O Guardião

Dean R. Koontz · Capítulo 7 de 8 · parte 4/4

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O Guardião

— Nariz bonitinho? Meu Deus, garoto, você…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Não vim através do portão — disse Stefan. — Vim diretamente do futuro, usando apenas o cinto da viagem no tempo.

Era a mentira mais deslavada de todas, pois o cinto não era uma máquina do tempo, apenas um aparelho de retorno, que conduzia o viajante diretamente ao instituto. Contava com a ignorância dos políticos. Em geral sabiam um pouco de cada coisa que se fazia no seu governo, mas não conheciam nada profundamente. Hitler sabia da existência do portão e da natureza da viagem no tempo, é claro, mas talvez só de um modo geral; provavelmente desconhecia os detalhes, como o funcionamento dos cintos.

Se Hitler soubesse que Stefan havia partido do instituto depois de voltar com o cinto de Kokoschka, ia saber que Kokoschka e os outros cinco tinham sido despachados por Stefan, e não desertado, e todo seu plano estaria perdido. E Stefan seria um homem morto.

Franzindo a testa, o ditador disse:

— Usou o cinto sem o portão? Isso é possível?

Com a boca seca de medo, mas procurando falar com convicção, Stefan disse:

— Oh, sim, meu Führer, é muito simples... ajustar o cinto para que ao invés de ser atraído unicamente pela faixa que leva ao portão, possa viajar no tempo quantas vezes for necessário. E é uma sorte para nós, pois do contrário, se eu tivesse de voltar ao portão para chegar aqui, teria sido impedido pelos judeus que o controlam.

— Judeus? — disse Hitler sobressaltando-se.

— Sim, senhor. A conspiração dentro do instituto foi organizada por elementos com sangue judeu que conseguiram esconder esse fato.

O rosto do ditador louco crispou-se numa fúria súbita.

— Judeus! Sempre o mesmo problema. Por toda a parte, o mesmo problema. Agora também no instituto.

Ouvindo isso, Stefan teve certeza de que conseguira empurrar o curso da história de volta para o caminho certo.

O destino luta para refazer o padrão do que está determinado.

 

24

Laura disse:

— Chris, acho melhor você se esconder embaixo do carro.

Nem bem acabou de falar, o homem que estava a sudoeste se levantou do esconderijo e correu, seguindo a margem do regato, na direção dela e de uma pequena duna de areia.

Laura ficou de pé num salto, certa de que o Buick a protegeria do homem ao lado do Toyota e abriu fogo. As primeiras 12 balas acertaram no chão, fazendo voar areia e pedaços de xisto nos calcanhares do homem que corria, mas então as outras o alcançaram, acertando suas pernas. Ele caiu gritando, e foi atingido no chão também. Rolou duas vezes e caiu pela beirada do regato até o fundo, a dez metros da superfície.

Imediatamente Laura ouviu os disparos da automática, não vindos do Toyota, mas bem atrás dela. Antes que tivesse tempo de se voltar e enfrentar a nova ameaça, foi atingida nas costas por várias balas e caiu para a frente, com o rosto no xisto duro.

 

25

— Judeus — repetiu Hitler furioso. E então: — E essa arma nuclear que segundo eles vai nos levar à vitória? .

— Outra mentira, meu Führer. Embora várias tentativas para con seguir essa arma venham a ser feitas no futuro, nenhuma foi bem- sucedida. Não passa de uma fantasia criada pelos conspiradores para desviar as energias e os recursos do Reich.

Um estrondo surdo rolou pelas paredes como se não estivessem sob a terra mas suspensos no céu, no meio de uma tempestade. As pesadas molduras dos quadros bateram contra o concreto. Os lápis bateram contra o pote de cobre. Fitando os olhos de Stefan, Hitler o estudou por um longo tempo.

— Suponho que, se não fosse leal a mim, teria vindo armado e me mataria logo que chegasse aqui.

Stefan tinha pensado nisso, pois só assassinando Adolf Hitler poderia limpar algumas nódoas da sua própria alma. Mas seria um ato egoísta, pois desse modo mudaria radicalmente o curso da história, pondo em risco o futuro que conhecia. Não podia esquecer que seu futuro era também o passado de Laura; se com sua intervenção alterasse a série de acontecimentos predeterminados, talvez mudasse o mundo para pior de um modo geral e para Laura, em particular. E se matasse Hitler naquele momento e depois voltando a 1989 e encontrasse um mundo tão drasticamente mudado que, por algum motivo, Laura jamais tivesse nascido?

Queria matar aquela serpente em pele de homem, mas não podia assumir a responsabilidade do mundo no futuro. O bom senso dizia que só podia ser um mundo melhor, mas Stefan sabia que bom senso e destino eram conceitos mutuamente exclusivos.

— Sim — respondeu —, se eu fosse um traidor, meu Führer, podia ter feito isso. E preocupa-me a idéia de que os verdadeiros traidores no instituto, mais cedo ou mais tarde, pensem nesse método de extermínio.

Hitler ficou pálido.

— Amanhã eu fecho o instituto. O portão ficará fechado até eu ter certeza de que todos os traidores foram eliminados.

Os cálculos de Churchill talvez se antecipem nesse golpe, pensou Stefan.

— Nós venceremos, Stefan, e venceremos mantendo a crença no nosso grande destino, não fazendo o jogo de cartomantes. Vencere mos porque nosso destino é vencer.

— É o nosso destino — concordou Stefan. — Estamos do lado da verdade.

Finalmente o ditador louco sorriu. Dominado por um sentimenta-lismo estranho por representar uma mudança tão extrema de atitude, Hitler falou sobre o pai de Stefan, Franz, e dos primeiros dias do seu movimento, em Munique: as reuniões secretas no apartamento de Anton Drexler, os comícios nas cervejarias — as Hofbrauhaus e Eberlbrau.

Stefan escutou por alguns momentos, fingindo-se encantado, mas quando Hitler expressou sua confiança contínua e inabalável no filho de Franz Krieger, Stefan aproveitou a oportunidade para partir.

— E eu, meu Führer, confio plenamente no senhor e serei para sempre seu discípulo leal. — Levantou-se, fez a saudação nazista, en fiou a mão sob a camisa para apertar o botão do cinto e disse: — Agora, preciso voltar ao futuro, pois tenho muito que fazer pelo senhor.

— Vai partir? — perguntou Hitler, levantando~se da cadeira. — Mas pensei que agora ia ficar no seu tempo. Por que voltar agora que limpou seu nome comigo?

— Acho que sei onde está o traidor Kokoschka, o canto do futuro em que se escondeu. Preciso encontrá-lo e trazê-lo de volta, pois talvez ele saiba os nomes dos traidores do instituto e possa nos revelar.

Saudou rapidamente, apertou o botão do cinto e deixou o abrigo antes que Hitler pudesse dizer alguma coisa mais.

Voltou ao instituto na noite de 16 de março, a noite em que Kokoschka havia partido para San Bernardino para procurá-lo, de onde nunca mais voltou. Fazendo o melhor que podia, Stefan tinha providenciado a destruição do instituto e estava quase certo de que Hitler não acreditaria em nenhuma outra informação da equipe da viagem no tempo. Se não fosse sua preocupação com a equipe da SS que perseguia Laura em 1989, teria se sentido realizado.

No painel de programação, deu entrada nos números calculados pelo computador para sua última viagem no tempo: para o deserto, perto de Palm Springs, onde Laura e Chris esperavam por ele na manhã de 25 de janeiro de 1989.

 

26

Quando caiu ferida, Laura sabia que uma das balas tinha partido ou esmigalhado sua coluna, pois não sentia nenhuma dor — não sentia absolutamente nada do pescoço para baixo.

O destino luta para refazer o padrão do que estava determinado.

O tiroteio cessou.

Laura só podia mover a cabeça, e apenas o bastante para ver Chris de pé na frente do Buick, tão paralisado de terror quanto ela pelo ferimento na coluna. Mais adiante, correndo para eles, vindo do norte, a cinqüenta metros viu um homem com óculos escuros, camisa branca e calça preta, empunhando uma metralhadora.

— Chris — disse Laura com dificuldade. — Corra! Corra!

O rosto do menino crispou-se numa expressão da mais pura dor, como se soubesse que a estava deixando a para morrer. Depois correu com o máximo de velocidade que permitiam suas pequenas pernas, para o leste, para o deserto, lembrando-se de correr em ziguezague, tornando-se um alvo mais difícil.

Laura viu o assassino erguer a metralhadora.

No laboratório principal, Stefan abriu o painel que cobria o gravador automático das viagens.

Um rolo de papel com 5cm de espessura indicava que naquela noite o portão fora usado para uma viagem a 10 de janeiro de 1988, a viagem de Kokoschka a San Bernardino, quando matou Danny Packard. A fita tinha gravadas também oito viagens ao ano 6.000.000.000 d.C. — os cinco homens e os três embrulhos com os animais. Estavam anotadas também as viagens de Stefan: a 20 de março de 1944, com as latitudes e longitudes do abrigo antiaéreo perto do St. James's Park, em Londres; a 21 de março de 1944, com as latitudes e longitudes exatas do abrigo subterrâneo de Hitler e o destino da viagem programada mas ainda não realizada — a Palm Springs, 25 de janeiro de 1989. Tirou a fita, guardou no bolso e enrolou a bobina em papel branco. Já havia programado os relógios do painel para voltar a zero quando ele passasse pelo portão. Iam perceber que alguém retirara as fitas, mas pensariam que era obra de Kokoschka e dos outros desertores para que não descobrissem seu destino.

Fechou o painel e afivelou a mochila com os livros de Churchill. Passou a correia da Uzi pelo ombro e apanhou o revólver com silen-ciador que estava na mesa do laboratório.

Examinou a sala rapidamente certificando-se de que não havia esquecido de nada que traísse sua presença. Os cálculos do IBM estavam no bolso da sua calça. O cilindro de Vexxon há muito fora enviado para um futuro onde o sol estava morto, ou morrendo. Não viu nada que o denunciasse.

Entrou no portão e aproximou-se do ponto de transporte com uma esperança muito maior do que ousava sentir nas viagens anteriores. Havia conseguido garantir a destruição do instituto e a derrota da Alemanha nazista através de uma série de manipulações maquiavélicas do tempo e das pessoas, portanto, sem dúvida Laura e ele seriam capazes de vencer aquela equipe de assassinos da SS que deviam estar em algum ponto de Palm Springs.

Paralisada no chão de xisto do deserto, Laura gritou:

— Não!

Mas a palavra saiu num sussurro, pois não tinha forças para gritar.

A metralhadora abriu fogo na direção de Chris e por um momento Laura teve certeza de que o filho ia conseguir sair da linha de tiro, uma última e desesperada fantasia, sem dúvida, porque ele não passava de um garotinho, tão pequeno, com pernas curtas, e estava bem ao alcance dos tiros quando foi atingido, as balas desenhando uma linha horizontal nas costas frágeis, atirando-o no chão onde ele ficou imóvel sobre o sangue que fluía lentamente do seu corpo.

Toda a dor que não podia sentir no seu corpo ferido teria sido uma picada de alfinete comparada à angústia que a invadiu vendo o corpo sem vida do filho. Em nenhuma das tragédias de sua vida Laura experimentara dor igual. Era como se todas as perdas sofridas — a mãe que não conheceu, o doce pai, Nina Dockweiler, a suave Ruthie e Danny, por quem Laura teria dado a própria vida — se manifestassem através daquela nova brutalidade que o destino a obrigava a enfrentar; assim, sentia, não só a dor dilacerante da morte de Chris, mas outra vez a terrível agonia de todas as outras, antes dela. Paralisada e insensível, mas vivendo um imenso tormento, espiritualmente dilacerada, finalmente derrotada na odiosa roda do destino, sem forças para ter coragem, sem esperança, sem nada para lutar. Seu menino estava morto. Sentia-se terrivelmente só num universo frio e hostil, e só desejava agora a morte, o vazio, o nada infinito, o fim de todo sofrimento.

Viu o homem aproximando-se dela.

Laura disse:

— Mate-me, por favor, mate-me, acabe com isto — mas sua voz estava tão fraca que ele provavelmente não ouviu.

De que adiantava viver? Para que havia suportado todas aquelas tragédias? Por que sofrer tanto e continuar com a vida se aquele tinha de ser seu fim? Que cruel consciência existia por trás do funcionamento do universo capaz de forçá-la a lutar durante toda uma vida que, afinal, não parecia ter nenhum significado nem objetivo?

Christopher Robin estava morto.

Lágrimas quentes desciam pelo seu rosto, mas era a única coisa que Laura sentia fisicamente — e a aspereza do xisto contra sua face direita.

Com mais alguns passos, o assassino a alcançou e chutou suas costelas violentamente. Laura sabia que o homem tinha feito isso porque estava olhando para o próprio corpo imóvel e viu o pé do assassino bater nas suas costelas, mas não sentiu coisa alguma.

— Mate-me — murmurou ela.

De repente Laura ficou apavorada com a idéia de que o destino tentaria fielmente refazer o padrão determinado, permitindo que ela vivesse, mas na cadeira de rodas da qual Stefan a livrara, interferindo nas circunstâncias do seu nascimento. Chris era o filho que não fazia parte dos planos do destino e agora sua existência tinha sido apagada. Mas talvez ela não fosse apagada; pois seu destino era viver aleijada. Agora tinha uma visão do próprio futuro: viva, paraplégica ou quadriplégica, presa à cadeira de rodas, presa a algo muito pior — numa vida de tragédia, de amargas lembranças, de mágoa sem fim, uma saudade insuportável do filho, do marido, do pai e de todos que ela havia perdido.

— Oh, meu Deus, por favor, deixe-me morrer.

De pé ao lado dela, o homem sorriu e disse:

— Bem, talvez eu seja o mensageiro de Deus — deu uma risada áspera. — De qualquer modo, vou atender sua prece.

O relâmpago chamejou e o trovão rolou pelo céu do deserto.

Graças aos cálculos do computador, Stefan voltou ao lugar exato no deserto de onde havia partido para 1944, exatamente cinco minutos depois de sua partida. A primeira coisa que viu à luz extremamente clara foi o corpo ensagüentado de Laura e o homem da SS de pé ao lado dele. Mais adiante viu Chris.

O homem da SS reagiu imediatamente ao relâmpago e ao trovão. Começou a se voltar, à procura de Stefan.

Stefan apertou o botão do cinto três vezes. A pressão do ar aumentou rapidamente; o cheiro de fios elétricos aquecidos e de ozônio encheu o ar.

O assassino da SS o viu, ergueu a metralhadora e abriu fogo, errando, mas depois fazendo pontaria exata.

Antes de ser atingido pelas balas, Stefan saiu de 1989 e voltou ao instituto na noite de 16 de março de 1944.

— Merda! — disse Klietmann, quando Krieger desapareceu ileso na corrente do tempo.

Bracher saiu correndo de perto do Toyota, gritando:

— Era ele! Era ele!

— Eu sei que era ele — disse Klietmann quando Bracher chegou perto. — Quem mais podia ser: Cristo na sua segunda vinda?

— O que ele está tramando? — perguntou Bracher. — Por que voltou de onde veio? O que está acontecendo?

— Não sei — disse Klietmann irritado. — Olhou para a mulher ferida e disse: — Só sei que ele viu você e seu filho morto e nem tentou me matar por isso. Ele fugiu para salvar a própria pele. O que pensa agora do seu herói?

Laura continuou a pedir para que a matassem. Afastando-se dela, Klietmann disse:

— Bracher, saia da frente.

Bracher obedeceu e Klietmann atirou umas vinte balas, todas no corpo de Laura, matando-a instantaneamente.

— Podíamos ter interrogado a mulher — disse o cabo Bracher.

— Sobre Krieger, sobre o que ele estava fazendo aqui...

— Ela estava paralisada — respondeu Klietmann com impaciência. — Não sentia nada. Dei um pontapé no seu corpo que deve ter partido metade das costelas e nem gemeu. Não se pode torturar uma mulher que não sente dor, para obter informação.

Dezesseis de março de 1944. O instituto.

Com o coração batendo loucamente, Stefan saltou do portão e correu para o painel de programação. Tirou do bolso a lista de números obtida no computador e a abriu na pequena mesa programadora que ficava num nicho da maquinaria.

Sentou na cadeira, apanhou um lápis e um bloco de notas na gaveta. Suas mãos tremiam tanto que deixou cair o lápis duas vezes.

Tinha os números que o levariam para aquele deserto cinco minutos depois de ter partido. Com essa informação podia retroceder os cálculos para voltar quatro minutos e 55 segundos antes, cinco segundos depois de ter deixado Laura e Chris vivos à sua espera.

Se ficasse ausente apenas cinco segundos, os assassinos da SS não teriam matado Laura e o garoto quando Stefan voltasse. Poderia aumentar o poder de fogo na luta e talvez isso fosse suficiente para mudar o resultado final.

Quando foi designado para o instituto, no outono de 1943, Stefan aprendera os cálculos matemáticos necessários para o funcionamento do programa. Podia fazer a mudança agora. Não era um trabalho impossível, porque não teria de começar do nada; bastava redefinir os números do computador para um atraso de alguns minutos.

Mas olhou para o papel e não conseguia pensar por que Laura estava morta e Chris estava morto.

Sem eles Stefan não tinha coisa alguma.

Você pode trazê-los de volta, disse para si mesmo. Que diabo, controle-se. Pode evitar que aconteça.

Inclinou-se sobre a mesa e trabalhou durante uma hora. Sabia que não ia aparecer ninguém àquela hora da noite, mas várias vezes imaginou ouvir passos no hall, o cliqueclique das botas dos SS. Duas vezes olhou para o portão, quase certo de ter ouvido os cinco homens mortos voltando do ano 6.000.000.000 d.C, vivos e à procura dele.

Quando terminou os cálculos e fez uma revisão nos números, deu entrada no painel de programa. Levando a Uzi em uma das mãos e o revólver na outra, entrou no portão e passou pelo ponto de transporte...

...e voltou ao instituto.

Parou por um momento no portão, confuso. Então, atravessou novamente o campo de energia...

...e voltou para o instituto.

A explicação o atingiu com tamanho impacto que Stefan inclinou o corpo para a frente como se tivesse levado um soco no estômago. Não podia voltar mais cedo agora, pois já havia estado naquele lugar cinco minutos antes de sair de lá; se voltasse estaria criando uma situação na qual sem dúvida ia ver a si mesmo chegando da primeira vez. Paradoxo! O mecanismo do cosmo não permitia que o viajante do tempo encontrasse a si mesmo em nenhum ponto da corrente do tempo; quando isso era tentado, invariavelmente falhava. A natureza desprezava o paradoxo.

Quase podia ouvir a voz de Chris no quarto do motel onde pela primeira vez haviam falado sobre a viagem no tempo. "Paradoxo! Não é um barato, mamãe? Não é um barato?" E a risada encantadora e cheia de entusiasmo do garoto.

Mas tinha de haver um jeito.

Voltou ao painel de programação, deixou as armas na mesa e sentou-se.

O suor escorria na sua testa. Enxugou com a manga da camisa. Pense.

Olhou para a Uzi e imaginou se não poderia pelo menos mandar a arma para ela. Provavelmente não. Estava com a Uzi e o revólver quando voltou para ela na primeira vez, portanto, se mandasse uma das armas para quatro minutos e cinqüenta segundos antes, ela só existiria no mesmo lugar quando ele aparecesse exatamente quatro minutos e cinqüenta segundos depois. Paradoxo.

Empurrou as armas para o lado, apanhou o lápis e escreveu uma breve mensagem numa das folhas do bloco: os SS MATARÃO VOCÊ E CHRIS SE FICAREM PERTO DO CARRO. SAIAM DE ONDE ESTÃO; ESCONDAM-SE. Parou por um momento, pensando. Onde eles poderiam se esconder na planície deserta? Escreveu: TALVEZ NO CÓRREGO SECO. Arrancou a folha do bloco. Então, acrescentou: o SEGUNDO CILINDRO DE VEXXON É TAMBÉM UMA ARMA.

Procurou nas gavetas do laboratório um vidro com gargalo fino, mas não encontrou, porque ali toda a pesquisa era relacionada com eletromagnetismo e não química. Saiu para o corredor e procurou nos outros laboratórios até encontrar o que queria.

De volta ao laboratório principal, entrou no portão e aproximou-se do ponto de transporte. Atirou o objeto no campo de energia como se fosse um homem isolado numa ilha, jogando a garrafa e o bilhete no mar.

O vidro não voltou.

... mas o breve vácuo foi seguido por uma lufada de vento com o cheiro fracamente alcalino do deserto.

Perto da mãe, abraçado a ela, maravilhado com a partida mágica de Stefan, Chris exclamou:

— Puxa! Não foi um barato, mamãe, não foi legal?

Laura não respondeu porque acabava de ver um carro branco saindo da rodovia 111 e entrando no deserto.

O relâmpago cintilou, o trovão sacudiu o dia, sobressaltando-a, e uma garrafa apareceu no ar, caiu aos seus pés, espatifando-se no chão de xisto, e Laura viu que tinha um papel dentro.

Chris apanhou o papel entre os cacos de vidro. Com a importância costumeira quando se tratava desses assuntos, disse:

— Deve ser de Stefan.

Laura tirou o papel das mãos dele, leu o que estava escrito, percebeu que o carro branco se dirigia para eles. Não compreendia como e por que a mensagem fora enviada, mas acreditou nela implicitamente. Quando terminou de ler, com o relâmpago e o trovão ainda passando no céu, ouviu o motor do carro branco muito perto.

Ergueu os olhos e viu o veículo ser acelerado. Estavam a quase trezentos metros, mas aproximava-se com toda a velocidade que permitia o solo desigual do deserto.

— Chris, apanhe as duas Uzi do carro e me encontre na margem do córrego. Depressa!

O menino correu para a porta do Buick e Laura para a mala que estava aberta. Agarrou o cilindro de Vexxon e alcançou Chris antes que ele chegasse à margem do canal natural de água, que era um rio caudaloso na época das chuvas, mas estava seco agora.

O carro branco estava a menos de 150 metros.

— Venha — disse Laura, levando-o para o leste, acompanhando a margem —, precisamos encontrar um lugar para descer.

As paredes do canal seco desciam levemente até o fundo a dez metros. Eram desgastadas pela erosão, repleta de canais verticais em miniatura que iam dar no principal, alguns com cinco centímetros de largura, outros chegando a um metro e meio; durante a estação das chuvas, a água que caía na superfície do deserto corria por aqueles pequenos canais até o fundo do regato onde era levada em grandes torrentes. Em alguns desses drenos verticais o solo tinha desaparecido, revelando rochas aqui e ali que podiam dificultar a descida, enquanto que outros estavam completamente bloqueados por arbustos nascidos nas paredes do regato.

A pouco mais de cem metros, o carro saiu do solo de xisto, entrou na areia que prendia os pneus, obrigando-o a diminuir a marcha.

Tinham percorrido vinte metros na margem quando Laura descobriu um largo canal que levava diretamente ao fundo seco do rio, sem rochas nem arbustos. O que via à frente era um escorregador com um metro de largura, dez metros de comprimento, alisado pela água e coberto de terra.

Pôs o cilindro de Vexxon naquela descida natural e ele desceu até a metade, depois parou.

Laura apanhou uma das Uzi que Chris segurava, voltou-se para o carro, que estava agora a uns 75 metros, e abriu fogo. Viu pelo menos dois orifícios de bala no pára-brisa. O resto do vidro imediatamente ficou rendado.

O carro — podia ver agora... — era um Toyota — deu uma volta de 360°, depois outra de 90°, levantando nuvens de pó, entrando no meio de alguns arbustos ainda verdes e presos ao solo. Parou mais ou menos a quarenta metros do Buick, sessenta de Laura e Chris, com a frente para o norte. As portas se abriram no outro lado. Laura sabia que os ocupantes estavam saindo do carro por onde não podia vê-los, agachados.

Apanhou a outra Uzi das mãos de Chris e disse:

— No escorrega, garoto. Quando chegar ao cilindro de gás, vá empurrando até o fundo junto com você.

Chris desceu a parede do regato seco, levado pela força da gravidade mas às vezes dando impulso quando a fricção o fazia parar. Era exatamente o tipo de brincadeira que provocaria a fúria de qualquer mãe em outras circunstâncias, mas agora Laura o aplaudiu.

Laura deu uns cem tiros no Toyota, esperando acertar o tanque de gasolina para depois atear fogo com uma bala, fritando os miseráveis encostados no outro lado do carro. Mas esvaziou o pente da arma sem conseguir seu intento.

Quando parou de atirar, eles abriram fogo. Mas Laura não ficou parada o tempo suficiente para servir de alvo. Com a segunda Uzi na frente do corpo, segura com as duas mãos, sentou na borda do regato e deslizou pela descida usada por Chris. Chegou ao fundo em segundos.

Rolos de amaranto seco enchiam o fundo do regato. Madeira no-dosa deixada pela água, tábuas acinzentadas pelo tempo, levadas das ruínas distantes de alguma velha cabana no deserto e algumas pedras enchiam o solo poroso que formava o fundo do regato. Nada disso oferecia um lugar para se esconder nem proteção contra os tiros que logo começariam.

— Mamãe? — disse Chris, querendo dizer, e agora?

O regato devia ter dezenas de tributários espalhados pelo deserto e esses tributários teriam tributários. A rede de irrigação era um labirinto. Não podiam se esconder ali para sempre, mas talvez, se pusessem alguns braços daquele sistema entre eles e seus perseguidores, tivessem tempo para planejar uma tocaia.

— Corra, meu bem. Siga o regato principal, entre no primeiro braço à direita e espere lá por mim.

— O que você vai fazer?

— Vou esperar que eles olhem lá de cima — disse Laura, apon tando para o alto — e então apanhar todos, se puder. Agora vá, vá.

Chris correu.

Deixando o cilindro de Vexxon bem à vista, Laura voltou à parede do regato pela qual tinha descido. Foi por outro canal vertical, mais profundo, menos inclinado, e bloqueado no meio por uma moita de mesquite. Ficou no fundo do canal secundário, certa de que a moita os impedia de vê-la lá de cima.

Chris desapareceu para leste, num tributário do canal principal.

Logo depois Laura ouviu vozes. Esperou, esperou, dando tempo para que ficassem seguros de que ela e Chris tinham fugido. Então saiu de dentro do canal feito pela erosão para a parede do regato, voltou-se e varreu com balas a parte superior da margem.

Quatro homens estavam ali, olhando para baixo, e Laura matou dois, mas os outros saltaram para trás, para fora da sua vista antes de serem atingidos pelo arco de fogo. Um dos corpos ficou no topo da margem do regato, com um braço e uma perna dependurados para baixo. O outro caiu no fundo do canal, perdendo os óculos escuros no caminho.

Dezesseis de março de 1944. O instituto.

Quando viu que a garrafa com a mensagem não ia voltar para ele, Stefan ficou certo de que havia alcançado Laura antes de ela ser morta, segundos depois da sua partida para 1944.

Voltou à mesa de programação e continuou a trabalhar nos cálculos que o levariam de volta ao deserto alguns minutos depois da sua chegada anterior. Essa viagem ele podia fazer porque estaria chegando logo depois da sua partida apressada e não havia possibilidade de encontrar a si mesmo, não haveria paradoxo.

Também dessa vez os cálculos não eram muito complexos porque bastava partir dos números fornecidos pelo IBM PC. Stefan sabia que o tempo que estava passando no laboratório não correspondia à medida do tempo no deserto, em 1989, mas mesmo assim estava ansioso para voltar para Laura. Mesmo que ela tivesse seguido seu conselho, mesmo que o futuro que ele havia visto fosse mudado e ela ainda estivesse viva, teria de enfrentar os assassinos da SS e ia precisar de ajuda.

Depois de trabalhar quarenta minutos, conseguiu os números necessários e reprogramou o portão.

Abriu o painel no registro das viagens e retirou a fita gravada.

Carregando a Uzi e o revólver, rilhando os dentes com a dor do ferimento que ficava cada vez pior, Stefan entrou no portão.

Arrastando o cilindro e a Uzi, Laura encontrou-se com Chris no tributário mais estreito, a uns vinte metros do ponto em que haviam descido. Agachada no canto formado pelas duas paredes de terra, olhou para o lugar de onde tinha vindo.

No deserto, um dos assassinos sobreviventes jogou o corpo do primeiro homem para o fundo do canal, aparentemente para ver se ela estava ali embaixo e se se deixaria enganar, abrindo fogo. Ninguém atirou e os dois sobreviventes ficaram mais confiantes. Um deles deitou de bruços na margem com a arma na mão enquanto o outro escorregava para baixo. Depois, o primeiro cobriu a descida do outro.

Quando os dois estavam no fundo do canal, Laura avançou, saindo de trás da parede de terra e atirou uma rajada de dois segundos. Os seus perseguidores ficaram tão surpresos com tanta agressividade que não responderam ao fogo, mas atiraram-se rapidamente na direção dos canais profundos de erosão na parede do regato, procurando abrigo, da mesma forma que Laura quando esperava para atirar neles lá em cima na margem. Só um conseguiu. Laura explodiu o outro.

Voltou para o abrigo da parede de terra, apanhou o cilindro de gás e disse para Chris:

— Venha. Vamos correr.

Quando corriam pelo tributário, procurando outro braço no labirinto, relâmpagos e trovões iluminaram e soaram no céu.

— O sr. Krieger! — disse Chris.

Stefan voltou ao deserto sete minutos depois de sua partida para os encontros com Churchill e Hitler em 1944, dois minutos depois da sua volta inicial quando vira Laura e Chris mortos pelos SS. Dessa vez não havia corpos, apenas o Buick — e o Toyota todo furado de balas numa posição diferente.

Esperando que seu plano tivesse dado resultado, Stefan correu para o regato seco procurando alguém, amigo ou inimigo. Logo viu os três homens mortos no fundo do canal, a dez metros da superfície.

Devia haver mais um. Nenhuma equipe de ataque da SS tinha menos de quatro homens. Em algum lugar naquela rede de regatos que cruzava o deserto como uma cadeia de relâmpagos em ziguezague, Laura fugia ainda do último homem.

Stefan encontrou o canal vertical aparentemente usado, tirou das costas a mochila com os livros e escorregou até o fundo. No caminho, raspou as costas na terra e sentiu uma dor aguda no ferimento ainda não cicatrizado. No fim da descida, quando ficou de pé, uma onda de tontura o assaltou e a bile subiu até sua garganta.

Em algum lugar do labirinto, a leste, uma arma automática abriu fogo.

Laura parou na entrada de outro tributário e fez sinal para Chris ficar em silêncio.

Respirando pela boca, esperou que o último assassino virasse o canto do canal que ela acabava de deixar. Mesmo no solo macio, os passos do homem que corria podiam ser ouvidos.

Laura inclinou-se para fora da parede de terra para abrir fogo. Mas ele agora estava muito cauteloso; entrou no pequeno canal agachado e correndo. Quando os tiros o alertaram para a posição de Laura, ele atravessou o canal e escondeu-se atrás da mesma parede de terra na qual se abria o tributário em que ela estava; desse modo, Laura só podia atirar nele se o homem saísse para o meio do canal.

Na verdade, ela tentou, arriscando a resposta dele, mas depois da rajada de dois segundos a sua arma se calou. A Uzi lançou suas últimas dez ou 12 balas e nada mais.

Klietmann ouviu a Uzi se esvaziando. Espiou pelo canto da parede de terra e viu a mulher jogar fora a arma. Ela desapareceu na entrada do tributário onde tinha ficado à espera dele.

Ele lembrou-se do que tinha visto no Buick, lá em cima no deserto: um .38 especial no banco do carro. Imaginou que ela não teve tempo de pegar a arma, ou então, na pressa de apanhar aquele cilindro estranho da mala, tinha esquecido o revólver.

A mulher tinha duas Uzi, ambas vazias agora. Será que tinha dois revólveres — tendo deixado só um no carro?

Provavelmente não. Duas Uzi fazia sentido, porque eram úteis à distância e em circunstâncias variadas. Mas, a não ser que ela fosse uma atiradora de primeira classe, o revólver só seria valioso de perto, quando seis balas seriam suficientes para matar seu agressor ou morrer. Um segundo revólver seria supérfluo.

O que significava que agora o que a mulher tinha para se defender — era o quê? Aquele cilindro? Parecia não passar de um extintor de incêndio.

Klietmann foi atrás dela.

O novo tributário erá mais estreito do que o anterior, assim como este era mais estreito do que o canal principal. Tinha 8,5m de profundidade e 3m de largura na entrada, ficando mais raso e com a metade daquela largura na passagem pelo deserto. Depois de cem metros, formava um funil e terminava.

No fim do pequeno canal, Laura procurou uma saída. As margens, nos dois lados, eram muito íngremes, de terra macia e solta, de escalada muito difícil, mas a parede atrás dela tinha uma inclinação mais suave e muitos arbustos de mesquite, que serviam como ponto de apoio. Porém, Laura sabia que estariam apenas no meio da escalada quando o homem os encontrasse; suspensos ali seriam alvos fáceis. Ali teria de fazer seu último posto de resistência. Encurralada no fundo daquele canal natural, olhou para cima pa-rao pedaço de céu que podia ver e teve a impressão de estar no fundo de um enorme túmulo num cemitério de gigantes.

O destino luta para refazer o padrão do que estava destinado. Empurrou Chris para que ficasse atrás dela, no fundo do regato sem saída. À frente ela via uns 12 metros do caminho que tinha percorrido dentro do canal de l,5m de largura até o ponto que ele virava para a esquerda. O homem ia aparecer ali dentro de um ou dois minutos. Laura ajoelhou com o cilindro de Vexxon nas mãos, tentando tirar o fecho de segurança do gatilho manual. Mas o arame não estava apenas enrolado e enfiado no gatilho; dava várias voltas nele e a ponta era soldada. Não podia ser desenrolado; precisava ser cortado, e Laura não tinha nenhum instrumento cortante.

Talvez uma pedra. Uma pedra afiada podia cortar o arame com bastante fricção.

— Procure uma pedra — ela disse com urgência para o menino atrás dela. — Uma pedra com ponta cortante.

Enquanto ele procurava no solo macio levado pela água que corria do deserto, Laura examinou o marcador automático de tempo do cilindro, outro meio de soltar o gás. Era simples: um botão giratório era calibrado em minutos; para ajustar o cilindro em vinte minutos bastava girar o botão até que o número 20 ficasse na direção da marca vermelha do pequeno painel; empurrando-se o centro do botão, começava a contagem regressiva.

O problema era que não podia ser regulado para menos de cinco minutos. O homem os alcançaria muito antes disso.

Mesmo assim, Laura girou o botão para a marca dos cinco minutos e apertou o centro.

— Tome, mamãe — disse Chris, estendendo para ela uma lâmina de pedra que talvez servisse.

Com o marcador de tempo tiquetaqueando, Laura começou a trabalhar, passando a ponta da pedra no arame que prendia o controle manual. A cada segundo erguia os olhos para ver se o assassino os havia encontrado, mas o estreito canal à sua frente continuava deserto.

Stefan seguiu as pegadas no solo macio que formava o fundo do regato. Não fazia idéia de que distância estava deles. Apenas alguns minutos de diferença, mas provavelmente Laura e Chris moviam-se com maior rapidez porque a dor no ombro, exaustão e tontura retardavam seus passos.

Stefan tirou o silenciador do revólver e jogou fora, enfiando a arma no cinto. Empunhava a Uzi com as duas mãos, pronto para abrir fogo.

Klietmann jogou fora os óculos escuros porque o solo da rede de regatos era coberto de sombras em vários lugares, especialmente nos tributários mais estreitos, onde as paredes se fechavam, deixando menor espaço para a entrada do sol.

Seus sapatos Bally estavam cheios de areia e não tinham firmeza suficiente no solo macio, como no deserto, lá em cima. Finalmente ele parou, jogou para longe os sapatos, tirou as meias e prosseguiu descalço, o que era muito melhor.

Não estava seguindo a mulher e o garoto com a rapidez que desejava, em parte por causa dos sapatos que acabava de tirar, mas especialmente porque estava atento à sua retaguarda também. Ouvira os trovões e vira os relâmpagos há poucos minutos; sabia que Kriegcr tinha voltado. Era quase certo que, como Klietmann perseguia a mulher e o garoto, Krieger o perseguia também. Não pretendia ser carne para aquele tigre.

Dois minutos tinham passado no marcador de tempo do cilindro.

Laura conseguira serrar parte do fecho de segurança, primeiro com a lâmina de pedra que Chris havia encontrado, depois com oui ra quando aquela se desfez em sua mão. O governo não era capaz de fazer um selo postal que ficasse grudado no envelope, não era capaz de construir um tanque de guerra que cruzasse um rio infalivelmente, não era capaz de proteger o meio ambiente, nem eliminar a pobreza, mas certamente sabia como fazer um fio indestrutível; devia ser algum material especial descoberto e fabricado para o ônibus espacial e para o qual, depois, descobriram usos menos importantes; era o arame que Deus devia usar para firmar os pilares precários que sustentam o mundo. Os dedos de Laura estavam em carne viva, a segunda lâmina de pedra manchada com seu sangue e só metade dos fios de arame estavam cortados quando o homem descalço com calça preta e camisa branca entrou no canal onde eles estavam, a uns 12 metros de distância.

Klietmann avançou com cuidado, imaginando por que diabo ela estava lutando freneticamente com o extintor de incêndio. Será que pensava que uma rajada de fumaça química poderia desorientá-lo e protegê-la da metralhadora?

Ou o extintor não era o que parecia? Desde sua chegada a Palm Springs menos de duas horas atrás, tinha encontrado muita coisa que não era o que parecia. Uma faixa vermelha no meio-fio, por exemplo, não queria dizer ESTACIONAMENTO DE EMERGÊNCIA, como tinha pensado, mas PROIBIDO ESTACIONAR A QUALQUER HORA. Quem podia saber? E quem podia ter certeza sobre aquele cilindro com o qual ela estava lutando?

Laura ergueu os olhos e depois continuou seu trabalho no extintor.

Klietmann avançou pelo canal estreito, que não dava para mais de um homem de cada vez. Não teria chegado tão perto dela se pudesse ver o garoto. Talvez ele estivesse escondido em alguma reentrância na parede do regato e nesse caso teria de obrigá-la a dizer onde ele estava, pois suas ordens eram para matar os três — Krieger, a mulher e o garoto. Não achava que o garoto fosse um perigo para o Reich, mas não era homem de questionar as ordens recebidas.

Stefan encontrou um par de sapatos e um par de meias negras cheias de areia. Antes tinha encontrado os óculos Ray-Ban.

Nunca antes perseguira um homem que ia se despindo enquanto fugia, e a princípio achou engraçado. Mas então pensou no mundo descrito nos livros de Laura Shane, um mundo onde comédia e terror se misturavam, um mundo no qual a tragédia freqüentemente atacava no meio de uma gargalhada e de repente os sapatos e as meias jogadas fora o assustaram exatamente porque eram engraçados; teve a idéia absurda de que, se risse, seu riso seria o catalisador da morte de Laura e Chris.

E se eles morressem desta vez, não poderia mais salvá-los voltando no tempo e enviando outra mensagem anterior à primeira, pois a abertura que restava para isso era somente de cinco segundos. Mesmo com um IBM PC não era possível dividir um fio de cabelo com tanta precisão.

No solo sedimentar, as marcas dos pés descalços do homem levavam à entrada de um tributário. Embora suando de dor e um tanto atordoado, Stefan seguiu aquelas marcas como Robinson Crusoé havia seguido as pegadas de Sexta-Feira, mas com muito mais medo.

Com crescente desespero, Laura viu o assassino nazista aproximando-se nas sombras do corredor de terra. A Uzi estava apontada para ela, mas por algum motivo ele não atirou imediatamente. Laura usou esse inexplicável período de graça para continuar a serrar os fios do arame de segurança no gatilho do cilindro de Vexxon.

Mesmo naquelas circunstâncias ela não perdeu a esperança, especialmente por causa de um trecho de um dos seus livros do qual havia se lembrado há pouco: Na tragédia e no desespero, quando uma noite sem fim parece nos envolver, a esperança pode ser encontrada na lembrança de que o companheiro da noite não é outra noite, que o companheiro da noite é o dia, que as trevas sempre dão lugar à luz, e que a morte domina apenas metade da criação, a vida domina a outra metade.

A três metros dela agora, o assassino disse:

— Onde está o garoto? O garoto. Onde está o garoto?

Laura sentiu Chris atrás dela, abaixado nas sombras entre a mãe e o fim do regato. Imaginou se seu corpo o protegeria das balas e se, depois de matá-la, aquele homem iria embora sem perceber que Chris estava vivo no pequeno nicho, ali atrás.

O marcador de tempo do cilindro estalou. O gás saiu sob forte pressão, com o cheiro de abricó e o gosto desagradável de suco de limão misturado com leite azedo.

Klietmann não via nada sair do cilindro, mas ouvia: como o silvo de vinte serpentes.

Imediatamente sentiu como se alguém tivesse enfiado a mão no meio do seu corpo, agarrando seu estômago com dedos de aço, e arrancando-o. Dobrou o corpo, vomitando explosivamente no chão e nos pés descalços. Com um clarão doloroso que pareceu queimar o fundo dos seus olhos, alguma coisa explodiu em sua cavidade, e o sangue jorrou do nariz. Quando caiu no chão do regato, num gesto reflexo, apertou o gatilho da Uzi; sentindo que estava morrendo e perdendo todo o controle do corpo, tentou, num último esforço de vontade, cair de lado, de frente para a mulher, para que a rajada final da arma a levasse com ele para a morte.

Logo depois que Stefan entrou no tributário mais estreito, onde as pa redes pareciam se inclinar acima da sua cabeça e não se erguer para o céu como nos outros, ele ouviu uma longa rajada de metralhadora!

muito próxima, e correu para a frente. Tropeçando e batendo nas pa redes de terra, seguiu o corredor sinuoso até o fim, e viu o oficial da SS morto, envenenado pelo Vexxon. Mais adiante, Laura estava sentada com

as pernas esticadas para a frente, o cilindro de gás entre as coxas, as mãos ensangüentadas em volta dele. Sua cabeça estava inclinada para a frente, o queixo tocando o peito; parecia uma boneca de trapos, flácida e sem vida.

— Laura, não — disse Stefan com uma voz que nem ele reconheceu. — Não, não.

Ela ergueu a cabeça e piscou os olhos, estremeceu e finalmente sorriu de leve. Viva.

— Chris — disse ele, passando por cima do homem morto. — Onde está Chris?

Laura empurrou o cilindro de gás para longe e se afastou para o lado.

Chris espiou do nicho escuro atrás dela e disse:

— Sr. Krieger, o senhor está bem? Parece uma merda. Desculpe mamãe, mas ele parece mesmo.

Pela primeira vez em mais de vinte anos — ou pela primeira vez em mais de 65 anos, se contarmos os anos que ele pulou quando foi viver com Laura, no seu tempo — Stefan Krieger chorou. Aquelas lágrimas eram uma surpresa, pois estava certo de que sua vida no Terceiro Reich o deixara incapaz de chorar por alguém ou por alguma coisa. Mais estranho ainda — aquelas primeiras lágrimas em muitas décadas eram lágrimas de alegria.