O Clube Dumas
Capítulo XIV
OS SUBTERRÂNEOS DE MEUNG
Era uma noite lúgubre.
(P. du Terrail. Rocambole)
Era uma noite lúgubre. O Loire corria turbulento e a sua enchente ameaçava ultrapassar os velhos diques da pequena povoação de Meung. A tempestade rugia desde o princípio da tarde e, de vez em quando, um relâmpago recortava na escuridão a mole do castelo, com ziguezagues de luz estralejando como chicotadas sobre o empedrado deserto das velhas ruas medievais molhado pelas bátegas de chuva. Do outro lado do rio, à distância, por entre rajadas de vento, água e folhas arrancadas às árvores, como se o vendaval estabelecesse uma fronteira entre o passado próximo e um distante presente, circulavam as luzes silenciosas dos automóveis que percorriam a auto-estrada de Tours a Orleans.
Na Hospedaria de Saint-Jacques, o único hotel de Meung, havia uma janela iluminada e aberta para uma pequena varanda que tinha acesso a partir da rua. No compartimento, uma mulher loira e alta, atraente, com o cabelo preso na nuca, vestia-se em frente do espelho. Acabava de puxar o fecho Éclair da saia, tapando uma pequena tatuagem em forma de flor-de-lis que tinha na anca. Direita, com as mãos atrás das costas, apertava o fecho do soutien para amparar um busto generoso, de pele branca, que estremecia suavemente com os seus movimentos. Depois, vestiu uma blusa de seda e ao abotoar os botões sorriu ligeiramente, com os olhos fixos na sua imagem. Com certeza que se achava bonita e talvez pensasse num encontro próximo, pois ninguém se veste às onze da noite se não for para ir ao encontro de alguém. Embora talvez o sorriso satisfeito, com uma ponta de crueldade, exibido durante a sua contemplação ao espelho, fosse motivado por uma capa de cabedal, nova, que tinha em cima da cama e da qual assomavam as páginas do manuscrito O Vinho de Anjou, de Alexandre Dumas, pai.
Um relâmpago próximo iluminou a pequena varanda junto da janela. Ali, por baixo de um estreito beiral de onde a chuva pingava, Lucas Corso deu uma última chupada no cigarro húmido que tinha entre os dedos antes de o deixar cair, levantando a gola do sobretudo para se proteger melhor da água e do vento. À luz do clarão seguinte, pôde ver com a intensidade de um gigantesco flash fotográfico, o rosto cadavérico de Flavio La Ponte, num misto de luzes e sombras que lhe davam, com o cabelo e a barba a escorrer, o aspecto de um monge atormentado ou talvez de um Athos taciturno como o desespero, sombrio como o castigo. Não houve mais relâmpagos durante um bocado, mas Corso adivinhava na terceira sombra, agachada junto deles sob o beiral, a silhueta esbelta de Irene Adler, embrulhada na sua canadiana. E quando, por fim, outro relâmpago rasgou a noite em diagonal e o trovão ribombou por sobre os telhados de ardósia, a luz fez brilhar dois reflexos verdes, gémeos, sob o capuz que ocultava o rosto da rapariga. Fora uma viagem rápida e tensa até Meung. Um tiro quase às cegas no carro alugado por La Ponte: a auto-estrada de Paris a Orleães e depois mais 16 km em direcção a Tours, com La Ponte no lugar ao lado do condutor, estudando à luz de um isqueiro Bic o mapa Miche-lin comprado numa bomba de gasolina. La Ponte atrapalhado, ainda falta um bocado, acho que vamos bem, tenho a certeza que vamos bem. A rapariga seguia no banco de trás, em silêncio, com os olhos fixos em Corso por intermédio do espelho retrovisor, de cada vez que os faróis de um carro vindo de frente os encandeavam. Claro que La Ponte se enganou. Deixaram para trás o desvio sem verem a tabuleta indicadora, afastando-se a caminho de Blois. Depois, descoberto o erro, foi preciso passar um troço em sentido proibido para sair da auto-estrada, com Corso agarrado ao volante, rogando que a tempestade retivesse os gendarmes nos seus quartéis. Beaugency. La Ponte teimando em atravessar o rio e virar para a esquerda, embora, felizmente, não tivessem feito caso dele. Retrocederam, desta vez já pela Nacional 152 - o mesmo itinerário percorrido por d'Artagnan naquele primeiro capítulo - Por entre rajadas de vento e de chuva, com o Loire correndo à sua direita como uma planície negra e rugidora, o limpa-pára-brisas funcionando constantemente e centenas de pequenos pontos escuros, sombras de chuva, bailando na cara de Corso de cada vez que se cruzavam com outros automóveis. E, por fim, ruas desertas, um bairro antigo com telhados medievais, fachadas com grossas vigas em forma de X ou de cruz: Meung-sur-Loire. Fim do percurso.
- Vai sair - sussurrou La Ponte. Encharcado, a voz tremia de frio. - Porque não entramos já?
Corso espreitou outra vez para dar uma vista de olhos. Liana Taillefer tinha vestido por cima da blusa uma camisola justa que fazia ressaltar a sua anatomia de forma espectacular e agora tirava do armário uma capa escura e comprida, semelhante a um dominó de Carnaval. Viu-a hesitar um instante enquanto olhava em redor, pôr a capa pelos ombros e agarrar de cima da cama a pasta com o manuscrito. Nesse momento reparou na janela aberta, aproximando-se com tenções de a fechar. Corso estendeu uma mão para o impedir. Houve então um relâmpago quase por cima da sua cabeça e o clarão iluminou-lhe o rosto molhado pela chuva, a silhueta recortada na janela, a mão estendida à sua frente como se apontasse, acusadora, a mulher paralisada pelo assombro. E Milady soltou um grito selvagem, de terror inaudito, como se tivesse visto o Diabo. Parou de gritar quando Corso saltou o parapeito e, com as costas da mão, lhe deu uma bofetada que a fez cair em cima da cama, enquanto as folhas manuscritas de O Vinho de Anjou esvoaçavam pelo ar. A mudança de temperatura embaciava os óculos molhados de Corso, que os tirou num gesto brusco, lançando-os para cima da mesa-de-cabeceira antes de se atirar para cima de Liana Taillefer, que tentava chegar à porta e sair para o corredor. Segurou-a primeiro por uma perna e depois pela cintura, em cima da cama, enquanto estrebuchava e esperneava. Era uma mulher forte e perguntou a si mesmo que raio estariam a fazer La Ponte e a rapariga. Enquanto esperava ajuda, tentou imobilizá-la pelos pulsos, afastando a cara onde ela procurava cravar as unhas. Rodaram engalfinhados sobre a colcha, e Corso ficou com uma coxa dela entre as suas, e o nariz enfiado na túrgida abundância de duas mamas enormes que, a curta distância e através da fina camisola de lã, tornaram a parecer-lhe incrivelmente fofas. Sentiu o inequívoco estímulo de uma erecção e praguejou entre dentes, exasperado, enquanto lutava com aquela Milady que tinha ombros de campeã olímpica na modalidade de crawl. Onde estás quando preciso de ti, pensou com amargura. Chegou então La Ponte, sacudindo a água como um cão molhado, disposto a vingar-se da sua vaidade ferida e, sobretudo, da factura do Crillon que lhe queimava a carteira. Aquilo começava a assemelhar-se a um linchamento.
- Suponho que não a vão violar - disse a rapariga. Estava sentada no parapeito, ainda com o capuz da canadiana enfiado, observando a cena. Liana Taillefer parara de esbracejar, imóvel, com Corso em cima e La Ponte agarrando-a por um braço e uma perna.- Porcos - disse em voz alta e clara.
- Vagabunda - resmungou La Ponte, sem fôlego por causa da escaramuça. Depois daquele breve intercâmbio, todos se acalmaram um pouco. Certos de que não podia fugir, deixaram-na sentar-se na cama, ainda aturdida de raiva, esfregando os pulsos enquanto distribuía venenosos olhares por La Ponte e Corso. Este interpôs-se entre ela e a porta. Quanto à rapariga, continuava na janela que fechara atrás de si; deitara para trás o capuz e olhava a viúva Taillefer com um descaramento pleno de curiosidade. La Ponte, depois de enxugar o cabelo e a barba com uma ponta da colcha, começou a apanhar as folhas do manuscrito espalhadas pelo quarto.- Vamos conversar um pouco - disse Corso. - Como pessoas razoáveis. Liana Taillefer fulminou-o com o olhar.
- Não temos nada para conversar.
- Engana-se, minha linda senhora. Agora que lhe deitámos a mão, já não me importo de ir à polícia. Ou fala connosco ou explica-se com um gendarme. Escolha.
Viram-na franzir as sobrancelhas, olhando em redor com ar acossado. Parecia um animal que espreitasse a mais ligeira abertura para fugir da armadilha.
- Cuidado! - avisou La Ponte. - Tenho a certeza que está a maquinar qualquer coisa.
Os olhos da mulher eram mortais como agulhas de aço. Corso contraiu a boca, um pouco teatral.
- Liana Taillefer - disse. - Ou talvez devêssemos chamar-lhe Anne de Brieul, condessa de La Fere. Que também usou os nomes de Carlota Backson, baronesa Sheffield e senhora de Winter. Que atraiçoou os seus amigos e os seus amantes. Que foi assassina e envenenadora, além de agente de Richelieu... E mais conhecida pelo seu apelido - fez a pausa conveniente: - Milady.
Interrompeu-se, porque acabava de tropeçar na correia da sua bolsa assomando por baixo da cama. Puxou-a, sem perder de vista nem Liana Taillefer nem a saída para a qual tinha evidente intenção de se lançar logo que lhe dessem oportunidade. Meteu uma mão dentro para verificar o que continha e um suspiro de alívio fez com que todos, inclusivamente a mulher, o olhassem surpreendidos. As Nove Portas, o exemplar de Varo Borja, estava ali, intacto.
- Bingo! - exclamou, mostrando-o aos outros. La Ponte fez uma expressão de triunfo, como se Queequeg tivesse acabado de arpoar a baleia, mas a jovem permaneceu imóvel, sem revelar qualquer emoção, aparentemente uma espectadora indiferente de todo aquele episódio. Corso devolveu o livro à bolsa. O vento assobiava nas frinchas da janela, onde a rapariga continuava imóvel. De vez em quando, um novo relâmpago recortava-lhe a silhueta. O trovão ribombava logo a seguir, amortecido e surdo, fazendo vibrar os vidros salpicados de chuva.- Uma noite adequada - disse Corso, olhando a mulher. - Como vê, Milady, não quisemos faltar ao encontro... Vimos dispostos a fazer justiça.- Em grupo e de noite, como cobardes - replicou ela, cuspindo as palavras com desprezo. - Tal como com a outra. Só falta o carrasco de Lille.- Cada coisa a seu tempo - declarou La Ponte.
A mulher refizera-se e, pouco a pouco, recuperava segurança. A sua própria alusão ao verdugo não parecia impressioná-la, pois enfrentava os seus olhares, desafiadora.
- Estou a ver - acrescentou - que cada um assumiu bem o seu papel.- Não deve estranhar isso - respondeu Corso. - Você e os seus cúmplices revelaram grande esforço e interesse em que assim fosse...- Curvava a boca num sorriso de lobo cruel, sem humor nem piedade. - E divertimo-nos todos muito.
A mulher comprimiu os lábios. Uma das suas unhas laçadas de vermelho sangue deslizava sobre a colcha. Corso seguiu o movimento, fascinado, como se aquela unha fosse um aguilhão mortal e estremeceu ao pensar que, durante a refrega, lhe passara várias vezes próximo do rosto.- Não têm direito nenhum - disse ela por fim. - São intrusos.- Engana-se. Fazemos parte do jogo, como você.- Um jogo cujas regras ignoram.
- Engana-se outra vez, Milady. A prova é que estamos aqui. - -Corso olhou em redor procurando os óculos, até descobri-los em cima da mesa-de-cabeceira. Pô-los, ajeitando-os com o indicador. - O mais complicado era precisamente isso: aceitar o carácter do jogo; assumir a ficção entrando no enredo e pensar com a mesma lógica que o texto exige, em vez de utilizar a lógica do mundo exterior... Depois é fácil continuar, porque, se, na realidade, há muitas coisas que sucedem por acaso, na ficção quase tudo decorre segundo regras lógicas.
A unha vermelha de Liana Taillefer estava agora imóvel.- Nos romances também?
- Sobretudo nos romances. Aí, se o protagonista raciocina de acordo com essa lógica interna que é a do criminoso, termina forçosamente por chegar ao mesmo ponto. É por isso que, no fim, acabam sempre por encontrar-se o herói e o traidor, o detective e o assassino.
- Sorriu, satisfeito com o seu raciocínio. - O que acha?- Óptimo - disse Liana Taillefer com ironia. Também La Ponte fitava Corso com a boca aberta, embora no seu caso a admiração fosse sincera. - Frei William de Baskerville, suponho.
- Não seja superficial, Milady. Esquece Conan Doyle e Allan Poe, por exemplo. E o próprio Dumas... Por momentos julguei-a senhora de leituras mais vastas.
A mulher olhou o caçador de livros fixamente.- Como vê, está a desperdiçar o seu talento comigo - concluiu, desdenhosa.- Não sou o público adequado.
- Bem sei. Vim precisamente até aqui para que nos leve até ele. - Olhou o relógio de pulso. - Falta pouco mais de uma hora para a primeira segunda-feira de Abril.
- Também gostava de saber como adivinhou isso.- Não adivinhei. - Voltou-se para a jovem, que comtinuava junto da janela. -Foi ela que me pôs o livro à frente dos olhos... E em matéria de investigação, um livro é melhor do que o mundo exterior: fechado, sem perturbações aborrecidas. Como o laboratório de Sherlock Holmes.- Pára lá de te exibires, Corso - sugeriu a rapariga com ar enfastiado. - Já a impressionaste o suficiente.
A mulher ergueu uma sobrancelha, olhando-a como se a visse pela primeira vez.
- Quem é?
- Não me diga que não sabe... Nunca a tinha visto antes?- Nunca. Falaram-me de uma rapariguinha, mas não me disseram de onde tinha saído.
- Quem lhe falou dela?
- Um amigo.
- Alto, moreno, com bigode e uma cicatriz na cara? Com um lábio rebentado?... O bom Rochefort! Gostaria muito de conhecer o seu paradeiro. Não deve estar muito longe... Vocês escolheram dois dignos personagens.
Por qualquer razão, isso alterou a impassibilidade de Liana Taillefer. A unha laçada de vermelho enterrou-se na colcha como se procurasse a carne de Corso e os olhos pareceram descongelar-se com lampejos de raiva.- Os outros comparsas do romance são, por acaso, melhores?... - Havia desprezo e insultuosa arrogância no modo como Milady ergueu a cabeça para os olhar um a seguir ao outro. - Athos, um bêbado; Porthos, um idiota; Aramis, um hipócrita conspirador...
- É um ponto de vista - admitiu Corso.
- Cale-se. O que sabe dos meus pontos de vista?... - Liana Taillefer fez uma pausa, com o queixo espetado e os olhos cravados em Corso como se agora fosse a vez dele. - Quanto a d'Artagnan - continuou - esse é o pior de todos... Espadachim? Apenas tem quatro duelos em Os Três Mosqueteiros e vence quando Jussac se está a levantar ou quando Bernajoux, num ataque cego, se enfia na sua espada. Na luta com os ingleses, limita-se a desarmar o barão. E precisa de três estocadas para derrubar o conde de Wardes... No que respeita a generosidade - dedicou a La Ponte um depreciativo gesto com o queixo - d'Artagnan ainda é mais tacanho do que este seu amigo. A primeira vez que paga uma rodada geral aos seus amigos é em Inglaterra, depois do caso Monk. Trinta e cinco anos depois.- Vejo que é uma perita, embora fosse de prever. Todos aqueles folhetins que tanto parecia odiar... Felicito-a. Interpretou na perfeição o seu personagem de viúva farta das extravagâncias do marido.- Não fingi nada. Era quase tudo papel velho, sem préstimo, medíocre. Tal como o próprio Enrique. O meu marido era um simplório: nunca soube ler entre linhas, separar o ouro da escória... Era um desses parvos que se passeiam pelo mundo, coleccionando fotos de monumentos e sem perceberem nada.
- Não foi o seu caso.
- Claro que não. Sabe quais foram os primeiros livros que li na minha vida? Mulherzinhas e Os Três Mosqueteiros. Ambos me marcaram, à sua maneira.
- Enternece-me.
- Não seja imbecil. Fez perguntas e estou a dar-lhe algumas respostas... Há leitores básicos: o pobre Enrique. E leitores que vão mais longe, que não se resignam ao estereótipo: d'Artagnan valente, Athos cavalheiresco, Porthos bondoso, Aramis fiel... Deixem-me rir! - E o seu riso soou, com efeito, dramático e sinistro como o de Milady. - Não fazem a mínima ideia! Sabe a imagem que conservo de tudo aquilo, a que sempre admirei?... Essa dama loura, leal a si mesma e àquele que escolheu como chefe, lutando sozinha, com os seus próprios recursos, miseravelmente assassinada por quatro heróis de cartão-pedra... E esse filho oculto, órfão, que aparece vinte anos depois! - Inclinou o rosto, sombria, e havia tanto ódio no seu olhar, que Corso esteve quase a retroceder um passo. - Lembro-me da gravura como se a estivesse a ver neste momento: um rio, a noite, os quatro canalhas, ajoelhados mas sem piedade. E, do outro lado, o carrasco que ergue a espada sobre o pescoço nu da mulher...
Um relâmpago iluminou-lhe brutalmente o rosto desfigurado, a carne branca e macia do pescoço, as íris imersas nas trágicas imagens que evocava como se as tivesse alguma vez vivido. Chegou depois a vibração dos vidros, o ribombar do trovão.
- Canalhas! - repetiu em voz baixa, absorta, e Corso ficou sem saber se se referia a ele e aos seus companheiros ou a d'Artagnan e aos seus amigos. No parapeito, a rapariga remexera na mochila e tinha agora Os Três Mosqueteiros na mão. Procurava uma página com toda a serenidade da sua atitude de espectadora neutral. Quando a encontrou, atirou o livro aberto para cima da cama sem dizer uma palavra. Era a gravura descrita por Liana Taillefer.
- Victa iacet Virtus - murmurou Corso, estremecendo ante a semelhança daquela cena com a oitava gravura de As Nove Portas. À vista da gravura, a mulher tinha recuperado a calma. Erguia uma sobrancelha, novamente fria, auto-suficiente, irónica.- É verdade - concordou. - Mas não me vai dizer que é d'Artag-nan que encarna essa virtude. Um gascão oportunista... Para não falar dos seus dotes de sedutor. Em todo o romance, apenas conquista três mulheres, duas delas com mentiras. O seu grande amor é uma pequena burguesa de pés grandes, camareira da rainha. A outra é uma criada inglesa de quem se aproveita miseravelmente. - O riso de Liana Taillefer soou como um insulto. - E o que me diz da sua vida íntima em Vinte Anos depois?... Amancebado com a dona de uma casa de hóspedes para poupar o aluguer... Lindas proezas as do galã, entre criadas, estalajadeiras e serventes!
- Mas d'Artagnan seduz Milady - referiu Corso com malícia. Um raio de ira quebrou de novo o gelo nos olhos de Liana Taillefer. Se os olhares matassem, o caçador de livros teria caído naquele mesmo instante aniquilado a seus pés.
- Não é ele que o consegue - respondeu a mulher. - Quando o miserável se enfia na sua cama é com mentiras, fazendo-se passar por outro. -Recuperada a frieza, o azul-aço continuava cravado em Corso como uma adaga. - O senhor e ele teriam feito um par perfeito. La Ponte escutava com profunda atenção; quase podia ouvir-se o ruído do seu cérebro cogitando. De repente, franziu a testa.- Não me vão dizer que vocês...
Voltou-se para a rapariga em busca de solidariedade; era sempre o último a saber de tudo. Mas ela permanecia impassível, observando-os como se não tivesse nada a ver com tudo aquilo.
- Sou um estúpido - concluiu o livreiro. Dirigiu-se então para a ombreira da janela e começou a dar cabeçadas.
Liana Taillefer olhou-o com desprezo antes de se dirigir a Corso:- Era indispensável trazê-lo também?
- Sou um estúpido - repetia La Ponte, dando cabeçadas com toda a força.- Considera-se Athos - explicou Corso à laia de justificação.- Parece-se mais com Aramis: presumido e enfatuado. Sabiam que faz amor olhando de relance a sombra do seu perfil na parede?- Não me diga!
- Garanto-lhe.
/La Ponte decidiu-se a deixar em paz a janela. / - Estamos a desviar-nos do assunto - disse, irritado.
- Tens razão - confirmou Corso. - Falávamos da virtude, Milady. Estava a dar-nos lições sobre a matéria em relação a d'Artag-nan e aos amigos.- E porque não?... Por que hão-de ser mais virtuosos uns ferra-brazes que usam as mulheres, que aceitam dinheiro delas, que apenas pensam em engrandecer-se e fazer fortuna, e não uma Milady que é inteligente e corajosa, que escolhe um chefe, Richelieu, e o serve com lealdade, arriscando a vida por ele?
- E assassina por ele.
- Disse-o ainda há bocado: é a lógica interna da narrativa.- Interna?... Isso depende do ponto de vista em que nos coloquemos. O seu marido foi morto fora do romance, não dentro. A sua morte foi bem real.- Está louco, Corso. Ninguém matou o Enrique. Foi ele que se enforcou.- Victor Fargas também se afogou sozinho?... E ontem à noite, a baronesa Ungern queimou a mão no microondas?
Liana Taillefer voltou-se para La Ponte e depois para a rapariga, esperando que alguém confirmasse o que acabava de ouvir. Pela primeira vez desde que eles entraram pela janela parecia desconcertada.- De que estão a falar?
- Das nove gravuras correctas - disse Corso. - De As Nove Portas do Reino das Sombras.
Através da janela fechada, por entre o vento e a chuva, chegou o som do relógio de um campanário. Quase ao mesmo tempo, ouviram-se onze badaladas gémeas no interior do edifício, vindas do corredor e escadas.- Vejo que há mais loucos nesta história - disse Liana Taillefer. Estava pendente da porta. Com a última badalada, ouvira-se ali um ruído e pelos olhos da mulher perpassou um relâmpago de triunfo.- Cuidado - sussurrou La Ponte sobressaltado, enquanto Corso compreendia por fim o que estava prestes a acontecer. Pelo canto do olho viu a rapariga erguer-se na janela, tensa e alerta, e sentiu o brusco efeito da adrenalina disparando-lhe nas veias.
Todos olharam para a maçaneta da porta. Girava muito lentamente, como nos filmes de mistério.
- Boa-noite - disse Rochefort.
Envergava um impermeável reluzente de chuva, abotoado até ao pescoço, e um chapéu de feltro sob o qual brilhavam os seus olhos escuros e fixos. A cicatriz destacava-se mais clara, em ziguezague, sobre o rosto moreno, cujo aspecto meridional era acentuado pelo farto bigode preto. Permaneceu uns quinze segundos imóvel no umbral da porta aberta, com as mãos nos bolsos do impermeável e um charco de água a formar-se sob os sapatos molhados, sem que ninguém pronunciasse uma palavra.
- Fico contente por te ver - disse por fim Liana Taillefer. O recém-chegado fez um breve gesto afirmativo, sem responder. Ainda sentada na cama, a mulher apontou Corso: - Estavam a tornar-se impertinentes.- Espero que não exagerassem - respondeu Rochefort. Tinha o mesmo tom educado e sem sotaque definido que Corso recordava da estrada de Sintra. Continuava parado no umbral, os olhos fixos no caçador de livros, como se La Ponte e a rapariga não existissem. O seu lábio inferior ainda estava inchado, com vestígios de mercurocromo e dois pontos de sutura que fechavam a ferida recente. Recordação do cais do Sena, pensou Corso, maldosamente, observando com curiosidade a reacção da jovem. Mas, passado o primeiro momento de surpresa, ela regressava ao seu papel de espectadora só muito vagamente interessada na cena. Sem perder Corso de vista, Rochefort dirigiu-se a Milady.
- Como chegaram até aqui? A mulher fez um gesto vago.- São uns pequenos espertos. - Depois de passar os olhos sobre La Ponte, deteve-os em Corso. - Pelo menos um deles.
Rochefort concordou de novo com a cabeça. De pálpebras ligeiramente semicerradas, parecia analisar a situação.
- Isto complica as coisas - disse por fim, tirando o chapéu e lançando-o para cima da cama. - Complica-as mesmo muito.
Liana Taillefer estava de acordo. Alisou a saia e, com um profundo suspiro, pôs-se em pé. O movimento fez com que Corso se voltasse um pouco para ela, tenso e indeciso. Então Rochefort tirou uma mão do bolso do impermeável e o caçador de livros deduziu que era canhoto. A descoberta não tinha grande mérito: tratava-se da mão esquerda e segurava um revólver de canhão chato e pequeno, de um azul-pavão escuro, quase negro. Entretanto, Liana Taillefer aproximou-se de La Ponte para lhe tirar o manuscrito Dumas das mãos.
- Repete agora aquilo da vagabunda. - Estava tão próxima dele e olhava-o com tal desprezo que quase lhe cuspiu na cara. - Se tens tomates para isso. La Ponte não tinha. Era um sobrevivente nato e as suas atitudes de arpoador eram reservadas para momentos de euforia etílica. Portanto, evitou repetir fosse o que fosse.
- Eu ia só a passar por aqui - declarou, conciliador, procurando com os olhos uma bacia para lavar as mãos de tudo aquilo.- Que faria eu sem ti, Flavio! - exclamou Corso, resignado. O livreiro desculpava-se, com cara de caso:
- Acho que estás a ser injusto. - Franzindo a testa com ar ofendido, foi colocar-se mais perto da rapariga; devia parecer-lhe o local mais seguro do quarto. - Vendo bem, trata-se da tua aventura, Corso... E o que é a morte para um tipo como tu? Nada. Um trâmite. Além disso, pagam-te um balúrdio. E a vida é basicamente desagradável. Ficou a olhar para o canhão do revólver de Rochefort. Depois, passou : um braço em torno dos ombros da jovem, suspirando, melancólico: - Espero que não te aconteça nada. Mas se acontecer, caber-nos-á a nós a parte mais dura: continuar a viver.
- És um porco. Um traidor. La Ponte olhou-o, magoado.- Vou fazer de conta que não ouvi isso. Estás muito tenso.- Claro que estou tenso, meu rato de esgoto!
- Também não vou ouvir isso.
- Filho da puta!
- É como se não te ouvisse, meu velho companheiro. A amizade consiste nestes pequenos pormenores.
- Congratulo-me que mantenham o espírito de equipa - comentou Milady, cáustica.
Corso reflectia a toda a velocidade, embora reflectir fosse inútil naquele momento. Não havia nenhum exercício mental capaz de arrancar a arma da mão do homem que a empunhava, embora Rochefort não a apontasse para ninguém em especial, arvorando um certo ar de aborrecimento, como se considerasse suficiente mostrá-la para colocar as coisas no seu devido lugar. Por outro lado, se o desejo de ajustar umas contas pendentes com o homem da cicatriz era muito forte, Corso não possuía a violenta destreza técnica exigida para tal. Posto La Ponte de parte, a única esperança de alterar a relação de forças residia na rapariga. Mas, a menos que fosse uma consumadíssima actriz, pouco havia a esperar daquele lado. A esperança extinguiu-se ao primeiro golpe de vista. A suposta Irene Adler sacudira dos ombros o braço de La Ponte para se encostar outra vez à janela, de onde agora os observava com um inexplicável ar distante, absurdamente decidida, na aparência, a manter-se fora do espectáculo. Liana Taillefer aproximou-se de Rochefort com o manuscrito Dumas nas mãos, muito satisfeita com a sua rápida recuperação. Corso estranhou que não demonstrasse idêntico interesse por As Nove Portas, que continuavam dentro da bolsa de lona, aos pés da cama.
- E agora? - ouviu a mulher perguntar em voz baixa ao outro. Para surpresa de Corso, Rochefort mostrou-se pouco seguro. Movia o revólver de um lado para outro, sem saber para onde apontar. Depois, trocando com Milady um olhar longo e pleno de significados ocultos, tirou a mão direita do bolso e passou-a pela cara, indeciso.
- Não podemos deixá-los aqui - acabou por dizer.- Nem levá-los - acrescentou ela.
O outro concordou muito lentamente, enquanto o revólver parecia perder a anterior hesitação. Corso verificou que a mão se tornava firme, apontando-lhe o canhão ao estômago. Sentiu crisparem-se-lhe os músculos abdominais ao mesmo tempo que tentava, com sujeito, verbo e predicado, formular um protesto com sintaxe coerente. Apenas emitiu um ruído gutural e ininteligível.
- Não vão matá-lo - exclamou La Ponte, tentando outra vez a sorte para ficar à margem do assunto.
- Flavio - conseguiu articular Corso apesar de ter a boca seca - se me safar desta, juro que te parto a cara. Em mil bocados.- Só queria ajudar.
- É melhor ajudares a tua mãe a sair da má vida.- Pronto, pronto! Fecho a boca.
- Pois, feche! - interveio Rochefort, ameaçador. Tinha trocado um último olhar com a Taillefer e, aparentemente, acabava de tomar uma decisão. Fechou a porta atrás de si sem deixar de seguir Corso com o revólver e guardou a chave no bolso do impermeável. Está tudo perdido, disse para si o caçador de livros, com o sangue batendo nas têmporas e nos pulsos. O tambor de Waterloo ressoava nalgum recanto da sua consciência quando, com a última lucidez que antecede o desespero, se viu a calcular a distância que o separava da pistola e o tempo necessário para a franquear, em que momento soaria o primeiro tiro e em que posição o receberia. As possibilidades de sair com a pele intacta eram mínimas, mas talvez cinco segundos depois se transformassem em inexistentes; e o cornetim tocou a reunir. Última carga com Ney à frente, o bravo entre os bravos, ante os olhos cansados do imperador. Com Rochefort em vez de escoceses cinzentos, mas a verdade é que uma bala era uma bala. Tudo absurdo, disse intimamente no penúltimo segundo antes de passar à acção. E interrogou-se se, naquele contexto, a morte que ia ferir-lhe o peito uma pequena fracção de tempo mais tarde seria real ou irreal e se ia ficar a flutuar no nada ou no Walhalla dos heróis de papel. Oxalá aqueles olhos claros que sentia fixos nas suas costas - o imperador? o Diabo apaixonado? - o estivessem a esperar no crepúsculo para o guiarem até ao outro lado do rio das (sombras. Então Rochefort fez uma coisa estranha. Ergueu a mão livre pedindo tempo- gesto absurdo naquela altura do caso - enquanto movia o revólver como se fosse guardá-lo no bolso. O gesto durou apenas um instante e a arma voltou de novo à posição anterior, mas o buraco negro do canhão apontava sem grande convicção. E Corso, com o pulso como uma torrente, os músculos tensos e prestes a saltar às cegas, conteve-se, aturdido, ao compreender que não era aquela a hora em que deveria morrer.
Ainda incrédulo, viu Rochefort atravessar o quarto, aproximar-se do telefone e marcar o número da linha exterior antes de discar outro com vários algarismos. Do seu lugar ouvia o som distante da chamada através da linha até que um clique o interrompeu.
- Corso está aqui - disse Rochefort. E ficou calado, aguardando, como se houvesse um silêncio idêntico no outro extremo da linha. O revólver continuava preguiçosamente apontado para um ponto impreciso do espaço. Depois, o homem da cicatriz abanou a cabeça duas vezes, ficou mais um bocado imóvel, ouvindo, e murmurou "está bem" antes de voltar a poisar o auscultador.
- Quer vê-lo - disse a Milady. Voltaram-se ambos para olhar Corso: a mulher, com irritação; Rochefort, preocupado.- É absurdo - protestou ela.
- Quer vê-lo - repetiu o outro.
Milady encolheu os ombros. Deu uns passos pelo quarto, folheando, irritada, as folhas de O Vinho de Anjou.
- Quanto a nós... - começou a dizer La Ponte.
- O senhor fica aqui - disse Rochefort, apontando-lhe o canhão da arma. Depois, tocou na ferida da boca. - E a rapariga também.
Apesar do lábio rachado, não parecia guardar muita raiva à jovem. Corso julgou notar, inclusivamente, um brilho de curiosidade na forma como a olhava, antes de se voltar para Liana Taillefer e confiar-lhe o revólver.- Não devem sair daqui.
- Porque não ficas tu?
- Quer que seja eu a levá-lo. É mais seguro.
Milady concordou de má vontade. Saltava à vista que não era aquele o papel que previra desempenhar naquela noite, mas, tal como o seu modelo romanesco, era uma sicária disciplinada. Em troca da arma, entregou a Rochefort o manuscrito Dumas. Depois, observou Corso, inquieta.- Espero que não te cause problemas.
Rochefort sorriu com tranquilidade, seguro, e tirou do bolso uma navalha automática de grandes dimensões para a fitar, pensativo; parecia que até aquele momento não se tinha lembrado se a tinha ou não consigo. A brancura dos seus dentes contrastava com a pele do rosto sulcado pela cicatriz.
- Não me parece - replicou, guardando a navalha que nem sequer tinha aberto, enquanto dirigia a Corso um gesto simultaneamente amistoso e sinistro. Depois, agarrou no chapéu que estava em cima da cama, fez girar a chave na fechadura e indicou o corredor com uma reverência exagerada, como se agitasse na mão um chapéu emplumado.- Sua Eminência espera, cavalheiro - disse. E deu uma gargalhada perfeita, breve e seca, de esbirro qualificado.
Antes de sair do quarto, Corso observou a rapariga. Voltara as costas a Milady, que os mantinha a ela e a La Ponte debaixo da mira da pistola, desinteressando-se do que ali se passava. Apoiada à janela, olhava para fora, absorta no vento e na chuva, recortada em contraluz nos relâmpagos que iluminavam a noite.
Saíram para a rua, em plena tempestade. Rochefort metera a capa com o manuscrito Dumas por dentro do impermeável para a proteger da chuva e guiava Corso pelas vielas que conduziam à parte velha da aldeia. Bátegas de água agitavam os ramos das árvores, tamborilando ruidosamente nos charcos e beirais; grossas gotas caíam no cabelo e na cara de Corso. Levantou a gola do sobretudo. A povoação estava às escuras e não se via vivalma; apenas os clarões da tempestade iluminavam as ruas intermitentemente, recortando telhados de edifícios medievais, o perfil sombrio de Rochefort sob a aba gotejante do chapéu, as silhuetas dos dois homens no solo molhado, quebradas em violentos ziguezagues com as descargas eléctricas que ressoavam como trovões diabólicos ao atingirem, como chicotadas, a agitada corrente do Loire.
- Linda noite - disse Rochefort, voltando-se para Corso de forma a fazer-se ouvir acima do estrondo.
Parecia conhecer bem a povoação. Avançava com segurança, voltando-se um pouco, de vez em quando, para verificar se o companheiro continuava a seu lado. Gesto desnecessário, pois nesse momento Corso tê-lo-ia seguido mesmo até às portas do Inferno, o qual, por outro lado, não punha de forma alguma de parte vir a encontrar no fim de tão funesto percurso. Sucessivamente, os relâmpagos iluminaram um arco medieval, uma ponte sobre um antigo fosso, uma tabuleta de Boulangerie-patisse-rie, uma praça deserta, uma torre cónica e um gradeamento de ferro com uma tabuleta: Chateau de Meung sur Loire. XIIeme-XIeme siècles. Havia uma janela com luz ao longe, do outro lado do gradeamento, mas Rochefort virou para a direita, e Corso foi atrás dele. Seguiram um troço de muralha coberta de hera até chegarem a determinada portinha semioculta no muro. Então Rochefort puxou de uma chave, uma peça de ferro enorme e antiga, e introduziu-a na fechadura.
- Joana d'Arc utilizou esta porta - disse Rochefort a Corso, enquanto fazia girar a chave e um último relâmpago revelava degraus que desciam para as trevas. No fugaz clarão, Corso pôde ver também o sorriso do outro, os seus olhos escuros brilhando sob a aba do chapéu, a cicatriz lívida na face. Pelo menos, pensou, era um digno adversário: ninguém podia ter nada a reclamar quanto à irrepreensível encenação. Bem contra a vontade, começava a sentir uma confusa simpatia pelo indivíduo, fosse ele quem fosse, capaz de executar com tal aplicação papel tão canalha. Alexandre Dumas ter-se-ia divertido como um garoto com tudo aquilo.
Rochefort empunhava uma pequena lanterna, iluminando a escada comprida e estreita que se perdia em direcção à cave.- Vá à frente - disse.
Os passos ressoavam nas curvas dos patamares. Passado um instante, Corso estremeceu dentro do sobretudo molhado: um ar frio, com cheiro a fechado e a humidade de séculos, subia até eles. O feixe de luz revelava degraus gastos pelo uso e manchas de água nas abóbadas. A escada terminava num corredor apertado, com grades ferrugentas. Rochefort iluminou por instantes um buraco circular à esquerda.
- Isto são os antigos calaboiços do bispo Thibault d'Aussigny - explicou a Corso. - Era por aí que atiravam os cadáveres ao Loire. François Villon esteve aqui preso.
E começou a recitar entredentes, em tom zombeteiro:
Ayez pitié, ayez pitié de moi...
Não havia dúvida que era um canalha culto. Com um certo toque didáctico e seguro de si. Corso não foi capaz de decidir se isso melhorava ou piorava a situação, mas havia uma ideia que lhe rondava na cabeça desde que tinham entrado na passagem. Afinal - achou pouca graça à sua própria piada- os perdidos, rio com eles. / O subterrâneo subia agora sob os arcos da abóbada pelos quais escorriam mais regos de humidade. Os olhos brilhantes de uma ratazana materializaram-se no extremo da galeria, desaparecendo depois com um guincho. A lanterna iluminou o desembocar final do Corredor numa sala circular cujo tecto, sustido por arcadas ogivais, se apoiava numa grossa coluna central.
- A cripta - informou Rochefort cada vez mais loquaz, movendo a luz em redor. - Século XII. As mulheres e as crianças refugiavam-se aqui durante os ataques ao castelo.
Muito instrutivo. No entanto, Corso não se encontrava em condições de apreciar a informação do seu extravagante cicerone; estava tenso e alerta, à espreita da ocasião oportuna. Subiam agora por uma escada em caracol, cujas seteiras filtravam estreitos clarões da trovoada que continuava a ribombar do outro lado dos muros.
- Só mais uns metros e chegaremos - comentou Rochefort atrás de si e um pouco mais abaixo; a lanterna iluminava os degraus por entre as pernas de Corso e o tom das suas palavras era conciliador. - E agora que o caso está prestes a acabar - acrescentou - devo dizer-lhe uma coisa: apesar de tudo, o senhor portou-se muito bem. A prova é que chegou até aqui... Espero que não me guarde demasiado rancor pela história do Sena e do Hotel Crillon. São ossos do ofício.
Não precisou de que ofício, mas tanto fazia. É que já Corso se voltava para ele, parando como se fosse responder qualquer coisa ou formular uma pergunta. Era um movimento casual, sem nada de suspeito, ao qual na realidade Rochefort não podia opor qualquer reparo. Talvez por isso não soube reagir quando, no mesmo movimento, Corso se lhe deixou cair em cima, ao mesmo tempo que estendia os braços e as pernas para não ser arrastado pelas escadas abaixo. O caso de Rochefort foi diferente: os degraus eram estreitos, a parede lisa e sem nada a que se agarrar e, além disso, estava longe de esperar o ataque. A lanterna, milagrosamente intacta, iluminou diversos momentos da cena ao cair rolando escada abaixo: Rochefort com os olhos esbugalhados e uma expressão de surpresa na cara, Rochefort de pernas para o ar tentando agarrar-se desesperadamente no vácuo, Rochefort prestes a desaparecer na volta da escada de caracol, o chapéu de Rochefort rolando de degrau em degrau até se deter num deles... E pouco depois, seis ou sete metros mais abaixo, um ruído surdo, uma espécie de clunc. Ou talvez plaf. A questão é que Corso, que tinha ficado a fazer força com os braços e as pernas abertas de encontro às paredes para não acompanhar o seu adversário em tão incómoda viagem, recuperou de imediato a mobilidade. O coração batia-lhe descompassado enquanto descia os degraus, saltando de três em três. Baixou-se um instante para agarrar a lanterna do chão e chegou finalmente à base da escada onde Rochefort, feito num novelo, começava dolorosamente a mexer-se, sem forças e maltratado.
- Ossos do ofício - precisou Corso, iluminando a sua própria cara com a lanterna para que, do chão, o outro pudesse ver o seu sorriso amistoso. Depois, deu-lhe um pontapé na têmpora, ouvindo a cabeça de Rochefort bater com força de encontro ao primeiro degrau. Levantou o pé para lhe dar outro, para ter a certeza, mas com uma vista de olhos verificou que não era necessário: Rochefort estava com a boca aberta e um fio de sangue saía-lhe por uma orelha. Inclinou-se sobre ele para ver se respirava, comprovou que sim e, depois de lhe abrir o impermeável, começou a revistar-lhe os bolsos, apoderando-se da navalha, de uma carteira com dinheiro, de um Bilhete de Identidade francês e da capa com o manuscrito Dumas, que meteu por baixo do seu sobretudo, entre o cinto e a camisa. Depois, apontou o feixe de luz da lanterna para a escada de caracol e voltou a subir, desta vez até ao fim. Encontrou um patamar com porta de pesadas ferragens e cravos hexagonais, por baixo da qual se filtrava uma réstea de luz, e permaneceu imóvel cerca de meio minuto, tentando recuperar o fôlego e acalmar um pouco o bater do coração. Do outro lado estava a resposta ao enigma e dispôs-se a fazer-lhe frente com os dentes cerrados, numa mão a lanterna e na outra a navalha de Rochefort, que se abriu na palma da sua mão com um ameaçador estalido automático.
E foi assim, de navalha na mão, com o cabelo despenteado e molhado de chuva e os olhos brilhando com uma resolução homicida, que vi Corso entrar na biblioteca.
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