O Círculo
Livro II
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
caminhonete estava cruzando a pista em alta velocidade rumo à barreira de
concreto da lateral da ponte, tão depressa que era impossível que a barreira
conseguisse detê-lo. A caminhonete rompeu a barreira e saltou para dentro da
garganta e, por um breve momento, pareceu voar, as montanhas visíveis até
quilômetros ao longe. E então a caminhonete se perdeu de vista.
Os olhos de Mae se voltaram instintivamente para a câmera voltada para a
margem do rio e viu nitidamente um pequeno objeto caindo da ponte no alto e
aterrissando como um minúsculo brinquedo sobre as pedras lá embaixo. Embora
soubesse que o objeto era a caminhonete de Mercer e soubesse, em algum lugar
de sua mente, que não poderia haver sobreviventes de uma queda tão grande, ela
olhou de novo para as imagens das outras câmeras, para as imagens transmitidas
pelos drones que ainda pairavam no alto, na esperança de ver Mercer sobre a
ponte, olhando para a caminhonete lá embaixo. Mas não havia ninguém na
ponte.
“Você está bem hoje?”, perguntou Bailey.
Estavam na biblioteca dele, sozinhos, a não ser pelos espectadores de Mae.
Desde a morte de Mercer, ocorrida já fazia uma semana, os números da
audiência haviam se mantido firmes, perto de vinte e oito milhões de
espectadores.
“Estou, obrigada”, respondeu Mae, medindo suas palavras, imaginando a
maneira como o presidente, qualquer que seja a situação, tem de encontrar um
meio-termo entre a emoção bruta, a dignidade serena e a compostura de uma
pessoa experiente. Mae vinha pensando em si mesma como um presidente. Ela
tinha muita coisa em comum com eles — a responsabilidade perante tanta gente,
o poder de influenciar acontecimentos mundiais. E, com sua posição, ocorriam
crises novas, em nível presidencial. Havia o falecimento de Mercer. Havia a
ruína de Annie. Mae pensou nos Kennedy. “Ainda não tenho certeza de que
assimilei isso”, disse ela.
“E durante um tempo, não terá”, disse Bailey. “A dor não chega em horário
programado, como nós gostaríamos. Mas não quero que você se culpe. Espero
que não esteja fazendo isso.”
“Bem, é difícil não fazer isso”, respondeu Mae, e depois estremeceu. Aquelas
não eram palavras presidenciais, e Bailey se aferrou a elas.
“Mae, você estava tentando ajudar um jovem muito perturbado e antissocial.
Você e os outros participantes estavam estendendo a mão, tentando trazê-lo para o abraço da humanidade, e ele rejeitou isso. Acho que é evidente que você era,
no mínimo, a única esperança dele.”
“Obrigada por dizer isso”, respondeu Mae.
“É como se você fosse a médica que vai ajudar um paciente e, ao ver a
médica, o paciente pula pela janela. Ninguém pode pôr a culpa em você.”
“Obrigada”, disse Mae.
“E seus pais? Estão bem?”
“Estão bem. Obrigada.”
“Deve ter sido bom revê-los.”
“Foi, sim”, disse Mae, embora mal tivessem se falado na ocasião e depois não
se falaram mais.
“Sei que ainda existe uma distância entre vocês todos, mas ela vai se desfazer
com o tempo. A distância sempre se desfaz.”
Mae sentiu-se grata a Bailey, por sua força e sua tranquilidade. Naquele
momento, ele era seu melhor amigo e também uma espécie de pai. Mae amava
seus pais, mas eles não eram sábios como aquele pai, não eram fortes como
aquele pai. Mae estava agradecida a Bailey e a Stenton, e especialmente a
Francis, que desde então estivera com ela todos os dias, a maior parte do tempo.
“Fico frustrado de ver uma coisa assim acontecer”, prosseguiu Bailey. “É
exasperador, na verdade. Sei que é secundário e sei que é uma questão específica
de minha predileção, mas na verdade não haveria a menor chance daquilo
acontecer se Mercer estivesse dirigindo um veículo autocontrolado, sem
motorista. A programação do carro teria evitado aquilo. Veículos como o que ele
estava dirigindo deviam ser declarados ilegais.”
“Sim”, disse Mae. “Aquela caminhonete idiota.”
“E não que tenha a ver com dinheiro, mas sabe quanto vai custar fazer os
reparos naquela ponte? E quanto já custou fazer a limpeza de toda a bagunça lá
embaixo? Se ele estivesse num carro autocontrolado, não haveria a menor
chance de autodestruição. O carro teria desligado. Desculpe. Eu não devia ter me
metido a fazer discurso sobre uma coisa que nada tem a ver com sua dor.”
“Tudo bem.”
“E lá estava ele, sozinho num chalé. Estava claro que ia ficar deprimido e que
ia acabar se metendo num estado de loucura e de paranoia. Quando os
participantes chegaram, quero dizer, aquele cara já estava perdido. Estava lá
sozinho, inalcançável aos milhares, aos milhões até, de pessoas que fariam de
tudo para ajudar, se soubessem.”
Mae ergueu os olhos para o teto de vitrais — todos aqueles anjos — e pensou
como Mercer gostaria de ser considerado um mártir. “Tanta gente o amava”,
disse ela.
“Tanta gente. Você viu os comentários e as homenagens? As pessoas queriam
ajudar. Elas tentaram ajudar. Você tentou. E seguramente haveria outros
milhares de pessoas, se ele deixasse. Se você rejeita a humanidade, se você
rejeita as ferramentas disponíveis, toda a ajuda disponível, então coisas ruins vão
acontecer. Você rejeita a tecnologia que evita que os carros despenquem dos
penhascos e então despenca de um penhasco — fisicamente. Você rejeita a ajuda
e o amor de bilhões de pessoas compassivas em todo o mundo, e despenca de um
penhasco — emocionalmente. Certo?” Bailey fez uma pausa, como que para
permitir que os dois se imbuíssem da metáfora adequada e exata que ele havia
evocado. “Você rejeita os grupos, as pessoas, os ouvintes pelo mundo que
querem entrar em contato, abraçar e dar seu afeto, e o desastre é iminente. Mae,
ele era um jovem isolado, nítida e profundamente deprimido, que não era capaz
de sobreviver num mundo como este, um mundo que se movimenta rumo à
comunhão e à unidade. Eu gostaria de conhecê-lo. Acho até que o conheci um
pouquinho, tendo presenciado os acontecimentos daquele dia. Enfim.”
Bailey fez um som de profunda frustração, um suspiro gutural.
“Sabe, faz alguns anos, tive a ideia de que ia me empenhar, ao longo da vida,
para conhecer todas as pessoas na face da Terra. Todas as pessoas, ainda que só
um pouquinho. Apertar suas mãos e dizer alô. E quando tive essa inspiração,
achei que eu podia conseguir. Você percebe o apelo de uma ideia como essa?”
“Totalmente”, respondeu Mae.
“Mas existem uns sete bilhões de pessoas no planeta! Portanto fiz os cálculos.
O melhor que pude apurar foi o seguinte: se eu passasse três segundos com cada
pessoa, daria vinte pessoas por minuto. Mil e duzentas por hora! Muito bom, não
é? Mas mesmo nesse ritmo, após um ano, eu teria conhecido apenas 10 512 000
pessoas. Eu levaria 665 anos para encontrar todo mundo, nesse ritmo!
Deprimente, não é?”
“É, sim”, disse Mae. Ela mesma havia feito um cálculo semelhante. Não seria
o bastante, pensou Mae, ser vista por uma fração dessas pessoas? Já era alguma
coisa.
“Portanto temos de nos contentar com as pessoas que de fato conhecemos e
que podemos conhecer”, disse Bailey, suspirando alto outra vez. “E nos
contentar em saber apenas quantas pessoas existem. Existem tantas, e temos
muitas para escolher. No caso do seu perturbado Mercer, perdemos uma das
muitas e muitas pessoas no mundo que nos fazem recordar como a vida é
preciosa e também como a vida é vasta. Estou certo?”
“Está.”
Os pensamentos de Mae tinham seguido o mesmo caminho. Depois da morte
de Mercer, depois da ruína de Annie, quando Mae se sentia tão sozinha, ela sentiu o rasgo se abrir de novo dentro dela, maior e mais negro do que antes.
Mas então os espectadores do mundo inteiro estenderam a mão, lhe mandaram
seu apoio, seus sorrisos — ela recebeu milhões, dezenas de milhões —, Mae
sabia o que era o rasgo e como mantê-lo fechado. O rasgo era não saber. Não
saber quem ia amá-la e por quanto tempo. O rasgo era a loucura de não saber —
não saber quem era Kalden, não conhecer a mente de Mercer, a mente de Annie,
os planos dela. Mercer poderia ser salvo — teria sido salvo — se tornasse sua
mente conhecida, se tivesse deixado Mae, e o resto do mundo, entrar nela. Não
saber é que era a semente da loucura, da solidão, da desconfiança, do medo. Mas
havia maneiras de resolver tudo aquilo. A transparência tornara Mae conhecível
para o mundo inteiro e tornara Mae uma pessoa melhor, a conduzira para mais
perto da perfeição, assim ela esperava. Agora o mundo iria atrás. A transparência
plena levaria ao acesso pleno e não haveria mais o não conhecimento. Mae
sorriu pensando em como era simples, como era puro. Bailey sorriu com ela.
“Pois bem”, disse ele, “por falar de pessoas pelas quais nos importamos e que
não queremos perder, sei que você visitou Annie ontem. Como vai ela? Está na
mesma situação?”
“Na mesma. Você conhece a Annie. Ela é forte.”
“Ela é forte. E é muito importante para nós aqui. Assim como você. Ficaremos
com você e com Annie, sempre. Sei que as duas sabem disso, mas quero dizer
isso mais uma vez. Vocês nunca vão ficar sem o Círculo. Está bem?”
Mae estava tentando não chorar. “Está bem.”
“Muito bem, então.” Bailey sorriu. “Agora temos de ir. Stenton está à espera e
acho que todos nós”, e aqui indicou Mae e seus espectadores, “precisamos de um
pouco de diversão. Está pronta?”
Enquanto caminhavam pelo corredor escuro rumo ao novo aquário, que
irradiava um azul vivo, Mae pôde ver a nova tratadora subindo uma escada.
Stenton tinha contratado outro biólogo marinho, depois de ter tido diferenças
filosóficas com Georgia. Ela fizera objeções à alimentação experimental
desejada por Stenton e se recusara a fazer o que seu substituto, um homem alto
de cabeça raspada, estava prestes a fazer, ou seja, combinar todas as criaturas
que Stenton trouxera das Marianas em um único tanque a fim de criar algo mais
próximo do ambiente natural em que ele havia encontrado os animais. Parecia
uma ideia tão lógica que Mae ficou feliz por Georgia ter sido demitida e
substituída. Quem poderia não desejar que todos os animais ficassem num
ambiente próximo ao seu hábitat nativo? Georgia era tímida e de visão curta, e
uma pessoa assim tinha pouco lugar perto daqueles tanques, perto de Stenton ou
mesmo no Círculo.
“Lá está ele”, disse Bailey, quando se aproximaram do Tanque. Stenton surgiu
e Bailey apertou sua mão, e então Stenton virou-se para Mae.
“Mae, que bom ver você outra vez”, disse ele, apertando as duas mãos dela.
Ele se encontrava num estado de ânimo entusiasmado, mas sua boca franziu por
um momento, em deferência à recente perda sofrida por Mae. Ela sorriu
timidamente, depois ergueu os olhos. Queria que ele soubesse que ela estava
bem, estava pronta. Stenton fez que sim com a cabeça, recuou e voltou-se para o
tanque. Para a ocasião, Stenton tinha construído um tanque muito maior e
enchido a água com uma portentosa profusão de corais vivos e algas marinhas,
uma sinfonia de cores sob a luz reluzente do aquário. Havia águas-vivas lavanda,
corais-bolha verdes e amarelos, as esferas brancas e estranhas de esponjas do
mar. A água era calma, mas uma leve corrente ondulava a vegetação violeta, que
era espetada entre as pontas do coral favo de mel.
“Lindo. Simplesmente lindo”, disse Bailey. Ele, Stenton e Mae estavam
parados, a câmera de Mae focalizava o tanque e permitia que os espectadores
tivessem uma visão apurada do rico quadro da vida submarina.
“E logo estará completo”, disse Stenton.
Naquele momento, Mae sentiu uma presença perto dela, um hálito quente em
sua nuca, passando da esquerda para a direita.
“Ah, aí está ele”, disse Bailey. “Acho que você ainda não esteve com o Ty,
não é mesmo, Mae?”
Mae virou-se para deparar com Kalden, ao lado de Bailey e Stenton, sorrindo
para ela, estendendo a mão. Vestia um gorro de lã e um suéter grande demais
para seu tamanho. Mas não havia dúvida de que era Kalden. Antes que ela
pudesse conter-se, soltou um suspiro.
Ele sorriu e ela soube imediatamente que pareceria natural a seus
espectadores, bem como para os Sábios, que ela ficasse sem fôlego na presença
de Ty. Mae baixou os olhos e se deu conta de que já estava apertando a mão
dele. Mae não conseguia respirar.
Ela ergueu os olhos e viu que Bailey e Stenton sorriam. Supunham que ela
estivesse em transe diante do criador de tudo aquilo, o jovem misterioso por trás
do Círculo. Mae olhou de novo para Kalden, em busca de alguma explicação,
mas seu sorriso não se modificou. Seus olhos continuaram perfeitamente opacos.
“Que bom conhecer você, Mae”, disse ele. Falou de maneira tímida, quase
num murmúrio, mas ele sabia o que estava fazendo. Sabia o que o público
esperava de Ty.
“Que bom conhecer você, também”, disse Mae.
Então o cérebro dela se estilhaçou. O que estava acontecendo ali? Mae
examinou o rosto de Ty outra vez, vendo por baixo do gorro de lã alguns de seus cabelos grisalhos. Só ela sabia que aqueles fios existiam. Na verdade, será que
Bailey e Stenton sabiam que ele havia envelhecido de forma tão dramática? Que
ele andava se disfarçando de outra pessoa, um zé-ninguém chamado Kalden?
Ocorreu a Mae que eles deveriam saber. É claro que sabiam. Era por isso que ele
aparecia em feeds de vídeo — provavelmente gravados muito tempo antes. Eles
estavam perpetuando tudo aquilo, ajudando Ty a desaparecer.
Mae ainda estava segurando a mão dele. Ela tirou a mão.
“Isso deveria ter acontecido antes”, disse ele. “Peço desculpas.” E agora ele
falou para a lente de Mae, mostrando uma representação perfeitamente natural
para os espectadores. “Tenho trabalhado em alguns projetos novos, uma porção
de coisas muito bacanas, por isso tenho sido menos sociável do que deveria.”
Na mesma hora, o número de espectadores de Mae aumentou, de trinta
milhões e pouco para trinta e dois milhões, e subia rapidamente.
“Faz tempo que nós três não ficamos juntos no mesmo lugar!”, disse Bailey.
O coração de Mae batia frenético. Ela havia dormido com Ty. O que aquilo
significava? E Ty, não Kalden, a havia prevenido contra os perigos da
Completude? Como era possível? O que aquilo significava?
“O que vamos ver?”, perguntou Kalden, apontando para a água com a cabeça.
“Acho que sei, mas estou ansioso para ver o que vai acontecer.”
“Muito bem”, disse Bailey, batendo uma mão contra a outra e torcendo as
duas com ansiedade. Virou-se para Mae e ela virou a lente para Bailey. “Como
ele é muito técnico, meu amigo Stenton aqui pediu que eu explicasse. Como
todos vocês sabem, ele trouxe umas criaturas incríveis das profundezas da Fossa
das Marianas. Todos vocês viram algumas delas, em particular o polvo, o
cavalo-marinho e sua prole e, de modo mais dramático, o tubarão.”
Estava se espalhando a notícia de que os Três Sábios estavam juntos diante da
câmera de Mae, e os espectadores de Mae subiram para quarenta milhões. Ela se
virou para os três e viu em seu pulso que havia captado uma imagem dramática
dos três perfis, enquanto todos olhavam para o vidro, seus rostos banhados por
uma luz azul, seus olhos refletindo a vida irracional no interior do aquário. Os
espectadores de Mae, ela se deu conta, haviam alcançando cinquenta e um
milhões. Ela captou um olhar de Stenton que, com um movimento de cabeça
quase imperceptível, deixou claro que Mae devia voltar a lente de novo para o
aquário. Ela fez isso, e seus olhos se esforçaram para captar em Kalden algum
sinal de reconhecimento. Ele estava olhando fixamente para a água e não
deixava nada transparecer. Bailey prosseguiu.
“Até agora, nossas três estrelas foram mantidas em tanques separados,
enquanto se aclimatavam a sua vida aqui no Círculo. Mas foi uma separação
artificial, é claro. Eles nasceram para viver juntos, como era no mar onde foram encontrados. Portanto estamos prestes a ver os três reunidos aqui, para que
possam coexistir e criar uma imagem mais natural da vida nas profundezas.”
No outro lado do tanque, Mae agora pôde ver o tratador subindo a escada
vermelha, segurando um saco plástico, pesado de água e de minúsculos
passageiros. Mae tentava diminuir a velocidade de sua respiração, mas não
conseguia. Tinha a sensação de que havia vomitado. Pensava em fugir correndo,
para algum lugar muito distante. Fugir com Annie. Onde estava Annie?
Mae viu Stenton olhando para ela, os olhos preocupados, e também severos,
dizendo para ela se recompor. Mae tentava respirar, tentava se concentrar no que
estava acontecendo. Ela teria tempo, depois daquilo, disse Mae para si mesma,
teria tempo para desemaranhar aquele caos de Kalden e Ty. Teria tempo. Seu
coração desacelerou.
“Victor”, disse Bailey, “como vocês talvez possam ver, está levando nossa
carga mais delicada, o cavalo-marinho e, é claro, sua numerosa prole. Como
vocês vão perceber, os cavalos-marinhos estão sendo levados para dentro do
novo tanque num saco, mais ou menos como a gente leva para casa um
peixinho-dourado comprado numa feira de rua. Constatou-se que essa é a melhor
maneira de transferir criaturas delicadas como essa. Não existem superfícies
duras em que elas possam esbarrar, e o plástico é muito mais leve do que o
acrílico ou qualquer outra superfície dura.”
O tratador agora estava no topo da escada e, após uma rápida confirmação
visual de Stenton, cuidadosamente baixou o saco dentro da água, de modo que
ele ficou boiando na superfície. Os cavalos-marinhos, passivos como sempre,
estavam reclinados perto do fundo do saco, sem mostrar o menor sinal de que
sabiam de alguma coisa — que estavam dentro de um saco, de que estavam
sendo transferidos, de que estavam vivos. Eles mal se mexiam e não ofereciam
nenhum protesto.
Mae verificou o contador de espectadores no pulso. Eram agora sessenta e
dois milhões. Bailey indicou que iam esperar alguns momentos até que a
temperatura da água do saco e a do tanque se nivelassem, e Mae aproveitou a
oportunidade para se voltar para Kalden. Ela tentou captar o olhar dele, mas
Kalden preferiu não tirar os olhos do aquário. Olhava fixamente para dentro do
aquário, sorria de modo benévolo para os cavalos-marinhos, como se olhasse
para os próprios filhos.
Por trás do tanque, Victor estava subindo de novo a escada vermelha. “Bem,
isso é muito emocionante”, disse Bailey. “Agora vemos o polvo ser erguido. Ele
precisa de um recipiente maior, mas não proporcionalmente maior. Ele pode se
adaptar ao espaço de uma lancheira, se quiser — ele não tem coluna vertebral,
não tem ossos. É maleável e infinitamente adaptável.”
Logo, os dois recipientes, o que abrigava os cavalos-marinhos e o que
abrigava o polvo, boiavam delicadamente sobre a superfície de neon. O polvo
parecia consciente, até certo ponto, de que havia um lar muito maior abaixo dele
e fazia pressão contra o fundo de seu lar temporário.
Mae viu Victor apontar para os cavalos-marinhos e fazer um rápido aceno de
cabeça para Bailey e Stenton. “Muito bem”, disse Bailey. “Parece que é hora de
libertar nossos amigos cavalos-marinhos em seu novo hábitat. Agora espero que
isso seja lindo. Vamos em frente, Victor, quando estiver pronto.” E quando
Victor os soltou, foi mesmo lindo. Os cavalos-marinhos, translúcidos, mas
mesmo assim coloridos, como se fossem cobertos por uma fina camada de ouro,
caíram no tanque, desceram flutuando como uma chuva vagarosa de pontos de
interrogação.
“Puxa”, disse Bailey. “Veja só isso.”
E por fim o pai de todos eles, com ar tateante, caiu do saco e foi para o tanque.
À diferença de seus filhos, que se espalharam sem rumo, ele manobrou o corpo
com determinação para o fundo do tanque e rapidamente se escondeu no meio
do coral e da vegetação. Em segundos, estava invisível.
“Puxa”, disse Bailey. “Esse sim é um peixe tímido.”
Os filhotes, no entanto, continuaram a flutuar para baixo e a nadar no meio do
tanque, poucos deles ansiosos para ir a qualquer lugar em especial.
“Estamos prontos?”, perguntou Bailey, erguendo os olhos para Victor. “Bem,
parece que isso não para! Parece que agora estamos prontos para o polvo.” Então
Victor abriu o fundo do saco, rasgando, e o polvo instantaneamente se distendeu
como uma mão que faz uma saudação de boas-vindas. Como havia feito quando
estava sozinho, ele investigou o contorno das paredes de vidro, apalpou o coral,
as algas, sempre gentil, querendo saber tudo, tocar em tudo.
“Olhem só isso. Impressionante”, disse Bailey. “Que criatura assombrosa.
Deve ter uma espécie de cérebro dentro desse grande balão, certo?” E nesse
ponto Bailey se voltou para Stenton, pedindo uma resposta, mas Stenton preferiu
tomar aquilo como uma pergunta retórica. Um sorriso sutilíssimo tomou o canto
de sua boca, porém ele não desviou os olhos da cena à sua frente.
O polvo fluía e crescia, e voava de um lado para outro do tanque, mal tocava
nos cavalos-marinhos ou em qualquer outra coisa viva, apenas olhava para elas,
só queria conhecê-las e, enquanto tocava e media tudo dentro do tanque, Mae
viu de novo um movimento na escada vermelha.
“Agora temos Victor e seu ajudante trazendo a verdadeira atração”, disse
Bailey, vendo o primeiro tratador, auxiliado por outro, também de branco, que
operava uma espécie de empilhadeira. A carga era uma grande caixa de acrílico
e, dentro de seu lar temporário, o tubarão se debateu algumas vezes, sua cauda chicoteou para a direita e para a esquerda, mas estava muito mais calmo do que
quando Mae o vira antes.
Do alto da escada, Victor colocou a caixa de acrílico na superfície da água e,
quando Mae esperava que o polvo e os cavalos-marinhos fugissem em busca de
abrigo, o tubarão ficou absolutamente imóvel.
“Bem, olhem só isso”, disse Bailey, maravilhado.
Os espectadores dispararam outra vez, agora alcançavam setenta e cinco
milhões e seu número subia freneticamente, meio milhão a mais a cada punhado
de segundos.
Embaixo, o polvo parecia esquecido do tubarão e da possibilidade de ele se
juntar aos outros dentro do aquário. O tubarão estava como que congelado,
imóvel, talvez neutralizando a capacidade dos ocupantes do tanque de sentir sua
presença. Nesse meio-tempo, Victor e seu ajudante tinham descido da escada e
Victor estava voltando com um grande balde.
“Como podem ver agora”, disse Bailey, “a primeira coisa que Victor vai fazer
é jogar no tanque um pouco da comida predileta de nosso tubarão. Isso vai
mantê-lo distraído e satisfeito e permitir que seus novos vizinhos se aclimatizem.
Victor está alimentando o tubarão o dia inteiro, portanto ele já deve estar
saciado. Mas esses atuns vão servir de café da manhã, almoço e jantar, no caso
de estar com fome.”
E assim Victor jogou seis atuns grandes, cada um de quatro quilos e meio, ou
mais, dentro do tanque, onde eles rapidamente exploraram o ambiente. “Há
menos necessidade de aclimatar lentamente esses caras ao tanque”, disse Bailey.
“Muito em breve, vão virar comida, portanto sua felicidade é menos importante
do que a do tubarão. Ah, olhem só como correm.” Os atuns disparavam pelo
tanque em diagonais e sua repentina presença afugentou o polvo e os cavalos-
marinhos para dentro dos corais e das folhagens no fundo do aquário. No
entanto, logo os atuns ficaram menos agitados e se estabilizaram em fáceis idas e
vindas em volta do tanque. No fundo, o cavalo-marinho pai ainda estava
invisível, mas seus numerosos filhos podiam ser vistos, suas caudas se
enrolavam nas folhagens e nos tentáculos de várias anêmonas. Era uma cena
tranquila, e Mae se viu momentaneamente perdida nela.
“Bem, isso é mesmo deslumbrante”, disse Bailey, observando o coral e a
vegetação em cores limão, azul e vinho. “Olhem para essas criaturas felizes. Um
reino de paz. Parece quase um escândalo modificá-lo de qualquer maneira que
seja”, disse ele. Mae olhou rapidamente para Bailey e ele pareceu chocado com
o que havia acabado de falar, ciente de que aquilo não estava no espírito do
esforço presente. Ele e Stenton trocaram rápidos olhares, e Bailey tentou
remediar.
“Mas estamos aqui lutando para ter uma visão holística e realista desse
mundo”, disse ele. “E isso significa incluir todos os habitantes desse
ecossistema. Portanto vou dar um sinal para Victor de que está na hora de
convidar o tubarão para se juntar aos outros.”
Mae ergueu os olhos para ver Victor lutando para abrir a escotilha no fundo da
caixa. O tubarão ainda se mantinha imóvel, uma maravilha de autocontrole. E
então começou a deslizar para baixo, pela rampa de acrílico. Enquanto fazia
aquilo, Mae se viu num conflito. Sabia que aquilo era a coisa natural que deveria
acontecer, o tubarão unir-se ao resto dos animais com quem ele partilhava seu
ambiente. Mae sabia que era certo e inevitável. Mas, por um momento, ela achou
aquilo natural, assim como ver um avião cair do céu também parece natural. O
horror vem depois.
“Agora, o último elemento dessa família subaquática”, disse Bailey. “Quando
o tubarão for solto, vamos ter, pela primeira vez na história, a visão real de como
transcorre a vida de fato no fundo da Fossa das Marianas e como criaturas como
essas coabitam. Estamos prontos?” Bailey olhou para Stenton, que estava parado
em silêncio a seu lado. Stenton fez que sim com a cabeça bruscamente, como se
olhar para ele para pedir o sinal de ir em frente fosse algo desnecessário.
Victor soltou o tubarão e, como se estivesse olhando sua presa através do
plástico, mentalmente preparando sua refeição e ciente da exata localização de
cada porção, o tubarão disparou para baixo e rápido abocanhou o maior atum e
devorou-o em duas bocadas de suas mandíbulas. Enquanto o atum fazia seu
caminho visivelmente através do sistema digestivo do tubarão, ele comeu mais
dois em rápida sucessão. O quarto ainda estava nas mandíbulas do tubarão
quando os restos mortais granulosos do primeiro estavam sendo depositados,
como neve, no chão do aquário.
Mae olhou então para o fundo do tanque e viu que o polvo e a prole do
cavalo-marinho não eram mais visíveis. Ela viu algum sinal de movimento nos
buracos do coral e avistou o que julgou ser um tentáculo. Embora Mae parecesse
ter certeza de que o tubarão não podia ser o predador deles — afinal, Stenton
tinha encontrado todos eles muito próximos uns dos outros —, estavam se
escondendo como se conhecessem muito bem o tubarão e seus planos. Mae
ergueu os olhos e viu o tubarão rodando pelo tanque, que agora estava vazio.
Nos poucos segundos em que Mae estava procurando o polvo e os cavalos-
marinhos, o tubarão havia processado os outros dois peixes. Seus restos mortais
caíram feito poeira.
Bailey riu nervosamente. “Bem, agora estou pensando se não...”, disse ele,
mas parou. Mae ergueu os olhos e viu que os olhos de Stenton estavam
contraídos e não ofereciam nenhuma alternativa. O processo não seria interrompido. Ela olhou para Kalden, ou Ty, cujos olhos não se desviavam do
tanque. Ele estava assistindo aquilo com placidez, como se já tivesse visto antes
e soubesse tudo o que ia acontecer.
“Muito bem”, disse Bailey. “Nosso tubarão é um sujeito muito esfomeado e
eu podia ficar preocupado com os demais ocupantes de nosso pequeno mundo
aqui, se eu não soubesse das coisas. Acontece que sei das coisas. Estou ao lado
de um dos maiores exploradores do mundo submarino, um homem que sabe o
que está fazendo.” Mae olhou para Bailey enquanto ele falava. Ele olhava para
Stenton, seus olhos em busca de qualquer deixa, de algum sinal de que ele fosse
mandar parar com aquilo ou oferecer alguma explicação ou certeza. Mas Stenton
olhava fixamente para o tubarão, admirando.
Um movimento rápido e selvagem levou os olhos de Mae de volta para o
tanque. Agora o focinho do tubarão tinha se enfiado bem fundo no coral e o
atacava com uma força brutal.
“Ah, não”, disse Bailey.
O coral logo se rompeu e o tubarão mergulhou lá dentro e saiu
instantaneamente com o polvo, que ele arrastou para a área aberta do tanque
como se quisesse oferecer a todo mundo — Mae, seus espectadores e os Sábios
— uma visão melhor, enquanto despedaçava o animal.
“Ah, meu Deus”, disse Bailey, agora mais baixo.
De propósito ou não, o polvo ofereceu um desafio a seu destino. O tubarão
rompeu um tentáculo, depois pareceu abocanhar um pedaço da cabeça, só para
descobrir, segundos depois, que o polvo continuava vivo e em grande parte
intacto, atrás dele. Mas não por muito tempo.
“Ah, não. Ah, não”, sussurrou Bailey.
O tubarão virou-se e, num torvelinho, arrancou os tentáculos de sua presa, um
a um, até que o polvo estava morto, uma massa retalhada de matéria branca e
leitosa. O tubarão engoliu o resto em duas bocadas e o polvo não existia mais.
Uma espécie de gemido veio de Bailey e, sem mover os ombros, Mae girou a
cabeça e viu que Bailey tinha virado de costas, as palmas das mãos sobre os
olhos. Stenton, porém, olhava para o tubarão com um misto de fascínio e
orgulho, como um pai que vê pela primeira vez o filho fazer algo especialmente
impressionante, algo que ele esperava e almejava, mas que aconteceu
deliciosamente mais cedo que o previsto.
No alto do tanque, Victor parecia hesitante e tentava captar um sinal nos olhos
de Stenton. Ele parecia estar pensando o que Mae estaria pensando, ou seja, se
eles deveriam de alguma forma separar o tubarão do cavalo-marinho, antes que o
cavalo-marinho também fosse consumido. Mas quando Mae virou para ele,
Stenton continuava olhando, sem nenhuma mudança na expressão.
Em poucos segundos mais, numa série de pancadas ferozes, o tubarão tinha
rompido mais um coral e extraía dali o cavalo-marinho, que não tinha nenhuma
defesa e foi comido em duas mordidas, primeira sua delicada cabeça, depois seu
torso e seu rabo curvos, de papel machê.
Então, como uma máquina em pleno funcionamento, o tubarão andou em
círculos arremetendo sem parar, até ter devorado os milhares de bebês e as algas
e o coral e as anêmonas. Ele comeu tudo e depositou os restos rapidamente,
atapetando o aquário vazio com uma película rasteira de cinzas brancas.
“Bem”, disse Ty, “foi o que imaginei que ia acontecer.” Ele parecia não ter
ficado abalado e até se mostrou animado ao apertar a mão de Stenton, e depois
de Bailey, e depois, enquanto ainda segurava a mão de Bailey com a mão direita,
apertou a mão de Mae com a mão esquerda, como se os três estivessem prestes a
dançar. Mae sentiu algo na palma da mão e rapidamente fechou os dedos em
torno daquilo. Então ele recuou e foi embora.
“É melhor eu ir embora também”, disse Bailey num murmúrio. Virou-se,
estonteado, e caminhou pelo corredor escuro.
Depois, quando o tubarão ficou sozinho no tanque e nadava em círculos, ainda
voraz, sem nunca parar, Mae se perguntou quanto tempo ela devia ficar ali,
permitindo que os espectadores vissem aquilo. Mas resolveu que enquanto
Stenton ficasse, ela ficaria também. E ele ficou ali por um bom tempo. Não
conseguia se fartar de ver o tubarão, seus círculos ansiosos.
“Até a próxima”, disse Stenton afinal. Cumprimentou Mae com a cabeça e
depois os espectadores, que agora eram cem milhões, muitos deles aterrorizados,
e muitos mais pasmos e desejosos de ver mais e mais daquilo mesmo.
No banheiro, com a lente virada para a porta, Mae levou o bilhete de Ty até
bem junto do rosto, fora da vista de seus espectadores. Ele fazia questão de vê-la
a sós e fornecia orientações minuciosas de onde deviam se encontrar. Quando
estivesse pronta, escreveu ele, Mae teria apenas de sair do banheiro, virar-se e
dizer para o áudio ao vivo: “Vou voltar”. Seria entendido que ela estava voltando
para o banheiro por causa de alguma emergência higiênica não nomeada. E
naquele momento ele suprimiria o feed de Mae e de quaisquer câmeras
SeeChange que pudessem vê-la, durante trinta minutos. Aquilo provocaria certo
alvoroço, mas tinha de ser feito. A vida dela, disse ele, estava em risco, bem
como a de Annie e a de seus pais. “Tudo e todos”, escreveu ele, “estão à beira do
abismo.”
Aquele seria o último erro dela. Mae sabia que era um erro encontrar-se com
ele, especialmente longe das câmeras. Mas algo no tubarão a deixara perturbada, a deixara suscetível a decisões ruins. Se ao menos alguém pudesse tomar aquelas
decisões por ela — de alguma foram eliminar a dúvida, a possibilidade de
fracasso. Mas Mae tinha de saber como Ty havia conseguido fazer tudo aquilo,
certo? Quem sabe tudo aquilo era um teste? Fazia certo sentido. Se ela estava
sendo preparada para coisas grandes, não fariam um teste com ela? Mae sabia
que sim.
Então Mae seguiu as orientações dele. Saiu do banheiro, disse a seus
espectadores que ia voltar e, quando seu feed cessou, ela seguiu as orientações
de Ty. Desceu como tinha feito com Kalden naquela noite estranha, refez o
caminho que eles haviam tomado quando ele a levou para a sala, no subsolo
profundo, onde Stewart e tudo o que ele tinha visto era abrigado e resfriado com
água fria. Quando Mae chegou, achou Kalden, ou Ty, à sua espera, de costas
para a caixa vermelha. Tinha tirado o gorro de lã, deixando à mostra o cabelo
grisalho, mas continuava a usar seu moletom com capuz, e a combinação dos
dois homens, Ty e Kalden, numa só figura causou repulsa em Mae e, quando ele
começou a andar na direção dela, Mae gritou: “Não!”.
Ele parou.
“Fique parado”, disse ela.
“Não sou perigoso, Mae.”
“Não sei nada sobre você.”
“Lamento não ter dito quem eu era. Mas não menti.”
“Disse que seu nome era Kalden! Isso não é mentira?”
“Tirando isso, nunca menti.”
“Tirando isso? Tirando mentir sobre sua identidade?”
“Acho que você sabe que não tenho outra opção aqui.”
“Afinal, que tipo de nome é Kalden? Foi buscar em algum site de lista de
nomes para bebês?”
“Isso mesmo. Gostou?”
Ele deu um sorriso irritante. Mae teve a sensação de que não devia estar ali,
que devia ir embora imediatamente.
“Acho que preciso ir”, disse ela, e deu um passo na direção da escada. “Tenho
a sensação de que isso é alguma brincadeira sinistra.”
“Mae, pense bem. Aqui está minha carteira de motorista.” Entregou para ela
sua carteira de habilitação. Mostrava um homem de cabelo escuro, de barba
raspada, de óculos e com um aspecto mais ou menos parecido com o que ela se
lembrava de Ty, o Ty dos vídeos, das fotos antigas, o retrato a óleo na entrada da
biblioteca de Bailey. O nome na carteira era Tyson Matthew Gospodinov. “Olhe
para mim. Nenhuma semelhança?” Voltou para a caverna-dentro-da-caverna que
os dois haviam partilhado e saiu de lá com um par de óculos. “Está vendo?”, disse ele. “Agora ficou óbvio, não é mesmo?” Como que respondendo à
pergunta seguinte de Mae, ele disse: “Eu sempre fui um cara de aspecto muito
comum. Você sabe disso. E então me livrei dos óculos, do moletom com capuz.
Mudei a aparência, a maneira de me movimentar. Porém, o mais importante é
que meu cabelo ficou grisalho. E por que você acha que isso aconteceu?”.
“Não tenho a menor ideia”, disse Mae.
Ty girou os braços em redor, num gesto que abrangia tudo à sua volta e o
vasto campus acima. “Tudo isso. O tubarão sacana que devora o mundo.”
“Bailey e Stenton sabem que você anda por aí usando outro nome?”,
perguntou Mae.
“Claro. Sabem. Eles esperam que eu fique aqui. Tecnicamente, não tenho
autorização para sair do campus. Enquanto eu estiver aqui, eles ficam felizes.”
“Annie sabe?”
“Não.”
“Portanto eu sou...”
“Você é a terceira pessoa a saber.”
“E por que está me contando?”
“Porque você tem grande influência aqui e porque você precisa ajudar. Você é
a única pessoa que pode frear isso.”
“Frear o quê? A empresa que você criou?”
“Mae, eu não tinha a menor intenção de que isso acontecesse. E está andando
rápido demais. Essa ideia de Completude é uma coisa muito além do que é
direito. Tem de ser trazida de volta para uma espécie de equilíbrio.”
“Em primeiro lugar, não concordo. Em segundo lugar, não posso ajudar.”
“Mae, o Círculo não pode se fechar.”
“Do que você está falando? Como pode dizer isso agora? Se você é Ty, a
maior parte de tudo isso é ideia sua.”
“Não, não. Eu estava tentando tornar a internet mais cidadã. Estava tentando
tornar a internet mais eficiente. Pus fim ao anonimato. Combinei mil elementos
díspares num sistema unificado. Mas não imaginei que fosse obrigatório ser
membro do Círculo, que todo o governo e toda a vida fossem canalizados por
uma rede...”
“Estou caindo fora”, disse Mae e virou-se. “E não vejo motivo para que você
simplesmente não caia fora daqui também. Abandone tudo. Se você não acredita
em nada disso, então vá embora. Vá morar no mato.”
“Não deu certo para o Mercer, não é?”
“Vai se foder.”
“Desculpe. Desculpe. Mas ele é o motivo de eu ter entrado em contato com
você agora. Não percebe que aquilo foi só uma das consequências disso tudo? Vão surgir outros Mercer. Muitos outros. Há muita gente que não quer ser
encontrada, mas será. Há muita gente que não quer ter a menor participação em
nada disso. Essa é a novidade. Antigamente havia a opção de ficar de fora. Mas
agora isso acabou. A Completude é o fim. Estamos fechando o Círculo em torno
de todo mundo — é um pesadelo totalitário.”
“E é culpa minha?”
“Não, não. Nem um pouco. Mas agora você é a embaixatriz. Você é o rosto
disso. O rosto benévolo e amigo de tudo isso. E o fechamento do Círculo foi o
que você e seu amigo Francis tornaram possível. Sua ideia da obrigatoriedade de
uma conta no Círculo e o chip dele. TruYouth? É um horror, Mae. Não percebe?
Todas as crianças ganham um chip que é embutido em seu corpo, em nome da
segurança, quando são bebês. E, sim, isso vai salvar vidas. Mas e depois, você
acha que vão remover os chips, de repente, quando tiverem dezoito anos? Não.
Em nome da educação e da segurança, tudo o que eles fizerem será registrado,
rastreado, cadastrado, analisado — é permanente. Depois, quando tiverem idade
suficiente para votar, participar, será obrigatório se registrar no Círculo. É aí que
o Círculo se fecha. Todo mundo será rastreado, do berço até o túmulo, sem
nenhuma possibilidade de escapar.”
“Agora você está parecendo o Mercer. Esse tipo de paranoia...”
“Mas sei do que estou falando melhor do que o Mercer. Você não acha que se
alguém como eu, que inventou a maior parte dessa merda, está assustado, você
também não deveria ficar assustada?”
“Não. Acho que você ficou para trás.”
“Mae, muitas coisas que inventei, francamente, foram só para me divertir, por
causa de uma brincadeirinha perversa, para saber se as coisas iam mesmo
funcionar, se as pessoas iriam mesmo usar. Sabe, é como montar uma guilhotina
numa praça pública. Não se espera que mil pessoas façam fila para pôr a cabeça
embaixo da lâmina.”
“É assim que você encara isso?”
“Não, desculpe. Foi uma comparação ruim. Mas algumas coisas que fizemos,
eu só... eu fiz só para ver se alguém iria mesmo usar, iria concordar. Quando
acatavam a ideia, eu ficava um tempo sem conseguir acreditar naquilo. E aí,
depois, já era tarde demais. Havia Bailey e Stenton e as ações vendidas na Bolsa
de Valores. E depois as coisas andaram depressa demais e havia dinheiro
suficiente para tornar realidade qualquer ideia cretina. Mae, quero que você
imagine para onde tudo isso está indo.”
“Eu sei para onde está indo.”
“Mae, feche os olhos.”
“Não.”
“Mae, por favor, feche os olhos.”
Ela fechou os olhos.
“Quero que você ligue esses pontos e veja se você vê o que eu vejo. Imagine o
seguinte. O Círculo tem devorado todos os concorrentes há anos, correto? Isso só
faz tornar a empresa mais forte. Noventa por cento das buscas do mundo vão
para o Círculo. Sem concorrentes, isso vai aumentar. Logo chegarão aos cem por
cento. Agora, eu e você sabemos que, se alguém pode controlar o fluxo de
informação, pode controlar tudo. Pode controlar a maior parte do que todo
mundo vê e sabe. Aí, se você quiser encobrir uma informação de modo
permanente, é uma coisa que se faz em dois segundos. Se quiser arruinar a vida
de qualquer pessoa, bastam cinco segundos. Como alguém pode se erguer contra
o Círculo, se eles controlam todas as informações e têm acesso a ela? Eles
querem que todo mundo tenha uma conta no Círculo e estão bem avançados no
caminho de tornar ilegal não ter uma conta no Círculo. O que vai acontecer
depois? O que vai acontecer quando eles controlarem todos os mecanismos de
busca e tiverem pleno acesso a todos os dados de todas as pessoas? Quando eles
souberem de todos os movimentos que todo mundo faz? Se todas as transações
monetárias, todas as informações de saúde e de DNA, todas as partes da vida das
pessoas, boas ou ruins, quando toda palavra dita fluir por um único canal?”
“Mas existem milhares de proteções para evitar tudo isso. Não é possível.
Veja, os governos vão tomar providências para que...”
“Governos que são transparentes? Legisladores que devem sua reputação ao
Círculo? Que podem ser destruídos no momento em que abrirem a boca? O que
você acha que aconteceu com Williamson? Lembra-se dela? Ela ameaça o
monopólio do Círculo e, surpresa, a polícia federal descobre dados
incriminadores em seu computador. Acha que isso foi coincidência? Ela foi mais
ou menos a centésima pessoa a quem Stenton fez isso. Mae, quando o Círculo
estiver completo, acabou. E você ajudou a completá-lo. Aquele troço de
democracia, o tal Demoxie, seja lá o que for, caramba. Sob o pretexto de ouvir a
voz de todo mundo, criou-se um governo da massa, uma sociedade sem filtros
onde os segredos são crimes. É genial, Mae. Quero dizer, você é genial. Você é
aquilo que Stenton e Bailey estavam desejando desde o início.”
“Mas o Bailey...”
“Bailey acredita que a vida será melhor, será perfeita, quando todo mundo
tiver acesso irrestrito a todo mundo e a tudo que as pessoas conhecem. Acredita
sinceramente que as respostas para todas as questões da vida podem ser
encontradas nas pessoas. Acredita de verdade que a abertura, o acesso completo
e ininterrupto entre todos os seres humanos, vai ajudar o mundo. Que é isso que
o mundo está esperando, o momento em que todas as almas estejam conectadas. Isso o deixa em êxtase, Mae! Não percebe como essa visão é extremada? Sua
ideia é radical e, numa outra era, teria sido uma tese marginal, adotada por
algum excêntrico professor-assistente sei lá de onde: que toda informação,
pessoal ou não, deve ser conhecida de todos. Conhecimento é propriedade, e
ninguém pode ser dono dele. Infocomunismo. E Bailey tem direito de ter tal
opinião. Mas unida à ambição capitalista implacável...”
“Então é o Stenton?”
“Stenton profissionalizou nosso idealismo, monetizou nossa utopia. Foi ele
que percebeu a ligação entre nosso trabalho e a política e entre a política e o
controle. O público-privado leva ao privado-privado e em breve teremos o
Círculo dirigindo a maior parte ou mesmo todos os serviços do governo, com a
incrível eficiência do setor privado e com um apetite insaciável. Todo mundo vai
ser tornar cidadão do Círculo.”
“E isso é tão ruim? Se todo mundo tiver acesso igual aos serviços, à
informação, finalmente teremos uma chance de alcançar a igualdade. Nenhuma
informação deve custar nada. Não deve haver barreiras para conhecer tudo,
acessar tudo...”
“E se todo mundo for rastreado...”
“Então não haverá mais crimes. Nenhum assassinato, nenhum sequestro e
estupro. Nenhuma criança sofrerá mais violência. Não haverá mais pessoas
desaparecidas. Veja, só isso já...”
“Mas você não viu o que aconteceu com seu amigo Mercer? Ele foi
perseguido até os confins do mundo e agora ele se foi.”
“Mas isso é só o pivô da história. Você já conversou com Bailey sobre isso?
Quero dizer, durante toda grande transformação da humanidade, existe uma
resistência. Alguns ficam para trás, alguns escolhem ficar para trás.”
“Então você acha que todo mundo deve ser rastreado, deve ser vigiado.”
“Acho que tudo e todo mundo devem ser vistos. E para sermos vistos, temos
de ser vigiados. As duas coisas andam juntas.”
“Mas quem quer ser vigiado o tempo todo?”
“Eu quero. Eu quero ser vista. Eu quero provar que existi.”
“Mae.”
“A maior parte das pessoas quer. As pessoas, em sua maior parte, trocariam
tudo o que sabem, trocariam todo mundo que elas conhecem, trocariam tudo isso
para saber que foram vistas, e reconhecidas, que elas talvez até possam ser
lembradas. Todos sabemos que vamos morrer. Todos sabemos que o mundo é
grande demais para que sejamos importantes. Portanto só nos resta a esperança
de ser vistos, ou ouvidos, ainda que só por um momento.”
“Mas, Mae. Nós vimos todas as criaturas dentro daquele tanque, não foi? Vimos que elas foram devoradas por uma fera que as transformou em cinzas.
Não percebe que tudo que entra naquele tanque, com aquela fera, com esta fera,
vai encontrar o mesmo destino?”
“Então o que exatamente você quer de mim?”
“Quando tivermos o número máximo de espectadores, quero que você leia
esta declaração.” Entregou a Mae uma folha de papel na qual ele havia escrito,
em letras de forma garrafais, uma lista de afirmações sob o título “Os Direitos
Humanos numa Era Digital”. Mae leu rapidamente, captando uns trechos:
“Todos temos o direito ao anonimato.” “Nem todas as atividades humanas
podem ser medidas.” “A incessante busca de dados para quantificar o valor de
qualquer esforço é catastrófica para a verdadeira compreensão.” “A barreira
entre público e privado deve permanecer inviolável.” No fim, ela achou uma
linha escrita em tinta vermelha: “Todos temos o direito de desaparecer”.
“Então você quer que eu leia isso para os espectadores?”
“Sim”, respondeu Kalden, com os olhos arregalados.
“E depois?”
“Tenho uma série de passos que podemos dar juntos e que podem começar a
desmontar tudo isso. Sei de tudo o que aconteceu aqui dentro, Mae, e aconteceu
muita coisa capaz de convencer qualquer pessoa, por mais obtusa que seja, de
que o Círculo precisa ser desmantelado. Sei que posso fazer isso. Sou a única
pessoa que pode, mas preciso de sua ajuda.”
“E depois?”
“Depois eu e você iremos para algum lugar. Tenho uma porção de ideias.
Vamos evaporar. Podemos fazer caminhadas pelo Tibete. Podemos fazer
caminhadas pela estepe da Mongólia. Podemos velejar em redor do mundo num
barco que nós mesmos vamos construir.”
Mae imaginou tudo aquilo. Imaginou o Círculo sendo destroçado, liquidado
em meio a um escândalo, treze mil pessoas desempregadas, o campus ocupado,
destruído, transformado numa universidade, num shopping ou algo pior. E por
fim imaginou a vida num barco com aquele homem, velejando pelo mundo, sem
amarras, mas quando ela tentou, em vez disso, viu o casal na balsa que ela tinha
encontrado meses antes, na baía. Isolados, sozinhos, vivendo embaixo de uma
lona, bebendo vinho em copos de papel, dando nomes para as focas, recordando
incêndios em ilhas.
Naquele momento, Mae entendeu o que precisava fazer.
“Kalden, tem certeza de que não estamos sendo ouvidos?”
“Claro que não estamos.”
“Certo, muito bem. Muito bem. Agora vejo tudo com clareza.”