O Clube Dumas
Capítulo XIII
COMPLICA-SE O ENREDO
Neste momento, treme com a situação e a perspectiva da caça. Onde estaria esse tremor se eu fosse exacto como um guia de caminho-de-ferro?
(A. Conan Doyle. O Vale do Terror)
Primeiro foi uma voz distante, um murmúrio confuso que não conseguia identificar. Fez um esforço, intuindo que falavam com ele. Qualquer coisa sobre o seu aspecto. Corso não tinha a mínima ideia < de qual seria o seu aspecto, mas estava-se marimbando. Era cómodo continuar ali, estivesse onde estivesse, estendido de barriga para o ar; e : ", não lhe apetecia abrir os olhos. Sobretudo, com medo que aumentasse a dor que lhe oprimia as fontes.
Sentiu umas palmadinhas na cara e não teve remédio senão abrir um olho de má vontade. Flavio La Ponte inclinava-se para ele com um ar preocupado. Ainda estava de pijama.
- Pára de me bater na cara - disse Corso, mal-humorado. O livreiro expeliu com visível alívio o ar que retinha nos pulmões.- Julguei que estavas morto - confessou. Abrindo o outro olho, Corso fez menção de se levantar. Sentiu nessa altura, o cérebro estremecer dentro do crânio como se fosse gelatina num prato.
- Chegaram-te bem - informou desnecessariamente La Ponte, ajudando-o a pôr-se em pé. Apoiado no seu ombro para manter o equilíbrio, Corso deu uma vista de olhos ao compartimento. Liana Taillefer e Rochefort tinham desaparecido.
- Conseguiste ver o que me bateu?
Claro. Alto e moreno, com uma cicatriz na cara.- Já o tinhas visto antes?
- Não. - O livreiro franziu as sobrancelhas, despeitado. - Mas ela parecia conhecê-lo bem... Deve ter-lhe aberto a porta enquanto discutíamos no quarto de banho... É verdade, o indivíduo tinha um lábio deitado abaixo. Rachado. Com uns pontos e mercurocromo. - Tocou na face, cujo inchaço começava a diminuir, e deu uma risadinha vingativa. - Pelo que vejo, aqui toda a gente teve a sua conta.
Corso, que procurava os óculos sem os encontrar, dirigiu-lhe um olhar rancoroso.
- O que não compreendo - disse - é por que razão não te chegaram também a ti.
- Tinham essa intenção, mas eu disse-lhes que não era necessário. Que fossem lá à sua vida. Que eu sou apenas um turista acidental.- Podias ter feito qualquer coisa.
- Eu? Ora bem! Já tinha que bastasse com o soco que me tinhas dado. Fiz com os dedos dois vês assim, estás a ver?... Sinal de paz. Baixei a tampa da sanita e fiquei ali sentado, muito quietinho, até se irem embora.- Meu herói!
- Mais vale um para o caso de do que um quem havia de dizer. Ah, vê isto. -Estendeu-lhe um papel dobrado em quatro. - Deixaram isto quando se foram embora, por baixo de um cinzeiro com uma beata de Montecristo. Corso tinha dificuldade em focar as letras. Era uma nota escrita a tinta, com uma bonita letra inglesa e complicados arrebiques nas maiúsculas: É por ordem minha e para bem do Estado que o portador da presente fez o que fez.
3 de Dezembro de 1627 Richelieu
Apesar da situação, quase desatou a rir. Aquele era o salvo-conduto apresentado no cerco de La Rochelle, quando Milady pediu a cabeça de d'Artagnan. O mesmo que será mais tarde roubado por Athos de pistola em punho - "Morde se podes, víbora" - e serve para justificar perante Richelieu a execução da mulher, no fim da história... Resumindo: de mais para um capítulo só. Cambaleando, Corso foi até ao quarto de banho, abriu a torneira do lavatório e meteu a cabeça debaixo da água fria. Depois observou a cara: olhos inchados, por barbear, escorrendo água, com as têmporas a zumbir como se tivessem dentro um vespeiro. Estou lindo para uma fotografia, pensou. Que raio de maneira de começar o dia! No espelho, a seu lado, La Ponte estendia-lhe uma toalha e os óculos.- Como é óbvio - disse - levaram a tua bolsa.
- Filho da puta!
- Olha lá, não sei por que te voltas contra mim. Neste filme todo, a única coisa que fiz foi foder.
Corso estava inquieto. Percorria o vestíbulo do hotel tentando pensar a toda a velocidade, mas a cada minuto eram menores as probabilidades de alcançar os fugitivos. Estava tudo perdido, excepto um elo da cadeia: o Número Três. Ainda era necessário que o descobrissem, e isso proporcionava-lhe pelo menos uma possibilidade de lhes sair ao encontro se conseguisse mover-se com rapidez. Dirigiu-se à cabina e telefonou a Frida Ungern enquanto La Ponte pagava o quarto. Mas o auscultador deu o sinal intermitente de comunicação. Depois de hesitar um momento, ligou para o Louvre Concorde, pedindo o quarto de Irene Adler. Também não estava seguro do estado do caso por esse lado e tranquilizou-se um pouco quando ouviu a voz da rapariga. Pô-la ao corrente de tudo em poucas palavras, pedindo-lhe que viesse ter com ele à Fundação Ungern. Depois desligou o telefone ao mesmo tempo que La Ponte chegava, muito deprimido, guardando na carteira o seu cartão de crédito.
- Cadela! Ir assim embora sem liquidar a conta!- É bem feito, para não te armares em esperto.- Hei-de matá-la com as minhas próprias mãos. Juro! O hotel era caríssimo e a traição começava a parecer monstruosa ao livreiro; já não se considerava tão à margem como meia hora antes e mostrava-se carrancudo como um Achad vingativo. Apanharam um táxi e Corso deu ao condutor a direcção da baronesa Ungern. Pelo caminho, contou ao outro o resto da história: o comboio, a rapariga, Sintra, Paris, os três exemplares de As Nove Portas, a morte de Fargas, o incidente no cais do Sena... La Ponte ouvia-o abanando a cabeça, a princípio incrédulo e depois angustiado.
- Coabitei com uma víbora - lamentou-se, com um estremecimento. Corso estava de mau humor e declarou que era muito raro as víboras morderem os cretinos. La Ponte considerou a questão. Não parecia ofendido.
- E, no entanto - disse - , é uma mulher e pêras. Com um corpo impressionante.
Apesar do rancor recém-descoberto depois da dentada no seu cartão de crédito, os olhos brilharam, lúbricos, enquanto acariciava a barba.- Impressionante - repetiu com um sorrisinho idiota. Corso observava o tráfego pela janela.
- O duque de Buckingham disse a mesma coisa.- Buckingham?
- Sim. O de Os Três Mosqueteiros. Depois do episódio dos pingentes de diamantes, Richelieu encarrega Milady do assassínio do duque, mas este prende-a quando regressa a Londres. Aí, seduz o seu carcereiro Felton, um idiota como tu, em versão puritana e fanática, e convence-o a ajudá-la a fugir e, já agora, a assassinar Buckingham.
- Não me lembrava desse episódio. E o que acontece a esse Feldon?- Apunhalou o duque. Depois, foi executado, não sei se por ser assassino se por ser estúpido.
- Pelo menos não o obrigaram a pagar a conta do hotel. O táxi circulava pelo Quai de Conti, próximo do lugar onde Corso tivera a penúltima escaramuça com Rochefort. Naquele momento, La Ponte lembrou-se de qualquer coisa:
- Ouve lá, Milady não tinha uma marca num ombro? Corso assentiu. Naquele momento passavam em frente da escada por onde tinha rolado na noite anterior.
- Tinha - respondeu. - Feita pelo carrasco com um ferro em brasa: a marca dos condenados. Já a tinha quando fora casada com Athos... D'Artagnan descobriu-a ao ir para a cama com ela, e o facto por pouco não lhe custou o pescoço.
- É curioso. Sabes que Liana também tem uma marca?- No ombro?
- Não, numa anca. Uma tatuagem pequena, muito bonita, em forma de flor-de-lis.
- Não me digas!...
- Juro-te.
Corso não se lembrava da tatuagem, pois aquando do breve episódio com Liana Taillefer em sua casa - parecia já terem passado anos depois daquilo -mal tivera tempo para reparar nessa espécie de pormenores. De uma maneira ou de outra, começava tudo a ficar fora de controlo. E já não se tratavam de coincidências folclóricas, mas de um plano estabelecido, demasiado complexo e perigoso para que a actuação da mulher e do seu esbirro da cicatriz fossem consideradas uma simples brincadeira. Aquilo era um complot com todos os ingredientes do género e tinha de haver alguém a mexer os cordelinhos. Melhor dito, uma Eminência Parda. Tocou no bolso onde tinha a carta de Richelieu. Era demasiado exagerado. E, no entanto, a solução tinha de estar precisamente no insólito, no romanesco de tudo aquilo. Lembrava-se de uma coisa lida uma vez em Allan Poe ou em Conan Doyle: "Este mistério parece insolúvel pelas mesmas razões que o tornam solucionável: o excessivo, o outré das suas circunstâncias".- Ainda não sei se tudo isto é uma monumental partida ou uma autêntica renda de bilros - disse em voz alta, à laia de conclusão. La Ponte encontrara um buraquinho na pele sintética do banco e alargava-o, remexendo com o dedo, nervoso.
- Seja o que for, deixa-me muito inquieto. - Falava em voz baixa apesar do vidro anti-roubo que os separava do motorista do táxi. - Espero que saibas o que estás a fazer.
- O mal é esse. Não estou seguro do que faço.
- Por que não vamos à polícia?
- E que lhes digo?... Que Milady e Rochefort, agentes do cardeal Richelieu, nos roubaram um capítulo de Os Três Mosqueteiros e um livro para convocar Lúcifer? Que o Diabo se apaixonou por mim, encarnado numa rapariga de vinte anos para se transformar em meu guarda-costas?... Diz-me o que farias se fosses o comissário Maigret e eu te viesse com esta história.- '
- Suponho que te mandaria soprar no balão.
- Ora aí tens.
- E Varo Borja?
- Isso é outra história. - Corso gemeu, aflito. - Nem quero pensar, quando souber que perdi o livro.
O táxi avançava com dificuldade pelo meio do tráfego da manhã e Corso olhava o relógio, impaciente. Chegaram finalmente junto ao bar-tabacaria onde estivera na noite anterior, deparando com grupos de gente amontoados nos passeios e sinais de proibição de passagem junto à esquina. Enquanto saía do táxi, Corso viu também uma carrinha da polícia e um carro de bombeiros. Então cerrou os dentes, berrando uma praga sonora que fez sobressaltar La Ponte. O Número Três também tinha voado. A rapariga aproximou-se deles pelo meio das pessoas, com a sua pequena mochila às costas e as mãos nos bolsos da canadiana. Ainda se via um rasto de fumo no telhado.
- O andar ardeu às três da madrugada - informou sem olhar para La Ponte, como se ele não existisse. - Os bombeiros ainda estão lá dentro.- E a baronesa Ungern?
- Também lá está dentro. - Viu-a fazer um gesto ambíguo, não propriamente de indiferença mas resignado, fatalista. Como se aquilo estivesse previsto algures. - O cadáver apareceu carbonizado no seu escritório. Foi ali que o fogo começou. Incêndio fortuito, dizem os vizinhos; uma beata mal apagada.
- A baronesa não fumava - disse Corso.
- Ontem à noite fumou.
O caçador de livros deitou uma vista de olhos por cima das cabeças que se amontoavam junto do cordão policial. Não conseguiu ver quase nada: a extremidade superior de uma escada de socorro apoiada no edifício e os clarões intermitentes de uma ambulância junto à porta. Havia bonés de polícias e capacetes de bombeiros e o ar cheirava a madeira e a plástico queimados. No meio dos curiosos, um par de turistas americanos fotografavam-se um ao outro, posando junto do gendarme que vigiava o cordão. Uma sirene começou a tocar algures e depois interrompeu-se bruscamente. Alguém de entre os curiosos disse que estavam a tirar o cadáver, mas era impossível ver qualquer coisa. Também não devia ter muita coisa para ver, pensou Corso.
Encontrou os olhos da rapariga fixos nele, sem vestígios da noite (anterior. Era um olhar atento, prático: um soldado movimentando-se próximo do campo de batalha.
- O que aconteceu? - perguntou ela.
- Esperava que tu me dissesses.
- Não estou a falar disto. - Pela primeira vez pareceu reparar em La Ponte. -Quem é?
Corso disse-lhe. Depois hesitou um instante, perguntando a si mesmo /se o outro captaria a nuance:
- A rapariga de que te falei. Chama-se Irene Adler. La Ponte não captava nada. Limitou-se a olhá-los um tanto desconcertado, primeiro à jovem e depois ao amigo, e estendeu por fim, à laia de cumprimento, uma mão que ela não viu ou fez de conta que não viu. Estava pendente de Corso.
- Não trazes a tua bolsa - disse-lhe.
- Não. Rochefort conseguiu-a por fim. Partiu com Liana Taillefer.- Quem é Liana Taillefer?
Corso fitou-a com dureza, mas apenas encontrou serenidade nos olhos da rapariga.
- Não conheces a desconsolada viúva?
- Não.
Sustentava-lhe o olhar sem inquietação nem surpresa, imperturbável. Contra a vontade, Corso quase a acreditou.
- Tanto faz - disse por fim. - A questão é que desapareceram.- Para onde?
- Não faço a menor ideia. - Descobriu o canino numa expressão [agressiva, desconfiada. - Julguei que soubesses qualquer coisa.- Não sei nada de Rochefort nem dessa mulher. - Afirmou-o com [indiferença, dando a entender que, na realidade, aquilo não era um [assunto que lhe dissesse respeito. Corso sentiu-se mais confuso. Esperava alguma emoção da sua parte; entre outras coisas, porque ela mesma se erigira em paladina dos seus interesses. Pelo menos que o censurasse, qualquer coisa do género: é bem feito para não te fazeres esperto. Mas a jovem não formulou qualquer censura. Olhava em redor como se procurasse um rosto conhecido no meio das pessoas e ele foi incapaz de adivinhar se meditava no ocorrido ou se tinha a cabeça noutro lugar, longe do drama.- Que podemos fazer? - perguntou sem se dirigir a ninguém em particular, realmente desorientado. A parte as agressões, vira esfumarem-se uns a seguir aos outros os três exemplares de As Nove Portas e o manuscrito Dumas. Deixava três cadáveres no seu rasto, se somasse o suicídio de Enrique Taillefer, e gastara uma enorme quantidade de dinheiro que não era seu mas sim de Varo Borja... Varus, Varus: devolve-me as minhas legiões. Maldita fosse a sua sorte. Naquele momento, quereria ter trinta e cinco anos menos para se desfazer em lágrimas, sentado no passeio.- Poderíamos beber um café - sugeriu La Ponte. Disse-o frivolamente, com um sorriso do tipo: ânimo, pessoal, não é caso para tanto, e Corso compreendeu que o pobre diabo nem se apercebia da enorme complicação em que estavam todos metidos. Mas, basicamente, não lhe pareceu má ideia. Tal como estavam as coisas, não se lembrava de nada melhor.
- Vamos lá a ver se entendi. - La Ponte pingou um pouco de café com leite na barba ao molhar um bocado de croissant na chávena. - Em 1666, Aristide Torchia escondeu um exemplar especial. Uma espécie de cópia de segurança distribuída por três livros... É assim? Com diferenças em oito das suas nove gravuras. E é preciso reunir os originais para que o esconjuro funcione. - Engoliu o bocado de croissant molhado e limpou a boca com um guardanapo de papel. - Estou a ir bem?...
Encontravam-se os três sentados numa esplanada em frente de Saint-Germain-des-Prés. La Ponte desforrava-se do pequeno-almoço interrompido no Crillon, e a jovem, que não tinha abandonado a sua atitude de se manter à margem, bebia uma laranjada por uma palhinha, escutando em silêncio. Tinha Os Três Mosqueteiros aberto em cima da mesa e de vez em quando passava uma página, lendo distraída, para depois erguer de novo a cabeça e continuar a ouvir. Quanto a Corso, os acontecimentos tinham-lhe provocado um nó no estômago: era impossível engolir fosse o que fosse.- Vais muito bem - respondeu a La Ponte. Recostava-se na cadeira, com as mãos nos bolsos do sobretudo e olhando sem ver o campanário da igreja. -Ainda existe a possibilidade de a edição completa, a que foi queimada pelo Santo Ofício, também constar de três séries de livros com estampas modificadas, de forma a que apenas os verdadeiros estudiosos do assunto, os iniciados, conseguissem combinar três exemplares correctos... - Ergueu as sobrancelhas, enrugando a testa com pesar. - Isso nunca poderemos saber.
- E quem disse que eram apenas três? Pode ter impresso quatro, ou nove séries diferentes.
- Nesse caso, tudo isto não terá servido para nada. Apenas se conhecem três livros.
- Seja como for, alguém quer reconstituir o livro original e, para isso, apodera-se das gravuras autênticas... - La Ponte falava com a boca cheia; continuava a engolir o pequeno-almoço com apetite. - Mas o valor bibliófilo não lhe interessa. Quando tem as gravuras correctas, destrói o resto e assassina os seus proprietários. Victor Fargas, em Sintra. A baronesa Ungern, aqui em Paris. E Varo Borja, em Toledo... - interrompeu-se a meio de mastigar um bocado de croissant e fitou Corso, um pouco decepcionado.- Ouve, isto não bate certo. Varo Borja continua vivo.- Sou eu que tenho o livro dele e tentaram arrumar-me ontem à noite e hoje de manhã.
La Ponte não pareceu muito convencido.
- Disseste bem: arrumar-te... Porque é que Rochefort não te matou?- Não sei. - Fez um gesto de ignorância; ele próprio já fizera a si mesmo essa pergunta. - Teve oportunidade por duas vezes, mas não o fez... Quanto a Varo Borja continuar vivo, também não sei o que dizer, pois não responde aos meus telefonemas.
- Isso converte-o em candidato a estar morto. Ou em suspeito.- Varo Borja é suspeito por definição e dispõe de meios para ter organizado tudo. - Apontou a rapariga que continuava a ler, aparentemente alheia à conversa. - Tenho a certeza de que ela poderia esclarecer-nos, se quisesse.- E não quer?
- Não.
- Denuncia-a. Se há pessoas que são assassinadas, isso tem um nome: cúmplice.
- Denunciá-la? Estou metido nisto até ao pescoço, Flavio. Tal como tu. A jovem interrompera a leitura, sustentando o olhar de ambos, imperturbável, sem abrir a boca a não ser para sorver um pouco de laranjada. Os seus olhos iam de um para o outro, reflectindo-os sucessivamente. Por fim, detiveram-se em Corso.- Fias-te realmente nela? - perguntou La Ponte.- Depende de para quê. Ontem à noite lutou para me defender e fê-lo muito bem.
O livreiro fez um ar perplexo, olhando a rapariga. Tentava com certeza imaginá-la actuando como guarda-costas. Também devia interrogar-se até onde teria ido a intimidade dela com Corso, porque este viu-o avaliar com um olhar de perito o que a canadiana deixava à vista, enquanto acariciava a barba. O que parecia evidente era até onde estava disposto a chegar o próprio La Ponte se a rapariga lhe desse uma oportunidade, apesar das muitas suspeitas que lhe despertava. Mesmo em momentos como aquele, o ex-secretário geral da Irmandade dos Arpoadores de Nantucket era daqueles que anseiam sempre por regressar ao útero. A qualquer útero.- É demasiado bonita. - La Ponte abanava a cabeça à laia de conclusão. - E demasiado jovem. É de mais para ti.
Corso sorriu ao ouvir aquilo.
- Ficarias surpreendido se soubesses como às vezes parece velha. O livreiro fez estalar a língua, céptico.
- Presentes assim não caem do céu.
A rapariga assistira silenciosa ao diálogo. Agora, pela primeira vez naquele dia, viram-na sorrir como se acabasse de ouvir uma piada divertida.- Falas de mais, Flavio Nãoseiquantos - disse a La Ponte, que pestanejou, inquieto. O sorriso dela tornou-se mais rasgado, semelhante ao de um garoto mau. - De qualquer forma, o que houver entre Corso e eu não te diz respeito.
Era a primeira vez que dirigia a palavra ao livreiro. Depois de uma breve atrapalhação, este voltou-se para o amigo, desconcertado, numa inútil busca de apoio; mas o caçador de livros limitou-se a sorrir de novo.- Creio que estou a mais aqui. - La Ponte fez menção de se levantar, indeciso, sem acabar por consumar o gesto. Continuou assim até que Corso lhe bateu no braço com as costas da mão. Uma pancada seca e amistosa.- Não sejas idiota. Ela está do nosso lado.
La Ponte descontraiu-se um pouco, mas continuava sem se mostrar convencido.
- /Então que o demonstre contando-te aquilo que sabe. Corso voltou-se para a rapariga, fitando a sua boca entreaberta, o pescoço suave, terno. Perguntou intimamente se ainda cheiraria a calor e a febre, abstraindo-se por momentos na sua recordação. Os dois reflexos verdes, com toda a luz da manhã, sustentavam o seu olhar como de costume, indolentes e tranquilos. E o sorriso, carregado momentos antes de desdém para La Ponte, tornava-se diferente. Era outra vez um sopro apenas perceptível, uma palavra silenciosa, solidária e cúmplice, - Estávamos a falar de Varo Borja - disse Corso. - Conhece-lo? A expressão desapareceu-lhe dos lábios; regressava outra vez o soldado cansado, indiferente. Mas antes, por segundos, o caçador de livros julgou detectar um lampejo de desdém no seu olhar. Corso apoiava uma das mãos no mármore da mesa.
- Poderia ter estado a usar-me - acrescentou. - E ter-te colocado a ti na minha pista. - De súbito, essa possibilidade parecia absurda. Não imaginava o bibliófilo milionário recorrendo àquela rapariga para lhe armar uma ratoeira. - ... Ou talvez os seus agentes sejam Rochefort e Milady.
Ela não respondeu, tornando a mergulhar na leitura de Os Três Mosqueteiros. Mas o nome de Milady tinha reaberto a ferida no orgulho de La Ponte, que acabou de beber o café da sua chávena ao mesmo que erguia no ar um dedo da outra mão.
- Esta é a parte que menos compreendo - disse. - A conexão Dumas... O que tem a ver o meu Vinho de Anjou com tudo isto?- O Vinho de Anjou só é teu acidentalmente. - Corso tinha tirado os óculos e olhava-os em contraluz, perguntando a si mesmo se, com tanta agitação, a lente partida se iria aguentar. - Esse é o ponto mais obscuro, mas há várias coincidências interessantes: o cardeal Richelieu o personagem malvado de Os Três Mosqueteiros, apreciava livros de artes ocultas. Os pactos com o Diabo proporcionam poder, e Richelieu foi o homem mais poderoso de França. E para compor a dramatis personae, acontece que, no texto de Dumas, o cardeal tem dois agentes fiéis que executam as suas ordens: o conde de Rochefort e Milady de Winter. Ela é loura e má, com a sua flor-de-lis gravada pelo carrasco. Ele é moreno, com uma cicatriz na cara... Estás a ver? Ambos têm uma marca. E, se nos pusermos a procurar referências, verificamos que os servidores do Diabo, segundo o Apocalipse, se reconhecem pela marca da Besta.
A rapariga bebeu outro sorvo de laranjada sem levantar a cabeça do livro, mas La Ponte estremeceu como se acabasse de lhe cheirar a esturro, com o pensamento estampado na cara: uma coisa era envolver-se com uma loura imponente, e outra, muito diferente, ter entre pernas um conciliábulo de bruxas. Viram-no apalpar-se, desconfortável.
- Foda-se! Espero que não seja contagioso. Corso dirigiu-lhe um olhar pouco condoído.
- São demasiadas coincidências, não é verdade?... Mas há mais. - Bafejara as lentes e limpava a que estava intacta com um guardanapo de papel. - Em Os Três Mosqueteiros, Milady foi mulher de Athos, o amigo de d'Artagnan. Quando descobre que a esposa foi marcada pelo carrasco, decide executar ele próprio a sentença. Enforca-a e deixa-a como morta, mas ela sobrevive, etcétera... - Ajeitou os óculos no nariz. - Há alguém que se deve estar a divertir muito com tudo isto.
- Compreendo Athos - disse La Ponte de cenho franzido, certamente com a conta por pagar do Hotel Crillon na memória. - Também gostava de lhe deitar a mão. De a enforcar, como esse mosqueteiro fez à mulher.- Ou Liana Taillefer ao marido. Lamento ferir a tua vaidade, Flavio, mas nunca lhe interessaste nada. Apenas queria recuperar o manuscrito que o morto te vendeu.
- A sacana! - murmurou La Ponte, rancoroso. - Com certeza que foi ela que o levou, ajudada pelo fulano do bigode e corte na cara.- O que continuo a não compreender - prosseguiu Corso - é a relação entre Os Três Mosqueteiros e As Nove Portas... Apenas me ocorre que Alexandre Dumas também cavalga o mundo. Conhece o êxito e o poder que deseja: a fama, o dinheiro e as mulheres. Tudo lhe correu bem na vida, como se gozasse de um privilégio, de um pacto especial. E quando morre, o seu filho, o outro Dumas, dedica-lhe um epitáfio curioso: "Morreu como viveu: sem se aperceber".
La Ponte dirigiu-lhe um olhar incrédulo:
- Insinuas que Alexandre Dumas tinha vendido a alma ao Diabo?- Não insinuo nada. Tento decifrar o folhetim que alguém está a escrever nas minhas costas... O que é evidente é que tudo começa quando Enrique Taillefer decide vender o manuscrito Dumas. O mistério começa a partir daí: o seu presumível suicídio, a minha visita à sua viúva, o primeiro encontro com Rochefort... E a encomenda de Varo Borja.- O que tem esse manuscrito de especial? Por quê e para quem é ele importante?
- Não faço a mínima ideia. - Corso olhou para a rapariga. - A menos que ela nos possa esclarecer.
Viram-na encolher os ombros com ar aborrecido, sem levantar os olhos do livro.
- A história é tua, Corso - disse. - Ao que sei, recebes por isso.- Tu também estás implicada.
- Até certo ponto. - Fez um gesto ambíguo, daqueles que não querem dizer nada, e passou uma página. - Só até certo ponto. La Ponte inclinou-se para Corso, picado.
- Já experimentaste dar-lhe umas hóstias?
- Cala-te, Flavio.
- Isso, cala-te - repetiu a rapariga.
- É ridículo - lamentava-se o livreiro. - Fala como se fosse a rainha do mambo e tu, em vez de lhe aplicares o terceiro grau, deixas. Não te conheço, Corso. Por muito bonita que seja a garota, não creio que... -gaguejou, procurando as palavras. - Onde vai ela arranjar aquele topete?- Uma vez lutou com um arcanjo - esclareceu o caçador de livros. E ontem à noite vi como partia a cara a Rochefort, lembras-te?... O mesmo que me deu uns abanões esta manhã enquanto tu ficavas de parte, sentado no bidé.
- Na sanita.
- É a mesma coisa - insistiu malicioso, de má-fé. - Com o teu pijama de Príncipe Danilo em Violetas Imperiais... Não sabia que usavas pijama para dormir com as tuas conquistas.
- O que tens tu com isso?... - La Ponte lançava olhares perturbados à rapariga enquanto batia em retirada, de rabo entre as pernas. - Costumo arrefecer durante a noite, se queres saber. Além disso, estávamos a falar de O Vinho de Anjou. - Lançou-se no tema do manuscrito, com evidente vontade de mudar de assunto. - Qual foi o resultado da tua peritagem?- Sabemos que é autêntico, com dois tipos de escrita: de Dumas e do seu colaborador Auguste Maquet.
- O que averiguaste acerca desse fulano?
- Maquet? Não há grande coisa a averiguar. As coisas entre ele e Dumas acabaram mal, com processos e reclamações de dinheiro. Embora haja um pormenor curioso: Dumas gastou tudo quanto tinha em vida, morrendo sem um tostão; Maquet envelheceu rico, inclusivamente proprietário de um castelo. A ambos correram bem as coisas, cada um à sua maneira.- E esse capítulo que escreveram a meias?
- Maquet fez a redacção original, uma primeira versão mais simples, e Dumas deu-lhe qualidade e estilo, desenvolvendo-a com notas sobre o original do seu colaborador. O tema conheces tu: Milady tenta envenenar d'Artagnan.
La Ponte olhava, inquieto, a sua chávena de café vazia.- Concluindo...
- Eu diria que alguém, que se considera uma espécie de reincarnação de Richelieu, conseguiu reunir todas as gravuras originais do Delomelanicon e o capítulo de Dumas onde, por qualquer razão que desconheço, há a chave daquilo que se está a passar. E talvez neste momento se disponha a invocar Lúcifer. Entretanto, tu ficaste sem manuscrito, Varo Borja sem livro e eu apanhei a minha dose.
Tirou do bolso a carta de Richelieu para lhe deitar outra olhadela. La Ponte parecia de acordo.
- A perda do manuscrito não é grave - comentou. - Não paguei grande coisa a Taillefer. - Emitiu uma risadinha marota. - pelo menos com Liana, recebi em espécies. Mas tu estás metido numa boa encrenca Corso olhou a rapariga, que continuava a ler em silêncio - Talvez ela pudesse dizer em que género de encrenca estou metido. Fez uma careta antes de bater na mesa com os nós dos dedos, como um jogador que já não tem cartas na mão, resignado. Mas nem desta vez obteve resposta. Foi La Ponte que emitiu um grunhido de censura.- Continuo a não compreender porque confias nela.- Ele já te explicou isso antes - respondeu por fim a jovem, enfastiada. Tinha colocado a palhinha do sumo entre as páginas, à laia de marca. - Olho "por ele.
Corso concordou com ar divertido, embora divertido fosse o que menos estivesse.
- Estás a ouvi-la. É o meu anjo da guarda.
- Realmente? Então podia cuidar melhor de ti. Onde estava ela quando Rochefort te roubou a bolsa? :
- Tu é que lá estavas.
- Isso é diferente. Eu sou um livreiro pusilânime e pacífico Exactamente o contrário de um homem de acção. Se fosse a um concurso de cobardes, de certeza que os juizes me desclassificavam... por ser cobarde de mais. Corso não seguia o que ele estava a dizer com grande atenção porque acabava de fazer uma descoberta. A sombra do campanário da'igreja vinha projectar-se no chão, perto deles. A silhueta larga e escura fora-se movendo pouco a pouco no sentido oposto ao do Sol. Observou que a cruz cimeira ficava aos pés da rapariga, muito perto dela mas sem nunca lhe tocar. Prudente, a sombra da cruz mantinha-se afastada. Telefonou para Lisboa de uma estação dos telefones para averiguar como estavam as coisas em relação a Victor Fargas. As notícias não eram encorajadoras. Pinto tivera acesso ao relatório do médico legista-morte por imersão forçada no tanque. A polícia de Sintra considerara o roubo como possível móbil. Pessoa ou pessoas desconhecidas. A parte positiva consistia em que, de momento, ninguém relacionava Corso com o caso. O português acrescentou que, pelo sim pelo não, fizera correr a deserção do tipo da cicatriz. Corso disse-lhe que esquecesse Rochefort. O pássaro tinha voado.
Aparentemente, as coisas não podiam estar pior; mas ao meio-dia ainda se complicaram mais. Logo que entrou no átrio do seu hotel com La Ponte e a rapariga, o caçador de livros soube que havia qualquer coisa que não estava bem. Grúber encontrava-se no balcão da recepção e, por trás da sua expressão imperturbável, os olhos transmitiam uma mensagem de alerta. Quando se aproximaram dele, Corso viu que o recepcionista se voltava para olhar com ar casual o cacifo do seu quarto e depois, levando uma mão à lapela da jaqueta, levantava-a ligeiramente, num gesto cuja eloquência era internacional.
- Não parem - disse Corso aos outros.
Quase teve que puxar pelo desconcertado La Ponte, enquanto a rapariga avançava, decidida e serena, pelo estreito corredor que ia dar ao café-restaurante aberto para a Praça do Palais Royal. Com um último golpe de vista ao passar em frente à recepção, Corso viu Grúber poisar uma mão no telefone que havia sobre o balcão.
Estavam outra vez na rua, e La Ponte dirigia nervosos olhares para trás de si.
- O que se passa?
- Polícia - explicou Corso. - No meu quarto.
- Como sabes?
A rapariga não fez perguntas. Limitava-se a olhar Corso, aguardando instruções. Este tirou do bolso o envelope com cabeçalho do hotel entregue pelo recepcionista na noite anterior, tirou a mensagem que o informava do paradeiro de La Ponte e Liana Taillefer e colocou em seu lugar uma nota de quinhentos francos. Fê-lo lentamente, esforçando-se por manter a calma e que os outros não percebessem o tremor que lhe agitava os dedos. Fechou o envelope antes de riscar o seu nome e escrever o de Grúber, e entregou-o à rapariga.
- Dá-o a um dos empregados do café. - Tinha as palmas das mãos húmidas. Enxugou-as ao forro interior dos bolsos, apontando depois uma cabina telefónica do outro lado da praça. - Vem ter ali comigo.- E eu? - perguntou La Ponte.
Apesar da complicada situação, Corso esteve quase a desatar a rir na cara do amigo. Mas limitou-se a dirigir-lhe um olhar trocista.- Podes fazer o que quiseres, mas receio muito, Flavio, que acabes de passar à clandestinidade.
Começou a andar atravessando a praça pelo meio do tráfego em direcção à cabina telefónica, sem se preocupar se o outro o seguia ou não. Quando fechou a porta de vidro e introduziu o cartão na ranhura, viu-o a alguns metros, com um ar desamparado, olhando angustiadamente em redor. Discou o número do hotel, pedindo para o ligarem à recepção:- O que se passa, Grúber?
- Apareceram dois polícias, Senhor Corso. - A voz do antigo SS baixara um pouco de tom mas mantinha-se tranquila, controlando a situação. -Continuam lá em cima, no seu quarto.
- Deram alguma explicação?
- Nenhuma. Perguntaram a data da sua entrada e se conhecíamos os seus movimentos por volta das duas da madrugada. Eu disse que não sabia e remeti-os para o meu companheiro desse turno. Também pediram a sua descrição, pois não conhecem o seu aspecto. Combinámos que os avisaria se o senhor chegasse. É justamente o que me preparo para fazer neste momento.
- O que lhes vai dizer?
- A verdade, naturalmente. Que o senhor apareceu por um momento no átrio e saiu logo a seguir, em companhia de um cavalheiro barbudo e desconhecido. Quanto à menina, não se interessaram por ela e portanto não vejo razão para mencionar a sua presença.
- Obrigado, Grúber. - Fez uma pausa e acrescentou, sorrindo para o auscultador. - Sou inocente.
- Com certeza, Senhor Corso. Todos os clientes do nosso estabelecimento o são. - Ouviu-se o som de papel a ser rasgado. - Ah, entregaram-me neste momento o seu envelope.
- Ver-nos-emos, Grúber. Conserve-me o quarto por uns dias; espero voltar para ir buscar as minhas coisas. Se houver algum problema, utilize o número do meu cartão de crédito. Pague com ele. E mais uma vez obrigado.- Às suas ordens.
Corso pendurou o auscultador. A rapariga já estava de regresso, ao lado de La Ponte. Saiu da cabina e foi ter com eles.
- A polícia tem o meu nome. E se o tem é porque alguém lho deu.- Não olhes para mim - disse La Ponte. - Há muito que esta história me ultrapassa.
Corso reflectiu amargamente para si mesmo que também o ultrapassava a ele. Tinha ficado tudo fora de controlo, leme de barco sem governo, aos bordos.
- Ocorre-te alguma ideia? - perguntou à rapariga. Era a última ponta do enigma que ainda tinha nas mãos; a sua última esperança. Por cima do ombro de Corso, ela olhou para o tráfego e para os gradeamentos próximos do Palais Royal. Tirara a mochila dos ombros e poisara-a no chão, entre as pernas. Reflectia em silêncio, como era seu hábito, absorta e grave, cavando uma pequena ruga entre as sobrancelhas, com uma cara teimosa de rapazito que resiste a agir como os outros pretendem. Corso sorriu como um lobo fatigado.- Não sei que hei-de fazer - disse.
Viu que ela concordava lentamente, talvez à maneira de conclusão depois de um secreto raciocínio. Ou talvez apenas se manifestasse de acordo com o facto de, na realidade, ele não saber o que fazer.- O teu pior inimigo és tu mesmo - disse por fim, distante. Também ela parecia agora cansada, tal como na noite anterior quando chegaram ao hotel. - A tua imaginação. - Tocou na testa com o indicador. - As árvores não te deixam ver o bosque.
La Ponte resmungou:
- Deixem lá a botânica para mais tarde, se não vêem inconveniente. - Estava cada vez mais inquieto, olhando em volta com medo que os gendarmes lhes caíssem em cima de um momento para outro. - Devíamos ir embora daqui. Posso alugar um carro com os meus documentos. Se nos apressarmos, passaremos a fronteira amanhã. Que, por acaso, é o primeiro de Abril.- Cala o bico, Flavio. - Corso fitava os olhos da rapariga, procurando neles uma resposta. Apenas viu reflexos: a luz da praça, o tráfego que circulava em redor deles, a sua própria imagem deformada, grotesca. O lansquenete vencido. Já não havia derrotas heróicas. Já há muito tempo que as não havia.
A expressão da rapariga tinha-se modificado. Olhava agora para La Ponte como se, pela primeira vez, houvesse nele qualquer coisa que valesse a pena.
- Repete - - disse.
O livreiro gaguejou, surpreendido.
- Aquilo de alugar o carro? - Contemplava-os com a boca aberta. - É elementar. Num avião há listas de passageiros. No comboio podem ver o passaporte...
- Não me referia a isso. Diz lá que data é amanhã.- Um de Abril. Segunda-feira. - La Ponte ajustou a gravata, perturbado. - É o dia dos meus anos.
Mas a rapariga já não lhe prestava atenção. Inclinara-se sobre a mochila, procurando qualquer coisa lá dentro. Quando se levantou trazia na mão o volume de Os Três Mosqueteiros.
- Andas muito esquecido das tuas leituras - disse a Corso, estendendo-lho. -Primeiro capítulo, primeira linha.
Corso, que não esperava por aquilo, pegou no livro e deu-lhe uma vista de olhos. Os Três Presentes do Senhor d'Artagnan Pai, intitulava-se o capítulo. E quando leu a primeira linha, soube onde tinham de ir procurar Milady.
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