O Clube Dumas
Capítulo XV
CORSO E RICHELIEU
E eu, que sobre ele forjara um pequeno romance, enganei-me por completo.
(Souvestre y Allain. Fantomas)
Chegou o momento de localizar o nosso ponto de vista narrativo. Fiel ao velho princípio de que nas histórias de mistério o leitor deve possuir a mesma informação que o protagonista, procurei cingir-me aos factos da óptica de Lucas Corso, excepto em duas ocasiões: o primeiro e o quinto capítulos desta história, onde não tive outro remédio senão fazer a minha própria aparição. Em ambos os casos, como agora me disponho a fazer pela terceira e última vez, recorri à primeira pessoa do pretérito imperfeito por razões de coerência; é absurdo citar-me a mim mesmo como ele, truque publicitário que, embora tenha trazido grandes benefícios de imagem a Caio Júlio César na sua campanha das Gálias, no meu caso teria sido considerado, e com razão, de injustificado pedantismo. Há ainda uma outra causa, talvez relativamente perversa: contar a história à maneira de um Dr. Sheppard face a Poirot parecia-me, mais do que engenhoso - agora já todos fazem essas coisas - , um truque divertido. E, afinal de contas, uma pessoa escreve para se divertir, para viver mais, para gostar de si mesma ou para que os outros gostem. Admito alguns desses propósitos. Citando o velho Eugène Sue, os maus de uma só peça, se me permitem a expressão, são fenómenos muito raros. Isto supondo - e talvez estejamos a supor de mais -que eu seja realmente um malvado.
A questão é que quem isto subscreve, Boris Balkan, estava ali na biblioteca, esperando pelo nosso convidado, e de repente viu entrar Corso de navalha na mão, com um perigoso brilho justiceiro nos olhos. Observei que parecia vir sem escolta e isso inquietou-me um pouco, embora tenha procurado manter a máscara imperturbável estudada para a ocasião. Quanto ao resto, o efeito estava bem planeado: a biblioteca na penumbra, luz de candelabros na mesa em frente da qual me encontrava sentado, um exemplar de Os Três Mosqueteiros nas mãos... Vestia - e era puro acaso no que dizia respeito a Corso, mas encaixava perfeitamente no momento - um jaquetão de veludo vermelho facilmente associável à púrpura cardinalícia. A minha grande vantagem é que eu esperava o caçador de livros, com ou sem companhia, mas ele não me esperava a mim. Decidi portanto aproveitar o factor surpresa. Aquela navalha na mão, em ameaçadora combinação com a expressão dos seus olhos, inquietava-me um tanto. Assim, antecipei as palavras aos actos.
- Felicito-o - disse, fechando o livro como se a sua chegada tivesse interrompido a minha leitura. - Foi capaz de seguir o jogo até ao fim. Ficou a olhar para mim do outro extremo do compartimento, e devo acrescentar que me diverti muito com a incredulidade que lia no seu rosto.- Jogo? - articulou em voz rouca.
- Sim, jogo. Tensão, dúvida, destreza, habilidade... Acção livre, de acordo com regras obrigatórias, que tem o seu próprio fim em si mesma e é acompanhada por um sentimento de tensão e de alegria de agir de um modo diferente do da vida de todos os dias... - Aquilo não era meu, mas Corso não precisava de saber. - Parece-lhe uma definição adequada?... Já diz o segundo livro de Samuel: "Que venham as crianças e brinquem perante nós..." As crianças são jogadores e leitores perfeitos: fazem tudo com a maior seriedade. No fundo, o jogo é a única actividade universalmente séria, onde o cepticismo não tem cabimento, não acha?... Por muito incrédula e desprovida de fé que uma pessoa seja, se quer participar não tem outra opção a não ser respeitar as regras. Só quem respeita essas regras, ou pelo menos as conhece e utiliza, pode vencer... Acontece o mesmo quando lemos um livro: é preciso assumir a intriga e os personagens para saborear a história. - Parei, supondo que a avalancha de palavras tivesse tido sobre ele um adequado efeito calmante. - Com certeza que o senhor não veio só. Onde está o outro?
- Rochefort?... - Corso contraía a boca de forma muito pouco simpática. -Teve um acidente.
- Chama-lhe Rochefort?... Tem piada e é adequado. Vejo que é dos que se adaptam às regras naturalmente. Não tenho, aliás, razão para me surpreender.
Corso brindou-o com uma risadinha pouco tranquilizadora.- Pois olhe que ele parecia surpreendido da última vez que o vi.- Está a alarmar-me - sorri, cínico; mas a verdade é que estava mesmo alarmado. - Espero que não tenha acontecido nada de grave.- Caiu pela escada abaixo.
- O que me diz?!
- O que está a ouvir. Mas tranquilize-se. Quando o deixei, o seu esbirro ainda respirava.
- Ainda bem. - Tentei recompor o sorriso, procurando dissimular a minha preocupação; tudo ultrapassava excessivamente os limites previstos. - Com que então fez um bocadinho de batota?... Muito bem - abri as mãos, magnânimo. - Não se preocupe.
- Eu não me preocupo. Quem se deveria preocupar era o senhor. Fingi não o ter ouvido.
- O importante é chegar - continuei, embora perdendo por instantes o fio à meada. - Em matéria de batota, há ilustres precedentes... Teseu saiu do labirinto devido ao fio de Ariadne, Jasão roubou o velo de ouro graças a Medeia... Os Kauraba ganharam com subterfúgios o jogo de dados do Maabarata, e os aqueus deram xeque-mate aos troianos deslocando um cavalo de madeira... A sua consciência pode ficar descansada.- Obrigado, mas a minha consciência só a mim diz respeito. Retirou do bolso, dobrada em quatro, a carta de Milady e atirou-a para cima da mesa. Reconheci facilmente a minha própria letra, sempre um tanto rebuscada nas 'maiúsculas. É por ordem minha e por razões de Estado que o portador da presente, etcétera.
- Espero - disse, aproximando o papel da chama de um dos candelabros -que o jogo fosse, no mínimo, divertido.
- Às vezes.
- Ainda bem. - Ambos vimos a carta arder no cinzeiro onde eu a tinha posto. - Quando há literatura pelo meio, o leitor inteligente pode até deliciar-se com a estratégia que o transforma em vítima. E eu sou dos que acreditam que a diversão é um excelente móbil para o jogo, assim como para ler uma história ou para a escrever.
Ergui-me com Os Três Mosqueteiros na mão e dei uns passos pelo compartimento, olhando disfarçadamente o relógio de parede; faltavam ainda vinte longos minutos para as doze. Os dourados das lombadas das antigas encadernações brilhavam, alinhados nas estantes. Contemplei-os por momentos, aparentando ter esquecido Corso, e depois voltei-me para ele.- Aí os tem. - Fiz um gesto que abarcava toda a biblioteca. - Dir-se-iam quietos e silenciosos mas falam entre si, embora pareçam ignorar-se uns aos outros... Utilizam os autores para comunicar entre eles, tal como o ovo recorre à galinha para produzir outro ovo.
Devolvi Os Três Mosqueteiros à sua estante. Dumas estava em boa companhia: entre Les Pardaillans, de Zevaco e O Cavaleiro do Gibão Amarelo, de Lucus de René. Como era preciso passar tempo, abri este último na primeira página e comecei a ler em voz alta: Ao baterem as doze da noite em Saint Germain L'Auxerrois, desciam pela Rua de Astruces três cavaleiros embuçados em espessas capas, aparentemente tão seguros de si como o trote dos seus cavalos...- Primeiras linhas - exclamei. - Sempre essas extraordinárias primeiras linhas... Lembra-se da nossa conversa em relação a Scaramouche?: "Nasceu com o dom do riso..." Há frases iniciais que às vezes marcam uma vida inteira, não acha?... "Canto às armas e ao herói", por exemplo. Nunca praticou esse jogo com alguém da sua confiança?... "Um modesto jovem dirigia-se em pleno Verão...", ou aquela outra: "Andei durante muito tempo a deitar-me cedo..." E, claro: "A 15 de Maio de 1796, o general Bonaparte fez a sua entrada em Milão".
Corso fez uma careta.
- Está a esquecer-se da que me trouxe até aqui: "Na primeira segunda-feira do mês de Abril de 1625, o burgo de Meung, onde nasceu o autor do Romance da Rosa, parecia estar em tão completa revolução.- Primeiro capítulo, com efeito - confirmei. - Portou-se muitíssimo bem.- Foi o que disse Rochefort antes de cair pela escada abaixo. Fez-se um silêncio, quebrado pelas badaladas do relógio marcando as onze e três quartos. Corso apontou o mostrador:
- Faltam quinze minutos, Balkan.
- Tem razão - assenti; aquele fulano tinha uma intuição diabólica. - Quinze minutos para a primeira segunda-feira de Abril. Coloquei O Cavaleiro do Gibão Amarelo na respectiva estante e dei uns passos pelo quarto. Corso continuava a observar-me, imóvel, ainda com a navalha na mão.
- Podia guardar isso - sugeri.
Hesitou um segundo antes de fechar a lâmina, guardando-a no bolso sem deixar de me olhar. Esbocei um sorriso de aprovação ao mesmo tempo que voltava a apontar a biblioteca.
- Nunca se está só com um livro por perto, não acha?... - disse, para não estar calado. - Cada página nos lembra um dia passado, revive as/ emoções que o preencheram. Horas felizes assinaladas com giz, sombrias com carvão... Onde estava eu nessa altura? Que príncipe me chamou seu amigo, que mendigo seu irmão?... - Hesitei um pouco, procurando novos termos para engalanar a retórica do tema.
- Que filho da puta seu compadre? - sugeriu Corso. Fitei-o com olhar de censura. Aquele desmancha-prazeres empenhava-se em estragar o tom elevado que eu pretendia dar à questão.- Não tem necessidade de ser desagradável.
- Sou como muito bem me apetece, Eminência.- Detecto uma certa ironia nesse Eminência - respondi, sinceramente picado. - Deduzo que se deixa dominar pelos seus preconceitos... Foi Dumas que transformou Richelieu no malvado que não era, falseando a realidade por razões romanescas... Creio ter-lho explicado a quando do nosso último encontro no café de Madrid.
- Um truque sujo - replicou Corso, sem especificar se falava de Dumas ou de mim.
Ergui um enérgico dedo indicador, disposto a esclarecer as coisas.- Foi um recurso legítimo - objectei - inspirado pela astúcia e pelo génio do maior romancista que jamais existiu. E, no entanto... - Sorri amargamente, com uma tristeza sincera. - Saint Beuve respeitava-o mas não o aceitava como literato. Victor Hugo, seu amigo, limitava-se a gabar a capacidade revelada por Dumas para a acção dramática, mas nada mais. Era abundante e prolixo, diziam. Com pouco estilo. Acusavam-no de não mergulhar nas angústias do ser humano, de ter falta de subtileza... Falta de subtileza! -Toquei nos volumes de Os Mosqueteiros alinhados na estante. - Concordo com o bom padre Stevenson: não há mais longo, acidentado e belo hino à amizade do que este. Em Vinte Anos depois, os protagonistas reaparecem a princípio um tanto distanciados; são homens maduros, egoístas, com as pequenas mesquinhezas que a vida impõe, militando, inclusivamente, em grupos opostos... Aramis e d'Artagnan mentem e fingem, Porthos receia que lhe peçam dinheiro... Ao marcar encontro na Praça Real, vêm armados, estão dispostos a bater-se. E em Inglaterra, quando a imprudência de Athos os põe a todos em perigo, d'Artagnan recusa-se a apertar-lhe a mão... Em O Visconde de Bragelonne, com a intriga da máscara de ferro, são Aramis e Porthos que enfrentam os seus velhos camaradas... Isso acontece porque estão vivos, porque são personagens contraditórios e humanos. Mas sempre, no momento supremo, a amizade torna a vencer. Grande coisa, a amizade!... Tem amigos, Corso?
- É uma boa pergunta.
- Para mim, a amizade sempre foi encarnada por Porthos na gruta de Locmaria: o gigante prestes a sucumbir sob o rochedo para salvar os companheiros... Lembra-se das suas últimas palavras?- É demasiado peso.
- Exactamente!
Confesso que quase me emocionei. A maneira daquele jovem descrito por entre o fumo do cachimbo pelo capitão Marlow, Corso era um dos nossos. Mas era também um indivíduo teimoso e rancoroso, que se obstinava em permanecer insensível.
- Você é amante de Liana Taillefer - disse.
- É verdade - admiti, esquecendo com esforço o bom Porthos. - Maravilhosa mulher, não acha? Com as suas manias muito especiais... Formosa e leal como a Milady da história. É curioso! Na literatura existem personagens de ficção com identidade independente, familiares inclusivamente a milhões de pessoas que não leram os livros onde aparecem. Em Inglaterra há três: Sherlock Holmes, Romeu e Robinson. Em Espanha, dois: D. Quixote e D. João. Em França, um D'Artagnan. Mas repare que eu...- Deixe-se lá de começar outra vez a desconversar, Balkan.- Não desconverso. Estava até capaz de juntar o nome de Milady ao de d'Artagnan. Uma mulher extraordinária; como Liana, à sua maneira. O marido nunca esteve à sua altura.
- Refere-se a Athos?
- Refiro-me ao pobre Enrique Taillefer.
- Foi por isso que o assassinaram?
Suponho que o meu espanto pareceu sincero. Na realidade, era sincero.- Enrique assassinado?... Não diga disparates. Enforcou-se. Foi um suicídio. Imagino que, vendo o mundo como via, considerou aquilo uma heróica decisão. Lamentável!
- Não acredito.
/ - É consigo. Mas a sua morte foi a origem de toda esta história e a causa indirecta de você se encontrar aqui.
- Ora conte-me lá isso. Em pormenor.
É um facto que o merecia. Já disse antes que Corso era um dos nossos, embora ele não tivesse consciência do facto. Além disso - olhei o relógio -estavam quase a soar as doze badaladas.
- Tem O Vinho de Anjou?
Fitou-me desconfiado, procurando averiguar as minhas intenções, até que o vi dar-se por vencido. Sem entusiasmo, tirou um pouco da capa de dentro do sobretudo, antes de voltar a escondê-la.
- Excelente - disse. - Agora, siga-me.
Com certeza esperava qualquer passagem dissimulada na biblioteca, com uma armadilha diabólica. Vi-o introduzir a mão no bolso, em busca da navalha.
- Não vai precisar disso - tranquilizei-o.
Mostrou-se pouco convencido, embora não fizesse comentários. Segurei um dos candelabros bem erguido e percorremos o corredor estilo Luís XIII, onde de uma das paredes pendia uma magnífica tapeçaria: Ulisses, com o arco na mão, recém-chegado a Ítaca, Penélope e o cão felizes ao reconhecê-lo, a tertúlia de pretendentes do trono ao fundo, bebendo vinho, sem imaginar o que os espera.
- O castelo é antiquíssimo e cheio de história - expliquei. - Foi saqueado por ingleses, huguenotes, revolucionários... Inclusivamente os Alemães estabeleceram aqui um posto de comando durante a guerra. Estava muito estragado quando foi adquirido pelo seu actual proprietário, um milionário britânico, homem encantador e perfeito cavalheiro, que se encarregou do seu restauro e de mobilá-lo com um gosto extraordinário. Acedeu mesmo a abri-lo ao turismo.
- Então o que faz você aqui? Não são horas de visita. Deitei uma vista de olhos ao passar junto de uma janela trancada. A tempestade afastava-se finalmente, mal se distinguindo já os clarões dos relâmpagos para além do Loire, na direcção do Norte.- Um dia por ano é aberta uma excepção - esclareci. - Afinal, Meung é um lugar especial. Não é em qualquer lugar do mundo que começa um romance como Os Três Mosqueteiros. /
O soalho de madeira rangia sob os nossos passos. Havia uma armadura num ângulo do corredor, uma autêntica armadura do século XVI, e a luz do candelabro arrancava reflexos mates às polidas peças da couraça. Corso passou olhando-a de través, como se houvesse alguém escondido lá dentro.- O que lhe vou contar é uma longa história, que começou há dez anos -disse. - Em Paris, no leilão de um lote de documentos por catalogar... Eu estava a preparar um livro sobre o romance popular francês do século XIX e caíram-me nas mãos, por acaso, aqueles pacotes poeirentos. Ao revistá-los verifiquei que provinham dos velhos arquivos de Le Siècle. Eram quase tudo provas tipográficas de pouco valor, mas um maço de folhas azuis e brancas atraiu-me a atenção: o texto original, manuscrito por Dumas e Maquet, de Os Três Mosqueteiros. Os sessenta e sete capítulos tal como foram enviados para a imprensa. Alguém, talvez Baudry, o editor do jornal, tinha-os guardado depois das provas compostas, esquecendo-os a seguir... Abrandei o passo, até parar a meio do corredor. Corso estava muito quieto, e a luz do candelabro que eu segurava na mão iluminava-lhe o rosto de cima para baixo, fazendo bailar sombras escuras nas concavidades das órbitas. Parecia absorto no meu relato, alheio a qualquer outra coisa que pudesse acontecer; desvendar o enigma que o levara até ali era a única coisa que lhe interessava. Mas mantinha a mão direita no bolso da navalha.- A minha descoberta era de extraordinária importância - continuei, fingindo não reparar naquela mão. - Conhecíamos alguns fragmentos da redacção original graças às notas e aos papéis de Dumas e Maquet, mas não a existência do manuscrito completo... A princípio, pensei tornar pública a descoberta sob a forma de edição fac-similada e anotada, mas deparei com um grave obstáculo moral.
As luzes e as sombras na cara de Corso deslocaram-se um pouco e uma linha escura atravessou-lhe a boca: sorria.
- Não me diga! Obstáculo moral, nesta altura!
Movi o candelabro para apagar-lhe do rosto o sorriso incréduo, mas não consegui.
- Estou a falar muito a sério - protestei, ao mesmo tempo que recomeçava a andar. - Do estudo do manuscrito deduzi que o verdadeiro criador da história era Auguste Maquet... Fora ele a fazer o trabalho de documentação, desenhando o enredo em grandes traços, e depois Dumas, com o seu génio enorme e o seu talento, insuflara vida naquela matéria-prima, transformando-a numa obra fundamental. Mas isso, que era evidente para mim, podia não o ser tanto para os detractores do autor e da sua obra. - Fiz um gesto com a mão livre para os afastar a todos. Não ia ser eu a atirar pedras contra o meu santuário, e muito menos nestes tempos de mediocridade e falta de imaginação... Tempos em que ninguém admira os prodígios como dantes fazia o público dos folhetins e do teatro, quando assobiava os traidores e aclamava os cavaleiros sem medo e sem mácula. -Abanei a cabeça, melancólico. - Aplausos que, por infelicidade, já se não fazem ouvir em lugar nenhum, transformados em património exclusivo dos pobres de espírito e das crianças.
Corso ouvia com ar insolente e trocista. Ignoro se partilhava o meu ponto de vista, mas era um fulano rancoroso e negava-se a conceder as minhas explicações o carácter de álibi moral.
- Resumindo - disse - decidiu destruir o manuscrito. Sorri, sobranceiro. Estava a fazer-se esperto.
- Não diga disparates. Decidi uma coisa muito melhor: dar forma a um sonho.
Detiveramo-nos ante a porta fechada do salão. Através dela, chegava até nós um som abafado de música e vozes. Poisei o candelabro sobre uma consola enquanto Corso me observava, novamente desconfiado, perguntando sem dúvida para si mesmo que nova trapaça se esconderia em tudo aquilo. Compreendi que não se apercebia de que estávamos realmente no fim do mistério.
- Permita-me que lhe apresente - disse, abrindo a porta - os membros do Clube Dumas. !
Tinham chegado já quase todos. Os atrasados entravam pelas portas-janelas, abertas para a esplanada do castelo,um salão cheio de gente, fumo de cigarros e rumor de conversas com um fundo de música suave. Em cima da mesa central, coberta com uma toalha de linho branco, encontrava-se disposta uma ceia fria: garrafas de vinho de Anjou, salsichas e presunto de Amiens, ostras de La Rochelle, caixas de charutos Montecristo. Formando grupos, os convidados bebiam ou conversavam em diversos idiomas. Eram quase meia centena, entre homens e mulheres, e verifiquei que Corso tocava nos óculos como se desconfiasse de os ter postos. Alguns dos rostos que via eram sobejamente conhecidos através da imprensa, do cinema e da televisão.
- Surpreendido? - perguntei, espreitando o efeito no seu rosto. Abanou a cabeça em sinal afirmativo, carrancudo e desconcertado. Vários convidados vieram cumprimentar-me e portanto fui apertando mãos e trocando saudações e piadas. A atmosfera era agradável e cordial. A meu lado, Corso ia avançando com a expressão de quem está prestes a cair da cama e despertar e isso divertia-me imenso. Inclusivamente, apresentei-o a algumas pessoas com perversa satisfação, vendo-o ter de cumprimentar contra a vontade, pouco seguro do terreno em que se movimentava. O seu aprumo habitual estava em frangalhos e essa era a minha pequena vingança. Afinal, foi ele que veio ter comigo pela primeira vez com O Vinho de Anjou debaixo do braço, empenhado em complicar as coisas.- Deixem-me apresentar-lhes o Senhor Corso... Bruno Lostia, antiquário milanês. Dê-me licença. Sim, com efeito. Thomas Harvey, conhece?, Harvey Joalheiros: Nova Iorque-Londres-Paris-Roma... E o conde Von Schlossberg: a mais famosa colecção particular de pintura da Europa. Temos de tudo um pouco, como pode ver: um Prémio Nobel venezuelano, um ex-presidente argentino, o príncipe herdeiro de Marrocos... Sabia que o pai dele é um leitor apaixonado de Alexandre Dumas? Olhe quem acaba de chegar. Conhece-o, não é verdade?... Professor de Semiótica em Bolonha... A senhora loura que conversa com ele é Petra Neustadt, a crítica literária mais influente da Europa Central. Naquele grupo, junto da duquesa de Alba, pode ver o financeiro Rudolf Villefoz e o escritor britânico Harold Burgess. Amaya Euskal, do grupo Alpha Press, com o editor mais poderoso dos Estados Unidos, Johan Cross, de O&O Papers, Nova Iorque... E suponho que se lembra de Achille Replinger, livreiro de Paris. Aquele foi o golpe de misericórdia. Saboreei o seu efeito no rosto transtornado do meu interlocutor, quase chegando a ter pena dele. Replinger tinha na mão um copo vazio e, sob o bigode de mosqueteiro, um sorriso amigável, tal como quando identificava o manuscrito Dumas no seu estabelecimento da Rua Bonaparte. Cumprimentou-me com um forte abraço de urso, antes de bater afectuosamente nas costas do convidado e ir à procura de outro copo, resfolegando como um Porthos rubicundo e jovial.- Maldição! - sussurrou Corso, inclinando-se para mim num aparte. - O que se passa aqui?
- Já lhe disse que é uma longa história.
- Pois veja se a conta de uma vez!
Tínhamo-nos aproximado da mesa. Servi dois copos de vinho, mas ele recusou o que lhe estendia com um movimento de cabeça.- Gin - murmurou. - Não há gin?
Indiquei-lhe um móvel-bar no outro extremo do salão e dirigimo-nos para lá, parando três ou quatro vezes pelo caminho para trocar novos cumprimentos: um conhecido realizador de cinema, um milionário libanês, um ministro espanhol do Interior... Corso apoderou-se de uma garrafa de Beefeater e encheu um copo até à borda, engolindo metade de um só trago. Estremeceu ligeiramente e os seus olhos brilharam por trás das lentes - uma partida e a outra intacta - dos óculos. Segurava a garrafa de encontro ao peito, com medo de a perder.
- Ia contar-me qualquer coisa - disse.
Sugeri a varanda, do lado de fora da porta envidraçada, onde podíamos conversar sem sermos interrompidos, e Corso encheu de novo o copo até cima antes de me seguir. A tempestade tinha parado; sobre a nossa cabeça começavam a despontar as estrelas.
- Sou todo ouvidos - afirmou, bebendo outro grande gole. Apoiei-me na balaustrada ainda húmida da chuva, enquanto molhava os lábios no meu copo de vinho de Anjou.
- A posse do manuscrito de Os Três Mosqueteiros deu-me a ideia -comecei: - Porque não criar uma sociedade literária, uma espécie de clube de admiradores incondicionais dos romances de Alexandre Dumas e dos folhetins clássicos e de aventuras?... Por razões de trabalho, estava já relacionado com diversos candidatos idóneos... - Apontei o salão iluminado. Através das grandes portas envidraçadas viam-se os convidados andar de um lado para outro, conversando animadamente. Um êxito. Aquilo era a prova de que estava certo e não dissimulei o orgulho de autor. - Uma sociedade consagrada a estudar esse tipo de relatos, que recupera autores e obras esquecidas, fomentando a sua reedição e difusão sob uma chancela editorial que talvez lhe seja familiar: Dumas & Co.- Conheço - confirmou Corso. - Editam em Paris e acabam de publicar Ponson du Terrail completo. O ano passado foi Fantomas... Ignorava que você estivesse metido nisso.
Sorri, satisfeito.
- É a regra: nada de nomes, nada de protagonismos... Como pode ver, o tema é bastante erudito e um pouco infantil ao mesmo tempo; um jogo literário e nostálgico que recupera algumas velhas leituras e nos devolve a nós próprios tal como éramos, com a nossa inocência original. Depois amadurecemos, transformamo-nos em flaubertianos ou stendhalianos, defendemos Faulkner, Lampedusa, Garcia Márquez, Durrell ou Kafka... Tornamo-nos diferentes uns dos outros, muitas vezes até adversários. Mas temos todos um piscar de olho de cumplicidade quando nos referimos a certos autores e livros mágicos que nos fizeram descobrir a literatura sem nos prenderem a dogmas nem nos ensinarem lições erradas. É essa a nossa autêntica pátria comum: relatos fiéis não ao que os homens vêem, mas ao que os homens sonham.
Deixei aquelas palavras no ar e fiz uma pausa, esperando o efeito. Mas Corso limitou-se a erguer o copo de gin para o observar em contraluz. A sua pátria estava ali dentro.
- Isso era dantes - replicou. - Agora, as crianças e os jovens e o raio das pessoas todas são apátridas que vêem televisão. Neguei com a cabeça, seguro de mim. Tinha precisamente escrito uma coisa a esse respeito no suplemento literário do Abe umas semanas antes.- Não se convença disso. Mesmo aí, sem saber, avançam seguindo as velhas pegadas. O cinema na televisão, por exemplo, mantém o vínculo com os velhos filmes. Até Indiana Jones é herdeiro de tudo aquilo. Corso fez um gesto com a cabeça em direcção às portas de vidro iluminadas.
- É possível. Mas estava a falar-me dessas pessoas. Gostava de saber como as... recrutou.
- Não é segredo nenhum - respondi. - Há dez anos que me ocupo de coordenar esta sociedade selecta, o Clube Dumas, que realiza em Meung a sua reunião anual. Pode ver que os membros comparecem com pontualidade ao seu encontro vindos de todos os cantos do planeta. Até o último deles é um leitor de primeira classe...
- De folhetins? Não me faça rir.
- Não tenho a mínima intenção de o fazer rir, Corso. Porque faz essa cara?... Sabe que um romance ou um filme nascidos para o simples consumo se pode transformar numa obra extraordinária: desde Pickwick a Casablanca ou a Goldfinger... Descrições cheias de arquétipos que o público procura para se divertir, consciente ou inconscientemente, com a estratégia das repetições de argumento e as suas pequenas variações; mais com a dispositio do que com a elocutio... Daí que o folhetim ou mesmo a série televisiva mais vulgar se possam transformar em objecto de culto tanto para um público ingénuo como para outro mais exigente. Há quem procure a emoção em Sherlock Holmes arriscando a vida, e outros que preferem o cachimbo, a lupa e esse elementar, meu caro Watson que, imagine, Conan Doyle nunca escreveu. O truque dos esquemas, as suas variações e repetições, é tão velho que até Aristóteles se refere a ele na sua Poética. E, na realidade, o que é uma série televisiva senão uma modalidade actualizada da tragédia clássica, do grande drama romântico ou do romance alexandrino?... Daí que um leitor inteligente possa gozar muito com tudo isso, de uma forma extraordinária. Também há excepções feitas à base de regras.
Julguei que Corso me ouvia interessado, mas vi-o abanar a cabeça como um gladiador que se nega a aceitar o terreno perigoso que um adversário lhe oferece.
- Deixe-se de magistério literário e volte ao seu Clube Dumas - sugeriu, impaciente. - A esse capítulo que andava perdido por aí... Onde está o resto?
- Ali dentro - respondi, olhando para o salão. - Utilizei os sessenta e sete capítulos do manuscrito para organizar a sociedade: um máximo de sessenta e sete membros, cada um com um capítulo como se fosse uma acção nominal. A adjudicação é realizada de acordo com uma rigorosa lista de candidatos e as mudanças na titularidade exigem a aprovação do Conselho Directivo, a que eu presido... O nome de cada aspirante é rigorosamente discutido antes de ser aprovada a sua admissão.- Como são transmitidas as acções?
- Não se transmitem de maneira nenhuma. Por falecimento de um dos membros do Clube, ou quando alguém abandona a sociedade, o capítulo correspondente deve regressar ao seio desta. É o Conselho que o adjudica a um novo candidato. Um sócio nunca pode dispor livremente do seu capítulo.
- Foi o que Enrique Taillefer tentou fazer?
- De certa forma. Em princípio, era um candidato ideal. E foi membro exemplar do Clube Dumas até ter infringido as normas. Corso bebia o resto do gin. Deixou o copo na balaustrada coberta de musgo e ficou durante um bocado calado, com os olhos fixos nas luzes do salão. Por fim, declarou, incrédulo:
- Não é razão para assassinar ninguém - disse em voz baixa; parecia dirigir-se a si mesmo. - E não posso acreditar que toda essa gente. •• - Fitou-me, teimoso. - São conhecidos e respeitáveis, em princípio. Nunca se misturariam com nada desse género.
Reprimi outro gesto de impaciência.
- Creio que você complica extraordinariamente as coisas... Enrique e eu éramos amigos há algum tempo. Unia-nos a fascinação comum por este tipo de textos, embora o seu gosto literário não estivesse à altura do seu entusiasmo... O caso é que o êxito como editor de best-sellers gastronómicos permitia-lhe investir nisso tempo e dinheiro. E, para ser justo, se alguém merecia fazer parte da nossa sociedade era ele. Por isso recomendei a sua admissão. Confesso-lhe que partilhávamos, se não o gosto, pelo menos o interesse.
- Creio lembrar-me que partilhavam mais coisas. Corso recuperara o sorriso sarcástico e isso irritou-me.
- Podia responder que isso não é assunto que lhe diga respeito - repliquei, aborrecido. - Mas quero explicar-lhe tudo... Liana sempre foi uma mulher especial, além de ser muito bonita. E também uma leitora precoce... Sabe que aos dezasseis anos mandou tatuar uma flor-de-lis na anca?... Não o fez no ombro, como Milady de Winter, o seu ídolo, para que nem a família nem as freiras do internato notassem... O que lhe parece?- Comovedor.
- Não parece muito comovido. Mas garanto-lhe que ela é uma pessoa admirável... A questão é que, bem... tornámo-nos íntimos. Mencionei antes a pátria que, para todo o ser humano, constitui o paraíso perdido da infância, lembra-se?... Pois a pátria de Liana são Os Três Mosqueteiros. Apaixonada pelo mundo descoberto nessas páginas, decidiu casar com Enrique, que conheceu por acaso numa festa em que passaram a noite trocando frases do romance. Além disso, ele era já um editor riquíssimo nessa época.
- Ou seja: amor à primeira vista - comentou Corso.- Não sei porque o diz nesse tom. Foi um matrimónio baseado na sinceridade. O que sucede é que, com o correr do tempo, inclusivamente para alguém com a boa disposição da mulher, Enrique era capaz de se transformar num verdadeiro trambolho... Por outro lado, éramos bons amigos e eu visitava-os com frequência. Liana... - Deixei o meu copo junto do seu copo vazio, sobre a balaustrada. - Enfim... É fácil imaginar."- Claro. Posso imaginar perfeitamente.
- Não me referia a isso. Transformou-se numa excelente colaboradora, até chegar ao ponto de eu apadrinhar o seu ingresso na sociedade, faz agora quatro anos. Tem o capítulo 37, intitulado O Segredo de Milady. Foi ela que o escolheu pessoalmente.
- Porque a pôs no meu encalço?
- Vamos por partes. Nos últimos tempos, Enrique transformara-se numa fonte de problemas. Em vez de se limitar ao rentável negócio das edições gastronómicas, metera-se-lhe na cabeça ser autor de um folhetim. Mas, além do mais, o texto era horroroso. Verdadeiramente infame, acredite. Plagiara com o maior descaramento todos os tópicos do género. Intitulava-se...
- A Mão do Morto.
- Isso mesmo. Nem sequer o título era dele. E, o que é pior, tinha a pretensão inaudita de que Dumas & Co. lho publicasse. É óbvio que me neguei. Aquele aborto nunca teria obtido a aprovação do Conselho. Além disso, Enrique tinha dinheiro de sobra para se editar a si mesmo e foi o que lhe disse.
- Suponho que o aceitou mal. Vi a biblioteca dele.- Mal?... Isso é um eufemismo. A discussão ocorreu no seu escritório. Ainda o estou a ver erguido nas pontas dos pés, pequeno e rechonchudo, quase a sofrer uma apoplexia e fitando-me com olhos de louco. Foi tudo muito desagradável. Porque tinha consagrado a sua vida a isto. Porque quem era eu para julgar a sua obra. Porque isso competia à posteridade. Porque eu era um crítico parcial e um pedante insuportável. E porque, além disso, andava metido com a mulher... Fiquei estupefacto: ignorava que soubesse. Mas, segundo consta, Liana fala a dormir e, entre insultos e pragas a d'Artagnan e aos seus amigos, a quem com certeza odeia como se realmente os tivesse conhecido, tinha estado a contar a história ao marido... Imagina a minha situação?
- Bem difícil!
- Dificílima! Mas o pior ainda estava para vir. Enrique estava lançado. Disse que, se ele era um escritor medíocre, Dumas também não era grande coisa; sempre se havia de ver o que teria feito sem Auguste Maquet, a quem explorara miseravelmente; a prova estava nas folhas brancas e azuis de O Vinho de Anjou, guardadas no seu cofre... A nossa discussão subiu de tom. Chamou-me adúltero como insulto, como nos velhos dramas, e eu classifiquei-o como analfabeto, acrescentando comentários mal-intencionados sobre os seus últimos êxitos gastronómico-editoriais. Para terminar, comparei-o com o pasteleiro de Cyrano... "Hei-de vingar-me!", proclamou imitando o tom e o ar do conde de Montecristo. "Vou dar publicidade a toda a fraude montada pelo teu admirado Dumas para dar o seu nome a romances alheios. Vou mostrar o manuscrito e verão como aquele farsante fabricava folhetins. Já agora, vou pôr em causa os estatutos da sociedade, porque o capítulo é meu e vendê-lo-ei a quem muito bem me apetecer. Portanto, põe-te a pau, Boris"...
- Deu-lhe forte!
- Nem sabe de que forma nem até onde chega o despeito de um autor desprezado. De nada valeram os meus protestos; pôs-me na rua. Soube depois por Liana que tinha chamado esse livreiro, La Ponte, para lhe oferecer o manuscrito; deve ter-se considerado astuto e sinuoso como Edmundo Dantes. O que pretendia era desencadear um escândalo sem ser envolvido directamente e mantendo a salvo a sua própria imagem. E foi assim que você entrou na história. Deve compreender o meu sobressalto quando o vi aparecer com O Vinho de Anjou.
- Dissimulou muito bem.
- Tinha razões de sobra. Com Enrique morto, Liana e eu considerávamos o manuscrito perdido.
Observei que Corso procurava no interior do sobretudo até encontrar um cigarro amarrotado. Pendurou-o na boca e deu uns passos pela varanda sem fazer menção de o acender.
- A sua história é absurda - concluiu. - Nenhum Edmundo Dantes se suicidaria antes de saborear a vingança.
Concordei, embora nesse momento me voltasse as costas e não pudesse ver o meu gesto.
- Mas é que ainda se passaram mais coisas - disse. - No dia seguinte ao da nossa conversa, Enrique foi a minha casa numa última tentativa para me convencer... Eu estava farto e não tolero que façam chantagem comigo; portanto, sem ter a consciência exacta do que fazia, desferi-lhe o golpe mortal. O seu folhetim, para além de ser muito mau, deixara-me uma certa sensação familiar quando o lera. Então, quando Enrique me fez a segunda cena, fui à minha biblioteca e procurei um velhíssimo volume de O Romance Popular e Ilustrado, publicação pouco conhecida dos finais do século passado, e abri-o na primeira página do texto assinado por um tal Amaury de Verona, pode imaginar o tema, intitulado Angelina de Gravaillac, ou a Honra Imaculada.
Quando li em voz alta o primeiro parágrafo, vi Enrique empalidecer como se o espectro da tal Angelina se tivesse erguido da tumba. E era mais ou menos isso. Confiando em que ninguém se lembrasse daquele texto, tinha-o plagiado, copiando-o quase à letra, excepto um capítulo integralmente roubado a> Fernández y González que, no fundo, era o melhor da história... Lamentei não ter a minha máquina fotográfica à mão para lhe tirar uma fotografia quando levou uma mão à testa a fim de exclamar: "Maldição!", mas não o ouvi articular qualquer palavra; apenas uma espécie de resfolegar asmático, como se se estivesse a afogar. Acto contínuo, deu meia-volta, foi para casa e pendurou-se do candeeiro.
Corso voltara-se para mim. Continuava com o cigarro esquecido na boca, sem o acender.
- Depois, as coisas complicaram-se - continuei, convencido que agora começava a acreditar-me. - Você já tinha o manuscrito e o seu amigo La Ponte não estava disposto, em princípio, a desfazer-se dele. Eu não podia andar pessoalmente a fazer de Arsène Lupin; tenho uma reputação a manter. Foi por isso que encarreguei Liana da missão de recuperar o capítulo; aproximava-se a data da reunião anual e era preciso designar um novo membro em substituição de Enrique. Liana, por seu lado, cometeu alguns erros. Primeiro, foi visitá-lo. - Nessa altura tossiquei, pouco à vontade, para não entrar em pormenores. - Depois, quis conquistar as boas graças de La Ponte para que ele recuperasse O Vinho de Anjou, mas ignorava como você pode ser teimoso... O pior é que ela sempre tinha sonhado com uma aventura de acção que a aproximasse da sua heroína; qualquer coisa com muitas armadilhas, amores e perseguições. E este episódio, feito com a matéria dos seus sonhos, proporcionava-lhe a grande oportunidade. Pôs-se portanto em acção, seguindo-lhe o rasto com entusiasmo. "Hei-de trazer-te o manuscrito encadernado na pele desse Corso", prometeu-me... Respondi-lhe que também não devia exagerar, embora reconheça que o erro foi meu: alimentei a sua fantasia, dando rédea solta à Milady que palpitava nela desde que lera Os Mosqueteiros.
- Podia ter lido outra coisa! E Tudo o Vento Levou, por exemplo. Identificando-se com Scarlett O'Hara, andaria a aborrecer o Clark Gable e não eu.
- Devo admitir que se excedeu um pouco. Foi uma pena que levasse o caso tanto a sério.
Corso esfregou a nuca atrás da orelha. Era fácil adivinhar no que estava a pensar: quem tinha levado as coisas realmente a sério fora o outro, o tipo da cicatriz.
- Quem é Rochefort?
- Chama-se Laszlo Nicolavic. É um actor especializado em papéis secundários... Interpretou Rochefort na série que Andreas Frey realizou para a televisão britânica há alguns anos. Na realidade, interpretou quase todos os vilões espadachins conhecidos: Gonzaga em Lagardère, Levasseur em O Capitão Blood, La Tour d'Azyr em Scaramouche, Rupert de Hentzau em O Prisioneiro de Tenda... É um apaixonado pelo género e aspirante a ingressar no Clube Dumas. Liana entusiasmou-se com ele e insistiu em ter a sua colaboração neste caso.
- Pois esse Laszlo também interpretou o seu personagem com muita convicção...
- Receio que sim. E suspeito que pretende acumular méritos para acelerar a sua entrada... Também suspeito que funciona como amante ocasional. -Esbocei um sorriso de homem do mundo, esperando parecer convincente. -Liana é jovem, bonita e apaixonada. Digamos que eu cultivo o seu lado erudito com serenas efusões românticas e Laszlo Nicolavic se ocupa, possivelmente, dos aspectos mais prosaicos da sua impetuosa natureza.- E o resto?
- Não há muito mais. Nicolavic-Rochefort encarregou-se de descobrir a ocasião propícia para lhe tirar o manuscrito Dumas. Foi por isso que o seguiu de Madrid a Toledo e a Sintra, enquanto Liana se dirigia a Paris, levando La Ponte à laia de recurso para o caso de o outro falhar e você não ser razoável. O resto já sabe: não deixou que lhe tirassem o manuscrito, Milady e Rochefort excederam-se, e isso trouxe-o até aqui. - Reflecti acerca dos factos. - Sabe uma coisa? Pergunto a mim mesmo se, em lugar de Laszlo Nicolavic, não devia propô-lo a si para membro do Clube.
Nem sequer me perguntou se estava a ironizar ou se falava a sério. Tinha tirado os desconjuntados óculos e limpava-os maquinalmente, a milhares de quilómetros dali.
- É tudo? - ouvi-o finalmente perguntar.
- Claro. - Apontei para o salão. - Aí tem a prova. Colocou de novo os óculos e respirou fundo. Não me agradava mesmo nada a expressão do seu rosto.- E o Delomelanicon?... E a relação de Richelieu com As Nove Portas do Reino das Sombras?... - Aproximou-se mais, espetando-me o dedo no peitilho da camisa até eu me ver obrigado a retroceder um passo. -Considera-me estúpido? Não me vai dizer que ignora a relação entre Dumas e esse livro, o pacto com o Diabo e tudo o resto: o assassínio de Victor Fargas, em Sintra, e o incêndio no andar da baronesa Ungern, em Paris. Foi você pessoalmente quem me denunciou à polícia? E o que me diz do livro oculto em três? Ou das nove estampas gravadas por Lúcifer, reimpressas por Aristide Torchia no seu regresso de Praga com privilégio e autorização dos superiores, e todo esse maldito embróglio... Deixou sair tudo aquilo como se fosse uma torrente, esticando o queixo com ar agressivo, o olhar perfurando-me duramente. Retrocedi um pouco mais e fiquei a olhar para ele de boca aberta.
- Enlouqueceu! - protestei, indignado. - Pode explicar-me de que é que está a falar?
Pegara numa caixa de fósforos e acendia o cigarro protegendo a chama no côncavo da mão sem deixar de me observar através do brilho que se reflectia nas lentes. A seguir, contou-me a sua versão do assunto.
Quando acabou de falar ficámos ambos em silêncio. Estávamos encostados na balaustrada húmida, um ao lado do outro, olhando as luzes do salão. O relato de Corso tinha demorado o mesmo tempo que o seu cigarro, cuja beata esmagava no chão com a ponta do sapato.- Suponho - disse eu - que agora deveria confessar "sim, é verdade" e estender as mãos para que me colocasse as algemas... Espera realmente isso?
Demorou a responder. Ter-se ouvido a si próprio em voz alta não parecia ter reforçado a fé nas suas conclusões.
- No entanto - murmurou - a relação existe.
Observei a sua sombra esguia e escura no chão da varanda. Os rectângulos de luz provenientes do salão recortavam-na nos ladrilhos de mármore, alongando-a para além dos degraus até à escuridão do jardim.- Receio - concluí - que a sua imaginação lhe tenha pregado uma má partida.
Negou com um lento gesto de cabeça.
- Não imaginei Victor Fargas afogado no lago, nem a baronesa Ungern carbonizada com os seus livros... São coisas que aconteceram. Factos reais. As duas histórias misturam-se uma com a outra.- Diz muito bem: duas histórias. Talvez só a sua própria íntertex-tualidade as ligue.
- Deixe-se de tecnicismos. Foi esse capítulo de Alexandre Dumas que desencadeou tudo. - Fitou-me, ressentido. - O seu malfadado Clube. Os seus joguinhos.
- Não atire as culpas para cima de mim. Jogar é legítimo. Se em vez de uma história real, isto fosse uma ficção, você, como leitor, seria o principal responsável.
- Não seja absurdo.
- Não estou a ser. Do que acaba de me contar deduzo que, jogando também com os factos e com as suas referências literárias pessoais, elaborou uma teoria e extraiu conclusões erradas... Mas os factos são objectivos e não pode descarregar neles os seus erros pessoais. A história de O Vinho de Anjou e a desse livro misterioso, As Nove Portas, nada têm a ver uma com a outra.
- Vocês fizeram-me crer...
- Nós, e refiro-me a Liana Taillefer, Laszlo Nicolavic e eu próprio, não lhe fizemos crer nada. Foi você que, por sua conta, preencheu os espaços em branco, como se isto fosse um romance construído à base de enganos, e Lucas Corso um leitor que se considerasse esperto... Ninguém lhe disse, em nenhum momento, que as coisas se passavam como você julgava. Por isso, a responsabilidade é toda sua, meu amigo... O verdadeiro culpado é o seu excesso de intertextuali-dade, de ligação entre demasiadas referências literárias.
- E o que é que eu podia fazer?... Para me movimentar era necessária uma estratégia e não podia ficar quieto, à espera. Em qualquer estratégia, acabamos por elaborar um modelo de adversário que condiciona os passos seguintes... Wellington faz isso pensando que Napoleão pensa que fará isso. E Napoleão...
- Também Napoleão comete o erro de confundir Blucher com Grouchy, porque a estratégia militar implica tantos riscos como a literária... Oiça, Corso: já não há leitores inocentes. Perante um texto, cada um põe em jogo a sua própria perversidade. Um leitor é aquilo que leu antes, mais o cinema e a televisão que viu. A informação fornecida pelo autor acrescentará sempre a sua própria informação. E o perigo reside aí: o excesso de referências pode tê-lo levado a fabricar um adversário errado ou irreal.- A informação era falsa.
- Não teime. A informação proporcionada por um livro tem de ser objectiva. Talvez possa estar planificada por um autor perverso para o induzir em erro, mas nunca é falsa. É você que faz uma leitura falsa. Pareceu reflectir, concentrado. Tinha-se deslocado um pouco, apoiando outra vez os cotovelos na balaustrada e voltando o rosto para o jardim mergulhado na sombra.
- Então há outro autor - disse entredentes e em voz muito baixa. Assim permaneceu, imóvel. Passado um bocado, vi que tirava a capa com O Vinho de Anjou de dentro do sobretudo para a colocar ao lado, sobre a pedra coberta de musgo.
- Esta história tem dois autores - insistiu.
- É possível - comentei, ao mesmo tempo que recuperava o manuscrito de Dumas. - E talvez um seja mais perverso do que o outro... Mas o que me diz respeito é o folhetim. Você tem que procurar o romance policial noutro lado.
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