O Círculo
Livro II
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
mundo. Dizia assim: Na verdade, não sei se devemos saber tudo. Quando as
duas se encontraram nas cabines do banheiro, Mae não conseguia acreditar que
os dedos de Annie haviam de fato digitado aquela frase. O Círculo não podia
deletar, é claro, mas alguém — Mae esperava que fosse Annie — tinha
emendado a frase para não devemos saber tudo, sem que o armazenamento
adequado esteja pronto. Não queremos que se perca!
“É claro que fui eu que mandei”, disse Annie. “Pelo menos, a primeira.”
Mae tinha alimentado a esperança de que havia sido alguma falha técnica
terrível.
“Como pôde escrever aquilo?”
“É o que eu acredito, Mae. Você não tem a menor ideia.”
“Eu sei que não tenho. Mas que ideia você tem? Sabe em que tipo de merda
está metida? Como é que logo uma pessoa feito você pode abraçar uma ideia
como essa? Você é a garota-propaganda do acesso aberto ao passado e agora
vem dizer que... Afinal, o que você está dizendo mesmo?”
“Ah, cacete, sei lá. Só sei que para mim chega. Tenho de acabar com isso.”
“Acabar com o quê?”
“O PastPerfect. E tudo o que for parecido.”
“Você sabe que não pode.”
“Estou planejando tentar.”
“Você já deve estar enfiada até o pescoço em alguma merda bem grande.”
“Estou mesmo. Mas os Sábios me devem este único favor. Não consigo mais
segurar essa barra. Veja, eles já me, abre aspas, liberaram de algumas
obrigações, fecha aspas. Seja lá o que for isso. Não me importa. Mas se eles não
acabarem com esse negócio, vou entrar numa espécie de coma. Já sinto que mal
consigo me aguentar de pé ou respirar.”
Ficaram ambas em silêncio por um momento. Mae se perguntou se não devia
ir embora. Annie estava perdendo o controle sobre algo muito central em si
mesma; sentia-se volátil, capaz de ações temerárias e irrevogáveis. Falar com
ela, por si só, já representava um risco.
Então ouviu Annie arquejar.
“Annie, respire.”
“Acabei de dizer para você que não consigo. Faz dois dias que não durmo.”
“Mas o que foi que aconteceu?”, perguntou Mae.
“Ah, cacete, tudo. Nada. Eles descobriram umas coisas sinistras com meus
pais. Quero dizer, uma porção de coisas sinistras.”
“E quando vai ser divulgado?”
“Amanhã.”
“Muito bem. Talvez não seja tão ruim quanto você está pensando.”
“É muito pior do que você é capaz de imaginar.”
“Conte. Aposto que é uma coisa boa.”
“Não é uma coisa boa, Mae. Pode ser qualquer coisa, menos bom. A primeira
coisa é que descobri que meu pai e minha mãe tiveram uma espécie de
casamento aberto ou sei lá o quê. Eu nem perguntei nada para eles. Mas existem
fotografias e vídeos dos dois com todo tipo de gente, quero dizer, uma coisa
assim, feito adultérios em série de ambas as partes. Isso é bom?”
“Como você sabe que foi mesmo algum caso que tiveram? Quero dizer, eles
podiam estar só andando ao lado de alguém, não é? E foi na década de 80, não é
isso?”
“Mais para a década de 90, na verdade. E, acredite em mim, é definitivo.”
“Como fotos sexuais?”
“Não. Mas fotos picantes. Quero dizer, tem uma fotografia do meu pai com a
mão em volta da cintura de uma mulher e a outra mão nos peitos dela. Sabe,
coisas escrotas. Outras fotos com mamãe e um cara barbado, uma série de fotos
de nus. Parece que o cara morreu, tinha esse monte de fotos, elas foram
compradas num bazar de garagem, foram escaneadas e armazenadas na nuvem.
Então, quando fizeram o reconhecimento facial global, pronto, mamãe estava
nua com um motoqueiro. Quero dizer, os dois às vezes nus, como se estivessem
fazendo poses de publicidade.”
“Lamento.”
“E quem tirou as fotos? Há um terceiro cara no quarto? Quem era ele? Um
vizinho solícito?”
“Você já perguntou a eles sobre isso?”
“Não. Mas essa é a melhor parte da história. Eu ia pedir esclarecimentos para
eles, quando essa outra coisa estourou. É tão pior que já nem me importo mais
com os casos deles. Quero dizer, as fotos não eram nada comparadas com o
vídeo que encontraram.”
“O que tem o vídeo?”
“Tá legal. Foi uma das raras vezes em que os dois estavam de fato juntos —
pelo menos à noite. É um vídeo feito num píer. Havia uma câmera de segurança
ali. Porque acho que armazenam mercadorias nos depósitos ali à beira do mar.
Então tem uma fita de meus pais andando naquele píer à noite.”
“Um vídeo de sexo?”
“Não, é muito pior. Ah, cacete, é tão ruim, Mae, é tão sórdido. Você sabia que
meus pais fazem isso com certa frequência — tiram uma noite sozinhos para
ficar bebendo? Já me contaram a respeito. Ficam de porre, embriagados, vão dançar, passam a noite toda fora. É no aniversário deles, todos os anos. Às vezes
é na cidade, às vezes vão para outro lugar, tipo o México. É uma aventura de
virar a noite, para se manterem jovens, manter a juventude de seu casamento, sei
lá.”
“Tá legal.”
“Então eu sei que isso aconteceu no aniversário deles. Eu tinha seis anos de
idade.”
“E daí?”
“Seria bem diferente se eu não tivesse ainda nascido... Ah, merda. Muito bem.
Não sei o que eles estavam fazendo antes, mas eles aparecem naquela câmera de
vigilância por volta de uma hora da manhã. Estão bebendo uma garrafa de vinho
e brincando com a ponta dos pés na água, tudo parece muito inocente e maçante,
por um tempo. Mas então aparece um homem no quadro. É uma espécie de sem-
teto, andando trôpego. E meus pais olham para ele, olham para ele vagando sem
rumo e tal. Parece que papai diz alguma coisa para ela, os dois meio que riem e
voltam ao seu vinho. Então nada acontece por um tempo e o tal sem-teto está
fora do quadro. Aí, mais ou menos dez minutos depois, ele volta ao quadro e
então cai do píer dentro da água.”
Mae respira fundo, rápido. Ela sabia que aquilo tornava a situação ainda pior.
“Seus pais viram o homem cair?”
Agora Annie estava soluçando. “Esse é o problema. Viram tudo. Aconteceu a
mais ou menos um metro de onde eles estavam sentados. Na fita, a gente vê que
eles levantam, se inclinam, gritam para a água. Dá para ver que estão
perturbados. Dão uma olhada em volta para ver se há algum telefone ou algo
assim.”
“E havia?”
“Não sei. Não parece. Na verdade, eles nunca saem do quadro da câmera. Isso
é que é horrível. Eles veem o cara cair na água e ficam ali parados. Não correm
para pedir ajuda nem ligam para a polícia nem nada. Não pulam na água para
salvar o cara. Após alguns minutos de alvoroço, eles se limitam a sentar de novo
e minha mãe põe a cabeça no ombro do papai e os dois ficam parados por mais
uns dez minutos, mais ou menos, e depois se levantam e vão embora.”
“Talvez estivessem em choque.”
“Mae, eles simplesmente se levantaram e foram embora. Nunca ligaram para
o número de emergência nem nada. Não há nenhum registro disso. Nunca
comunicaram nada. Mas o corpo foi encontrado no dia seguinte. O sujeito nem
era um sem-teto. Talvez fosse um pouco mentalmente perturbado, mas morava
com os pais e trabalhava numa delicatéssen, lavando pratos. Meus pais
simplesmente ficaram olhando enquanto o homem se afogava.”
Agora Annie estava sufocada nas próprias lágrimas.
“Já falou com eles sobre isso?”
“Não. Nem consigo falar com eles. Neste momento, sinto nojo deles.”
“Mas ainda não foi divulgado?”
Annie viu que horas eram. “Será em breve. Menos de doze horas.”
“E Bailey disse o quê?”
“Ele não pode fazer nada. Você o conhece.”
“Talvez haja alguma coisa que eu possa fazer”, disse Mae, sem ter a menor
ideia do que seria. Annie não deu o menor sinal de que acreditava que Mae era
capaz de retardar ou deter a tempestade iminente.
“É tão horrível. Ah, merda”, disse Annie, como se aquela ideia tivesse
acabado de vir a seu pensamento. “Agora eu não tenho pais.”
Quando seu tempo expirou, Annie voltou ao escritório onde, disse ela,
planejava ficar deitada indefinidamente, e Mae voltou para seu antigo posto de
trabalho. Ela precisava pensar. Ficou parada, de pé, na porta, no lugar onde tinha
visto Kalden olhando para ela, e de lá observou os novatos de Experiência do
Cliente, obtendo consolo com seu trabalho honesto, suas cabeças que faziam
sim. Seus murmúrios de aprovação e desaprovação davam a Mae uma sensação
de ordem e justiça. Um membro ocasional do Círculo ergueu os olhos para sorrir
para ela, para acenar discretamente para a câmera e para a plateia de Mae, antes
de voltar para o trabalho à sua espera. Mae sentiu uma onda de orgulho deles, do
Círculo, por atrair almas puras como aquelas. Eles estavam abertos. Eram
sinceros. Não escondiam, não disfarçavam, não ofuscavam.
Havia um novato perto dela, um homem de não mais de vinte e dois anos,
comum, cabelo desarvorado, que se erguia da cabeça feito fumaça, trabalhando
com tamanha concentração que nem havia percebido que Mae estava parada
logo atrás. Seus dedos digitavam ferozmente, com fluidez, quase em silêncio,
como se respondesse simultaneamente as dúvidas dos clientes e os questionários
das pesquisas. “Não, não, sorriso, cara feia”, dizia ele, fazendo que sim com a
cabeça, num ritmo rápido e sem esforço. “Sim, sim, não, Cancun, mergulho em
águas profundas, resort de alto nível, fim de semana prolongado, janeiro, janeiro,
três, dois, sorriso, sim, Prada, Converse, não, cara feia, cara feia, sorriso, Paris.”
Ao observá-lo, a solução para o problema de Annie parecia óbvia. Ela
precisava de apoio. Annie precisava saber que não estava sozinha. E então tudo
se encaixou. É claro que a solução estava embutida no próprio Círculo. Havia
milhões de pessoas que, sem dúvida, dariam apoio a Annie e mostrariam seu
apoio numa variedade imensa de maneiras, as mais inesperadas e sinceras.
Sofrer é apenas sofrer, se sofre em silêncio, na solidão. A dor experimentada em público, à vista de milhões amorosos, já não era mais dor. Era comunhão.
Mae saiu da porta e seguiu rumo ao terraço. Tinha uma obrigação a cumprir
ali, não só com Annie, sua amiga, mas com seus espectadores. E ser testemunha
da honestidade e da abertura dos novatos, daquele jovem de cabelo desarvorado,
fez Mae sentir-se hipócrita. Enquanto subia a escada, avaliou suas opções e a si
mesma. Momentos atrás, tinha se obscurecido de propósito. Tinha sido o
contrário de aberta, o contrário de honesta. Tinha ocultado o áudio para o
mundo, para os milhões que supunham que ela era sempre franca, sempre
transparente.
Lançou o olhar sobre o campus. Seus espectadores se perguntavam o que ela
estaria olhando, por que aquele silêncio.
“Quero que todos vocês vejam o que estou vendo”, disse ela.
Annie queria esconder-se, sofrer sozinha, resguardar-se. E Mae queria fazer
honra àquilo, ser leal. Mas a lealdade para uma pessoa podia valer mais do que a
lealdade para milhões? Não era esse tipo de pensamento, em favor do ganho
pessoal e temporário, que tornava possíveis todos os horrores históricos? De
novo a solução parecia estar à sua frente, à sua volta. Mae precisava ajudar
Annie e repurificar seu próprio exercício da transparência, e as duas coisas
podiam ser feitas com uma ação corajosa. Mae viu que horas eram. Tinha duas
horas até sua apresentação do SoulSearch. Subiu ao terraço, organizando os
pensamentos na forma de uma declaração lúcida. Pouco depois seguiu rumo ao
banheiro, à cena do crime, por assim dizer, e na hora em que chegou lá e se viu
no espelho, soube o que tinha de dizer. Respirou fundo.
“Alô, espectadores. Tenho uma declaração a fazer, e é algo penoso. Mas creio
que é o certo a fazer. Uma hora atrás, como muitos de vocês sabem, entrei neste
banheiro, ostensivamente sob o pretexto de fazer minhas necessidades na
segunda cabine que vocês estão vendo ali adiante.” Virou-se para a fila de
cabines de privadas. “Mas quando entrei, sentei e, com o áudio desligado, tive
uma conversa em caráter privado com minha amiga Annie Allerton.”
Já havia centenas de mensagens disparando em seu pulso, a mais favorável até
então já lhe dava o perdão antecipado: Mae, conversa no banheiro é permitido!
Não se preocupe. Acreditamos em você.
“Para os que me mandam palavras de apoio, quero agradecer”, disse Mae.
“Porém, mais importante do que minha própria confissão é aquilo que eu e
Annie conversamos. Vejam, muitos de vocês sabem que Annie está participando
de uma experiência aqui, um programa para rastrear os ancestrais de uma pessoa
até o passado mais remoto que a tecnologia permite alcançar. E ela descobriu
algumas coisas lamentáveis nos profundos recessos da história dela. Alguns de
seus antepassados cometeram delitos graves e ela ficou arrasada com tudo isso. Pior, amanhã outro episódio infeliz será revelado, esse é algo mais recente e
talvez mais doloroso.”
Mae lançou um olhar para seu bracelete, vendo que os espectadores ativos
tinham quase dobrado no último minuto, para 3 202 984. Ela sabia que muita
gente, enquanto trabalhava, mantinha aberto em seus monitores o feed de sua
câmera, mas raras vezes assistiam ativamente. Agora estava claro que sua
declaração iminente havia atraído a atenção de milhões. E, pensou Mae, Annie
precisava da compaixão daqueles milhões para amortecer a queda do dia
seguinte. Annie merecia aquilo.
“Portanto, meus amigos, acho que precisamos canalizar o poder do Círculo.
Precisamos canalizar a compaixão que existe, a compaixão de todas as pessoas
que já conhecem e amam a Annie ou que possam simpatizar com ela. Espero que
todos vocês possam lhe mandar seus bons votos, suas próprias histórias de
descobertas de coisas sombrias no passado da família e assim fazer a Annie se
sentir menos sozinha. Digam a ela que estão do seu lado. Digam a ela que
gostam dela assim mesmo e que os crimes de antepassados distantes não a
afetam em nada, não mudam a maneira como pensam a respeito dela.”
Mae terminou fornecendo o endereço de e-mail de Annie, do feed do Zing e
de sua página de perfil. A reação foi imediata. Os seguidores de Annie
aumentaram de 88 198 para 243 087 e, à medida que a declaração de Mae ia
sendo retransmitida, provavelmente passariam de um milhão no fim daquele dia.
Choviam mensagens, a mais popular era uma que dizia: O passado é passado e
Annie é Annie. Não fazia muito sentido, mas Mae gostou do sentimento. Outra
mensagem que estava ganhando impulso era: Não quero estragar a festa de todo
mundo, mas acho que existe maldade no DNA e acho o caso de Annie
preocupante. Annie tem de tentar com esforço redobrado provar para alguém
como eu, um afro-americano cujos antepassados foram escravizados, que ela
está no caminho da justiça.
Esse comentário recebeu 98 201 sorrisos e quase o mesmo número de caras
feias, 80 198. Mas, acima de tudo, quando Mae percorria as mensagens, havia
amor — como sempre acontecia, quando apelavam aos sentimentos das pessoas
—, e havia compreensão, e havia o desejo de deixar o passado ser o passado.
Ao mesmo tempo que acompanhava a reação, Mae olhava para o relógio,
ciente de que estava a apenas uma hora de sua apresentação, sua primeira
apresentação no Salão Principal do Iluminismo. No entanto sentia-se preparada,
com a questão de Annie lhe dando mais força, fazendo Mae sentir, mais que
nunca, que tinha legiões atrás de si. Mae também sabia que a tecnologia em si e
a comunidade do Círculo determinariam o sucesso da demonstração. Enquanto
se preparava, olhava para seu bracelete em busca de algum sinal de Annie. Mae esperava alguma reação, àquela altura, com certeza algo como gratidão, uma vez
que Annie, sem a menor dúvida, estava inundada, soterrada por uma avalanche
de benevolência.
Mas não havia nada.
Ela mandou uma série de zings para Annie, porém não teve nenhuma resposta.
Verificou qual o paradeiro de Annie e encontrou-a, um ponto vermelho,
pulsante, em seu escritório. Mae pensou por um momento em visitá-la — mas
decidiu não ir. Tinha de se concentrar e talvez fosse melhor deixar Annie
assimilar tudo aquilo sozinha. Sem dúvida, à tarde, ela teria absorvido e
sintetizado o afeto de milhões que a apoiavam e estaria pronta para agradecer
Mae de maneira adequada, dizer para ela, agora sob uma nova perspectiva, que
ela estava em condições de pôr os crimes de seus parentes em seu contexto e
poderia seguir em frente, rumo ao futuro resolvível, e não para trás, rumo ao
caos de um passado irremediável.
“Hoje você fez uma coisa muito corajosa”, disse Bailey. “Foi corajoso e
correto.”
Estavam nos bastidores do palco do Salão Principal. Mae estava de saia preta
e blusa de seda vermelha, as duas novas. Uma estilista orbitava em redor dela,
punha um pó no nariz e na testa de Mae, vaselina nos lábios. Ela estava a poucos
minutos de sua primeira grande apresentação.
“Normalmente eu ia querer falar, em primeiro lugar, sobre o motivo por que
você preferiu se obscurecer”, disse ele, “mas sua honestidade foi verdadeira e sei
que você já aprendeu todas as lições que eu poderia lhe ensinar. Estamos muito
felizes de ter você aqui entre nós, Mae.”
“Obrigado, Eamon.”
“Está pronta?”
“Acho que sim.”
“Muito bem, vá lá e nos encha de orgulho.”
Quando entrou no palco, sob o foco de luz do refletor, Mae sentiu-se confiante
de que ia conseguir. Antes que pudesse chegar ao pódio de acrílico, porém, o
aplauso foi repentino, trovejante, e quase a fez cair. Mae seguiu para o local
indicado, mas o trovão apenas aumentou. A plateia ficou de pé, primeiro nas
fileiras da frente, depois todo mundo. Mae teve de fazer um enorme esforço para
acalmar aquele barulho e ter condições de falar.
“Alô, pessoal. Sou Mae Holland”, disse ela, e os aplausos recomeçaram. Ela
teve de rir e, quando riu, o auditório fez mais barulho ainda. O amor dava a
sensação de algo real e avassalador. Abrir-se é tudo, pensou ela. A verdade era
sua própria recompensa. Essa frase daria um bom ladrilho, pensou ela, e imaginou-a representada numa pedra talhada a laser. Aquilo era bom demais,
pensou Mae, aquilo tudo. Mae olhou para os membros do Círculo, deixou que
aplaudissem, sentiu uma força nova se levantar dentro dela. Era uma força
condensada por meio da entrega. Ela dava a todos eles, dava a eles a verdade
sem atenuantes, a transparência completa, e eles lhe davam sua confiança, sua
torrente de amor.
“Muito bem, muito bem”, disse ela, afinal, erguendo as mãos, pedindo à
plateia que sentasse. “Hoje vamos demonstrar a ferramenta de busca suprema. Já
ouviram falar do SoulSearch, talvez um boato aqui e ali, e agora vamos pôr isso
em teste, diante de toda a plateia do Círculo, aqui e globalmente. Estão prontos?”
A multidão respondeu com gritos de alegria.
“O que vocês estão prestes a ver é totalmente espontâneo e sem ensaios. Nem
eu mesma sei quem vamos procurar hoje. A pessoa será escolhida de forma
aleatória a partir de um banco de dados de conhecidos fugitivos do mundo
inteiro.”
No telão, um globo digital gigante girou.
“Como sabem, boa parte do que fazemos aqui no Círculo usa as redes sociais
para criar um mundo mais seguro e mais sadio. Isso já foi alcançado de inúmeras
maneiras, é claro. Nosso programa WeaponSensor, por exemplo, que veio à luz
recentemente, e que registra a entrada de qualquer arma em qualquer prédio,
disparando um alarme que alerta todas as residências e a polícia local, foi testado
numa versão beta cinco semanas atrás e houve uma queda de cinquenta e sete
por cento em crimes cometidos com armas. Nada mau, não é?”
Mae fez uma pausa para os aplausos, sentindo-se muito à vontade e sabendo
que o que estava prestes a apresentar iria mudar o mundo, de forma imediata e
permanente.
Mae respirou fundo.
“Mas um dos aspectos mais estranhos de nosso mundo é como os fugitivos da
justiça conseguem se manter escondidos num planeta tão interconectado como o
nosso. Levamos dez anos para encontrar Osama bin Laden. D. B. Cooper, o
famigerado ladrão que saltou de um avião com uma mala cheia de dinheiro,
permanece desaparecido, décadas depois de sua fuga. Mas esse tipo de coisa
deve terminar agora. E eu acredito que vai mudar agora.”
Atrás dela apareceu uma silhueta. Era uma forma humana, o torso e a cabeça,
com as familiares linhas de medição de altura que se veem, ao fundo, nas
fotografias de identificação da polícia.
“Em segundos, o computador vai selecionar aleatoriamente um fugitivo da
justiça. Não sei quem será. Ninguém sabe. Porém, quem quer que seja, trata-se
de uma ameaça comprovada a nossa comunidade global e afirmamos que, seja ele quem for, o SoulSearch irá localizá-lo em apenas vinte minutos. Prontos?”
Murmúrios tomaram o auditório, seguidos por aplausos dispersos.
“Muito bem”, disse Mae. “Vamos escolher esse fugitivo.”
Pixel a pixel, a silhueta lentamente se tornou uma pessoa específica e real e,
quando a seleção terminou, havia surgido um rosto e Mae ficou chocada ao se
dar conta de que era uma mulher. Um rosto de aspecto duro, de olhos contraídos
diante de uma câmera fotográfica da polícia. Algo naquela mulher, seus olhos
pequenos e sua boca reta, fez lembrar a fotografia de Dorothea Lange — aquelas
caras marcadas de sol do Dust Bowl, as tempestades de areia que varreram boa
parte dos Estados Unidos na década de 1930. Mas quando os dados do perfil
apareceram embaixo da fotografia, Mae se deu conta de que a mulher era inglesa
e estava bem viva. Ela examinou rapidamente as informações na tela e
concentrou a plateia no essencial.
“Muito bem. Esta é Fiona Highbridge. Quarenta e quatro anos. Nascida em
Manchester, Inglaterra. Foi condenada por triplo homicídio em 2002. Trancou os
três filhos num armário e partiu para a Espanha, onde ficou um mês. Todos
morreram de fome. Todos tinham menos de cinco anos. Ela foi para a prisão na
Inglaterra, mas fugiu, com a ajuda de um guarda, a quem aparentemente seduziu.
Faz uma década desde a última vez que foi vista e a polícia praticamente desistiu
de encontrá-la. Mas creio que podemos fazer isso, agora que temos as
ferramentas e a participação do Círculo.”
“Ótimo”, disse Stenton no ouvido de Mae. “Agora vamos nos concentrar no
Reino Unido.”
“Como todos vocês sabem, ontem alertamos os três bilhões de usuários do
Círculo que hoje faríamos um anúncio que vai mudar o mundo. Portanto, neste
momento, temos essa quantidade de pessoas assistindo ao vivo esta
transmissão.” Mae voltou-se para o telão e observou o contador de espectadores
assinalar 1 109 001 887. “Muito bem, mais de um bilhão de pessoas estão
assistindo. E agora vamos ver quantos espectadores temos no Reino Unido.” Um
segundo o contador disparou e estacionou em 14 028 981. “Muito bem. A
informação que temos diz que o passaporte dela foi revogado anos atrás,
portanto Fiona provavelmente continua no Reino Unido. Todos vocês acham que
catorze milhões de britânicos e um bilhão de participantes em nível global são
capazes de encontrar Fiona em vinte minutos?”
A plateia urrou, mas Mae, na verdade, não sabia se ia dar certo. De fato, ela
não ficaria surpresa se não desse certo, ou se levasse trinta minutos, uma hora.
Mas então, mais uma vez, havia sempre algo inesperado, algo milagroso nos
resultados, quando os plenos poderes dos usuários do Círculo eram aplicados.
Mae tinha certeza de que estaria resolvido no final do horário de almoço.
“Muito bem, todos prontos? Vamos mostrar o relógio.” Um gigantesco relógio
de seis dígitos apareceu no canto do telão, indicando horas, minutos e segundos.
“Vou mostrar para vocês alguns grupos que temos trabalhando juntos nisso.
Vamos ver a Universidade de East Anglia.” Apareceu uma imagem mostrando
muitas centenas de estudantes, num grande auditório. Eles aplaudiram. “Vamos
ver a cidade de Leeds.” Agora uma tomada de uma praça pública cheia de gente,
pessoas agasalhadas no que parecia ser um dia de muito frio e até tempestuoso.
“Temos dúzias de grupos em todo o país trabalhando em conjunto, além do
poder da rede como um todo. Estão todos prontos?” A multidão de Manchester
ergueu as mãos e gritou de contentamento e os estudantes de East Anglia
também.
“Ótimo”, disse Mae. “Agora, todos em suas posições, preparem-se. Já.”
Mae baixou a mão, perto da foto de Fiona Highbridge, uma série de colunas
mostrava o feed de comentários, o mais bem cotado aparecia no topo. Até aquele
momento, o mais popular era de um homem chamado Simon Hensley, de
Brighton: Temos certeza de que queremos encontrar essa bruxa? Mais parece o
Espantalho do Mágico de Oz.
Houve risos pelo auditório.
“Muito bem. Está na hora da coisa ficar séria”, disse Mae.
Outra coluna mostrava fotos dos próprios usuários, postadas em ordem de
relevância. Em três minutos, havia duzentas e uma fotos postadas, a maioria
corolários próximos ao rosto de Fiona Highbridge. Na tela, os votos eram
computados, indicando quais fotografias tinham mais probabilidade de ser a
dela. Em quatro minutos a questão se resumia a cinco candidatas principais.
Uma estava em Bend, Oregon. Outra estava em Banff, Canadá. Outra em
Glasgow. Então aconteceu uma coisa mágica, algo que só era possível quando o
Círculo inteiro trabalhava direcionado para um único objetivo: duas das fotos, a
multidão se deu conta, foram tiradas na mesma cidade: Carmathen, no País de
Gales. Ambas pareciam ser da mesma mulher e ambas se pareciam exatamente
com Fiona Highbridge.
Noventa segundos depois, alguém identificou aquela mulher. Era conhecida
como Fatima Hilensky, que a multidão elegeu como uma candidata promissora.
Será que alguém com a intenção de desaparecer mudaria seu nome
completamente ou se sentiria mais seguro com as mesmas iniciais, com um
nome como aquele — diferente o bastante para afastar quaisquer perseguidores
eventuais, mas permitindo que a pessoa usasse uma ligeira variação de sua
antiga assinatura?
Setenta e nove espectadores moravam em Carmathen e três deles postaram
mensagens declarando que viam a mulher mais ou menos diariamente. Aquilo era bastante promissor, mas então, num comentário que logo acendeu no topo da
lista, com centenas de milhares de votos, uma mulher, Gretchen Karapcek,
postando de seu celular, disse que trabalhava com a mulher da fotografia numa
lavanderia perto de Swansea. A multidão pediu com insistência para Gretchen
localizar a mulher naquele mesmo instante e tirar uma foto ou fazer um vídeo
dela. Imediatamente Gretchen ligou a função vídeo de seu celular e — embora
ainda houvesse milhões de pessoas investigando outras pistas — a maioria dos
espectadores estava convencida de que Gretchen tinha achado a pessoa certa.
Mae e a maioria dos espectadores ficaram paralisados, vendo a câmera de
Gretchen embrenhar-se entre máquinas enormes que jorravam vapor, colegas de
trabalho que olhavam curiosos para ela, enquanto passava depressa com sua
câmera no meio daquela área cavernosa, cada vez mais perto de uma mulher que
se via ao longe, magra e curvada, enfiando um lençol entre dois cilindros
pesados.
Mae verificou o cronômetro. Seis minutos e trinta e três segundos. Ela não
tinha dúvida de que aquela era Fiona Highbridge. Havia algo no formato da
cabeça, algo em seus gestos, e agora, quando ela ergueu os olhos e avistou a
câmera de Gretchen se movendo em sua direção, uma nítida compreensão de que
algo muito grave estava acontecendo. Não foi um olhar de pura surpresa ou
perplexidade. Foi o olhar de um animal apanhado quando fuçava o lixo. Um
olhar feroz de culpa e de confissão.
Por um segundo, Mae prendeu a respiração e pareceu que a mulher ia se
entregar, ia falar para a câmera, admitir seus crimes e reconhecer que tinha sido
descoberta.
Em vez disso, ela correu.
Por um longo momento, a mulher que segurava a câmera ficou parada, e sua
câmera mostrava apenas Fiona Highbridge — pois agora não havia dúvida de
que era ela — enquanto fugia velozmente através do salão e subia a escada.
“Vá atrás dela!”, berrou Mae, afinal, e Gretchen Karapcek e sua câmera
começaram a persegui-la. Por um momento, Mae ficou preocupada, achando que
seria um esforço inútil, um fugitivo encontrado, mas em seguida rapidamente
perdido, por culpa de um colega de trabalho desastrado. A câmera sacudia
loucamente enquanto ela subia os degraus da escada de concreto e seguia por um
corredor de blocos de concreto, e por fim se aproximou de uma porta, o céu
branco visível através de uma pequena janela quadrada.
E quando a porta abriu de supetão, Mae viu, com grande alívio, que Fiona
Highbridge estava encurralada contra uma parede, cercada por uma dúzia de
pessoas, em sua maioria segurando seus celulares voltados para ela, apontando
para ela com os celulares. Não havia nenhuma possibilidade de fugir. O rosto da mulher estava transtornado, ao mesmo tempo aterrorizado e desafiador. Parecia
procurar lacunas naquele bando de gente, algum buraco por onde ela pudesse se
esgueirar. “Pegamos você, assassina de crianças”, disse alguém na multidão, e
Fiona Highbridge desabou, deslizou para o chão e cobriu o rosto.
Em segundos, a maior parte dos vídeos da multidão estava disponível no telão
do Salão Principal e a plateia pôde ver um mosaico de Fiona Highbridge, seu
rosto frio e duro de dez ângulos diferentes, todos confirmando sua culpa.
“Linchem!”, gritou alguém do lado de fora da lavanderia.
“Ela deve ficar a salvo”, sussurrou Stenton no fone de ouvido de Mae.
“Mantenham a integridade dela”, Mae pediu à multidão. “Alguém chamou a
polícia?”
Em poucos segundos, podiam-se ouvir sirenes e, quando Mae viu os dois
carros entrarem rapidamente no estacionamento, verificou o relógio outra vez.
Quando os quatro policiais alcançaram Fiona Highbridge e puseram algemas em
seus pulsos, o relógio no telão do Salão Principal indicava dez minutos e vinte e
seis segundos.
“Acho que está resolvido”, disse Mae, e parou o relógio.
A plateia explodiu em gritos de viva e os participantes que haviam cercado
Fiona Highbridge foram congratulados mundo afora, segundos depois.
“Vamos cortar o feed de vídeo”, disse Stenton para Mae, “a fim de preservar
certa dignidade.”
Mae repetiu a diretriz aos técnicos. Os feeds que mostravam Highbridge
cessaram e o telão ficou preto outra vez.
“Bem”, disse Mae para a plateia. “Na verdade, foi muito mais fácil do que
pensei. E só precisamos usar algumas poucas ferramentas daquelas hoje
disponíveis no mundo.”
“Vamos fazer de novo!”, gritou alguém.
Mae sorriu. “Bem, nós poderíamos”, disse ela e olhou para Bailey, parado nos
bastidores. Ele deu de ombros.
“Talvez não com outro fugitivo”, disse Stenton no fone de ouvido de Mae.
“Vamos tentar com um cidadão comum.”
Um sorriso dominou o rosto de Mae.
“Muito bem, pessoal”, disse ela, enquanto localizava rapidamente uma
fotografia em seu tablet e a transferia para o telão às suas costas. Era um
instantâneo de Mercer, uma foto tirada três anos antes, pouco depois que os dois
pararam de namorar, quando ainda estavam muito ligados, os dois parados na
entrada de uma trilha à beira do mar, que eles estavam prestes a percorrer.
Até aquele momento, ela não havia pensado nenhuma vez em usar o Círculo
para localizar Mercer, mas agora parecia fazer todo sentido. O que poderia haver de melhor do que provar para ele o alcance e o poder da rede e das pessoas na
rede? Seu ceticismo iria ceder.
“Muito bem”, disse Mae para a plateia. “Nosso segundo alvo hoje não é um
fugitivo da justiça, mas podemos dizer que é, bem, um fugitivo da amizade.”
Ela sorriu, em resposta positiva ao riso da plateia.
“Este é Mercer Medeiros. Não o vejo faz alguns meses e adoraria vê-lo outra
vez. Porém, como Fiona Highbridge, ele é uma pessoa que tenta não ser
encontrada. Portanto, vamos ver se conseguimos repetir o êxito anterior. Todos
prontos? Vamos dar partida no relógio.” E o relógio começou a correr.
Em noventa segundos, havia centenas de postagens de pessoas que o
conheciam — da escola fundamental, do ensino médio, da faculdade, do
trabalho. Havia até algumas fotografias que mostravam Mae, o que despertou o
interesse de todos os envolvidos. Então, porém, para grande horror dela, ocorreu
uma lacuna tediosa de quatro minutos e meio, durante a qual ninguém ofereceu
nenhuma informação de valor sobre seu paradeiro atual. Uma ex-namorada disse
que ela também gostaria de saber onde ele andava, pois ele tinha ficado com o
equipamento de mergulho dela. Aquela foi a mensagem mais relevante durante
certo tempo, mas então veio um zing de Jasper, no Oregon, que foi
imediatamente alçado ao topo da lista de mais votados.
Vi esse cara aqui no nosso mercado. Deixe-me verificar.
E o autor do post, Adam Frankenthaler, entrou em contato com os vizinhos e
rapidamente houve uma concordância de que todos tinham visto Mercer — na
loja de bebidas, no mercado, na biblioteca. Mas então veio outra pausa aflitiva,
quase dois minutos, durante a qual ninguém se mostrou capaz de determinar
onde ele morava. O relógio indicava 7h31.
“Muito bem”, disse Mae. “É nesse ponto que as ferramentas mais poderosas
entram em ação. Vamos verificar os sites de agências imobiliárias e procurar no
histórico dos aluguéis. Vamos verificar os registros de uso dos cartões de
crédito, do telefone, dos membros de bibliotecas, tudo aquilo em que é preciso
registrar-se. Ah, esperem.” Mae ergueu os olhos para ver que dois endereços
tinham sido encontrados, ambos na mesma minúscula cidadezinha do Oregon.
“Vocês sabem como obtivemos isso?”, perguntou ela, mas aquilo parecia não ter
mais nenhuma importância. Agora as coisas estavam mudando muito depressa.
Nos minutos seguintes, carros convergiram para os dois endereços, os
passageiros filmavam sua chegada. Um endereço ficava em cima de uma
revenda de produtos homeopáticos, na cidade, grandes sequoias se erguiam
muito altas, na frente. Uma câmera mostrou uma mão batendo na porta e depois
a lente espiou através da janela. De início, não veio nenhuma resposta, mas
afinal a porta abriu e a câmera baixou para captar um menino miúdo, de uns cinco anos, que olhava para a multidão na porta de sua casa, com ar aterrorizado.
“Mercer Medeiros está em casa?”, perguntou uma voz.
O garoto virou, desapareceu dentro da casa escura: “Pai!”.
Por um momento, Mae entrou em pânico, achando que o menino era filho de
Mercer — aquilo tudo tinha acontecido rápido demais para ela fazer as contas da
maneira adequada. Será que ele já tinha um filho? Não, ela se deu conta, aquele
menino não podia ser o filho biológico de Mercer. Será que ele tinha ido morar
com uma mulher que já tinha um filho?
Mas quando a sombra de um homem surgiu na luz da porta, não era Mercer.
Era um homem de cavanhaque de uns quarenta anos, mais ou menos, de camisa
de flanela e calça de ginástica. Tiro na água. Tinham passado mais de oito
minutos.
O segundo endereço foi descoberto. Ficava na mata, no alto de uma ladeira na
montanha. O principal feed de vídeo atrás de Mae passou para aquela paisagem,
enquanto um carro subia correndo uma estrada sinuosa, até parar diante de um
grande chalé cinzento.
Dessa vez a operação da câmera era mais profissional e limpa. Alguém filmou
um participante, uma mulher jovem e sorridente, batendo na porta, suas
sobrancelhas dançavam para cima e para baixo com ar de maldade.
“Mercer?”, perguntou ela na porta. “Mercer, você está em casa?” A
familiaridade em sua voz pareceu enervante para Mae, por um momento. “Você
está em casa fazendo castiçais?”
Mae sentiu um aperto no estômago. Tinha a sensação de que Mercer não ia
gostar daquela pergunta, de seu tom desdenhoso. Ela queria que o rosto dele
aparecesse o mais depressa possível, para que ela pudesse falar com ele
diretamente. Mas ninguém atendeu a porta.
“Mercer!”, disse a jovem. “Sei que está aí dentro. Vimos seu carro.” A câmera
voltou-se para a entrada da garagem, onde Mae viu, com emoção, que era de fato
a pick-up de Mercer. Quando a câmera virou de novo, revelou um grupo de dez
ou doze pessoas, em sua maioria com aspecto de gente do local, com bonés de
beisebol e pelo menos um em roupas de camuflagem. Quando a câmera voltou
para a porta da frente, a multidão tinha começado a gritar: “Mercer! Mercer!
Mercer!”.
Mae olhou para o relógio. Nove minutos e vinte e quatro segundos. Eles iam
bater o recorde Fiona Highbridge em pelo menos um minuto. Mas primeiro ele
tinha de abrir a porta.
“Vamos dar a volta”, disse a jovem, e então o feed seguiu uma segunda
câmera que espiou em torno da varanda e através das janelas laterais. Lá dentro,
não se via ninguém. Havia varas de pesca, uma pilha de chifres, livros e pilhas de papel junto de poltronas empoeiradas e cadeiras. Acima da lareira, Mae teve
certeza de ver uma fotografia que ela reconheceu, de Mercer com os irmãos e os
pais, numa viagem que tinham feito para Yosemite. Mae lembrava-se da foto e
tinha certeza das figuras na imagem, porque sempre lhe havia parecido estranho
e maravilhoso o fato de Mercer, que tinha dezesseis anos na ocasião, estar com a
cabeça inclinada sobre o ombro da mãe, numa expressão espontânea de amor
filial.
“Mercer! Mercer! Mercer!”, as vozes gritavam ritmadas.
Mas era muito possível, Mae se deu conta, de que ele estivesse caminhando
ou, como um homem das cavernas, tivesse ido pegar lenha e só fosse voltar dali
a algumas horas. Ela já estava pronta para se virar para a plateia, declarar que a
busca tinha sido um sucesso e interromper a demonstração — afinal, tinham
localizado Mercer, não havia a menor dúvida —, quando ouviu uma voz
esganiçada.
“Lá está ele! Na entrada da garagem!”
E as duas câmeras começaram a se mover e sacudir quando correram da
varanda para o Toyota. Havia uma figura entrando na caminhonete, e Mae viu
que era Mercer, quando as câmeras se concentraram nele. Mas quando eles se
aproximaram — e se aproximaram o suficiente para que Mae fosse ouvida —,
ele já estava descendo de ré pela entrada da garagem.
Uma figura estava correndo ao lado da caminhonete, um jovem, que pôde ser
visto prendendo algo à janela do lado do carona. Mercer deu ré para a estrada e
partiu em velocidade. Houve um caos de correria e risadas, enquanto todos os
participantes reunidos na casa de Mercer entraram em seus carros para segui-lo.
Uma mensagem de um dos perseguidores explicou que tinha posto uma
câmera SeeChange na janela do carona e instantaneamente ela foi ativada e
apareceu no telão uma imagem muito nítida de Mercer dirigindo a caminhonete.
Mae sabia que aquela câmera tinha áudio só num sentido e assim ela não
podia falar com Mercer. Mas sabia que tinha de falar. Ele ainda não sabia que
era Mae quem estava por trás de tudo aquilo. Precisava garantir a ele que não se
tratava de alguma sinistra expedição de caça. Era sua amiga, Mae, simplesmente
demonstrando o programa SoulSearch, e tudo que ela desejava era falar com ele
por um segundo, para que os dois rissem juntos daquilo tudo.
Mas enquanto a mata passava em disparada pela janela da caminhonete, na
forma de um borrão verde, marrom e branco, a boca de Mercer era um terrível
talho de raiva e de medo. Mercer fazia curvas constantes com a caminhonete, de
modo imprudente, e parecia estar subindo entre as montanhas. Mae se
preocupava com a capacidade dos participantes de alcançá-lo, porém sabia que
eles tinham a câmera SeeChange, que oferecia uma imagem tão nítida e cinematográfica que aquilo se tornava tremendamente empolgante. Ele parecia o
herói dele, Steve McQueen, furioso, mas controlado, enquanto dirigia a
caminhonete em alta velocidade. Por um momento, Mae teve a ideia de um
espetáculo ao vivo que eles podiam criar, no qual as pessoas simplesmente
transmitiam a própria imagem dirigindo por paisagens interessantes em alta
velocidade. Dirija, disse ela. Podiam dar esse nome ao programa. O devaneio de
Mae foi interrompido pela voz de Mercer, cheia de rancor: “Sacanas!”, berrou.
“Seus sacanas!”
Ele estava olhando para a câmera. Tinha achado a câmera. E então a imagem
da câmera desceu. Ele estava baixando o vidro da janela. Mae se perguntou se a
câmera iria permanecer presa, se seu adesivo iria superar a força do vidro
automático da janela, mas a resposta chegou em segundos, quando a câmera foi
arrancada da janela, sua lente girou loucamente enquanto ela caía e tombava,
mostrando a mata e depois o asfalto, e depois, quando pousou na estrada, o céu.
O relógio indicava 11h51.
Durante alguns demorados minutos, não chegou nenhuma imagem de Mercer.
Mae supôs que a qualquer momento um dos carros da perseguição o encontraria,
mas as imagens que vinham dos quatro carros não mostravam nenhum sinal
dele. Estavam todos em estradas diferentes e seu áudio deixou claro que eles não
tinham a menor ideia de onde ele estava.
“Muito bem”, disse Mae, ciente de que ela estava prestes a deixar pasma a
plateia. “Soltem os drones!”, gritou ela com uma voz que tinha a intenção de
evocar e caricaturar algum vilão malévolo.
Levou um tempo agonizantemente longo — três minutos, mais ou menos —,
mas logo todos os drones privados disponíveis na área, onze ao todo, tinham
decolado, cada um operado por seu proprietário, e todos estavam na montanha
onde, assim se supunha, Mercer dirigia sua caminhonete. O sistema GPS próprio
de todos eles os impedia de se chocar e, em coordenação com a imagem
fornecida pelo satélite, localizaram a caminhonete azul-clara em sessenta e sete
segundos. O relógio indicava 15h04.
As imagens das câmeras dos drones foram então trazidas para o telão,
oferecendo à plateia uma incrível grade de imagens, todos os drones bem
distribuídos no espaço, proporcionando uma imagem caleidoscópica da
caminhonete, que corria subindo a montanha no meio de espessos pinheiros.
Alguns dos drones menores puderam baixar bastante e se aproximar, enquanto a
maior parte deles, grandes demais para serpentear entre as árvores, seguiam do
alto. Um dos drones menores, chamado ReconMan10, tinha baixado através da
copa das árvores e parecia estar preso à janela do carona de Mercer. A imagem
era firme e nítida. Mercer virou-se para ele, dando-se conta de sua presença e tenacidade, e uma expressão de horror inexorável transformou seu rosto. Mae
nunca tinha visto Mercer com aquela expressão.
“Alguém pode me fornecer o áudio do drone chamado ReconMan10?”,
perguntou Mae. Ela sabia que a janela dele continuava aberta. Se ela falasse pelo
alto-falante do drone, ele a ouviria, saberia que era ela. Mae recebeu o sinal de
que o áudio estava ativo.
“Mercer. Sou eu, Mae! Pode ouvir?”
Houve um leve sinal de reconhecimento no rosto dele. Mercer piscou os olhos
e olhou para o drone de novo, incrédulo.
“Mercer. Pare o carro. Sou eu, só. Mae.” E então, quase rindo, ela disse. “Eu
só queria dar um alô.”
A plateia urrou.
Mae ficou animada com o riso do auditório e esperava que Mercer risse
também e parasse a caminhonete, balançasse a cabeça, admirado com o poder
maravilhoso das ferramentas de que Mae dispunha. O que ela queria que ele
dissesse era: “Muito bem, você me apanhou. Eu me rendo. Você venceu”.
Mas ele não estava sorrindo e não estava parando. Nem estava olhando para o
drone. Era como se tivesse decidido tomar um caminho novo e estivesse
trancado dentro dele.
“Mercer!”, disse ela, com uma voz de autoridade caricata. “Mercer, pare o
carro e se renda. Você está cercado.” Então ela pensou numa coisa que a fez
sorrir outra vez. “Você está cercado...”, disse ela, baixando a voz, e então, num
agudo cheio de alegria: “de amigos!” Como Mae sabia que aconteceria, uma
gargalhada e uma saraivada de gritos de alegria trovejaram no auditório.
Mesmo assim ele não parou. Fazia minutos que não olhava para o drone. Mae
verificou o relógio: dezenove minutos e cinquenta e sete segundos. Ela não
conseguia decidir se tinha importância ou não o fato de ele parar o carro ou
responder para as câmeras. Mercer tinha sido localizado, afinal, não tinha?
Provavelmente eles tinham batido o recorde de Fiona Highbridge quando o
viram correndo para sua caminhonete. Foi o momento em que comprovaram sua
identidade corporal. Mae teve a rápida ideia de que deviam retirar os drones e
desligar as câmeras, porque Mercer estava num estado de ânimo comum nele,
em que não ia querer cooperar de jeito nenhum — e, de mais a mais, ela já havia
provado o que queria provar.
Mas algo na incapacidade de Mercer de se render, de admitir a derrota, ou de
pelo menos reconhecer o poder incrível da tecnologia que Mae tinha sob seu
comando... ela sabia que não podia desistir, antes de receber algum sinal da
submissão dele. No entanto o que seria? Ela mesma não sabia dizer, mas sabia
que ia reconhecer, assim que o visse.
E então a paisagem que passava ao lado do carro se abriu. Não era mais uma
mata densa e que passava depressa. Agora era tudo azul, além do topo de árvores
e nuvens brancas e brilhantes.
Ela olhou para a imagem de outra câmera e viu a imagem que vinha de um
drone que estava no alto. Mercer dirigia numa ponte, uma ponte estreita, que
ligava uma montanha à outra, o vão se erguia centenas de metros acima de uma
garganta.
“Podemos aumentar ao máximo o microfone?”, perguntou ela.
Apareceu um ícone indicando que o volume tinha estado na metade e agora
estava no máximo.
“Mercer!”, disse ela, usando a voz mais ameaçadora que era capaz de
representar. A cabeça dele virou-se bruscamente para o drone, chocado com o
volume. Será que não tinha ouvido a voz dela antes?
“Mercer! Sou eu, Mae!”, disse ela, agora nutrindo a esperança de que ele
ainda não soubesse, até então, que era ela quem estava por trás de tudo aquilo.
Mas ele não sorriu. Apenas balançou a cabeça, lentamente, como se sentisse a
mais profunda decepção.
Agora Mae pôde ver mais dois drones na janela do lado do carona. Uma voz
nova, masculina, bombardeou de um deles: “Mercer, seu filho da puta! Pare o
carro, seu babaca filho da puta!”.
A cabeça de Mercer virou-se para aquela voz e, quando se virou de novo para
a estrada, seu rosto mostrou um pânico autêntico.
Na tela atrás de Mae, ela viu que duas câmeras SeeChange posicionadas sobre
a ponte tinham sido acrescentadas à grade de imagens. Uma terceira veio à luz
segundos depois, proporcionando uma visão do vão até a margem do rio, muito
lá embaixo.
Então outra voz, essa uma voz de mulher, que ria, bombardeou do terceiro
drone: “Mercer, se renda a nós! Renda-se à nossa vontade! Seja nosso amigo!”.
Mercer virou a caminhonete na direção do drone, como se quisesse atingi-lo,
mas o drone ajustou sua trajetória automaticamente e imitou o movimento da
caminhonete, mantendo-se em perfeita sincronia. “Você não pode escapar,
Mercer!”, berrou a voz da mulher. “Nunca, nunca, nunca. Acabou. Agora
desista. Seja nosso amigo!” Esse último pedido foi proferido em tom de choro de
criança e a mulher que falava pelo alto-falante eletrônico riu da estranheza
daquilo, aquele pedido anasalado emanando de um estúpido drone preto.
A plateia vibrava, aplaudia, e os comentários se empilhavam, vários
espectadores diziam que aquela era a melhor experiência televisiva de suas
vidas.
E quando os gritos de alegria ficaram ainda mais altos, Mae viu algo tomar o rosto de Mercer, algo semelhante à determinação, algo como serenidade. O
braço direito girou o volante e ele desapareceu da imagem dos drones, pelo
menos temporariamente, e quando eles retomaram o foco sobre Mercer, sua