O Clube Dumas
Capítulo I
O VINHO DE ANJOU
O leitor deve preparar-se para assistir às mais sinistras cenas.
(E. Sue. Os Mistérios de Paris)
Chamo-me Boris Balkan e, há anos, traduzi A Cartuxa de Parma. Além disso, as críticas e recensões que escrevo saem em suplementos e revistas de meia Europa, organizo nas universidades cursos de Verão sobre escritores contemporâneos e tenho alguns livros publicados sobre o romance popular do século XIX. Nada de espectacular, receio bem; sobretudo nestes tempos em que os suicídios se disfarçam de homicídios, os romances são escritos pelo médico de Roger Ackroyd e demasiadas pessoas se empenham em publicar duzentas páginas sobre as apaixonantes vivências que experimentam quando se olham ao espelho. Mas cinjamo-nos à história.
Conheci Lucas Corso quando me veio visitar com O Vinho de Anjou debaixo do braço. Corso era um mercenário da bibliofilia, um caçador de livros por conta alheia. Isso inclui as mãos sujas e o verbo fácil, bons reflexos, paciência e muita sorte. Também uma memória prodigiosa, capaz de se lembrar em que recanto poeirento de um alfarrabista dorme esse exemplar pelo qual pagam uma fortuna. A sua clientela era selecta e reduzida: uma vintena de livreiros de Milão, Paris,, Londres, Barcelona ou Lausana, daqueles que apenas vendem por catálogo, investem pelo seguro e nunca movimentam mais de meia centena de títulos de cada vez; aristocratas dos incunábulos para quem pergaminho em vez de vitela, ou três centímetros a mais na margem da página representam milhares de dólares. Chacais de Gutenberg, piranhas das feiras de antiguidades, sanguessugas de leilões, são capazes de vender a mãe por uma edição príncipe mas recebem os clientes em salões com sofás de couro e vista sobre o Duomo ou sobre o lago Constança e nunca sujam as mãos nem a consciência. Para isso, lá estão os tipos como Corso.
Tirou do ombro a bolsa de lona e poisou-a no chão, ao lado dos sapatos Oxford mal engraxados, antes de se deter a olhar o retrato emoldurado de Rafael Sabatini que tenho sobre a secretária, junto da caneta que utilizo para corrigir artigos e provas de imprensa. Aquilo agradou-me, pois as visitas costumam dedicar-lhe pouca atenção: tomam-no por qualquer velho parente. Observava a sua reacção e verifiquei que tinha um meio-sorriso ao sentar-se: uma expressão juvenil, de coelho surgindo ao fundo da rua; uma expressão dessas que conquistam de imediato a benevolência incondicional do público em qualquer filme de desenhos animados. Com o tempo, vim a saber que também era capaz de sorrir como um lobo impiedoso e famélico e que podia arvorar uma expressão ou outra conforme as circunstâncias o exigiam; mas isso foi muito mais tarde. Naquele momento, era convincente e portanto resolvi arriscar um santo-e-senha:
- Nasceu com o dom do riso - citei, apontando o retrato - ... e com a sensação de que o mundo estava louco...
Vi-o mover lentamente a cabeça, com um gesto lento e afirmativo, e senti por ele uma simpatia cúmplice que ainda conservo, apesar de tudo o que depois aconteceu. Retirara não sei de onde, ocultando o maço, um cigarro sem filtro tão enrugado como o seu velho sobretudo e as calças de bombazina. Dava-lhe voltas entre os dedos, observando-me através dos óculos de tortos aros metálicos empoleirados no nariz, com o cabelo, já um pouco encanecido, despenteado sobre a testa. Mantinha a outra mão como se empunhasse uma pistola oculta num dos bolsos: fossos enormes e deformados por livros, catálogos, papéis e - também só mais tarde o soube -um frasco com gin Bois.
- ... E esse foi todo o seu património - completou sem dificuldade a citação, antes de se acomodar na poltrona e sorrir outra vez. - Embora, se quiser ser sincero, prefira O Capitão Blood.
Levantei a caneta para o admoestar, severo.
- Faz mal. Scaramouche é para Sabatini o que Os Três Mosqueteiros é para Dumas. - Fiz um breve gesto de homenagem na direcção do retrato. -Nasceu com o dom do riso... Não há na história dos folhetins de aventuras duas primeiras linhas que se possam comparar a estas.- Talvez tenha razão - concedeu depois de uma aparente reflexão, e colocou então o manuscrito em cima da mesa, com a sua capa protectora e uma bolsa de plástico por cada folha. - E é uma coincidência que tenha mencionado Dumas.
Empurrou a capa para mim, abrindo-a de forma que eu pudesse ler o seu conteúdo. Todas as folhas estavam escritas em francês apenas de um dos lados e havia duas espécies de papel: um branco, já amarelecido pelo tempo, e outro azul-pálido com um fino quadriculado, também envelhecido pelos anos. A cada cor correspondia uma caligrafia diferente, embora a do papel azul - traçada com tinta preta - aparecesse nas folhas brancas sob a forma de anotações posteriores à redacção original, cuja caligrafia era mais pequena e pontiaguda. Havia quinze folhas no total e onze eram azuis.- Curioso. - Fitei Corso; observava-me com um olhar tranquilo que saltava de mim para a capa e da capa para mim. - Onde encontrou isto? Coçou uma sobrancelha, calculando sem dúvida até que ponto a informação que me ia pedir o obrigava a corresponder com esse tipo de pormenores. O resultado foi uma terceira expressão, desta vez de coelho inocente. Corso era um profissional.
- Por aí. Um cliente de um cliente. , - Compreendo. Fez uma pequena pausa, cauteloso. Além de precaução e reserva, cautela significa astúcia. E isso sabíamos ambos.
- Claro - acrescentou - que lhe referirei nomes, se mos pedir. Respondi que não era necessário e isso pareceu tranquilizá-lo. Ajeitou os óculos com um dedo antes de pedir a minha opinião sobre aquilo que tinha nas mãos. Sem responder de imediato, passei as páginas do manuscrito até chegar à primeira. O cabeçalho estava em maiúsculas, com traços mais grossos: O VINHO DE ANJOU.
Li em voz alta as primeiras linhas:
Après de nouvelles presque désespérées du roi, le bruit de sa convalescence commençait a se répandre dans le camp...
Não pude evitar um sorriso. Corso fez uma expressão de aquiescência, convidando-me a pronunciar o meu veredicto.- Sem sombra de dúvida - afirmei - , isto é de Alexandre Dumas, pai. O Vinho de Anjou: capítulo quarenta e tal, creio recordar, de Os Três Mosqueteiros.
- Quarenta e dois - confirmou Corso. - Capítulo quarenta e dois.- É o original?... O autêntico manuscrito de Dumas?- É por isso que aqui estou. Para que mo diga.
Encolhi ligeiramente os ombros a fim de descartar uma responsabilidade que me parecia excessiva.
- Por quê eu?
Era uma pergunta estúpida, daquelas que apenas servem para ganhar tempo. Deve ter parecido a Corso falsa modéstia, pois reprimiu um trejeito de impaciência.
- O senhor é um perito - respondeu, um tanto secamente. - E, além de ser o crítico literário mais influente deste país, sabe tudo sobre o romance popular do século XIX.
- Esquece Stendhal.
- Não esqueço. Li a sua tradução de A Cartuxa de Parma.- Ora, ora. Lisonjeia-me.
- Está enganado. Prefiro a de Consuelo Berges. Sorrimos ambos. Continuava a ser-me simpático e começava a perceber o seu estilo.
- Conhece os meus livros? - arrisquei.
- Alguns. Lupin, Raffles, Rocambole, Holmes, por exemplo. Ou os estudos sobre Valle-Inclán, Baroja e Galdós. Também conheço Dumas: a Marca de Um Gigante. E o seu ensaio sobre O Conde de Monte cristo.- Leu esses livros todos?
- Não. O facto de trabalhar com livros não significa que seja obrigado a lê-los. :
Mentia. Ou, pelo menos, exagerava o aspecto negativo da questão. Aquele indivíduo pertencia ao género consciencioso: antes de vir ter comigo, dera uma vista de olhos a tudo o que de mim conseguira encontrar. Era um desses leitores compulsivos que devoram papel impresso desde a mais doce infância, isto no caso - pouco provável - de algum momento da infância de Corso merecer a qualificação de doce.
- Compreendo - respondi, para dizer qualquer coisa. Franziu momentaneamente as sobrancelhas, verificando se se esquecia de alguma coisa, e depois tirou os óculos e começou a limpá-los com um lenço muito amarrotado que extraiu de um dos insondáveis bolsos do sobretudo. Sob a falsa aparência de fragilidade que lhe dava aquela vestimenta demasiado grande, com os seus incisivos de roedor e o ar sereno, Corso era sólido como um gatuno obstinado. Tinha umas feições esguias e bem desenhadas, cheias de ângulos, emoldurando uns olhos atentos, sempre dispostos a exprimir uma ingenuidade perigosa para quem se deixasse seduzir por ela. As vezes, principalmente quando estava quieto, dava a impressão de ser mais desajeitado e lento do que era na realidade. Pertencia àquela espécie de tipos desamparados a quem os homens oferecem cigarros, os empregados de bar convidam para um copo extra e as mulheres sentem desejos de adoptar de imediato. Depois, quando se apercebiam do que se estava a passar, era demasiado tarde para lhe deitarem a luva. Galopava à distância, acrescentando mais uma marca na sua navalha.- Voltemos a Dumas - sugeriu, apontando com os óculos o manuscrito. -Uma pessoa capaz de escrever quinhentas páginas acerca dele deveria reconhecer um ar familiar perante os seus originais... Não acha? Coloquei uma mão sobre as páginas protegidas com bolsas de plástico com a mesma unção que um sacerdote teria em relação aos apetrechos do seu ofício.
- Temo decepcioná-lo, mas não sinto nada.
Desatámos os dois a rir. Corso tinha um riso peculiar, quase entre dentes: o riso de quem não tem a certeza de que o seu interlocutor e ele riam da mesma coisa; um riso torcido e distante, com algo de insolência pelo meio, desses que ficam a flutuar no ar durante muito tempo até que se desvaneçam. Inclusivamente depois de o seu proprietário já se ter ido embora há um bocado.
- Vamos por partes - precisei. - O manuscrito é seu?- Já lhe disse que não. Um cliente acaba de adquiri-lo, e surpreende-o que até agora ninguém tenha ouvido falar deste capítulo original e completo de Os Três Mosqueteiros... Deseja uma autentificação em regra e eu trabalho nisso.
- Admira-me que se ocupe de coisas menores. - Era um facto que eu também tinha ouvido falar de Corso antes. - Afinal de contas, Dumas hoje em dia...
Deixei a frase no ar, sorrindo de forma adequada, com uma amargura cúmplice; mas Corso não aceitou a oferta e manteve-se na defensiva:- O meu cliente é um amigo - precisou em tom neutro. - Trata-se de um trabalho pessoal.
- Compreendo, mas não sei se lhe vou ser útil. Vi alguns originais e este poderia ser autêntico, mas certificá-lo é outra coisa. Para isso precisa de um bom grafólogo... Conheço um excelente em Paris: Achille Replinger. Tem uma biblioteca especializada em autógrafos e documentos históricos perto de Saint Germain des Près... É um perito em autores franceses do século XIX, homem encantador e um bom amigo meu. - Apontei um dos quadros pendurados na parede. - Essa carta de Balzac vendeu-ma ele há anos. Por acaso, caríssima.
Peguei na agenda para lhe copiar a direcção e juntei um cartão de visita para Corso. Guardou-o numa carteira velha cheia de notas e papéis, antes de extrair do sobretudo um bloco e um lápis dos que têm uma borracha na extremidade. A borracha estava roída como a de um miúdo de escola.- Posso fazer-lhe umas perguntas?
- Claro que sim.
- Tinha conhecimento da existência de algum capítulo autógrafo completo de Os Três Mosqueteiros?
Neguei com a cabeça antes de responder, enquanto repunha a tampa na Montblanc.
- Não. Essa obra apareceu em fascículos em Le Siècle, entre Março e Julho de 1844... Uma vez composto o texto por um tipógrafo, o original manuscrito ia para o cesto dos papéis. No entanto, ficaram alguns fragmentos; pode consultá-los num apêndice da edição Garnier de 1968.- Quatro meses é pouco. - Corso mordia a extremidade do lápis, pensativo. -Dumas escreveu rapidamente.
- Nessa época todos o faziam. Stendhal concluiu a sua Cartuxa em sete semanas. Dumas utilizava colaboradores: negros, na gíria do ofício. O de Os Mosqueteiros chamou-se Auguste Maquet... Trabalharam juntos na continuação, Vinte Anos depois, e em O Visconde de Bragelonne, que completa o ciclo. Continuaram em O Conde de Montecristo e outros romances... Com certeza que esses leu.
- Claro. Como toda a gente.
- Como toda a gente noutros tempos, quererá dizer. - Folheei com respeito as páginas do manuscrito. - Longe vai a época em que um original de Dumas multiplicava as tiragens e enriquecia os editores. Quase todos os seus romances foram publicados, assim, em fascículos, com o continua no próximo número no fundo da página, e o público ficava com a alma suspensa até ao capítulo seguinte... Mas você já sabe isso tudo.- Não se preocupe. Continue.
- Que mais quer que lhe diga? No folhetim tradicional, a chave do êxito é simples: o herói e a heroína têm características que obrigam o leitor a identificar-se com eles... Se isso sucede hoje com as telenovelas, imagine-se o efeito naquela época, sem rádio nem televisão, sobre uma burguesia ávida de surpresas e entretenimentos, pouco exigente no que diz respeito à qualidade formal ou ao bom gosto... Assim o compreendeu o génio de Dumas e, com sábia alquimia, fabricou um produto de laboratório: umas gotas disto, um pouco daquilo e o seu talento. Resultado: uma droga que criava adeptos. - Apontei para o meu peito, não sem orgulho. - Que ainda os cria.
Corso ia tomando notas. Exigente, despreocupado e letal como uma mamba negra, defini-lo-ia mais tarde um dos seus conhecidos quando o seu nome veio à baila. Tinha uma forma singular de se posicionar em relação às outras pessoas, de olhar através dos óculos torcidos e de concordar lentamente, com uma certa falta de convicção razoável e bem-intencionada, como uma rameira a ouvir, tolerante, um soneto sobre Cupido. Como se desse oportunidade de rectificar algo, antes que tudo aquilo fosse definitivo. Passados uns momentos, deteve-se e ergueu a cabeça.- Mas o senhor não limita o seu trabalho ao romance popular. É um crítico conhecido por outras actividades... - pareceu hesitar, .. procurando o termo -... mais sérias. E o próprio Dumas definia as suas obras como literatura fácil... Isso soa a desdém para com o público.
Aquela finta situava bem o meu interlocutor; era uma das suas assinaturas, como a sota de Rocambole no local da acção. Colocava as coisas de longe, aparentemente sem tomar partido, mas provocando com pequenos golpes de guerrilha. Quem se irrita fala, esgrime argumentos e justificações, o que equivale a mais informação para o adversário. Mesmo assim, ou talvez por isso, por não ter nascido ontem e compreender a táctica de Corso, senti-me irritado:
- Não caia em lugares-comuns - respondi, impaciente. - O folhetim produziu muito papel para deitar fora, mas Dumas estava muito acima disso... Em literatura, o tempo é um naufrágio em que Deus reconhece os seus; desafio-o a que cite heróis de ficção que sobrevivam com a saúde de d'Artagnan e dos seus companheiros, excepto, talvez, o Sherlock Holmes de Conan Doyle... O ciclo de Os Mosqueteiros constitui um romance de capa e espada inegavelmente folhetinesco; nele encontrará todos os pecados próprios da sua classe. Mas é também um folhetim ilustre, muito além dos níveis habituais do género. Uma história de amizade e aventuras que permanece fresca apesar da modificação dos gostos e do estúpido descrédito em que caiu a acção. Parece que, desde Joyce, temos de resignar-nos a Molly Bloom e renunciar a Nausícaa depois do naufrágio, numa praia... Nunca leu o meu opúsculo Sexta-Feira ou a Agulha de Marear? Se é preciso um Ulisses, fico com o de Homero.
Aumentei um pouco o tom ao chegar a este ponto, observando a reacção de Corso. Esboçava um meio-sorriso sem nada dizer, mas eu recordava a expressão dos seus olhos quando citei Scaramouche e sentia-me no bom caminho.
- Sei ao que se refere - acabou por dizer. - As suas opiniões são conhecidas e polémicas, Senhor Balkan.
- As minhas opiniões são conhecidas porque fiz o possível para que o fossem. E quanto a desprezar o público, como dizia há momentos, talvez não saiba que o autor de Os Três Mosqueteiros se bateu na rua durante as revoluções de 1830 e 1848 e forneceu armas a Garibaldi, pagando-as do seu bolso... Não esqueça que o pai de Dumas era um conhecido general republicano... Aquele homem transpirava amor ao povo e à liberdade.- Embora o seu respeito pelo rigor dos factos fosse relativo.- Isso não tem importância de maior. Sabe o que respondia aos que o acusavam de violar a História? "É verdade que a violo, mas faço-lhe lindos filhos".
Poisei a caneta em cima da mesa e ergui-me, aproximando-me das vitrinas cheias de livros que cobrem as paredes do meu escritório. Abri uma para tirar um volume encadernado em pele escura.
- Como todos os grandes efabuladores - acrescentei - , Dumas era um embusteiro... A condessa Dash, que o conheceu bem, diz nas suas memórias que lhe bastava contar uma anedota apócrifa para que essa mentira fosse considerada histórica... Repare no cardeal Richelieu: foi o maior homem do seu tempo, mas depois de passar pelas enganosas mãos de Dumas, a sua imagem chega até nós deformada e sinistra, com o perfil de um vilão... -Voltei-me para Corso com o livro nas mãos. - Conhece isto? Foi escrito por Gatien de Courtilz de Sandras, um mosqueteiro que viveu nos fins do século XVII. São as memórias de Artagnan, o autêntico: Charles de Batz-Castelmore, conde de Artagnan. Um gascão nascido em 1615 que, com efeito, foi mosqueteiro embora não tivesse vivido na época de Richelieu mas sim na de Mazarino. Morreu em 1673 durante o cerco de Maestrich quando, tal como o seu homónimo de ficção, ia receber o bastão de marechal. Como vê, as violações de Alexandre Dumas originaram filhos lindos... O génio do romancista transformou o obscuro gascão de carne e osso, cujo nome a História tinha esquecido, num gigante lendário. Corso continuava sentado, ouvindo. Passei-lhe o livro para as mãos e folheou-o com interesse e cuidado. Passava lentamente as páginas, mal lhes roçando com a ponta dos dedos, tocando apenas na orla de cada folha. De vez em quando detinha-se num nome ou num capítulo. Por trás dos vidros dos óculos, os seus olhos funcionavam, seguros e rápidos. Em dado momento deteve-se para anotar dados no bloco: "Memoires de M. d'Artagnan, G. de Courtilz, 1704, P. Rouge, 4 volumes in-12, 4ª edição". Depois fechou o livro para me lançar um longo olhar.- O senhor o disse: era um embusteiro.
- Sim - concedi, sentando-me de novo. - Mas genial. Onde outros se teriam limitado a plagiar, ele construiu um mundo romanesco que ainda hoje se mantém... "O homem não rouba, conquista", repetia com frequência. "Faz de cada província que toma um anexo do seu império: impõe-lhe as suas leis, povoa-a de temas e de personagens, estende sobre ela o seu espectro..." Que outra coisa é a criação literária? No caso dele, a história de França forneceu o filão. O truque era extraordinário: respeitar a moldura e alterar o quadro, saquear sem escrúpulos o tesouro que se lhe oferecia... Dumas transforma os personagens principais em secundários, os que foram humildes comparsas tornam-se protagonistas, e enche páginas com incidentes que na crónica real ocupam duas linhas. Nunca existiu o pacto de amizade entre d'Artagnan e os seus companheiros, particularmente porque alguns nem sequer se conheceram entre si... Aramis foi Henri de Aramitz, escudeiro, abade laico na senescalia de Oloron, alistado em 1640 nos mosqueteiros comandados pelo seu tio. Acabou retirado nas suas terras, com mulher e quatro filhos. Quanto a Porthos...- Não me diga que também houve um Porthos.- Houve. Chamou-se Isaac de Portau e deve ter conhecido Aramis, ou Aramitz, porque entrou para os mosqueteiros três anos depois dele, em 1643. Segundo as crónicas, morreu prematuramente: doença, guerra ou um duelo, como Athos.
Corso tamborilou com os dedos sobre as Memórias de d'Artagnan e abanou um pouco a cabeça. Sorria.
- Daqui a bocado vai dizer-me que também existiu uma Milady...- Exacto. Mas não se chamava Anne de Brieul nem foi duquesa de Winter. Também não tinha uma flor-de-lis no ombro, embora fosse agente de Richelieu. Chamava-se condessa de Carlille e, com efeito, roubou num baile os pingentes de diamantes ao duque de Buckhingam. Não me olhe com essa cara. La Rochefoucauld conta-o nas suas memórias. E La Rochefoucauld era um homem muito sério.
Corso observava-me fixamente. Não parecia dos que se admiram com facilidade, e muito menos em questões de livros, mas mostrava-se impressionado. Depois, quando o conheci melhor, cheguei a perguntar a mim mesmo se a admiração era sincera ou apenas uma das suas retorcidas argúcias profissionais. Agora, que tudo terminou, creio ter incerteza: eu era uma fonte mais de informações e Corso ia dando fio ao papagaio.- Tudo isto é muito interessante - disse.
- Se for a Paris, Replinger poderá contar-lhe muito mais do que eu. - Olhei para o original em cima da mesa. - Embora não saiba se compensará a despesa de uma viagem... Quanto pode valer esse capítulo no mercado? Mordeu de novo a extremidade do lápis com uma expressão céptica.- Não muito. Na realidade, vou por causa de outro assunto. Sorri com uma tristeza cúmplice. Entre os meus escassos bens encontra-se um Quijote de Ibarra e um Wolkswagen. Como é óbvio, o automóvel custou-me mais do que o livro.
- Sei a que se refere - disse, em tom solidário.
Corso arvorou uma expressão que podia ser interpretada como de resignação. Os seus incisivos de roedor assomavam num trejeito azedo:- Até que os Japoneses se fartem de Van Gogh e de Picasso - comentou - e passem a investir tudo em livros raros.
Recostei-me na cadeira, escandalizado.
- Que Deus nos valha quando isso acontecer.
- Fale por si. - Olhava-me com ar indolente através dos óculos torcidos. -Eu penso encher-me, Senhor Balkan.
Guardou o bloco no bolso do sobretudo ao mesmo tempo que se levantava, pendurando ao ombro a bolsa de lona. Não pude deixar de apreciar o seu aspecto equivocamente sereno, com aqueles óculos de aros de metal sempre instáveis sobre o nariz. Mais tarde soube que vivia só, entre livros próprios e alheios, e além de caçador de aluguer era perito em jogos de simulação napoleónicos, capaz de reproduzir de memória, sobre um tabuleiro, a ordem de batalha exacta na véspera de Waterloo: uma história familiar, um tanto estranha, que só muito mais tarde consegui conhecer em pormenor. Devo admitir que, evocado assim, Corso parece desprovido do mínimo atractivo. E, no entanto, mantendo-me fiel ao rigor com que narro esta história, devo admitir que, com a sua desajeitada aparência, precisamente devido aquela lentidão que podia ser - ignoro como o conseguia - cáustica e desamparada, ingénua e agressiva ao mesmo tempo, possuía aquilo que as mulheres chamam um quê e os homens simpatia. Sentimento positivo que se esfuma quando apalpamos o bolso e verificamos que acabam de nos roubar a carteira.
Corso pegou no manuscrito e acompanhei-o até à porta. Parou para me apertar a mão no vestíbulo, onde os retratos de Stendhal, Conrad e Valle-Inclán observam carrancudos a atroz litografia que o conjunto dos vizinhos, com o meu único voto contra, decidiu pendurar há alguns meses no patamar da escada.
Só então tive coragem para lhe fazer a pergunta:- Confesso que sinto curiosidade em saber onde encontraram isso. Deteve-se, indeciso, antes de responder. Analisava com certeza os prós e os contras. Mas eu tinha-o recebido amavelmente e estava em dívida para comigo. Como também podia voltar a precisar de mim, não tinha opção.- Talvez o senhor o conhecesse - acabou por responder. - O manuscrito foi comprado pelo meu cliente a um tal Taillefer.
Esbocei uma expressão de surpresa, sem exagerar.- Enrique Taillefer?... O editor?
O seu olhar vagueava pelo vestíbulo. Por fim, abanou a cabeça uma vez, para cima e para baixo.
- O próprio.
Ficámos ambos em silêncio. Corso encolheu os ombros e eu sabia muito bem porquê. A causa podia ser encontrada nas páginas de notícias de qualquer jornal: Enrique Taillefer tinha morrido há uma semana. Tinham-no encontrado enforcado no salão de sua casa, com o cordão do robe de seda em volta do pescoço e os pés girando no vácuo sobre um livro aberto e um jarrão de porcelana em bocados.
Algum tempo depois, quando tudo terminou, Corso acedeu a contar-me o resto da história. Posso assim reconstituir agora, com razoável fidelidade, certos factos que não presenciei: o encadeado de circunstâncias que conduziram ao fatal desenlace e à solução do enigma existente em torno de O Clube Dumas. Graças às confidências do caçador de livros, posso fazer de doutor Watson nesta história e contar-lhes que o acto seguinte se iniciou uma hora depois da nossa entrevista, no bar de Makarova. Flavio La Ponte, sacudindo a água, foi instalar-se ao balcão, junto de Corso, e pediu uma imperial enquanto recuperava o fôlego. Depois olhou para a rua, ufano e satisfeito como se tivesse acabado de a atravessar sob o fogo de franco-atiradores. Chovia com uma intensidade bíblica.- A firma comercial Armengol e Hijos, Libros Antiguos e Curiosidades Bibliográficas está a pensar levar-te a tribunal - disse, com a barba loura e revolta perlada de espuma de cerveja em redor da boca. - - O advogado deles acaba de telefonar.
- De que me acusam? - perguntou Corso.
- De enganar uma velhota e lhe saqueares a biblioteca. Juram que tinham essa operação combinada.
- Tivessem madrugado, como eu fiz.
- Foi o que lhes disse, mas estão furiosos. Quando foram ver o lote, tinham voado o Persiles e o Fuero Real de Castilla. Além disso, fizeste uma avaliação do restante muito acima do seu valor. Agora, a proprietária nega-se a vender e pede o dobro do que lhe oferecem...- Bebeu um gole de cerveja enquanto, risonho e cúmplice, lhe piscava o olho. - Essa bonita manobra chama-se encravar uma biblioteca.- Sei como se chama. - Corso descobria o canino num sorriso maldoso. - E Armengol e Hijos também sabem.
- Uma crueldade desnecessária - precisou La Ponte, objectivo.- Mas o que mais lhes dói é o Fuero Real. Dizem que tê-lo levado foi um golpe baixo da tua parte.
- Ia mesmo deixá-lo ali: glosa latina de Díaz de Montalvo, sem indicações tipográficas mas impresso em Sevilha, Alonso del Puerto, provavelmente em 1482... - Ajeitou os óculos com o indicador para olhar o amigo. - Que achas?
- Eu acho óptimo, mas eles estão muito nervosos.- Tomem chá de tília.
Eram horas do aperitivo. Havia poucos lugares livres ao balcão e todos se apertavam ombro com ombro, por entre o fumo dos cigarros e o rumor de conversas, procurando evitar com os cotovelos os charcos de espuma em cima do balcão.
- E pelos vistos - continuou La Ponte - o Persiles é a edição príncipe. Encadernação assinada por Trautz-Bauzonnet. Corso negou com a cabeça.
- Por Hardy. Em fino marroquim.
- Ainda melhor. De qualquer forma, garanti que não tinha nada a ver com isso. Já sabes que sou alérgico a processos.
- Mas não aos teus trinta por cento.
O outro ergueu uma mão com dignidade.
- Alto aí. Não mistures alhos com bugalhos, Corso. Uma coisa é a belíssima amizade que nos une, e outra, muito diferente, o pão dos meus filhos.- Tu não tens filhos.
La Ponte fez uma expressão maliciosa.
- Dá-me tempo. Ainda sou muito novo.
Era baixinho, bonito, vaidoso e requintado, com o cabelo a ficar ralo no alto da cabeça. Compô-lo um pouco com a palma da mão, estudando o resultado no espelho do bar. Depois circundou em redor os olhos profissionais, procurando uma eventual presença feminina. Estava sempre tão atento a esse género de coisas como a introduzir frases breves na conversa. O pai, um livreiro muito culto, ensinara-o a escrever ditando-lhe textos de Azorín. Poucos se recordavam já de Azorín, mas La Ponte continuava a construir frases como ele. Com muitos pontos e todas seguidas. Aquilo dava-lhe um certo verniz dialéctico na altura de seduzir as clientes no quarto das traseiras da sua livraria da Calle Mayor, onde guardava os clássicos eróticos.
- Além disso - acrescentou, reatando o fio - , tenho assuntos pendentes com Armengol e Filhos. Delicados. Rentáveis a curto prazo.- Também comigo - fez notar Corso por cima da cerveja. - És o único livreiro pobre com quem trabalho. E esses exemplares és tu quem os vai vender.
- Está bem. - La Ponte desculpava-se, imparcial. - Já sabes que sou um tipo prático. Pragmático. Terra-a-terra.
- Eu sei.
- Imagina um filme do Oeste. Quando muito, a título de amigo, apanharia com um tiro no ombro.
- Quando muito - admitiu Corso.
- Seja como for, isso é indiferente. - La Ponte olhava em volta, distraído. -Já tenho comprador para o Persiles.
- Então paga-me outra imperial. Por conta da tua comissão. Eram velhos amigos. Gostavam da cerveja com muita espuma e do gin Bois em caneca marinheira de barro escuro; mas, acima de tudo, de livros antigos e dos velhos leilões do Madrid castiço. Tinham-se conhecido há já muitos anos, quando Corso farejava livrarias especializadas em autores espanhóis por conta de um cliente, interessado numa Celestina fantasma que alguém citava como anterior à edição conhecida de 1499. La Ponte não tinha esse livro; nem sequer tinha ouvido falar dele. Mas dispunha de uma edição do Diccionario de rarezas e inverosimilitudes bibliográficas de Júlio Ollero, onde se aludia ao tema. Da conversa sobre livros derivou uma certa afinidade, selada quando La Ponte fechou o estabelecimento e juntos esvaziaram tudo o que havia para esvaziar no bar de Makarova, enquanto trocavam cromos de Melville, a bordo de cujo Pequod, e nas fugas a Azorín, La Ponte foi criado desde pequeno. "Chama-me Ismael", disse ao ultrapassar a linha de sombra da terceira Bois de enfiada. E Corso chamou-lhe Ismael, citando além disso, de memória e em sua honra, o episódio da forja do arpão de Achad:
Três cortes foram dados na carne pagã, e o fio para a baleia branca adquiriu a sua têmpera...
Aquilo foi devidamente regado, até que La Ponte deixou de olhar as raparigas que entravam e saíam do bar para jurar a Corso amizade eterna. No fundo, era um fulano um tanto ingénuo - apesar do seu cinismo militante e da bafienta profissão de livreiro alfarrabista que exercia - e ignorava que o seu novo amigo dos óculos tortos executava uma subtil manobra de abordagem: ao folhear os seus alfarrábios tinha localizado alguns títulos com que pensava negociar. Mas a verdade é que La Ponte, com a sua barbicha loura e encaracolada, os olhos doces de marinheiro Billy Budd e os sonhos de frustrado caçador de baleias, conseguiu despertar a simpatia de Corso. Era, inclusivamente, capaz de recitar a lista completa de tripulantes do Pequod - Achab, Stubb, Starbuck, Flask, Perth, Parsi, Queequeg, Tasthego, Daggoo... - os nomes de todos os barcos citados em Moby Dick - Goney, Town-Ho, Jeroboam, Jungfrau, Bouton de Rose, Soltero, Deleite, Raquel... - e, além disso, prova suprema, sabia perfeitamente o que era o âmbar cinzento. Falaram de livros e de baleias. E assim foi fundada naquela noite a Irmandade de Arpoadores de Nantucket, com Flavio La Ponte secretário-geral, Lucas Corso tesoureiro e os dois os únicos membros sob o apadrinhamento tolerante de Makarova, que se negou a cobrar a última rodada para acabar partilhando com eles uma garrafa extra de gin.
- Vou a Paris - disse Corso, olhando pelo espelho uma mulher gorda que introduzia moedas de quinze em quinze segundos na ranhura da máquina de jogo, como se a musiquinha e o movimento das imagens de cores, frutas e sinos a fossem manter ali, hipnotizada e imóvel, à excepção da mão que accionava os manípulos do jogo, até à consumação dos séculos. - Vou tratar do teu Vinho de Anjou.
Viu o amigo franzir o nariz e observá-lo de través. Paris equivalia a gastos extra, complicações. La Ponte era um livreiro modesto e tacanho.- Bem sabes que não me posso permitir isso.
Corso esvaziava lentamente o seu copo.
- Claro que podes. - Tirou do bolso umas moedas para pagar a rodada. - Vou tratar de outro assunto.
- Outro assunto - repetiu La Ponte, olhando-o com interesse. Makarova pôs mais duas cervejas no balcão. Era grande, loura e quarentona, com o cabelo curto e uma argola numa orelha, recordação de quando navegava a bordo de um pesqueiro russo. Usava calças justas e camisa com as mangas arregaçadas até aos ombros, e os bíceps excessivamente fortes não eram a única coisa masculina que se podia farejar nela. Tinha sempre um cigarro aceso ao canto da boca, deixando-o consumir-se lá. Com o seu ar báltico e a forma que tinha de se mover, parecia um operário ajustador numa fábrica de peças metálicas em Leninegrado.
- Li o livro - disse dirigindo-se a Corso e arrastando os erres. Ao falar, a cinza do cigarro caía-lhe sobre a camisa húmida. - Essa fulana, a Bovary, mas que idiota...
- Satisfaz-me que tenhas captado o fundo da questão. Makarova limpou o balcão com um pano. Do outro extremo da barra, Zizi vigiava-a enquanto fazia tilintar a caixa registadora. Era o pólo oposto de Makarova: muito mais nova, pequenina e muito ciumenta. Às vezes, na hora de fechar, já bêbadas, brigavam com violência diante dos últimos clientes de confiança. Numa ocasião, depois de uma dessas broncas e com um olho negro, Zizi abandonara-a, vingativa e furiosa. Até voltar, três dias mais tarde, as lágrimas de Makarova foram fazendo dup-clup ao caírem dentro dos copos de cerveja. Naquela noite, fecharam cedo e viram-nas partir abraçadas pela cintura, beijando-se nos portais como duas jovenzinhas apaixonadas.
- Vai a Paris. - La Ponte apontou para Corso com um movimento de cabeça.- Vai tirar ases da manga.
Makarova pegou nos copos vazios enquanto observava Corso através do fumo do seu cigarro.
- Tens sempre qualquer coisa escondida - disse, gutural e desapaixonadamente. - Em qualquer lado.
Colocou depois os copos no lava-loiça e foi atender outros clientes, balançando os ombros quadrados. Corso era o único exemplar masculino que escapava ao seu desdém pelo sexo oposto e costumava proclamá-lo quando se recusava a cobrar-lhe um copo. Até Zizi o olhava com uma certa neutralidade. Numa ocasião em que Makarova foi detida por ter partido a cara a um guarda numa manifestação de gays e lésbicas, Zizi tinha esperado toda a noite sentada num banco da esquadra. Corso fez-lhe companhia com sandes e uma garrafa de gin, depois de recorrer aos seus contactos na polícia para amenizar as coisas. Tudo aquilo punha La Ponte extraordinariamente ciumento.
- Porquê Paris? - perguntou, embora tivesse a atenção presa noutro lado. O seu cotovelo esquerdo acabava de enfiar-se em algo deliciosamente suave. Parecia encantado por descobrir que a sua vizinha de barra era uma jovem loura com umas mamas enormes.
Corso bebeu outro gole de cerveja. > - Também vou a Sintra, em Portugal. -Continuava a olhar a gorda da máquina de jogo. Depenada pela jogatana, dava uma nota a Zizi para que lha trocasse em moedas. - É uma coisa do Varo Borja.
Ouviu o amigo assobiar por entre os dentes: Varo Borja, o mais importante livreiro do país. O seu catálogo era conciso e selecto, além de que possuía uma sólida reputação como bibliófilo que não olhava a gastos. Impressionado, La Ponte pediu mais cerveja e mais pormenores, com aquele seu ar de ave de rapina que lhe surgia automaticamente ao ouvir a palavra livro. O seu carácter, embora fosse um sovina e um cobarde confesso, não incluía a inveja, excepto no tocante à propriedade de mulheres bonitas e disponíveis. No âmbito profissional, à parte a satisfação de adquirir boas peças com poucos riscos, sentia um sincero respeito pelo trabalho e pela clientela do amigo.
- Ouviste falar de As Nove Portas?
O livreiro, que remexia sem pressa nos bolsos para que Corso também pagasse aquela rodada, preparando-se para se voltar e estudar mais pormenorizadamente a sua opulenta vizinha, pareceu esquecer tudo num ápice. Ficou com a boca aberta.
- Não me digas que Varo Borja quer esse livro... Corso colocou as suas últimas moedas em cima do balcão. Makarova trazia mais duas imperiais.
- Já o tem há algum tempo. E pagou uma fortuna por ele.- Claro que pagou. Só há três ou quatro exemplares conhecidos.- Três - precisou Corso. Um estava em Sintra, na colecção Fargas. Outro, na fundação Ungern, em Paris. E o terceiro, procedente do leilão da biblioteca Terral-Coy, de Madrid, era o adquirido por Varo Borja. Interessadíssimo, La Ponte acariciava a barba encaracolada. Era óbvio que tinha ouvido falar de Fargas, o bibliófilo português. Quanto à baronesa Ungern, aquela velha louca tinha-se tornado milionária escrevendo livros sobre ocultismo e demonologia. O seu último êxito, Isis Nua, pulverizava os números de vendas nas grandes livrarias.
- O que não compreendo - disse La Ponte - é o que tens tu a ver com isso.- Conheces a história do livro?
- Muito por alto - admitiu o outro. Corso molhou um dedo na espuma da cerveja e pôs-se a fazer desenhos no mármore do balcão.- Época: meados do século XVII. Cenário: Veneza. Protagonista: um impressor chamado Aristide Torchia, que se lembra de editar o chamado Livro das Nove Portas do Reino das Sombras, uma espécie de manual para invocar o Diabo... Os tempos não são para esse tipo de literatura: o Santo Ofício consegue, sem grande esforço, que lhe entreguem Torchia. Acusações: artes diabólicas e os correspondentes anexos, agravados, segundo dizem, pelo facto de ter reproduzido nove gravuras do famoso Delomelanicon, o clássico dos livros negros, que a tradição atribui à mão do próprio Lúcifer...
Makarova tinha-se aproximado, do outro lado do balcão, e ouvia interessada, enxugando as mãos à blusa. La Ponte, quando ia a levantar o copo, estacou com uma instintiva expressão de avidez profissional.- O que aconteceu à edição?
- É fácil de imaginar: fizeram com ela uma linda fogueira. - Corso arvorou um ar maldoso e cruel; parecia lamentar verdadeiramente não ter assistido ao espectáculo. - Também contam que, quando ardeu, se ouviu o Diabo gritar.
Com os cotovelos apoiados sobre as marcas húmidas junto das torneiras da cerveja de pressão, Makarova emitiu um grunhido céptico. A sua circunspecção loura, nórdica e viril era incompatível com superstições e névoas meridionais. La Ponte, mais sugestionável, enfiou o nariz na cerveja, acometido de repentina sede.
- Quem devem ter ouvido gritar foi o impressor, calculo.- Claro!
La Ponte estremeceu ao imaginar a cena.
- Torturado - continuou Corso - com esse brio profissional que a Inquisição sempre demonstrava face às artes do Maligno, o impressor acabou por confessar, entre um grito e outro, que ainda havia um livro, um único, escondido a salvo em determinado lugar. Depois fechou a boca e não tornou a abri-la até o queimarem vivo. Mesmo nessa altura, foi só para dizer ai! Makarova dedicou um sorriso de desprezo à memória do impressor Torchia, ou talvez aos verdugos incapazes de lhe arrancarem o último segredo. La Ponte franzia as sobrancelhas.
- Dizes que apenas se salvou um livro - objectou - mas antes tinhas falado de três exemplares conhecidos.
Corso tinha tirado os óculos e observava-os em contraluz para verificar a limpeza das lentes.
- Ora aí está o problema - disse. - Os livros foram aparecendo e desaparecendo por entre guerras, roubos e incêndios. Ignora-se qual deles é o autêntico.
- Talvez sejam todos falsos - sugeriu o bom senso de Makarova.- Talvez. E eu tenho de decifrar a incógnita, averiguando se Varo Borja tem o original ou se lhe deram gato por lebre. É por isso que vou a Sintra e a Paris. - Ajeitou os óculos para fitar La Ponte. - De caminho, trato do teu manuscrito.
O livreiro concordou, pensativo, vigiando pelo canto do olho a rapariga das mamas grandes reflectida no espelho do bar.
- Comparado com isso, parece ridículo fazer-te perder tempo com Os Três Mosqueteiros...
- Ridículo? - Makarova abandonava a sua posição neutral para se mostrar agora realmente ofendida. - É o melhor romance que li em toda a minha vida!
Sublinhou a afirmação com uma palmada no balcão, e os músculos retesaram-se-lhe nos antebraços nus. Boris Balkan teria gostado de ouvir isso, pensou Corso. Na lista particular de best-sellers de Makarova, para quem ele funcionava como assessor literário, o romance de Dumas partilhava as honras de estrela com Guerra e Paz, A Colina de Watersbip ou Carol, de Highsmith, por exemplo.
- Tem calma - disse a La Ponte. - Tenciono debitar as despesas a Varo Borja. Embora ache que o teu Vinho de Anjou é autêntico... Quem ia falsificar uma coisa dessas?
- Há gente para tudo - afirmou Makarova, com infinita sabedoria. La Ponte partilhava a opinião de Corso: naquele caso, uma manipulação era absurda. O defunto Taillefer garantira-lhe a autenticidade: punho e letra de Alexandre Dumas. E Taillefer era de confiança.- Costumava levar-lhe antigos folhetins; comprava todos. - Bebeu um gole, deixando escapar uma risadinha por sobre a borda do copo. - Um bom pretexto para ver as pernas da mulher dele, uma loura fabulosa, espectacular. Ora uma vez vi-o abrir uma caixa e colocar O Vinho de Anjou em cima da mesa. "É seu", disse-me à queima-roupa, "se se encarregar de uma peritagem formal e o puser à venda a seguir ..." Um cliente reclamou a atenção de Makarova pedindo uma cerveja sem álcool, e ela mandou-o passear. Continuava imóvel junto ao balcão, com o cigarro a consumir-se ao canto da boca e os olhos semi-cerrados por causa do fumo, pendente da história.
- É tudo? - perguntou Corso.
La Ponte fez um gesto vago.
- Praticamente tudo. Tentei dissuadi-lo, pois conhecia o seu entusiasmo. Era um desses fulanos capazes de vender a alma por uma raridade. Mas estava decidido. "Se não for o senhor, será outro", afirmou. Aí, claro que me tocou na veia. Refiro-me à veia comercial.
- Explicação desnecessária - precisou Corso. - E a única veia que te conheço.
Em busca de calor humano, La Ponte voltou-se para os olhos cor de chumbo de Makarova, mas desistiu ao primeiro olhar. Havia neles o mesmo calor que num fiorde norueguês às três da madrugada.- Como é bom sentir-me assim amado - disse por fim, despeitado e mordaz. Não havia dúvida que o indivíduo apreciador da cerveja sem álcool tinha sede, observou Corso, porque voltou a insistir. Makarova, olhando-o de soslaio e sem mudar de posição, sugeriu que fosse procurar outro bar antes que lhe partissem a cabeça. Depois de meditar um pouco, o fulano pareceu compreender a essência da mensagem e saiu dali.- Enrique Taillefer era um tipo estranho. - La Ponte alisava uma vez mais o cabelo por sobre a calva incipiente do alto da cabeça, sem nunca perder de vista no espelho a opulenta loura. - Queria que eu vendesse o manuscrito dando publicidade ao caso. - Baixou a voz para evitar inquietar a loura. -"Alguém vai ter uma surpresa", disse-lhe, misterioso, piscando-me o olho como alguém que se propõe pregar uma partida. E quatro dias depois estava morto.
- Morto - repetiu Makarova em tom gutural, saboreando a palavra e cada vez mais interessada.
- Suicídio - esclareceu Corso, mas ela encolheu os ombros, como se entre o suicídio e o assassínio não houvesse grande diferença. Havia um manuscrito duvidoso e um morto seguro: era o suficiente para justificar o enredo. Ao ouvir falar de suicídio, La Ponte fez um lúgubre gesto afirmativo:- É o que dizem.
- Não pareces muito convencido.
- E não estou. É tudo muito estranho. - Franziu outra vez a testa, carrancudo, esquecendo o espelho. - Cheira-me mal.- Taillefer nunca te contou como obtivera o manuscrito?- A princípio, não lhe perguntei. Depois, já era tarde.- Falaste com a viúva?
A alusão desanuviou o cenho do livreiro. Agora sorria de orelha a orelha.- Reservo-te esse episódio. - O seu tom era o de quem recorda um truque estupendo esquecido na cartola. - Assim cobras em géneros, pois não te posso oferecer nem a décima parte do que vais arrancar a Varo Borja pelo seu Livro dos Nove Camelos.
- Faço o mesmo contigo quando descobrires um Audubon e te transformares num livreiro milionário. Limito-me a adiar as cobranças. La Ponte voltou a mostrar-se magoado. Para um cínico da sua envergadura, observou Corso, parecia muito sensível à hora do aperitivo.- Julguei que me apoiavas por amizade - protestou. - Bem vês, o Clube dos Arpoadores de Nantucket e tudo isso.
- Amizade. - Corso olhou em volta, esperando que alguém lhe explicasse a palavra. - Os bares e os cemitérios estão cheios de amigos imprescindíveis.- De que lado estás, malvado?
- Do dele - suspirou Makarova. - -Corso está sempre do lado dele próprio. Desolado, La Ponte verificou que a loura das mamas grandes saía pelo braço de um fulano elegante, com andar de manequim. Corso continuava a olhar para a gorda da máquina de jogo. Desaparecida a sua última moeda, permanecia junto da máquina, desconcertada e vazia, com as mãos caídas ao longo do corpo. Substituía-a em frente das alavancas e dos botões um indivíduo alto e moreno, com um farto bigode preto e uma cicatriz na cara. O seu aspecto despertou em Corso uma lembrança familiar, fugaz, esfumada, que não chegou a concretizar-se. Para desespero da mulher gorda, a máquina vomitava agora uma ruidosa avalanche de moedas. Makarova convidou Corso para uma última cerveja. Desta vez, La Ponte teve de pagar a sua.
OceanofPDF.com