O Clube Dumas
Capítulo VI
SOBRE APÓCRIFOS E INFILTRADOS
Acaso? Permiti que me ria, pardeus! Essa é uma explicação que só satisfaz os imbecis.
(M. Zevaco. Les Pardaillans)
CENIZA IRMÃOS.
ENCADERNAÇÃO E RESTAURO DE LIVROS. A tabuleta de madeira pendia de uma janela com vidros embaciados pelo pó. Era um letreiro rachado, cheio de fendas, encardido pelo tempo e pela humidade. A oficina dos irmãos Ceniza ficava na sobreloja de um edifício antigo de quatro andares, escorado pela parte de trás, numa rua sombria do Madrid antigo.
Lucas Corso tocou duas vezes à campainha sem obter resposta. Olhou o relógio e, encostando-se à parede, dispôs-se a esperar. Conhecia bem os hábitos de Pedro e Pablo Ceniza; naquele momento, deviam estar a algumas ruas de distância, junto do balcão de mármore do bar La Taurina, emborcando meio litro de vinho à laia de pequeno-almoço, enquanto discutiam sobre livros e touros. Solteiros, bêbados, resmungões e inseparáveis.
Viu-os chegar passados dez minutos, um ao lado do outro, com os guarda-pós cinzentos que esvoaçavam como sudários sobre os seus frágeis esqueletos; curvados por uma vida sobre a prensa ou os ferros de gravar, cosendo cadernos e dourando couros finos. Nenhum dos dois tinha ainda completado os cinquenta, mas era fácil dar-lhes dez anos mais, ao olhar as faces encovadas, as mãos e os olhos cansados pelo minucioso trabalho de artesanato, a pele descorada como se o pergaminho com que trabalhavam lhes tivesse transmitido uma consistência pálida e fria. A parecença física dos irmãos era extraordinária: o mesmo nariz grande, idênticas orelhas pegadas aos crânios de cabelo ralo penteado para trás, sem risca. As únicas diferenças notáveis residiam na estatura e na loquacidade: Pablo, o mais novo, era mais alto e mais silencioso do que Pedro. Este tossia frequentemente com um resfolegar rouco, de fumador inveterado, e as mãos com que acendia um cigarro atrás do outro tremiam constantemente.- Há quanto tempo, Senhor Corso! Muito nos alegra a sua visita. Precederam-no na escada com degraus de madeira gastos pelo uso. A porta chiou ao abrir-se e o interruptor da luz iluminou a desarrumada oficina presidida por uma antiga prensa de livros junto de uma mesa de zinco cheia de ferramentas, cadernos meio cosidos ou já alçados, guilhotinas de papel, peles tingidas, frascos de cola, ferros ornamentais e outros utensílios do ofício. Havia livros por todos os lados: grandes pilhas de encadernações em marroquim, granitado ou pele de vitela, pacotes prontos para serem enviados ou trabalhos por terminar, sem capas ou com as coberturas ainda em bruto. Sobre bancos e estantes, volumes antigos deteriorados pela traça ou pela humidade esperavam para ser restaurados. Cheirava a papel, a cola de encadernar, a pele nova. Corso dilatou as asas do nariz, satisfeito. Depois, tirou o livro da bolsa e colocou-o sobre a mesa.- Quero saber a vossa opinião acerca disto.
Não era a primeira vez. Pedro e Pablo Ceniza aproximaram-se lentamente, quase com cautela. Como de costume, foi o irmão mais velho quem primeiro tomou a palavra:
- As Nove Portas... - Tocava no livro sem o tirar do mesmo sítio; os seus dedos ossudos, amarelados pela nicotina, pareciam acariciar uma pele viva.- Belo livro. E muito raro.
Tinha olhos cinzentos, de rato. Guarda-pó cinzento, cabelo cinzento, olhos
cinzentos tal como o seu apelido{1} (1). A boca contraía-se-lhe num esgar de cobiça.
- Já o tinham visto antes?
- Já. Há menos de um ano, quando Claymore nos encarregou de limpar vinte livros da biblioteca de D. Gualterio Terral.- Em que estado chegou às vossas mãos?
- Excelente. O Senhor Terral sabia tratar dos livros. Quase todos vieram bem, excepto um Teixeira que nos deu algum trabalho. O restantes, incluindo este, só tivemos de os limpar um pouco.- É falso - disse Corso à queima-roupa. - Ou pelo menos é o que consta. Os dois irmãos entreolharam-se.
- Falso, falso... - murmurou o mais velho, carrancudo. - Toda a gente fala de livros falsos com demasiada leviandade.
- Demasiada leviandade - repetiu o outro, como um eco.- Até o senhor, Senhor Corso. E isso surpreende-nos. Falsificar um livro não é rentável: dá mais trabalho do que lucro. Refiro-me a uma verdadeira falsificação, não ao fac-símile para enganar pategos incautos. Corso fez um gesto, pedindo indulgência.
- Não disse que todo o livro seja falso, mas que há algo nele que o é. Certos exemplares a que falta uma folha ou várias, podem ser completados com cópias tiradas de outros que estejam completos...- Naturalmente, isso é o a-bê-cê do ofício. Mas não é a mesma coisa acrescentar uma fotocópia, ou fac-similar, que completar um livro com uma falta, de acordo... - Voltou-se um pouco para o irmão, sem afastar os olhos de Corso. - Diz tu, Pablo.
- ...De acordo com todas as regras da arte - completou o mais novo dos Ceniza.
Corso esboçou uma expressão cúmplice: um coelho partilhando meia cenoura.
- Podia ser o caso deste exemplar.
- E quem diz isso?
- O seu proprietário. Que não é, de maneira nenhuma, um patego incauto. Pedro Ceniza encolheu os estreitos ombros enquanto acendia um cigarro com a brasa do anterior. Ao aspirar a primeira baforada, foi sacudido por uma tosse seca mas continuou a fumar, imperturbável.- Teve acesso a um exemplar autêntico para os comparar?- Não, embora em breve o possa fazer. É por isso que peço antes a vossa opinião.
- É um livro valioso e nós não praticamos uma ciência exacta. - Voltou-se outra vez para o irmão. - Não é verdade, Pablo?- Praticamos uma arte - insistiu o outro.
- E como está a ouvir. Seria muito aborrecido decepcioná-lo, Senhor Corso.- Não me decepcionarão. Alguém como os senhores, capaz de falsificar um Speculum Vitae a partir do único exemplar conhecido e fazê-lo aparecer como autêntico num dos melhores catálogos da Europa, sabe aquilo que tem entre mãos.
Sorriram acidamente ao mesmo tempo, sincronizados. Si e Am, pensou Corso. Os gatos matreiros depois de receberem uma carícia.- Nunca foi provada a nossa autoria - disse por fim Pedro Ceniza. Esfregava as mãos, mirando o livro de través.
- Nunca - repetiu o irmão com um toque melancólico. Parecia que lamentavam não terem ido parar à prisão em troca do reconhecimento público.
- É verdade - admitiu Corso. - Também não houve provas no caso do Chaucer, supostamente encadernado em mosaico por Marius Michel, que figura no catálogo da colecção Manoukian. Nem com aquela Bíblia Poliglota do barão Bielke, cujas três folhas em falta foram pelos senhores repostas de forma tão perfeita que nem sequer os peritos se atrevem hoje a discutir a sua autenticidade...
Pedro Ceniza ergueu uma mão amarelada, de unhas demasiado compridas.- Devíamos acertar algumas coisas, Senhor Corso. Uma coisa é falsificar livros com intenção de lucro e outra, muito diferente, trabalhar por amor à arte, criar pela satisfação que proporciona esse acto de criação ou, na maioria dos casos, de recriação... - O encadernador pestanejou ligeiramente antes de sorrir com malícia. Os seus olhitos de rato brilharam quando poisaram de novo em As Nove Portas. - Embora não me lembre, e tenho a certeza que o meu irmão também não, de ter tido qualquer coisa a ver com esses trabalhos que o senhor acaba de classificar como admiráveis.- Disse perfeitos.
- Foi isso que disse?... É a mesma coisa. - Levou o cigarro à boca, encovando as faces numa longa aspiração. - Mas, seja quem for o autor, ou autores, pode ter a certeza que o acto terá representado para ele, ou para eles, um divertimento pessoal; uma satisfação moral que não se paga com dinheiro...
- Sine pecunia - sublinhou o irmão.
Pedro Ceniza deixava escapar o fumo do cigarro pelo nariz e a boca entreaberta, pensativo.
- Tomemos como exemplo esse Speculum que a Sorbonne adquiriu como autêntico. Só o papel, tipografia, impressão e encadernação devem ter custado, com certeza, cinco vezes mais do que o lucro obtido por aqueles que o senhor chama falsificadores. Há quem não compreenda isso... O que dará mais satisfação a um pintor que tenha o talento de Velázquez e seja capaz de imitar a sua obra? Ganhar dinheiro ou ver o seu quadro no Prado, entre As Meninas e A Forja de Vulcano?
Corso não teve dificuldade em concordar. Durante oito anos, o Speculum dos irmãos Ceniza figurara entre os mais preciosos volumes da Universidade de Paris. A descoberta da falsificação não ficou a dever-se a peritos mas sim ao acaso: um intermediário de língua comprida.- A polícia ainda vos incomoda?
- Quase nada. Há que ter em conta que o assunto da Sorbonne estoirou em França entre o comprador e os intermediários. É verdade que o nosso nome era falado, mas nunca se provou nada. - Pedro Ceniza sorria de novo atravessadamente, lamentando essa ausência de provas. - Mantemos boas relações com a polícia; até nos vêm consultar quando precisam de identificar livros roubados. - Apontou o irmão com o cigarro fumegante. -Ninguém como Pablo para apagar marcas de carimbos de bibliotecas, eliminar ex-líbris ou marcas de origem. As vezes pedem-lhe que reconstrua o trabalho em sentido inverso. Bem vê: vive e deixa viver.- Qual é a vossa opinião sobre As Nove Portas? O mais velho dos irmãos olhou para o outro, depois para o livro e abanou a cabeça.
Não houve nada que nos chamasse a atenção quando nos ocu-Pamos dele. O papel e a tinta são o que devem ser. Embora a observação fosse superficial, essas coisas notam-se.
Nós notamos - precisou o outro.
- E agora?
Pedro Ceniza chupou o que sobrava do cigarro, reduzido a uma minúscula beata que segurava com as unhas, deixando-a depois cair no chão, entre os sapatos, onde acabou de se consumir. O linóleo estava cheio de queimaduras como aquela.
- Encadernação veneziana do século XVII, em bom estado... - Os irmãos curvaram-se sobre o livro, embora apenas o mais velho tocasse nas páginas com as mãos frias e pálidas; pareciam dois taxidermistas estudando o processo de empalhar um cadáver. - A pele é marroquim negro, com florões dourados imitando decoração vegetal...
- Um tanto sóbrio para Veneza - comentou Pablo Ceniza. O irmão mais velho demonstrou a sua concordância com um novo ataque de tosse.
- O artista controlou-se, sem dúvida por causa da natureza do tema... -Olhou para Corso. - Verificou a alma das capas? As encadernações dos séculos XVI ou XVII proporcionam surpresas quando se trata de pele ou couro. O enchimento interior era feito com folhas soltas, coladas com grude e prensadas. Às vezes usavam provas do próprio livro ou coisas impressas mais antigas. Alguns achados são hoje mais valiosos do que os exemplares que encadernam. - Apontou uns papéis em cima da mesa. - Aí tem um exemplo. Conta-lhe, Pablo.
- Bulas da Santa Cruzada, de 1483. - O irmão sorria, malicioso, como se em vez de papéis mortos falasse de excitante material pornográfico. - Nas capas de uns memoriais sem valor do século XVI...
Pedro Ceniza continuava atento a As Nove Portas.- A encadernação parece em ordem - disse. - Tudo combina. Livro curioso, não é verdade? Com as suas cinco nervuras na lombada, sem título e com o misterioso pentáculo na capa... Torchia, Veneza, 1666. Talvez ele próprio o encadernasse. Um belo trabalho.
- Que me diz do papel?
- Estou a reconhecê-lo, Senhor Corso; boa pergunta. - O encadernador passou a língua pelos lábios, como se tentasse transmitir-lhes um pouco de calor. Depois fez soar as folhas, deixando-as correr com o polegar sobre a margem do livro, mantendo o ouvido atento como Corso fizera em casa de Varo Borja. - Excelente papel. Não tem nada que ver com as celuloses de hoje em dia... Sabe o tempo médio de vida para um livro dos que se imprimem agora? Diz-lhe, Pablo.
- Setenta anos - informou o outro com rancor, como se o culpado fosse Corso. - Setenta miseráveis anos.
O irmão mais velho procurava no meio das ferramentas da mesa. por fim) pegou numa lente especial de grande ampliação e aproximou-a do livro.- Daqui a um século - murmurou, ao mesmo tempo que levantava uma folha e a estudava a contraluz, fechando um olho - quase tudo o que hoje está nas livrarias terá desaparecido, mas estes volumes impressos há duzentos ou quinhentos anos continuarão intactos... Temos os livros, tal como o mundo, que merecemos... Não é verdade, Pablo?
- Livros de merda em papel de merda.
Pedro Ceniza abanava a cabeça, aprovador, sem deixar de estudar o livro com a lente.
- Oiça o que ele diz. O papel de celulose fica amarelo e quebradiço como uma hóstia e fragmenta-se irremediavelmente. Envelhece e morre.- Não é o caso deste - comentou Corso, apontando o livro. O encadernador continuava a estudar as folhas a contraluz.
- Papel de fio, como Deus manda. Bom papel, feito com trapos, resistente ao tempo e à estupidez humana. Não, minto. É linho. Autêntico papel de linho. - Afastou o olho da lente e olhou para o irmão. - Que estranho, não se trata de papel veneziano. Grosso, esponjoso, fibroso... Será espanhol?- Valenciano - disse o outro. - Linho de Játiva.- É isso. Um dos melhores da Europa, na época. Talvez o impressor tivesse arranjado um lote de importação... Aquele homem estava disposto a fazer bem as coisas.
Fê-las com consciência - concordou Corso. - E isso custou-lhe a vida. Eram os riscos do ofício. - Pedro Ceniza aceitou o cigarro amarrotado que Corso lhe oferecia e acendeu-o de imediato, tossindo com indiferença. -Quanto ao papel, o senhor sabe que com isso é difícil enganar-nos. A resma utilizada teria de ser branca, da mesma época, e mesmo assim havíamos de encontrar diferenças: as folhas ficam acastanhadas, as tintas oxidam-se, alteram-se com o tempo... É claro que os acrescentos se podem tingir, lavá-los com água de chá para os escurecer... Um bom restauro, ou adição de folhas que faltam, de maneira a parecerem originais, deve deixar o livro uniforme. Os pormenores são básicos. Não é verdade, Pablo? Sempre os malditos pormenores.
- Qual é o diagnóstico?
- Ressalvando as distâncias entre o impossível, o provável e o convincente, estabelecemos que a encadernação do livro pode ser do século XVII. Isso não significa que as folhas que estão dentro correspondam a esta encadernação e não a outra; mas admitamo-lo. Quanto ao papel, tem características semelhantes a outros cuja origem está provada; portanto, também parece ser da época.
- Muito bem. Encadernação e papel são autênticos. Vejamos o texto e as ilustrações.
- Isso é mais complexo. Quanto ao aspecto tipográfico, há dois possíveis pontos de partida. Primeiro: o livro é autêntico, mas o seu proprietário, que, segundo o senhor, tem poderosos motivos para o saber, nega-o. Possível, então, mas pouco provável. Vamos ao segundo ponto, o de ser falso, que nos permite calcular duas possibilidades. Primeira: o texto é todo falso, inventado, impresso em papel da época e aproveitando umas capas anteriores. Isso, embora possível, é bastante improvável. Ou, para sermos mais precisos, pouco convincente. O custo do livro seria desproporcionado... Há uma segunda alternativa razoável para a falsificação: ter sido realizada numa época muito próxima da primeira edição do livro. Falamos de uma reimpressão com modificações, camuflada como se fosse a primeira, feita dez ou vinte anos depois desse 1666 que figura no frontispício. Mas com que objectivo?- Tratava-se de um livro condenado - referiu Pablo Ceniza.- É possível - concordou Corso. - Alguém com acesso ao material usado por Aristide Torchia, chapas e tipos de impressão, pode tê-lo imprimido de novo...
O mais velho dos irmãos tinha agarrado num lápis e garatujava nas costas de uma folha impressa.
- Podia ser uma explicação. Mas as outras alternativas, ou hipóteses, parecem mais plausíveis. Imagine, por exemplo, que a maior parte das páginas do livro é autêntica, mas que se trata de um exemplar com faltas, com folhas arrancadas ou perdidas... E que alguém completou as referidas faltas utilizando papel da época, uma boa técnica de impressão e muita paciência. Nesse caso, teremos duas subpossibilidades: uma é que as páginas acrescentadas sejam reproduzidas de um outro exemplar completo; a segunda hipótese é que, à falta de páginas originais para reproduzir ou copiar, o conteúdo daquelas seja inventado. - Nesse momento, o encadernador mostrou a Corso o que tinha estado a desenhar. - Aí, já teríamos um caso de autêntica falsificação, segundo este esquema: LIVRO AUTÊNTICO
ENCADERNAÇÃO (Da época)
PAPEL (Da época)
TIPOGRAFIA
LIVRO FALSO
FALSIFICAÇÃO COMPLETA (Reimpressão idêntica) (Reimpressão modificada)
(Edição apócrifa)
FALSIFICAÇÃO PARCIAL (Páginas infiltradas) FALSIFICAÇÃO
ACTUAL (Improvável)
FALSIFICAÇÃO
DA ÉPOCA (Possível)
INFILTRAÇÃO ACTUAL (Provável)
INFILTRAÇÃO DA ÉPOCA (Possível)
ALGUMAS PÁGINAS
REPRODUZIDAS DO ORIGINAL (Autênticas) ALGUMAS PÁGINAS INVENTADAS (Apócrifas) Enquanto Corso e o irmão mais novo olhavam para o papel, Pedro folheou de novo As Nove Portas.
- Inclino-me a pensar - acrescentou passados uns momentos, quando voltaram a prestar-lhe atenção - que, se houve infiltração de algumas páginas, esta foi ou coetânea da impressão autêntica, ou muito bem feita agora, nos nossos dias. Pomos de parte a época intermédia porque reproduzir com tanta perfeição uma peça antiga não foi possível até há muito pouco tempo.
Corso devolveu-lhe o esquema.
- Imaginem que defrontam essa possibilidade: um volume com faltas. E desejam completá-lo com técnicas modernas. Que fariam? Os irmãos Ceniza suspiraram em uníssono, profunda e profissionalmente, deliciando-se com a perspectiva. Ambos tinham agora o olhar fixo em As Nove Portas.
- Suponhamos - decidiu o mais velho - que temos este livro de 168 páginas e que lhe falta a 100... A 100 e a 99, claro, pois trata-se de uma folha com duas faces, ou páginas. E queremos completá-lo. O truque consiste em localizar um gémeo.
- Um gémeo?
- É calão de ofício - explicou Pablo Ceniza: - outro exemplar completo.- Ou que, pelo menos, tenha intactas essas duas páginas que precisamos de copiar. Se possível, convém também comparar o gémeo com o nosso exemplar incompleto para ver se há impressões diferentes ou se os tipos estão mais gastos num do que no outro... O senhor sabe isso perfeitamente: numa época em que os tipos eram móveis e se desgastavam e alteravam com facilidade na impressão manual, o primeiro e o último exemplar de uma mesma tiragem podiam ser muito diferentes, com letras torcidas, partidas, diferentes tons de tinta e coisas do género. Esse estudo permitiria depois, na folha infiltrada, acrescentar ou tirar imperfeições que a igualassem ao resto... Depois, recorreríamos à reprodução fotomecânica: um fotolito plástico. E daí tiraríamos um polímero ou um zinco.- Uma chapa em relevo - disse Corso - feita de resina ou de metal.- Isso mesmo. Por muito perfeita que seja a actual técnica de reprodução, nunca nos daria o relevo, a marca no papel característica da antiga impressão com madeira ou chumbo com tinta. Portanto, temos de obter a página inteira reproduzida em material moldável, resina ou metal, muito parecidos para efeitos técnicos com a página composta com os tipos de chumbo móveis usados em 1666. Depois, colocamos essa chapa na prensa para executarmos a impressão manual como há quatro séculos. Claro que em papel da época, prévia e posteriormente tratado com métodos de envelhecimento artificial... Também tinta, cuja composição estudaríamos a fundo, precisa de ser tratada com agentes químicos para ficar igual à das restantes páginas. E está perpetrado o delito.
- Mas imagine que a folha original não existe. Que não há referência da qual copiar essas duas páginas em falta.
Os irmãos Ceniza sorriram ao mesmo tempo, seguros de si.- Então - disse o mais velho - é que o trabalho se torna mais atraente.- Documentação e imaginação - acrescentou o outro.- E, claro, audácia, Senhor Corso. Suponha que Pablo e eu temos esse exemplar incompleto de As Nove Portas. Nesse caso, também dis-poremos, nas restantes 166 páginas, de um catálogo completo de letras e símbolos utilizados pelo impressor. Portanto, tiraríamos amostras até obtermos um alfabeto inteiro. Desse alfabeto obtém-se uma reprodução em papel fotográfico, mais fácil de manejar, multiplicando cada letra as vezes necessárias para compor a página toda... O ideal, o toque artístico, consistiria em reproduzir os tipos em chumbo fundido à maneira dos antigos impressores... Mas, infelizmente, isso é demasiado complexo e caro. Adaptar-nos-íamos portanto a técnicas actuais. Separando com uma faca as letras em tipos soltos, Pablo, que tem mais pulso para o trabalho, comporia num molde, à mão, as duas páginas linha a linha, tal como um compositor do século XVII. Daí tiraríamos outra prova em papel para eliminar ligações de letras ou imperfeições, ou para acrescentar defeitos semelhantes aos que haja noutras letras, linhas e páginas do texto original... Depois, só falta fazer um negativo e daí uma reprodução em relevo: a chapa para imprimir.- E se as páginas em falta corresponderem a ilustrações?- É a mesma coisa. Se temos acesso à gravura original, o sistema de reprodução ainda é mais fácil. Neste caso, o facto de se tratar de Xilografias, com linhas mais claras do que a gravura em cobre ou ponte Seca, facilita a limpeza do trabalho.
- Imaginem que já não existe a gravura original.- Também não é problema. Se a conhecemos por referências, imita-se. Se não, inventamos. Com um prévio estudo, claro, da técnica das outras gravuras conhecidas. Qualquer bom desenhador pode fazer isso.- E a impressão?
- O senhor sabe muito bem que a xilografia é apenas uma gravura em relevo: uma placa de madeira cortada no sentido da fibra, coberta com um fundo branco sobre o qual se desenha a composição. Depois, é preciso talhá-la e aplicar a tinta nas cristas ou arestas, de modo a que seja transferida para o papel. Quando reproduzimos xilografias, há duas possibilidades: uma é a cópia do desenho, desta vez de preferência em resina. Embora a alternativa, se se dispõe de um bom artista gravador, seja fazer outra xilografia autêntica, em madeira, com a mesma técnica dos originais da época, e utilizá-la directamente na impressão... No meu caso, dispondo de um bom gravador como o meu irmão, recorreria à impressão artesanal em madeira. Sempre que possível, a arte deve imitar a arte.- E é mais limpo - acrescentou Pablo. Corso brindou-o com a sua expressão cúmplice.
- Como no Speculum da Sorbonne.
- Talvez. É possível que o seu autor, ou autores, pensassem da mesma maneira... Não achas, Pablo?
- Eram com certeza uns românticos - concordou o outro, com um sorriso que mal se chegava a esboçar.
- Com certeza. - Corso apontava para o livro. - E agora, pronunciem-se.- Eu diria que é autêntico - respondeu Pedro Ceniza sem hesitar. - Nós mesmos seríamos incapazes de conseguir uma coisa tão perfeita. Repare: qualidade do papel, manchas de página, tons idênticos, alterações de tinta, tipografia... Não é impossível que tenha páginas infiltradas, mas considero isso muito pouco provável. Se se trata de uma falsificação, a única explicação é que também seja da mesma época-Quantos exemplares são conhecidos? Três? Suponho que considerou a possibilidade de serem os três falsos.
- Considerei. Que me diz das xilografias?
- Que são estranhas, para já. Com todos esses símbolos... Mas também são da época. O grau de pressão das chapas é idêntico, bem como a tinta, os tons do papel... Talvez a chave não esteja em como nem quando foram impressos, mas sim no que têm dentro.
- Lamentais não poder chegar mais longe.
- Engana-se. - Corso preparou-se para fechar o livro. - Na realidade, fomos muito longe.
Pedro Ceniza interrompeu-o com um gesto.
- Mais uma coisa... Embora suponha que tenha reparado nisso: as marcas do gravador.
Corso fitou-o, confuso.
- Não sei a que se refere.
- As assinaturas microscópicas que há na base de cada ilustração... Mostra-lhas, Pablo.
O irmão mais novo fez menção de esfregar as mãos no guarda-pó para secar um suor inexistente. Depois, aproximando-se de As Nove Portas, mostrou a Corso algumas páginas através da lupa.
- Cada gravura - explicou - tem as abreviaturas habituais: Inv. por invenit, com a assinatura do artista original, e Sculp. por sculpsit, o gravador. Observe. Em sete das nove xilografias figura a abreviatura A.TORCH. como sculp. e como inv. É evidente que o próprio impressor desenhou e gravou sete ilustrações. Mas nas outras duas apenas aparece como sculp. Isso quer dizer que se limitou a gravá-las. E que o criador do desenho original, o inv., foi outro: alguém que correspondia às iniciais L.F. Pedro Ceniza, que seguira a explicação do irmão com breves movimentos de cabeça, aprovando as suas palavras, acendeu o enésimo cigarro.- Nada mal, não acha? - Começou a tossir por causa do fumo, com um brilhozinho maligno nos olhitos de rato astuto, pendente da expressão de Corso. - Embora o tenham queimado, esse impressor não estava só.- Não - reforçou o irmão, dando uma risada lúgubre. - Alguém ajudou a acender a fogueira por baixo dos pés.
Naquela mesma tarde, Corso recebeu a visita de Liana Taillefer. A viúva apresentou-se em sua casa sem avisar, naquela hora incerta em junto da varanda que dá para poente, vestido com uma camisa de algodão desbotada e umas velhas calças de bombazina, o caçador de livros via arder em vermelhos e ocres os telhados da cidade. É provável que não fosse o momento mais adequado e muitas das coisas que aconteceram mais tarde poderiam talvez ter-se evitado se ela tivesse vindo a outra hora do dia. Mas isso nunca se saberá. Os factos que podemos estabelecer são estes: Corso estava em frente da varanda, o seu olhar começava a turvar-se à medida que o conteúdo do copo de gin descia de nível e nesse momento tocou a campainha da porta, e Liana Taillefer - loura, altíssima, impressionante com uma gabardina inglesa sobre um saia-casaco e meias pretas - surgiu no umbral. Tinha o cabelo preso num rolo por baixo do chapéu Borsalino de aba larga, cor de tabaco, que usava um pouco de lado, com uma elegância que lhe ficava muito bem, dando-lhe um ar de mulher bela, segura disso e disposta a que todos o notassem.
- A que devo a honra? - perguntou Corso. Era uma frase estúpida, embora àquela hora e com a Bois de permeio, também não fosse justo exigir um diálogo brilhante. Liana Taillefer avançava já uns passos pelo compartimento, detendo-se junto da mesa de trabalho, onde estava a capa do manuscrito Dumas, ao lado do computador e das caixas com disquetes.- Continua a trabalhar nisto? U - Claro.
Desviou o olhar de O Vinho de Anjou para lançar uma serena vista de olhos em redor, aos livros que cobriam as paredes e se amontoavam por todos os lados. Corso compreendeu que procurava fotos, recordações, indícios que permitissem avaliar o dono da casa. Erguia uma sobrancelha, aborrecida e arrogante por não conseguir o seu objectivo. Acabou por deter-se no sabre da Velha Guarda.
- Colecciona espadas?
Inferência lógica, poderia chamar-se a esta conclusão. De tipo indutivo. Pelo menos, pensou Corso com alívio, a habilidade de Liana Taillefer para normalizar situações embaraçosas não estava à altura da sua aparência. Salvo se estivesse a divertir-se à sua custa. Portanto, sorriu ligeiramente, distante e cauteloso.
- Colecciono essa. Chama-se sabre.
A mulher assentiu, inexpressiva. Impossível saber se era parva ou boa actriz.
- Herança de família?
- Aquisição - mentiu Corso. - Pensei que ficaria bonito na rede. tantos livros tornam-se monótonos.
- Porque não tem quadros nem fotografias?
- Não há ninguém que me apeteça recordar. - Pensou na foto com moldura de prata, o defunto Taillefer de avental, trinchando o leitãozinho. - Claro que o seu caso é diferente.
Observou-o fixamente, talvez para tentar descobrir o grau de insolência das suas palavras; havia um brilho de aço nos olhos azuis, tão gelados que provocavam frio. Deambulou um pouco mais pelo compartimento, detendo-se em frente de alguns livros, da paisagem da varanda e, outra vez, da mesa de trabalho. Fez deslizar um dedo com a unha laçada de vermelho-sangue sobre a capa do manuscrito Dumas. Talvez esperasse algum comentário da parte de Corso, mas este não disse nada; limitou-se a esperar, paciente. Se ela pretendia algo, e saltava à vista que sim, deixá-la-ia fazer o seu próprio trabalho sujo. Não estava disposto a facilitar as coisas.- Posso sentar-me?
Aquela voz um pouco rouca. Eco de uma noite mal dormida, recordava Corso. Ele continuou de pé, a meio do quarto, com as mãos nos bolsos das calças, expectante. Liana Taillefer tirou o chapéu e a gabardina e depois de olhar em redor com um daqueles movimentos lentos e intermináveis, escolheu um velho sofá. Dirigiu-se lentamente até lá para se sentar - a saia ficava extremamente curta naquela posição - cruzando as pernas de uma forma que qualquer um, inclusivamente o caçador de livros com metade do gin a menos no corpo, teria definido como demolidor.- Venho falar de negócios.
Era evidente. Toda aquela exibição não era de maneira nenhuma desinteressada. Corso possuía tanta auto-estima como qualquer outro, mas não tinha nada de parvo.
Pois falemos - disse. - Já jantou com o Flavio La Ponte? Não houve qualquer reacção. Continuou a olhá-lo durante mais uns Segundos, imperturbável, com o mesmo ar de desdenhosa segurança. Ainda não -respondeu por fim sem se alterar. - Primeiro queria vê-lo a si. Pois aqui me tem.
Liana Taillefer recostou-se um pouco mais no sofá. Uma das suas mãos estava poisada sobre um rasgão do deteriorado forro de cabedal por onde se via o enchimento de crina.
- O senhor trabalha por dinheiro - disse.
- Com efeito.
- Vende-se à melhor proposta.
- As vezes. - Corso mostrou um canino no canto da boca; estava no seu território e podia deixar de parte a expressão de coelho simpático. - Em geral, o que faço é alugar-me. Como Humphrey Bogart nos filmes. Ou como as putas.
Para uma viúva que em menina fazia bordadinhos no colégio, Liana Taillefer não pareceu escandalizada com a linguagem.- Quero oferecer-lhe trabalho.
- Óptimo. Ultimamente todos me oferecem trabalho.- Pagar-lhe-ei muito dinheiro.
- Estupendo. Também toda a gente me paga muito dinheiro nestes últimos dias.
Ela tinha puxado um fio de crina dos que apareciam no braço rasgado do sofá. Enrolava-o distraidamente em torno do indicador.- Quanto cobra ao seu amigo La Ponte?
- Ao Flavio?... Nada. A esse não há quem lhe arranque um centavo.- Então por que trabalha para ele?
- Foi a própria a dizê-lo: é meu amigo.
Ouviu-a repetir a palavra, pensativa.
- Soa estranhamente na sua boca - acabou por dizer; esboçava um sorriso quase imperceptível de curioso desdém. - Também tem amigas? Corso admirou-lhe as pernas sem pressa, desde os tornozelos até às coxas, descaradamente.
- Tenho recordações. A sua pode ser-me útil esta noite. Suportou a grosseria estoicamente. Ou talvez, hesitou Corso, não tivesse captado a delicada referência que fora feita.
- Diga um valor - propôs com frieza. - Quero o manuscrito do meu marido. O negócio começava a tomar bom aspecto. Corso foi sentar-se numa poltrona em frente de Liana Taillefer. Dali, a panorâmica das suas pernas envoltas em meias negras era melhor: tirara os sapatos e apoiava os pés descalços na alcatifa.
- Da outra vez pareceu-me pouco interessada.
- Pensei melhor. Esse manuscrito tem um carácter...- Sentimental? - sugeriu Corso, trocista.
- Mais ou menos. - A voz soava agora desafiadora. - Mas não no sentido que supõe.
- E o que está decidida a fazer por ele?
- Já disse: pagar-lhe.
Corso exibiu um sorriso descarado.
- Ofende-me. Eu sou um profissional.
- O senhor é um mercenário profissional, e esses mudam de facção. Também leio livros.
- Tenho o dinheiro de que preciso.
- Não estou a falar de dinheiro agora.
Tinha-se recostado no sofá e um dos seus pés descalços acariciava o peito do pé do outro. Corso adivinhou os dedos com unhas pintadas de vermelho por baixo da malha escura das meias. Ao mover-se, a saia subiu mostrando um pouco de carne muito branca ao fundo, acima das ligas pretas, no ponto em que todos os enigmas se reduziam a um só, velho como o Tempo. O caçador de livros ergueu o olhar com dificuldade. Os olhos azuis-aços continuavam fixos nele.
Tirou os óculos antes de se pôr de pé, aproximando-se do sofá. A mulher seguiu-lhe os movimentos com os olhos, impassível; inclusivamente quando parou na sua frente, tão próximo que os joelhos se tocavam. Então Liana Taillefer ergueu uma mão e colocou os dedos de unhas laçadas de vermelho exactamente sobre a braguilha das calças de Dombazina. Sorria de novo de forma quase imperceptível, desdenhosa e segura de si, quando por fim Corso se inclinou por cima dela e lhe levantou a saia até à cintura. Mais do que um intercâmbio, foi um assalto mútuo. Um ajuste de contas sobre o sofá: exercício cru e duro entre adultos, com os gemidos adequados no momento oportuno, algumas imprecações entredentes e as unhas da mulher cravadas sem piedade nos rins de Corso. Aconteceu assim, num palmo de terreno, sem tirarem a roupa, a saia dela nas ancas largas e poderosas que ele segurava com as mãos crispadas, as presilhas do cinto de ligas cravando-se-lhe nas virilhas. Nem sequer chegou a ver-lhe as mamas, embora por vezes as tivesse agarrado: carne dura, quente e abundante sob o soutien, a blusa de seda e o casaco do saia-casaco que, no frenesim do combate, Liana Taillefer não teve tempo de tirar. E agora ali estavam os dois, ainda embrulhados um no outro por entre roupas amarrotadas, sem fôlego, como dois lutadores exaustos. E Corso a perguntar a si mesmo como ia safar-se daquela embrulhada.
- Quem é Rochefort? - perguntou, disposto a precipitar a crise. Liana Taillefer olhou-o da distância de dez centímetros. A luz do poente iluminava-lhe o rosto com tons avermelhados; tinham saltado os ganchos que prendiam o cabelo loiro e este cobria agora, em desordem, o couro do sofá. Pela primeira vez parecia descontraída.
- Ninguém que interesse - respondeu - agora que recupero o manuscrito. Corso beijou o desabotoado decote da mulher, despedindo-se do seu conteúdo. Pressentia que ia demorar muito até o beijar de novo.- Que manuscrito? - disse, para dizer qualquer coisa, e de imediato verificou que o olhar dela endurecia; o corpo, sob o seu, tornou-se rígido.- O Vinho de Anjou. - Tinha, pela primeira vez, um tom de ansiedade na voz. - Vai devolver-mo, não vai?
Corso não gostou da maneira como lhe soou aquele regresso ao tratamento por você. Lembrava-se vagamente que se tinham tratado por tu durante a refrega.
- Não disse nada disso.
- Eu julgava...
- Julgou mal.
O aço brilhou com um relâmpago de cólera. Erguia-se agora, furiosa, afastando-o com um movimento brusco das ancas.- Canalha!
Corso, que estava prestes a desatar a rir, safando-se da situação com duas ou três piadas cínicas, sentiu-se empurrado para trás com violência, caindo no chão de joelhos. Enquanto se levantava, apertando o cinto, verificou que Liana Taillefer estava já de pé, pálida e terrível e, sem se preocupar com o desarranjo da roupa, as magníficas coxas ainda à vista, lhe pregava uma bofetada tão forte que o seu tímpano esquerdo ressoou como a pele de um tambor.
- Miserável!
O caçador de livros cambaleou; a pancada não fora para menos. Atordoado, olhou em redor, como o boxeur em busca de uma referência para não se ir abaixo, à lona. Liana Taillefer atravessou o seu campo visual sem que conseguisse prestar-lhe muita atenção: o ouvido doía-lhe de forma horrível. Olhava estupidamente o sabre de Waterloo quando ouviu o som de vidro a partir-se. Então ela surgiu de novo no contra-luz avermelhado da janela. Tinha puxado a saia para baixo, segurava a capa do manuscrito numa das mãos e, na outra, o gargalo da garrafa partida. O corte do vidro estava dirigido à garganta de Corso.
Ergueu um braço, como simples reflexo, enquanto dava um passo atrás. O perigo devolvia-lhe lucidez e adrenalina em força; afastou a mão armada da mulher e deu-lhe um murro no pescoço que a deixou sem fôlego, fazendo-a estacar. A cena seguinte foi um tanto mais calma: Corso apanhava do chão o manuscrito e a garrafa partida, e Liana Taillefer estava outra vez sentada no sofá, agora com o cabelo despenteado caindo-lhe para a cara e as mãos no pescoço dorido, respirando com dificuldade por entre soluços de raiva.- Hão-de matá-lo por causa disto, Corso - ouviu-a dizer, por fim. O Sol tinha-se posto definitivamente do outro lado da cidade e os cantos da casa enchiam-se de sombras. Envergonhado, acendeu a luz e estendeu à mulher a gabardina e o chapéu antes de agarrar no telefone para chamar um táxi. Durante todo o tempo evitou olhá-la nos olhos. Depois, quando ouviu desvanecerem-se os seus passos na escada, ficou por momentos imóvel à janela, observando as sombras dos telhados que se recortavam na claridade da lua erguendo-se lentamente.
"Hão-de matá-lo por causa disto, Corso."
Serviu-se de um copo de gin bem cheio. Não conseguia afastar da cabeça a expressão de Liana Taillefer quando se soube enganada. Olhos mortais como uma adaga, ricto de fúria vingativa. E não estava a brincar; quisera realmente matá-lo. Uma vez mais as recordações surgiram lentamente, invadindo-o pouco a pouco, embora desta vez, para as reviver não fosse necessário qualquer esforço de memória. Era uma imagem nítida como o lugar exacto de onde provinha. Sobre a mesa de trabalho estava a edição fac-similada de Os Três Mosqueteiros. Abriu-a procurando a cena: página 129. Ali, por entre móveis em desordem, saltando da cama com o punhal na mão como um demónio, Milady atira-se a d'Artagnan que retrocede, aterrado, em camisa, mantendo-a afastada com a ponta da espada.
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