O Clube Dumas

Arturo Pérez-Reverte · Capítulo 5 de 16

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O Clube Dumas

Capítulo V

REMEMBER

Continuava sentado tal como o deixara, no seu cadeirão em frente da lareira.

(A. Christie.

O Assassinato de R. Ackroyd)

É aqui que entro em cena pela segunda vez, pois foi então que Corso recorreu a mim de novo. Creio recordar que o fez uns dias antes de ir para Portugal. Segundo me confirmou mais tarde, nessa altura já suspeitava que o manuscrito Dumas e As Nove Portas de Varo Borja eram apenas pontas de um iceberg e que para a sua compreensão era necessário conhecer antes as outras histórias que se atavam umas às outras da mesma forma que aquela gravata nas mãos de Enrique Taillefer. Isso não era fácil, cheguei a dizer-lhe, pois em literatura nunca há limites nítidos; tudo se apoia em algo, as coisas sobrepõem-se umas às outras e acabam por ser um complicado jogo intertextual à base de espelhos e de bonecas russas, onde estabelecer um facto exacto, uma paternidade concreta, implica riscos que apenas certos colegas muito estúpidos ou muito seguros de si mesmos se atrevem a correr. É o mesmo que dizer que se pode relacionar o Quo Vadis com Robert Graves, mas não com Suetónio ou Apolónio de Rodes. Quanto a mim, apenas sei que não sei nada. E quando quero saber, procuro nos livros, a quem a memória nunca falha.

- O conde de Rochefort é um dos mais importantes personagens secundários de Os Três Mosqueteiros - expliquei a Corso, quando me veio procurar outra vez. - É agente do cardeal, amigo de Milady e o Primeiro inimigo que d'Artagnan arranja. Posso até dizer a data precisa: a primeira segunda-feira de Abril de 1625, em Meungsur-Loire... refiro-me ao Rochefort de ficção, como é óbvio, embora tenha existido um personagem similar que Gatien de Courtilz, nas supostas Memórias do verdadeiro d'Artagnan, descreve sob o nome de Rosnas... Mas o Rochefort da cicatriz não teve existência real. Dumas foi buscar esse personagem a um outro livro, as Memoires de MLCDR (Monsieur le comte de Rochefort), possivelmente apócrifas e atribuídas também a Courtilz... Há quem diga que poderiam referir-se a Henri Louis de Aloigny, marquês de Rochefort, nascido cerca de 1625; mas isso já é querer ir longe de mais.

Olhei as luzes do tráfico vespertino que fluía nas avenidas, do outro lado da montra do café onde tenho a minha tertúlia. Acompanhavam-nos alguns amigos em redor da mesa coberta por jornais, copos e cinzeiros fumegantes: dois escritores, um pintor na fossa, uma jornalista na berra, um actor de teatro e quatro ou cinco estudantes dos que se sentam num canto e mantêm a boca fechada durante todo o tempo, olhando-nos como quem olha para Deus. Entre eles, com o sobretudo vestido e o ombro apoiado ao vidro da montra, Corso bebia gin e tomava notas de vez em quando.- A verdade - acrescentei - é que o leitor passa os sessenta e sete capítulos de Os Três Mosqueteiros esperando o duelo que confronte Rochefort com d'Artagnan e acaba decepcionado. Dumas despacha a questão em três linhas e escamoteia a ocorrência ou as ocorrências; é que, quando reencontramos o personagem em Vinte Anos depois, d'Artagnan e ele já se bateram três vezes e Rochefort tem no corpo outras tantas cicatrizes de estocadas. No entanto, já não existe entre eles ódio mas apenas aquele estranho respeito que só é possível entre dois velhos inimigos. De novo os acasos da aventura fazem com que ambos militem em campos diferentes, mas com a cumplicidade amistosa de dois gentis-homens que se conhecem há já vinte anos. Rochefort cai em desgraça perante Mazarino, foge da Bastilha, participa na evasão do duque de Beaufort, conspira na Fronda e morre nos braços de d'Artagnan, que, numa desordem, o atravessa com a sua espada sem o reconhecer... "Era o meu destino", diz ao gascão, mais ou menos por estas palavras. "Curei-me de três estocadas vossas, mas não me curarei da quarta". E morre. "Acabo de matar um antigo amigo", contará d'Artagnan a Porthos. É este o único epitáfio pelo velho agente de Richelieu. Aquilo despoletou uma animada discussão em vários quadrantes. O actor, um velho galã que interpretou Montecristo numa série televisiva e que nessa tarde não tirava os olhos da jornalista, lançou-se na brilhante exposição das suas recordações sobre os personagens, incitado pelo pintor e pelos dois escritores. Assim, passámos de Dumas a Zevaco e a Paul Féval e> acabámos estabelecendo uma vez mais a indiscutível superioridade de Sabatini em relação a Salgari. Lembro-me que alguém mencionou timidamente Júlio Verne, mas foi alvo dos assobios gerais. Naquele apaixonado contexto de capa e espada, Verne e os seus heróis frios, desprovidos de alma, não tinham aceitação.

Quanto à jornalista, uma dessas raparigas modernas com coluna no suplemento dominical de um jornal importante, a sua memória literária começava em Milan Kundera. Assim, manteve-se durante quase todo o tempo numa prudente expectativa, participando com alívio de cada vez que algum título, enredo ou personagem - o Cisne Negro, Yánez, a estocada de Nevers - lhe despertava a recordação de um filme visto na televisão. Entretanto, Corso, paciente como o caçador sereno que era, não tirava os olhos do seu copo de gin, atento à ocasião para voltar outra vez ao tema. Foi o que fez, com efeito, aproveitando o silêncio embaraçoso que se instalou em torno da mesa quando a jornalista declarou que a verdade é que considerava os relatos de aventuras demasiado ligeiros. Superficiais, não sei se me compreendem. Isto é...

Corso mordiscava a borracha do seu lápis Faber:- Senhor Balkan, como interpreta o papel de Rochefort na história? Olharam-me todos, especialmente os estudantes, dos quais duas eram raparigas. Não sei por que razão, em determinados meios consideram-me uma espécie de bonzo das letras e sempre que abro a boca as pessoas ficam suspensas, prontas para ouvir dogmas de fé. Inclusivamente, um artigo meu na revista literária própria pode consagrar ou deitar por terra um escritor que começa. Absurdo, absolutamente de acordo, mas é a vida. Reparem, por exemplo, no último Prémio Nobel, o autor de Eu, Onán, em busca de Mim Mesmo e do arquifamoso Oui, c'est moi. Foi a minha assinatura que o pôs em circulação há quinze anos, com coluna e meia no Le Monde, no dia dos Santos Inocentes. Nunca me Perdoarei isso, mas é assim que estas coisas funcionam.

A princípio, Rochefort é o inimigo - expliquei. - Simboliza as forças ocultas, a negra rede... É o agente da conspiração diabólica em torno de d'Artagnan e dos seus amigos; a teia do cardeal que se tece na sombra, pondo em xeque as suas vidas...

Vi uma das estudantes sorrir, mas não consegui adivinhar se a sua expressão, absorta e um tanto trocista, era consequência das minhas palavras ou de secretas reflexões alheias à tertúlia. Fiquei surpreendido, pois já disse que os estudantes costumam ouvir-me com o respeito que mostraria um redator do Osservatore Romano ao receber em exclusivo o texto de uma encíclica pontifícia. Aquilo fez com que reparasse nela com interesse; a verdade é que desde o início, quando se nos juntou com uma canadiana azul e um monte de livros debaixo do braço, já me chamara a atenção por causa dos seus inquietantes olhos verdes e do cabelo castanho muito curto, como o de um rapazinho. Agora mantinha-se sentada um pouco à parte, sem se integrar no grupo. Há sempre jovens em torno da nossa mesa, alunos de Literatura que costumo convidar para tomar café; mas aquela jovenzinha nunca ali estivera antes. Seria impossível esquecer os seus olhos, cuja tonalidade muito clara, quase transparente, contrastava com o rosto moreno e queimado de quem passa muito tempo ao sol e ao ar livre. Era uma dessas raparigas esguias e flexíveis, com pernas longas que também se adivinhavam morenas sob os jeans. Ainda fixei outro pormenor dela: não usava anéis, relógio ou brincos; os lóbulos das orelhas estavam intactos, sem ser furados.

- Rochefort também é o homem entrevisto mas nunca alcançado -prossegui, não sem sentir uma certa dificuldade em reatar a linha do raciocínio. - A máscara do mistério marcada com a sua cicatriz. Resume o paradoxo, a impotência de d'Artagnan, que o persegue mas não o alcança, que o quer matar e não consegue senão vinte anos depois, por engano, quando já não é um adversário mas sim um amigo.- O teu d'Artagnan, de certa maneira, é um bluff - apreciou um dos participantes da tertúlia, o escritor mais idoso. Tinha vendido quinhentos exemplares do seu último romance, mas ganhava um dinheirão publicando histórias policiais sob o perverso pseudónimo de Emilia Forster. Olhei-o com reconhecimento, grato pela oportunidade do comentário.- Não tenham dúvidas. O amor da sua vida é envenenado. Apesar das suas façanhas e dos serviços que presta à Coroa de França, passa vinte anos como obscuro tenente de mosqueteiros. E quando, nas últimas linhas de O Visconde de Bragelonne, consegue o bastão de marechal, que demorou quatro volumes e quatrocentos e vinte e cinco capítulos a conseguir, é morto por uma bala holandesa.

- Como o autêntico d'Artagnan - disse o actor, que tinha conseguido poisar uma mão na perna da prestigiada jornalista.

Bebi um gole de café antes de concordar. Corso não desviava os olhos de mim.

- Temos três d'Artagnans - esclareci. - Do primeiro, Charles de Batz Castlemore, sabemos, porque foi publicado na devida altura pela Gazeta de França, que morreu a 23 de Junho de 1673 com uma bala na garganta, durante o cerco de Maestrich. Metade dos seus homens caiu com ele... Para além desse pormenor póstumo, foi na vida apenas um pouco mais feliz do que o seu homónimo de ficção.

- Também era gascão?

- Era, de Lupiac. Essa povoação ainda existe e tem uma lápide que o recorda: "Aqui nasceu em 1615 d'Artagnan, cujo verdadeiro nome foi Charles de Batz, morto no cerco de Maestrich em 1673."- Há um desfasamento histórico - referiu Corso, consultando as suas notas. -Segundo Dumas, d'Artagnan tinha dezoito anos ao começar o romance, em 1625; mas nesse momento o verdadeiro d'Artagnan apenas tinha dez. -Sorriu como um coelho educado e céptico. - Demasiado jovem para manejar a espada.

- É verdade - concordei. - Dumas fez isso para que pudesse viver a aventura dos pingentes de diamantes com Richelieu e Luís XIII. Charles de Batz deve ter chegado a Paris muito jovem: em 1640, o seu nome figura como guarda na companhia do Senhor Des Essarts, em documentos relativos ao cerco de Arras, e dois anos mais tarde na campanha do Rossilhão... Mas nunca serviu como mosqueteiro com Richelieu, pois entrou nesse corpo de elite quando já Luís XIII tinha morrido. O seu verdadeiro protector foi o cardeal Júlio Mazarino. Existe, com efeito, esse salto de dez ou quinze anos entre os dois d'Artagnans; embora Dumas, que depois do êxito de Os Três Mosqueteiros ampliou a acção a abranger quase quarenta anos da história de França, tenha ajustado mais a ficção romanesca aos factos reais nos volumes seguintes.

- Quais são os factos comprovados? Refiro-me às actuações históricas do autêntico d'Artagnan.

- Bastantes. O seu nome aparece na correspondência de Mazarino e na do Ministério da Guerra. Tal como o herói de ficção, actuou como agente do cardeal durante a insurreição da Fronda e teve cargos de confiança na corte de Luís XIV. Encarregaram-no, inclusivamente, da delicada detenção e escolta do Ministro das Finanças, Fouquet, facto confirmado pela correspondência de Madame de Sevigné. E pôde conhecer o nosso pintor Velázquez na ilha dos Faisões, quando acompanhou Luís XIV ao encontro da sua noiva Maria Teresa de Áustria.

- Um cortesão perfeito, pelo que vejo. Muito diferente do espadachim de Dumas.

Ergui a mão, em defesa do rigor do tema.

- Não deixe que as aparências o enganem. Charles de Batz, ou d'Artagnan, continuou a combater até à sua morte. Esteve sob as ordens de Turenne na Flandres e, em 1657, foi nomeado tenente dos mosqueteiros cinzentos, grau que equivalia a chefe efectivo dessa unidade. Dez anos mais tarde ascendeu a capitão de mosqueteiros e combateu na Flandres com esse posto, comparável a general de cavalaria.

Corso semicerrava os olhos por trás das lentes dos óculos.- Perdão. - Inclinou-se para mim por sobre o mármore da mesa com o lápis no ar, a meio de escrever uma palavra ou uma data. - Em que ano aconteceu isso?

- A passagem a general? 1667. Por que lhe chamou a atenção esse facto? Mostrou os incisivos, mordendo o lábio inferior por um instante.- Por nada. - Quando falou, o seu rosto tinha recuperado a expressão impassível. - Nesse mesmo ano queimaram em Roma um determinado indivíduo. Uma curiosa coincidência... - Agora fitava-me, neutro. - O nome de Aristide Torchia diz-lhe alguma coisa?

Tentei lembrar-me. Não fazia a mínima ideia.

- Absolutamente nada - respondi. - Tem alguma relação com Dumas ? Hesitou um instante.

- Não - disse por fim, embora parecesse longe de estar convencido. - Creio que não. Mas continue. Falava do autêntico d'Artagnan na Flandres.- Morreu em Maestrich, como disse, à frente dos seus homens. Uma morte heróica: a praça estava cercada por ingleses e franceses, era necessário atravessar uma passagem perigosa e d'Artagnan quis ir à frente por cortesia para com os seus aliados. Uma bala de mosquete despedaçou-lhe a jugular.

- Então, nunca foi marechal?

- Não. É mérito exclusivo de Alexandre Dumas conceder ao d'Artagnan fictício o que o tacanho Luís XIV negou ao seu antecessor de carne e osso. Conheço alguns livros interessantes sobre esse assunto; se quiser, tome nota dos títulos. Um é de Charles Samaran: D'Artag-nan, capitaine des mousquetaires du roi, Histoire veridique d'un héros de roman, publicado em 1912. O outro é Le vrai d'Artagnan. Foi escrito pelo duque de Montesquieu-Fezensac, descendente directo do d'Artagnan autêntico. Publicado em 1963, creio eu.

Nenhum desses pormenores tinha aparente relação directa com o manuscrito Dumas, mas Corso tomava nota deles como se disso dependesse a sua vida. De vez em quando, erguia a vista do bloco e dirigia-me olhares inquisitivos através das lentes tortas. Outras vezes, inclinava a cabeça como se deixasse de ouvir e parecia absorto em secretas meditações. Naquela altura, embora eu próprio estivesse ao corrente de todos os pormenores sobre O Vinho de Anjou, incluindo certas pistas desconhecidas do caçador de livros, encontrava-me, em contrapartida, longe de imaginar as complexas implicações que o tema de As Nove Portas ia ter na história. Mas Corso, com a sua mente habituada aos exercícios de lógica, começava já a estabelecer sinistras relações entre os factos de cuja informação dispunha e, por assim dizer, o carácter literário em que esses factos se baseavam. Tudo isto pode parecer um tanto confuso, mas devemos ter em conta que, para Corso, nessa altura, a situação o era realmente. E embora o momento temporal deste relato seja, sem dúvida, posterior ao desenlace dos graves acontecimentos que ocorreram mais tarde, uma característica circular -lembrem-se dos quadros de Escher, u do humorista Bach - obriga-nos a voltar constantemente ao início, cingindo-nos aos apertados limites da mente de Corso. Saber e calar é a regra. Mesmo quando se faz batota, sem regras não haveria jogo.

- De acordo - disse o caçador de livros, depois de anotar os títulos recomendados. - Esse é o primeiro d'Artagnan, o autêntico. E o terceiro é o fictício de Dumas. Imagino que a ligação entre ambos seja aquele livro de Gatien de Courtilz que me mostrou no outro dia: as Memoires de M. d'Artagnan.

- Exacto. É o que podemos chamar o elo perdido, o menos famoso dos três. Um gascão intermédio, literário e real ao mesmo tempo; precisamente o que Dumas utiliza para criar o seu personagem... Gatien de Courtilz de Sandras era um escritor contemporâneo de d'Artagnan que compreendeu o lado romanesco do personagem e se decidiu a escrever. Um século e meio mais tarde, Dumas tomou conhecimento da existência do livro durante uma viagem a Marselha. O dono da casa em que se hospedava tinha um irmão encarregado da biblioteca municipal. Segundo parece, o irmão mostrou-lhe o livro, editado em Colónia em 1700. Dumas compreendeu o partido que podia tirar dele, pediu-lho emprestado e nunca o devolveu.- O que sabemos desse antecessor de Dumas, Gatien de Courtilz?- Bastante. Particularmente porque tinha uma volumosa ficha policial. Nasceu em 1644 ou 1647 e foi mosqueteiro, clarim no Royal-Étranger, uma espécie de legião estrangeira da época, e capitão do regimento de cavalaria de Beaupré-Choiseul. Quando terminou a guerra da Holanda, a mesma em que d'Artagnan morreu, Courtilz ficou lá para trocar a espada pela pena, escrevendo biografias, temas históricos, memórias mais ou menos apócrifas, intrigas e histórias escabrosas da corte francesa. Isso trouxe-lhe problemas. As memórias de M. d'Artagnan tiveram um êxito assombroso: cinco edições em dez anos. Mas desagradaram a Luís XIV, pouco satisfeito com a irreverência com que eram narrados alguns pormenores da família real e seus próximos. Isso custou a Courtilz ser preso no seu regresso a França e alojar-se na Bastilha por conta do Estado até pouco antes da sua morte.

Sem que viesse a propósito, o actor aproveitou a minha pausa para meter uma frase de Na Flandres pôs-se o Sol, de Marquina: "Comandava-nos -recitou - / um capitão que vinha / muito ferido no afã / da sua última agonia. / Senhores, que capitão / o capitão daquele dia..." Ou qualquer coisa mais ou menos assim. Tratava-se de uma descarada tentativa para se exibir perante a jornalista, em cuja perna já apoiava a mão com modos de proprietário. Os outros, em especial romancista que assinava Emilia Forster, dirigiram-lhe olhares de inveja ou mal dissimulado rancor. Depois de um silêncio cortês, Corso decidiu devolver-me o controlo da situação.

- Quanto deve a Courtilz o d'Artagnan de Dumas?- Deve-lhe muito. Embora em Vinte Anos depois e no Bragelonne existam outras fontes, a história de Os Três Mosqueteiros já está basicamente em Courtilz. Dumas projecta sobre ela o seu génio e confere-lhe envergadura, embora tudo estivesse esboçado: a bênção do pai de d'Artagnan, a carta de Treville, o desafio com os mosqueteiros, que no primeiro texto são irmãos... Milady também aparece. E d'Artagnan assemelha-se a d'Artagnan como duas gotas de água. Um tanto mais cínico o de Courtilz, mais avarento e menos digno de confiança, mas é ele.

Corso inclinou-se ligeiramente sobre a mesa.

- Antes tinha dito que Rochefort simboliza a negra teia em torno de d'Artagnan e dos amigos... Mas Rochefort não passa de um esbirro.- É verdade. A soldo de Sua Eminência Armand Juan du Plessis, cardeal de Richelieu...

- O malvado - disse Corso.

- O malvado Carabel - acrescentou o actor, decidido a continuar a meter a colherada. Impressionados com a incursão folhetinesca daquela tarde, os estudantes tomavam notas ou escutavam boquiabertos. Apenas a rapariga dos olhos verdes se mantinha imperturbável, um pouco à margem, como se estivesse ali só de passagem, por acaso.

- Para Dumas - continuei, retomando o tema - pelo menos na primeira parte do ciclo de Os Mosqueteiros, Richelieu encarna o personagem imprescindível em todo o folhetim romântico de aventuras e mistério: um inimigo poderoso na sombra, a encarnação do Mal. Para a história de França, Richelieu foi um grande homem; mas em Os Mosqueteiros só é reabilitado vinte anos depois. Assim, o astuto Dumas reconciliou-se com a realidade sem prejudicar o interesse do seu romance; já tinha encontrado outro vilão: Mazarino. Essa rectificação, colocada inclusivamente na boca de d'Artagnan e dos seus companheiros quando elogiam, a título póstumo, a grandeza do seu antigo inimigo, não tem grande mérito moral. Para Dumas, era um cómodo acto de contrição... No entanto, durante o primeiro volume do ciclo, quando o cardeal planeia o assassínio de Buckhingam, a perdição de Ana de Áustria, ou dá carta branca à sinistra Milady, Richelieu encarna na perfeição o papel de malvado. Sua Eminência é para d'Artagnan o que o príncipe Gonzaga é para Lagardère, ou o professor Moriarty para Sherlock Holmes: a presença oculta e diabólica...

Corso fez um gesto para me interromper. Era estranho, pois começava a conhecer a sua maneira de ser e parecia-me mais próprio dele não intervir até que o seu interlocutor esgotasse os argumentos, fornecesse o último resquício de informação.

- Utilizou duas vezes a palavra diabólico - disse, olhando as notas que tirara. - E ambas referindo-se a Richelieu... O cardeal interessava-se pelas ciências ocultas?

Aquelas palavras provocaram uma reacção peculiar. A jovem voltara-se para olhar Corso com curiosidade. Ele olhava-me a mim e eu à rapariga. Alheio ao estranho triângulo, o caçador de livros aguardava a minha resposta.

- Richelieu interessava-se por muitas coisas - expliquei. - Além de transformar a França numa grande potência, teve tempo para coleccionar quadros, tapetes, porcelanas e estátuas. Foi também um bibliófilo importante. Encadernava os seus livros em pele de bezerro e marroquim vermelho...

- ...Com as suas armas a prata e três cantos de goles. - Corso fez um gesto impaciente; aqueles pormenores eram secundários e não precisava de mim para lhe dizer isso. - Há um catálogo Richelieu muito conhecido.- Esse catálogo é parcial, porque a colecção não se manteve intacta: parte conserva-se hoje na Biblioteca Nacional de França, na Mazarino e na Sorbona, enquanto outros livros foram parar a mãos de particulares. Possuía manuscritos hebreus e siríacos, obras notáveis de matemática, medicina, teologia, direito e história. E você acertou. O que mais surpreendeu os estudiosos foi encontrar ali muitos textos antigos sobre ciências ocultas, desde a Cabala à magia negra.

Corso engoliu em seco sem afastar os olhos dos meus. Parecia tenso: a corda de um arco prestes a fazer tump.

- Algum título concreto?

Neguei com a cabeça antes de responder. A sua insistência intrigava-me. A rapariga continuava pendente das nossas palavras, mas era evidente que agora não era eu que absorvia a sua atenção.

- Os meus conhecimentos de Richelieu como personagem de folhetim -desculpei-me - não chegam a tanto.

- E Dumas? Também se interessava por artes ocultas? Nesse ponto fui taxativo:

- Não. Dumas era um bon vivant que fazia tudo à luz do dia, para divertimento e escândalo dos seus conhecidos. Era também um tanto supersticioso: acreditava no mau-olhado, usava um amuleto na corrente do relógio e mandava ler a sina a Madame Desbarolles, mas não o imagino fazendo magia negra às escondidas. Nem sequer foi maçon, como ele próprio confessa em O Século de Luís XV... Tinha dívidas e os editores e os credores acossavam-no demasiado para andar a perder tempo. Talvez em qualquer altura, ao documentar-se para os seus personagens, tenha estudado esses assuntos, mas nunca a fundo. Pelas minhas conclusões, todas as práticas maçónicas que descreve em José Bálsamo e em Os Moicanos de Paris foram directamente extraídas da História Pitoresca da Franco-Maçonaria de Clavel.

- E Adah Menken?

Fitei Corso com sincero respeito. Aquela pergunta era de especialista.- Isso foi diferente. Adah-Isaacs Menken, a sua última amante, era uma actriz norte-americana. Durante a Exposição de 1867, quando assistia a uma representação de Os Piratas da Savana, Dumas reparou numa linda jovem que, em cena, era arrebatada por um cavalo a galope. Ao sair do teatro, a actriz abraçou o romancista e disse-lhe à queima-roupa que lera todos os seus livros e que estava disposta a ir com ele Para a cama de imediato. O velho Dumas precisava de bem menos do que isso para se entusiasmar por uma mulher e, portanto, aceitou a homenagem. Passava por ter sido esposa de um milionário, amante de um rei, generala de uma república... Na realidade, era uma judia portuguesa nascida na América e amante de um fulano estranho, misto de chulo e de pugilista. Dumas e ela tiveram uma relação escandalosa, porque a Menken gostava de tirar fotografias com muito pouca roupa e frequentava o 107 da Rua Malesherbes, a última casa de Dumas em Paris... Morreu de pentonite, aos trinta e um anos, em consequência de uma queda do cavalo.

- Interessava-se pela magia negra?

- Dizem que sim. Gostava das cerimónias estranhas, de se vestir com uma túnica, de queimar incenso e oferecer coisas ao Senhor das Trevas... Às vezes afirmava-se possessa de Satanás, com uma variada série de conotações que hoje qualificaríamos como pornográficas. Tenho a certeza que o velho Dumas nunca acreditou numa palavra, mas deve ter-se divertido muito com a encenação. Creio que quando a Menken estava possessa do Diabo era muito ardente na cama. Ressoaram gargalhadas em redor da mesa. Permiti-me inclusivamente um discreto sorriso por conta da piada, mas a rapariga e Corso permaneceram sérios. Ela parecia reflectir, com os olhos claros absortos nele, enquanto o caçador de livros concordava com a cabeça, lentamente, embora agora tivesse um ar distraído, distante. Olhava pela montra para as avenidas e parecia procurar na noite, na passagem silenciosa dos faróis dos automóveis que se reflectiam nas suas lentes, a chave que transformaria numa só todas as histórias que flutuavam, como folhas secas e mortas, nas águas negras do tempo.

Tenho de passar de novo para segundo plano, como narrador quase omnisciente das andanças de Lucas Corso. Assim, de acordo com ulteriores confidências do caçador de livros, será possível ordenar a lista de trágicos acontecimentos que se verificaram depois. Chegamos portanto ao momento em que, de volta a casa, verificou que o porteiro acabava de varrer o vestíbulo e se preparava para fechar o seu cubículo. Cruzou-se com ele quando trazia da cave os baldes do lixo.

- Esta tarde vieram reparar o seu televisor.

Corso tinha lido e visto cinema suficiente para saber o que aquilo significava, de forma que não conseguiu evitar uma gargalhada perante o porteiro estupefacto.

- Há muito tempo que não tenho televisor...

Seguiu-se uma confusa torrente de desculpas a que mal prestou atenção. Tudo começava a ser deliciosamente previsível. Visto que de livros se tratava, tinha de colocar o problema mais como leitor, lúcido e crítico do que como o protagonista de consumo barato em que alguém e empenhava em transformá-lo. Aliás, não tinha outra opção. Afinal, ele era de natureza céptica e tensão arterial baixa, seria difícil que o suor lhe perlasse a fronte ou a palavra fatalidade brotasse dos seus lábios.- Terei feito mal, Senhor Corso?

- De maneira nenhuma. O técnico era moreno, não é verdade? Com bigode e uma cicatriz na cara.

- Exactamente.

- Acalme-se. É um amigo meu, um brincalhão. O porteiro suspirou, aliviado:

- Tira-me um peso de cima.

Corso não estava inquieto por causa de As Nove Portas ou do manuscrito Dumas; quando não os trazia consigo, dentro da bolsa de lona, deixava-os em depósito no bar de Makarova. Tratando-se de objectos relacionados com ele, era o lugar mais seguro do mundo. Subiu portanto calmamente a escada, enquanto tentava imaginar a cena seguinte. Nessa altura tinha-se transformado já no que alguns denominam leitor de segundo nível, e um arquétipo excessivamente primitivo tê-lo-ia decepcionado. Mas tranquilizou-se ao abrir a porta. Não havia papéis no chão nem gavetas revolvidas nem sequer cadeirões estripados à navalhada. Estava tudo em ordem, tal como deixara ao sair às primeiras horas da tarde. Dirigiu-se para a mesa de trabalho. As caixas das disquetes estavam no seu lugar, os papéis e documentos nos seus tabuleiros tal como se lembrava de os ter deixado. O homem da cicatriz, Rochefort ou quem diabo fosse, era um tipo eficiente; mas tudo tinha um limite. Quando ligou o computador, Corso esboçou um sorriso de triunfo.

DAGMAR PC 555 K (S1) ELECTRONIC PLC UTILIZADO PELA ÚLTIMA VEZ ÀS 19,35/THU/3/21 A > ECHO OFF

A >

Utilizado às 19,35 daquele mesmo dia, informava o ecrã. Mas ele não tinha tocado no computador nas últimas vinte e quatro horas. Às 19,35 estava com os outros na tertúlia do café, enquanto o homem da cicatriz mentia ao porteiro.

Encontrou ainda mais uma coisa, que lhe passara desapercebida a princípio mas que agora descobria junto do telefone. Aquilo não era acaso nem imprevidência da parte do misterioso visitante. Num cinzeiro, entre as beatas do próprio Corso, encontrou uma recente que não era sua. Pertencia a um havano quase consumido, com a cinta intacta. Agarrou na ponta do charuto e segurou-a entre os dedos, inicialmente a princípio, até que pouco a pouco, à medida que compreendia o seu significado, começou a rir, mostrando os caninos como um lobo malicioso e divertido. A marca era Montecristo. Naturalmente.

Flavio La Ponte também tinha tido visitas. No seu caso, o canalizador.- Não tem graça nenhuma, porra! - disse à laia de cumprimento. Esperou que Makarova servisse os gins e esvaziou o conteúdo de um saquito de celofane em cima do balcão. A beata de charuto era idêntica e também tinha a cinta intacta.

- Edmundo Dantes ataca de novo - declarou Corso. La Ponte só partilhava parcialmente o espírito romanesco do caso:- Fuma charutos caros, o danado. - Tremia-lhe o pulso; derramou umas gotas de gin nos caracóis da barba loura. - Encontrei-o na minha mesa-de-cabeceira.

Corso divertia-se descaradamente:

- Devias considerar as coisas com mais calma, Flavio. Como um fulano duro. - Poisou-lhe a mão no ombro. - Lembra-te do Clube de Arpoadores de Nantucket.

O livreiro sacudiu-lhe a mão, carrancudo.

- Fui um fulano duro. Exactamente até aos oito anos, quando compreendi as vantagens da sobrevivência. A partir daí abrandei um pouco. Corso citou Shakespeare entre dois goles. O cobarde morre mil vezes e o valente etcétera. Mas La Ponte não era dos que se consolam com citações. Pelo menos com aquele género de citações.

- Na realidade, não tenho medo - disse, pensativo e cabisbaixo. - O que me preocupa é perder coisas... O dinheiro. A minha enorme potência sexual. A vida.

Eram argumentos de peso, e Corso teve de admitir que, como probabilidades, - não eram agradáveis. Além disso, acrescentou o livreiro, havia outros indícios: clientes estranhos que desejavam o manuscrito Dumas por qualquer preço, misteriosos telefonemas nocturnos... Corso arrebitou a orelha, interessado.

- Telefonam a meio da noite?

- Sim, mas não dizem nada. Ficam assim um bocado e depois desligam. Enquanto La Ponte contava as suas desgraças, o caçador de livros tocou na bolsa de lona recuperada momentos antes. Makarova tivera-a ali o dia todo, por baixo do balcão, entre caixas de garrafas e barris de cerveja.- Não sei o que hei-de fazer - concluiu La Ponte, trágico.- Vende o manuscrito e acaba com o caso. As coisas estão a sair dos eixos. O livreiro abanou a cabeça enquanto pedia outro gin. Duplo.- Prometi a Enrique Taillefer que esse manuscrito iria para venda pública.- Taillefer está morto. E tu nunca cumpriste uma promessa na tua vida. La Ponte assentiu, fúnebre, como se não houvesse necessidade de alguém recordar aquilo. Mas, de repente, algo lhe desanuviou um pouco o cenho franzido; por entre a barba adivinhava-se uma expressão apalermada. Com boa vontade, podia mesmo considerar-se um sorriso.- Pois é. Adivinha quem telefonou.

- Milady.

- Quase acertaste: Liana Taillefer.

Corso observou o amigo com um infinito cansaço. Depois, agarrou no copo de gin e esvaziou-o de um trago, sem respirar. Sabes, Flavio? - disse por fim, limpando a boca com as costas da mão. - As vezes tenho a sensação de que já li este romance antes. La Ponte franzia outra vez a testa.

Quer recuperar O Vinho de Anjou - explicou. - Tal como está, sem autentificação nem nada... - Molhou os lábios na bebida antes de sorrir a Corso, inseguro. - Estranho, esse repentino interesse, não achas?- O que lhe disseste?

O livreiro ergueu as sobrancelhas.

- Que a coisa escapava ao meu controlo. Que tu é que tens o manuscrito e que assinei um contrato contigo.

- É mentira. Não assinámos nada.

- Claro que é mentira. Mas assim passo-te a batata quente, se as coisas se complicarem. Isso não me impede de receber ofertas: a viúva e o aqui presente vão cear juntos uma destas noites. Negócios. Para discutir o caso. Sou o audaz arpoador.

- Tu não és arpoador nem és nada. És um porco bastardo e traidor.- Pois é. A Inglaterra fez-me assim, como diria esse hipócrita do Graham Greene. No colégio apelidavam-me do Não Fui Eu... Nunca te contei como passei a Matemática? - Arqueou outra vez as sobrancelhas, evocador, com uma ternura nostálgica. - Fui sempre um delator nato.- Tem cuidado com Liana Taillefer.

- Porquê? - La Ponte olhava-se no espelho do bar. Arvorou uma expressão lúbrica. - Desde que comecei a levar os folhetins ao marido que essa gaja me agrada. Tem muita classe.

- Tem - concordou Corso. - Muita classe média.- Olha lá, não sei porque te irritas tanto com isto. É perfeitamente claro.- Tem gato escondido.

- Adoro gatos. Sobretudo se as suas donas são louras e bonitas. Corso dava pancadinhas com o dedo no nó da gravata.- Ouve, idiota. Nas histórias de mistério, morre sempre o amigo. Percebes o silogismo? Esta é uma história de mistério e tu és meu amigo. - Fez-lhe uma careta carregada de lógica esmagadora. - Portanto, tens as cartas todas. Obcecado com a recordação da viúva, La Ponte não se deixava intimidar.- Pois que seja! Nunca fiz um bingo na minha vida. Além disso, já te indiquei onde me calhava bem o tiro: no ombro.- Estou a falar a sério. Taillefer está morto.

- Suicidou-se.

- Veremos. E pode morrer mais gente.

- Pois então morre tu! Desmancha-prazeres. Cabrão. O resto da noite passou-se em variações sobre o mesmo tema. Despediram-se cinco ou seis copos mais tarde, combinando telefonar-se quando Corso estivesse em Portugal. La Ponte abalou com passo inseguro e sem pagar, mas ofereceu-lhe a beata de Rochefort. Assim, disse, já ficas com o par.

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