O Clube Dumas

Arturo Pérez-Reverte · Capítulo 2 de 16

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O Clube Dumas

Capítulo II

A MÃO DO MORTO

Milady sorria, e d'Artagnan sentia que por aquele sorriso se deixaria condenar.

(A. Dumas. Os Três Mosqueteiros)

Há viúvas inconsoláveis e viúvas a quem qualquer varão adulto ofereceria de boa vontade o consolo oportuno. Liana Taillefer figurava, sem dúvida nenhuma, na segunda categoria. Era alta e loura, de pele branca e movimentos lânguidos. O tipo de mulher que leva uma eternidade entre tirar um cigarro do maço e lançar a primeira baforada de fumo, e o faz fitando o interlocutor masculino nos olhos com a tranquila segurança que proporcionam umas certas parecenças com Kim Novak, umas medidas anatómicas generosas, quase excessivas, e uma conta bancária - herdeira universal do finado Taillefer Editor S. A. - em relação à qual o termo solvente não passa de um tímido eufemismo. É assombrosa a quantidade de dinheiro que se pode amassar, passe o estúpido jogo de palavras, publicando livros de cozinha. As Mil Melhores Receitas Manchegas, por exemplo. Ou as quinze edições, esgotadas, de um clássico: Os Segredos dos Grelhados. A casa ficava num antigo palácio, o do marquês de Los Alumbres, reconvertido em apartamentos de grande luxo. Quanto à decoração, o gosto dos seus proprietários parecia daqueles que se forjam à base de pouco tempo e muito dinheiro. Só assim se justificava a coexistência de uma porcelana de Lladró - uma menina com um pato, apreciou desapaixonadamente Lucas Corso - na mesma vitrina de uns pastorzinhos de Saxe pelos quais, sem dúvida, algum esperto antiquário devia ter sangrado devidamente o finado Enrique Taillefer ou a esposa. Como é óbvio, havia um secreter Biedermeier e um piano Steinwood próximo de uma tapeçaria oriental caríssima. E também um imenso sofá forrado de pele branca e de aspecto confortável, sobre o qual Liana Taillefer cruzava, naquele momento, duas pernas extraordinariamente bem torneadas que a saia preta, adequada para o luto - um palmo acima dos joelhos quando sentada mas deixando adivinhar voluptuosas linhas por ali acima, até à sombra e ao mistério - , situava e emoldurava de forma adequada, como diria Lucas Corso mais tarde, ao recordar a cena. Convém precisar que não se deve passar por alto o comentário de Corso, porque, aparentemente, era um daqueles fulanos estranhos que facilmente imaginamos vivendo com uma velha mãe que faz malha e aos domingos leva à cama a chávena de chocolate quente que será o pequeno-almoço do filho; um filho que nos filmes se vê muitas vezes seguindo sozinho atrás de um féretro, debaixo de chuva, com os olhos vermelhos e murmurando mamã com a tristeza de um órfão desamparado. Mas Corso nunca tinha estado desamparado na vida. Também não tinha mãe, E quando conseguíamos conhecê-lo um pouco, acabávamos por perguntar a nós próprios se alguma vez a teria tido.- Lamento incomodá-la nestas circunstâncias - disse Corso. Estava sentado em frente da viúva, com o sobretudo vestido e a bolsa de lona sobre os joelhos. Mantinha-se rígido na beira da cadeira, enquanto os olhos de Liana Taillefer - azul-aço, grandes e frios - o estudavam de cima a baixo, empenhados em catalogá-lo dentro de alguma espécie conhecida de exemplar masculino. Consciente das dificuldades que aquilo representava, submeteu-se ao exame sem se esforçar por provocar uma impressão determinada. Conhecia o processo e naquele momento as suas acções tinham muito baixa cotação na bolsa de valores de Taillefer S. A., viúva de. Isso limitava a questão a uma espécie de desdenhosa curiosidade, depois de o ter feito esperar dez minutos no salão e da prévia escaramuça com uma criada que, tomando-o por um vendedor, estivera quase a bater-lhe com a porta no nariz. Mas agora a viúva olhava de soslaio a capa que Corso tinha tirado da bolsa e as coisas começavam a modificar-se. Quanto a ele, procurou sustentar através dos óculos tortos o olhar de Liana Taillefer, evitando os perigosos escolhos - Cila e Caríbdis: Corso era de Letras -constituídos pelas pernas, a meridião, e o busto - exuberante, era a palavra, disse-para si mesmo; já há um bocado que andava às voltas para encontrar o termo exacto - que a camisola de angora preto moldava de forma espantosa, a setentrião.

- Seria de grande ajuda - precisou por fim - saber se a senhora conhecia a existência deste documento.

Passou-lhe a capa para as mãos e, ao fazê-lo, roçou de modo involuntário os dedos de longas unhas laçadas de vermelho-sangue. Ou talvez fossem os dedos que o roçassem a ele. De uma forma ou de outra, o levíssimo contacto indicou que as acções Corso estavam em alta; portanto, fingiu o embaraço adequado, endireitando o cabelo na testa com a falta de à-vontade exacta para que ela verificasse que incomodar viúvas formosas não era a sua especialidade. Agora os olhos azul-aço não olhavam para a capa e sim para ele, e faziam-no com um lampejo de interesse.- Porque havia de conhecer? - perguntou a viúva. Tinha uma voz grave, um pouco rouca. Eco de uma noite mal dormida. Ainda não tinha aberto a capa de plástico e continuava atenta a Corso, como se esperasse mais alguma coisa antes de satisfazer a sua curiosidade, abrindo-a. Este ajeitou os óculos na cana do nariz e arvorou uma expressão grave, de circunstância. Estavam na fase protocolar e portanto reservou o seu eficaz sorriso de coelho honesto para o momento oportuno.

- Até há pouco tempo pertencia ao seu marido - hesitou um segundo antes de completar a frase - que em paz descanse.

Ela assentiu lentamente, como se isso explicasse tudo, e abriu a capa. Por cima do seu ombro, Corso olhava para a parede. Lá, entre um Tapies aceitável e outro óleo de assinatura ilegível, estava emoldurado um trabalho infantil com florzinhas de cores, nome e data: Liana Lasauca. Curso 1970-71. Corso teria qualificado aquilo como enternecedor se as flores, os passarinhos bordados e as meninas com soquetes e tranças louras lhe provocassem sensíveis humidades, fossem de que género fossem. Mas não era o seu caso. Portanto, desviou o olhar para outra moldura, mais pequena e de prata, onde o extinto Enrique Taillefer Editor S. A., com uma caneca de provador de vinho ao pescoço e um avental que lhe dava um ar vagamente maçónico, sorria para a câmara no momento em que se dispunha, com um dos seus êxitos editoriais aberto na mão direita, a saborear um leitãozinho à segoviana com um prato levantado na mão esquerda. Tinha um ar plácido, gorducho e barrigudo, feliz ante a perspectiva do animalzinho estendido na travessa, e Corso disse para si mesmo que, pelo menos, a sua prematura saída de cena lhe devia ter poupado inúmeros problemas de colesterol e de ácido úrico. Também se interrogou, com fria curiosidade técnica, sobre como se arranjaria Liana Taillefer em vida do esposo quando tinha necessidade de um orgasmo. Apenas com esse pensamento lançou outro breve olhar para o busto e as pernas da viúva, antes de tirar as suas próprias conclusões. Parecia mulher de mais para se resignar ao leitãozinho.- Isto é o do Dumas - disse ela, e Corso soergueu-se um pouco, lúcido e alerta. Liana Taillefer batia com uma das suas unhas vermelhas nas bolsas de plástico que protegiam as páginas. - O famoso capítulo. Claro que o conheço. - Ao inclinar o rosto, o cabelo tinha-lhe deslizado para a cara; por trás da loura cortina, observava desconfiadamente o seu visitante. - Porque está em seu poder?

- O seu marido vendeu-o. Estou a tentar autentificá-lo. A viúva encolheu os ombros.

- Que eu saiba, é autêntico. - - Suspirou profundamente, devolvendo a capa.- Diz que foi vendido?... Estranho! - Pareceu reflectir. - Enrique tinha estes papéis em grande apreço.

- Talvez se lembre onde possa tê-los adquirido.- Não lhe sei dizer. Creio que alguém lhos ofereceu.- Era coleccionador de documentos autógrafos?- Esse foi o único que lhe conheci.

- Nunca comentou a sua intenção de o vender?- Não. O senhor é que me está a dar a novidade. Quem é o comprador?- Um livreiro meu cliente. Levá-lo-á a leilão quando eu lhe entregar o relatório.

Liana Taillefer decidiu conceder-lhe mais algum interesse; as acções Corso experimentavam uma nova subida, embora moderada, na bolsa local. Tirou os óculos para os limpar com o lenço amarrotado. Sem eles tinha um aspecto mais vulnerável e sabia disso muito bem. Toda a gente sentia a necessidade de o ajudar a atravessar a rua quando semicerrava os olhos como um coelhinho míope.

- É esse o seu trabalho? - perguntou ela. - Autenticar manuscritos? Fez um vago gesto afirmativo. A viúva estava um tanto desfocada aos seus olhos, insolitamente mais próxima.

- Às vezes. Também procuro livros raros, gravuras e coisas do género. Cobro por isso.

- Quanto cobra?

- Depende. - Pôs os óculos, e os contornos da mulher surgiram novamente nítidos na sua retina. - Às vezes muito, outras pouco; o mercado tem os seus altos e baixos.

- Uma espécie de detective, não é? - lançou ela, em tom divertido. - Um detective de livros.

Era o momento de sorrir. Fê-lo, mostrando os incisivos, com uma modéstia calculada ao milímetro. Adoptem-me já, dizia o seu sorriso.- Sim. Admito que possamos chamar-lhe assim.- E vem visitar-me a pedido do seu cliente...

- Precisamente. - Já podia permitir-se aparentar maior segurança e bateu no manuscrito com os nós dos dedos. - Afinal, isto veio daqui. Da sua casa. Ela concordou lentamente, observando a capa. Parecia reflectir.- É estranho - disse passados alguns momentos. - Não imagino o Enrique a vender esse original de Dumas. Embora nos últimos dias andasse a portar-se de forma estranha... Como disse que se chamava o livreiro? O novo proprietário.

- Não disse.

Olhou-o de cima a baixo com tranquila surpresa. Não parecia habituada a conceder aos homens mais do que três segundos antes de que satisfizessem os seus desejos.

- Então diga-me.

Corso demorou um pouco, o necessário para que as unhas de Liana Taillefer iniciassem um tamborilar impaciente no braço do sofá. < Chama-se La Ponte - declarou por fim. Era outro dos seus truques: fazer com que os outros atribuíssem a si próprios triunfos que, na realidade, não passavam de concessões triviais da sua parte. - Conhece-o?

- Claro que conheço; era fornecedor do meu marido. - Franziu a testa com desagrado. - Vinha cá de vez em quando para trazer esses estúpidos folhetins. Suponho que terá um recibo... Queria uma cópia, se não se importa.

Corso concordou vagamente, enquanto se inclinava um pouco para ela. - O seu marido era grande admirador de Alexandre Dumas?- De Dumas, diz? - Liana Taillefer sorriu. Tinha atirado o cabelo para trás e agora os olhos brilhavam-lhe, trocistas. - Venha comigo. Ergueu-se com um daqueles gestos em que demorava uma eternidade e alisou a saia, olhando em redor como se de repente tivesse esquecido o objectivo do seu movimento. Era bastante mais alta do que Corso, apesar de usar saltos baixos. Precedeu-o até um gabinete contíguo. Enquanto a seguia, ele observou-lhe as costas largas como as de uma nadadora e a cintura apertada até ao limite possível. Calculou-lhe trinta anos. Parecia com predisposição para se transformar numa daquelas matronas nórdicas, com ancas onde o sol nunca se põe, feitas para parir sem esforço louros Eriks e Sigfridos.

- Oxalá fosse só Dumas - disse ela, indicando o interior do gabinete. - Olhe para isto.

Corso obedeceu. As paredes estavam cobertas de estantes de madeira que se curvavam sob o peso de grossos volumes encadernados. Sentiu que as suas glândulas segregavam saliva, por reflexo profissional. Deu uns passos na direcção das estantes enquanto ageitava os óculos: A condessa de Charny, A. Dumas, oito volumes, edições La Novela Ilustrada, director literátio Vicente Blasco Ibáfiez. La dos Dianas, A. Dumas, três volumes. Los Mosqueteros, A. Dumas, edições Miguel Guijarro, gravuras de Ortega, quatro volumes. El conde de Montecristo, A. Dumas, quatro volumes de Juan Ros editor, gravuras de A. Gil... E ainda quarenta volumes de Rocambole, por Ponson du Terrail. Os Pardellanes de Zevaco, completos. E mais Dumas, junto de nove volumes de Vic-tor Hugo e outros tantos de Paul Feval, cujo Jorobado surgia em encadernação de luxo, de marroquim vermelho com cantos dourados. E o Pickwick de Dickens, em tradução de Benito Pérez Galdós, ladeado por diversos Barbey d'Aurevilly e por Los mistérios de Paris, de Eugênio Sue. Ainda mais Dumas - Los Quarenta y Cinco, El colar de La reina, los companeros de Jehú - e Venganza corsa, de Merimée. Quinze volumes de Sabatini, vários de Ortega y Frias, Conan Doyle, Manuel Fernández y González, Mayne Reid, Patricio de La Escosura...

- Impressionante - comentou Corso. - Quantos títulos há aqui?- Não sei. Dois mil e tal. Três mil. Quase todos folhetins em primeiras edições, tal como foram encadernados depois de terem sido publicados em fascículos... Outros são volumes ilustrados. O meu marido coleccionava-os com frenesim, pagando o que lhe pedissem por eles.- Um verdadeiro entusiasta, pelo que vejo.

- Entusiasta? - Liana Taillefer esboçou um sorriso indefinível. - Nele foi autêntica paixão.

- Pensava que a gastronomia...

- Os livros de cozinha eram a sua forma de ganhar dinheiro. Enrique tinha qualquer coisa de rei Midas: qualquer receituário barato se transformava em êxito editorial nas suas mãos. Mas seu, seu era isto. Gostava de se fechar aqui e manusear estes velhos folhetins. Costumam ser impressos em mau papel, e a sua obsessão era conservá-los. Está a ver o termómetro e o indicador de humidade?... Podia recitar páginas inteiras das suas obras favoritas. Inclusivamente escapavam-lhe exclamações como que chatice!, dianho e coisas do género. Passou os últimos meses escrevendo.- Um romance histórico?

- Um folhetim. Respeitando todos os lugares-comuns do género, como é óbvio. - Dirigiu-se a uma estante e pegou num pesado manuscrito com folhas cosidas à mão. Estavam escritas com letra redonda e grande, apenas de um dos lados. - Que acha do título?

- A Mão do Morto ou O Pajem de Ana de Áustria - leu Corso em voz alta. -Não há dúvida que é bom... - Passou um dedo pelo arco da sobrancelha, procurando o termo adequado às circunstâncias. - Sugestivo.- E pesado - acrescentou ela, devolvendo o manuscrito ao seu lugar. - E cheio de anacronismos. E absolutamente estúpido, garanto-lhe. Acredite que sei do que estou a falar: no fim de cada sessão de escrita, lia-me folha por folha, do princípio ao fim. - Deu umas pancadinhas rancorosas sobre o título, caligrafado com maiúsculas. - Meu Deus! Garanto-lhe que cheguei a odiar esse pajem e a cadela da sua rainha.

- Tinha intenção de o publicar?

- Claro que sim. E com pseudónimo. Suponho que teria escolhido Tristán de Longueville, Paulo Florentini ou qualquer coisa do género. Era muito próprio dele fazer uma coisa dessas.

- E enforcar-se? Também era próprio dele?

Com o olhar fixo nas paredes cobertas de livros, Liana Taillefer manteve-se em silêncio. Um silêncio incómodo, pensou Corso; talvez um tanto forçado, com o ar absorto como recurso. Como uma actriz à espera de prosseguir o seu diálogo de modo convincente.

- Nunca saberei o que se passou - respondeu por fim, e readquirira sua serenidade perfeita. - Na última semana andou carrancudo e deprimido e mal saía do seu gabinete. Depois, uma tarde, atirou com a porta e foi para a rua. Regressou de madrugada; estava na cama e ouvi-o entrar. De manhã acordei com os gritos da criada: Enrique tinha-se enforcado no candeeiro. Fitava agora Corso, atenta ao efeito provocado. Não parecia excessivamente pesarosa, pensou o caçador de livros, recordando a foto com a caneca e o leitãozinho. A dado momento surpreendeu-lhe nos olhos um pestanejar, como se evitassem verter uma lágrima, mas mantiveram-se irrepreensivelmente secos. Aquilo não significava nada. Gerações de maquilhagem vulnerável às emoções ensinaram as mulheres a controlar os seus sentimentos. E a maquilhagem de Liana Taillefer, uma sombra clara que lhe acentuava o tom dos olhos, era perfeita.- Deixou alguma carta? - perguntou Corso. - Os suicidas costumam fazer isso.

- Resolveu poupar o trabalho. Nem uma explicação nem umas letras. Nada. Essa desconsideração custou-me muitas perguntas de um juiz e alguns polícias. Muito desagradável, garanto-lhe.

- Imagino.

- Suponho que seja fácil imaginar.

Liana Taillefer tinha dado por terminada a entrevista. Dirigiram-se para a porta e estendeu-lhe a mão. Com a capa debaixo do braço e a bolsa ao ombro, Corso estendeu-lhe a sua, sentindo" entre os dedos e a palma aquele contacto firme. Dava-lhe intimamente uma boa classificação. Nem viúva alegre, nem desfeita pela dor, nem frieza do tipo desapareceu um imbecil ou por fim sós ou já podes sair do armário, querido. Que dentro do armário havia alguém, isso era provável, mas Corso não tinha nada a ver com o caso. Nem com o suicídio de Enrique Taillefer S. A., por estranho - e era muito, caramba, com o pajem da rainha pelo meio e o manuscrito voador -que parecesse. Mas, tal como a formosa viúva, isso não eram assuntos que lhe dissessem respeito. De momento.

Fitou Liana Taillefer. Adorava saber quem te anda a comer, pensou com tranquila curiosidade técnica. Mentalmente traçou um retrato-robot: maduro, elegante, culto, com dinheiro. Oitenta e cinco por cento de probabilidades de que fosse amigo do finado. Perguntou a si mesmo se o suicídio do editor teria algo a ver com aquilo, antes de se deter, aborrecido. Deformação profissional ou fosse o que fosse, abandonava-se por vezes ao absurdo costume de raciocinar como um polícia. O pensamento fê-lo estremecer até à medula. Uma pessoa nunca sabe que tenebrosos poços de perversidade ou de estupidez esconde no fundo da sua alma.- Quero agradecer-lhe - disse, enquanto extraía do seu reportório o mais enternecedor sorriso de coelho simpático que foi capaz de arvorar - o tempo que me dedicou.

O sorriso perdeu-se no vazio; ela fitava o manuscrito de Dumas.- Não tem nada que agradecer. Tenho um lógico interesse por ver em que vai terminar tudo isto.

- Mantê-la-ei ao corrente... Outra coisa: tem intenção de conservar a colecção do seu marido, ou pensa desfazer-se dela? Fitou-o, desconcertada. Corso sabia por experiência própria que, após o falecimento de um bibliófilo, vinte e quatro horas depois de sair o féretro, saía a biblioteca pela mesma porta. Estranhava que não tivesse ainda poisado por ali nenhum dos corvos da concorrência. Afinal, Liana Taillefer, segundo confissão própria, não partilhava os gostos literários do marido.- A verdade é que ainda não tive tempo de pensar nisso... Quer dizer que aqueles folhetins lhe interessam?

- É possível.

Ela hesitou um momento. Talvez mais uns segundos do que seria necessário.

- É tudo demasiado recente - disse por fim, com um suspiro adequado. -Talvez daqui a alguns dias.

Corso apoiou a mão no corrimão e começou a descer a escada. Arrastava os pés, demorando-se nos primeiros degraus com uma certa hesitação, tal como quando alguém abandona o lugar onde esquece qualquer coisa sem saber muito bem do que se trata. Mas ele tinha a certeza de não esquecer nada. Quando chegou ao primeiro patamar ergueu os olhos e viu que Liana Taillefer ainda estava no umbral, observando-o. Tinha, pelo menos assim lhe pareceu, um ar entre preocupado e curioso. Corso desceu mais uns degraus e, como num lento plano cinematográfico, o rectângulo de visão deslocou-se para baixo. Depois de perder de vista o olhar inquisitivo dos olhos azul-aço, a sua última imagem deslizou pelo corpo de Liana Taillefer, busto e ancas, até às pernas firmes e brancas que apoiava um pouco afastadas, sugestivas e fortes como as colunas de um templo. Corso ainda dava voltas à cabeça quando passou a porta e saiu para a rua. Imaginava pelo menos cinco perguntas que exigiam resposta e tornava-se necessário ordená-las por nível de importância. Parou no passeio, em frente do portão do Retiro, e olhou casualmente para a esquerda, esperando um táxi. Estava um enorme Jaguar estacionado a poucos metros. O motorista, de uniforme cinzento-escuro, quase preto, lia um jornal apoiado no carro. Ergueu nesse preciso momento os olhos e encontrou o olhar de Corso. Foi apenas um segundo em que os olhares se cruzaram e o motorista voltou à leitura. Era moreno, com bigode e uma pálida cicatriz que lhe atravessava uma face de cima a baixo. O seu aspecto produziu em Corso uma sensação familiar: era parecido com alguém. Talvez, lembrou-se, o homem alto que jogava na máquina do bar de Makarova. Mas havia mais qualquer coisa. O seu aspecto despertava em Corso uma recordação remota, imprecisa. Antes porém que tivesse tempo para analisar o caso surgiu um táxi livre, ao qual um indivíduo com sobretudo de loden e pasta de executivo fazia sinais do outro lado da rua. Aproveitou o facto de o taxista olhar na sua direcção, desceu do passeio com rapidez e enfiou-se no carro mesmo debaixo do nariz do outro.

Pediu ao condutor que baixasse o volume do rádio enquanto se instalava no assento traseiro, olhando sem ver o trânsito em seu redor. Agradava-lhe a paz que sentia de cada vez que fechava a porta de um táxi. Era o que mais se parecia com uma trégua com o mundo exterior: durante o trajecto, ficava tudo em suspenso do outro lado do vidro. Apoiou a cabeça no encosto, encantado com a perspectiva.

Chegara a hora de pensar em coisas sérias, como o Livro das Nove Portas e a viagem a Portugal, primeira etapa do trabalho. Mas Corso não se conseguia concentrar. A entrevista com a viúva de Enrique Taillefer deixava demasiadas questões no ar e isso provocava-lhe uma estranha inquietação. Algo lhe escapava de tudo aquilo, como se estivesse a contemplar uma paisagem da perspectiva errada. Mais ainda: demorou vários semáforos vermelhos a aperceber-se que a imagem do motorista do Jaguar se interpunha nas suas reflexões, o que o fez sentir-se mal. Tinha a certeza de nunca na vida o ter visto antes do bar de Makarova, mas uma recordação irracional palpitava no seu íntimo. Conheço-te, disse para si mesmo. Certa vez, há já muito tempo, tropecei com um fulano como tu. E sei que estás aí, algures. No lado escuro da minha memória.

Grouchy não apareceu em lugar nenhum, mas aquilo tinha deixado de ter importância. Os prussianos de Bulow batiam em retirada das elevações de Chapelle St. Lambert com a cavalaria ligeira de Sumont e Subervie colada às botas. No flanco esquerdo não havia problema: as formações vermelhas da infantaria escocesa tinham sido ultrapassadas e desbaratadas com a carga dos soldados de cavalaria franceses protegidos por couraças. No centro, a divisão Jerome tinha acabado por tomar Hougoumont, e a norte do Mont St. Jean os batalhões azuis formados em quadrado da boa e velha Guarda agrupavam-se lenta mas ímplaca-velmente, com Wellington retirando em absoluta desordem para a povoação de Waterloo. Só faltava desferir o golpe de misericórdia.

Lucas Corso observou o terreno. Obviamente, a solução era Ney. O valente entre os valentes. Colocou-o à frente, com Erlon e a divisão Jerome, ou o que dela restava, e fê-los avançar au pas de charge pela estrada de Bruxelas. Quando estabeleceram contacto com as formações britânicas, Corso recostou-se um pouco na cadeira e susteve a respiração, certo das implicações do seu acto: acabava de decidir, naquele meio minuto, da vida ou da morte de 22 000 homens. Saboreando aquela sensação, deliciou-se com as compactas filas azuis e vermelhas, com o verde suave do bosque de Soignes, com as manchas pardas das colinas. Era, na realidade, uma batalha belíssima.

O embate foi duro, pobres diabos. O corpo do exército de Erlon desfez-se como a casa de palha do porquinho perguiçoso, mas Ney e os homens de Jerome mantiveram a sua linha. A Velha Guarda avançava, varrendo tudo ao passar, e as formações inglesas desapareceram do mapa umas atrás das outras. Wellington não tinha outra opção a não ser a retirada, e Corso cortou-lhe a fuga para Bruxelas com a reserva da cavalaria francesa. Depois, lenta e deliberadamente, desferiu o golpe final. Segurando Ney entre o polegar e o indicador, fê-lo avançar três hexágonos. Somou factores de potência, consultando as tabelas: a relação era de 8 para 3. Wellington estava acabado. Havia apenas um pormenor ínfimo deixado à sorte. Consultou de novo a tabela de equivalências, verificando que bastaria um 3. Teve no entanto um sobressalto de inquietação enquanto recorria aos dados para decidir o pequeno factor de sorte correspondente. Mesmo com a batalha ganha, perder Ney no último minuto era de amador. O caso é que obteve um factor cinco. Sorria com o canto da boca ao dar uma afectuosa pancadinha com a unha sobre a ficha azul de Napoleão. Imagino como te sentes, companheiro. Wellington e os seus últimos cinco mil infelizes estavam mortos ou prisioneiros, e o imperador acabava de ganhar a batalha de Waterloo. Alonsanfãs. Todos os livros de História podiam ir para o Diabo.

Abandonou-se a um longo bocejo. Sobre a mesa, em cima do tabuleiro que representava à escala 1:5000 o campo de batalha, por entre livros de consulta, gráficos, uma chávena de café e o cinzeiro cheio de beatas, o relógio de pulso marcava as três da manhã. Ao lado, sobre o móvel-bar, na etiqueta vermelha, Johnnie Walker, com uma casaca britânica, tinha uma expressão maliciosa acompanhando a larga passada. Rubicundo sem vergonha, pensou Corso. Não se ralava nada que vários milhares de compatriotas acabassem de morrer no pó da Flandres. Voltou as costas ao inglês para dedicar a sua atenção a uma garrafa intacta de Bois, encaixada numa estante da parede entre o Memorial de Santa Helena em dois volumes e uma edição francesa de O Vermelho e o Negro. Encetou a garrafa com este último aberto em cima da mesa, folheando-o ao acaso enquanto deitava gin num copo:

...As Confissões de Rousseau era o único livro através do qual a sua imaginação representava o mundo. A compilação de boletins da Grande Armée e o Memorial de Santa Helena completavam o seu Alcorão. Ter-se-ia deixado matar por esses três livros. Nunca acreditou em nenhum outro. Bebeu de pé, em pequenos goles, ao mesmo tempo que distendia as articulações anquilosadas. Deitou ainda uma última vista de olhos para o campo de batalha onde, após a carnificina, cessava o ruído das armas. Engoliu o resto do gin, sentindo-se como o sonho de um deus ébrio que manejasse vidas como se fossem soldadinhos de chumbo. Imaginou Lord Arthur Wellesley, duque de Wellington, ao entregar a sua espada a Ney. Havia jovens mortos na lama, cavalos sem ginete e um oficial dos Escoceses Cinzentos agonizante sob a carreta destroçada de um canhão, com um medalhão de ouro - retrato de mulher e madeixa de cabelo louro -entre os dedos ensanguentados. No outro extremo das sombras em que mergulhava ressoavam os compassos da última valsa. E a bailarina contemplava-o da prateleira, com a sua lantejoula na testa reflectindo as chamas da lareira e disposta a cair nas mãos do duende da caixa de rapé ou do merceeiro da esquina.

Waterloo. Podiam descansar em paz os ossos do velho granadeiro, seu tetravô. Imaginou-o no interior de qualquer dos pequenos quadrados azuis do tabuleiro, na linha cinzenta que representava a estrada para Bruxelas, o rosto tisnado, o bigode chamuscado pelas explosões de pólvora. Avançava com uma respiração ruidosa e febril depois de três dias de luta à baioneta. Tinha o olhar ausente que Corso imaginou mil vezes em todos os homens, em todas as guerras. E erguia, exausto, a sua esburacada barretina de pele de urso na ponta do fuzil, tal como os seus camaradas. Viva o Imperador! O solitário, rechonchudo e canceroso fantasma de Bonaparte estava vingado. Descanse em paz./Hip, hip, hurra!

Encheu outro copo de Bois e fez um silencioso brinde na direcção do sabre pendurado na parede, à saúde da sombra fiel do granadeiro Jean-Pax Corso, 1770-1851, Legião de Honra, Cavaleiro da Ordem de Santa Helena, bonapartista ferrenho até à morte, cônsul de França na mesma cidade mediterrânica onde, um século mais tarde, nasceria o seu tetraneto. E com o sabor do gin na boca, recitou entre dentes o único património transmitido de um para outro através daquele século e dos Corsos que agora desapareciam com ele:

... E o Imperador, a frente do seu exército impaciente cavalgará no meio do clamor.

E armado sairei da terra, e uma vez mais irei para a guerra seguindo o Imperador.

Ria-se sozinho quando levantou o auscultador do telefone, marcando o número de La Ponte. O ruído do disco ao girar ressoava no silêncio do quarto. Havia livros nas paredes e telhados húmidos de chuva do lado de lá da vidraça escura. A vista dali não era grande coisa, excepto nos entardeceres de Inverno, quando o sol poente se filtrava por entre o fumo dos aquecimentos e da poluição da rua e o ar parecia inflamar-se com vermelhos e ocres como se fosse uma densa cortina. A mesa de trabalho, o computador e o tabuleiro de Waterloo estavam situados em frente desse panorama, junto da janela envidraçada, sobre a qual, naquela noite, escorriam gotas de chuva. Nas paredes não havia recordações, quadros nem fotos. Apenas o antigo sabre; da Velha Guarda na sua bainha de latão e couro. Quando recebia visitas, estas estranhavam não encontrar ali, excepto os livros e o sabre, nenhum rasto de vida pessoal, nenhum desses elos de ligação que qualquer ser humano estabelece, por instinto, com a sua memória ou com o seu passado. Tal como os objectos ausentes daquela casa, o mundo do qual provinha Lucas Corso há já muito tempo que se extinguira. Nenhum dos rostos graves que por vezes lhe surgiam na memória o teria reconhecido se voltasse à vida; e talvez fosse melhor assim. Era ; como se o dono daquele compartimento nunca tivesse tido ou deixado nada para trás. Como se sempre se tivesse bastado a si mesmo, no seu posto, como um vagabundo erudito e urbano que transportasse todos os seus haveres nos bolsos do sobretudo. E, no entanto, os raros privilegiados que o viram num desses rubros entardeceres, sentado à janela, com os olhos deslumbrados e turvados pelo gin holandês, fitando o poente, dizem que a sua expressão de pobre coelho desamparado parecia sincera. A voz sonolenta de La Ponte soou no telefone.- Acabo de massacrar Wellington - informou Corso. Após um silêncio perplexo, La Ponte respondeu que se alegrava muito. A pérfida Albion, o empadão de rins e o aquecimento a moedas nos hotéis miseráveis. Aquele cipaio, o Kipling, e toda essa corja de Balaclava, Trafalgar e Malvinas. Quanto a Corso, lembrava-lhe que eram - o telefone ficou silencioso enquanto La Ponte procurava o relógio às apalpadelas - três da madrugada. Depois resmungou mais qualquer coisa incoerente, onde apenas se distinguiram com clareza as palavras maldito e cabrão, por esta ordem.

Corso ainda ria sozinho quando poisou o auscultador. Uma vez telefonou a La Ponte de um leilão em Buenos Aires, a pagar no destinatário, apenas para lhe contar uma anedota: a puta tão feia que morreu virgem. Ah, ah, ah. Muito engraçado! Mas hei-de fazer-te engolir a factura do telefone quando voltares, maldito imbecil. E daquela vez, anos atrás, no dia em que amanheceu abraçado a Nikon, o seu primeiro gesto foi levantar o telefone para dizer a La Ponte que tinha conhecido uma mulher linda e que tudo aquilo se parecia muito com estar apaixonado. Sempre que desejava, Corso era capaz de fechar os olhos e ver Nikon acordar lentamente, com o cabelo a transbordar da almofada. Com o auscultador encostado à orelha, tinha-a descrito a La Ponte, sentindo uma estranha emoção, uma ternura inexplicável e desconhecida enquanto falava ao telefone e ela ouvia, olhando-o em silêncio; e sabia que a voz que soava do outro lado da linha -ainda bem, Corso, amigo, bendito sejas, já não era sem tempo, alegro-me por ti - era sincera ao partilhar o seu despertar, o seu triunfo, a sua felicidade. Nessa amou tanto La Ponte como a ela. Ou talvez a ela tanto como a La Ponte.

Desde então tinha passado muito tempo. Corso apagou a luz. A chuva continuava a cair lá fora, na noite. No quarto de dormir, sentado na beira da cama vazia, imóvel na penumbra, acendeu um último cigarro, procurando ouvir entre os lençóis o som da respiração ausente. Depois, estendeu uma mão para afagar o cabelo que já ali não estava sobre a almofada. Nikon era o seu único tormento. Agora a chuva lá fora tornava-se mais forte e, na janela, as gotas de água decompunham em mil reflexos a fraca luz exterior, crivando os lençóis de pontos móveis, regatos negros, sombras minúsculas que se despenhavam sem rumo, como farrapos de uma vida.- Lucas.

Pronunciou o seu próprio nome em voz alta, tal como ela costumava fazer, a única que sempre o chamou assim. Essas cinco letras eram um símbolo da destroçada pátria comum que, noutro tempo, ambos desejaram partilhar. Corso concentrou a atenção na brasa do cigarro, vermelha na escuridão. Outrora julgara amar muito Nikon. Quando a achava bela e inteligente, infalível como uma encíclica pontifícia, tão apaixonada como as suas fotografias a preto e branco: crianças de olhos imensos, velhos, cães de olhar fiel. Quando a via defender a liberdade dos povos e assinar manifestos a favor dos intelectuais encarcerados, das etnias oprimidas e coisas do género. Das focas, também. Uma vez tinha conseguido que ele assinasse uma coisa qualquer sobre as focas.

Ergueu-se lentamente da cama para não despertar o fantasma que dormia a seu lado, aguçando o ouvido para o ritmo de uma respiração que às vezes imaginava ouvir realmente. Estás morto como os teus livros. Nunca amaste ninguém, Corso. Foi essa a primeira e a última vez que ela pronunciou apenas o seu apelido; a primeira e a última vez que lhe negou o seu corpo, antes de partir para sempre em busca daquele filho que ele nunca quis ter. Abriu a janela, sentindo o frio húmido da noite ao mesmo tempo que as gotas de água lhe molhavam o rosto. Aspirou o cigarro pela última vez e depois deixou-o cair, ponto vermelho extinguindo-se na escuridão, arco de trajectória interrompida ou invisível em direcção às sombras. Nessa noite choveria também sobre outras paisagens. Sobre os últimos vestígios de Nikon. Sobre os campos de Waterloo, o tetravô Corso e os seus camaradas. Sobre o túmulo vermelho e negro de Julien Sorel, guilhotinado por julgar que, uma vez desaparecido Bonaparte, as estátuas de bronze agonizavam nos velhos caminhos esquecidos. Estúpido erro. Lucas Corso sabia melhor do que ninguém que ainda era possível escolher o campo de batalha e cobrar o soldo como soldado perdido e lúcido, ficando de guarda entre fantasmas de papel e couro, no meio da ressaca de milhares de naufrágios.

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