O Círculo

Dave Eggers · Capítulo 1 de 2 · parte 5/7

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O Círculo

Livro II

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

vantagem inicial, as variadas e antigas vantagens que ela desfrutava mantinham Mae em segundo plano. Sempre em segundo plano, como se fosse um tipo de

irmã caçula que nunca tem oportunidade para se sair melhor do que a irmã mais

velha, sempre mais velha. Mae tentava se manter calma, mas chegavam

mensagens em seu pulso que deixavam claro que os espectadores estavam

percebendo sua frustração, sua perturbação.

Mae precisava respirar. Precisava pensar. Mas tinha muita coisa dentro da

cabeça. Havia a absurda capacidade de Annie de manipular as circunstâncias a

seu favor. Havia aquela ridícula história do PastPerfect, uma vaga que devia ter

sido de Mae. Será que o motivo tinha sido o fato de os pais de Mae terem saído

de cena? E, afinal, onde estavam mesmo seus pais? Por que ficavam sempre

sabotando tudo aquilo pelo que Mae tanto batalhava? Mas afinal Mae estava

batalhando pelo quê, se 368 membros do Círculo não a aprovavam? Trezentas e

sessenta e oito pessoas que, pelo visto, odiavam Mae de forma ativa o suficiente

para apertarem um botão contra ela — enviarem seu ódio diretamente para ela,

sabendo que Mae ia saber de imediato quais eram seus sentimentos. E quanto

àquela mutação celular que era objeto da preocupação de certo cientista escocês?

Uma mutação celular cancerosa que podia estar em curso dentro de Mae,

causada por erros em sua dieta? Teria aquilo ocorrido de fato? E, merda, pensou

Mae, com um aperto na garganta, será que ela havia mesmo mandado uma cara

feia para um grupo paramilitar pesadamente armado na Guatemala? E se eles

tivessem contatos ali onde Mae estava? Sem dúvida havia um monte de

guatemaltecos na Califórnia e sem dúvida eles ficariam felicíssimos de obter um

troféu como Mae, castigá-la por seu insulto. Foda-se, pensou Mae. Foda-se.

Havia uma dor dentro dela, uma dor que abria suas asas negras dentro dela. E

aquilo estava vindo, primeiro, das 368 pessoas que aparentemente a odiavam

tanto que queriam que fosse embora dali. Uma coisa era mandar uma cara feia

para a América Central, mas enviar uma cara feia de dentro do próprio campus

era algo bem diferente. Quem faria aquilo? Por que existia tanta animosidade no

mundo? E então ocorreu a Mae, num lampejo breve e sacrílego: ela não queria

saber como eles se sentiam. O lampejo se abriu para algo mais amplo, uma ideia

ainda mais sacrílega, a ideia de que seu cérebro continha coisas demais. Que o

volume de informações, dados, julgamentos, medições era demasiado e que

havia pessoas demais e desejos demais de gente demais, e opiniões demais de

gente demais, e dor demais de gente demais, e ter tudo isso constantemente

cotejado, coligido, somado, reunido e apresentado a ela, como se assim tudo se

tornasse mais organizado e mais manobrável — era demais. Mas não. Não, não

era, seu cérebro corrigiu. Não. Você ficou magoada com aquelas 368 pessoas. A

verdade era essa. Mae ficou magoada por causa deles, os 368 votos que queriam

matá-la. Todos e cada um deles preferiam que Mae estivesse morta. Se ao menos ela não soubesse disso. Se ao menos ela pudesse voltar à sua vida anterior

àqueles três por cento, quando ela podia caminhar pelo campus, acenar, sorrir,

bater papo sem compromisso, comer, compartilhar o contato humano, sem saber

o que havia no fundo dos corações daqueles três por cento. Mandar uma cara

feia para ela, esticar o dedo e apertar o botão, fuzilar Mae daquele jeito, era uma

espécie de assassinato. O pulso de Mae estava explodindo de mensagens de

preocupação. Com a ajuda das câmeras SeeChange instaladas no campus, os

espectadores observavam Mae parada, imóvel, o rosto contraído numa máscara

raivosa e tétrica.

Mae tinha de fazer alguma coisa. Voltou para Experiência do Cliente,

cumprimentou Jared e o resto das pessoas com um aceno, e logou para abrir a

comporta.

Em minutos, tinha ajudado a esclarecer a dúvida de um pequeno fabricante de

joias em Praga, tinha olhado o site do joalheiro, achara o trabalho maravilhoso e

intrigante e tinha declarado isso, em voz alta e num zing, o que produziu, em dez

minutos, o astronômico Índice de Conversão e de Varejo Bruto de 52 098 euros.

Mae ajudou um atacadista de móveis de fontes sustentáveis na Carolina do

Norte, chamado Projeto pela Vida, e depois de responder suas dúvidas, eles

pediram para ela preencher um questionário de pesquisa do consumidor, o que

era especialmente importante por causa de sua faixa etária e de sua faixa de

renda — eles precisavam de mais informações sobre as preferências dos

consumidores com seu perfil demográfico. Mae fez aquilo e também escreveu

comentários para uma série de fotografias que seu contato na empresa Projeto

pela Vida, Sherilee Fronteau, tinha enviado para ela, fotos de seu filho em sua

primeira aula de tênis. Quando Mae comentou aquelas fotos, recebeu uma

mensagem de Sherilee lhe agradecendo e insistindo para que fosse um dia a

Chapel Hill, para ver Tyler em pessoa e comer numa churrascaria de verdade.

Mae disse que iria lá um dia e sentiu-se muito bem por ter aquela nova amiga no

litoral do outro lado do país, e passou para uma segunda mensagem, de Jerry

Ulrich, um cliente em Grand Rapids, Michigan, que dirigia uma empresa de

caminhões frigoríficos. Ele queria que Mae reenviasse uma mensagem para todo

mundo de sua lista sobre os serviços da empresa, disse que eles estavam se

esforçando muito para aumentar sua presença na Califórnia e que toda ajuda

seria muito bem-vinda. Mae zingou para ele dizendo que ia avisar para todo

mundo que conhecia, a começar pelos 14 611 002 seguidores que tinha, e ele

respondeu que estava entusiasmado por ter sido acolhido daquele jeito e que

veria com bons olhos os negócios ou os comentários que viessem daquelas

14 611 002 pessoas — 1556 das quais imediatamente cumprimentaram Jerry e

disseram que também eles iriam divulgar. Então, enquanto ele desfrutava a enxurrada de mensagens, perguntou para Mae como sua sobrinha, que na

primavera ia se formar na Eastern Michigan University, poderia obter um

emprego no Círculo; o sonho da moça era trabalhar lá, e perguntou se ela devia

se mudar para o Oeste para ficar mais perto, ou podia ter esperança de conseguir

uma entrevista com base apenas em seu currículo? Mae encaminhou-o para o

departamento de RH e lhe deu algumas dicas por conta própria. Acrescentou a

sobrinha à sua lista de contatos e fez um lembrete para se manter a par dos

progressos da moça, caso ela de fato requisitasse um emprego lá. Um cliente,

Hector Casilla, de Orlando, Flórida, falou para Mae sobre seu interesse em

pássaros, mandou-lhe algumas de suas fotos, que Mae elogiou e acrescentou à

sua própria nuvem de fotos. Hector pediu que Mae desse uma nota para as fotos,

pois aquilo poderia chamar atenção para ele no grupo de compartilhamento de

fotos em que estava tentando ser aceito. Mae fez isso e ele ficou em êxtase. Em

questão de minutos, disse Hector, alguém no grupo de compartilhamento de

fotos se mostrou profundamente impressionado com o fato de um membro do

Círculo estar a par de seu trabalho, portanto Hector agradeceu de novo a Mae.

Mandou-lhe um convite para uma exposição coletiva da qual ele ia fazer parte

naquele inverno, em Miami Beach, e Mae respondeu que, caso ela estivesse por

lá em janeiro, sem dúvida compareceria, e Hector, talvez interpretando mal o

nível de seu interesse, pôs Mae em contato com sua prima, Natalia, que possuía

uma pousada situada a apenas quarenta minutos de Miami e que faria certamente

um bom desconto, caso Mae quisesse ir até lá — e os amigos dela também

seriam muito bem-vindos. Então Natalia mandou uma mensagem, com os preços

da pousada, que, ela sublinhou, eram flexíveis, caso ela quisesse passar a semana

inteira. Pouco depois, Natalia enviou uma mensagem comprida, repleta de links

para reportagens e imagens da região de Miami, esclarecendo as muitas

atividades possíveis no inverno — pescaria esportiva, jet-ski, dança. Mae

continuou trabalhando, sentindo dentro de si o rasgo familiar, o negror crescente,

mas continuou trabalhando assim mesmo, para matar aquilo, até que afinal

percebeu que horas eram: 22h32.

Ela estava em EC havia quatro horas. Caminhou até os dormitórios, sentindo-

se muito melhor, sentindo-se calma, e achou Francis na cama, trabalhando em

seu tablet, com a cara colada em seus filmes prediletos. “Olhe só isto”, disse ele,

e mostrou para ela uma sequência de um filme de ação em que, em vez de Bruce

Willis, o protagonista agora parecia Francis Garaventa. O programa era quase

perfeito, disse Francis, e podia ser operado por qualquer criança. O Círculo tinha

acabado de comprá-lo de uma pequena start-up de apenas três pessoas, em

Copenhague.

“Acho que amanhã você vai ver mais novidades”, disse Francis, e Mae se lembrou da reunião dos despejadores de plâncton. “Vai ser divertido. Às vezes

as ideias até que são boas. E por falar em boas ideias...” E Francis puxou-a para

perto de si, beijou-a, trazendo os lábios dela para os seus e, por um momento,

Mae achou que eles iriam ter algo parecido com uma experiência sexual

verdadeira, mas na hora em que estava tirando a blusa, Mae viu Francis fechar os

olhos e ter um espasmo, e entendeu que ele já havia terminado. Depois de trocar

de roupa e escovar os dentes, pediu a Mae que desse uma nota para ele, e ela deu

nota cem.

 

Mae abriu os olhos. Eram 4h17 da manhã. Francis estava virado de costas

para ela, dormia sem fazer barulho. Mae fechou os olhos, mas só conseguia

pensar nas 368 pessoas que — agora parecia evidente — preferiam que ela

nunca tivesse nascido. Mae precisava voltar para a comporta de EC. Sentou-se

na cama.

“O que houve?”, perguntou Francis.

Mae virou-se e viu que ele estava olhando fixamente para ela.

“Nada. Só aquele lance dos votos do Demoxie.”

“Não fique preocupada com isso. Poucas centenas de pessoas.”

Esticou a mão para as costas de Mae e, tentando consolá-la, do outro lado da

cama, executou algo que mais parecia um movimento de enxugar a cintura de

Mae.

“Mas quem?”, disse Mae. “Agora tenho de andar pelo campus sem saber

quem é que me quer ver morta.”

Francis sentou-se. “Então por que não verifica?”

“Verificar o quê?”

“Quem mandou uma cara feia para você. Onde você acha que está? No século

XVIII? Isto aqui é o Círculo. Você consegue descobrir quem mandou uma cara

feia para você.”

“É transparente?”

Na mesma hora, Mae sentiu-se tola só de fazer a pergunta.

“Quer que eu veja?”, perguntou Francis e, em segundos, estava com o tablet

na mão, pesquisando. “Aqui está a lista. É pública — esse é o grande lance do

Demoxie.” Os olhos dele se estreitaram enquanto lia a lista. “Ah esse nome aqui

não é nenhuma surpresa.”

“Qual?”, perguntou Mae, o coração dando pulos. “Quem?”

“O sr. Portugal.”

“Alistair.”

A cabeça de Mae ficou em chamas.

“Sacana”, disse Francis. “Azar. Dane-se. Quer a lista completa?” Francis virou o tablet para ela, mas, antes de perceber o que estava fazendo, Mae recuou,

de olhos fechados. Ficou parada no canto do quarto, com os braços cobrindo o

rosto.

“Puxa”, disse Francis. “Não é nenhum animal raivoso, é só uma lista de

nomes.”

“Pare”, disse Mae.

“A maioria dessas pessoas votou assim sem querer. E algumas dessas pessoas

eu sei que gostam de você de verdade.”

“Pare. Pare.”

“Tudo bem, tudo bem. Quer que eu limpe a tela?”

“Por favor.”

Francis obedeceu.

Mae foi para o banheiro e fechou a porta.

“Mae?” Francis estava do outro lado.

Ela abriu o chuveiro e tirou a roupa.

“Posso entrar?”

Debaixo do jato de água, Mae sentiu-se mais calma. Estendeu a mão para a

parede e acendeu a luz. Sorriu, achando que sua reação à lista tinha sido uma

besteira. É claro que os votos eram públicos. Numa democracia real, num tipo

mais puro de democracia, as pessoas não vão ter medo de votar e, mais

importante, não vão ter medo de assumir seu voto. Agora era uma opção sua

saber quem eram as pessoas que tinham mandado uma cara feia para ela e depois

conquistar sua simpatia. Talvez não imediatamente. Mae precisava de tempo

para se preparar, mas saberia — tinha de saber, era sua responsabilidade saber

— e, uma vez que soubesse, o trabalho de corrigir os 368 seria algo simples e

honesto. Mae fez que sim com a cabeça e sorriu, se dando conta de que estava

sozinha no chuveiro, fazendo que sim com a cabeça. Mas não tinha jeito. A

elegância de tudo aquilo, a pureza ideológica do Círculo, da transparência real,

lhe dava paz, um sentimento protetor de lógica e de ordem.

 

O grupo era um lindo arco-íris de jovens reunidos, dreadlocks e sardas, olhos

azuis, verdes e castanhos. Todos estavam sentados, inclinados para a frente, de

rostos iluminados. Cada um tinha quatro minutos para apresentar sua ideia para

os cérebros do Círculo, entre os quais Bailey e Stenton, que estavam na sala,

conversando animadamente com outros membros da Gangue dos 40, e com Ty,

que comparecia por meio do vídeo. Estava em algum lugar, numa sala branca e

vazia, vestindo seu moletom grande demais, nem entediado nem visivelmente

interessado, olhando fixo para a câmera e para a sala. E era Ty, tanto ou mais do

que qualquer outro dos Sábios ou veteranos do Círculo, que os apresentadores queriam impressionar. Eles eram seus filhos, de certo modo: todos motivados

por seu sucesso. Sua juventude, sua capacidade de visualizar ideias postas em

prática, ao mesmo tempo que continuava a ser quem era, perfeitamente

indiferente e, no entanto, ferozmente produtivo. Eles queriam aquilo também e

queriam o dinheiro que sabiam que vinha com o cargo.

Era a reunião de que Kalden havia falado, o momento em que, ele tinha

certeza, a audiência chegaria ao máximo e quando, ele insistia, Mae devia dizer

para todos seus espectadores que o Círculo não podia se completar, que a

Completude levaria a uma espécie de Armagedom. Mae não tivera mais notícias

de Kalden desde aquela conversa no banheiro e estava contente por isso. Agora

ela tinha certeza, mais que nunca, de que ele era uma espécie de espião e hacker,

agente de algum possível concorrente, tentando colocar Mae e quaisquer outras

pessoas contra a empresa, explodi-la por dentro.

Mae sacudiu para fora da cabeça todos os pensamentos sobre Kalden. Aquele

fórum ia ser bom, ela sabia. Dúzias de membros do Círculo tinham sido

contratados daquele jeito: chegavam ao campus como aspirantes, apresentavam

uma ideia e a ideia era comprada na hora e o aspirante era prontamente

contratado. Jared tinha sido contratado assim, Mae sabia, e Gina também. Era

uma das maneiras mais glamorosas de entrar na empresa: lançar uma ideia, ter a

ideia aceita, ser recompensado com um emprego e com ações da Bolsa e ver sua

ideia executada sem demora.

Mae explicava tudo isso a seus espectadores, enquanto todos se instalavam.

Havia mais ou menos cinquenta membros do Círculo, os Sábios, a Gangue dos

40 e alguns ajudantes na sala, todos de frente para uma fileira de aspirantes,

alguns ainda adolescentes, todos sentados, à espera da sua vez.

“Isto vai ser muito legal”, disse Mae a seus espectadores. “Como vocês

sabem, é a primeira vez que transmitimos ao vivo uma sessão de aspirantes.” Ela

quase disse “reunião de plâncton” e ficou feliz por ter cortado a expressão

pejorativa, antes de pronunciá-la. Baixou os olhos para o pulso. Havia 2,1

milhões de espectadores, embora ela esperasse que o número fosse aumentar

rapidamente.

O primeiro estudante, Faisal, parecia não ter mais de vinte anos. Sua pele

reluzia como madeira envernizada e sua proposta era extremamente simples: em

vez de travar infinitas minibatalhas sobre se podemos ou não podemos rastrear a

atividade de gastos de determinada pessoa, por que não fazer um acordo com

essas pessoas? No caso de consumidores altamente desejáveis, se eles

aceitassem usar o Dinheiro do Círculo para todas as suas compras, e aceitassem

tornar seus hábitos e suas preferências de gastos acessíveis para os Parceiros do

Círculo, então em troca o Círculo lhes daria descontos, pontos e abatimentos no fim de todo mês. Seria como ganhar milhas de voo quando usamos o mesmo

cartão de crédito.

Mae sabia que ela mesma se inscreveria num plano como aquele e supôs que,

por extensão, milhões de pessoas fariam o mesmo.

“Muito interessante”, disse Stenton, e Mae entenderia mais tarde que, quando

ele dizia “muito interessante” queria dizer que ia comprar a ideia e contratar o

inventor.

A segunda ideia veio de uma mulher afro-americana de uns vinte e dois anos.

Seu nome era Belinda e sua ideia, disse ela, ia eliminar o peso do perfil racial

nos critérios dos agentes da polícia e da segurança dos aeroportos. Mae começou

fazendo que sim com a cabeça; era isso que ela adorava em sua geração — a

capacidade de perceber as possíveis aplicações de justiça social dos recursos do

Círculo e direcioná-los de modo cirúrgico. Belinda trouxe um vídeo de uma

movimentada rua urbana com algumas centenas de pessoas visíveis, caminhando

para um lado e para outro diante da câmera, sem saber que eram observadas.

“Todos os dias, a polícia faz carros pararem no acostamento por causa daquilo

que chamam de ‘preto no volante’ ou ‘mulato no volante’”, disse Belinda, em

tom neutro. “E todos os dias, jovens afro-americanos são parados na rua,

encostados a uma parede, revistados, espoliados de seus direitos e de sua

dignidade.”

E, por um momento, Mae pensou em Mercer e gostaria que ele estivesse ali

ouvindo aquilo. Sim, às vezes alguns aplicativos da internet podiam ser um

pouco grosseiros e comerciais, mas para cada aplicativo comercial, havia três

como aquele, aplicativos proativos que usavam o poder da tecnologia para

aprimorar a humanidade.

Belinda prosseguiu: “Essas ações só servem para criar mais animosidade entre

as pessoas de cor e a polícia. Estão vendo essa multidão? Na maioria, são

homens jovens de cor, certo? Uma patrulha da polícia passa numa área como

essa e eles são suspeitos, certo? Todos esses homens podem ser parados,

revistados, desrespeitados. Mas não precisa ser assim”.

Agora, na tela, no meio da multidão, três homens brilhavam com uma luz

laranja e vermelha. Continuavam a andar, a agir normalmente, mas agora

estavam banhados de cor, como se um refletor com gelatina colorida tivesse

escolhido aqueles três homens e lançado seu foco sobre eles.

“Os três homens que vocês veem em laranja e em vermelho são criminosos

reincidentes. O laranja indica um criminoso de grau inferior — condenado por

pequenos furtos, posse de drogas, crimes sem violência e sem vítimas.” Havia

dois homens na tela que tinham sido tingidos de laranja. Andando mais perto da

câmera, porém, estava um homem de aspecto bastante inofensivo, de cerca de cinquenta anos, brilhando em vermelho dos pés à cabeça. “O homem assinalado

em vermelho, porém, foi condenado por crimes violentos. Esse homem foi

julgado e condenado por roubo à mão armada, tentativa de estupro, agressões

repetidas.”

Mae virou-se para ver o rosto de Stenton fascinado, a boca ligeiramente

aberta.

Belinda prosseguiu: “Estamos vendo o que um policial veria se ele fosse

equipado com o SeeYou. É um sistema muito simples, que funciona através de

qualquer dispositivo de retina. O policial não precisa fazer nada. Passa os olhos

por uma multidão qualquer e imediatamente vê todo mundo que já foi

condenado alguma vez. Imagine que você é um policial em Nova York. De

repente, uma cidade de oito milhões de pessoas se torna infinitamente mais

manejável quando a gente sabe onde concentrar nossas energias”.

Stenton falou: “Como eles sabem? Algum tipo de chip?”.

“Talvez”, disse Belinda. “Podia ser um chip, se pudéssemos executar isso. Ou

então, mais fácil ainda seria prender um bracelete. Faz décadas que se usam

tornozeleiras. Portanto basta modificar o sistema para que o bracelete possa ser

lido pelo dispositivo de retina e proporcionar a faculdade de rastreamento. É

claro”, disse ela, olhando para Mae com um sorriso afetuoso, “também

poderíamos aplicar aqui a tecnologia de Francis e transformar isso num chip.

Mas isso exigiria superar alguns entraves legais, creio.”

Stenton recostou-se na cadeira. “Talvez sim, talvez não.”

“Bem, obviamente essa seria a forma ideal”, disse Belinda. “E seria

permanente. Sempre saberíamos quem são os criminosos, levando em conta que

o bracelete ainda é passível de adulteração ou remoção. E também existem

pessoas que talvez digam que ele deve ser removido após certo tempo. Os

infratores cancelados.”

“Detesto essa ideia”, disse Stenton. “É direito da comunidade saber quem

cometeu crimes. Faz todo sentido. É assim que lidamos com criminosos sexuais

há décadas. A pessoa comete um crime sexual, se torna parte de um cadastro.

Seu endereço se torna público, você tem de percorrer o bairro, se apresentar,

tudo isso, porque as pessoas têm o direito de saber quem mora no meio delas.”

Belinda assentiu. “Certo, certo. É claro. Portanto, na falta de uma palavra

melhor, rotulamos os condenados e, daí em diante, se você for um policial, em

vez de passar de carro por uma rua parando e revistando todo mundo que por

acaso for preto ou mulato ou usar calças muito folgadas, imagine se estiver

usando um dispositivo de retina com um aplicativo que vê as carreiras dos

criminosos em cores bem distintas — amarelo para autores de crimes leves,

laranja para autores de crimes não violentos, mas um pouco mais perigosos, e vermelho para os criminosos e de fato violentos.”

Agora Stenton se inclinou para a frente. “Dê um passo além. As agências de

inteligência podem criar instantaneamente uma rede de todos os contatos

suspeitos, coconspiradores. Levaria poucos segundos. Eu me pergunto se

poderíamos ter algumas variações no esquema de cores, para levar em conta as

pessoas que podem ser tidas como ligadas a um criminoso, ainda que não

tenham sido pessoalmente presas ou condenadas. Como você sabe, muitos

chefes de quadrilhas mafiosas nunca foram condenados por nada.”

Belinda fazia que sim com a cabeça energicamente. “Sim. Não há dúvida”,

disse ela. “E nesses casos poderíamos usar um dispositivo móvel para rotular

essa pessoa, uma vez que não teríamos o recurso de uma condenação judicial

para garantir a obrigatoriedade do chip ou do bracelete.”

“Certo. Certo”, disse Stenton. “Existem muitas possibilidades. Coisas boas

para pensar. Estou animado.”

Belinda ficou radiante, sentou-se, fingiu displicência ao sorrir para Gareth, o

aspirante seguinte, que se levantou, nervoso e piscando os olhos. Era um homem

alto, de cabelo cor de melão-cantalupo e, agora que era alvo da atenção da sala,

deu um sorriso tímido, torto.

“Pois é, para o bem ou para o mal, minha ideia era semelhante à de Belinda.

Quando descobrimos que estávamos elaborando conceitos similares,

trabalhamos em certa cooperação. O ponto principal em comum é que estamos

ambos interessados em segurança. Meu plano, creio, eliminaria o crime

quarteirão por quarteirão, bairro por bairro.”

Levantou-se na frente da tela mostrou uma imagem tridimensional de um

pequeno bairro formado por quatro quarteirões, vinte e cinco casas. Linhas

verdes brilhantes delineavam os prédios, permitindo que os espectadores vissem

a parte interna; fez Mae lembrar-se de projetos de sistemas de calefação.

“Baseia-se no modelo da vigilância de bairro, em que grupos de vizinhos

cuidam uns dos outros e comunicam qualquer comportamento anormal. Com o

NeighborWatch — é o nome que dei para isso, embora possa ser alterado, é

claro —, alavancamos o poder da SeeChange especificamente e do Círculo, em

geral, para tornar a prática de um crime, qualquer crime, extremamente difícil

num bairro plenamente integrado ao projeto.”

Apertou um botão e agora as casas estavam cheias de figuras, duas ou três em

cada prédio, todas coloridas de azul. Elas se movimentavam em suas cozinhas

digitais, seus quartos digitais e em seus quintais digitais.

“Muito bem, como podem ver, aqui estão os moradores do bairro, todos

cuidando de seus afazeres. Aqui estão coloridos de azul porque estão todos

registrados no NeighborWatch e suas impressões digitais, suas retinas, seus telefones e até seus perfis corporais foram memorizados pelo sistema.”

“Essa é a imagem que qualquer morador pode ver?”, perguntou Stenton.

“Exatamente. Essa é a imagem de seu monitor doméstico.”

“Impressionante”, disse Stenton. “Já estou interessado.”

“Portanto, como podem ver, tudo vai bem no bairro. Todo mundo que está aí

deveria estar aí. Mas agora vemos o que acontece quando chega uma pessoa

desconhecida.”

Uma figura de cor vermelha apareceu e caminhou até a porta de uma das

casas. Gareth virou-se para a plateia e ergueu as sobrancelhas.

“O sistema não conhece esse homem, por isso está vermelho. Qualquer pessoa

nova que entra no bairro automaticamente dispara o gatilho do computador.

Todos os vizinhos vão receber, em seus dispositivos domésticos e móveis, a

notícia de que um visitante está no bairro. Em geral, não tem nenhuma

importância. O amigo de alguém ou o tio de alguém veio fazer uma visita. Mas,

em todo caso, é possível ver que é uma pessoa nova e é possível ver onde está.”

Stenton estava recostado em sua cadeira, como se já soubesse o resto da

história, mas quisesse dar uma ajuda para a exposição andar mais depressa.

“Suponho, então, que exista um meio de neutralizá-lo.”

“Sim. As pessoas que ele está visitando podem mandar uma mensagem para o

sistema dizendo que o visitante está com eles, o identifica e atesta sua confiança:

‘É o tio George’. Ou podem fazer isso antecipadamente. Então ele já aparece

rotulado de azul.”

Então o tio George, a figura na tela, passou de vermelho para azul e entrou na

casa.

“Então tudo está bem de novo no bairro.”

“A menos que seja um intruso de verdade”, alfinetou Stenton.

“Certo. Na rara ocasião em que houver alguém com má intenção...” Agora a

tela mostrava uma figura vermelha rondando a casa, espiando pelas janelas.

“Bem, aí então o bairro inteiro vai ficar sabendo. Vão saber onde ele está e

podem ou ficar longe, ou ligar para a polícia, ou enfrentá-lo, como preferirem.”

“Muito bem. Muito legal”, disse Stenton.

Gareth sorriu. “Obrigado. E Belinda me fez pensar que, sabe, quaisquer ex-

condenados que morem no bairro apareceriam em cor vermelha ou laranja no

monitor. Ou alguma outra cor, de modo que se reconheça que se trata de

moradores do bairro, mas as pessoas também saberiam que se trata de

condenados pela justiça ou seja lá o que forem.”

Stenton fez que sim com a cabeça. “É nosso direito saber.”

“Sem dúvida”, disse Gareth.

“Parece que isso resolve um dos problemas do SeeChange”, disse Stenton, “a saber, que mesmo quando existem câmeras em toda parte, nem todo mundo pode

ver tudo. Se um crime for cometido às três horas da madrugada, quem vai estar

vendo a imagem da câmera 982, certo?”

“Certo”, disse Gareth. “Veja, desse modo as câmeras são só uma parte do

sistema. O rótulo de cores nos diz quem é anômalo; assim basta prestar atenção a

essa anomalia em particular. É claro, o problema é determinar se isso viola

alguma lei de privacidade.”

“Bem, não acho que isso seja um problema”, disse Stenton. “Nós temos

direito de saber quem mora na nossa rua. Qual a diferença entre isso e

simplesmente se apresentar a todo mundo na rua? É apenas uma versão mais

avançada e completa da máxima que diz ‘bons muros fazem bons vizinhos’.

Imagino que isso vá eliminar boa parte de todos os crimes cometidos por pessoas

estranhas a uma dada comunidade.”

Mae olhou seu bracelete. Ela não conseguiu contar todos, mas centenas de

espectadores insistiam em saber mais sobre os produtos de Belinda e Gareth.

Perguntavam: Quando? Onde? Quanto custa?

A voz de Bailey então ressoou. “A pergunta sem resposta, no entanto, é: e se o

crime for cometido por uma pessoa de dentro do bairro? De dentro da casa?”

Balida e Gareth olharam para uma mulher bem vestida, de cabelo preto muito

curto e óculos estilosos. “Acho que essa é a minha deixa.” Levantou-se e ajeitou

a saia preta.

“Meu nome é Finnegan e meu tema é a violência contra crianças em casa. Eu

mesma fui vítima de violência doméstica quando jovem”, disse ela, e deu um

segundo para que aquilo fosse assimilado. “E esse crime, entre todos os demais,

parece ser o mais difícil de prevenir, porque seus autores são pessoas que fazem

parte ostensiva da família, certo? Mas então me dei conta de que todas as

ferramentas necessárias já existem. Primeiro, a maior parte das pessoas tem

algum tipo de monitor que pode verificar quando a raiva delas se eleva a um

grau perigoso. Pois bem, se agora associarmos essa ferramenta a sensores de

movimento comuns, poderemos saber imediatamente quando algo ruim está

acontecendo ou está à beira de acontecer. Permitam que eu dê um exemplo. Aqui

está um sensor de movimento instalado na cozinha. É um equipamento muito

usado em fábricas e até em cozinhas de restaurantes para saber se o chefe ou o

funcionário está terminando determinada tarefa da maneira-padrão. Sei que o

Círculo emprega esse equipamento para garantir a regularidade em muitos

setores da empresa.”

“De fato, usamos”, disse Bailey, provocando um riso distante do lugar onde

ele estava sentado.

Stenton explicou: “Temos a patente dessa tecnologia específica. Sabia disso?”.

O rosto de Finnegan ficou vermelho e ela deu a impressão de estar decidindo

se devia ou não mentir. Poderia dizer que sabia?

“Não tinha essa informação”, disse ela, “mas fico muito contente de saber

disso agora.”

Stenton pareceu impressionado com sua atitude controlada.

“Como sabem”, prosseguiu ela, “em locais de trabalho, no caso de qualquer

irregularidade de movimento ou na ordem das operações, o computador ou

lembra a pessoa daquilo que ela talvez tenha esquecido ou comunica o erro à

direção. Então pensei: por que não usar a mesma tecnologia do sensor de

movimento dentro de casa, sobretudo em casas de alto risco, a fim de registrar

qualquer comportamento fora do normal?”

“Como um detector de fumaça para seres humanos”, disse Stenton.

“Certo. Um detector de fumaça vai disparar se sentir o mais leve traço de

aumento do índice de dióxido de carbono. Portanto a ideia é a mesma. Instalei

um sensor aqui nesta sala, na verdade, e quero mostrar a vocês como funciona.”

Na tela atrás da mulher, apareceu uma figura, do tamanho e do formato de

Finnegan, embora sem feições — uma versão dela em forma de uma sombra

azul, que espelhava seus movimentos.

“Muito bem, essa sou eu. Agora observem meus movimentos. Se eu andar, os

sensores veem que isso está dentro do normal.”

Atrás dela, sua forma continuou azul.

“Se eu cortar alguns tomates”, disse Finnegan, imitando o gesto de picar

tomates imaginários, “a mesma coisa. É normal.”

A figura atrás dela, sua sombra azul, imitou-a.

“Mas agora vejam o que acontece se faço algo violento.”

Finnegan ergueu os braços rapidamente e baixou-os para a frente, como se

batesse numa criança a seus pés. De imediato, na tela, sua figura ficou laranja e

um alarme bem alto disparou.

O alarme era um apito ritmado, veloz e estridente. Mae se deu conta de que

era alto demais para uma simples demonstração. Olhou para Stenton, cujos olhos

estavam arregalados e brancos.

“Desligue”, disse ele, mal conseguindo controlar sua raiva.

Finnegan não o ouviu e deu continuidade à sua demonstração como se aquilo

fizesse parte do plano, uma parte aceitável. “Esse é o alarme, é claro, e...”

“Desligue!”, gritou Stenton, e dessa vez Finnegan ouviu. Ela moveu os dedos

nervosos pelo tablet, em busca do botão correto.

Stenton estava olhando para o teto. “De onde é que vem esse som? Como é

que ficou tão alto?”

O apito estridente continuou. Metade da sala tapava os ouvidos.

“Desligue isso, senão vamos sair daqui”, disse Stenton, se levantando, a boca

contraída e furiosa.

Por fim Finnegan encontrou o botão correto e o alarme foi silenciado.

“Foi um erro”, disse Stenton. “Não se deve punir as pessoas a quem você está

querendo convencer. Compreende isso?”

Os olhos de Finnegan estavam desvairados, latejantes, cheios de lágrimas.

“Sim, entendo.”

“Você poderia simplesmente ter dito que um alarme dispara. Não havia

nenhuma necessidade de fazer o alarme disparar. Essa é minha lição de negócios

de hoje.”

“Obrigado, senhor”, disse ela, com os dedos entrecruzados na sua frente, as

articulações pálidas. “Devo prosseguir?”

“Não sei”, disse Stenton, ainda furioso.

“Prossiga, Finnegan”, disse Bailey. “Mas seja rápida.”

“Certo”, disse ela, a voz trêmula. “A essência é que os sensores seriam

instalados em todos os cômodos e seriam programados para reconhecer o que se

mantém dentro dos limites da normalidade e o que é anômalo. Algo anômalo

acontece, o alarme dispara e, em termos ideais, apenas o alarme basta para

interromper ou retardar o que estiver acontecendo na sala. Enquanto isso, as

autoridades já foram comunicadas. É possível criar uma rede, de modo que os

vizinhos também sejam alertados, uma vez que são as pessoas mais próximas e

com mais chance de entrar e ajudar imediatamente.”

“Muito bem. Entendi”, disse Stenton. “Vamos em frente.” Stenton queria

dizer vamos passar para o próximo, mas Finnegan, demonstrando uma

determinação admirável, prosseguiu.

“É claro, se combinarmos todas essas tecnologias, poderemos rapidamente

garantir o cumprimento das normas de comportamento em qualquer contexto.

Pense em prisões e escolas. Quero dizer, frequentei um colégio com quatro mil

alunos e só vinte jovens eram encrenqueiros. Imagine se os professores usassem

dispositivos de retina e pudessem ver os alunos em cor vermelha a um

quilômetro de distância — ora, isso eliminaria a maior parte dos problemas. E

então os sensores apontariam com precisão qualquer comportamento

antissocial.”

Agora Stenton estava recostado em sua cadeira, os polegares enfiados nas

presilhas do cinto. Tinha relaxado outra vez. “Observo que muitos crimes e

problemas acontecem porque temos coisas demais para vigiar, não é? Lugares

demais, gente demais. Se pudermos nos concentrar mais ou isolar os

transgressores e tivermos condições de rotular melhor essas pessoas e seguir seus passos, pouparemos uma enorme quantidade de tempo e de trabalho.”

“Exatamente, senhor”, disse Finnegan.

Stenton ficou mais calmo e, baixando os olhos para seu tablet, pareceu estar

vendo o que Mae também via no seu pulso: Finnegan e seu programa eram

imensamente populares. As mensagens predominantes provinham de vítimas de

diversos crimes: mulheres e crianças que tinham sofrido maus-tratos em sua casa

diziam o óbvio: Quem dera isso existisse dez, quinze anos atrás. Pelo menos,

diziam todos eles, de uma forma ou de outra, esse tipo de coisa nunca mais vai

acontecer.

 

Quando Mae voltou para sua mesa de trabalho, havia um recado em papel de

Annie. “Pode me encontrar? Apenas mande uma mensagem de texto ‘agora’

pelo celular quando puder e então vou te encontrar no banheiro.”

Dez minutos depois, Mae estava sentada em sua cabine habitual no banheiro e

ouviu Annie entrar pela porta da cabine vizinha. Mae estava aliviada por Annie

ter procurado por ela, estava emocionada por ter Annie tão perto de si outra vez.

Agora Mae podia corrigir todos os equívocos e estava determinada a fazer isso.

“Estamos sozinhas?”, perguntou Annie.

“O áudio vai ficar desligado por três minutos. Qual é o problema?”

“Nada. É só a história do PastPerfect. Estão começando a me passar os

resultados e já é uma coisa bastante perturbadora. E amanhã vai se tornar

público, e eu acho que a coisa vai ficar ainda pior.”

“Espere. O que foi que descobriram? Pensei que iam começar lá na Idade

Média ou algo assim.”

“Começaram mesmo. Mas já naquele tempo parece que os dois lados de

minha família eram de pessoas cruéis. Veja, eu nem sabia que os ingleses tinham

escravos irlandeses, você sabia?”

“Não. Acho que não. Você quer dizer, escravos brancos irlandeses?”

“Milhares deles. Meus ancestrais eram os cabeças dos bandos ou algo assim.

Invadiam a Irlanda, traziam escravos, vendiam pelo mundo todo. É tão escroto.”

“Annie...”

“Veja, sei que eles têm certeza disso porque foram cruzadas informações de

mil maneiras diferentes, mas será que pareço ser descendente de senhores de

escravos?”

“Annie, vamos mais devagar. Uma coisa que aconteceu seiscentos anos atrás

não tem nada a ver com você. Na linhagem de todo mundo existem manchas

escuras, tenho certeza disso. Você não pode tomar isso como algo pessoal.”

“Claro, mas pelo menos é embaraçoso, não é? Significa que isso faz parte de

mim, pelo menos para todo mundo que eu conheço. Para as pessoas que eu vir daqui para a frente, isso fará parte de mim. Elas vão me ver, falar comigo, mas

isso vai fazer parte de mim também. Essa nova camada foi mapeada sobre mim e

não acho que seja uma coisa bonita. É como se eu soubesse que seu pai foi

membro da Ku-Klux-Klan...”

“Você está superdimensionando tudo isso. Ninguém, mas ninguém mesmo vai

olhar atravessado para você, só porque um ancestral distante seu teve escravos

tomados da Irlanda. Quero dizer, é tão doido e tão distante que ninguém vai

conseguir associar você a uma coisa dessas. Você sabe como são as pessoas.

Ninguém consegue se lembrar de uma coisa assim. E como atribuir a

responsabilidade a você? Não há a menor chance.”

“E também matavam uma porção de escravos. Há a história de uma revolta, e

um parente meu comandou a matança em massa de mil homens, mulheres e

crianças. É tão horrível. Eu só...”

“Annie. Annie. Você tem de se acalmar. Antes de tudo, nosso tempo acabou.

O áudio vai voltar num instante. Em segundo lugar, você não pode se preocupar

com isso. Aquelas pessoas eram praticamente homens das cavernas. Os

antepassados das cavernas de todo mundo eram uns imbecis.”

Annie riu, fungou bem alto.

“Jura que não vai mais se preocupar?”

“Claro.”

“Annie. Não se preocupe com isso. Prometa.”

“Tá legal.”

“Você promete?”

“Prometo. Vou tentar não me preocupar.”

“Muito bem. Acabou o tempo.”

 

No dia seguinte, quando foi divulgada a notícia sobre os ancestrais de Annie,

Mae sentiu-se pelo menos parcialmente corroborada. Houve alguns comentários

improdutivos aqui e ali, é claro, mas no geral a reação foi apenas um dar de

ombros coletivo. Ninguém deu grande importância à maneira como aquilo podia

se relacionar com Annie, mas houve alguma atenção nova e possivelmente útil a

um momento da história esquecido havia muito tempo, em que os ingleses iam à

Irlanda e voltavam trazendo moeda humana.

Annie parecia receber tudo aquilo sem perder o equilíbrio. Seus zings eram

positivos e ela gravou um pequeno vídeo de divulgação, falando sobre a surpresa

ao descobrir o papel desafortunado que uma parte distante de sua linhagem havia

desempenhado naquele momento histórico sombrio. Mas depois tentava

acrescentar alguma perspectiva e leveza à questão e deixar claro que tal

revelação não devia dissuadir outras pessoas de explorar sua história pessoal por meio do PastPerfect. “Os antepassados de todo mundo foram uns imbecis”, disse

ela, e Mae, vendo o vídeo em seu bracelete, riu.

 

Porém Mercer, como era de esperar, não estava rindo. Mae não tinha notícia

dele já fazia mais de um mês, mas então, no correio de uma sexta-feira (o único

dia em que a agência de correio ainda funcionava), veio uma carta. Ela não

queria ler, porque sabia que seria azeda, acusatória e julgadora. Mas ele já havia

escrito uma carta assim, não é? Mae abriu o envelope, achando que Mercer não

poderia se mostrar pior do que tinha sido antes.

Mae estava enganada. Daquela vez ele não conseguiu sequer datilografar o

“querida” antes do nome dela:

Mae,

Sei que eu disse que não ia escrever de novo. Mas agora que Annie está à beira da ruína, espero

que isso faça você parar para pensar. Por favor, diga a ela para cessar sua participação nesse experimento, em que garanto que você e ela vão acabar mal. Não somos feitos para saber tudo, Mae. Alguma vez você já pensou que nossa mente foi sutilmente calibrada entre o conhecido e o desconhecido? Que nossas almas precisam dos mistérios da noite e da claridade do dia? Vocês aí estão criando um mundo de eterna luz do dia e acho que isso vai acabar nos queimando vivos. Não sobrará nenhum tempo para refletir, dormir, relaxar. Por acaso ocorreu alguma vez ao seu pessoal do Círculo que não podemos conter tanta coisa? Olhe para nós. Somos pequenos. Nossa cabeça é pequena, do tamanho de um melão. Vocês querem que essa nossa cabeça contenha tudo o que o mundo já viu? Não vai dar certo.

 

O pulso de Mae estava palpitando.

Por que você se importa com isso, Mae?

Já estou entediado.

Você está dando voz ao Pé Grande. Não dê voz ao Pé Grande!

O coração de Mae já estava martelando, e ela sabia que não devia ler o resto.

Mas não conseguiu parar.

Por acaso eu estava na casa dos meus pais quando você teve sua reuniãozinha para lançar ideias com a Juventude Nazista Digital. Meus pais fizeram questão de assistir; estão muito orgulhosos de você, apesar do horror que foi aquela reunião. Mesmo assim, estou contente por ter assistido àquele espetáculo (assim como fiquei contente por ter assistido ao documentário nazista O triunfo da vontade, sobre Hitler). Isso me deu o último impulso de que eu precisava para dar o passo que eu, aliás, já vinha planejando.

Vou me mudar para o norte, para a floresta mais densa e mais desinteressante que conseguir

encontrar. Sei que suas câmeras estão mapeando aquelas regiões, assim como estão mapeando a Amazônia, a Antártica, o Saara etc. Mas pelo menos vou sair com uma vantagem inicial. E quando as câmeras chegarem, irei mais para o norte.

Mae, tenho de admitir que você e os seus venceram. É algo de fato completo e agora sei disso.

Mas antes daquela sessão de venda de ideias eu ainda tinha alguma esperança de que a loucura se limitasse à sua empresa, às milhares de pessoas que sofreram lavagem cerebral e trabalham para vocês, ou para os milhões de pessoas que cultuam o bezerro de ouro que é o Círculo. Eu tinha esperança de que ainda existissem pessoas que fossem se levantar contra a sua gente. Ou que uma

nova geração veria tudo isso como algo ridículo, opressivo, totalmente fora de controle.

 

Mae verificou o próprio pulso. Já havia quatro clubes “Eu odeio Mercer” na

internet. Alguém se ofereceu para apagar a conta bancária dele. Basta dizer uma

palavra, dizia a mensagem.

Mas agora sei que mesmo que alguém derrubasse vocês, mesmo que o Círculo terminasse amanhã, algo pior provavelmente tomaria seu lugar. Existem outros mil Sábios por aí, pessoas com ideias ainda mais radicais sobre criminalidade e privacidade. Toda vez que penso que não pode piorar, vejo alguém de dezenove anos com ideias que fazem o Círculo parecer alguma utopia da União Americana em Defesa das Liberdades Civis. E vocês são pessoas (e sei agora que vocês são, na maioria, pessoas) que não se assustam com nada. Nenhuma quantidade de vigilância causa a menor preocupação ou provoca qualquer resistência.

Uma coisa é querer medir a si mesma, Mae — você e seus braceletes. Posso aceitar que você

receba os dados dos próprios movimentos, registre tudo o que faz, reúna dados sobre si mesma em benefício do... Bem, seja lá o que for que estão tentando fazer. Mas isso não é o suficiente, não é mesmo? Vocês não querem só os seus dados, precisam dos meus. Não estão completos sem isso. É uma doença.

Portanto, vou embora. Quando você ler esta carta, vou estar fora do radar e espero que outros se

juntem a mim. De fato, sei que outros vão se juntar a mim. Vamos viver no subsolo, no deserto, nas matas. Seremos como refugiados, uma mistura infeliz, mas necessária, das duas coisas. Porque é isso o que somos.

Espero que isso seja um segundo grande cisma, em que duas humanidades vão viver separadas,

mas em paralelo. Haverá aqueles que vivem sob a abóbada de vigilância que você está ajudando a criar e aqueles que vivem, ou tentam viver, fora disso. Estou apavorado, por todos nós.

Mercer

 

Mae leu a carta diante da câmera e sabia que seus espectadores estavam

achando aquilo tão bizarro e hilariante quanto ela mesma. Os comentários

pipocavam e havia alguns bons. Agora o Pé Grande vai voltar ao seu hábitat

natural! E: Já vai tarde, Sasquatch! Mas Mae ficou tão entretida com aquilo que

saiu à procura de Francis e, quando os dois afinal se encontraram, já tinha lido o

recado transcrito e postado em meia dúzia de subsites; um espectador em

Missoula já havia lido aquilo com uma peruca empoada na cabeça, com

caricaturas de música patriótica ao fundo. Aquele vídeo tivera três milhões de

acessos. Mae riu, enquanto assistia duas vezes, mas sentiu pena de Mercer. Ele

era teimoso, porém não era burro. Não era um caso perdido. Ainda podia ser

convencido.

 

No dia seguinte, Annie deixou mais um bilhete em papel e, de novo, as duas

combinaram de se encontrar no banheiro, em suas cabines contíguas. Mae torcia

para que, depois da segunda rodada de revelações importantes, Annie tivesse

descoberto um modo de contextualizar aquilo tudo. Mae viu a ponta do sapato de

Annie na cabine vizinha. Desligou o áudio.

A voz de Annie estava rouca.

“Você já soube das novas coisas horríveis, não é?”

“Ouvi falar alguma coisa. Você andou chorando? Annie…”

“Mae, acho que não vou conseguir segurar essa barra. Veja, uma coisa é saber

dos ancestrais em tempos muito antigos. Mas havia uma parte de mim que ficou

pensando, sabe, tudo bem, minha gente veio para a América do Norte, começou

uma vida nova, deixou tudo aquilo para trás. Mas, merda, Mae, saber que eles

foram donos de escravos aqui também? Quero dizer, isso é uma estupidez do

cacete. De que tipo de gente eu descendo, afinal? Tem de haver alguma doença

dentro de mim também.”

“Annie, você não pode pensar assim.”

“É claro que posso. Não consigo pensar em mais nada...”

“Tá legal. Muito bem. Mas primeiro se acalme. E em segundo lugar, você não

pode tomar isso como algo pessoal. Tem de separar sua pessoa disso. Tem de ver

a questão de maneira um pouco mais abstrata.”

“E ainda por cima tenho recebido umas mensagens de ódio malucas. Recebi

seis mensagens esta manhã me chamando de Annie Escravocrata. Metade das

pessoas de cor que contratei ao longo dos anos agora anda desconfiada de mim.

Como se eu fosse uma dona de escravos intergeracionais geneticamente puros!

Agora não consigo mais encarar o fato de Vickie trabalhar para mim. Vou

dispensá-la amanhã.”

“Annie, você não percebe como tudo isso parece loucura? Quero dizer, além

de tudo, você tem mesmo certeza de que seus antepassados aqui tinham escravos

negros? Os escravos aqui não eram também irlandeses?”

Annie deu um suspiro profundo.

“Não. Não. Minha gente passou de donos de irlandeses para donos de

africanos. Você viu também que eles lutaram do lado dos Confederados na

Guerra Civil?”

“Vi, sim, mas há milhões de pessoas cujos antepassados lutaram do lado dos

sulistas. O país estava em guerra, meio a meio.”

“Não a minha metade. Quero dizer, você sabe o caos que isso está

desencadeando na minha família?”

“Mas eles nunca levaram a sério essa história de herança familiar, não é

mesmo?”

“Não quando supunham que fôssemos de sangue azul, Mae! Não quando

achavam que eram gente do navio Mayflower, com uma linhagem impecável!

Agora eles estão levando isso muito a sério mesmo. Minha mãe não sai de casa

há dois dias. Não quero nem imaginar o que vão descobrir agora.”

O que descobriram a seguir, dois dias depois, foi muito pior. Mae não soube, com antecipação, do que se tratava precisamente, mas soube de fato que Annie

tinha descoberto e que Annie tinha mandado um zing muito estranho para o

Continuar: parte 6 de 7