O Círculo

Dave Eggers · Capítulo 1 de 2 · parte 3/7

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O Círculo

Livro II

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

“Muito bem, e agora as notícias não muito boas. Não é a respeito de sua

saúde. É sobre seus pais. Eles estão bem, mas quero lhe mostrar uma coisa.” A

doutora mostrou a imagem das câmeras SeeChange na casa dos pais de Mae, que

um mês antes haviam sido instaladas para o tratamento de seu pai. A equipe

médica do Círculo estava muito interessada no caso do pai de Mae e queria o

maior número de dados que pudesse obter. “Você encontrou alguma coisa

errada?”

Mae observou a tela. Onde dezesseis imagens deviam estar visíveis, havia

doze em branco. “Só tem quatro funcionando”, disse ela.

“Isso mesmo”, disse a médica.

Mae observou as quatro imagens em busca de sinais de seus pais. Não viu nenhum. “Os técnicos foram consertar?”

“Não é necessário. Nós vimos o que eles fizeram. Em cada uma, colaram

alguma coisa em cima. Talvez um pano ou uma fita adesiva. Você sabia disso?”

“Não sabia. Lamento muito. Eles não deviam ter feito isso.”

Instintivamente, Mae conferiu o número de espectadores: 1 298 001. O

número sempre aumentava durante as consultas com a dra. Villalobos. Agora

todas aquelas pessoas sabiam. Mae sentiu seu rosto ficar vermelho.

“Teve notícias de seus pais recentemente?”, perguntou a dra. Villalobos.

“Nossos registros mostram que não. Mas talvez...”

“Não nos últimos dias”, disse Mae. Na verdade, fazia mais de uma semana

que não entrava em contato com os pais. Tentou telefonar, mas sem sucesso.

Tinha mandado zings, porém não recebera nenhuma resposta.

“Gostaria de fazer uma visita a eles?”, perguntou a doutora. “Como sabe, é

difícil oferecer cuidados médicos quando não se tem informações.”

 

* * *

 

Mae estava indo de carro para a casa dos pais, depois de sair do trabalho às

cinco horas — algo que ela não fazia em semanas —, e pensava nos pais, em que

tipo de loucura teria dado neles, e estava preocupada com a possibilidade de a

loucura de Mercer ter, de algum modo, os contaminado. Como se atreveram a

desligar as câmeras? Depois de tudo o que ela havia feito para ajudá-los, depois

de tudo o que Círculo havia feito para contornar todas as regras e ajudá-los! E o

que Annie ia dizer?

Dane-se a Annie, pensou Mae enquanto dirigia o carro. O ar ficava mais

quente à medida que aumentava a distância entre ela e o Pacífico. Mae tinha

fixado a lente da câmera no painel do carro, inserindo-a no pequeno suporte

colocado ali para os momentos em que ela ficasse no carro. Aquela

debutantezinha de merda. Era um mau momento. Annie provavelmente

encontraria um meio de usar aquilo em vantagem própria. Bem na hora em que

sua inveja de Mae estava crescendo — e era isso mesmo, estava bastante óbvio

—, ela podia empurrar Mae para baixo outra vez. Mae e sua cidadezinha de

nada, seus pais donos de estacionamento que não conseguiam manter suas

câmeras ligadas, que não conseguiam se manter saudáveis. Que ganharam um

presente monumental, um seguro-saúde de primeira classe, de graça, e o usavam

mal. Mae sabia o que Annie estava pensando dentro de sua cabecinha loura e

superior: Não se deve ajudar certo tipo de gente.

A linhagem familiar de Annie remontava ao navio Mayflower, seus ancestrais

colonizaram este país e os ancestrais deles, por sua vez, foram donos de uma

larga faixa do território da Inglaterra. Tinham sangue azul desde muitas e muitas gerações, pelo visto desde a invenção da roda. Na verdade, se alguém havia de

fato inventado a roda, só poderia ser uma pessoa da linhagem de Annie. Faria

todo sentido do mundo e não seria surpresa para ninguém.

Mae tinha descoberto tudo aquilo numa festa do dia de Ação de Graças na

casa de Annie, com vinte e tantos parentes reunidos, todos com seus narizes

afilados, sua pele rosada, seus olhos fracos escondidos atrás de quarenta lentes,

quando ela veio a saber, durante uma conversa devidamente discreta, que dizia

respeito a assuntos da própria família — pois a família de Annie inteira tinha

pouca disposição de falar demais sobre sua linhagem ou dar muita importância

ao assunto —, que algum parente distante tinha estado presente à primeira

comemoração do Dia de Ação de Graças na história.

“Ah, meu Deus, quem é que está ligando para isso?”, exclamou a mãe de

Annie, quando Mae insistiu, querendo saber de mais detalhes sobre o assunto.

“Algum cara ao acaso entrou num barco. Provavelmente estava devendo

dinheiro em toda a antiga pátria.”

E deram andamento ao jantar. Mais tarde, por insistência de Mae, Annie lhe

mostrou alguns documentos, papéis velhos e amarelados que forneciam detalhes

sobre a história da família, uma linda pasta preta cheia de genealogias, artigos

universitários, fotos de homens velhos e soturnos, com suíças extravagantes,

parados perto de cabanas toscas.

Noutras visitas à casa de Annie, sua família foi igualmente generosa, modesta

e desatenta ao próprio nome. Mas quando a irmã de Annie casou e a família se

ampliou, Mae viu um lado diferente. Ela estava sentada à mesa, perto de homens

e mulheres solteiros, na maioria primos de Annie, e ao lado da tia dela. Era uma

mulher magra, forte, de quarenta e poucos anos, de traços parecidos com os de

Annie, porém combinados de modo a produzir um efeito inferior. Tinha se

divorciado pouco antes, deixara um homem “abaixo da minha posição”, disse

ela, com fingida arrogância.

“E você conhece a Annie de...?” Era a primeira vez que se dirigia inteiramente

a Mae, após vinte minutos de jantar.

“Da faculdade. Éramos colegas de dormitório.”

“Pensei que a colega de dormitório dela fosse uma paquistanesa.”

“Isso foi no primeiro ano.”

“E você acabou levando a melhor. De onde você é?”

“Do meio da Califórnia, Central Valley. Uma cidadezinha de que ninguém

ouviu falar. Mais ou menos perto de Fresno.”

Mae dirigia o carro enquanto lembrava tudo aquilo, uma parte injetava uma

dor nova dentro dela, algo ainda úmido e cru.

“Puxa, Fresno!”, exclamou a tia, fingindo sorrir. “Faz tanto tempo que não escuto essa palavra, graças a Deus.” Tomou um gole do seu copo de gim-tônica

e olhou de relance para a festa de casamento. “O importante é que você saiu de

lá. Sei que boas faculdades procuram gente feito você. É provavelmente por isso

que não entrei onde eu queria entrar. Não deixe que ninguém lhe diga que ser de

Exeter ajuda. Há tantas vagas de cotas para serem preenchidas com gente do

Paquistão e de Fresno, não é?”

 

Na primeira vez que foi para casa na condição de transparente, Mae tivera

uma experiência reveladora que havia reforçado sua fé na humanidade. Passara

uma noite normal com os pais, fizeram o jantar, comeram e, enquanto isso,

conversaram sobre as diferenças no tratamento do pai antes e depois de terem se

transferido para o seguro-saúde do Círculo. Os espectadores viam tanto os

triunfos do tratamento do pai de Mae — ele parecia vibrante e se movia com

facilidade pela casa toda — como também o tributo que a doença cobrava dele.

Caiu desajeitado, enquanto tentava subir a escada, e logo depois chegou uma

enxurrada de mensagens de espectadores preocupados, seguida de milhares de

sorrisos vindos do mundo inteiro. As pessoas sugeriam novas combinações de

medicamentos, novas fisioterapias, novos médicos, tratamentos experimentais,

medicina oriental, Jesus. Centenas de igrejas o incluíram entre suas preces

semanais. Os pais de Mae tinham confiança em seus médicos e a maioria dos

espectadores podia ver que os cuidados que o pai de Mae recebia eram

excepcionais; portanto, mais importantes e abundantes do que os comentários

médicos eram aqueles que simplesmente o incentivavam e davam força para a

família. Mae chorou ao ler as mensagens; era um dilúvio de amor. As pessoas

compartilhavam suas próprias histórias, muita gente vivia com pessoas que

sofriam de esclerose múltipla. Outros falaram de suas próprias dificuldades —

viver com osteoporose, com paralisia de Bell, com a doença de Crohn. Mae

vinha repassando as mensagens para seus pais, mas depois de alguns dias

decidiu tornar público o e-mail deles e seu endereço de correio, assim os pais

poderiam ser eles mesmos fortalecidos e inspirados por aquela efusão,

diariamente.

Dessa vez, a segunda que ia para a casa deles, Mae sabia, seria ainda melhor.

Depois que tratasse da questão das câmeras, que ela esperava ter sido uma

espécie de mal-entendido, Mae planejava proporcionar a todos que haviam dado

seu apoio a chance de ver seus pais de novo, bem como dar aos pais a chance de

agradecer a todos que haviam mandado sorrisos e apoio.

Mae encontrou os dois na cozinha, cortando legumes.

“Como vão vocês?”, perguntou Mae, enquanto os forçava a dar um abraço a

três. O pai e a mãe cheiravam a cebola.

“Você está tão carinhosa hoje, Mae!”, disse o pai.

“Há, há!”, disse Mae e tentou indicar, por meio de um movimento das

pálpebras, que eles não deviam dar a entender que ela algum dia tinha sido

menos carinhosa.

Como que lembrando que estavam diante de uma câmera e que a filha agora

era uma pessoa mais visível e mais importante, seus pais adaptaram seu

comportamento. Fizeram lasanha e Mae adicionou alguns ingredientes que o

Guia Adicional pedira para ela trazer e mostrar para os espectadores. Quando o

jantar ficou pronto e Mae tinha dado à câmera um tempo adequado para

focalizar os produtos, todos sentaram.

“Então os caras da equipe médica estão um pouco preocupados porque

algumas das suas câmeras não estão funcionando”, disse Mae, avançando de

leve.

“É mesmo?”, disse o pai, sorrindo. “Talvez tenhamos de verificar a bateria

delas, não é?” Ele piscou para a mãe dela.

“Vocês...”, disse Mae, sabendo que tinha de formular aquela afirmação de

maneira bem clara e que aquele era o momento crucial, para a saúde deles e para

o sistema geral de armazenamento de dados que o Círculo estava tentando

viabilizar. “Como alguém pode lhes proporcionar um cuidado médico adequado

se vocês não permitem que eles vejam como andam as coisas? É como ir ao

médico e não deixar que ele tome o nosso pulso.”

“É um argumento muito bom”, respondeu o pai. “Acho que devemos comer.”

“Vamos consertar as câmeras logo”, disse a mãe, e assim teve início o que foi

uma noite muito estranha, durante a qual os pais de Mae concordaram

prontamente com todos os argumentos de Mae a respeito da transparência,

fizeram que sim com a cabeça, energicamente, quando ela falou sobre a

necessidade de todo mundo estar no mesmo barco, a consequência para as

vacinas, o fato de que elas só funcionavam com a adesão plena de todo mundo.

Eles concordaram enfaticamente com tudo, elogiaram Mae repetidas vezes por

seu poder de persuasão e de lógica. Foi estranho; eles se mostraram cooperativos

até demais.

Sentaram-se à mesa para comer e Mae fez algo que ela nunca antes fizera e

que torceu para os pais não estragarem, reagindo como se fosse algo fora do

comum: ela ergueu um brinde.

“Vamos brindar a vocês dois”, disse ela. “E já que estamos no embalo, vamos

brindar a todos os milhares de pessoas que estenderam a mão e deram uma força

para vocês, na última vez que estive aqui.”

Os pais deram um sorriso duro e ergueram os copos. Comeram por alguns

momentos. Depois de ter mastigado com cuidado e engolido sua primeira garfada, sua mãe sorriu e olhou diretamente para a lente — algo que Mae lhes

dissera muitas vezes para não fazer.

“Bem, nós recebemos um monte de mensagens, é verdade”, disse a mãe.

O pai de Mae acrescentou: “Sua mãe tem examinado as mensagens e

conseguimos diminuir a pilha um pouquinho todos os dias. Mas é um bocado de

trabalho, posso lhe garantir”.

A mãe colocou a mão sobre o braço de Mae. “Não que não sejamos gratos,

somos sim. Sem dúvida. Só quero que fique registrado que peço desculpa a

todos por nossa lentidão para responder todas as mensagens.”

“Recebemos milhares”, disse o pai, mexendo na sua salada.

A mãe deu um sorriso duro. “E, mais uma vez, somos gratos pelo apoio. Mas

mesmo que gastemos só um minuto para cada resposta, serão milhares de

minutos. Pense só: dezesseis horas só para uma resposta básica para as

mensagens! Ah, meu Deus, agora parece que sou uma ingrata.”

Mae ficou satisfeita pela mãe ter falado aquilo, porque eles de fato pareciam

ingratos. Estavam reclamando do fato de as pessoas se preocuparem com eles. E

bem na hora em que Mae achou que a mãe ia se desdizer, ia incentivar o envio

de mais votos de boa saúde, o pai falou e piorou ainda mais a situação. A

exemplo da mãe, falou olhando diretamente para a lente.

“Mas pedimos de fato a vocês, de agora em diante, que apenas mandem seus

votos de boa saúde pelo ar. Ou, se rezarem, rezem por nós e pronto. Não há

necessidade de pôr isso numa mensagem. É só...” E fechou os olhos e apertou-os

com força: “Mande seu apoio, suas boas vibrações, em nossa direção. Não é

preciso mandar e-mail ou zing nem nada. Só bons pensamentos. Mande pelo ar.

É só o que pedimos”.

“Acho que vocês querem dizer”, interveio Mae, tentando manter a calma,

“que vão apenas demorar um pouco a responder todas as mensagens. Mas que

um dia vão dar conta de todas.”

O pai não hesitou. “Bem, não posso dizer isso, Mae. Não quero prometer isso.

Na verdade, é uma coisa muito estressante. E já vimos muita gente ficar zangada

por não receber uma resposta nossa depois de determinado tempo. Mandam uma

mensagem, depois mandam mais dez, no mesmo dia. ‘Será que falei alguma

coisa errada?’ ‘Desculpe.’ ‘Só queria ajudar.’ ‘Vão para o inferno.’ E ficam

tendo aquelas conversas neuróticas entre eles mesmos. Então não quero me

envolver no tipo de troca imediata e neurótica de mensagens que a maioria de

seus amigos parecem exigir.”

“Pai. Pare. Está dizendo coisas horríveis.”

A mãe inclinou-se para a frente. “Mae, seu pai está apenas tentando dizer que

nossas vidas já estão muito sobrecarregadas, ficamos sobrecarregados só trabalhando, pagando as contas e cuidado das questões de saúde. Se tivermos de

trabalhar mais dezesseis horas, isso vai nos deixar numa situação insustentável.

Entende do que estamos falando? Digo isso, mais uma vez, com todo o devido

respeito e gratidão a todos que nos deram seu apoio.”

Depois do jantar, os pais de Mae quiseram ver um filme e assistiram a Instinto

selvagem, por insistência do pai. Tinha visto aquele filme mais vezes do que

qualquer outro, sempre citando as referências a Hitchcock, as muitas

homenagens geniais — embora, na verdade, ele nunca tivesse deixado claro seu

amor por Hitchcock. Fazia muito tempo que Mae desconfiava que aquele filme,

com suas constantes e variadas tensões sexuais, o deixava com tesão.

Enquanto os pais assistiam ao filme, Mae tentou tornar o tempo mais

interessante mandando uma série de zings sobre ele, rastreando e comentando o

número de momentos ofensivos à comunidade LGBT. Estava obtendo uma

resposta enorme, mas aí viu as horas, 21h30, e achou que devia pegar a estrada e

voltar para o Círculo.

“Bem, tenho de ir embora”, disse ela.

Mae achou que tinha captado alguma coisa no olhar do pai. Um olhar de

relance para a mãe, que podia significar finalmente, mas Mae podia estar

enganada. Vestiu seu casaco e a mãe foi com ela até a porta, com um envelope

na mão.

“Mercer nos pediu para entregar isto a você.”

Mae pegou-o, um envelope simples, de uso comum em trabalho. Não tinha

nem seu nome escrito. Nome nenhum, nada.

Mae beijou o rosto da mãe, saiu da casa, o ar do lado de fora ainda estava

quente. Manobrou o carro e tomou a direção da rodovia. Mas a carta estava em

seu colo e sua curiosidade a dominou. Estacionou o carro e abriu.

Querida Mae,

Sim, você pode e deve ler isto diante da câmera. Eu esperava que você o fizesse, por isso escrevo

esta carta não só para você, mas para seu “público”. Alô, público.

 

Mae quase pôde ouvir a inspiração profunda de Mercer, que servia de

introdução, seu jeito de se aprumar antes de fazer um discurso importante.

Não posso mais ver você, Mae. Não que nossa amizade tenha sido constante ou perfeita, mas não posso ser seu amigo e também parte de seu experimento. Vou ficar triste de perdê-la, já que você foi importante na minha vida. Mas tomamos direções evolutivas muito diferentes e muito em breve estaremos afastados demais para nos comunicarmos.

Se você esteve com seus pais e sua mãe lhe deu este bilhete, então você viu o efeito dessas suas

coisas sobre eles. Escrevo este bilhete depois de ver como eles estão, ambos deprimidos e esgotados pelo dilúvio que você fez cair sobre eles. É demais, Mae. E não é correto. Ajudei-os a cobrir algumas câmeras. Cheguei até a comprar o pano. Fiquei feliz em fazer isso. Eles não querem que sorriam para eles, nem que lhes façam cara feia, nem que lhes mandem zings. Querem ficar sozinhos. E não

querem ser olhados. A vigilância não deveria ser o preço a pagar em troca de nenhum maldito serviço que recebemos.

Se as coisas continuarem desse jeito, vai haver duas sociedades — ou pelo menos, eu espero que

existam duas —, aquela que você está ajudando a criar e uma alternativa. Você e sua laia irão sobreviver, voluntariamente, alegremente, sob vigilância constante, sempre se vendo uns aos outros, comentando uns para os outros, votando e curtindo e não curtindo uns para os outros, sorrindo e fazendo cara feia, e não fazendo quase mais nada além disso.

 

Já estavam chovendo comentários no seu pulso. Mae, algum dia você foi tão

jovem e tão tola? Como é que você foi namorar um zero à esquerda como esse

aí? Esse foi o comentário mais popular, logo ultrapassado por Acabei de ver a

foto dele. Será que o Pé Grande faz parte da árvore genealógica desse cara?

Mae continuou a ler a carta:

Vou sempre desejar toda felicidade para você, Mae. Também espero, embora me dê conta de que isso é muito improvável, que em algum ponto do futuro, quando o triunfalismo de você e de seus pares — o irrefreável Destino Manifesto de tudo isso — tiver ido longe demais e desmoronar sozinho, que você recupere seu sentido de perspectiva e sua humanidade. Droga, o que estou dizendo? Essa história já foi longe demais. O que eu devia dizer é que espero o dia em que alguma minoria barulhenta finalmente se levante para dizer que isso foi longe demais e que essa ferramenta, que é muito mais insidiosa do que qualquer invenção humana criada até hoje, deve ser inspecionada, regulamentada, contida e que, acima de tudo, precisamos de opções para ficar de fora. Agora vivemos num estado tirânico, onde não temos permissão para...

 

Mae verificou quantas páginas faltavam. Mais quatro folhas de tamanho

duplo, na certa contendo mais um bocado das mesmas besteiras sem rumo. Ela

jogou as folhas em cima do banco do passageiro. Pobre Mercer. Sempre foi um

presunçoso e jamais conheceu seu público. E embora Mae soubesse que ele

estava usando seus pais contra ela, alguma coisa a incomodou. Será que eles

estavam mesmo tão perturbados assim? Mae estava apenas a um quarteirão de

distância, então saiu do carro e voltou para a casa a pé. Se estivessem mesmo

abalados com a situação, bem, ela poderia tratar do assunto de forma direta, e ia

fazer isso.

Quando entrou em casa, não viu os pais nos dois lugares mais prováveis, a

sala e a cozinha, e deu uma espiada na sala de jantar, pelo canto da parede. Não

estavam em nenhum lugar. O único sinal deles era uma panela de água fervendo

no fogão. Mae tentou não entrar em pânico, mas aquela panela com água

fervendo e o silêncio assustador no resto da casa se combinaram de um jeito

sinistro em sua mente e, de repente, ela se viu pensando em ladrões, em pactos

de suicídio, em sequestros.

Mae subiu a escada correndo, três degraus a cada passo, e quando chegou ao

topo e virou à esquerda com toda pressa e entrou no quarto deles, viu os dois, os

olhos voltados para ela, arregalados e apavorados. O pai estava sentado na cama e a mãe estava de joelhos no chão, o pênis dele em sua mão. Um pequeno

recipiente de creme lubrificante encostado na perna dele. Num instante, todos

eles souberam as ramificações.

Mae virou-se, voltando a câmera para uma penteadeira. Ninguém disse

nenhuma palavra. Mae só conseguiu pensar em fugir para o banheiro, onde

apontou a câmera para a parede e desligou o áudio. Repetiu o que ficara gravado

a fim de ver o que a câmera tinha captado. Esperava que a lente, balançando em

seu pescoço, tivesse de algum modo perdido a cena ofensiva.

Mas não havia. Na verdade, o ângulo da câmera revelava o ato com mais

clareza do que ela o havia testemunhado. Mae desligou a repetição das imagens.

Ligou para o Guia Adicional.

“Há alguma coisa que possamos fazer?”, perguntou.

Em minutos, ela estava falando com o próprio Bailey ao telefone. Mae ficou

contente de poder falar com ele, porque sabia que, se alguém iria concordar com

ela na questão, esse alguém só poderia ser Bailey, homem de um entendimento

moral infalível. Ele não ia querer que um ato sexual como aquele fosse difundido

pelo mundo inteiro, ia? Bem, aquilo já tinha sido feito, mas certamente podiam

apagar alguns segundos, de forma que a imagem não pudesse ser objeto de

buscas, não se tornaria algo permanente, não é?

“Mae, vamos lá”, disse ele. “Você sabe que não podemos fazer isso. O que

seria da transparência se pudéssemos apagar tudo aquilo que nos parece

embaraçoso? Você sabe que não deletamos.” Sua voz era enfática e paternal e

Mae sabia que ia obedecer a tudo que ele dissesse. Ele entendia melhor, era

capaz de enxergar quilômetros à frente de Mae ou de qualquer pessoa, e aquilo

estava evidente na sua tranquilidade sobrenatural. “Para esse experimento

funcionar, Mae, e para o Círculo como um todo funcionar, isso tem de ser

absoluto. Tem de ser puro e completo. E sei que esse episódio será doloroso

durante alguns dias, mas, confie em mim, muito em breve nada disso terá o

menor interesse para ninguém. Quando tudo é conhecido, tudo que é aceitável

será aceito. Portanto, por ora, temos de ser fortes. Você precisa ser um exemplo.

Precisa se manter firme na rota.”

 

Mae voltou de carro para o Círculo, determinada a ficar no campus, depois

que chegasse lá. Já estava farta do caos de sua família, de Mercer, de sua cidade

natal miserável. Nem havia falado direito com os pais sobre as câmeras

SeeChange, não é? Sua casa era uma loucura. No campus, tudo era familiar. No

campus, não havia atritos. Ela não precisava explicar-se a si mesma nem explicar

o futuro do mundo para os membros do Círculo, que implicitamente

compreendiam Mae e o planeta e a maneira como ele devia ser e seria em breve.

Na verdade, cada vez mais, Mae achava difícil ficar fora do campus. Havia

pessoas sem casa, havia os cheiros constantes e agressivos, havia as máquinas

que não funcionavam, havia pisos e assentos que não tinham sido limpos e em

toda parte havia o caos de um mundo sem ordem. O Círculo estava ajudando a

melhorar aquilo, Mae sabia, e tantas questões como aquelas estavam sendo

tratadas — as pessoas sem casa podiam receber ajuda ou ser alojadas, ela sabia,

uma vez que a gamificação da distribuição de abrigos e de alojamentos públicos

em geral estivesse completa; os técnicos estavam trabalhando naquilo no Período

Nara — porém, enquanto isso, era cada vez mais perturbador ficar no meio da

loucura que reinava fora dos portões do Círculo. Caminhar por San Francisco,

Oakland, San Jose ou qualquer cidade, na verdade, parecia cada vez mais como

uma experiência no Terceiro Mundo, com sujeira desnecessária, conflitos

desnecessários, erros e ineficiências desnecessários — em qualquer quarteirão de

qualquer cidade, mil problemas que podiam ser corrigidos por meio de simples

algoritmos, da aplicação de uma tecnologia que já estava à disposição, e de

membros generosos da comunidade digital. Ela deixou a câmera ligada.

Fez a viagem de carro em menos de duas horas e quando chegou era apenas

meia-noite. Estava agitada com a viagem, com os nervos em alerta constante e

precisava relaxar e distrair-se. Foi à Experiência do Cliente, sabendo que ali

poderia ser útil e que ali seu esforço seria apreciado de forma imediata e

palpável. Entrou no prédio, olhou rapidamente para o móbile de Calder que

girava devagar, e subiu pelo elevador, passou ligeiro pela passarela e foi para sua

antiga mesa de trabalho.

Ali, viu duas mensagens de seus pais. Ainda estavam acordados e estavam

desesperados. Estavam horrorizados. Mae tentou lhes enviar os zings positivos

que ela havia recebido, mensagens que celebravam o fato de um casal mais

velho, tendo de enfrentar nada menos do que a esclerose múltipla, ainda

conseguir se manter sexualmente ativo. Mas eles não se interessaram.

Por favor, pare, pediam. Por favor, chega.

E eles, a exemplo de Mercer, insistiam que não queriam mais ter contato com

ela, a não ser de forma privada. Mae tentou explicar que eles estavam do lado

errado da história. Mas eles não queriam ouvir. Mae sabia que, mais cedo ou

mais tarde, iria convencê-los, que era só uma questão de tempo, para eles e para

todo mundo — até para Mercer. Ele e seus pais tinham demorado a usar um PC,

demorado a usar o telefone celular, demorado para tudo. Era algo cômico e

triste, e não servia para nada rechaçar o presente inexorável, o futuro inevitável.

Então ela ia esperar. Enquanto isso, Mae abriu a comporta. Havia pouca gente

com perguntas prementes naquela hora, mas havia sempre questões não

respondidas à espera do horário de trabalho, portanto Mae achou que conseguiria diminuir um pouco aquele fardo antes da chegada dos novatos. Talvez ela desse

conta de todas as solicitações, deixaria todo mundo espantado, eles encontrariam

uma tábula rasa, um reservatório vazio atrás das comportas.

Havia 188 solicitações pendentes. Ela faria o que fosse possível. Um cliente

em Twin Falls queria um rápido apanhado de todos os negócios visitados pelos

clientes que tinham visitado o negócio dele. Mae levantou as informações com

facilidade, enviou para ele e instantaneamente sentiu-se mais calma. Os dois

clientes seguintes foram casos fáceis, respostas-padrão. Mae enviou

questionários e recebeu nota 100 em todos. Um deles, em troca, lhe mandou um

questionário de pesquisa; ela respondeu tudo em noventa segundos. Os seguintes

foram mais complicados, mas ela conseguiu manter a nota 100. O sexto foi ainda

mais complicado, porém ela respondeu e obteve nota 98, logo depois corrigida

para 100. O cliente, um anunciante de aparelhos de refrigeração e aquecimento

de Melbourne, Austrália, perguntou se poderia acrescentar Mae à sua rede

profissional e ela aceitou prontamente. Foi aí que ele se deu conta de que era

Mae.

A Mae?, digitou ele. Seu nome era Edward.

Não posso negar, respondeu.

Que honra, digitou Edward. Que horas são aí? Por aqui, o horário de

trabalho terminou agora há pouco. Mae respondeu que já era tarde. Ele

perguntou se poderia acrescentá-la ao seu mailing, e mais uma vez Mae

concordou prontamente. O que se seguiu foi um rápido dilúvio de notícias e

informações sobre o mundo dos seguros em Melbourne. Ele propôs transformá-

la em membro honorária do MHAPB, sigla da Associação dos Fornecedores de

Aparelhos de Refrigeração e Aquecimento de Melbourne, que antes se chamava

Confraria dos Fornecedores de Aparelhos de Refrigeração e Aquecimento de

Melbourne, e Mae respondeu que ficaria lisonjeada. Ele acrescentou-a aos

amigos do seu Círculo pessoal e pediu que ela retribuísse da mesma forma. O

que ela fez.

Agora preciso voltar ao trabalho, escreveu Mae, mande um alô para todo

mundo em Melbourne! Ela já estava sentindo que toda a loucura de seus pais, de

Mercer, estava evaporando como fumaça. Passou para a próxima solicitação, que

vinha de uma cadeia de cuidadores de animais de estimação sediada em Atlanta.

Obteve uma nota 99, pediu uma revisão e obteve nota 100, e mandou mais seis

pesquisas, cinco das quais foram respondidas pelos clientes. Passou para outra

solicitação, essa vinha de Bangalore, e Mae estava emendando uma resposta-

padrão quando chegou outra mensagem vinda de Edward. Você viu o pedido de

minha filha?, perguntou ele. Mae verificou suas telas em busca de algum pedido

da filha de Edward. No final, se deu conta de que aquela filha tinha um sobrenome diferente e estava estudando no Novo México. Ela estava divulgando

os problemas com os bisões naquele estado e pediu a Mae que assinasse uma

petição e mencionasse aquela campanha em todos os fóruns que pudesse. Mae

respondeu que ia tentar e rapidamente mandou um zing sobre aquilo. Obrigado!,

escreveu Edward, seguido, minutos depois, por um agradecimento de sua filha,

Helena. Nem consigo acreditar que Mae Holland assinou minha petição!

Obrigada!, escreveu ela. Mae respondeu mais três perguntas, sua nota média

baixou para 98 e, embora mandasse vários pedidos de revisão de nota para

aqueles três clientes, não obteve sucesso. Mae sabia que teria de obter mais ou

menos vinte e duas notas 100 para conseguir elevar a média geral de 98 para

100; viu que horas eram. meia-noite e quarenta e quatro minutos. Tinha tempo

de sobra. Chegou mais uma mensagem de Helena, perguntando sobre vagas para

trabalhar no Círculo. Mae ofereceu seu conselho de costume e lhe mandou o e-

mail do departamento de Recursos Humanos. Você pode mandar uma

recomendação para mim?, perguntou Helena. Mae respondeu que faria o que

fosse possível, já que nunca as duas tinham se visto. Mas agora você já me

conhece muito bem!, disse Helena e em seguida dirigiu-a para seu perfil na

internet. Incentivou Mae a ler seus trabalhos sobre a preservação da vida

selvagem e o ensaio que redigiu para entrar na faculdade, que segundo ela

continuava relevante. Mae disse que ia tentar ler quando pudesse. A vida

selvagem e o Novo México trouxeram Mercer à sua mente. Aquele lixo

presunçoso. Onde estava aquele homem que fez amor com ela na beira do Grand

Canyon? Os dois pareciam tão confortavelmente perdidos, naquela hora, quando

Mercer foi pegá-la de carro na faculdade e os dois viajaram pelo sudoeste sem

nenhuma programação nem horário, nenhum itinerário, sem a menor ideia de

onde iam passar aquela noite. Atravessaram o Novo México numa nevasca e

depois chegaram ao Arizona, onde pararam o carro e acharam um penhasco que

dava para o desfiladeiro, sem cercas, e ali, debaixo do sol do meio-dia, Mercer

tirou a roupa de Mae, com um abismo de mil e duzentos metros a seus pés. Ele a

segurou e não teve nenhuma dúvida, porque na época ele era forte. Era jovem,

na época, enxergava bem. Agora estava velho e agia feito um homem mais

velho. Mae procurou a página de perfil que ela mesma havia criado para ele e

viu que estava em branco. Fez uma pesquisa no setor técnico e descobriu que ele

tentara apagar o perfil. Mae mandou um zing para ele e não obteve resposta.

Olhou o site de trabalho de Mercer, mas tinha sido apagado também; só havia

uma mensagem dizendo que agora seu negócio era feito apenas por meios

analógicos. Chegou outra mensagem de Helena: O que você acha? Mae

respondeu que não tivera tempo de ler nada ainda e a mensagem seguinte foi de

Edward, pai de Helena: Seria muito importante se você recomendasse Helena para um emprego aí no Círculo. Não estou fazendo pressão, mas contamos com

você! Mae lhe disse de novo que ia fazer o possível. Em sua segunda tela,

chegou uma notícia sobre uma campanha do Círculo para erradicar a varíola na

África Ocidental. Ela assinou a petição, mandou um sorriso, prometeu cinquenta

dólares e mandou um zing sobre o assunto. Viu que Helena e Edward

rezingaram prontamente aquela mensagem. Estamos fazendo nossa parte!,

escreveu Edward. Uma mão lava a outra. Era 1h11 quando o negror caiu sobre

Mae. Surgiu um gosto ácido na boca. Mae fechou os olhos e viu o rasgo, agora

cheio de luz. Ela abriu os olhos outra vez. Tomou um gole d’água, mas aquilo

pareceu servir apenas para aumentar seu pânico. Checou seus espectadores;

havia apenas 23 010, mas ela não queria que vissem seus olhos, com receio de

que traíssem sua ansiedade. Fechou bem os olhos, o que ela teve a impressão de

que pareceria algo perfeitamente natural por um minuto, depois de tantas horas

na frente do monitor. Estou só descansando um pouco os olhos, digitou ela, e

enviou. Mas quando os fechou de novo, viu o rasgo, agora mais claro, mais

ruidoso. O que era o ruído que Mae estava ouvindo? Era um grito abafado por

águas insondáveis, o grito agudo de um milhão de vozes afogadas. Mae abriu os

olhos. Ligou para os pais. Nenhuma resposta. Escreveu para eles, nada. Ligou

para Annie. Nenhuma resposta. Escreveu para ela, nada. Fez uma busca por

Annie na Busca do Círculo, mas ela não estava no campus. Visitou o perfil de

Annie, viu rapidamente algumas centenas de fotos, a maioria de sua viagem pela

Europa e pela China, e sentindo os olhos arderem, fechou-os de novo. E de novo

viu o rasgo, a luz tentando atravessar, os gritos debaixo da água. Mae abriu os

olhos. Veio outra mensagem de Edward: Mae? Você está aí? Seria muito bom

saber se você pode ajudar. Responda. Será que Mercer podia mesmo

desaparecer daquele jeito? Mae estava decidida a descobrir. Fez uma busca por

Mercer. Procurou mensagens que ela pudesse ter mandado para outras pessoas.

Nada. Ligou para ele, mas seu número tinha sido desligado. Um gesto tão

agressivo, mudar o número de telefone e não deixar nenhum recado sobre o

número novo. O que Mae tinha visto nele? Sua bunda gorda e nojenta, aqueles

horríveis tufos de cabelo nos ombros. Meu Deus, onde ele está? Tinha de haver

algo de muito errado quando não se conseguia encontrar alguém que se estava

procurando. Era 1h32. Mae? Edward de novo. Você pode garantir a Helena que

vai dar uma olhada no site dela em breve? Agora ela está um pouco nervosa. Só

uma palavra de incentivo já seria de grande ajuda. Sei que você é uma pessoa

boa e não vai intencionalmente provocar uma confusão na cabeça dela,

prometendo ajudar e a ignorando, não é? Saudações! Edward. Mae foi ao site

de Helena, leu um dos ensaios, lhe deu os parabéns, disse que era excelente e

mandou um zing falando a todo mundo que Helena de Melbourne/Novo México era uma voz que devia ser reconhecida e que deviam apoiar seu trabalho da

maneira como pudessem. Mas o rasgo continuava aberto dentro de Mae e ela

precisava fechá-lo. Sem saber mais o que fazer, ativou as Pesquisas do Círculo e

fez um sinal positivo com a cabeça, para começar.

“Você é usuária constante de condicionador?”

“Sim”, disse ela.

“Obrigada. O que acha de produtos capilares orgânicos?” Mae já estava se

sentindo mais calma.

“Sorriso.”

“Obrigada. O que acha de produtos capilares que não são orgânicos?”

“Cara feia”, respondeu Mae. O ritmo parecia bom.

“Obrigada. Caso seus produtos capilares não estejam acessíveis na sua loja de

costume nem na loja da internet, você os substituiria por um tipo similar?”

“Não.”

“Obrigada.”

A firme conclusão das tarefas deu uma sensação boa. Mae verificou os dados

de seu bracelete, que mostrava centenas de sorrisos novos. Havia algo de

refrescante, os comentários eram de apoio e simpatia, por verem uma

semicelebridade do Círculo, como ela, contribuindo para a pesquisa de dados

daquele modo. Mae estava recebendo mensagens também de clientes que ela

havia ajudado na sua época em Experiência do Cliente. Clientes de Columbus,

Joanesburgo e Brisbane, todos mandavam um alô e congratulações. Com um

zing, o proprietário de uma empresa de marketing em Ontário agradeceu o bom

exemplo que Mae estava dando, sua boa vontade, e Mae mandou uma resposta

breve, perguntando como andavam seus negócios por lá.

Mae respondeu mais três solicitações e conseguiu convencer os três clientes a

responder o questionário ampliado de novas pesquisas. A nota média da equipe

estava em 95, que ela esperava poder contribuir pessoalmente para elevar. Mae

estava se sentindo muito bem e útil.

“Mae.”

O som do próprio nome, pronunciado por sua voz eletronicamente processada,

foi chocante. Mae teve a impressão de que havia meses que não ouvia aquela

voz, porém ela não perdera nada de seu poder. Mae sabia que devia fazer que

sim com a cabeça, mas queria ouvir de novo, por isso esperou.

“Mae.”

Ela se sentiu em casa.

 

Mae sabia que, intelectualmente, a única razão de estar no quarto de Francis

era o fato de que, por ora, tinha sido abandonada por todas as outras pessoas de sua vida. Depois de noventa minutos no setor de Experiência do Cliente, Mae

verificou na Busca do Círculo para saber onde estava Francis e viu que ele

estava num dos dormitórios. Então viu que ele estava acordado e on-line.

Minutos depois, ele a convidou para ir até lá, disse que estava muito grato e feliz

de poder falar com ela. Desculpe, escreveu Francis, e vou dizer isso de novo,

quando você chegar à minha porta. Ela desligou sua câmera e foi ao encontro

dele.

A porta abriu.

“Desculpe”, disse ele.

“Pare com isso”, disse Mae. Ela entrou e fechou a porta.

“Quer alguma coisa?”, perguntou Francis. “Água? Também tenho aquela

vodca nova, já estava aqui quando voltei esta noite. A gente pode experimentar.”

“Não, obrigada”, disse ela, e sentou-se numa bancada junto à parede. Francis

tinha deixado seus aparelhos portáteis ali.

“Ah, espere. Não sente aí”, disse ele.

Mae levantou. “Não sentei nos seus aparelhos.”

“Não, não é isso”, disse ele. “É a bancada. Me disseram que ela é meio frágil”,

disse ele, sorrindo. “Tem certeza de que não quer beber nada?”

“Não. Estou mesmo cansada. Eu só não queria ficar sozinha.”

“Escute”, disse Francis. “Sei que eu devia ter pedido sua permissão antes. Sei

disso. Mas espero que você possa compreender de onde venho. Eu não

conseguia acreditar que era mesmo você. E havia uma parte de mim que achava

que aquela seria a única vez. Eu queria poder lembrar.”

Mae sabia do poder que exercia sobre ele e aquilo lhe causou uma clara

excitação. Sentou-se na cama. “E você os descobriu?”, ela perguntou.

“Como assim?”

“Na última vez que estive aqui, você estava pensando em escanear aquelas

fotografias, as do seu álbum.”

“Ah, sim. Acho que não voltei a falar com você de novo depois disso. Eu

escaneei as fotos, de fato. Foi tudo muito fácil.”

“E então, descobriu quem eram eles?”

“A maioria tinha contas no Círculo, por isso pude identificá-los com os

programas de reconhecimento facial. Quer dizer, levei dezessete minutos, mais

ou menos. Houve alguns casos em que tive de usar o banco de dados da polícia

federal. Ainda não temos acesso total, mas podemos ver as fotos do

departamento de trânsito. Isso abrange a maioria dos adultos do país.”

“E entrou em contato com essas pessoas?”

“Ainda não.”

“Mas sabe de onde são todas elas?”

“Sei, sei. Depois que descobri os nomes, pude localizar os endereços de todos.

Alguns tinham se mudado algumas vezes, mas consegui cruzar os dados com os

anos em que devo ter ficado com eles. Na verdade, fiz todo o cronograma de

quando eu devo ter ficado em cada lugar. Na maioria dos casos, foi em

Kentucky. Alguns em Missouri. Um foi no Tennessee.”

“Então está resolvido?”

“Bem, não sei. Alguns morreram, portanto… não sei. Eu podia simplesmente

ir de carro a algumas dessas casas. Só para preencher algumas lacunas. Não sei.

Ah”, disse ele, virando-se, animado. “Obtive algumas revelações. Quero dizer, a

maior parte das coisas era de memórias triviais dessas pessoas. Mas havia uma

família que tinha uma filha mais velha. Ela tinha quinze anos quando eu tinha

doze. Eu não me lembrava muito bem, mas sei que ela foi minha primeira

fantasia sexual séria.”

Aquelas palavras, fantasia sexual, produziram um efeito imediato em Mae.

No passado, toda vez que tais palavras eram pronunciadas, com ou por um

homem, se abria o caminho para uma conversa sobre fantasias e para algum grau

de realização de uma ou outra fantasia. O que ela e Francis fizeram, ainda que

brevemente. A fantasia dele era sair do quarto e bater na porta, fingindo ser um

adolescente perdido que bate à porta de uma esplêndida casa de subúrbio. A

tarefa de Mae era ser uma dona de casa solitária, em roupas escassas e ávida de

companhia, e convidá-lo a entrar.

E assim fez Francis, bateu na porta, ela o cumprimentou, ele disse que estava

perdido, ela lhe disse que podia se desfazer daquelas roupas velhas, que ele

podia vestir as de seu marido. Francis gostou tanto daquilo que as coisas se

aceleraram rapidamente e, em segundos, ele estava nu e Mae estava em cima

dele. Francis ficou embaixo por um ou dois minutos, deixando que Mae subisse

e descesse, olhando para ela com o ar deslumbrado de um menino no zoológico.

Depois seus olhos fecharam e ele entrou em paroxismos, emitiu um breve grito,

antes de grunhir na hora em que gozou.

Agora, enquanto Francis escovava os dentes, Mae, exausta e sentindo não

amor, mas algo próximo ao contentamento, se arrumava embaixo do edredom e

olhava para a parede. O relógio marcava 3h11.

Francis saiu do banheiro.

“Tenho outra fantasia”, disse ele, puxando o cobertor por cima de si e

encostando o rosto no pescoço de Mae.

“Estou quase dormindo”, murmurou ela.

“Não, não é nada cansativo. Não requer nenhuma atividade. É só uma coisa

verbal.”

“Certo.”

“Quero que você me avalie”, disse ele.

“O quê?”

“Só uma nota. Como vocês fazem no setor de Experiência do Cliente.”

“Tipo, de um a cem?”

“Exatamente.”

“Avaliar o quê? Seu desempenho?”

“Sim.”

“Pare com isso. Não quero.”

“Só para se divertir.”

“Francis. Por favor. Não quero. Para mim, isso tira todo o prazer.”

Francis sentou-se com um profundo suspiro. “Bem, para mim, não saber é que

tira todo o prazer.”

“Não saber o quê?”

“Como eu fui.”

“Como foi? Você foi bem.”

Francis emitiu um som alto de repulsa.

Mae se virou. “Qual é o problema?”

“Bem?”, disse ele. “Eu fui bem?”

“Ah, meu Deus. Você foi ótimo. Você foi perfeito. Quando digo foi bem,

quero dizer que não poderia ter sido melhor.”

“Está bem”, disse ele, e chegou perto dela. “Então por que não disse isso

antes?”

“Achei que tinha dito.”

“Acha que ‘foi bem’ é a mesma coisa que ‘não poderia ter sido melhor’?”

“Não. Sei que não é. Só que estou cansada. Eu devia ter sido mais precisa.”

Um sorriso satisfeito consigo mesmo tomou conta da cara de Francis. “Você

sabe que acabou de comprovar minha tese?”

“Que tese?”

“Nós já discutimos sobre tudo isso, sobre as palavras que você usou e o que

elas significaram. Não entendemos seu significado da mesma forma e ficamos

rodando mil vezes em torno da questão. Mas se você tivesse usado apenas um

número, eu teria compreendido na mesma hora.” Ele beijou o ombro dela.

“Certo. Entendi”, disse ela, e fechou os olhos.

“Então?”, perguntou ele.

“Então o quê?”

“Ainda não vai me dar um número?”

“Quer mesmo um número?”

“Mae! Claro que quero.”

“Muito bem: 100.”

Ela se virou de novo para a parede.

“Esse é o número?”

“É. Você ganhou 100, nota máxima.”

Mae teve a sensação de que ele estava sorrindo.

“Obrigado”, disse Francis e beijou a nuca de Mae. “Boa noite.”

 

A sala era suntuosa, no último andar da Era Vitoriana, com suas paisagens

épicas, seu teto de vidro. Mae entrou e foi saudada pela maior parte da Gangue

dos 40, o grupo de inovadores que rotineiramente avaliava e dava o sinal verde

para as novas iniciativas do Círculo.

“Oi, Mae!”, disse uma voz, e ela descobriu sua fonte, Eamon Bailey, que

chegou e tomou seu assento na outra ponta da sala comprida. Usando um suéter

de zíper, as mangas arregaçadas até o cotovelo, ele entrou de maneira teatral e

acenou para ela e, Mae sabia, para todos que a estivessem assistindo. Ela

esperava que a audiência fosse numerosa, uma vez que o Círculo vinha

divulgando aquilo por zings havia dias. Mae conferiu no seu bracelete, e os

espectadores no momento eram 1 982 992. Incrível, pensou Mae, e o número ia

aumentar. Ela sentou ao meio da mesa, um lugar melhor para proporcionar aos

espectadores o acesso não só a Bailey como também à maior parte da Gangue,

seus comentários e reações.

Depois que sentou e depois que já era tarde demais para mudar de lugar, Mae

se deu conta de que não sabia onde estava Annie. Percorreu os quarenta rostos à

sua frente, no outro lado da mesa, e não a viu. Virou o pescoço, com cuidado

para manter a câmera apontada para Bailey, e por fim a avistou, perto da porta,

por trás de duas fileiras de membros do Círculo, de pé junto à porta, para o caso

de terem de se retirar sem serem notados. Mae sabia que Annie a tinha visto,

mas não dava nenhum sinal disso.

“Muito bem”, disse Bailey, dando um sorriso largo para a sala. “Acho melhor

entrarmos logo no assunto, já que estamos todos presentes”, e então, por um

rápido instante, seus olhos se detiveram em Mae e na câmera pendurada em seu

pescoço. Era importante, tinham dito para Mae, que o evento inteiro parecesse

natural, e que parecesse que Mae e o público haviam sido convidados para um

tipo de acontecimento bastante comum.

“Oi, Gangue”, disse Bailey. “Trocadilho proposital.” Os quarenta homens e

mulheres sorriram. “Muito bem. Alguns meses atrás, encontrei Olivia Santos,

uma legisladora muito corajosa e visionária que está levando a transparência

para um patamar novo e, me atrevo a dizer, supremo. E vocês talvez tenham

visto que, de lá para cá, mais de vinte mil outros líderes e legisladores em todo o

mundo seguiram a liderança dela e assumiram o compromisso de tornar sua vida, como servidores públicos, totalmente transparente. Isso foi um grande

incentivo para nós.”

Mae verificou a audiência em seu pulso. Sua câmera estava apontada para

Bailey e para a tela atrás dele. Os comentários já estavam chegando, agradeciam

a Mae e ao Círculo por aquele acesso. Um espectador comparou aquilo a assistir

ao Projeto Manhattan. Outro mencionou o laboratório de Thomas Edison em

Menlo Park em 1879, aproximadamente.

Bailey prosseguiu: “Agora, esta nova era de transparência abre caminho para

outras ideias que tenho a respeito de democracia e do papel que a tecnologia

pode desempenhar para torná-la completa. E uso o termo completa de propósito,

porque nosso trabalho rumo à transparência pode, de fato, alcançar um governo

plenamente responsável. Como vocês viram, o governador do Arizona

determinou que toda sua equipe ficasse transparente, o que representa o próximo

passo. Em alguns poucos casos, mesmo quando o candidato eleito era

transparente, pudemos constatar alguma corrupção por baixo do pano. Os eleitos

transparentes foram usados como fantoches ou testas de ferro, barrando a visão

para o que se passava nos bastidores. Mas isso mudará em breve, creio. Os

membros do Executivo e do Legislativo e todas as suas equipes que nada têm a

esconder irão se tornar transparentes dentro de um ano, pelo menos neste país, e

Tom e eu cuidamos para que eles tenham um grande desconto na aquisição do

equipamento necessário, bem como na contratação de um número de servidores

Continuar: parte 4 de 7