O Círculo
Livro II
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
No tumulto daquela noite, Mae comeu sentindo-se abalada, as palavras e as
mensagens cifradas de Kalden continuavam a martelar em sua cabeça. A batalha
de comédia de improviso foi devidamente terrível e divertida, apesar de sua
absoluta incompetência; o levantamento de fundos para a escola no Paquistão foi
inspirador — o evento conseguiu angariar 2,3 milhões de sorrisos — e por fim houve o churrasco, em que a própria Mae se permitiu tomar uma segunda taça de
vinho, antes de se recolher ao seu dormitório.
Fazia seis semanas que aquele era seu quarto. Já não fazia sentido ir de carro
até seu apartamento, que era caro e que, na última vez em que fora lá, depois de
ficar ausente por oito dias, tinha ratos. Portanto ela desistiu e se tornou um dos
cem Colonos, membros do Círculo que se mudaram para o campus em caráter
permanente. As vantagens eram óbvias e a lista de espera tinha 1209 nomes.
Agora havia dormitórios no campus para 288 membros do Círculo e a empresa
tinha comprado um prédio vizinho, uma antiga fábrica, com planos de
transformá-lo em mais quinhentos quartos. Mae havia sido promovida e agora
tinha equipamentos inteiramente conectados, parede de monitores, cortinas, tudo
monitorado por uma central. O quarto era arrumado diariamente e a geladeira,
abastecida com seus itens básicos — rastreados via Homie — e também com
produtos em fase experimental. Mae podia ter tudo o que desejasse, contanto que
fornecesse uma avaliação aos fabricantes.
Mae lavou o rosto, escovou os dentes e se acomodou no leito branco-nuvem.
Depois das dez horas da noite, a transparência era opcional e em geral ela ficava
no escuro depois de escovar os dentes, uma atividade que Mae descobriu ser do
interesse das pessoas em geral e, ela acreditava, podia incentivar os cuidados
dentários entre os espectadores mais jovens. Às 10h11 da noite, deu boa-noite a
seus espectadores — havia apenas 98 027 naquela altura e alguns milhares deles
responderam seu boa-noite —, ergueu a lente por cima da cabeça e guardou-a
em sua caixa. Mae tinha autorização para desligar as câmeras SeeChange no
quarto, mas se deu conta de que raramente o fazia. Sabia que as cenas filmadas
de seus movimentos durante o sono, que ela mesma reuniria, poderiam ser
valiosas algum dia, por isso deixava as câmeras ligadas. Tinha levado algumas
semanas para se habituar a dormir com os monitores nos pulsos — numa noite,
tinha se arranhado e, em outra, quebrara a tela do bracelete do pulso direito —,
mas os técnicos do Círculo haviam aprimorado o design, substituindo as telas
rígidas por outras mais flexíveis, inquebráveis, e agora ela se sentia incompleta
sem os braceletes.
Sentou-se na cama, ciente de que em geral demorava mais ou menos uma hora
para pegar no sono. Ligou a parede de monitores com a intenção de ver como
estavam seus pais. Mas as câmeras SeeChange deles estavam todas escuras.
Mandou um zing para eles, sem esperança de receber resposta, e de fato não
recebeu. Mandou uma mensagem para Annie, mas não obteve resposta.
Verificou a lista de mensagens de seu Zing, leu algumas engraçadas e, como
havia perdido dois quilos e setecentos gramas desde que ficara transparente,
passou vinte minutos procurando uma saia e uma camiseta novas e, em algum ponto no oitavo site que visitou, sentiu aquele rasgo se abrindo dentro dela outra
vez. Sem nenhum bom motivo, foi conferir se o site de Mercer continuava
fechado, e viu que estava. Procurou alguma referência a ele na internet ou então
notícias de seu paradeiro, e não encontrou nada. O rasgo estava crescendo por
dentro, se abria rapidamente, um negror insondável se alastrava embaixo dela.
Na geladeira, tinha um pouco do saquê que Francis tinha lhe apresentado,
levantou-se, serviu-se de uma dose grande demais e bebeu. Foi para o portal da
SeeChange e viu imagens das praias do Sri Lanka e do Brasil, sentiu-se mais
calma, sentiu-se mais afetuosa, e depois lembrou que milhares de jovens
estudantes, que se chamavam de ChangeSeers, haviam se espalhado por todo o
planeta, instalando câmeras nas regiões mais remotas. Portanto, por um tempo,
Mae viu as imagens de uma câmera instalada num povoado no deserto da
Namíbia, duas mulheres preparando uma refeição, seus filhos brincando no
quintal, mas depois de alguns minutos vendo aquilo sentiu que o rasgo se abria
ainda mais, que os gritos debaixo d’água ficavam mais altos, um zunido
insuportável. Procurou Kalden mais uma vez, soletrou seu nome de maneiras
novas e irracionais, durante quarenta minutos vasculhou o diretório de rostos da
empresa e não encontrou ninguém parecido com ele. Desligou as câmeras
SeeChange, serviu-se de mais saquê, bebeu, foi para a cama e, pensando em
Kalden, em suas mãos, em suas pernas finas, em seus dedos compridos,
envolveu os mamilos com a mão esquerda enquanto, com a direita, puxou para o
lado a calcinha e imitou os movimentos de uma língua, a língua dele. Não deu
nenhum resultado. Mas o saquê estava drenando toda preocupação de sua mente
e, por fim, pouco antes da meia-noite, ela encontrou algo parecido com o sono.
“Alô, pessoal”, disse Mae. A manhã estava radiante. Ela se sentia animada o
bastante para experimentar uma expressão que achava que ia contagiar todo o
Círculo ou até o mundo em geral. “Este é um dia igual a qualquer dia,
justamente porque é diferente de qualquer outro dia!” Depois que falou aquilo,
Mae verificou seu pulso, mas viu poucos sinais de que tinha acertado o alvo. Por
um momento, ficou desolada, porém o dia mesmo, a promessa ilimitada que ele
oferecia, animou-a. Eram 9h34, o sol estava brilhante e quente outra vez e o
campus estava cheio de movimento e energia. Se os membros do Círculo
precisavam de alguma confirmação de que se encontravam no centro de tudo que
havia de mais importante, o dia já trouxera tal confirmação. Começando às 8h31,
uma série de helicópteros havia sacudido o campus, trazendo líderes de todas as
maiores companhias de seguros-saúde, de Ministérios da Saúde do mundo, de
centros de controle de doenças e de todas as empresas farmacêuticas
importantes. Por fim, segundo o rumor que corria, haveria um compartilhamento de informações completo entre todas aquelas entidades até então desconectadas e
adversárias, e uma vez coordenadas, uma vez que todos os dados de saúde que
elas reuniam fossem compartilhados, algo possível, em sua maior parte, graças
ao Círculo e, sobretudo, ao TruYou, os vírus seriam barrados em suas fontes, as
doenças seriam rastreadas até sua raiz. Durante toda a manhã, Mae observou
aqueles executivos, médicos e funcionários de alto escalão andarem a passos
ligeiros rumo ao recém-construído Hipocampus. Lá, teriam um dia inteiro de
reuniões — privadas, dessa vez, mas com fóruns públicos prometidos no futuro
— e, mais tarde, haveria um concerto de um cantor e compositor a quem só
Bailey dava valor e que havia chegado na noite anterior para jantar com os
Sábios.
O mais importante para Mae, no entanto, foi que um dos muitos helicópteros
da manhã trouxera Annie, que afinal estava voltando para casa. Estivera fora
durante quase um mês, na Europa, na China e no Japão, resolvendo algumas
encrencas regulatórias, reunindo-se com alguns líderes transparentes, e o
resultado daquele trabalho parecia bom, a julgar pelo número de sorrisos que
Annie havia postado no feed de seu Zing no término da viagem. Porém, entre
Annie e Mae, era difícil conseguir qualquer tipo de conversa mais relevante.
Annie dera os parabéns a Mae por sua transparência, sua ascensão, como disse,
mas depois ficou muito atarefada. Atarefada demais para escrever bilhetes
relevantes, atarefada demais para dar telefonemas de que pudesse se orgulhar,
disse ela. As duas trocavam breves mensagens todos os dias, mas a agenda de
Annie era, em suas palavras, uma piração, e a diferença de cronogramas
significava que as duas raramente estavam em sincronia e aptas a qualquer
conversa profunda.
Annie prometera chegar de manhã, direto de Beijing, e Mae, enquanto
esperava, vinha tendo dificuldade para se concentrar. Observava os helicópteros
aterrissarem, observava por cima dos telhados com os olhos semicerrados, em
busca da cabeça amarela de Annie, sem nenhum resultado. E agora tinha de
passar uma hora no Pavilhão Protagoriano, tarefa que sabia ser importante e que
normalmente acharia fascinante, mas que, naquele dia, parecia ser um muro
impenetrável entre ela e sua melhor amiga.
Num painel de granito do lado de fora do Pavilhão Protagoriano, o xará do
prédio era citado de maneira relaxada: Os seres humanos são a medida de todas
as coisas. “Mais importante para nossos propósitos”, disse Mae, abrindo a porta,
“é que agora, com as ferramentas disponíveis, os seres humanos podem medir
todas as coisas. Não é isso mesmo, Terry?”
De pé na sua frente, estava um homem alto, coreano-americano, Terry Min. “Oi, Mae. Oi, espectadores e seguidores de Mae.”
“Você cortou o cabelo de um jeito novo”, disse Mae.
Com o regresso de Annie, Mae sentia-se meio doida, meio leviana, e Terry se
viu momentaneamente desconcertado. Ele não contava com falas improvisadas.
“Ah, foi”, respondeu, e passou os dedos pelo cabelo.
“Está mais reto”, disse Mae.
“Sim. Está mais reto. Vamos entrar?”
“Vamos.”
Os projetistas do prédio quebraram a cabeça para usar formas orgânicas,
abrandar a rígida matemática do trabalho cotidiano dos engenheiros. O saguão
era revestido de prata e parecia ondular, como se eles estivessem no fundo de um
enorme tubo corrugado.
“O que vamos ver hoje, Terry?”
“Pensei em começarmos com uma visão geral para depois nos aprofundarmos
numa coisa que estamos fazendo no setor educacional.”
Mae seguiu Terry através do prédio, que parecia mais um reduto de técnicos
do que as outras partes do campus que ela estava acostumada a visitar. O truque
com seu público era equilibrar o trivial com as partes mais glamorosas do
Círculo; era necessário revelar as duas coisas, e certamente milhares de
espectadores estavam mais interessados na sala das máquinas de calefação do
que nas coberturas requintadas; no entanto, a calibragem das duas coisas tinha de
ser precisa.
Passaram por Josef e seus dentes e depois cumprimentaram vários
desenvolvedores e técnicos, enquanto todos eles se viravam para ela a fim de
explicar seu trabalho da melhor maneira que podiam. Mae viu que horas eram e
percebeu que havia uma mensagem nova da dra. Villalobos. Estava chamando
Mae para falar com ela assim que pudesse. Nada urgente, disse ela. Mas tem de
ser hoje. Enquanto percorriam o prédio, Mae conseguiu digitar uma resposta à
médica, dizendo que iria vê-la dali a trinta minutos. “Vamos ver o projeto
educacional agora?”
“Acho uma excelente ideia”, respondeu Terry.
Percorreram um corredor em curva e entraram num espaço amplo e aberto,
onde pelo menos cem membros do Círculo trabalhavam sem divisórias. Parecia
um pouco uma Bolsa de Valores de meados do século anterior.
“Como seus espectadores devem saber”, disse Terry, “o Departamento de
Educação nos deu uma bela doação...”
“Não foram três bilhões de dólares?”, perguntou Mae.
“Bem, quem está contando?”, disse Terry, fartamente satisfeito com a cifra e
com o que ela demonstrava, ou seja, que Washington sabia que o Círculo era capaz de medir tudo, inclusive o desempenho dos alunos, melhor do que eles
jamais esperavam ser possível. “Mas a questão é que eles nos pediram para
projetar e implementar um sistema de avaliação de dados abrangente para os
estudantes da nação. Ah, espere só, isso é muito legal”, disse Terry.
Pararam na frente de uma mulher e um menino. Ele parecia ter três anos e
brincava com um relógio de pulso prateado, reluzente, preso a seu pulso.
“Oi, Marie”, disse Terry para a mulher. “Esta é Mae, como você
provavelmente já sabe.”
“Sei sim, conheço a Mae”, respondeu Marie com um levíssimo sotaque
francês. “E o Michel aqui também conhece. Dê bom-dia para ela, Michel.”
Michel preferiu acenar com a mão.
“Diga algo para o Michel, Mae”, disse Terry.
“Como vai, Michel?”, perguntou Mae.
“Muito bem, agora mostre para ela”, disse Terry, cutucando o ombro de
Michel.
Em seu minúsculo visor, o relógio no pulso de Michel tinha registrado as três
palavras que Mae acabara de falar. Abaixo daqueles números havia um contador
com o número 29 266.
“Estudos mostram que as crianças precisam ouvir pelo menos trinta mil
palavras por dia”, explicou Marie. “Por isso o relógio faz uma coisa muito
simples, ao reconhecer, classificar e, acima de tudo, contar essas palavras. Isso é
algo primário para crianças que estão em casa, antes de chegarem à idade
escolar. Uma vez lá, supomos que tudo isso seja controlado na sala de aula.”
“Essa é uma boa transição”, disse Terry. Agradeceram a Marie e Michel e
seguiram pelo corredor rumo a uma sala ampla, decorada como uma sala de
aula, porém incrementada com dúzias de telas, cadeiras ergonômicas, espaços de
trabalho colaborativos.
“Ah, aqui está a Jackie”, disse Terry.
Jackie, uma mulher esguia, de trinta e poucos anos. Ao surgir, apertou a mão
de Mae. Usava um vestido sem mangas que ressaltava os ombros largos e os
braços de manequim. Tinha o pulso direito engessado.
“Oi, Mae, estou muito contente que você pôde nos visitar hoje.” Sua voz era
educada, profissional, mas com um toque de flerte. Ficou parada na frente da
câmera, as mãos cruzadas na frente do corpo.
“Então, Jackie”, disse Terry, obviamente satisfeito por estar perto dela. “Pode
nos falar um pouco sobre que anda fazendo por aqui?”
Mae viu um sinal de alerta em seu pulso e o interrompeu. “Mas primeiro nos
diga de onde você veio, antes de comandar esse projeto. É uma história
interessante.”
“Bem, obrigada por dizer isso, Mae. Não sei até que ponto é interessante, mas
antes de trabalhar no Círculo eu trabalhava no mercado financeiro, em fundos de
participações em empresas de capital fechado, e antes disso fiz parte de um
grupo que começou...”
“Você era nadadora”, cortou Mae. “Esteve nas Olimpíadas!”
“Ah, isso”, disse Jackie, levando a mão à boca, que sorria.
“Ganhou uma medalha de bronze nas Olimpíadas de 2000, não foi?”
“Ganhei.” A repentina timidez de Jackie era cativante. Mae tentou confirmar o
efeito e viu o acúmulo de alguns milhares de sorrisos.
“E você contou internamente que sua experiência de nadadora de nível
mundial influenciou seus planos aqui, não foi?”
“Foi, sim, Mae”, respondeu Jackie, que agora pareceu compreender aonde
Mae queria chegar com aquele diálogo. “Há tantas coisas que podíamos
conversar aqui no Pavilhão Protagoriano, mas um assunto bem interessante para
seus espectadores é aquilo que chamamos de YouthRank, Classificação da
Juventude. Venha aqui um segundo. Olhe aquele quadro grande.” Levou Mae até
uma parede de monitores de uns seis metros quadrados. “Estamos testando um
sistema no Iowa já faz alguns meses e, agora que você está aqui, parece um bom
momento para mostrá-lo. Talvez algum de seus espectadores, que esteja no
momento no ensino médio no Iowa, queira mandar seu nome e o nome do
colégio onde estuda, não é?”
“Vocês ouviram a moça”, disse Mae. “Alguém que está nos vendo se encontra
no Iowa e estuda no ensino médio?”
Mae olhou para o pulso, onde onze zings chegaram. Mostrou-os para Jackie,
que fez que sim com a cabeça.
“Muito bem”, disse Mae. “Então você precisa apenas de seus nomes?”
“Nome e colégio”, respondeu Jackie.
Mae leu um dos zings. “Tenho aqui a Jennifer Batsuuri, que diz que frequenta
a Academia da Realização, em Cedar Rapids.”
“Muito bem”, disse Jackie, voltando-se para a tela de parede. “Vamos achar a
Jennifer Batsuuri da Academia da Realização.”
O nome apareceu na tela, ao lado de uma fotografia escolar. A foto mostrava
uma menina indo-americana de uns dezesseis anos, com aparelho nos dentes e
de uniforme verde e cor de bronze. Ao lado da foto, dois contadores numéricos
estavam rodando, os números aumentaram até reduzir a velocidade e pararem: o
número de cima era 1396 e o de baixo era 179 827.
“Ora, ora. Parabéns, Jennifer!”, disse Jackie, com os olhos voltados para a
tela. Virou-se para Mae. “Parece que temos uma aluna realizada de verdade na
Academia da Realização. Alcançou a posição 1396 num universo de 179 827 alunos do ensino médio no Iowa.”
Mae viu que horas eram. Tinha de acelerar a demonstração de Jackie. “E isso
é calculado...”
“O índice de Jennifer é resultado da comparação de suas notas nas provas, sua
colocação na turma, a força acadêmica relativa de seu colégio e diversos outros
fatores.”
“O que achou disso, Jennifer?”, perguntou Mae. Olhou para o pulso, mas o
feed de Jennifer estava em silêncio.
Houve um breve momento de perplexidade enquanto Mae e Jackie
aguardavam a resposta de Jennifer, exprimindo sua alegria, mas não veio
nenhuma resposta. Mae sabia que estava na hora de ir em frente.
“E essa comparação pode ser ampliada para todos os estudantes do país e
talvez até do mundo?”, perguntou.
“Essa é a ideia”, disse Jackie. “Assim como aqui no Círculo sabemos nosso
ranking de participação, por exemplo, logo poderemos saber, em qualquer
momento, qual a posição de nossos filhos e filhas em comparação com o resto
dos alunos americanos, e depois em comparação com o resto dos alunos do
mundo.”
“Isso parece muito útil”, disse Mae. “E eliminaria um bocado de dúvida e de
estresse.”
“Bem, pense no que isso representaria na compreensão que os pais podem ter
sobre as chances de seus filhos serem admitidos numa universidade. Existem
mais ou menos doze mil vagas para calouros nas universidades mais importantes
todos os anos. Se seu filho estiver entre os doze mil mais bem colocados
nacionalmente, você pode imaginar que ele tem uma boa chance de ocupar uma
dessas vagas.”
“E será atualizado com que frequência?”
“Ah, diariamente. Assim que tivermos a participação de todas as escolas e de
todos os municípios, poderemos manter uma lista de classificação atualizada
diariamente, com os resultados de todas as provas e testes, de todos os exames
surpresa, incorporados instantaneamente. E é claro que isso pode ser
desmembrado entre ensino público e privado, por região, e as classificações
podem ser combinadas, ponderadas e analisadas para verificar tendências
segundo diversos outros fatores — socioeconômicos, raça, etnia, tudo.”
O Guia Adicional tocou um aviso no ouvido de Mae. “Pergunte sobre como
isso se combina com o TruYouth.”
“Jackie, percebo que isso se sobrepõe de um modo interessante com o
TruYouth, antes conhecido com ChildTrack, o rastreamento de crianças.” Mae
terminou a frase um segundo antes de uma onda de náusea e suor dominá-la. Não queria ver Francis. Será que não era Francis? Havia outros membros do
Círculo envolvidos no projeto. Verificou o monitor no pulso, pensando que
talvez pudesse localizá-lo rapidamente com a Busca do Círculo. Mas lá estava
ele, caminhando na direção dela.
“Aqui está Francis Garaventa”, disse Jackie, sem dar atenção ao mal-estar de
Mae, “que pode nos explicar a interseção entre o YouthRank e o TruYouth, a
qual devo dizer de saída que é algo revolucionário e necessário.”
Enquanto Francis caminhava na direção delas, com as mãos acanhadamente
nas costas, Mae e Jackie acenaram para ele. Mae sentiu o suor se acumular em
suas axilas e também percebeu que Jackie tinha por ele um sentimento maior do
que o meramente profissional. Aquele era um Francis diferente. Ainda tímido,
ainda frágil, mas com um sorriso confiante, como se tivesse acabado de ouvir
elogios e esperasse ouvir mais.
“Oi, Francis”, disse Jackie, apertando sua mão com a que não estava
engessada e virando seu ombro com um ar de flerte. Não foi algo aparente para a
câmera ou para Francis, mas para Mae aquilo foi algo sutil como um gongo.
“Oi, Jackie. Oi, Mae”, disse ele. “Posso levar vocês à minha toca?” Sorriu e,
sem esperar a resposta, virou-se e levou-as para a sala vizinha. Mae não tinha
visto seu escritório e sentiu-se num conflito ao compartilhar aquilo com seus
espectadores. Era um lugar escuro, com dúzias de telas dispostas na parede,
formando uma grade contínua de imagens.
“Portanto, como seus espectadores devem saber, estamos trabalhando num
programa pioneiro com a intenção de deixar as crianças mais seguras. Nos
estados onde testamos o programa, houve uma queda de quase noventa por cento
em todos os crimes e uma queda de cem por cento em raptos de crianças. Em
âmbito nacional, só tivemos três sequestros ao todo, e todos os casos foram
resolvidos em questão de minutos, em virtude de nossa capacidade de rastrear a
localização das crianças envolvidas.”
“É uma coisa incrível”, disse Jackie, balançando a cabeça, a voz baixa,
impregnada de algo semelhante à luxúria.
Francis sorriu para ela, distraído, ou fingindo estar distraído. O pulso de Mae
estava fervilhando com milhares de sorrisos e centenas de comentários. Os pais
residentes em estados que não tinham o YouthTrack já pensavam até em se
mudar. Francis estava sendo comparado com Moisés.
“E enquanto isso”, disse Jackie, “a equipe aqui no Pavilhão Protagoriano
trabalha para coordenar todas as avaliações dos alunos, garantir que todos os
trabalhos de casa, leituras, frequência e notas fiquem reunidos num banco de
dados unificado. Já estão quase conseguindo. Falta muito pouco para que
tenhamos, na hora em que um aluno estiver pronto para a faculdade, um conhecimento completo de tudo o que ele aprendeu. Todas as palavras que eles
leram, todas as palavras que procuraram, todas as frases que sublinharam, todas
as equações que escreveram, todas as respostas e correções. As especulações
para saber como andam todos os alunos e o que sabem serão coisas do passado.”
O pulso de Mae continuava palpitando feito louco. Onde estava isso vinte
anos atrás?, escreveu um espectador. Meus filhos teriam entrado em Yale.
Agora Francis interveio. A ideia de que ele e Jackie tinham ensaiado tudo
aquilo deixou Mae nauseada. “Agora a parte empolgante, eletrizante de tudo
isso, por sua simplicidade”, disse ele, sorrindo para Jackie com um respeito
profissional, “é que podemos armazenar toda essa informação num chip de
tamanho quase microscópico, que é usado unicamente por razões de segurança.
Mas e se o programa combinar o rastreamento da localização das crianças com o
rastreamento do desempenho escolar? E se tudo isso estiver reunido no mesmo
lugar?”
“Não é nenhum bicho de sete cabeças”, disse Jackie.
“Bem, espero que os pais encarem dessa forma. Pois as famílias que
participarem do programa terão acesso constante e em tempo real a tudo —
localização, classificação, frequência, tudo. E as informações não vão ficar em
algum aparelho portátil, que a criança pode perder. Vão ficar em nuvem e na
criança, que nunca vai se perder.”
“Perfeito”, disse Jackie.
“Bem, espero que sim”, disse Francis, olhando para os sapatos, escondendo-se
no que Mae sabia ser uma nuvem de falsa modéstia. “E como todos vocês
sabem”, disse ele, virando-se para Mae, falando para os espectadores dela, “aqui
no Círculo andamos falando muito em Completude e, embora nem mesmo nós,
do Círculo, saibamos ainda o que significa exatamente Completude, tenho a
sensação de que é algo como isso. Conectar serviços e programas que se
encontram a apenas poucos centímetros de distância um do outro. Rastreamos as
crianças por segurança, rastreamos as crianças para reunir dados educacionais.
Agora estamos apenas interligando essas duas linhas e, quando fizermos isso,
poderemos afinal conhecer a criança em seu todo. É simples e, me atrevo a dizer,
completo.”
Mae estava parada do lado de fora, no centro da parte oeste do campus, ciente
de que estava apenas fazendo hora, até o regresso de Annie. Eram 13h44, bem
mais tarde do que ela imaginava que seria sua chegada, e agora Mae estava
preocupada com a possibilidade de não encontrar Annie. Mae tinha um encontro
marcado com a dra. Villalobos às duas horas e a conversa poderia demorar
algum tempo, já que a médica tinha avisado que se tratava de algo relativamente sério — mas não grave para sua saúde, ela havia deixado isso bem claro. Porém
para expulsar os pensamentos sobre Annie e sobre a doutora, ali estava o
Francis, que de repente, de modo bizarro, pareceu atraente a Mae outra vez.
Mae sabia do truque bobo que tinha sido usado contra ela. Francis era magro,
sem tônus muscular, tinha os olhos fracos, um pronunciado problema de
ejaculação precoce, no entanto, simplesmente por ter visto o desejo nos olhos de
Jackie, Mae se viu com vontade de estar a sós com ele outra vez. Queria levá-lo
para seu quarto naquela noite. A ideia era desmiolada. Mae precisava pôr a
cabeça no lugar. Aquele parecia um momento apropriado para explicar e revelar
a escultura nova.
“Muito bem, temos de ver isto aqui”, disse Mae. “Foi feita por um renomado
artista chinês que vem tendo frequentes problemas com as autoridades chinesas.”
Naquele momento, porém, Mae não conseguiu lembrar o nome do artista.
“Enquanto estamos tratando do assunto, quero agradecer a todos os espectadores
que mandaram caras feias para o governo de lá, pela perseguição contra o artista
e pelas restrições às liberdades na internet. Só dos Estados Unidos, já mandamos
mais de cento e oitenta milhões de caras feias e podem ter certeza de que isso
produz efeito sobre o regime.”
Mae ainda não tinha conseguido lembrar o nome do artista e achava que
aquela omissão seria notada. Então apareceu em seu pulso: Diga o nome do
sujeito! E eles forneceram o nome.
Mae voltou a lente para a escultura e alguns membros do Círculo, parados
entre ela e a obra, se afastaram. “Não, não, está bem assim”, disse Mae. “Vocês
ajudam a mostrar a escala da obra. Fiquem aí”, disse, e eles voltaram na direção
do objeto, que os deixava com a estatura de anões.
A escultura tinha mais de quatro metros de altura, feita de acrílico fino e de
uma transparência perfeita. Embora a maior parte da obra anterior do artista
fosse conceitual, aquela era representacional, inconfundível: uma mão enorme,
do tamanho de um automóvel, se estendia para fora, ou através, de um grande
retângulo, que a maioria achava ser a sugestão de uma espécie de monitor de
computador.
O título da obra era Estendendo a mão pelo bem da humanidade e tinha
chamado a atenção imediatamente, quando de sua apresentação, por sua
seriedade, algo anômalo às obras típicas do artista, que tinham um toque
sarcástico sombrio, em geral contra a China emergente e seu respectivo
sentimento de amor-próprio.
“Essa escultura está atingindo em cheio o coração dos membros do Círculo”,
disse Mae. “Já ouvi falar de gente que chora na frente dela. Como podem ver, as
pessoas gostam de tirar fotos.” Mae tinha visto membros do Círculo fazendo pose na frente da mão gigante, como se ela estivesse estendida para elas, prestes
a tomá-las, elevá-las. Mae resolveu entrevistar as duas pessoas que estavam
paradas perto dos dedos estendidos da escultura.
“Quem é você?”
“Gino. Trabalho na Idade da Máquina.”
“E o que essa escultura significa para você?”
“Bem, não sou um especialista em arte, mas acho que o significado é bastante
óbvio. Ele está tentando dizer que precisamos de mais maneiras de alcançar o
outro lado da tela, não é?”
Mae estava concordando com a cabeça porque aquele era o sentido claro para
todos no campus, porém ela achou que podia perfeitamente ser dito diante da
câmera, para qualquer pessoa menos afeita à interpretação de obras de arte. Os
esforços para entrar em contato com o artista depois da instalação da escultura
tinham sido infrutíferos. Bailey, que havia patrocinado a obra, disse que não
tinha boa mão — “vocês me conhecem e conhecem meus trocadilhos” — nesses
assuntos ou em sua execução. Mas Bailey ficou empolgado com o resultado e
queria muito que o artista viesse ao campus para falar sobre a escultura, porém o
artista respondeu que não podia comparecer pessoalmente, nem mesmo por
teleconferência. Preferia deixar que a escultura falasse por si, respondeu. Mae
virou-se para a mulher ao lado de Gino.
“Quem é você?”
“Rinku. Também sou da Idade da Máquina.”
“Concorda com o Gino?”
“Concordo. Quero dizer, me dá a sensação de uma coisa muito comovente.
Assim, entende, como precisamos descobrir mais meios de nos conectarmos. A
tela aqui é uma barreira, e a mão está transcendendo essa barreira...”
Mae assentia, pensando que precisava dar um fecho àquele assunto, quando
viu, através do pulso translúcido da mão gigante, uma pessoa parecida com
Annie. Era uma jovem loura, mais ou menos da altura de Annie, do porte de
Annie, que caminhava ligeiro pelo largo. Rinku ainda estava falando, tinha se
empolgado.
“Quero dizer, como o Círculo pode encontrar meios de estabelecer uma
conexão mais forte entre nós e nossos usuários? Para mim, é incrível que esse
artista, tão distante e de um mundo tão diferente, tenha exprimido o que está no
pensamento de todos nós aqui no Círculo. Como melhorar, ir mais longe,
entende? Como podemos estender nossas mãos através da tela para nos
aproximarmos do mundo e de todos que estão nele?”
Mae estava observando a figura semelhante a Annie caminhar na direção da
Revolução Industrial. Quando a porta se abriu e Annie, ou a gêmea de Annie, entrou ali, Mae sorriu para Rinku, agradeceu a ela e a Gino e viu que horas eram.
Eram 13h49. Tinha de encontrar a dra. Villalobos dali a onze minutos.
“Annie!”
A figura continuou a andar. Mae se viu dividida entre gritar com força, algo
que em geral perturbava os espectadores, ou correr atrás dela, o que fazia a
câmera sacudir com violência — o que também perturbava os espectadores.
Optou por adotar uma espécie de caminhada ligeira, enquanto segurava a câmera
contra o peito. Annie dobrou outra esquina e depois sumiu. Mae ouviu o estalo
da fechadura da porta, uma porta que dava para uma escada, e correu para lá. Se
não conhecesse sua amiga, pensaria que Annie a estava evitando.
Quando Mae chegou à escada, olhou para cima, viu a mão de Annie, bem
nítida, e gritou: “Annie!”.
Agora a figura parou. Era mesmo Annie. Virou-se, lentamente desceu a
escada e, quando viu Mae, deu um sorriso experiente e cansado. Abraçaram-se.
Mae sabia que qualquer abraço sempre oferecia aos espectadores um momento
quase cômico e às vezes sutilmente erótico, enquanto o corpo da pessoa que a
abraçava avançava para a lente da câmera e, por fim, a sujeitava.
Annie recuou, olhou para baixo, na direção da câmera, pôs a língua para fora e
ergueu os olhos para Mae.
“Oi, pessoal”, disse Mae, “esta aqui é Annie. Vocês já ouviram falar dela,
membro da Gangue dos 40, percorre o mundo inteiro para lá e para cá, um lindo
colosso e minha amiga pessoal. Fala um alô, Annie.”
“Alô”, disse Annie.
“Como foi a viagem?”, perguntou Mae.
Annie sorriu, embora Mae pudesse perceber, por causa de uma rapidíssima
careta, que Annie não estava gostando nada daquilo. Mas ela conseguiu conjurar
uma máscara feliz e usou-a. “Foi ótima”, disse ela.
“Alguma coisa que você gostaria de compartilhar? Como foram as coisas lá
em Genebra?”
O sorriso de Annie murchou.
“Ah, sabe, não devemos conversar muito sobre esse assunto, uma vez que tem
tanto de...”
Mae assentiu, deixando claro que ela entendia. “Desculpe. Estava só falando
de Genebra como um lugar. É bonito?”
“Claro”, respondeu Annie. “Magnífico. Vi os Von Trapp e eles arranjaram
roupas novas. Também feitas de cortinas.”
Mae olhou para seu pulso. Tinha nove minutos antes de encontrar a dra.
Villalobos.
“Mais alguma coisa que você gostaria de dizer?”
“O que mais?”, disse Annie. “Deixe-me pensar...”
Annie inclinou a cabeça, como que surpresa, e ligeiramente incomodada, por
aquele encontro de mentira estar se prolongando. Mas então lhe veio uma ideia,
como se finalmente estivesse entendendo o que estava acontecendo — que ela
estava sendo filmada pela câmera e tinha de assumir seu papel de porta-voz da
empresa.
“Muito bem, há mais um programa bem legal que estamos bolando faz um
tempo, um sistema chamado PastPerfect. E na Alemanha enfrentei sérios
obstáculos para ajudar a ideia a ir para a frente. No momento, estamos à procura
do voluntário certo aqui no Círculo para experimentar o projeto, e quando
encontrarmos essa pessoa, vai ser o início de uma nova era para o Círculo e, sem
querer ser muito dramática, para a humanidade.”
“Não há nada de dramático!”, disse Mae. “Pode nos dizer algo mais sobre
isso?”
“Claro, Mae. Obrigada por perguntar”, disse Annie, baixando os olhos
rapidamente para os sapatos, antes de erguê-los de novo para Mae, com um
sorriso profissional. “Posso dizer que a ideia básica é reunir as forças do Círculo
e mapear não só o presente como também o passado. Neste momento, estamos
digitalizando todas as fotos, todos os cinejornais, todos os vídeos amadores em
todos os arquivos neste país e na Europa — quero dizer, pelo menos estamos
fazendo todo o possível para isso. A tarefa é hercúlea, porém, uma vez que
tenhamos a massa crítica, e com os progressos na técnica de reconhecimento
facial, poderemos, assim esperamos, identificar quase todo mundo em todas as
fotografias e em todos os vídeos. Você quer achar todas as fotos de seus
bisavós? Poderemos tornar o arquivo acessível e você poderá — assim
esperamos, é nossa aposta — adquirir uma compreensão melhor sobre eles.
Talvez você os localize no meio de uma multidão em 1912, na Feira Mundial.
Talvez encontre vídeos de seus pais numa partida de beisebol em 1974. A
esperança, no final, é completar as lacunas de sua memória e do registro
histórico como um todo. E com a ajuda do DNA e de programas genealógicos
muito mais aprimorados, dentro de um ano esperamos que todo mundo possa ter
acesso a todas as informações sobre sua linhagem familiar, todas as imagens,
todos os vídeos e filmes, só com um pedido de busca.”
“E imagino que quando todo mundo se integrar ao programa, quer dizer, os
participantes do Círculo, as lacunas serão rapidamente preenchidas.” Mae sorriu,
seus olhos diziam para Annie que ela estava se saindo esplendidamente.
“Isso mesmo, Mae”, respondeu Annie, com sua voz cortando o espaço entre
as duas. “A exemplo de qualquer projeto na internet, a maior parte da
completude será cumprida pela comunidade digital. Estamos reunindo nossos próprios milhões de fotos e vídeos, mas o resto do mundo irá fornecer outros
bilhões. Esperamos que, mesmo com uma participação parcial, venhamos a ter
condições de preencher facilmente todas as lacunas históricas. Se você estiver
procurando por todos os moradores de determinado prédio na Polônia por volta
de 1913, e notar que um está faltando, em pouco tempo será possível fazer uma
triangulação e localizar essa última pessoa por meio do cruzamento de
referências de todos os demais dados que vamos obter.”
“Sensacional.”
“É mesmo”, disse Annie, e teve um lampejo da parte branca dos olhos,
indicando que Mae devia concluir aquilo rapidamente.
“Mas você ainda não tem o cobaia, não é?”, perguntou Mae.
“Ainda não. Para a primeira pessoa, estamos em busca de alguém cuja família
remonte a um passado bem distante nos Estados Unidos. Apenas porque
sabemos que aqui temos um acesso mais completo a registros do que em alguns
outros países.”
“E isso faz parte do plano do Círculo de completar tudo ainda este ano? Isso
continua dentro da programação?”
“Sim. O PastPerfect está quase pronto para ser usado. E, como todos os outros
aspectos da Completude, parece que será no início do ano que vem. Oito meses e
teremos terminado. Mas nunca se sabe: do jeito que vão as coisas, com a ajuda
de tantos colaboradores do Círculo, talvez possamos concluir antes do prazo.”
Mae sorriu, assentindo. Ela e Annie compartilharam um momento demorado e
tenso, quando os olhos de Annie perguntaram outra vez quanto tempo mais
teriam de prosseguir com aquele diálogo semiencenado.
Do lado de fora, o sol rompia as nuvens e a luz através da janela incidia no
rosto de Annie. Mae viu, então, pela primeira vez, como ela parecia velha. Tinha
o rosto repuxado, a pele empalidecida. Annie ainda não tinha vinte e sete anos,
mas havia bolsas embaixo de seus olhos. Sob aquela luz, ela parecia ter
envelhecido cinco anos nos últimos dois meses.
Annie segurou a mão de Mae e fincou as unhas na palma da mão dela, só o
bastante para chamar sua atenção. “Preciso ir ao banheiro, agora. Quer ir
comigo?”
“Claro. Também estou precisando.”
Embora a transparência de Mae fosse completa e ela não pudesse desligar o
fluxo de áudio e de vídeo em nenhum momento, havia algumas poucas exceções,
que Bailey fez questão de incluir. Uma delas era durante o uso do banheiro, ou
pelo menos durante o uso da privada. O vídeo devia permanecer ligado, porque,
insistiu Bailey, a câmera ficaria voltada para a porta da cabine da privada,
portanto não tinha nenhuma importância. Mas o áudio seria desligado, poupando Mae e o público dos sons.
Mae entrou na cabine da privada, Annie entrou na cabine contígua e Mae
desativou o áudio. A regra era que ela teria até três minutos de silêncio; mais do
que isso provocaria estranheza em seus espectadores e também nos membros do
Círculo.
“Então, como vai?”, perguntou Mae. Não podia ver Annie, só os dedos dos
pés, que pareciam estropiados e carentes da atenção de uma pedicure. Estavam
visíveis por baixo da porta.
“Ótima. Ótima. E você?”
“Vou bem.”
“Puxa, você tem mesmo de estar bem”, disse Annie. “Você está matando a
pau!”
“Acha mesmo?”
“Qual é? Falsa modéstia não tem espaço aqui. Você devia estar
entusiasmada.”
“Está certo. Estou sim.”
“Quero dizer, aqui você é que nem um meteoro. É uma loucura. As pessoas
me procuram para conseguir chegar a você. É uma coisa... doida.”
Na voz de Annie, havia se insinuado algo que Mae identificou como inveja ou
algo parecido. Mae deu uma passada rápida numa série de opções do que podia
dizer em resposta. Nada servia. Eu não conseguiria nada sem você não ia
funcionar; parecia autoengrandecedor e tinha um toque de superioridade. No
fim, Mae achou melhor simplesmente mudar de assunto.
“Desculpe ter feito perguntas cretinas lá fora”, disse Mae.
“Tudo bem. Mas você me deixou num aperto.”
“Eu sei. É que... vi você passando e queria ficar um pouco com você. E eu não
sabia o que mais perguntar. Mas você está bem mesmo? Parece esgotada.”
“Obrigada, Mae. Você sabe como eu gosto de ouvir que estou com uma cara
péssima logo depois de ter aparecido em frente de seus milhões de espectadores.
Obrigada. Você é muito gentil.”
“Estou preocupada. Tem dormido direito?”
“Não sei. Talvez eu esteja com meus horários atrapalhados. É a confusão de
fusos.”
“Posso fazer alguma coisa? Vamos jantar juntas.”
“Jantar com você? Com sua câmera e eu com esse aspecto horrível? Parece
maravilhoso, mas não vou.”
“Deixe-me fazer alguma coisa por você.”
“Não, não. Só preciso retomar meu trabalho.”
“Alguma coisa interessante?”
“Ah, você sabe, o de sempre.”
“A questão regulatória andou bem? Eles puseram muita responsabilidade nas
suas costas, fiquei preocupada.”
Um arrepio percorreu a voz de Annie. “Bem, não há motivo para se
preocupar. Faço isso já tem um bocado de tempo.”
“Não quis dizer que fiquei preocupada nesse sentido.”
“Bem, não fique preocupada em nenhum sentido.”
“Sei que você consegue dar conta do recado.”
“Obrigada! Mae, sua confiança em mim será o vento que enfuna minhas
velas.”
Mae achou melhor ignorar o sarcasmo. “Então, quando é que vamos nos
encontrar?”
“Logo. Vamos fazer alguma coisa.”
“Hoje à noite? Por favor.”
“Hoje à noite, não. Vou me jogar na cama e me refazer para amanhã. Tenho
muito trabalho. Há todas as novas tarefas relativas à Completude e...”
“A Completude do Círculo?”
Houve uma pausa demorada, durante a qual Mae teve certeza de que Annie
estava saboreando aquela novidade, que Mae ignorava.
“Sim. Bailey não lhe contou?”, disse Annie. Uma espécie de música irritante
surgiu na sua voz.
“Não sei”, disse Mae, o coração martelando. “Talvez tenha contado.”
“Pois é, agora eles estão se sentindo muito próximos disso. Eu estava no
exterior removendo algumas das últimas barreiras. Os Sábios acham que
chegaram aos poucos obstáculos que restam.”
“Ah. Acho que devo ter ouvido falar disso sim”, respondeu Mae, ouvindo a
própria voz, notando como ela soava insignificante. Mas ela estava com inveja.
Claro que sim. Por que ela devia ter acesso às informações a que Annie tinha
acesso? Mae sabia que não tinha direito àquilo, porém mesmo assim queria ter e
sentia que estava mais perto de tais informações do que indicava aquela situação,
saber do assunto por intermédio de Annie, que andara fora, rodando o mundo,
por três semanas. A omissão a enviava de volta para algum recanto infame do
Círculo, algum ponto plebeu, como ser um porta-voz, um mero animador de
auditório.
“Então tem certeza de que não posso fazer nada por você? Talvez algum tipo
de máscara de argila para melhorar as bolsas embaixo dos olhos?” Mae sentiu
ódio de si mesma por dizer aquilo, mas naquele momento deu uma sensação boa,
como coçar com força um ponto da pele com comichão.
Annie pigarreou. “Você é muito gentil”, respondeu. “Mas eu tenho de ir embora.”
“Tem certeza?”
“Mae. Não quero parecer rude, mas a melhor coisa para mim neste momento é
voltar para minha mesa para poder retomar meu trabalho.”
“Está bem.”
“Não estou falando isso de maneira rude. Preciso de fato pôr meus trabalhos
em dia.”
“Eu sei, entendi. Tudo bem. A gente vai se ver amanhã, de todo jeito. Na
reunião no Reino do Conceito.”
“O quê?”
“Vai ter uma reunião no Reino do...”
“Não. Eu sei o que é. Mas você vai lá?”
“Vou. Bailey acha que eu devo ir.”
“E vai transmitir tudo?”
“Claro. Isso é algum problema?”
“Não. Não”, disse Annie, nitidamente retardando a resposta, assimilando a
informação. “Só que fiquei surpresa. Essas reuniões são cheias de questões
delicadas de propriedade intelectual. Talvez ele queira que você assista ao início
ou algo assim. Não consigo imaginar...”
Annie deu descarga em sua privada e Mae viu que ela havia levantado.
“Vai embora?”
“Vou. Estou tão atrasada que agora quero vomitar.”
“Tudo bem. Não vomite.”
Annie foi depressa para a porta e saiu.
Mae tinha quatro minutos para chegar à dra. Villalobos. Levantou-se, religou
o áudio e saiu do banheiro.
Em seguida voltou, desligou o áudio, sentou-se na mesma privada e se deu um
minuto para se refazer. Que as pessoas pensem que ela está com prisão de
ventre, não importa. Tinha certeza de que Annie estava chorando, àquela altura,
onde quer que estivesse. Mae estava soluçando de choro, maldizendo Annie,
maldizendo cada centímetro de seu cabelo louro, seu orgulhoso sentimento de
superioridade. O que importava se ela estava trabalhando no Círculo havia mais
tempo? Agora as duas eram iguais, só que Annie não conseguia aceitar aquilo.
Mae tinha de dar um jeito de Annie reconhecer aquilo.
Eram 14h02 quando ela chegou.
“Oi, Mae”, disse a dra. Villalobos, cumprimentando-a na sala de espera da
clínica. “Vejo que seu batimento cardíaco está normal e imagino que, com a
corrida que deu para chegar aqui, todos os seus espectadores também estejam recebendo dados interessantes. Vamos, entre.”
Em retrospecto, não deveria ser nenhuma surpresa o fato de a dra. Villalobos
ter se tornado também uma das atrações preferidas dos espectadores. Com suas
curvas extravagantes, seus olhos ardentes e sua voz melodiosa, ela representava
uma imagem vulcânica. Era a médica que todo mundo, sobretudo homens
heterossexuais, gostaria de ter. Embora o TruYou tornasse quase impossíveis os
comentários obscenos para qualquer pessoa que quisesse manter seu emprego ou
seu casamento, a dra. Villalobos suscitava uma espécie de admiração gentil, mas
bastante reveladora. Que maravilha ver a boa médica!, escreveu um homem,
quando Mae entrou no consultório. Vamos começar logo o exame médico, disse
outra alma, mais corajosa. E a dra. Villalobos, ao mesmo tempo que ostentava
um ágil profissionalismo, também parecia apreciar aquilo. Hoje, estava usando
uma blusa fechada com zíper, que deixava à mostra uma parte de seu peito
amplo, que a uma distância apropriada parecia decente, porém visto pela câmera
de Mae tinha algo de obsceno.
“Então seus sinais vitais parecem estar bem”, disse para Mae.
Mae estava sentada na mesa de exame, a doutora de pé à sua frente. Olhando
para o pulso, Mae procurou a imagem que seus espectadores estavam recebendo
e se deu conta de que os homens ficariam satisfeitos. Como se percebesse que a
imagem podia estar ficando provocadora demais, a dra. Villalobos virou-se para
a parede de monitores. Ali eram exibidos algumas centenas de dados.
“Sua contagem de passos podia estar melhor”, disse ela. “Você está com uma
média de apenas 5300, quando devia estar com dez mil. Uma pessoa da sua
idade, sobretudo, devia estar com um índice médio mais alto do que esse.”
“Eu sei”, respondeu Mae. “Ando muito ocupada ultimamente.”
“Tudo bem. Mas vamos aumentar o número de passos. Promete? Agora, como
estamos falando para todos os seus espectadores, eu gostaria de elogiar o
programa abrangente que processa seus dados de saúde, Mae. É chamado de
Programa Dados de Saúde Completos, ou CHAD, que é sua sigla em inglês.
Chad é o nome de um ex-namorado meu, e, Chad, se você estiver nos vendo
agora, não foi em sua homenagem que dei esse nome ao programa.”
O pulso de Mae enlouqueceu de tantas mensagens. Chad, seu burro.
“Por meio do CHAD, obtemos dados em tempo real de todo mundo no
Círculo. Mae, você e os novatos foram os primeiros a obter os novos braceletes,
mas de lá para cá equipamos todo mundo no Círculo com eles. E isso nos
permitiu obter dados exatos e completos de todas as onze mil pessoas que
trabalham aqui. Já imaginou? A primeira vantagem foi que, quando a gripe
chegou ao campus na semana passada, ficamos sabendo em minutos quem a
trouxe para cá. Mandamos a mulher para casa e ninguém foi contaminado. E se pudéssemos evitar que as pessoas trouxessem germes para o campus? Se elas
nunca saíssem daqui e não se sujassem lá fora, então tudo estaria resolvido. Mas
deixe-me descer do meu palanque e me concentrar em você, Mae.”
“Contanto que as notícias sejam boas”, disse Mae, e tentou sorrir. Mas ela
estava inquieta e queria terminar logo aquilo tudo.
“Bem, acho que a notícia é boa”, disse a doutora. “Veio de um espectador na
Escócia. Ele está acompanhando seus órgãos vitais, fez um cruzamento com seus
marcadores de DNA e se deu conta de que, da maneira como você anda
comendo, sobretudo nitratos, vai aumentar sua propensão para ter câncer.”
“Meu Deus. É verdade? Essa é a má notícia pela qual tive de vir aqui?”
“Não, não! Não se preocupe. É fácil resolver isso. Você não tem câncer e
provavelmente não terá. Mas sabe que tem um marcador para câncer
gastrointestinal, só um risco aumentado, e esse pesquisador em Glasgow, que
vem acompanhando seus dados de saúde, viu que você come salame e outras
carnes com nitrato que podem incliná-la para uma mutação celular.”
“Você continua me assustando.”
“Ah, meu Deus, desculpe! Não é minha intenção. Mas ainda bem que ele está
acompanhando tudo isso. Quer dizer, nós também estamos, e estamos nos
aprimorando cada vez mais em nossas observações. No entanto, a beleza de ter
tantos amigos no mundo, como você tem, é que um deles, a oito mil quilômetros
daqui, ajudou você a evitar um risco crescente.”
“Portanto, chega de nitratos.”
“Certo. Vamos deixar os nitratos de lado. Mandei um zing para você com uma
lista de alimentos que contêm nitratos e seus espectadores também podem ver.
Eles devem sempre ser ingeridos com moderação, mas devem ser evitados por
completo se existe algum histórico de risco de câncer. Espero que você transmita
essa informação a seus pais, caso eles não vejam isso no zing deles mesmos.”
“Ah, tenho certeza de que viram, sim”, disse Mae.