O Clube Dumas

Arturo Pérez-Reverte · Apêndice

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O Clube Dumas

O Clube Dumas

Arturo Pérez-Reverte

FICÇÃO UNIVERSAL

Obras editadas pelas Publicações Dom Quixote:

A TÁBUA DE FLANDRES

O CLUBE DUMAS

Capa:

Foto do filme A Nona Porta de Roman Polansky

 

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O CLUBE DUMAS

Pode um livro ser investigado policialmente como se se tratasse de um crime, utilizando as suas páginas, papel, gravuras e característica de impressão como pistas, num apaixonante percurso de três séculos? Lucas Corso, mercenário da bibliografia, caçador de livros por conta de outrem, tem de encontrar resposta para essa pergunta quando recebe uma dupla de clientes seus: autentificar um manuscrito de Os Três Mosqueteiros e decifrar o mistério de um estranho livro, queimado em 1667 juntamente com o homem que o imprimiu. A investigação arrasta Corso - e com ele, irremediavelmente o leitor - para uma perigosa busca que o levará dos arquivos do Santo Ofício aos livros condenados, das poeirentas estantes dos alfarrabistas às mais selectas bibliotecas internacionais. O Clube Dumas, grande êxito em Espanha entre o público e a crítica, vem confirmar o excepcional talento de Arturo Pérez-Reverte para construir tramas romanescas e consolidar uma brilhante carreira literária.

Arturo Pérez-Reverte (Cartagena, 1951) pertence simultaneamente ao mundo do jornalismo e ao da literatura. Como repórter de imprensa, rádio e televisão viveu a maior parte dos conflitos internacionais das últimas décadas. Como escritor, depois de El húsar (1986) e O Mestre de Esgrima (1988), viu coroada a sua carreira com o romance A Tábua de Flandres (1990), traduzido e editado em vários países, inclusive pelas Publicações Dom Quixote, e foi adaptado ao cinema por Jim Macbridge. O Clube Dumas editado agora nesta mesma colecção, foi também adaptado ao cinema pelo realizador Roman Polanski.

 

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O CLUBE DUMAS

Arturo Pérez-Reverte

O CLUBE DUMAS

OU A SOMBRA DE RICHELIEU

Tradução de Maria do Carmo Abreu

PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE

Biblioteca Nacional - Catalogação na publicação

Pérez-Reverte, Arturo

O Clube Dumas ou a sombra de Richelieu - 2ª ed.

(Ficção universal; 219)

ISBN 972-20-1748-9

CDU821.134.2-31"19"

Publicações Dom Quixote, Lda.

Av. Cintura do Porto

Urbanização da Matinha, Lote A - 2º C

1900-649 Lisboa • Portugal

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor © 1993, Arturo Pérez-Reverte

© 2000, Publicações Dom Quixote

Título original: El Club Dumas

A tradução desta obra foi efectuada com o apoio da Dirección General del Libro y Bibliotecas do Ministério da Cultura de Espanha

1ª edição: Abril de 1995

2ª edição: Março de 2000

Depósito legal nº 146687/00

Impressão e acabamento: Gráfica Manuel Barbosa & Filhos

ISBN: 972-20-1748-9

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A Cala, que me colocou no campo de batalha

 

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O foco de luz projectou a silhueta do enforcado na parede. Pendia de um candeeiro no centro do salão, imóvel, e a medida que o fotógrafo se movia em seu redor, disparando a máquina, a sombra provocada pelo flash recortava-se sucessivamente sobre quadros, vitrinas com porcelanas, estantes com livros, cortinados abertos de grandes janelas por trás das quais a chuva caía.

O juiz instrutor era jovem. Tinha o cabelo ralo, revolto e ainda molhado, tal como a gabardina que conservava sobre os ombros enquanto ia ditando as diligências ao secretário que escrevia sentado no sofá, com a máquina portátil em cima de uma cadeira. O bater das teclas pontuava a voz monótona do juiz e os comentários em voz baixa dos polícias que andavam de um lado para outro no compartimento:

- ... Em pijama, com um robe por cima. O cordão deste causou a morte por enforcamento. O cadáver tem as mãos atadas a frente do corpo com uma gravata. O pé esquerdo conserva calçada uma chinela e o outro está descalço...

O juiz tocou no pé calçado do morto e o corpo girou um pouco, lentamente, na extremidade do tenso cordão de seda que ligava o seu pescoço ao suporte do candeeiro no tecto. O movimento foi da esquerda para a direita e depois em sentido inverso e com um percurso mais curto até ficar de novo na posição original, como uma agulha magnética que reencontrasse o Norte depois de breve oscilação. Ao afastar-se, o juiz teve de se desviar de um polícia uniformizado que, por baixo do cadáver, procurava impressões digitais. Havia um jarrão partido no chão e um livro aberto com uma página sublinhada a lápis vermelho. O livro era um velho exemplar de O Visconde de Bragelonne, uma edição barata encadernada em pano. Inclinando-se por cima do ombro do agente, o juiz deitou uma vista de olhos ao texto assinalado:

"-Venderam-me - murmurou. - Tudo se sabe!

- Tudo se acaba por saber - replicou Porthos, que nada sabia." Mandou o secretário tomar nota daquilo, ordenou que o livro fosse incluído no inventário e foi ter com um homem alto que fumava junto ao peitoril de uma janela aberta.

- O que achas? - perguntou ao chegar junto dele. O homem alto tinha a chapa de polícia presa num bolso do blusão de cabedal. Demorou a responder o tempo necessário para aspirar o fumo da beata que tinha entre os dedos, antes de a atirar pela janela sem olhar para trás.

- Quando é branco e vem engarrafado, costuma ser leite - respondeu finalmente, enigmático mas não o suficiente para não fazer o juiz esboçar um sorriso; ao contrário do polícia, olhava a rua onde a chuva continuava a cair com intensidade. Alguém abriu uma porta do outro lado do compartimento, e a lufada de ar atirou-lhe gotas de água de encontro ao rosto.

- Fechem essa porta - ordenou sem se voltar. Depois falou, dirigindo-se ao polícia:

- Há homicídios que se disfarçam de suicídios.- E vice-versa - retorquiu tranquilamente o outro. '•"- O que achas das mãos e da gravata?

- As vezes têm medo de se arrepender à última hora... De outra forma, tê-las-ia atadas atrás.

- Isso não modifica as coisas - replicou o juiz. - O cordão é fino e resistente. Uma vez perdido o apoio, nem com as mãos livres tinha a mínima hipótese.- Tudo é possível. Saberemos mais alguma coisa com a autópsia. O juiz voltou a lançar outro olhar ao cadáver. O agente das impressões digitais levantava-se com o livro nas mãos.

- Esta página é curiosa.

O polícia alto encolheu os ombros.

- Eu leio pouco - disse - mas o tal Portbos era um desses tais, não é verdade?... Athos, Porthos, Aramis e d'Artagnan - ia contando com o polegar sobre os dedos da mão e, quando acabou, deteve-se, pensativo. -Tem piada. Sempre perguntei a mim mesmo porque lhes chamavam os três mosqueteiros se, na realidade, eram quatro.

 

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