O Círculo

Dave Eggers · Capítulo 1 de 2 · parte 4/7

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O Círculo

Livro II

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

que permita que isso se realize.”

Os quarenta aplaudiram com vigor.

“Mas isso é só metade da batalha. Isso representa a metade eleita. Pois, e

quanto à outra metade — a nossa metade, enquanto cidadãos? A metade em que

supostamente todos devemos participar.”

Atrás de Bailey surgiu a fotografia de um local de votação vazio, no ginásio

abandonado de um colégio, em algum fim de mundo do país. A imagem se

dissolveu e se converteu numa série de números.

“Aqui estão os números de participantes nas últimas eleições. Como podem

ver, em nível nacional, estamos por volta de cinquenta e oito por cento das

pessoas aptas para votar. Incrível, não é? E então descemos mais fundo, vamos

para as eleições estaduais e locais, e as percentagens despencam ladeira abaixo:

trinta e dois por cento nas eleições estaduais e vinte e dois por cento nas eleições

nos condados, dezessete por cento nas eleições da maioria das cidades pequenas.

Como é ilógico o fato de que, quanto mais próximo de casa é o governo, menos

nos importamos com isso, não é? É um absurdo, não acham?”

Mae verificou seus espectadores; havia mais de dois milhões naquele

momento. Ela estava ganhando cerca de mil espectadores por segundo.

“Muito bem”, prosseguiu Bailey. “Portanto sabemos que, de uma porção de

maneiras, a tecnologia, boa parte dela originada aqui, ajudou a facilitar o ato de

votar. Estamos construindo um avanço histórico nas tentativas de ampliar o

acesso ao voto e facilitar o ato de votar. No meu tempo, houve a lei de transporte

de eleitores. Aquilo ajudou. Mais tarde, alguns estados permitiram que as

pessoas se registrassem ou atualizassem seus registros pela internet. Ótimo. Mas

que impacto isso teve no comparecimento dos eleitores? Não foi o bastante.

Porém aqui é que a história começa a ficar interessante. Aqui está a quantidade

de pessoas que votaram na última eleição presidencial.”

A tela atrás dele indicou: “140 milhões”.

“Aqui está o número de eleitores aptos a votar.”

A tela mostrou: “244 milhões”.

“Enquanto isso, vejamos como nós estamos. Aqui está quantos americanos

estão registrados no Círculo.”

A tela indicou: “241 milhões”.

“São cifras chocantes, não acham? Estão registradas conosco cem milhões de

pessoas a mais do que aquelas que votaram para presidente. O que isso revela

para vocês?”

“Nós somos demais!”, gritou na segunda fileira um homem mais velho,

grisalho, de rabo de cavalo e camiseta de malha surrada. Uma gargalhada tomou

conta da sala.

“Bem, é claro”, disse Bailey, “mas além disso? Revela que o Círculo tem o

dom de levar as pessoas a participarem. E há muita gente em Washington que

concorda com isso. Há pessoas na capital federal que nos veem como a solução

para tornar esta democracia plenamente participativa.”

Atrás de Bailey surgiu a imagem familiar do Tio Sam apontando para o

público. Depois outra imagem: Bailey usando a mesma fantasia, na mesma pose,

surgiu ao lado do Tio Sam. A sala deu uma gargalhada.

“Então agora chegamos ao prato principal da reunião de hoje, que é: E se o

nosso perfil no Círculo automaticamente nos registrasse para votar?”

Bailey varreu a sala com o olhar, hesitou de novo em Mae e em seus

espectadores. Mae olhou para o pulso. Estou arrepiado, escreveu um espectador.

“Com o TruYou, para estabelecer um perfil, é preciso ser uma pessoa real,

com um endereço de verdade, informações pessoais completas, um número

verdadeiro do seguro social, uma data de nascimento real e comprovável.

Noutras palavras, todas as informações que o governo tradicionalmente quer

quando nos registramos para votar. Na verdade, como todos vocês sabem, nós

temos muito mais informações. Portanto, por que essas informações não seriam

suficientes para permitir que a pessoa fizesse seu registro? Ou, melhor ainda, por que o governo — nosso governo ou qualquer governo — não nos considera

registrados assim que criamos um perfil no TruYou?”

As quarenta cabeças na sala assentiram, algumas reconhecendo que se tratava

de uma ideia sensata, outras, nitidamente já tendo pensado naquilo antes,

indicando que se tratava de uma ideia já longamente discutida.

Mae conferiu seu bracelete. O número de espectadores continuava a subir

mais depressa, dez mil por segundo, e agora tinha alcançado 2,4 milhões. Mae

tinha 1248 mensagens. A maior parte tinha chegado nos últimos noventa

segundos. Bailey baixou os olhos para seu tablet, sem dúvida vendo ali os

mesmos números que Mae estava vendo. Sorrindo, prosseguiu: “Não existe

nenhum motivo. E muitos legisladores concordam comigo. A deputada Santos

concorda, por exemplo. E tenho o compromisso verbal de apoio de outros cento

e oitenta e um membros do Congresso e de trinta e dois senadores. Todos

concordaram em fazer pressão para que a legislação transforme o perfil no

TruYou numa forma automática de fazer o registro eleitoral. Nada mau, certo?”.

Houve uma breve salva de palmas.

“Agora, imaginem”, disse Bailey, sua voz era um sussurro de esperança e de

admiração, “imaginem se pudermos nos aproximar da participação plena em

todas as eleições. Não haveria mais resmungos de insatisfação das pessoas que

desdenharam participar. Não haveria mais candidatos eleitos por um grupo

minoritário, reduzido. Como sabemos aqui no Círculo, com a participação plena

se chega ao conhecimento pleno. Sabemos o que os participantes do Círculo

querem porque perguntamos e porque eles sabem que suas respostas são

necessárias para chegar a um quadro completo e preciso dos desejos de toda a

comunidade do Círculo. Portanto, se observarmos o mesmo modelo em nível

nacional, eleitoral, então poderemos chegar muito perto, eu creio, de cem por

cento de participação. Uma democracia de cem por cento.”

Os aplausos irromperam na sala. Bailey deu um largo sorriso e Stenton se

levantou; era, pelo menos para ele, aparentemente o fim da apresentação. Mas

uma ideia estava se formando na mente de Mae e ela ergueu a mão, hesitante.

“Sim, Mae”, disse Bailey, seu rosto ainda congelado num largo sorriso de

triunfo.

“Bem, eu me pergunto se não poderíamos dar um passo além. Quero dizer...

Bem, na verdade, não acho que...”

“Não, não. Vá em frente, Mae. Você começou bem. Gostei das palavras um

passo além. Assim foi construída esta empresa.”

Mae olhou para a sala em redor, os rostos misturavam incentivo e

preocupação. Então ela localizou o rosto de Annie e, como estava severo, e

descontente, e parecia estar esperando ou querendo que Mae fracassasse, se confundisse, ela reuniu suas forças, respirou fundo e foi em frente.

“Muito bem, veja, você estava falando que podíamos nos aproximar de cem

por cento de participação. E eu me pergunto por que não poderíamos

simplesmente trabalhar em sentido inverso, a partir desse objetivo, utilizando os

passos que você acabou de esboçar. Todas as ferramentas nós já temos.”

Mae olhou para a sala em redor, pronta para interromper sua fala ao primeiro

par de olhos céticos, mas viu apenas curiosidade, o vagaroso balançar de cabeça,

em sentido afirmativo, de um grupo com experiência em validação preventiva.

“Prossiga”, disse Bailey.

“Vou só ligar alguns pontos”, disse Mae. “Bom, antes de tudo, nós todos

concordamos que gostaríamos de alcançar cem por cento de participação e que

todo mundo está de acordo em que cem por cento de participação é o ideal.”

“Sim”, disse Bailey. “Seguramente é o ideal dos idealistas.”

“E temos hoje oitenta e três por cento dos americanos em idade de votar

inscritos no Círculo?”

“Sim.”

“E parece que estamos no caminho de permitir que os eleitores possam se

registrar, e talvez até votar de fato, por meio do Círculo.”

A cabeça de Bailey meneou de um lado para o outro, mas ele estava sorrindo,

seus olhos eram encorajadores. “Um pequeno salto, mas tudo bem. Prossiga.”

“Então por que não exigir que todo cidadão em idade de votar tenha uma

conta no Círculo?”

Houve um ruído de pés se arrastando no chão pela sala, muitos respiraram

fundo, sobretudo os funcionários mais velhos do Círculo.

“Deixem que ela termine”, alguém, uma voz nova, falou. Mae olhou em redor

e viu Stenton perto da porta. De braços cruzados, tinha os olhos cravados no

chão. Ergueu-os rapidamente para Mae, fez que sim com a cabeça num gesto

brusco. Ela retomou seu rumo.

“Muito bem, sei que a reação inicial será de resistência. Quero dizer, como

podemos exigir que alguém use nossos serviços? Mas temos de lembrar que

existe uma porção de coisas que são obrigatórias para os cidadãos deste país — e

essas coisas são obrigatórias na maioria dos países industrializados. Temos de

mandar os filhos para a escola? Sim. É obrigatório. É uma lei. As crianças têm

de ir para a escola, senão é preciso providenciar algum tipo de ensino doméstico.

Mas é obrigatório. O alistamento militar é obrigatório, não é? É obrigatório

descartar o lixo de modo aceitável; não se pode jogar o lixo na rua. É preciso ter

carteira de motorista para poder dirigir e, quando dirigimos, temos de usar cinto

de segurança.”

Stenton interveio de novo: “Obrigamos as pessoas a pagar impostos. E a pagar o seguro social. A servir como jurados em julgamentos”.

“Certo”, disse Mae, “e a fazer xixi em locais fechados e não na rua. Quero

dizer, temos dez mil leis. Exigimos muitas coisas dos cidadãos dos Estados

Unidos por força de lei. Então por que não exigir que votem? Em muitos países é

assim.”

“Já foi proposto aqui”, disse um dos funcionários mais antigos do Círculo.

“Não por nós”, contrapôs Stenton.

“E esse é meu argumento”, disse Mae, fazendo que sim com a cabeça para

Stenton. “A tecnologia nunca antes entrou nessa história. Quero dizer, em

qualquer outro momento da história, seria economicamente inviável localizar

todo mundo e registrar todo mundo para votar, e depois, ainda por cima, conferir

se todos votaram de fato. Seria necessário bater de porta em porta. Levar as

pessoas aos locais de votação. Muitas coisas impraticáveis. Mesmo nos países

onde o voto é obrigatório, as pessoas não são levadas à força para votar. Mas

agora isso está ao nosso alcance. Quero dizer, basta cruzar as listas de eleitores

com os nomes do nosso banco de dados do TruYou que na mesma hora vamos

descobrir metade dos eleitores que não votaram. Eles são registrados

automaticamente e então, quando chegar o dia da eleição, a gente se certifica de

que eles vão votar.”

“Como faremos isso?”, perguntou uma voz feminina. Mae se deu conta de que

era Annie. Não se tratava de um desafio direto, mas o tom também não era

amistoso.

“Ora essa”, disse Bailey, “existem cem maneiras diferentes. Essa parte é fácil.

Vamos lembrá-los cem vezes por dia. Talvez suas contas não funcionem direito

naquele dia até que eles votem. Pelo menos, esse é o método que eu defendo.

‘Oi, Annie!’, a mensagem podia dizer. ‘Tire cinco minutos para votar.’ Ou

qualquer coisa assim. A gente faz isso toda hora para nossas próprias pesquisas.

Você sabe disso, Annie.” E quando falou o nome dela, envolveu-o em decepção

e advertência, desencorajando Annie a voltar a abrir a boca. Ele se animou e

virou-se para Mae. “E os renitentes?”, perguntou.

Mae sorriu para ele. Tinha uma resposta pronta. Olhou para o bracelete.

Agora, havia 7 202 821 pessoas assistindo. Quando havia acontecido aquilo?

“Bem, todo mundo tem de pagar impostos, certo? Quanta gente faz isso pela

internet agora? Ano passado, talvez oitenta por cento. E se a gente parasse de

duplicar os serviços e tornasse tudo parte de um sistema unificado? Você usa sua

conta no Círculo para pagar impostos, fazer o registro eleitoral, pagar os tickets

de estacionamento, para tudo. Quero dizer, assim pouparíamos centenas de horas

de inconveniências para cada usuário e, coletivamente, o país economizaria

bilhões.”

“Centenas de bilhões”, emendou Stenton.

“Certo”, disse Mae. “Nossas interfaces são infinitamente mais fáceis de usar

do que, digamos, a colcha de retalhos dos sites dos departamentos de trânsito

espalhados pelo país. E se as pessoas pudessem renovar sua carteira de motorista

por nosso intermédio? E se todos os serviços do governo pudessem ser

simplificados por meio de nossa rede externa? As pessoas dariam pulos de

alegria. Em vez de visitarem cem sites diferentes para cem serviços

governamentais diferentes, tudo poderia ser feito por meio do Círculo.”

Annie abriu a boca de novo. Mae sabia que era um erro. “Mas por que o

próprio governo”, perguntou Annie, “não monta um serviço tão abrangente

como esse? Por que precisa de nós?”

Mae não conseguiu saber com certeza se ela estava fazendo uma pergunta

retórica ou se achava de verdade que era uma questão válida. Em todo caso, boa

parte da sala, agora, estava dando uma risadinha. O governo montar do zero um

sistema capaz de rivalizar com o Círculo? Mae olhou para Bailey e para Stenton.

Stenton sorriu, ergueu o queixo e decidiu responder ele mesmo.

“Bem, Annie, um projeto do governo para construir do zero uma plataforma

como essa seria algo ridículo, além de caríssimo e, bem, impossível. Já temos a

infraestrutura e oitenta e três por cento dos eleitores. Isso faz sentido para você?”

Annie fez que sim com a cabeça, os olhos demonstravam medo,

arrependimento e talvez até uma desobediência que rapidamente murchava. O

tom de Stenton era desdenhoso, e Mae torcia para ele amenizar aquilo, quando

continuou.

“Agora mais que nunca”, prosseguiu Stenton, mas em tom mais complacente

do que antes, “Washington está tentando gastar menos e não está inclinada a

construir burocracias novas e vastas a partir do zero. Neste momento, custa ao

governo cerca de dez dólares para viabilizar cada voto. Duzentos milhões de

pessoas votando, e vai custar ao cofres federais dois bilhões para promover a

eleição presidencial a cada quatro anos. Só para processar os votos numa única

eleição, num único dia. Multipliquem por todos os estados e todas as eleições

locais e estamos falando de centenas de bilhões todos os anos de despesas

desnecessárias, associadas ao simples processamento dos votos. Quero dizer,

vários estados continuam a fazer a votação em papel. Se oferecermos esses

serviços de graça, vamos permitir que o governo poupe bilhões de dólares e,

mais importante, os resultados das eleições seriam conhecidos simultaneamente.

Você vê a verdade nisso?”

Annie concordou com a cabeça, com um ar terrível, e Stenton olhou bem para

ela, como se a avaliasse de modo diferente. Virou para Mae, fazendo sinal para

que prosseguisse.

“E se for obrigatório ter uma conta no TruYou para pagar impostos ou receber

qualquer serviço do governo”, disse ela, “então ficaremos muito perto de

alcançar cem por cento de cidadania. E então poderemos medir a temperatura de

todo mundo a qualquer momento. Uma pequena cidade quer que todo mundo

vote para uma questão local. O TruYou sabe o endereço de todo mundo,

portanto só os residentes daquela cidade podem votar. E quando tiverem votado,

os resultados serão conhecidos em questão de minutos. Um estado quer saber o

que todo mundo acha de determinado imposto novo. A mesma coisa: dados

claros, instantâneos e verificáveis.”

“Isso elimina um bocado de suposições”, disse Stenton, agora de pé, na

cabeceira da mesa. “Elimina os lobistas. Elimina as mesas eleitorais. Pode até

eliminar o Congresso. Se pudermos conhecer a vontade do povo a qualquer

momento, sem filtros, sem erros de interpretação e sem adulterações, isso não

eliminaria boa parte de Washington?”

 

A noite foi fria e os ventos, cortantes, mas Mae nem percebeu. Tudo dava uma

sensação boa, limpa, correta. Receber a aprovação dos Sábios, ter dado talvez

uma guinada na empresa inteira numa direção nova, ter, talvez, talvez, garantido

um novo patamar de democracia participativa... seria mesmo possível que,

graças à ideia nova de Mae, o Círculo ia conseguir de fato tornar a democracia

perfeita? Seria possível que ela havia concebido a solução de um problema de

mil anos?

Houve certa preocupação, logo depois da reunião, com o fato de uma empresa

privada assumir a operação de um ato eminentemente público, como votar. Mas

a lógica de tudo e a economia inerente estavam levando a melhor. E se as escolas

recebessem duzentos bilhões? E se o sistema de saúde recebesse duzentos

bilhões? Um número enorme de doenças seria tratado ou curado no país todo

com a ajuda daqueles recursos — economizados não apenas a cada quatro anos,

mas algo próximo a isso todos os anos. Eliminar todas as dispendiosas eleições e

substituir por eleições instantâneas, todas quase gratuitas?

Essa era a promessa do Círculo. Essa era a posição única do Círculo. Era isso

que as pessoas estavam zingando. Mae lia os zings, enquanto viajava com

Francis no metrô por baixo da baía, e os dois sorriam, com a cabeça nas nuvens.

Estavam obtendo reconhecimento. As pessoas se punham na frente de Mae para

aparecer nas imagens de sua câmera e ela nem ligava, mal percebia, porque as

notícias que vinham pelo seu bracelete direito eram boas demais para permitir

que ela desviasse os olhos dali.

Mae verificou brevemente o braço esquerdo; seu pulso estava acelerado, o

batimento cardíaco estava em cento e trinta. Mas ela estava adorando. Quando chegaram ao centro da cidade, galgaram a escada, três degraus de cada vez, e

subiram para a calçada, de repente iluminada em ouro, na Market Street, a Bay

Bridge cintilando à frente.

“Caramba, é a Mae!” Quem tinha dito aquilo? Mae viu um par de

adolescentes correndo na direção deles, ambos de moletom com capuz e fones

de ouvido. “Mete bronca, Mae”, disse o outro, os olhos de aprovação,

fascinados, antes de os dois descerem a escada às pressas, obviamente querendo

não parecer importunos.

“Essa foi engraçada”, disse Francis, olhando para os dois enquanto desciam a

escada.

Mae andou na direção da água. Pensava em Mercer e viu-o como uma sombra

que desaparecia rapidamente. Não tinha recebido nenhuma notícia dele, nem de

Annie, desde a reunião, e Mae não se importava com aquilo. Seus pais não

tinham dito nenhuma palavra e talvez não tivessem visto seu desempenho, e Mae

se deu conta de que não se importava. Só se importava com aquele momento,

aquela noite, o céu limpo e sem estrelas.

“É impressionante como você estava segura”, disse Francis, e beijou-a — um

beijo seco, profissional, nos lábios.

“Fui bem?”, perguntou Mae, sabendo que sua pergunta soava ridícula, aquele

tipo de dúvida na esteira de um sucesso tão óbvio, mas estava querendo ouvir

mais uma vez que tinha feito um bom trabalho.

“Você foi perfeita”, disse ele. “Nota cem.”

Rapidamente, enquanto caminhavam na direção da água, Mae repassou no

bracelete os comentários recentes mais populares. Parecia haver um zing que se

destacava em especial, algo sobre como tudo aquilo podia levar ou acabaria por

levar ao totalitarismo. Mae sentiu um aperto no estômago.

“Ora, vamos. A gente não pode dar ouvidos a malucos desse tipo”, disse

Francis. “O que ele sabe? Algum pirado perdido num fim de mundo, com um

chapéu de lata na cabeça.” Mae sorriu, sem saber que história era aquela de

chapéu de lata, mas sabia que tinha ouvido o pai falar a mesma coisa, e sorriu só

de pensar no pai falando aquilo.

“Vamos brindar”, disse Francis, e optaram por uma cervejaria suntuosa na

beira da praia, com uma área ao ar livre na frente. Assim que se aproximaram,

Mae viu o reconhecimento nos olhos do bando de jovens bonitos que bebiam ao

ar livre.

“É a Mae!”, disse um deles.

Um jovem, que parecia jovem demais para estar bebendo, pôs o rosto bem na

direção da câmera de Mae. “Oi, mãe, estou em casa estudando.” Uma mulher de

uns trinta anos, que talvez estivesse com os jovens, disse, saindo do raio de visão da câmera: “Oi, meu bem, estou num clube de leitura com as minhas amigas.

Mande um alô para as crianças!”.

A noite estava deslumbrante e luminosa e passava muito depressa. Mae mal se

instalou no bar à beira da baía e se viu cercada, lhe serviam drinques, davam

palmadinhas nas costas, tapinhas nos ombros. Durante toda a noite, ela girava,

movendo-se alguns graus para todos os lados, como um relógio enlouquecido, a

fim de responder a todos os cumprimentos que recebia. Todo mundo queria tirar

uma foto com ela, queria perguntar quando tudo aquilo iria acontecer. Quando

iremos romper todas essas barreiras desnecessárias?, perguntavam. Agora que a

solução parecia clara e fácil o suficiente para ser executada, ninguém queria mais

esperar. Uma mulher um pouco mais velha do que Mae, com a voz enrolada e

um manhattan na mão, exprimiu melhor a ideia, embora inconscientemente:

“Como”, perguntou ela, derramando a bebida, mas com os olhos bem acesos,

“como podemos chegar mais rápido ao inevitável?”

Mae e Francis foram para um lugar mais tranquilo no fim do Embarcadero,

onde pediram mais uma rodada e foram abordados por um homem de cinquenta

e poucos anos. Sem ser convidado, ele se sentou com os dois, segurando um

grande drinque com ambas as mãos. Em segundos, contou que tinha sido

estudante de teologia, morava em Ohio e que ia virar padre, quando descobriu os

computadores. Decidiu largar tudo e mudou-se para Palo Alto, mas durante vinte

anos se sentira afastado do espiritual, contou ele. Até agora.

“Vi a conversa de vocês hoje”, disse ele. “Você unificou tudo. Descobriu uma

forma de salvar todas as almas. Era isso que fazíamos na Igreja, tentávamos

apanhar todo mundo. Como fazer para salvar todo mundo? Essa foi a tarefa dos

missionários por milênios.” Sua voz estava enrolada, mas ele tomou mais um

gole demorado de seu drinque. “Você e a sua galera lá do Círculo”, e nesse

ponto traçou um Círculo no ar, horizontalmente, e Mae pensou numa auréola,

“vocês vão salvar as almas de todo mundo. Vão reunir todo mundo num só

lugar, vão lhes ensinar a mesma coisa, a todos eles. Vai poder existir uma

moralidade, um conjunto de regras. Imagine!” E então bateu a palma da mão

com força sobre a mesa de ferro, sacudindo seu copo. “Agora, todos os seres

humanos terão os olhos de Deus. Você conhece esta passagem? ‘Todas as coisas

são nuas e expostas aos olhos de Deus.’ Alguma coisa mais ou menos assim.

Vocês conhecem a Bíblia?” Vendo o olhar vazio no rosto de Mae e de Francis,

ele fez um gesto de zombaria e tomou um gole comprido de seu drinque.

“Agora, todos nós somos Deus. Todos nós, em breve, poderemos ver e julgar

uns aos outros. Veremos o que Ele vê. Vamos articular o juízo Dele. Vamos

canalizar Sua ira e distribuir Seu perdão. Num nível global e constante. Toda

religião estava à espera disso, o momento em que todo ser humano será um mensageiro direto e imediato da vontade de Deus. Entende o que estou

dizendo?” Mae olhou para Francis, que estava tendo pouco sucesso em prender a

risada. Primeiro veio uma explosão de riso, e ela acompanhou, e os dois

gargalharam, tentaram se desculpar com o homem, erguendo as mãos abertas,

pedindo seu perdão. Mas ele não queria nem saber disso. Afastou-se da mesa,

depois voltou para pegar seu drinque e, agora completo, saiu vagando trôpego

pela calçada na beira da praia.

 

Mae acordou ao lado de Francis. Eram sete horas da manhã. Tinham apagado

no dormitório dela pouco depois das duas da madrugada. Mae verificou seu

celular e encontrou 322 mensagens novas. Com o aparelho na mão, os olhos

turvos, o celular tocou. A identidade de quem ligava estava bloqueada e ela sabia

que só podia ser Kalden. Deixou cair no correio de voz. Ele ligou mais uma

porção de vezes durante aquela manhã. Ele telefonou enquanto Francis acordava,

beijava Mae e voltava para seu quarto. Telefonou enquanto Mae estava no

banho, enquanto se vestia. Ela escovou o cabelo, ajustou os braceletes e passou a

lente por cima da cabeça, e ele telefonou de novo. Mae ignorou a ligação e abriu

suas mensagens.

Havia uma enxurrada de congratulações, de dentro e de fora do Círculo, a

mais eletrizante delas foi despachada pelo próprio Bailey, alertando Mae que os

desenvolvedores do Círculo já haviam começado a trabalhar em cima das ideias

dela. Tinham virado a noite trabalhando, num acesso de inspiração febril, e dali a

uma semana esperavam terminar um protótipo das ideias de Mae, para ser usada

primeiro no Círculo, onde seria aprimorada, e depois oferecida para qualquer

nação onde o Círculo tivesse um número de usuários grande o bastante para que

a ideia fosse colocada em prática.

Vamos chamá-lo de Demoxie, zingou Bailey. É a democracia com a sua voz e

a sua coragem. E virá muito em breve.

Naquela manhã, Mae foi convidada a ir ao setor dos desenvolvedores, onde

encontrou cerca de vinte engenheiros e projetistas exaustos, mas animados, que

aparentemente já tinham em mãos uma versão experimental do Demoxie.

Quando Mae entrou, soaram aplausos, as luzes diminuíram, e um único foco de

luz se acendeu sobre uma mulher de cabelo preto comprido e um rosto que mal

conseguia conter a alegria.

“Alô, Mae, alô, espectadores de Mae”, disse ela, fazendo uma ligeira

inclinação com a cabeça. “Meu nome é Sharma e estou muito contente e muito

honrada de estar com vocês. Vamos apresentar hoje a forma inicial do Demoxie.

Normalmente não faríamos isso com tanta velocidade e, bem, com tanta

transparência, mas em vista da crença fervorosa do Círculo no Demoxie e de nossa confiança de que ele será adotado rapidamente e em escala global, não

conseguimos ver motivo para adiar isso.”

O telão apareceu. A palavra Demoxie surgiu, grafada em letras vibrantes e

inscritas numa bandeira de listras azuis e brancas.

“O objetivo é garantir que todos que trabalham no Círculo possam dar sua

opinião em questões que afetam suas vidas — sobretudo no campus, mas no

mundo exterior também. Portanto, ao longo de qualquer dia determinado,

quando o Círculo precisar conhecer a opinião da empresa a respeito de qualquer

questão determinada, os membros do Círculo vão receber um aviso e o pedido

para que respondam a pergunta ou as perguntas. A guinada inesperada será

rápida e será essencial. E como damos muita importância à contribuição de

todos, seus outros sistemas de troca de mensagens serão paralisados

temporariamente, até que vocês respondam. Deixem-me mostrar como é.”

No telão, abaixo do logotipo do Demoxie, a pergunta Devemos ter mais

opções vegetarianas no almoço? era ladeada por botões Sim e Não.

Mae fez que sim com a cabeça. “Muito impressionante, pessoal.”

“Obrigada”, disse Sharma. “Agora, se nos perdoar, você tem de responder

também.” E convidou Mae a apertar Sim ou Não no telão.

“Ah”, disse Mae. Subiu até o telão e apertou Sim. Os engenheiros aplaudiram,

os desenvolvedores aplaudiram. Na tela surgiu uma cara feliz, com as palavras

Você é ouvido! formando um arco por cima. A pergunta desapareceu, substituída

pelas palavras Resultado de Demoxie: 75% dos que responderam querem mais

opções vegetarianas. Mais opções vegetarianas serão oferecidas.

Sharma estava exultante. “Estão vendo? Trata-se do resultado simulado, é

claro. Ainda não temos todo mundo no Demoxie, mas já dá para sentir um

gostinho. A pergunta aparece, todo mundo para um instante o que está fazendo,

responde e, instantaneamente, o Círculo pode tomar a providência adequada,

conhecendo a vontade plena e completa das pessoas. Incrível, não é?”

“É sim”, respondeu Mae.

“Imagine isso funcionando pelo país inteiro. Pelo mundo inteiro!”

“Está além da minha capacidade de imaginar.”

“Mas foi você mesma que concebeu isso!”, disse Sharma.

Mae não sabia o que dizer. Tinha mesmo inventado aquilo? Não tinha certeza.

Havia ligado alguns pontos: a eficiência e a utilidade do programa Pesquisas do

Círculo, o constante objetivo do Círculo de saturação total, a esperança universal

de uma democracia real e sem filtros — e acima de tudo completa. Agora, estava

nas mãos dos desenvolvedores, centenas deles no Círculo, os melhores do

mundo. Mae lhes disse aquilo, que ela era só uma pessoa que havia ligado

algumas poucas ideias que aliás se encontravam muito próximas umas das outras, e Sharma e sua equipe ficaram radiantes, apertaram a mão de Mae, e

todos concordaram que aquilo que já tinha sido feito estava colocando o Círculo,

e provavelmente toda a humanidade, num caminho novo e importante.

Mae saiu do Renascimento e, assim que atravessou a porta, foi saudada por

um grupo de jovens membros do Círculo, todos queriam lhe dizer — todos

empolgados, entusiasmados — que nunca tinham votado e que não tinham o

menor interesse por política, que se sentiam totalmente alheios ao governo, com

a sensação de que não tinham voz real nenhuma. Disseram a ela que quando seu

voto era filtrado pelo governo local e depois pelos políticos estaduais e por fim

pelos representantes em Washington, tinham a sensação de que haviam jogado

uma mensagem fechada numa garrafa num mar vasto e tormentoso. Mas agora,

segundo eles, se sentiam envolvidos. Se o Demoxie funcionasse, disseram, e

então riram — quando o Demoxie for implementado, é claro que vai funcionar,

acrescentaram — e quando for assim, teremos afinal uma massa plenamente

engajada e, quando isso acontecer, o país e o mundo ouvirão a voz dos jovens e

seu intrínseco progressismo e idealismo vão endireitar o planeta. Foi isso que

Mae ouviu o dia inteiro, enquanto caminhava pelo campus. Mal conseguia sair

de um prédio e se dirigir a outro sem ser abordada. Estamos à beira de uma

transformação real, diziam. Uma transformação na velocidade que nossos

corações exigem.

Mas durante a manhã, as ligações do número bloqueado prosseguiram. Mae

sabia que era Kalden e sabia que ela não queria ver nem sombra dele. Não queria

falar com ele e muito menos ver Kalden, pois isso significaria um tremendo

passo para trás. Ao meio-dia, Sharma e sua equipe anunciaram que estavam

prontos para o primeiro teste verdadeiro do Demoxie com abrangência em todo o

campus. Às 12h45 todo mundo receberia cinco perguntas e os resultados não só

seriam tabulados imediatamente, como também, era essa a promessa dos Sábios,

a vontade do povo seria cumprida no mesmo dia.

Mae estava no centro do campus, no meio de centenas de membros do Círculo

que almoçavam, todos conversando sobre a iminente demonstração do Demoxie,

e Mae pensou naquela pintura que mostrava a Convenção Constitucional, todos

aqueles homens de perucas empoadas e coletes, de pé, empertigados, todos

homens brancos e ricos que estavam apenas superficialmente interessados em

representar seus irmãos seres humanos. Eram provedores de um tipo de

democracia defeituosa, na qual só os ricos eram eleitos, na qual suas vozes

soavam mais alto, na qual eles entregavam seus assentos no Congresso a

qualquer pessoa de condições semelhantes que lhes parecesse adequada. De lá

para cá, tinha havido algumas melhorias no sistema, talvez, mas o Demoxie ia

mandar tudo aquilo pelos ares. Demoxie era mais puro, a única chance de

democracia direta que o mundo já havia conhecido.

Era meio-dia e meia e, como Mae se sentia forte e muito confiante, ela

finalmente sucumbiu e atendeu o telefone, sabendo que era Kalden.

“Alô?”, disse ela.

“Mae”, disse ele, a voz tensa. “É o Kalden. Não diga meu nome. Usei um

gatilho de modo que o áudio de entrada não está funcionando.”

“Não?”

“Mae. Por favor. É uma questão de vida ou morte.”

Kalden tinha sobre Mae um poder que a deixava envergonhada. Fazia Mae se

sentir fraca e dócil. Em todos os demais aspectos de sua vida, ela estava no

controle da situação, mas a voz dele simplesmente a deixava desarmada e

exposta a uma série de decisões ruins. Um minuto depois, ela estava numa

cabine no banheiro, com o áudio desligado, e o telefone tocou de novo.

“Tenho certeza de que estão grampeando esta ligação”, disse ela.

“Não estão. Consegui ganhar um tempo para nós.”

“Kalden, o que você quer?”

“Você não pode fazer isso. Esse papo de obrigatoriedade e a reação positiva

que obteve... esse é o último passo para fechar o Círculo, e isso não pode acontecer.”

“Do que você está falando? Essa é que é a questão toda, afinal. Se você está

aqui há tanto tempo como diz, sabe melhor do que ninguém que esse é o objetivo

do Círculo desde o início. Quero dizer, é um círculo, seu burro. Tem de fechar

mesmo. Tem de ser completo.”

“Mae, durante todo o tempo, pelo menos para mim, esse tipo de coisa era o

perigo, não o objetivo. Se for obrigatório ter uma conta e se todos os serviços do

governo forem canalizados para o Círculo, você terá ajudado a criar o primeiro

monopólio tirânico do mundo. Você acha que é uma boa ideia uma empresa

privada controlar o fluxo de todas essas informações? Essa participação ser

obrigatória, todos obedientes ao chamado e à ordem deles?”

“Você sabe o que o Ty disse, não é?”

Mae ouviu um suspiro bem alto. “Talvez. O que foi que ele disse?”

“Ele disse que a alma do Círculo é democrática. Que até que todos tenham

acesso igual e até que o acesso seja livre, ninguém será livre. Pelo menos está

escrito em alguns ladrilhos pelo campus.”

“Mae. Tá legal. O Círculo é bom. E quem quer que tenha inventado o TruYou

é uma espécie de gênio do mal. Mas agora ele tem de ser contido. Ou rompido.”

“Por que você dá tanta importância a isso? Se não gosta, por que não vai

embora? Sei que você é uma espécie de espião de alguma outra empresa. Ou de

Williamson. Ou então algum militante político anarquista maluco.”

“Mae, a questão é a seguinte. Você sabe que isso afeta todo mundo. Qual foi a

última vez que conseguiu fazer um contato mais sério com seus pais?

Obviamente as coisas se complicaram e você se encontra numa posição única

para influenciar fatos históricos cruciais. Essa é a questão. Este é o momento em

que a História dará uma guinada. Imagine que você pudesse estar presente, antes

de Hitler se tornar primeiro-ministro. Antes de Stálin anexar a Europa Oriental.

Estamos à beira de ter mais um império faminto e maligno em nossas mãos,

Mae. Compreende?”

“Você percebe que parece um maluco falando?”

“Mae, eu sei que você vai participar de uma grande reunião de plâncton daqui

a alguns dias. Aquela em que as crianças lançam suas ideias na esperança de que

o Círculo compre algumas e as devore como uma baleia.”

“E daí?”

“O público será grande. Precisamos atingir os jovens, e essa reunião é a hora

em que seu público vai ser numeroso e jovem. É o momento perfeito. Os Sábios

estarão lá. Preciso que você aproveite a oportunidade para advertir todo mundo.

Preciso que você diga assim: ‘Vamos pensar no que significa fechar o Círculo’.”

“Você se refere à completude?”

“É a mesma coisa. O que isso significa para as liberdades individuais, para a

liberdade de movimento, fazer o que a pessoa quiser fazer, ser livre.”

“Você é um lunático. Não consigo acreditar que eu...” Mae queria terminar a

frase com “dormi com você”, mas agora só aquela ideia parecia lhe dar náusea.

“Mae. Nenhuma entidade devia ter o poder que esses caras têm.”

“Vou desligar.”

“Mae. Pense nisso. Um dia, vão escrever canções sobre você.”

Mae desligou.

Na hora em que foi para o Salão Principal, ali reinava uma agitação de vozes e

conversas, com alguns milhares de membros do Círculo. No restante do campus,

os funcionários receberam um pedido para que permanecessem em seus locais

de trabalho, a fim de demonstrar ao mundo como o Demoxie ia funcionar em

toda a empresa, com os membros do Círculo votando de suas mesas de trabalho,

em seus tablets e telefones e até em dispositivos de retina. No telão do Salão

Principal, uma enorme grade de câmeras SeeChange mostrava os membros do

Círculo a postos em todos os cantos de todos os prédios. Sharma tinha explicado,

num de seus muitos zings, que quando as perguntas do Demoxie fossem

enviadas, toda capacidade dos membros do Círculo fazerem o que quer que fosse

— mandar um zing, usar o teclado — seria suspensa, até que votassem. Aqui, a

democracia é obrigatória!, disse ela, e acrescentou, para grande satisfação de

Mae: Compartilhar é cuidar. Mae planejava votar no seu bracelete e tinha

prometido a seus espectadores que levaria em conta suas contribuições também,

se fossem rápidos o bastante. O voto, sugeriu Sharma, não devia demorar mais

que sessenta segundos.

E então o logotipo do Demoxie apareceu no telão e a primeira pergunta surgiu

logo abaixo dele.

1. O Círculo deve oferecer mais opções vegetarianas no almoço?

A multidão presente no Salão Principal riu. A equipe de Sharma tinha optado

por repetir a pergunta que haviam testado. Mae verificou seu pulso e viu que

algumas centenas de espectadores tinham mandado sorrisos e então ela escolheu

aquela opção e apertou “enviar”. Olhou para o telão, vendo os membros do

Círculo votarem, e em onze segundos o campus inteiro tinha votado e os

resultados estavam tabulados. Oitenta e oito por cento do campus queria mais

opções vegetarianas no almoço.

Bailey mandou um zing: Assim será feito.

O Salão Principal trepidou de aplausos.

Apareceu a pergunta seguinte:

2. O dia do “Traga sua Filha ao Trabalho” deve ocorrer duas vezes por ano

em vez de só uma?

A resposta foi conhecida em doze segundos. Quarenta e cinco por cento

disseram que sim. Bailey mandou um zing: Parece que uma vez por ano é o

bastante, por enquanto.

Até então, a demonstração era um sucesso evidente e Mae se regozijava com

as congratulações dos membros do Círculo no auditório e no seu pulso, e

também dos espectadores espalhados por todo o mundo. A terceira pergunta

apareceu e o auditório estremeceu com uma gargalhada.

3. John ou Paul ou... Ringo?

A resposta, que levou dezesseis segundos, provocou uma tumultuosa onda de

aplausos: Ringo ganhou com sessenta e quatro por cento dos votos. John e Paul

ficaram quase empatados, com vinte e dezesseis, respectivamente.

A quarta pergunta foi precedida por uma instrução séria: Imagine que a Casa

Branca queira obter a opinião de seus eleitores sem filtros. Imagine que você

tenha a capacidade direta e imediata de influenciar a política exterior dos

Estados Unidos. Não tenha pressa, agora. Talvez chegue o dia — há de chegar

o dia — em que todos os americanos sejam ouvidos nesses assuntos.

As instruções desapareceram e veio a pergunta:

4. Agências de inteligência localizaram o gênio terrorista Mohammed Khalil

al-Hamed numa área pouco povoada da zona rural do Paquistão. Devemos

mandar um drone para matá-lo, considerando a probabilidade de danos

colaterais moderados?

Mae prendeu a respiração. Sabia que era só uma demonstração, mas o poder

parecia real. E parecia justo. Por que não se devia levar em conta a sabedoria de

trezentos milhões de americanos, quando se estava tomando uma decisão que

afetava todos eles? Mae fez uma pausa, refletindo, pesando os prós e os contras.

Os membros do Círculo no salão pareciam estar levando sua responsabilidade

tão a sério quanto Mae. Quantas vidas seriam salvas matando Al-Hamed?

Podiam ser milhares, e o mundo se livraria de um homem maligno. O risco

parecia valer a pena. Ela votou sim. A apuração total chegou em um minuto e

onze segundos: setenta e um por cento dos membros do Círculo apoiaram o

ataque de um drone. Um murmúrio ressoou pelo auditório.

Então veio a última pergunta:

5. Mae Holland não é mesmo incrível?

Mae riu e o auditório riu e Mae ficou vermelha, achando que aquilo já era um

pouco demais. Resolveu que não podia votar naquele caso, já que seria

igualmente absurdo votar sim ou não, e ela simplesmente ficou olhando para o

dispositivo em seu pulso, que, logo se deu conta, tinha ficado congelado. A

pergunta no monitor de pulso logo começou a piscar com urgência. Todos os

membros do Círculo têm de votar, dizia o monitor, e ela lembrou que a apuração não poderia ser concluída até que todos os membros do Círculo tivessem

registrado sua opinião. Como se sentia tola chamando a si mesma de incrível,

apertou “cara feia”, achando que seria a única e que aquilo seria motivo de riso.

Mas quando os votos foram apurados, segundos depois, ela não foi a única

pessoa a mandar uma cara feia. A votação foi noventa e sete por cento de sorriso

e três por cento de cara feia, indicando que, de maneira assombrosa, seus colegas

do Círculo achavam que ela era incrível. Quando apareceram os números, o

Salão Principal irrompeu em gritos de euforia, e Mae recebeu tapinhas nas

costas, enquanto todo mundo saía com a sensação de que a experiência tinha

sido um sucesso colossal. E Mae também tinha a mesma sensação. Sabia que o

Demoxie estava dando certo e que seu potencial era ilimitado. E sabia que se

sentia bem por saber que noventa e sete por cento do campus achava que ela

incrível. Mas na hora em que saiu do salão e começou a caminhar pelo campus,

só conseguia pensar nos três por cento que não achavam que ela era incrível.

Mae fez as contas. Se agora havia 12 318 funcionários no Círculo — eles tinham

acabado de incorporar um grupo de desenvolvedores da Filadélfia especializados

na gamificação de moradias disponíveis — e todos tinham votado, significava

que 369 pessoas tinham mandado uma cara feia para ela e achavam que ela não

era incrível. Não, 368. Ela mesma mandara uma cara feia, supondo que seria a

única.

Mae sentia-se entorpecida. Sentia-se nua. Caminhava pela academia de

ginástica, olhando para os corpos suados que subiam e desciam dos aparelhos, e

se perguntava quem entre eles tinha mandado uma cara feia para ela. Trezentas e

sessenta e oito pessoas a desprezavam. Mae estava arrasada. Saiu da academia

de ginástica e procurou um lugar tranquilo para pôr os pensamentos em ordem.

Seguiu para o terraço perto do seu antigo local de trabalho, onde Dan lhe havia

falado pela primeira vez sobre o compromisso do Círculo com a comunidade.

Ficava a oitocentos metros de onde ela estava e Mae não sabia se conseguiria

vencer aquela distância. Estava sendo apunhalada. Tinha sido apunhalada. Quem

eram aquelas pessoas? O que havia feito de ruim para elas? Elas nem a

conheciam. Ou será que conheciam? E que tipo de membros da comunidade

mandariam uma cara feia para Mae, que trabalhava de forma incansável para

eles, para eles, e à vista de todos?

Mae estava tentando se controlar. Sorria quando passava por colegas do

Círculo. Aceitava suas congratulações e sua gratidão, mas toda vez se

perguntava qual deles teria duas caras, qual deles teria apertado o botão de cara

feia, e sentia que cada dedo que apertara aquele botão puxava um gatilho. Era

isso mesmo, Mae se deu conta. Estava se sentindo cheia de furos, como se todos

eles tivessem dado um tiro nela, pelas costas, covardes que a encheram de furos. Mae mal conseguia se manter de pé.

E então, pouco antes de chegar ao velho prédio, viu Annie. Fazia meses que

não tinham um encontro natural, mas imediatamente algo no rosto de Annie

exprimiu luz e alegria. “Ei!”, disse ela, dando um pulo para a frente a fim de

tomar Mae num abraço envolvente.

Os olhos de Mae de repente ficaram molhados e ela os enxugou, sentindo-se

tola, exultante e confusa. Todos os seus conflituosos pensamentos a respeito de

Annie foram varridos de cena por um momento.

“Como vai, tudo bem?”, perguntou.

“Vou bem, vou bem. Tem tanta coisa boa acontecendo”, disse Annie. “Você

soube do projeto PastPerfect?”

Mae sentiu, então, alguma coisa na voz de Annie, um indicador de que Annie

estava falando sobretudo para o público pendurado no pescoço de Mae. Ela

prosseguiu.

“Bem, você me deu uma ideia geral, há algum tempo. Qual é a novidade com

o PastPerfect, Annie?”

Mae olhava para Annie, parecendo interessada no que ela dizia, mas sua

mente estava longe dali: teria Annie mandado uma cara feia para ela? Quem

sabe só para derrubar um ponto na sua aprovação? E como a Annie se sairia

numa votação no Demoxie? Conseguiria mais de noventa e sete por cento de

aprovação? Alguém seria capaz de alcançar aquele número?

“Ah, caramba, tanta coisa, Mae. Como sabe, o PastPerfect está em preparação

há muitos anos. É o que você pode chamar de a menina dos olhos de Eamon

Bailey. Ele pensou: E se a gente usar o poder da rede e do Círculo, com seus

bilhões de membros, para tentar preencher as lacunas da história pessoal e da

história geral?”

Mae, vendo sua amiga realizar um esforço tão grande, não conseguiu fazer

outra coisa senão se adaptar ao seu entusiasmo de fachada.

“Puxa, parece mesmo incrível. Na última vez que a gente conversou, estavam

em busca de um pioneiro que fosse o primeiro a mapear seus ancestrais.

Encontraram essa pessoa?”

“Ora, encontraram sim, Mae, e estou contente por você ter perguntado.

Acharam essa pessoa e essa pessoa sou eu.”

“Ah, sei. Então na verdade ainda não escolheram?”

“Não, é sério”, disse Annie, sua voz baixou de tom e de repente soou mais

parecida com a da Annie real. Então ela se empolgou de novo, subindo uma

oitava: “Sou eu!”.

Mae tinha ganhado prática na técnica de esperar antes de falar — a

transparência tinha ensinado a medir bem cada palavra — e agora, em vez de dizer: “Eu esperava que fosse algum novato, alguém sem tanta experiência. Ou

pelo menos um carreirista, alguém tentando elevar seu PartiRank ou puxar o

saco dos Sábios. Mas você?”, Mae se deu conta de que Annie estava, ou sentia

estar, numa posição que precisava de um impulso, de um gás novo. E assim se

apresentou como voluntária.

“Você se apresentou como voluntária?”

“Sim. Fiz isso”, respondeu Annie, olhando para Mae, mas na verdade sem vê-

la absolutamente. “Quanto mais eu ouvia falar do assunto, mais vontade sentia

de ser a primeira. Como você sabe, mas seus espectadores talvez não saibam,

minha família veio para cá no navio Mayflower” — e aqui Annie revirou os

olhos — “e embora tenhamos alguns medalhões na nossa família, há muita coisa

que não sei.”

Mae ficou sem voz. Annie ficou confusa. “E todo mundo vai participar com

você? Seus pais?”

“Eles estão superempolgados. Acho que sempre se orgulharam de nossa

herança, e a capacidade de compartilhar isso com as pessoas, e no correr do

processo ainda descobrir alguma coisa nova sobre a história do país, bem, tudo

isso os atraiu. Por falar de pais, como vão os seus?”

Meu Deus, aquilo era estranho, pensou Mae. Havia tantas camadas em tudo

aquilo, e enquanto sua mente contava todas as camadas, mapeava e dava nome a

todas elas, seu rosto e sua boca tinham de dar continuidade àquela conversa.

“Vão bem”, disse Mae, muito embora soubesse, e Annie soubesse, que Mae

não entrava em contato com os pais havia semanas. Por intermédio de um primo,

tinham mandado notícia sobre sua saúde, que estava bem, mas tinham se

mudado de endereço, “fugir” foi a única palavra que usaram em sua breve

mensagem, dizendo para Mae não se preocupar com nada.

Mae encerrou a conversa com Annie e caminhou pelo campus devagar, a

cabeça envolta numa névoa, ciente de que Annie ficara satisfeita com a maneira

como havia comunicado as novidades, e havia se dado melhor do que Mae e

deixado a amiga totalmente confusa, tudo isso num encontro rápido. Annie foi

indicada para ocupar a posição central do projeto PastPerfect e Mae não tinha

sido avisada, e assim tinha ficado com cara de idiota. Com certeza, esse era o

objetivo de Annie. E por que Annie? Não fazia sentido procurar Annie, quando

seria mais fácil usar Mae para fazer aquilo; Mae já estava transparente.

Mae se deu conta de que Annie tinha pedido aquilo. Havia implorado aos

Sábios. Sua proximidade com eles tornou aquilo possível. E assim, portanto,

Mae não estava tão próxima deles quanto havia imaginado; Annie ainda

desfrutava de um status particular. Mais uma vez, a linhagem de Annie, sua

Continuar: parte 5 de 7