aeroportos dissuadem você de viajar de avião

com mais frequência?”

“Sim.”

“Obrigada.”

As perguntas continuaram, e ela conseguiu superar noventa e quatro perguntas

antes de lhe darem um descanso. Logo a voz voltou, inalterada.

“Mae.”

Ela ignorou de propósito.

“Mae.”

Seu nome, pronunciado por sua voz, continuava a exercer poder sobre ela. E

Mae não tinha descoberto por quê.

“Mae.”

Daquela vez, soou como uma versão mais pura de si mesma.

“Mae.”

Baixou os olhos para seu bracelete, viu uma porção de zings perguntando se ela estava bem. Mae sabia que tinha de responder para que seus espectadores não

pensassem que havia perdido a cabeça. Aquele era um dos pequeninos ajustes a

que teve de se acostumar — agora havia milhares de pessoas vendo o que ela

via, tendo acesso aos dados de seu estado de saúde, ouvindo sua voz, vendo seu

rosto —, ela estava sempre visível por meio de alguma câmera SeeChange

instalada no campus, além daquela em seu monitor — e assim, quando qualquer

coisa a desviava de sua alegria normal, as pessoas notavam.

“Mae.”

Ela queria ouvir a voz de novo, por isso não falou nada.

“Mae.”

Era a voz de uma jovem, a voz de uma jovem que soava disposta, firme e

capaz de qualquer coisa.

“Mae.”

Era uma versão melhor e mais indômita dela mesma.

“Mae.”

Ela se sentia mais forte cada vez que a ouvia.

 

Ela ficou na Experiência do Cliente até as cinco horas, quando mostrou a seus

espectadores a mais recente Clarificação, o governador do Arizona, e desfrutou a

surpresa da transparência de toda a equipe do governador — algo que muitos

membros do Executivo estavam fazendo, visando garantir a seus eleitores que

ninguém andava fazendo acordos às escondidas, fora da luz do líder

transparente. No evento de Clarificação, Mae encontrou Renata, Denise e Josiah

— membros do Círculo que haviam exercido algum poder sobre ela e que agora

eram seus assistentes — e depois foram todos jantar na Lanchonete de Vidro.

Havia pouca razão para sair do campus só para fazer as refeições, pois, no intuito

de suscitar mais discussões, compartilhamento de ideias e socialização entre os

membros do Círculo, Bailey havia instituído uma nova estratégia, na qual toda

comida era não apenas gratuita, como sempre tinha sido, mas também era

preparada por um chef famoso, diferente a cada dia. Os chefs ficavam contentes

com aquela divulgação de seu trabalho — milhares de membros do Círculo

sorrindo, mandando zings, postando fotos —, o projeto no mesmo instante se

tornou amplamente popular e as cafeterias transbordavam de gente e,

supostamente, de ideias.

Continuar: parte 2 de 7