O Clube Dumas
Capítulo IV
O HOMEM DA CICATRIZ
De onde vem, não sei. Mas para onde vai, isso posso dizer-lhes: vai para o Inferno.
(A. Dumas. O Conde de Montecristo)
Caía a noite quando Corso chegou a casa, sentindo o doloroso latejar da mão magoada no bolso do sobretudo. Foi ao quarto de banho, apanhou do chão o pijama amarrotado e uma toalha e manteve durante cinco minutos a mão sob um jacto de água fria. Depois, abriu umas latas de conserva para jantar em pé, na cozinha.
Tinha sido um dia estranho e perigoso. Reflectia sobre tudo aquilo, perturbado com a sucessão de acontecimentos, embora com mais curiosidade do que inquietação. Há já algum tempo que a sua atitude perante o inesperado se resumia ao desapaixonado fatalismo de quem espera que a vida dê o passo seguinte. Essa ausência de compromisso, essa neutralidade perante os acontecimentos, excluía qualquer protagonismo. Até àquela manhã na viela de Toledo, o seu papel tinha sido sempre de executor. As vítimas eram os outros. De cada vez que aldrabava ou negociava com alguém, o facto verificava-se de forma objectiva, sem qualquer ligação moral com as pessoas ou coisas que eram apenas material do seu trabalho. Lucas Corso ficava à margem, mercenário não comprometido a não ser com o seu lucro final: terceiro homem indiferente, talvez essa atitude lhe tivesse permitido sentir-se sempre a salvo, da Mestria forma que, quando tirava os óculos, as pessoas e os objectos distantes se diluíam em contornos imprecisos, desfocados, cuja existência podia ignorar quando os privava do seu envólucro formal. Agora, no entanto, a dor concreta na mão magoada, a sensação de ameaça pronta lrromper na sua vida com uma violência específica de que ele, e não outros, era objecto, sugeriam inquietantes modificações no panorama. Lucas Corso, que tantas vezes actuou como carrasco, não estava habituado a considerar-se vítima de ninguém, e isso desconcertava-o.
Além da dor na mão, sentia os músculos crispados pela tensão e a boca seca. Abriu uma garrafa de Bois e procurou aspirinas na sua bolsa de lona. Trazia sempre consigo uma boa provisão, juntamente com os livros, lápis e esferográficas, caderninhos de apontamentos semipreen-chidos, navalha suíça de utilidades múltiplas, passaporte e dinheiro, uma grossa agenda telefónica e livros próprios e alheios. Assim, podia desaparecer a qualquer momento sem deixar nada para trás, tal como um caracol com a sua concha. Aquela bolsa ajudava-o a improvisar uma casa, um local de residência em qualquer sítio onde o acaso ou os seus clientes o conduzissem: aeroportos, estações de caminho-de-ferro, poeirentas bibliotecas europeias, quartos de hotel, tudo se fundia na sua memória como se fosse um único compartimento de limites variáveis, com despertares desprovidos de referências, sobressaltado no escuro, procurando o interruptor da luz para tropeçar no telefone, desorientado e confuso. Momentos em branco arrancados à vida e à consciência. Ao abrir os olhos, durante os primeiros trinta segundos, quando o corpo acordava com mais rapidez do que o pensamento ou a memória, nunca estava muito seguro de nada, nem sequer de si mesmo.
Instalou-se em frente do computador, colocando a seu lado, em cima da mesa, à esquerda, os cadernos de apontamentos e diversos livros de consulta. A direita pôs As Nove Portas e o dossier de Varo Borja. Depois, inclinou-se para trás na cadeira, com um cigarro que deixou consumir entre os dedos durante cinco minutos sem sequer o levar aos lábios. Durante esse tempo não fez mais nada senão beber em pequenos goles o resto do gin, olhando o ecrã vazio do computador e o pentáculo que decorava a capa do livro. Pareceu despertar finalmente. Esmagou a beata num cinzeiro e, ajeitando no nariz os óculos tortos, começou a trabalhar. O dossier de Varo Borja coincidia com a Enciclopédia de Impressores e Livros Raros e Curiosos, de Crozet:
TORCHIA, Anstide. Impressor, gravador e encadernador veneziano (1620-1667). Marca tipográfica: uma serpente e uma árvore rachada por um raio. Formou-se como aprendiz em Leyden m (Holanda), na oficina dos Elzevir. Ao regressar a Veneza, realizou uma série de obras de tema filosófico e hermético de pequeno formato (in-12, in-16) que foram muito apreciadas. São de destacar Os Segredos da Sabedoria, de Nicolas Tamisso (3 vols., in-12, Veneza, 1650) e uma curiosa Chave dos Pensamentos Cativos (1 vol, 132 x 75 mm, Veneza, 1653), Os Três Livros da Arte, de Paolo d'Este (6 vols., in-8, Veneza, 1658), Curiosa explicação V de arcanos e figuras hieroglíficas (1 vol, in-8, Veneza, 1659), uma reimpressão de A Palavra Perdida, de Bernardo Trevisano (1 vol, in-8, Veneza, 1661) e As Nove Portas do Reino das Sombras (1 vol., in-fólio, Veneza, 1666). A impressão deste último custou-lhe cair nas mãos da Inquisição. A sua oficina foi destruída com todo o material impresso e por imprimir que lá se encontrava. Torchia teve a mesma sorte que a sua obra. Condenado por magia e bruxaria, morreu na fogueira a 17 de Fevereiro de 1667. Deixou o computador para estudar a primeira página do volume que custara a vida ao veneziano. DE UMBRARUM REGNI NOVEM PORTIS era o título. Por baixo tinha a marca tipográfica, o selo que, simples monograma ou complicada ilustração, representava a assinatura do impressor. No caso de Aristide Torchia, como citava Crozet, a marca consistia numa árvore com um ramo rachado por um raio. Uma serpente enroscava-se no tronco, devorando a sua própria cauda. A gravura era acompanhada pela divisa Sic luceat Lux: Assim brilhe a Luz. Em pé de página, local, nome e data: Venetiae, apud Aristidem Tor-chiam. Impresso em Veneza, na oficina de Aristide Torchia. Por baixo, separado por um espaço: M.DC.LX.VI. Cum superiorum privilegio veniaque. Com autorização e privilégio dos superiores.
Corso teclou novamente:
Exemplar sem ex-líbris nem anotações manuscritas. Completo segundo catálogo leilão colecção Terral-Coy (Claymore, Madrid). Erro em Mateu (8 em vez de 9 estampas para este exemplar). In-fólio. 299 x 215 mm. 2 folhas de guarda em branco, 160 páginas e 9 xilografias fora de texto, numeradas de I a VIIII. Páginas: 1 de título com marca de impressor, 157 de texto. Ultima branca, sem cólofon. Estampas a direito na folha, todas em página inteira. Verso em branco.
DE VMBRARVM REGNI
NOVEM PORTIS
NEM. PERV.T QVI N.N LEG. CERT.FUT
CLAVS. PAT.T
VERB. D.SVM C.S.T ARCAN.
FOR. N.N OMN. A.QVE
FR.ST.A
DIT.SCO M.R.
DIS.S P.TI.R M.
VIC. I.T VIR.
N.NC SCO TEN.BR. LVX
Estudou as ilustrações uma a uma. Segundo Varo Borja, a lenda atribuía o desenho original à mão do próprio Lúcifer. Cada xilografia era acompanhada por um ordinal romano, o seu equivalemte hebreu e grego e uma frase latina em código abreviado. Voltou a escrever: /. NEM. PERV.T QUI N.N LEG. CERT.RIT: Um cavaleiro cavalga na direcção de uma cidade rodeada de muralhas. Um dedo poisado na boca aconselha prudência ou silêncio.
II. CLAUS. PAT.T: Um eremita em frente de uma porta fechada. Uma lanterna no solo e duas chaves na mão. Acompanha-o um cão. A seu lado, um desenho parecido com a letra hebraica Teth. III. VERB. D.SUM C.S.T ARCAN.: Um vagabundo, ou um peregrino, dirige-se para a ponte sobre um rio. Em cada extremidade, fortificada, uma porta impede o acesso. Sobre uma nuvem, um arqueiro faz pontaria para o caminho que conduz à ponte.
IIII. (O numeral latino figura assim e não na sua forma habitual IV). FOR. N.N O MN. A. QUE: Um bobo em frente de um labirinto de pedra. A entrada é também uma porta fechada. Três dados no chão mostram cada um três das suas faces, correspondendo aos números 1, 2 e 3. V. FR.ST.A.: Um avarento, ou um mercador, conta um saco de ouro. Atrás dele, a morte segura numa mão uma ampulheta e na outra uma forquilha de camponês.
VI. DIT.SCO M.R.: Um enforcado como o do Tarot, suspenso por um pé e com as mãos atadas atrás das costas. Pende da ameia de um castelo, junto de uma poterna fechada. Por uma seteira assoma uma mão enluvada que empunha uma espada ardente.
VII. DIS.S P.TI.R MAG.: Um rei e um mendigo jogam xadrez num tabuleiro de casas todas brancas. Através da janela vê-se ( a Lua. Por baixo da janela e junto de uma porta fechada brigam dois cães. VIII. VIC. I.T VIR.: Junto da muralha de uma cidade, uma mulher ajoelhada no chão oferece o pescoço nu ao carrasco. Ao fundo há uma roda da sorte com três figuras humanas: uma em cima, outra subindo e outra descendo.
VIIII. (Também aparece assim, em vez do numeral vulgar IX). N.NC SCO TEN.EBR. LUX: Um dragão de sete cabeças sobre o qual cavalga uma mulher nua. Segura um livro aberto e uma meia-lua oculta-lhe o sexo. Ao fundo, sobre uma colina, um castelo em chamas cuja porta, como nas outras oito estampas, está fechada.
Parou de bater as teclas, esticando os músculos entorpecidos, e bocejou. Fora do cone de luz do candeeiro de trabalho e do ecrã do computador, o quarto estava mergulhado em sombras; pelas janelas da varanda entrava a claridade fraca dos candeeiros da rua. Foi até lá espreitar para o exterior sem ter a certeza do que esperava encontrar. Talvez um carro parado no passeio, com as luzes apagadas e um vulto escuro dentro. Mas nada lhe chamou a atenção. Apenas, por momentos, a sereia de uma ambulância afastando-se por entre as moles sombrias dos prédios. Olhou o relógio da torre da igreja mais próxima: passavam cinco minutos da meia-noite. Tornou a sentar-se em frente do computador e do livro. Entreteve- se com a primeira ilustração, a marca do impressor na página do título, com a serpente urobora que Aristide Torchia tinha escolhido como símbolo para as suas obras. Sic Luceat Lux. Serpentes e diabos, invocações e significados ocultos. Ergueu o copo num sarcástico brinde em memória do impressor; tinha de ter sido um homem muito corajoso
ou muito estúpido. Aquele género de coisas pagavam-se caras na Itália do século XVII, embora impressas cum superiorum privilegio Veniaque. Foi nesse momento que Corso estacou, lançando uma imprecação dirigida contra si mesmo. Praguejou em voz alta, olhando os cantos escuros do quarto, por não ter sido capaz de se aperceber antes. Com privilégio e autorização dos superiores. Aquilo era impossível. Sem desviar os olhos da página, recostou-se para trás no assento, ao mesmo tempo que acendia outro dos seus amachucados cigarros, com as espirais de fumo subindo à frente da luz da lâmpada como uma cortina translúcida e cinzenta por trás da qual ondulavam as linhas impressas. O Cum superiorum privilegio veniaque era absurdo. Ou magistralmente subtil. Era impossível que essa referência ao imprimatur se referisse a uma autoridade convencional. A Igreja Católica nunca poderia ter autorizado aquele livro em 1666 porque o seu directo antecessor, o Delomelanicon, já figurava no índice de títulos proibidos há cinquenta e cinco anos. Portanto, Aristide Torchia não se referia à autorização dos censores eclesiásticos para imprimir. Também não era ao poder civil, o governo da república de Veneza. Com certeza que os seus superiores eram outros. O som do telefone interrompeu Corso. Flávio La Ponte ligava para lhe relatar a compra, juntamente com um certo lote de livros - conjunto obrigatório, tudo ou nada - de uma colecção de bilhetes de eléctrico europeus. 5775, para ser exacto. Todos capicuas, classificados por países em caixas de sapatos. Estava a falar a sério. O coleccionador tinha morrido há pouco e a família pretendia livrar-se daquilo. Talvez Corso conhecesse alguém interessado. Assim, com toda a naturalidade. O livreiro sabia que, para além de reunir 5775 bilhetes capicuas, esforço tão denodado como patológico, aquilo não servia para nada. Quem iria comprar semelhante estupidez? Sim, talvez fosse boa ideia: o Museu dos Transportes de Londres. Aqueles ingleses e as suas perversões... Corso podia encarregar-se do caso?
Quanto ao capítulo de Dumas, também La Ponte estava inquieto. Tinha recebido duas chamadas telefónicas, homem e mulher não identificados, interessando-se por O Vinho de Anjou. E era estranho porque, enquanto esperava pelo relatório do amigo, não tinha comentado o assunto com ninguém. Corso referiu-lhe a conversa tida com Liana Tailifer, a quem ele próprio tinha revelado a identidade do novo proprietário.- L- Já te conhecia, das tuas visitas ao defunto. E com certeza - lembrou-se -vai querer uma cópia do recibo.
O livreiro gargalhou do outro lado do fio telefónico. Qual recibo, qual o quê?! Taillefer tinha-lho vendido, e ponto final. Embora se a viúva quisesse discutir a questão - acrescentou com uma risadinha lúbrica - , ele não via o menor inconveniente. Corso referiu a possibilidade de, antes de morrer, o editor ter confiado a alguém a questão do manuscrito, mas La Ponte manteve-se céptico. Taillefer insistia muito para que guardasse o segredo até que ele próprio desse o sinal. Afinal, não deu sinal nenhum, excepto se se interpretasse dessa maneira o ter-se pendurado do candeeiro.- É um sinal tão bom como outro qualquer - comentou Corso. La Ponte concordou com outra risadinha cínica e, em seguida, indagou pormenores da visita de Corso a Liana Taillefer. Depois de mais uns tantos comentários picantes, o livreiro despediu-se sem que Corso lhe fizesse qualquer referência à escaramuça de Toledo. Ficaram de se encontrar no dia seguinte.
Depois de desligar o telefone, o caçador de livros continuou com As Nove Portas. Mas outras imagens lhe ocupavam o pensamento, desviando a sua atenção para o manuscrito Dumas. Por fim, foi procurar a pasta com as folhas azuis e brancas, esfregou a mão magoada e teclou os ficheiros DUMAS. O ecrã do computador começou a piscar. Deteve-se no ficheiro BIO:
Dumas y Davy de Ia Pailleterie, Alexandre. Nasceu a 24-7-1802. Morreu a 5-12-1870. Filho de Tomás Alexandre Dumas, general da República. Autor de 257 fascículos de romances, memórias e outros relatos. 25 volumes de peças teatrais. Mulato por herança paterna. Esse sangue negro conferiu-lhe feições algo exóticas. Retrato físico: elevada estatura, pescoço forte, cabelo frisado, lábios carnudos, longas pernas, força física. Carácter: fura-vidas, volúvel, dominador, embusteiro, pouco cumpridor, popular. Teve 27 amantes conhecidas, dois filhos legítimos e quatro ilegítimos. Ganhou fortunas e delapidou-as em paródias, viagens, vinhos caros e ramos de flores A medida que ganhava dinheiro com a sua produção literária, foi-se arruinando pela sua liberalidade com amantes, amigos e parasitas que assediavam o seu castelo-residência de Montecristo. Quando se viu forçado a fugir de Paris, não foi por motivos políticos, como o seu amigo Victor Hugo, mas por causa dos credores. Amigos: Hugo, Lamartine, Michelet, Gerard de Nerval, Nodier, George Sand, Berlioz, Teófilo Gautier, Alfred de Vigny e outros. Inimigos: Balzac, Badere e outros. Aquilo não levava a lado nenhum. Tinha a sensação de avançar às apalpadelas, por entre inúmeras pistas falsas ou inúteis. E, no entanto, existia uma relação em qualquer parte. Com a mão sã teclou DUMAS.ROM:
Romances de Alexandre Dumas saídos em folhetim: 1831: Cenas Históricas (Revue des Deux Mondes). 1834: Jacques le facques II (Journal des Enfants. 1835: Isabel da Baviera (Dumont). 1836: Murat (La Presse). 1837: Pascal Bruno (La Presse). História de Um Tenor (Gazette Musicale). 1838: O Conde Horácio (La Presse). Uma Noite de Nero (La Presse). A Sala de Armas (Dumont). O Capitão Paulo (Le Siècle). 1839: Jacques Ortis (Dumont). Vida e Aventuras de John Davis (Revue de Paris). O Capitão Pânfilo (Dumont). 1840: Memórias de Um Mestre de Armas (Revue de Paris). 1841: O Cavaleiro de Harmental (Le Siècle).1843: Sylvandire (La Presse). O Vestido de Noiva (La Mode). Albine (Revue de Paris). Ascanio (Le Siècle). Fernanda (Revue de Paris). Amaury (La Presse).'' 1844: Os Três Mosqueteiros (Le Siècle). Gabriel Lambert (La Chronique). Uma Filha do Regente (Le Commercê). Os Irmãos Corsos (Democratie Pacifique). O Conde de Montecristo (Journal des Débats). A Condessa Berta (Hetzel). História de Um Quebra-Nozes (Hetzel). A Rainha Margot (La Presse). 1845: Nanon de Lartigues (La Patrie). Vinte Anos depois (Le Siècle). O Cavaleiro da Casa Vermelha (Democratie Pacifique). A Dama de Montsoreau (Le Constitutionnel). Madame de Conde (La Patrie). 1846: A Viscondessa de Cambes (La Patrie). O Bastardo de Mauléon (Le Commerce). José Bálsamo (La Presse). A Abadia de Pessac (La Patrie). 1847: Os Quarenta e Cinco (Le Constitutionnel). O Visconde de Bragelonne (Le Siècle). 1848: O Colar da Rainha (La Presse). 1849: As Bodas do Padre Olifus (Le Constitutionnel). 1850: Deus Dispõe (Evenement). A Túlipa Negra (Le Siècle). A Pomba (Le Siècle). Angel Pitou (La Presse). 1851: Olympe de Clèves (Le Siècle). 1852: Deus e Diabo (Le Pays). A Condessa de Charny (Cadot). Isaac Laquedem (Le Constitutionnel). 1853: O Pastor de Ashbourn (Le Pays). Catalina Blum (Le Pays). 1854: Vida e Aventuras de Catalina-Carlota (Le Mousquetaire). O Salteador (Le Mousquetaire). Os Moicanos de Paris (Le Mousquetaire). O Capitão Richard (Le Siècle). O Pagem do Duque de Sabóia (Le Constitutionnel). 1856: Os Companheiros de Jesus (Journal pour tous). 1857: O Último Rei Saxão (Le Monte-Cristo). O Condutor de Lobos (Le Siècle). O Caçador de Aves (Cadot). Black (Le Constitutionnel). 1858: As Lobas de Machecoul (Journal pour tous). Memórias de Um "Policeman" (Le Siècle). A Casa de Gelo (Le Monte-Cristo). 1859: A Fragata (Le Monte-Cristo). Ammalat-Beg (Moniteur Universel). História de Um Cárcere e Uma Casinha (Revue Européenne). Uma Aventura de Amor (Le Monte-Cristo). 1860: Memórias de Horácio (Le Siècle). O Padre La Ruine (Le Siècle). A Marquesa de Escoman (le Constitutionnel). O Médico de Java (Le Siècle). Jane (Le Siècle). 1861: Uma Noite em Florença (Levy-Hetzel). 1862: O Voluntário do 92 (Le Monte-Cristo). 1863: A San Felice (La Presse). 1864: As Duas Dianas (Levy). Ivanhoe (Pub. du Siècle). 1865: Memórias de Uma Favorita (Avenir National). O Conde de Moret (Les Nouvelles). 1866: Um Caso de Consciência (Le Soleil). Parisienses e Provincianos (La Presse). O Conde de Mazarra (Le Mousquetaire). 1867: Os Brancos e os Azuis (Le Mousquetaire). O Terror Prussiano (La Situation). 1869: Hector de Sainte-Hermine (Moniteur Universel). O Doutor Misterioso (Le Siècle). A Filha do Marquês (Le Siècle).
Sorriu intimamente, perguntando a si mesmo quanto não teria pago o extinto Enrique Taillefer para reunir todos aqueles títulos. Os óculos estavam embaciados e tirou-os, limpando as lentes com cuidado. As linhas do computador ficavam agora desfocadas perante os seus olhos, tal como outras estranhas imagens que não conseguia identificar. Uma vez limpas, as lentes devolveram nitidez ao ecrã mas as imagens continuavam a flutuar à deriva, imprecisas, sem uma chave que lhes conferisse sentido. E, no entanto, Corso julgava estar no bom caminho. O computador piscava de novo:
Baudry, editor de Le Siècle. Publica Os Três Mosqueteiros entre 14 de Março e 11 de Julho de 1844.
Lançou uma vista de olhos aos outros ficheiros. Segundo os dados, Dumas tinha tido, em vários momentos da sua produção literária, cinquenta e dois colaboradores. Com boa parte deles, as suas relações tinham terminado de maneira tempestuosa. Mas apenas um nome interessava Corso: Maquet, Auguste-Jules. 1813-1888. Colabora com Alexandre Dumas em diversas obras teatrais e em 19 romances, entre eles os mais conhecidos (O Conde de Montecristo, O Cavaleiro da Casa Vermelha, A Túlipa Negra, O Colar da Rainha) e, sobretudo, o ciclo de Os Mosqueteiros. A sua colaboração com Dumas torna-o famoso e próspero. Enquanto Dumas morre na ruína, ele vem a falecer rico no seu castelo de Sainte-Mesme. Nenhuma das suas obras pessoais, escritas sem Dumas, lhe sobrevive.
Foi consultar as notas biográficas. Havia uns parágrafos extraídos das Memórias de Dumas:
"Nós fomos os inventores, Hugo, Balzac, Soulié, De Musset e eu, da literatura fácil. E conseguimos, melhor ou pior, criar uma /"reputação com esse tipo de literatura, mesmo sendo fácil..."
"...A minha imaginação, confrontada com a realidade, parece a um homem que, visitando as ruínas de um monumento destruído, tem de passar pelos escombros, seguir pelos passadiços, baixar-se nas poternas, para poder reconstruir aproximadamente o aspecto original do edifício na época em que estava cheio de vida, quando a alegria o povoava de cantos e de risos ou quando a dor era um eco para os soluços".
Corso abandonou o ecrã, exasperado. A sensação abandonava-o, perdendo-se nos recantos da sua memória sem que a conseguisse identificar. Pôs-se em pé e deu uns passos pelo quarto mergulhado nas sombras. Depois orientou a luz de forma a que iluminasse uma pilha de livros que estava no chão, encostada à parede. Baixou-se para pegar em dois grossos volumes, uma edição moderna das Memórias de Alexandre Dumas, pai. Foi até à mesa e começou a folheá-los, até que três fotografias atraíram a sua atenção. Numa delas, sentado, com as gotas de sangue africano patentes no cabelo crespo e no ar mulato, Dumas olhava com expressão sorridente para Isabel Constant que - leu Corso no rodapé da fotografia - tinha quinze anos quando se tornou amante do romancista. A segunda foto mostrava Dumas já maduro, posando com a filha Marie. Em pleno êxito, o patriarca do folhetim apresentava-se perante o fotógrafo com bonomia e placidez. A terceira foto era com certeza a mais divertida e significativa, considerou Corso. Um Dumas de sessenta e cinco anos, com o cabelo já embranquecido mas ainda alto e forte, com a sobrecasaca aberta sobre uma barriga proeminente, abraçava Adah Menken, uma das suas últimas amantes que, Segundo o texto, "depois das sessões de espiritismo e de magia negra, que tanto apreciava, gostava de se deixar fotografar, ligeira de roupa, com os grandes homens da sua vida"... As pernas, os braços e o colo de Menken surgiam descobertos na foto, o que era um escândalo para a época, e a jovem, mais atenta à câmara do que ao objecto do seu braço, encostava a cabeça no forte ombro direito do idoso cavalheiro. Quanto a este, o seu rosto reflectia os vestígios de uma longa vida de deboche, prazer e paródias. A boca, entre as bochechas gorduchas de bon vivant, tinha uma expressão satisfeita e irónica. Os olhos fitavam o fotógrafo discretamente trocistas, procurando cumplicidade: o velho gordo com a jovem impudica e ardente que o exibia como um trofeu raro a ele, com cujos personagens e aventuras tantas mulheres sonharam. Era como se o velho Dumas pedisse compreensão por ceder à caprichosa mania de fotos da pequena, por sinal jovem e bonita, de pele suave e boca ardente, que a vida ainda lhe reservava na última curva do caminho, apenas a três anos da sua morte. Velho sem-vergonha! Corso fechou o livro com um bocejo. O seu relógio de pulso, um antigo cronómetro a que muitas vezes se esquecia de dar corda, estava parado nas doze e quinze. Dirigiu-se para a varanda e abriu uma das portas de correr, respirando o ar frio da noite. A rua continuava aparentemente deserta. Era tudo muito estranho, disse para si mesmo enquanto regressava à mesa para desligar o computador. Os olhos pousaram-lhe na capa do manuscrito. Abriu-a maquinalmente, observando de novo as quinze folhas com dois tipos diferentes de escrita: onze azuis e quatro brancas. "Après de nouvelles presque désespérées du roi..." Depois das notícias quase desesperadas do rei... Foi ao monte de livros procurar um enorme volume vermelho, uma edição anastática - J. C. Lattes 1988 - que incluía todo o ciclo de Os Mosqueteiros e Montecristo na edição Le Vasseur com gravuras, quase contemporânea de Dumas. Encontrou o capítulo intitulado O Vinho de Anjou na página 144 e começou a ler, comparando-o com o original manuscrito. Salvo alguma pequena errata, os dois textos eram idênticos. No livro, o capítulo era ilustrado por dois desenhos de Maurice Leloir, gravados por Huyot. O rei Luís XIII comparece no sítio de La Rochelle com dez mil homens, figurando na frente da escolta quatro ginetes a cavalo, de mosquetes na mão, com o chambergo e a casaca da companhia de Treville: com certeza três deles são Athos, Porthos e Aramis. Daí a momentos reunir-se-ão com o seu amigo d'Artagnan, que continua a ser simples cadete na companhia de guardas do Senhor Des Essarts. Naquele momento, o gascão ignora que as garrafas de vinho de Anjou são um presente envenenado da sua mortal inimiga Milady, que pretende vingar o ultraje inflingido por d'Artagnan quando, ultrapassando o conde de Wardes, se introduziu na cama da agente de Richelieu, gozando a noite de amor que pertencia ao outro. Além disso, para agravar as coisas, d'Artagnan descobriu, por acaso, o terrível segredo de Milady: a flor-de-lis num dos ombros, marca infamante gravada pelo ferro do carrasco. Com esses preliminares e tendo em conta o carácter de Milady, o conteúdo da segunda ilustração torna-se óbvio: ante o estupor de d'Artagnan e dos seus companheiros, o criado Fourreau expira no meio de atroz sofrimento por beber o vinho destinado ao seu amo. Sensível à magia do texto, que não voltara a ler há mais de vinte anos, Corso chegou à passagem em que os mosqueteiros e d'Artagnan falam de Milady:
...-Ora bem! - disse d'Artagnan para Porthos. - Como vedes, caro amigo, é uma guerra de morte. Athos abanou a cabeça.
- Sim, sim - respondeu. - Estou a ver. Mas acreditais que tenha sido ela?- Tenho a certeza.
- No entanto, confesso-vos que ainda duvido.
- E aquela flor-de-lis no ombro?
- É uma inglesa que deve ter cometido qualquer felonia em França e que terá sido marcada por causa do seu crime.
- Athos, ela é a vossa mulher, garanto-vos - repetiu d'Artagnan. - Não vos lembrais como as duas marcas são idênticas?
- Mas eu juraria que a outra estava morta. Enforquei-a muito bem. Foi dArtagnan quem abanou a cabeça desta vez.- Afinal, que fazemos?
- A verdade é que não podemos estar assim, com uma espada eternamente suspensa sobre a cabeça - disse Athos. - Temos de sair desta situação.- Mas como?
- Ouvi, procurai encontrar-vos com ela e ter uma explicação; dizei-lhe: "A paz ou a guerra! Palavra de cavalheiro que nunca direi nem farei nada contra vós. Da vossa parte, juramento solene de permanecer neutral a meu respeito. Caso contrário, vou a procura do chanceler, do rei, do carrasco, amotino a corte contra vós, denuncio-vos como marcada, faço-vos ir a julgamento e, se vos absolverem, então, palavra de cavalheiro, mato-vos em qualquer esquina, como mataria um cão raivoso.- Esse processo agrada-me - disse d'Artagnan... Recordações arrastam recordações. Repentinamente, Corso quis reter uma imagem fugaz, familiar, que acaba de aflorar-lhe o pensamento. Conseguiu fixá-la antes que se desvanecesse e era outra vez o indivíduo do fato preto, o motorista do Jaguar em frente da casa de Liana Taillefer, ao volante do Mercedes em Toledo... O homem da cicatriz. E fora Milady que agitara a sua memória.
Ficou a pensar naquilo, desconcertado. E, de repente, a imagem surgiu com perfeita nitidez. Milady, naturalmente. Milady de Winter, como d'Artagnan a viu pela primeira vez: debruçada da porta da sua carruagem no primeiro capítulo do romance, em frente da pousada de Meung. Milady conversando com um desconhecido... Corso desfolhou as páginas com rapidez, procurando essa passagem. Encontrou-a sem dificuldade: ... Um homem de quarenta a quarenta e cinco anos, de olhos negros e penetrantes, tez pálida, nariz bastante pronunciado, bigode negro e perfeitamente recortado...
Rochefort. O sinistro agente do cardeal, o inimigo de d'Artagnan; o que o mandou espancar no primeiro capítulo, roubou a carta de recomendação para o Senhor de Treville e foi o responsável indirecto por o gascão ter estado quase a bater-se em duelo com Athos, Porthos e Aramis... Depois daquela pirueta da sua memória, com a insólita assolação de ideias e de personagens, Corso coçou a cabeça, perplexo. O que ligava o companheiro de Milady com o motorista que o quis atropelar em Toledo?... E havia a cicatriz. No parágrafo não havia referência a qualquer cicatriz; e, no entanto- lembrava-se muito bem disso - ; Rochefort sempre teve uma marca na cara. Foi passando páginas até encontrar a confirmação no terceiro capítulo, com d'Artagnan narrando a sua aventura a Treville:- Dizei-me - perguntou. - Não tinha esse gentil-homem uma ligeira cicatriz na fonte?
- Tinha, como se tivesse sido provocada pelo roçar de uma bala... Uma ligeira cicatriz na fonte. A confirmação estava ali, mas Corso lembrava-se daquela cicatriz maior, e não na fonte mas sim na face, como a do motorista vestido de preto. Pôs-se a analisar aquilo até que por fim deu uma gargalhada. Agora a cena estava completa e a cores: Lana Turner em Os Três Mosqueteiros, à janela da sua carruagem, junto a um Rochefort adequadamente sinistro: não de tez pálida como no texto de Dumas, mas moreno, com um chambergo emplumado e uma grande cicatriz - desta vez sim - sulcando-lhe de cima a baixo a face direita. A recordação, portanto, era mais cinematográfica do que literária e isso provocou em Corso uma exasperação entre divertida e irritada. Maldito Hollywood! Celulóide à parte, reinava finalmente uma certa ordem naquilo; um cânone comum, embora secreto, numa melodia de notas dispersas e enigmáticas. A vaga inquietação que Corso sentia desde a sua visita à viúva Taillefer começava a adquirir limites, rostos, um ambiente e uns personagens entre a carne e a ficção, com estranhos e ainda confusos vínculos entre si. Dumas e um livro do século XVII, o Diabo e Os Três Mosqueteiros, Milady e as fogueiras da Inquisição... Embora tudo aquilo fosse mais absurdo do que concreto, mais romanesco do que real.
Apagou a luz e foi dormir. Mas demorou algum tempo até conciliar o sono, porque havia uma imagem que não lhe saía da mente; com os olhos abertos, via-a flutuar à sua frente na escuridão. Era uma paisagem distante, das suas leituras juvenis, povoada por sombras que regressavam vinte anos depois, materializando-se em fantasmas próximos e quase tangíveis. A cicatriz. Rochefort. O homem de Meung. O sicário de Sua Eminência.
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