O Clube Dumas
Capítulo VIII
POSTUMA NECAT
- Ninguém responde?
- Não.
- Tanto pior. Então é porque está morto.
(M. Leblanc. Arsène Lupin)
Corso conhecia melhor do que ninguém um dos grandes inconvenientes do seu ofício: as bibliografias são redigidas por eruditos que nunca viram os livros que citam e costumam basear-se em relatórios em segunda mão, aceitando como válidas as características referidas por outros. Desta forma, um erro ou uma resenha incompleta podem circular durante gerações sem que ninguém repare nisso, até que, por acaso, alguém o descubra. Era o caso de As Nove Portas. A parte a sua menção obrigatória nas bibliografias canónicas, as referências mais precisas incluíram sempre descrições sumárias das nove gravuras, sem grandes pormenores. Sobre a segunda estampa do livro, todos os textos conhecidos mencionavam um ancião com aspecto de sábio ou eremita, parado em frente de uma porta com duas chaves na mão; mas ninguém se preocupou nunca referir em que mão segurava as chaves. Agora Corso tinha a resposta: na esquerda na gravura do Um, e na direita na gravura do Dois.
Faltava saber o que se passava com o número Três, mas isso era impossível verificar por enquanto. Corso esteve na Quinta da Solidão até ao anoitecer. Trabalhou muito à luz do candelabro, tomando incessantemente notas e verificando diversas vezes os dois exemplares. Estudou as estampas uma a uma até confirmar a sua hipótese. E apareceram novas provas. Por fim observou na folha de papel o resultado do Seu trabalho sob a forma de notas, quadros e diagramas com estranhas relações entre uns e outros. Cinco estampas dos exemplares Um e Dois não eram idênticas. Além da mão com que o ancião segurava as chaves na II, o labirinto da IIII não tinha ou tinha saída, conforme se tratava de um exemplar ou do outro. Na estampa V, a morte mostrava uma ampulheta com a areia em baixo, no Um, ou com a areia na parte superior, no Dois. Quanto ao tabuleiro de xadrez da VII, as casas eram brancas no exemplar de Varo Borja e pretas no de Fargas. E na numerada com VIII, o carrasco prestes a decapitar uma jovem era transformado, graças a uma aura em redor da cabeça, em arcanjo vingador. E ainda encontrou mais coisas, porque o minucioso estudo à lupa acabou por dar resultados inesperados. As marcas do gravador dissimuladas nas xilografias continham outra pista subtil: em ambos os exemplares, A. T., Aristide Torchia, figurava como sculptor na estampa do ancião, mas como inventor apenas no livro número Dois. A assinatura no Um era L. E, para cuja existência Corso fora alertado pelos irmãos Ceniza. O mesmo se verificava em mais quatro estampas. Isso podia significar que todas as xilografias foram talhadas em madeira pelo próprio impressor, mas que os desenhos originais de onde copiou algumas das suas gravuras pertenciam a outra pessoa. Consequentemente, não se tratava de falsificação da época nem de reedições apócrifas. Foi o próprio impressor Torchia, com privilégio e autorização dos seus superiores, que alterou a sua própria obra tendo em vista um plano estabelecido: assinando os modificados por ele para respeitar a autoria L. F. dos outros. Só restava um exemplar, confessou aos seus carrascos. Mas, na realidade, deixava três, e uma chave de decifração que talvez os transformasse num só. O resto do segredo, levara-o para a fogueira.
Recorreu a um velho sistema de cotejo: as tábuas comparativas usadas por Umberto Eco no estudo sobre a Hanau. Depois de ordenadas no papel as estampas que continham diferenças, resultava o seguinte esquema:
UM
I -
II mão esq.
III -
IIII sem saída
V areia baixo
VI -
VII tab branco
VIII sem aura
VIIII -
DOIS
I -
II mão dir.
III -
IIII com saída
V areia cima
VI -
VII tab preto
VIII com aura
VIIII -
Quanto às marcas de gravador, as variações nas assinaturas A. T. (impressor Torchia) e L. F. (desconhecido? Lúcifer?) correspondentes ao sculptor cão" inventor ficavam assim:
I 7 II III IIII V VI VII VIII VIIII
UM
I AT(s) AT(i)
II AT(s) LF(i)
III AT(s) AT(i)
IIII AT(s) AT(i)
V AT(s) LF(i)
VI AT(s) AT(i)
VII AT(s) AT(i)
VIII AT(s) AT(i)
VIIII AT(s) AT(i)
DOIS
I AT(s) AT(i)
II AT(s) AT(i)
III AT(s) AT(i)
IIII AT(s) LF(i)
V AT(s) LF(i)
VI AT(s) AT(i)
VII AT(s) LF(i)
VIII AT(s) LF(i)
VIIII AT(s) AT(i)
Estranha cabala. Mas Corso tinha por fim algo de concreto: a existência de determinada chave encerrando um significado. Ergueu-se lentamente, como se receasse que todas aquelas correspondências se esfumassem perante os seus olhos, mas também com a calma do caçador seguro de que no fim de uma pista, por muito confusa que seja, há sempre uma peça a alcançar. Mão. Saída. Areia. Tabuleiro. Aura.
Olhou pela janela. Do outro lado dos vidros sujos, recortando a ramagem de uma árvore, um resto de claridade avermelhada resistia a desaparecer na noite.
Exemplares Um e Dois. Diferenças nos números 2, 4, 5, 7 e 8. Tinha de ir a Paris. Estava lá o número Três e talvez a resposta ao enigma. Mas preocupava-o outro assunto, uma coisa que devia resolver com urgência. Varo Borja tinha sido bem claro: posta de parte a possibilidade de conseguir o número Dois por métodos convencionais, era tempo de ir pensando num plano heterodoxo de aquisição. Com o mínimo de prejuízo e de perigo possível para Fargas ou para o próprio Corso, naturalmente. Qualquer coisa suave e discreta. Tirou a agenda do bolso do sobretudo em busca do número de telefone apropriado. Era um trabalho perfeito para Amílcar Pinto.
Uma das velas, consumida, apagou-se numa curta espiral de fumo. Algures na casa soava um violino, e Corso riu outra vez entredentes, Um riso breve e seco, enquanto a chama do candelabro fazia dançar luzes e sombras sobre o seu rosto, ao inclinar-se para acender um cigarro. Depois endireitou-se, escutando. A música soava como um lamento que deslizasse pelos compartimentos vazios, escuros, sobre os restos de móveis carcomidos e poeirentos, sob os tectos pintados, por entre teias de aranha e sombras que apenas ocultavam marcas nas paredes, ecos de passos, vozes mortas há muito. Lá fora, sobre o gradeamento enferrujado, os dois rostos de mulher, um com os olhos abertos na noite, o outro coberto pela máscara de hera, ouviam, imóveis com a serenidade do tempo suspenso no vácuo, a música que Victor Fargas arrancava do violino para esconjurar os espectros dos seus livros perdidos.
Regressou à vila a pé, com as mãos nos bolsos do sobretudo e a gola subida até as orelhas: vinte minutos pela berma esquerda da estrada deserta. A Lua não tinha nascido, e Corso mergulhava em extensas manchas de sombra ao passar por baixo das árvores que cobriam o caminho como uma abóbada negra. O silêncio era quase absoluto, unicamente quebrado pelo estalar dos sapatos na gravilha da valeta, ou o correr dos fios de água pela encosta abaixo, entre as estevas e a hera, invisíveis na escuridão. Aproximou-se um carro por trás, ultrapassando-o, e Corso viu a sua própria silhueta, de contornos agigantados e fantasmagóricos, deslizar ondulante por sobre os troncos das árvores próximas e as profundezas do bosque. Só quando ficou de novo envolto nas sombras expulsou o ar e sentiu relaxarem-se os músculos tensos. Não pertencia ao tipo de indivíduos que vêem fantasmas nas esquinas; pelo contrário, encarava todas as coisas, incluindo as extraordinárias, com um fatalismo meridional semelhante ao dos velhos soldados, com certeza herança genética do tetravô Corso: por muito que se esporeie o cavalo em direcção contrária, o inevitável espera-nos sempre na porta da Samarcanda mais próxima, limpando as unhas com uma adaga veneziana ou com uma baioneta escocesa. Mas mesmo assim, desde o incidente na viela de Toledo, o caçador de livros sentia uma justificável apreensão de cada vez que ouvia um motor aproximar-se pelas costas.
Talvez por isso, quando os faróis de outro automóvel se detiveram a seu lado, Corso voltou-se, atento, ao mesmo tempo que mudava a sacola de lona do ombro direito para o esquerdo e procurava o seu jogo de chaves no bolso do sobretudo, arma improvisada capaz de furar um olho a quem se aproximasse demasiado. No entanto, o quadro parecia tranquilizador: uma silhueta metálica grande e escura, tipo carrinha, e lá dentro, apenas iluminado pela luz do tablier, um perfil masculino de onde brotava uma voz amável, educada:
- Boa-noite... - A pronúncia era imprecisa, nem português nem espanhol. -Tem lume?
Podia estar tudo bem ou ser apenas um mau pretexto; não era possível descobrir isso. Também não era caso para desatar a correr ou esgrimir com a mais pontiaguda das suas chaves apenas porque lhe pediam lume para um cigarro; portanto, Corso largou o chaveiro, tirou do bolso uma caixa de fósforos e acendeu um, protegendo a chama com o côncavo da mão.- Obrigado.
Lá estava a cicatriz, claro. Era antiga, grande, vertical, desde a têmpora até meio da face esquerda. Pôde observá-la bem quando o outro se inclinou para acender o charuto Montecristo e manteve a luz erguida o tempo suficiente para ver o bigode preto, forte, e os olhos escuros que o olhavam fixamente na penumbra. Depois, o fósforo consumiu-se entre os dedos de Corso e foi como se uma máscara negra se abatesse sobre as feições do desconhecido. Transformou-se de novo numa sombra, silhueta apenas delineada pela luminosidade do painel de comandos.- Quem raio é o senhor? '
Não foi um comentário sereno nem brilhante. Fosse como fosse, era demasiado tarde; a pergunta perdeu-se no barulho do motor a acelerar. Os dois pontos vermelhos das luzes do automóvel afastavam-se já pela rua abaixo, deixando um rasto fugaz sobre a fita escura do asfalto. Ainda brilhou um momento com mais intensidade ao travar na primeira curva e depois desapareceu como se nunca ali tivesse estado. O caçador de livros continuava imóvel na valeta, tentando situar aquilo no seu enquadramento: Madrid, porta da viúva Taillefer; Toledo, Visita a Varo Borja; e Sintra, depois de uma tarde em casa de Victor Fargas. E ainda folhetins de Dumas, um editor enforcado no seu escritório, um impressor queimado com o seu estranho manual... E por entre uns e outros, colado aos calcanhares de Corso como se fosse a sua sombra, Rochefort: um espadachim fictício do século XVII reen-carnado em motorista de uniforme, condutor de automóveis de luxo Responsável por uma tentativa de atropelamento e algumas invasões de domicílio. E fumador de charutos Montecristo. Fumador sem isqueiro. Praguejou suavemente em voz baixa. Teria dado um incunábulo raro em bom estado, para poder partir a cara ao responsável por aquele guião absurdo.
Logo que chegou ao hotel fez diversas chamadas telefónicas. A primeira foi para o número de Lisboa que tinha na agenda. Teve sorte, porque Amílcar Pinto estava em casa: ficou a sabê-lo depois de ter falado com a sua mal-humorada mulher, tendo em fundo o som de um televisor com o volume no máximo, choro agudo de crianças e violenta discussão entre vozes adultas que chegavam através do auscultador de baquelite preta. Por fim, conseguiu que Pinto viesse ao telefone. Ficaram de se encontrar daí a hora e meia, o tempo que o português demoraria a despachar-se e percorrer os trinta quilómetros que o separavam de Sintra. Resolvido isso, Corso olhou para o relógio enquanto discava o indicativo internacional para falar com Varo Borja; mas o livreiro não estava na sua casa de Toledo. Deixou uma mensagem no atendedor automático e discou o número de Madrid, o de Flavio La Ponte. Também não obteve resposta e portanto escondeu a bolsa de lona em cima do guarda-vestidos e foi comer qualquer coisa. A primeira coisa que viu ao empurrar a porta do pequeno salãozinho do hotel foi a rapariga. Não havia engano possível: o cabelo muito curto, o ar de rapazinho, a pele bronzeada como se estivéssemos em pleno mês de Agosto. Lia, sentada num sofá junto do cone de luz de um candeeiro, com as pernas estendidas e cruzadas em cima do assento da frente, os pés descalços, jeans, T-shirt branca de algodão e a camisola de lã cinzenta sobre os ombros. E Corso ficou imóvel com a mão na maçaneta da porta e uma absurda sensação martelando-lhe na mente. Coincidência ou facto deliberado, aquilo já era de mais.
Por fim, ainda incrédulo, aproximou-se da jovem. Estava quase a seu lado quando ela ergueu a vista do livro fixando nele os olhos verdes, claridade líquida e profunda que recordava perfeitamente do seu encontro no comboio. Parou sem saber o que dizer; com a estranha sensação de que podia cair dentro desses olhos.
- Não me disse que vinha a Sintra - murmurou.- O senhor também não.
A resposta era acompanhada por um sorriso sereno, sem qualquer perturbação ou surpresa. Parecia sinceramente satisfeita por o encontrar.- Que faz aqui? - perguntou Corso.
Ela retirou os pés do sofá, oferecendo-lho com um gesto, mas o caçador de livros continuou em pé.
- Viajo - disse a jovem, e mostrou-lhe o livro; não era o mesmo do comboio: Melmoth, o Homem Errante, de Charles Maturin. - Leio. E tenho encontros inesperados.
- Inesperados - repetiu Corso como um eco.
Fossem ou não, eram demasiados encontros para uma única noite. E deu por si a estabelecer ligações entre a sua presença no hotel e o aparecimento de Rochefort na estrada. Tinha que haver um ponto de vista do qual as coisas encaixassem umas nas outras, embora ele estivesse muito longe de o alcançar. Nem sequer sabia para onde havia de se voltar.- Não se senta?
Fê-lo, vagamente inquieto. A jovem fechara o livro e observava-o com curiosidade.
- Não parece um turista - disse ela.
- Não sou.
- Trabalha?
- Sim.
- Qualquer trabalho em Sintra deve ser interessante. Só faltava isso, pensou Corso, ajeitando os óculos com o indicador. Sofrer um interrogatório naquela altura, mesmo que o inquisidor fosse uma rapariga bela e muito jovem. Talvez fosse esse o problema: demasiado jovem para representar uma ameaça. Ou talvez aí residisse o Perigo. Pegou no livro que a rapariga tinha poisado em cima da mesa e folheou algumas páginas. Era uma edição inglesa, moderna, e alguns parágrafos estavam sublinhados a lápis. Deteve-se num deles:
Os seus olhos continuavam fixos na luz que declinava e na crescente obscuridade. Essa escuridão sobrenatural que parece dizer à mais luminosa e sublime obra de Deus: "Dá-me lugar; cessa de brilhar".- Gosta de ler romances góticos?
- Gosto de ler. - Inclinara um pouco a cabeça, e a luz desenhava-lhe em escorço o pescoço nu. - De tocar nos livros. Viajo sempre com vários na mochila.
- Viaja muito?
- Muito. Há séculos.
Corso contraiu a boca ao ouvir a resposta. Ela pronunciara-a muito séria, franzindo um pouco a testa com o ar de uma garotinha que se refere a assuntos graves.
- Julguei que era estudante.
- Às vezes.
Corso poisou o Melmoth sobre a mesa.
- Você é uma jovem misteriosa. Que idade tem? Dezoito, dezanove?... Às vezes muda de expressão como se tivesse muito mais idade.- Talvez tenha. Cada um possui as expressões do que viveu e do que leu. Repare em si.
- Que se passa comigo?
- Nunca se viu sorrir? Parece um soldado velho. Remexeu-se ligeiramente no assento, pouco à vontade.
- Não sei como sorri um soldado velho.
- Mas eu sei. - Os olhos da rapariga tornaram-se opacos, vagueando interiormente, na sua própria memória. - Uma vez conheci dez mil homens que procuravam o mar.
Corso ergueu uma sobrancelha com exagerado interesse.- Não me diga... Isso pertence ao lido ou ao vivido?- Adivinhe. - Ficou-se a olhá-lo fixamente, antes de acrescentar: - Você parece um fulano esperto, Senhor Corso.
Agora estava em pé e pegava no livro da mesa e nas sapatilhas brancas do chão. Os seus olhos pareciam readquirir vida, e o caçador de livros viu agitarem-se neles reflexos familiares. Havia algo de conhecido, de já visto naquele olhar.
- Talvez nos vejamos - disse ela antes de se afastar. - Por aí. Corso não teve a menor dúvida de que assim seria. E não estava muito seguro "se o desejava ou não. Fosse como fosse, a sua reflexão demorou poucos segundos: ao sair, a rapariga cruzou-se na porta com Amílcar Pinto. O recém-chegado era baixo e ensebado. Tinha uma pele escura, reluzente como se tivesse sido envernizada, além de um bigode forte e espesso acertado às tesouradas. Poderia ter sido um polícia honrado, até mesmo um bom polícia, se não se visse na necessidade de alimentar cinco filhos, uma mulher e um pai reformado que lhe fumava o tabaco às escondidas. Trouxe a mulher, uma mulata que vinte anos atrás fora muito bonita, de Moçambique, com a independência, quando Maputo se chamava Lourenço Marques e ele era um sargento de pára-quedistas condecorado, pequeno e valente. Corso tinha-a entrevisto no decurso das combinações que de vez em quando fazia com o marido: olhos marcados pela fadiga, peitos grandes e flácidos, chinelas velhas e o cabelo preso num lenço vermelho, no vestíbulo da casa que cheirava a crianças sujas e a verdura cozida. O polícia entrou directamente no salãozinho, olhou de soslaio a rapariga ao cruzar-se com ela e veio deixar-se cair no sofá em frente do caçador de livros. Resfolegava como se tivesse vindo a pé de Lisboa.- Quem é a pequena?
- Ninguém que interesse - respondeu Corso. - Uma rapariguinha espanhola. Turista.
Pinto aceitou, tranquilizado, enxugando nas pernas das calças as palmas das mãos húmidas. Era um gesto que repetia com frequência. Suava muito e a gola das suas camisas tinha sempre uma fina orla escura exactamente onde estava em contacto com a pele.
- Tenho um problema - disse Corso.
O sorriso do português tornou-se mais aberto. Não há problema insolúvel, insinuava a expressão. Pelo menos enquanto tu e eu continuarmos a entender-nos bem.
Tenho a certeza - respondeu - que juntos o poderemos resolver. foi a vez de Corso sorrir. Há quatro anos que conhecia Amílcar Pinto, por causa de um feio caso de livros roubados que apareceu nos tabuleiros da Feira da Ladra. Corso esteve em Lisboa para os identificar, Pinto fez algumas detenções e no caminho de regresso para o proprietário alguns exemplares valiosos desapareceram para todo o sempre. A fim de celebrarem o início daquela frutífera amizade, tinham-se embebedado juntos nas casas de fado do Bairro Alto, enquanto o ex-sargento pára-quedista ruminava nostalgias coloniais, contando a Corso a forma como estiveram quase a voar-lhe os tomates na batalha da Gorongosa. Acabaram cantando Grândola, Vila Morena em altos gritos no Miradouro de Santa Luzia, tendo aos pés o bairro de Alfama iluminado pela Lua, e o Tejo mais abaixo, largo e reluzente como um lençol de prata sobre o qual deslizavam, muito lentamente, as silhuetas escuras dos barcos rumo à Torre de Belém e ao Atlântico.
O empregado trouxe a Pinto o café que este pedira. Corso esperou que se afastasse para continuar:
- Há um livro.
O polícia inclinava-se sobre a mesita baixa, deitando açúcar no café.- Há sempre um livro - concordou, circunspecto.- Este é especial.
- Qual não é?
Corso sorriu de novo. Um sorriso metálico, afiado.- O dono não quer vender.
- Isso é mau. - Pinto levou a chávena aos lábios, saboreando o café com prazer. - O comércio é bom. Os objectos vão e vêm, movimentam-se. Geram riqueza, fazem com que os intermediários ganhem dinheiro... -Poisou a chávena para limpar as mãos nas calças. - Os produtos devem circular. São as leis do mercado, as leis da vida. Não vender devia ser proibido: é quase um crime.
- Estou de acordo - confirmou Corso. - Devias fazer qualquer coisa a esse respeito.
Pinto chegou-se para trás na cadeira, à espera, e fitou o seu interlocutor, seguro e calmo. Uma vez, durante uma emboscada no mato moçambicano, tinha carregado aos ombros um tenente moribundo, caminhando toda a noite com ele através de dez quilómetros de selva-Ao amanhecer, sentiu o tenente morrer, mas não o quis abandonar no terreno e continuou com o cadáver às costas até chegar à base. O tenente era muito novo, e Pinto pensou que a mãe gostaria de enterrá-lo em Portugal. Deram-lhe uma medalha por aquilo. Agora, os filhos de Pinto brincavam pela casa com as suas velhas medalhas oxidadas.
- Talvez conheças o fulano: Victor Fargas.
O polícia fez um gesto afirmativo.
- A família Fargas é muito ilustre - declarou. - Muito antiga. Noutros tempos foram influentes, mas agora já não são. Corso estendeu-lhe um envelope fechado.
- Aí tens todos os dados de que precisas: proprietário, livro e lugar.- Conheço a quinta. - Pinto passava a ponta da língua pelo lábio superior, humedecendo o bigode. - Muito imprudente, guardar ali livros valiosos. Qualquer tipo sem escrúpulos pode entrar. - Olhou Corso com ar lamentoso, como se na realidade se sentisse penalizado pela imprevidência de Victor Fargas. - Lembro-me de um, por exemplo: um larápio do Chiado que me deve favores.
Corso sacudiu da roupa uma invisível mancha de pó. Não era assunto que lhe dissesse respeito. Pelo menos, não na fase operacional.- Quero estar longe quando isso acontecer.
- Está descansado. Terás o livro e o Senhor Fargas será incomodado o mínimo possível. Um vidro partido, quando muito: trabalho limpo. Quanto aos honorários...
Corso apontou para o envelope que o outro tinha nas mãos, sem abrir.- É um adiantamento correspondente à quarta parte do total. O resto, na entrega.
- Não há problemas. Quando partes?
- Amanhã cedo. Entrarei em contacto contigo de Paris. - Pinto fez menção de se levantar, mas Corso deteve-o com um gesto. - Mais uma coisa. Quero identificar um fulano alto, mais ou menos um metro e oitenta, com bigode e uma cicatriz na cara. Cabelo preto, olhos escuros, magro. Não é espanhol nem português. E esta noite anda por aqui a rondar.- Perigoso?
- Não sei. Segue-me desde Madrid.
O polícia tomava notas na parte de trás do envelope.- Alguma relação com o nosso negócio?
Suponho que sim, mas não tenho mais dados nenhuns.- Vou fazer o que puder. Tenho amigos aqui, na esquadra de Sintra. E dou uma vista de olhos aos nossos arquivos da central, em Lisboa. Tinha-se posto em pé, guardando o envelope no bolso interior do casaco. Corso teve a visão fugaz de uma culatra de revólver na sovaqueira, por baixo da axila esquerda.
- Não ficas para beber um copo? Pinto suspirou, negando com a cabeça.- Bem gostava, mas tenho três dos meus moreninhos com sarampo. Os marotos pegam uns aos outros.
Disse aquilo sorrindo, com ar cansado. No mundo de Corso, todos os heróis estavam cansados.
Foram juntos até à porta do hotel, onde Pinto tinha estacionado um velho Citroen 2 CV. Quando apertaram a mão, Corso voltou ao assunto de Victor Fargas.
- Insisto em que os incómodos se reduzam ao mínimo... Trata-se de um simples roubo.
O polícia pôs o motor em funcionamento e acendeu as luzes, dirigindo-lhe um olhar de censura através da janela aberta. Parecia ofendido.- Por favor! Esses comentários não são precisos entre profissionais. Depois de Pinto ir embora, o caçador de livros subiu ao quarto para pôr em ordem as suas notas e ficou a trabalhar até muito tarde, com a cama cheia de papéis e As Nove Portas aberto sobre a almofada. Sentia uma grande fadiga e pensou que um duche quente o ajudaria a descansar. Dirigia-se para o quarto de banho quando ouviu o telefone. Era Varo Borja, querendo saber do assunto Fargas. Pô-lo ao corrente em linhas gerais, incluindo as diferenças que encontrara em cinco das nove gravuras.- Como é óbvio - acrescentou - o nosso amigo não vende. Houve um silêncio do outro lado da linha telefónica; o livreiro parecia reflectir, embora fosse difícil saber se sobre o caso das estampas se sobre a negativa de Fargas. Quando voltou a falar, o seu tom era extremamente cauteloso:
- Era previsível - disse. E também desta vez Corso não pôde ter a certeza a" que se referia. - Há alguma forma de ultrapassar a dificuldade?- Pode haver.
O auscultador ficou de novo em silêncio. Cinco segundos, contou Corso no mostrador do relógio.
- Fica nas suas mãos.
Depois já não disseram grande coisa. Corso omitiu a conversa com pinto e o outro não demonstrou curiosidade pela forma como pensava o caçador de livros concretizar o eufemismo de "ultrapassar a dificuldade". Varo Borja limitou-se a perguntar se era preciso mais dinheiro e a resposta foi negativa. Ficaram de se falar de Paris.
Corso discou depois o número de La Ponte, mas também agora não obteve resposta. As folhas azuis do manuscrito Dumas continuavam na sua capa quando reuniu as notas e o volume de pele negra com o pentáculo por cima. Tornou a meter tudo na bolsa de lona e colocou esta debaixo da cama, atando a alça a um dos pés. Assim, por muito profundamente que estivesse a dormir, ninguém que entrasse no quarto poderia tirá-la dali sem o acordar. Incómoda bagagem, murmurou enquanto se dirigia ao quarto de banho para abrir a torneira da água quente. E, por qualquer razão que desconhecia, perigosa.
Depois de escovar os dentes, despiu-se para se meter no duche. Semiembaciado pelo vapor, o espelho reflectiu a sua imagem, magro e rijo como um lobo descarnado, quando deixou cair a roupa aos pés. A pontada de angústia surgiu outra vez vinda de muito longe, do passado, para mergulhar a sua consciência numa onda remota, dolorosa, como uma corda que vibrasse entre a carne e a memória. Nikon. Continuava a lembrar-se dela de cada vez que desapertava o cinturão, que ela sempre teimava em abrir com as suas próprias mãos, como se de um estranho ritual se tratasse. Fechou os olhos e viu-a outra vez à sua frente, sentada na borda da cama, fazendo-lhe deslizar pelas ancas as calças e depois o slip, lentamente, muito lentamente, saboreando o momento com um sorriso cúmplice e terno. Descontrai-te, Lucas Corso. Uma vez tinha-o fotografado disfarçadamente, adormecido de barriga para baixo, com uma ruga vertical na testa e as faces escurecidas pela barba que lhe tornava o rosto mais magro, acentuando o ricto amargo e tenso nas comissuras da boca entreaberta. Parecia um lobo exausto, receoso e atormentado na deserta planície de neve da almofada branca, e ele não gostou dessa foto quando a descobriu por acaso na bacia de fixador do quarto de banho, que Nikon utilizava como laboratório. Rasgara-a em bocadinhos, juntamente com o negativo, e ela nunca disse nada.
A água quente queimou a pele de Corso quando se meteu debaixo do duche, deixando-a correr pelo rosto, ardendo-lhe nas pálpebras enquanto suportava a dor com as mandíbulas cerradas e os músculos crispados, reprimindo a ânsia de soltar, no meio do calor húmido que o asfixiava, o uivo da sua solidão. Durante quatro anos, um mês e doze dias, depois de fazerem amor, Nikon metia-se atrás dele no duche para lhe ensaboar as costas lenta, interminavelmente. E muitas vezes acabava abraçada a ele, como uma criança perdida debaixo da chuva. Um dia partirei sem nunca te ter conhecido. Recordarás então os meus olhos grandes, escuros; as minhas censuras silenciosas; os meus gemidos de angústia durante o sono; os meus pesadelos que és incapaz de esconjurar. Recordarás tudo isso quando eu tiver partido.
Apoiou a cabeça nos azulejos brancos, gotejantes de vapor naquele húmido deserto que tanto lhe fazia lembrar uma forma de inferno. Nunca ninguém lhe ensaboara as costas antes nem depois de Nikon. Nunca. Ninguém. Jamais.
Saiu do duche e foi meter-se na cama com o Memorial de Santa Helena, mas apenas leu duas ou três linhas:
Voltando a guerra, o imperador prosseguiu: "Os espanhóis no seu todo conduziram-se como um homem de honra"...
Fez uma careta ao ler o elogio napoleóníco já com dois séculos. Lembrava-se de umas palavras ouvidas em criança, talvez a um dos seus avós ou ao pai: "Há apenas uma coisa que nós, Espanhóis, fazemos como ninguém: figurar nos quadros de Goya"... Homens de honra, dissera Bonaparte. Corso pensou em Varo Borja e no seu livro de cheques, em Flavio La Ponte e nas bibliotecas das viúvas espoliadas por meia dúzia de tostões. No fantasma de Nikon vagueando na solidão de um deserto branco. Nele próprio, lebréu de caça para o melhor licitador. Eram outros tempos. Sorria ainda, desesperado e amargo, quando adormeceu.
Ao acordar, a primeira coisa que viu foi a luz cinzenta do amanhecer na janela. Cedo de mais. Mexia-se, confuso, tacteando em busca do relógio sobre a mesa de cabeceira, quando compreendeu que o telefone estava a tocar. O auscultador caiu duas vezes no chão antes de conseguir encaixá-lo entre a orelha e a almofada.
- Está?
- Sou a sua amiga de ontem à noite, lembra-se?... Irene Adler. Estou no vestíbulo do hotel e temos de falar. Já!
- Que raio...?
Mas ela já tinha desligado. Praguejando, Corso procurou os óculos, afastou os lençóis e vestiu as calças, sonolento e desconcertado. De repente, com uma súbita sensação de pânico, olhou para debaixo da cama; a bolsa continuava ali, intacta. Conseguiu focar com esforço os objectos em seu redor. Estava tudo em ordem dentro do quarto; era lá fora que aconteciam coisas. Teve ainda tempo de ir ao quarto de banho e passar água na cara antes de baterem à porta.
- Sabe que raio de horas são?
A jovem estava no umbral, com a sua canadiana azul e a mochila ao ombro. Os olhos eram ainda mais verdes do que o que Corso recordava.- São seis e meia da manhã - declarou ela com calma. - E tem de vestir-se a toda a velocidade.
- Enlouqueceu?
- Não. - Tinha entrado no quarto sem que ele a convidasse e olhava em volta com ar crítico. - Temos pouquíssimo tempo.- Temos?
Você e eu. As coisas complicaram-se muito.
Corso bufou, irritado.
- Não são horas para brincar com as pessoas.
- Não seja estúpido. - Franzia o nariz com uma expressão grave. Apesar do seu aspecto de rapazinho e da sua juventude, parecia diferente, mais madura e decidida. - Estou a falar a sério.
Poisara a mochila em cima da cama desfeita. Corso agarrou nela e devolveu-lha, apontando a porta.
- Vá para o diabo que a carregue!
Ela não se moveu, limitando-se a olhá-lo com atenção.- Oiça. - Os olhos claros estavam muito próximos; pareciam gelo líquido, assim luminosos na pele queimada do seu rosto. - Sabe quem é Victor Fargas?
Por sobre o ombro da jovem, no espelho pendurado acima da cómoda, Corso viu a sua própria cara: boquiaberto como um perfeito imbecil.- Claro que sei - articulou por fim.
Demorara vários segundos a reagir e ainda pestanejou, confuso. Ela esperava, sem se mostrar satisfeita com o efeito obtido. Era evidente que os seus pensamentos estavam noutro lado.
- Morreu - disse.
Fê-lo em tom neutro, com a mesma tranquilidade que poderia ter utilizado para dizer que tomou café ao pequeno-almoço ou foi ao dentista. Corso respirou fundo, tentando digerir aquilo.
- Impossível. Estive com ele ontem à noite e estava bem.- Agora já não está bem. Não está de maneira nenhuma.- Como sabe?
- Sei.
Corso abanou a cabeça, desconfiado, antes de ir procurar um cigarro. A meio do caminho estava a garrafa de Bois e aproveitou para enfiar um gole no corpo; o gin a caminho do estômago vazio arrepiou-lhe a pele. Depois, fez tempo forçando-se a não olhar para a jovem até à primeira baforada de fumo. Não estava nada satisfeito com o papel que lhe coubera naquela manhã. E precisava de assimilar tudo lentamente.- O café de Madrid, o comboio, ontem à noite e esta manhã aqui, em Sintra... - Com o cigarro na boca, semicerrando os olhos por causa do fumo, contava com o indicador sobre os dedos da mão esquerda. - Quatro coincidências são muito, não acha?
Ela abanou a cabeça, impaciente.
- Julgava-o mais esperto. Quem está a falar de coincidências?- Porque me segue?
- Gosto de si.
Corso não tinha vontade de rir; limitou-se a contrair um pouco a boca. I .-Isso é ridículo.
Fitou o longamente, pensativa.
- Imagino que sim - foi a conclusão. - Não parece nada fascinante, sempre com esse velho sobretudo. Ah, e os óculos.
- Então?
- Procure outra resposta; uma qualquer pode servir. Mas agora despache-se a vestir-se. Temos de ir a casa de Victor Fargas.- Temos?
- Você e eu. Antes que a polícia chegue.
As folhas mortas estalavam sob os seus pés quando empurraram o portão de ferro, seguindo pelo carreiro ladeado de estátuas partidas e pedestais vazios. Ao cimo da escadaria de pedra, o relógio de sol, desprovido de sombra sob a luz cinzenta da manhã, continuava sem marcar nenhuma hora. Póstuma necat. A última mata, leu Corso de novo. A rapariga seguira a direcção do seu olhar.
- Rigorosamente certo - disse com frieza, e empurrou a porta. Estava fechada.
- Por trás - sugeriu Corso.
Deram a volta à casa, passando perto da fonte de azulejos onde o anjinho de pedra, olhos vazios e mãos mutiladas, continuava a verter um fiozinho de água no lago. A jovem, Irene Adler ou fosse lá como fosse o seu nome, avançava à frente de Corso, com a sua pequena mochila pendurada nas costas da canadiana azul. Movia-se com um surpreendente à-vontade, tranquila e flexível, com as longas pernas enfiadas nos jeans e a cabeça teimosa inclinada para a frente com o ar decidido de quem sabe muito bem para onde vai. Não era esse o estado de espírito de Corso. Recobrara o controle da sua própria incerteza e deixava-se guiar pela jovem, adiando as perguntas. Tendo saído depois de um rápido duche, com tudo o que lhe interessava ter consigo na bolsa de lona pendurada ao ombro, apenas As Nove Portas, o exemplar Número Dois de Victor Fargas, ocupava agora o seu Pensamento.
Entraram sem dificuldade pela porta envidraçada através da qual o jardim comunicava com o salão. No tecto, com o punhal ao alto Abraão continuava a velar sobre os livros alinhados no solo. A casa parecia deserta.- Onde está Fargas? - perguntou Corso. < A rapariga encolheu os ombros.- Não faço a menor ideia. :!
- Mas disse que estava morto.
- E está. - Pegou no violino do aparador para o observar com curiosidade, depois de dar uma vista de olhos em redor, às paredes vazias e aos livros. -O que não sei é onde.
- Está a brincar comigo.
Ela encaixara o instrumento debaixo do queixo e fez vibrar as cordas antes de o devolver ao estojo, pouco satisfeita com o som. Então olhou para Corso.
- Homem de pouca fé.
Sorria ligeiramente outra vez, com um ar ausente, e o caçador de livros teve a certeza que havia uma desproporcionada maturidade naquele à-vontade, simultaneamente profundo e frívolo. Aquela joven-zinha funcionava com códigos singulares, movida por estímulos e pensamentos mais complexos do que seria de supor com a sua idade e aparência. De repente, varreu-se tudo da cabeça de Corso: a rapariga, a estranha aventura, inclusivamente o suposto cadáver de Victor Fargas. Sobre o desfiado tapete da Batalha de Arbelas, entre os livros de ocultismo e artes diabólicas, havia uma falha. As Nove Portas já ali não estava.- Merda! - exclamou.
Repetiu-o entre dentes enquanto se inclinava sobre a fila de livros até ficar de cócoras junto deles. O seu olhar de perito, habituado a distinguir o volume procurado ao primeiro golpe de vista, vagueou de um lado para outro completamente órfão. Marroquim negro, cinco nervuras, sem título exterior, um pentáculo na capa. Umbrarum regni, etce-tera. Não havia engano possível. Um terço do mistério, exactamente 33,33 por cento -dízima periódica pura - tinha voado.
- Maldita sorte!
Cedo de mais para ter sido Pinto, reflectiu de imediato; o português não podia ter tido tempo para organizar aquilo. A jovem observava-o como se esperasse qualquer tipo de reacção que lhe interessava observar. Corso levantou-se. - Quem és?
Era a segunda vez em menos de doze horas que fazia a mesma pergunta, mas a duas pessoas diferentes. Estava tudo a complicar-se com demasiada rapidez. Por seu lado, a jovem suportou a pergunta e o olhar sem se perturbar. Passado um momento, desviou os olhos para o lado de Corso, para o vazio. Ou talvez para os livros alinhados no solo.- Isso não interessa - respondeu por fim. - Pergunte antes onde terá ido parar esse livro.
- Que livro?
Olhou-o de novo sem responder, enquanto ele se sentia terrivelmente estúpido.
- Sabes demasiadas coisas - disse à rapariga. - Inclusivamente, mais do que eu.
Viu-a encolher outra vez os ombros. Observava o relógio no pulso de Corso como se pudesse ler as horas nele.
- Não tem muito tempo.
- Estou-me marimbando para o tempo que possa ter.- É consigo. Mas há um voo Lisboa-Paris dentro de cinco horas, do Aeroporto da Portela. Temos o tempo exacto para lá chegar. Santo Deus! Corso estremeceu dentro do sobretudo, horrorizado. Parecia uma secretária eficaz, de agenda na mão, enumerando ao seu chefe os compromissos do dia. Abriu a boca para protestar. Maldita bruxa, mesmo jovem e tudo, com aqueles olhos inquietantes!- Porque havia de ir-me embora?
- Porque a polícia pode chegar.
- Não tenho nada a ocultar.
A jovem sorriu de modo indefinível; parecia que tinha acabado de ouvir uma piada engraçada mas já velha. Ajeitou a mochila nas costas e fez um gesto de despedida a Corso, erguendo uma mão com a palma aberta para lhe dizer adeus.
- Levar-lhe-ei tabaco à prisão, embora em Portugal não vendam a Sua marca.
Saiu para o jardim sem lançar sequer um último olhar à sala. Corso estava disposto a ir atrás dela para a deter quando viu o que estava no fogão de sala.
Passado o primeiro momento de estupefacção, aproximou-se devagar; talvez pretendesse dar aos acontecimentos uma oportunidade de seguirem vias razoáveis. Mas quando chegou à lareira pôde verificar apoiado na mísula, que alguns desses acontecimentos eram irreversíveis. Por exemplo: no breve lapso que ia da noite anterior àquela manhã período ínfimo em comparação com os seus conteúdos centenários, as bibliografias sobre livros raros acabavam de ficar desactualizadas. De As Nove Portas já não havia três exemplares conhecidos mas apenas dois. O terceiro, ou melhor, o que dele restava, fumegava ainda entre as cinzas.
Ajoelhou-se, procurando não tocar em nada. As capas, com certeza devido à pele da encadernação, estavam menos consumidas do que as páginas. Duas das cinco nervuras da lombada continuavam intactas e o pentáculo estava apenas meio queimado. As páginas tinham ardido quase por completo; restavam só alguns bocados chamuscados com fragmentos de escrita. Corso aproximou a mão dos restos ainda quentes. Tirou um cigarro e meteu-o na boca sem o acender. Conhecia a disposição da lenha na lareira por tê-la visto na tarde anterior. Pela posição das cinzas -as da lenha queimada estavam por baixo das do livro, sem que ninguém tivesse remexido o rescaldo - deduziu que o fogo ardera até se apagar com o livro em cima. Lembrava-se da lenha ali disposta para umas quatro ou cinco horas, e o calor conservado revelava um fogo extinto há mais ou menos o mesmo tempo. Isso somava entre oito a dez horas: alguém o devia ter aceso entre as dez e a meia-noite, antes de lhe pôr o livro em cima. E quem o fizera não se preocupara depois em remexer as brasas. Corso embrulhou nuns jornais velhos os restos que pôde recuperar da lareira. Os pedaços das folhas estavam rígidos e quebradiços e portanto a operação demorou-lhe bastante tempo. Ao fazê-lo, observou que páginas e capas tinham ardido separadamente; quem as pôs no fogão separou umas das outras para facilitar a sua combustão.
Concluída a recuperação dos restos, entreteve-se a dar uma vista de olhos pelo salão. O Virgílio e o Agrícola continuavam onde Fargas os pusera: o De re metálica no seu lugar, alinhado com outros sobre a carpete: o Virgílio em cima da mesa, tal como o deixara o bibliófilo, quando, sacerdote preparado para consumar o sacrifício, pronunciara a fórmula sacramental: "Creio que venderei este"... Viu um papel entre as páginas, logo que abriu o livro. Era um recibo manuscrito inacabado:
Victor Coutinho Fargas, Bilhete de Identidade no 3554712, morador na Quinta da Solidão, estrada de Colares, km 4, Sintra. Recebi a quantia de 800 000 escudos pela venda da obra de minha propriedade " Virgílio. Opera nunc recens accuratissime castigata... Venezia, Giunta, 1544", (Essling 61. Sander 7671). In-fólio, 10, 587, 1 c, 113 xilografias. Completa e em bom estado.
O comprador...
Não encontrou nome nem assinatura; o recibo não chegara a ser completado. Corso deixou o papel onde estava. Depois, fechou o livro e dirigiu-se ao compartimento onde trabalhara na tarde anterior para se assegurar que não deixara vestígios, papéis com a sua letra ou qualquer coisa do género. Retirou também as beatas do cinzeiro, guardando-as no bolso embrulhadas noutra folha de jornal. Ainda bisbilhotou um pouco; os seus passos ressoavam na casa vazia. Nem sombra do proprietário. Ao passar outra vez junto dos livros alinhados no chão, deteve-se sob o impulso da tentação. Era demasiado fácil: um par de raros elzevires de pequeno formato, fáceis de esconder, atraíam muito a sua atenção; mas Corso era um tipo sensato. Se as coisas dessem para o torto, aquilo só serviria para complicar tudo. Portanto, com um íntimo suspiro, despediu-se da colecção Fargas.
Saiu para o jardim pela porta envidraçada em busca da rapariga, arrastando os pés sobre as folhas do chão. Encontrou-a sentada numa Pequena escada que dava para o lago, rodeada pelo rumor da água que o anjinho bochechudo vertia na superfície esverdeada, coberta de plantas flutuantes. Olhava em frente com ar absorto e apenas o som dos passos a arrancou à sua contemplação, fazendo-a voltar a cabeça.
Corso poisou a bolsa de lona no degrau inferior da escada, sentando-se a seu lado. Depois, acendeu o cigarro que trazia na boca há já um bocado. Aspirou o fumo com a cabeça inclinada, enquanto atirava fora o fósforo. Só então se voltou para a jovem.
- Agora conta-me tudo.
Sem deixar de fitar o lago, ela fez um leve gesto negativo com a cabeça. Nem brusco nem desagradável. Pelo contrário, o movimento da cabeça, o queixo e as comissuras dos lábios pareciam doces e melancólicos, como se a presença de Corso, o triste e mal cuidado jardim e o ruído da água a comovessem de forma especial. Com a canadiana e a mochila ainda pendurada nas costas, parecia incrivelmente jovem, quase indefesa. E muito cansada.
- Temos de ir embora - disse em voz tão baixa que Corso mal a ouviu. -Para Paris.
- Antes diz-me o que tens a ver com Fargas e com tudo isto. Abanou de novo a cabeça em silêncio. Corso expelia o fumo do cigarro. Havia tanta humidade no ar que este ficou a flutuar à sua frente, condensado, antes de se ir desvanecendo pouco a pouco. Olhou a rapariga.- Conheces Rochefort?
- Rochefort?
- Ou lá como é o nome dele. Um indivíduo moreno, com uma cicatriz. Esteve ontem à noite rondando por aqui. - A medida que falava, Corso tinha consciência de como tudo aquilo era estúpido. Terminou com uma expressão incrédula, duvidando das suas próprias recordações. -Inclusivamente falei com ele.
A jovem tornou a negar com a cabeça, sem afastar os olhos do lago.- Não o conheço.
- Então, o que fazes aqui?
- Olho por si.
Corso fitou as biqueiras dos sapatos, esfregando as mãos enregeladas. O cantarolar da água no lago começava a irritá-lo. Levou os dedos à boca para dar uma última chupada no cigarro, cuja beata estava quase a queimar-lhe os lábios. O sabor era amargo.
- Estás louca, pequena.
Atirou fora o resto do cigarro, observando o fumo que se dissipava ante os seus olhos.
- Louca como uma cabra - acrescentou.
Ela continuava em silêncio. Passado um momento, Corso extraiu do bolso o frasco de gin e bebeu um longo gole sem lhe oferecer. Depois, olhou-a de novo.
- Onde está Fargas?
Demorou um pouco a responder; o seu olhar continuava absorto, perdido. Por fim, fez um gesto com o queixo.
- Ali.
Corso seguiu a direcção do seu olhar. No lago, sob o fio de água que saía da boca do anjinho mutilado de olhos vazios, a silhueta imprecisa de um corpo humano flutuava de barriga para baixo entre as plantas aquáticas e as folhas mortas.
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