O Guardião

Dean R. Koontz · Capítulo 7 de 8 · parte 3/4

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O Guardião

— Nariz bonitinho? Meu Deus, garoto, você…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

O uso do Vexxon contra aqueles homens era uma justiça cruel, pois os primeiros pesquisadores do gás asfixiante tinham sido patrocinados pelos nazistas, em 1936, então um éster organofosfórico chamado tabun. Praticamente todos os outros gases asfixiantes — que matavam, interferindo diretamente nos impulsos nervosos — estavam relacionados ao composto químico original. Inclusive o Vexxon. Aqueles homens foram mortos em 1944 por uma arma do futuro, mas com uma substância que havia se originado na sua própria sociedade deturpada e orientada para a morte.

Entretanto aquelas cinco mortes não davam nenhuma satisfação a Stefan. Havia tanta morte em sua vida que até a eliminação dos culpados para proteger os inocentes, até mesmo o assassinato a serviço da justiça, era repugnante para ele. Mas tinha de fazer o que devia fazer.

Pôs o revólver numa das mesas do laboratório, tirou a Uzi do ombro e a pôs de lado também.

Do bolso da calça jeans retirou um pedaço pequeno de arame e com ele travou o gatilho do cilindro de Vexxon na posição aberta. Entrou no corredor e colocou o cilindro no meio da passagem. Em poucos minutos o gás se espalharia por todo o prédio, seguindo as escadas, os poços dos elevadores e os condutores de ventilação.

Viu com surpresa que o corredor e os outros laboratórios do andar térreo pareciam desertos, iluminados apenas com as luzes noturnas de segurança. Deixando o cilindro de gás no corredor, voltou ao painel de programação no laboratório principal para verificar a data e a hora às quais o cinto de Kokoschka o levara de volta. Havia chegado às 9hllmin da noite de 16 de março.

Era muita sorte. Stefan pensou que voltaria numa hora em que a maioria do pessoal — alguns começavam a trabalhar às seis da manhã e alguns ficavam até as oito da noite — estivesse presente. Isso teria significado uma centena de corpos espalhados pelos quatro andares do prédio; e quando fossem descobertos, ficariam sabendo que somente Stefan Krieger, usando o cinto de Kokoschka para voltar do futuro e passar pelo portão, podia ter feito aquilo. Compreenderiam que ele não havia voltado apenas para matar o pessoal que estava no instituto naquele momento, mas que pretendia fazer mais e na certa iniciariam uma investigação maciça para descobrir seu plano e anular o que fosse possível dele. Mas agora... com o prédio quase vazio, podia dispor dos corpos de modo a não revelar sua presença e dirigir as suspeitas para os homens mortos.

O cilindro de Vexxon esvaziou em cinco minutos. O gás tinha se espalhado pelo prédio, com exceção das duas ante-salas na frente e nos fundos que não eram servidas pelo sistema de ventilação. Stefan foi de andar em andar, de sala em sala, à procura de outras vítimas. Os únicos corpos que encontrou foram dos animais no porão, os primeiros viajantes do tempo, o que o perturbou tanto ou mais do que os corpos dos cinco homens.

Voltou ao laboratório principal, apanhou cinco cintos especiais de um armário branco e os afivelou nos homens mortos, por cima da roupa. Rapidamente reprogramou o portão para enviar os corpos para seis bilhões de anos no futuro. Tinha lido em algum lugar que o sol teria se transformado numa nova ou estaria morto em seis bilhões de anos e queria enviar os homens para um lugar onde não existisse ninguém para vê-los nem para fazer uso dos seus cintos.

Dispor dos mortos, no prédio deserto e silencioso, era um trabalho sinistro. A todo momento ele ficava imóvel certo de ter ouvido algum movimento furtivo. Duas ou três vezes chegou a interromper o trabalho e sair à procura do som imaginário. Em certo momento, olhou para um dos cadáveres atrás dele e teve a impressão exata de que aquela coisa sem vida estava se levantando, que o som leve que tinha ouvido era a mão gelada estendendo-se para a máquina, procurando apoio. Foi quando Stefan compreendeu que todas aquelas mortes, durante todos aqueles anos, haviam-no deixado profundamente perturbado.

Um a um arrastou os corpos malcheirosos para dentro do portão, empurrando-os até o ponto de transporte, para o centro do campo de energia. Escorregando na porta invisível do tempo, eles desapareceram. Num ponto distante, além da imaginação, reapareceriam — numa terra há muito fria e morta, onde não vivia nenhuma planta, nenhum inseto, ou no espaço vazio e sem ar onde o planeta existia antes de ser consumido pela explosão do sol.

Stefan tomou o maior cuidado para não se aventurar além do ponto de transporte. Se fosse de repente levado para o vácuo do espaço, para seis bilhões de anos no futuro, estaria morto antes de poder apertar o botão do cinto e voltar ao instituto.

Depois de dispor dos cinco cadáveres e de limpar os vestígios deixados por aquelas mortes terríveis, sentiu cansaço. Felizmente o gás não deixava resíduo aparente; não precisava limpar todas as superfícies do instituto. Seu ombro ferido latejava, como nos dias seguintes ao ferimento.

Mas pelo menos havia encoberto sua passagem. De manhã, iam pensar que Kokoschka, Hoepner, Eicke, Schmauser e os dois agentes da Gestapo acreditavam que o Terceiro Reich estava condenado e haviam desertado para um futuro de paz e prosperidade.

Lembrou-se dos animais no porão. Se os deixasse nas gaiolas, na certa fariam testes para verificar a causa da morte e os resultados poderiam lançar dúvida sobre a teoria da deserção dos homens. E mais uma vez o principal suspeito seria Stefan Krieger. Era melhor dispor dos animais também. Seria um mistério, mas não apontaria diretamente para a verdade.

A dor latejante no seu ombro parecia cada vez mais quente, enquanto embrulhava os animais em aventais de laboratório, amarrando-os com um barbante. Sem cintos, ele os enviou para seis bilhões de anos no futuro. Tirou o cilindro vazio de gás do corredor e o mandou para aquela época distante também.

Agora estava pronto para as duas viagens cruciais que, ele esperava, teriam como resultado a destruição completa do instituto e a derrota dos nazistas. Indo até o painel de programação do portão outra vez, tirou um papel dobrado do bolso traseiro da calça que continha os cálculos feitos por Laura e ele no IBM PC na casa de Palm Springs.

Se fosse possível voltar de 1989 com explosivos suficientes para destruir o instituto, teria feito o trabalho sozinho. Entretanto, além do pesado cilindro com o gás, a mochila cheia de livros, o revólver e ai Uzi, não poderia ter carregado mais de vinte ou 25 quilos de explosivo plástico, que seriam insuficientes. As cargas que havia colocado no sotão e no porão tinham sido removidas por Kokoschka há alguns dias, tempo local. Podia ter voltado de 1989 com algumas latas de gasolina para incendiar o instituto; mas havia muitos documentos de pesquisa cm arquivos à prova de fogo aos quais nem Stefan tinha acesso, e somente uma explosão devastadora os faria em pedaços expondo o conteúdo às chamas.

Não podia mais destruir o instituto sozinho. Mas sabia quem podia ajudá-lo.

Reprogramou o portão de acordo com os números conseguidos com o IBM PC, para transportá-lo a três dias e meio no futuro a partir daquela noite de 16 de março. Geograficamente, chegaria em solo britânico no centro dos imensos abrigos subterrâneos sob os escritórios do governo em St. James's Park, ao lado do Portão Storey, construídos durante a Blitz para escritórios à prova de bombas e acomodações para o primeiro-ministro, e onde ficava a Sala de Guerra. Especificamente, esperava chegar numa certa sala de conferências às 7h30min da manhã, com uma exatidão tornada possível com os computadores de 1989, capazes de fazer os cálculos para determinar as coordenadas exatas de tempo e espaço.

Completamente desarmado, carregando somente a mochila com livros, entrou no portão, atravessou o ponto de transporte e se materializou num dos cantos de uma longa sala de conferências de teto baixo em cujo centro havia uma mesa com 12 cadeiras. Dez cadeiras estavam vazias. Havia só dois homens na sala. O primeiro, um secretário com uniforme do Exército britânico, com uma caneta na mão direita, um bloco de notas na esquerda. O segundo, ditando uma mensagem urgente, era Winston Churchill.

 

16

Agachado ao lado do Toyota, Klietmann chegou à conclusão de que as roupas que usavam eram completamente impróprias para a missão, era como se estivessem vestidos de palhaços num circo. O deserto que os rodeava era quase todo branco e bege, rosa-pálido e cor de pêssego, com pouca vegetação e poucas formações rochosas que poderiam servir de abrigo. Com seus ternos negros, se tentassem fazer um círculo, atacando a mulher por trás, seriam tão visíveis quanto insetos num bolo de aniversário.

Hubatsch, que estava perto da frente do Toyota, lançando rápidas rajadas de bala contra o Buick, abaixou-se.

— Ela foi para a frente do carro com o garoto, não podemos vê-los.

— Logo vão aparecer as autoridades locais — disse Bracher, olhando para o oeste, na direção da rodovia 111, depois para sudoeste, na direção da radiopatrulha que tinham lançado para fora da estrada a seis quilômetros.

— Tirem os paletós — disse Klietmann, tirando o seu. — Camisas brancas se confundem melhor com a paisagem. Bracher, você fica aqui e não deixe que aquela cadela venha para este lado. Von Manstein e Hubatsch, procurem dar a volta pela direita. Fiquem bem separados e não se movam antes de ter certeza do ponto que querem atingir.

Eu vou para o norte e para leste, dando a volta pela esquerda.

— Vamos matar a mulher sem procurar saber o que Krieger está fazendo? — perguntou Bracher.

— Sim, vamos — disse Klietmann imediatamente. — Ela está mui to armada para ser capturada viva. De qualquer modo, aposto minha honra como Krieger voltará para eles, dentro de poucos minutos. Será mais fá cil acabar com ele depois de termos eliminado a mulher. Agora vão.

Hubatsch, poucos segundos depois seguido por von Manstein, deixou a proteção do Toyota, agachado, movimentando-se rapidamente, na direção sudeste.

O tenente Klietmann foi para o lado norte do Toyota, segurando a metralhadora com uma das mãos, agachado, procurando alcançar o precário abrigo de alguns pés de mesquite nos quais estavam presos galhos secos de amaranto.

Laura levantou-se devagar e espiou pela frente do pára-lama dianteiro do Buick, a tempo de ver dois homens de camisas brancas e calças negras que saíram correndo do abrigo do Toyota, dirigindo-se para leste, para onde ela estava, mas também desviando um pouco para o sul, evidentemente com intenção de cercá-la. Ficou de pé e atirou no primeiro homem que saltou para trás de algumas rochas, desaparecendo.

Ouvindo os tiros, o segundo homem atirou-se para dentro de uma pequena depressão do terreno que não o escondia completamente, mas o ângulo de tiro àquela distância fazia dele um alvo difícil. Laura não queria gastar mais munição.

Além disso, no momento em que o segundo homem se atirou no chão, um terceiro abriu fogo de trás do Toyota. As balas acertaram o Buick, muito perto dela, e Laura foi obrigada a se abaixar outra vez.

Stefan estaria de volta dentro de três ou quatro minutos. Não muito tempo. Mas uma eternidade.

Chris estava sentado, as costas contra o pára-lama dianteiro do Buick, os joelhos dobrados contra o peito, seguros pelos braços cruzados, tremendo visivelmente.

— Agüenta um pouco, garotão — disse Laura.

Chris olhou para a mãe mas não disse nada. No meio de todo o terror que haviam enfrentado nas últimas semanas, ela jamais o vira tão desanimado. O rosto do menino estava pálido e sem vida. Parecia compreender que aquela brincadeira de esconder nunca fora realmente um brinquedo a não ser para ele, que nada era na verdade tão fácil quanto nos filmes, e essa assustadora conclusão emprestava ao seu olhar parado uma expressão de sombrio desligamento que assustava Laura.

— Agüenta firme — repetiu ela, passando por ele para o outro pára-lama dianteiro, no lado do motorista, onde, agachada, examinou o deserto ao norte.

Laura preocupava-se com a idéia de que mais homens a estivessem cercando pelo outro lado. Não podia deixar que fizessem isso porque então o Buick não mais serviria de proteção e não teriam para onde correr, a não ser o deserto aberto, onde eles os matariam antes que percorressem cinqüenta metros. O Buick era a única barricada que tinham. Precisava mantê-lo entre eles e os assassinos.

Não viu ninguém no lado norte. A terra era menos plana naquela direção, com algumas formações rochosas baixas, pequenas áreas de areia branca e sem dúvida maior número de depressões que não eram visíveis de onde ela estava, lugares onde algum dos homens podia estar se escondendo. Mas as únicas coisas que se moviam eram três rolos de amaranto seco; rolavam lentamente, sem direção certa, na brisa inconstante e fraca.

Laura passou por Chris e voltou para o outro pára-lama a tempo de ver que os dois homens ao sul estavam se movendo outra vez. Estavam trinta metros ao sul dela, mas a vinte metros da frente do Buick, aproximando-se com rapidez assustadora. Embora o que ia na frente estivesse abaixado e acenando enquanto corria, o segundo era mais ousado; talvez pensasse que a atenção de Laura estava concentrada no seu companheiro.

Mas ela o enganou. Ficou de pé, inclinou-se tanto quanto possível para longe do Buick, usando o carro como proteção, e atirou uma rajada de dois segundos. O homem perto do Toyota abriu fogo, dando cobertura aos companheiros, mas Laura atingiu o segundo homem que corria, fazendo-o voar para trás e cair no meio de uma moita rasa de manzanita.

O homem não estava morto, mas fora de ação, pois seus gritos eram tão estridentes e agoniados que não deixavam dúvida quanto à gravidade do ferimento.

Laura abaixou-se outra vez, saindo da linha de fogo, e surpreendeu-se com um largo sorriso nos lábios. Sentia um prazer imenso com a dor e o sofrimento indicados pelos gritos do homem. Aquela reação selvagem, aquela força primitiva da sua sede de sangue e vingança a assustava, mas agarrou-se a ela porque sentia que ia lutar melhor e com mais astúcia sob o domínio daquela fúria quase animal.

Um fora de ação. Talvez só faltassem mais dois.

E logo Stefan estaria de volta. Não importava o tempo que precisasse para terminar sua tarefa em 1944. Ele programaria o portão para voltar em apenas alguns minutos. Estaria com ela — entraria na luta — dentro de dois ou três minutos.

 

17

Por coincidência, o primeiro-ministro estava olhando diretamente para o local em que Stefan se materializou, mas o homem uniformizado — um sargento — só deu pela presença dele por causa da descarga elétrica que acompanhou sua chegada. Milhares de serpentes luminosas de um branco azulado emanavam do corpo de Stefan, como se geradas por sua carne. Talvez relâmpagos e trovões estivessem cortando o céu num mundo muito acima daquela sala, mas uma parte da energia deslocada pela viagem no tempo estava sendo gasta ali mesmo, num espetáculo fosforescente que fez o sargento se levantar de um salto, com surpresa e medo. As serpentes sibilantes de luz deslizaram pelo chão, subiram pelas paredes, aderiram brevemente ao teto e dissiparam-se, sem ferir ninguém; apenas um grande mapa da Europa ficou chamuscado em vários pontos, mas não se incendiou.

— Guardas! — gritou o sargento.

Ele estava desarmado, mas evidentemente certo de que seu chamado seria ouvido e atendido com rapidez, porque repetiu a palavra apenas mais uma vez e não fez nenhum movimento na direção da porta.

— Guardas!

— Sr. Churchill, por favor — disse Stefan, ignorando o sargento. — Não estou aqui para fazer mal a ninguém.

A porta abriu-se com violência e dois soldados britânicos entraram, um com um revólver, outro com uma metralhadora automática. Falando rapidamente, certo de que iam atirar nele, Stefan disse:

— O futuro do mundo depende do senhor ouvir o que tenho para dizer, por favor, senhor.

Durante toda a confusão, o primeiro-ministro continuara senta- do na poltrona, na cabeceira da mesa. Stefan julgava ter visto um breve olhar de surpresa e talvez até o estremecimento de medo no rosto do grande homem, mas não apostaria nisso. Agora, o primeiro-ministro parecia intrigado e implacável como nas fotografias que Stefan vira dele. Ergueu a mão para os guardas:

— Esperem um momento. — O sargento começou a protestar, e o primeiro-ministro disse: — Se ele quisesse me matar já teria feito.

— Voltou-se para Stefan. — Uma entrada e tanto, senhor. Tão dramática quanto qualquer uma que Sir Olivier já fez.

Stefan não pôde evitar um sorriso. Saiu do canto em que estava, mas quando deu alguns passos para a mesa, viu que os guardas ficaram rígidos, por isso parou.

— Senhor, minha chegada aqui é prova de que não sou um homem comum e que o que tenho para dizer é... muito estranho. É também extremamente sensível, e não vai querer que outra pessoa além do senhor fique a par dessa informação.

— Se espera que eu o deixe sozinho com o primeiro-ministro — disse o sargento —, você está... está louco!

— Talvez ele seja louco — disse o primeiro-ministro —, mas tem estilo. Tem de admitir isso, sargento. Se for revistado e os guardas não encontrarem nenhuma arma, concederei ao cavalheiro um pouco do meu tempo, como ele deseja.

— Mas, senhor, não sabe quem é ele. Não sabe o que ele é. Do jeito que ele explodiu aqui na...

Churchill o interrompeu.

— Eu sei como ele chegou, sargento. E por favor, lembre-se, só nós dois sabemos. Espero que fique de boca fechada a esse respeito como se se tratasse de uma informação secreta.

Depois dessa advertência, o sargento recuou para o lado, olhando carrancudo para Stefan, enquanto os guardas o revistavam.

Não encontraram armas, apenas os livros na mochila e alguns papéis nos bolsos de Stefan. Devolveram os papéis e empilharam os livros no meio da mesa longa. Stefan notou que nenhum deles percebeu que livros eram aqueles.

Com relutância, segurando a caneta e o bloco de notas, o sargento acompanhou os guardas para fora da sala, obedecendo às ordens do primeiro-ministro. Quando fecharam a porta, Churchill fez sinal para que Stefan sentasse na cadeira antes ocupada pelo sargento. Ficaram em silêncio por alguns momentos, observando-se mutuamente com interesse. Então o primeiro-ministro apontou para um bule que estava na bandeja sobre a mesa:

— Chá?

Vinte minutos mais tarde, depois de Stefan ter contado metade da versão abreviada da sua historia, o primeiro-ministro chamou o sargento que estava no corredor.

— Vamos ficar aqui por algum tempo, sargento. Tenho de adiar por mais uma hora a reunião do Ministério da Guerra. Por favor, in forme a todos... com minhas desculpas.

Vinte e cinco minutos depois disso, Stefan terminou.

O primeiro-ministro fez mais algumas perguntas — muito poucas, o que era para surpreender, mas relevantes e vitais. Finalmente disse com um suspiro:

— Acho que ainda é muito cedo para um charuto, mas vou fu mar um. O senhor me acompanha?

— Não, obrigado, senhor.

Enquanto preparava o charuto para fumar, Churchill disse:

— Além da sua entrada espetacular, que na verdade prova apenas a existência de um meio revolucionário de viagem, que pode ou não ser uma viagem no tempo, que provas tem para convencer um homem razoável de que os detalhes da sua história são verdadeiros9 Stefan estava preparado para o teste.

— Senhor, como estive no futuro e li trechos da sua história da guerra, sabia que estaria nesta sala a esta hora, neste dia. Além disso, sabia o que estaria fazendo uma hora antes da reunião do Ministério da Guerra.

Tirando uma baforada do charuto, o primeiro-ministro ergueu as sobrancelhas.

— O senhor ditava uma mensagem para o general Alexander na Itália, expressando sua preocupação com o curso da batalha de Monte Cassino, que está custando muitas vidas.

Churchill permaneceu inescrutável. Certamente ficou surpreso, mas não pretendia encorajar o homem com um movimento de cabeça, nem com um entrecerrar dos olhos.

Stefan não precisava de encorajamento porque sabia que estava certo.

— Da sua descrição da guerra, que vai escrever ainda, decorei o começo dessa mensagem para o general Alexander que o senhor não havia terminado quando eu cheguei: "Gostaria que me explicasse por que esta passagem pelo Monte Cassino etc, numa frente de combate de três ou cinco quilômetros, é o único lugar que insiste em atacar.”

O primeiro-ministro tirou outra baforada do charuto e observou Stefan intensamente. Estavam muito próximos um do outro, e ser objeto do atento escrutínio de Churchill era mais enervante do que Stefan esperava.

Finalmente o primeiro-ministro disse:

— E conseguiu essa informação de algo que vou escrever no futuro?

Stefan levantou da cadeira, apanhou os seis livros grossos que os guardas haviam retirado da sua mochila — novas edições em brochura da Houghton Mifflin Company, a 9,95 dólares cada — e os espalhou na mesa, na frente de Churchill.

— Esta, senhor, é a sua história da Segunda Guerra Mundial em seis volumes, um relato definitivo do conflito e aclamado como uma grande obra histórica e literária. — Ia acrescentar que aqueles livros eram em grande parte responsáveis pelo prêmio Nobel de Literatura, concedido a Churchill em 1953, mas resolveu não fazer essa revelação.

A vida seria menos interessante se roubada de surpresas grandes e agra dáveis.

O primeiro-ministro examinou as capas dos seis livros e permitiu-se um sorriso quando leu as três linhas tiradas de uma crítica publicada pelo Times Literary Supplement. Abriu um dos volumes e o folheou rapidamente, sem parar para ler.

— Não são falsificações bem-feitas — garantiu Stefan. — Se ler qualquer página ao acaso, reconhecerá seu estilo único e inconfundível. O senhor verá...

— Não preciso ler. Acredito em você, Stefan Krieger. — Empurrou os livros sobre a mesa e recostou na poltrona. — E acho que compreendo por que me procurou. Quer que eu organize um bombardeio aéreo de Berlim, tendo como alvo principal o distrito em que se encontra seu instituto.

— Sim, primeiro-ministro, é exatamente isso. Deve ser feito antes que os cientistas do instituto terminem o estudo do material nuclear que conseguiram no futuro, antes de resolverem introduzir essa informação em toda a comunidade científica da Alemanha... o que de verão fazer a qualquer momento. O senhor precisa agir antes que eles voltem do futuro com algo mais que inverta o curso da guerra. Eu darei ao senhor a localização exata do instituto. Os bombardeiros americanos e a RAF têm realizado ataques diurnos e noturnos a Berlim desde o começo deste ano, afinal...

— Tem havido muito barulho no parlamento a respeito do bombardeio de cidades, mesmo cidades inimigas — observou Churchill.

— Eu sei, mas não é como se Berlim não pudesse ser atacada. Por causa do alvo limitado, é claro, essa missão deverá ser realizada à luz do dia. Mas se atingirem aquele distrito, se pulverizarem aquele quarteirão...

— Vários outros, nos quatro lados, serão reduzidos a pó — disse o primeiro-ministro. — Não podemos bombardear com precisão suficiente para não atingir os prédios vizinhos.

— Sim, eu compreendo. Mas deve dar a ordem, senhor. Maiores números de explosivos devem ser lançados naquela área, dentro dos próximos dias, mais do que já foi lançado no teatro europeu durante toda esta guerra. Nada deve restar do instituto, a não ser pó.

O primeiro-ministro ficou em silêncio por alguns minutos, olhando para a fumaça tênue e azulada do charuto, pensando, e finalmente disse:

— Preciso consultar meus conselheiros, é claro, mas acredito que a preparação e realização desse bombardeio vai precisar de uns dois dias, a contar de hoje, no dia 22, talvez, mas pode ser no dia 23.

— Acho que é o bastante — disse Stefan com grande alívio. — Mas, não depois disso. Pelo amor de Deus, não depois disso.

18

Quando a mulher agachou ao lado do pára-lama dianteiro esquerdo do Buick e. examinou o deserto, ao norte de onde estava, Klietmann a observava de trás de um emaranhado de mesquite e amaranto. Ela não o viu. Quando Laura foi até o outro pára-lama dando as costas para ele, Klietmann ficou de pé imediatamente e correu agachado para outro abrigo, uma rocha amoldada pelo vento, mais estreita do que seu corpo.

O tenente amaldiçoou em silêncio os sapatos Bally que calçava, porque as solas eram muito escorregadias para aquele tipo de ação. Agora parecia idiota ter vindo para uma missão de assassinato vestido de jovem executivo — ou de ministros batistas. Pelo menos os Ray-Bans eram úteis. O sol cintilava em cada pedra e cada duna de areia; sem os óculos, não enxergaria o terreno à sua frente com tanta clareza e certamente já teria tropeçado ou caído mais de uma vez.

Abaixava-se para se proteger outra vez quando ouviu que a mulher atirava na outra direção. Aproveitando a distração, Klietmann continuou a avançar. Então ouviu gritos tão estridentes e ululantes que nem pareciam de um ser humano; era mais o grito de um animal selvagem ferido pelas garras de outra criatura, mas vivo ainda.

Abalado, abrigou-se numa longa e estreita bacia de rocha abaixo da linha de visão da mulher. Arrastou-se até o fim da vala e ficou ali parado, ofegante. Quando ergueu a cabeça, levando os olhos ao nível do solo, viu que estava a 15 metros ao norte da porta traseira do Buick. Se conseguisse se mover mais alguns metros a leste, ficaria atrás da mulher, na posição perfeita para eliminá-la.

Os gritos cessaram.

Imaginando que o outro homem ao sul ficaria parado por algum tempo, chocado com a morte do companheiro, Laura foi outra vez para o outro pára-lama dianteiro. Quando passou por Chris, disse:

— Dois minutos, meu bem. Dois minutos no máximo.

Agachada ao lado do pára-lama do carro, Laura examinou o flanco norte. O deserto parecia vazio. A brisa não soprava mais e nem os galhos secos de amaranto se moviam.

Se eram só três, sem dúvida não deixariam um homem sozinho no Toyota enquanto os outros dois tentavam cercá-la, na mesma direção. Se fossem só três, então os dois que estavam do lado sul teriam se separado, um deles seguindo direto para o norte. O que significava que devia haver quatro homens, talvez cinco, lá no xisto e na areia do deserto, a noroeste do Buick.

Mas, onde?

 

19

Quando Stefan agradeceu ao primeiro-ministro e levantou-se para partir, Churchill apontou para os livros na mesa e disse:

— Não quero que esqueça isso. Se os deixar aqui... que tentação de plagiar a mim mesmo!

— É uma característica do seu caráter — disse Stefan — não insistir para que eu os deixe justamente por isso.

— Bobagem — Churchill pôs o charuto no cinzeiro e levantou da cadeira. — Se eu ficasse com esses livros agora, já escritos, não me satisfaria em publicá-los como estão. Sem dúvida encontraria muita coisa para melhorar, e ia passar os anos de paz trabalhando neles ..

só para verificar, afinal, quando fossem publicados, que havia destruído os elementos que, no futuro, farão deles clássicos da história e da literatura.

Stefan deu uma risada.

— Falo sério — disse Churchill. — Você disse que minha história vai ser definitiva. Para mim isso basta. Vou escrever exatamente como estão, por assim dizer, sem arriscar uma revisão.

— Talvez seja mais prudente — concordou Stefan.

Enquanto Stefan guardava os seis volumes na mochila, Churchill ficou de pé, com as mãos nas costas, balançando de leve o corpo.

— Gostaria de perguntar tantas coisas sobre o futuro que estou ajudando a fazer. Coisas mais interessantes para mim do que saber que vou escrever livros de grande sucesso.

— Preciso ir, senhor, mas...

— Sim, sim, eu sei — disse o primeiro-ministro. — Não vou detê-lo. Mas diga-me ao menos uma coisa. A curiosidade está me matando.

Vejamos... bem, por exemplo, o que vai acontecer aos soviéticos de pois da guerra?

Stefan hesitou, fechou a mochila e disse:

— Primeiro-ministro, sinto dizer que os soviéticos se tornarão mais poderosos que os britânicos, só rivalizados pelos Estados Unidos.

Pela primeira vez Churchill pareceu surpreso.

— Aquele abominável sistema deles vai finalmente produzir uma grande economia e abundância?

— Não, não. O sistema vai produzir a ruína econômica... mas um tremendo poder militar. Os soviéticos vão militarizar toda sua sociedade e eliminar os dissidentes. Alguns dizem que seus campos de concentração equiparam-se aos do Reich.

A expressão do primeiro-ministro continuou inescrutável, mas não podia disfarçar a preocupação no olhar.

— Contudo, são nossos aliados agora.

— Sim, senhor. E sem eles talvez o Reich não fosse vencido.

— Oh, seria vencido — disse Churchill com confiança —, apenas ia demorar mais tempo — suspirou. — Dizem que a política cria estranhos companheiros de cama, mas as alianças necessárias durante a guerra fazem companheiros mais estranhos ainda.

Stefan estava pronto para partir. Trocaram um aperto de mãos.

— Seu instituto será reduzido a pó, lascas, ruínas e cinzas — disse o primeiro-ministro. — Tem minha palavra.

— É só o que preciso — respondeu Stefan.

Apertou três vezes o botão do cinto sob a camisa, ativando o elo com o portão.

Num instante Stefan estava no instituto, em Berlim. Saiu do grande barril e voltou ao painel de programação. Onze minutos haviam passado desde sua partida do subterrâneo à prova de bombas, em Londres.

Seu ombro doía ainda, mas não mais do que antes. Porém, a constância da dor aos poucos o enfraquecia, e Stefan descansou por alguns momentos numa cadeira do laboratório.

Então, seguindo outra vez os cálculos do IBM de 1989, programou o portão para sua próxima viagem. Dessa vez iria a cinco dias no futuro, chegando às 11 horas da noite, 21 de março, a outro abrigo antiaéreo subterrâneo — não em Londres, mas na sua cidade, Berlim.

Entrou no portão desarmado. Dessa vez não levava também os seis volumes de história de Churchill.

Quando cruzou o ponto de transporte dentro do portão, a sensação desagradável de sempre percorreu seu corpo, de fora para dentro, atravessando a carne, atingindo a medula dos ossos, voltando então da medula para a carne, da carne para a superfície da pele.

A sala subterrânea sem janelas na qual Stefan chegou era iluminada por uma única lâmpada num canto e, por um breve instante, pela luz emanada do seu corpo. Naquela luminosidade quase sinistra, Hi-tler apareceu claramente.

 

20

Um minuto.

Laura agachou ao lado de Chris protegidos pelo Buick. Sem mudar a posição, olhou primeiro para o sul, onde sabia que um dos homens estava escondido, depois para o norte, onde suspeitava que havia outros.

Uma calma sobrenatural pairava sobre o deserto. Sem vento, o dia não respirava, como um cadáver. O sol havia compartilhado tanto seu calor e sua luz com a planície árida que a terra parecia tão luminosa quanto o céu; nos distantes limites do mundo, o céu brilhante confundia-se com a terra iluminada quase anulando a linha do horizonte. Embora a temperatura não chegasse aos 30°, tudo — cada arbusto, rocha, mato raso e monte de areia — parecia soldado pelo calor ao objeto mais próximo.

Um minuto.

Um minuto, ou talvez menos, e Stefan voltaria de 1944 e os ajudaria, não apenas por ter uma Uzi, mas porque era seu guardião. Seu guardião. Laura conhecia sua origem agora e sabia que não era um ser sobrenatural, mas para ela era ainda uma figura maior do que a vida, capaz de fazer maravilhas.

Nenhum movimento ao sul.

Nenhum movimento ao norte.

— Eles estão vindo — disse Chris.

— Tudo vai dar certo, meu bem — disse Laura em voz baixa.

Mas seu coração estava disparado, cheio de medo e apertado com uma sensação de perda, como se soubesse que, em algum plano primitivo, seu filho — o único que jamais teria, o filho não estava destinado a viver — já estava morto, não tanto porque falhara com ele, mas porque o destino não podia ser vencido. Não. Não e não. Dessa vez não derrotaria o destino. Não desistiria do filho. Não o perderia como perdera tantas pessoas amadas em todos aqueles anos. Ele pertencia a cia. Não ao destino. Não pertencia a um padrão predeterminado. Só a cia. A ela.

— Tudo vai dar certo, meu bem.

Meio minuto agora.

De repente, Laura viu um movimento ao sul.

 

21

No escritório particular subterrâneo de Hitler, a energia deslocada da viagem no tempo emanou de Stefan, sibilando, dezenas de serpentes luminosas traçando caminhos sinuosos no chão e nas paredes de concreto, como na sala subterrânea de conferências em Londres. O fenômeno cintilante e barulhento não atraiu guardas de outras partes do abrigo antiaéreo, pois naquele momento Berlim estava sendo novamente bombardeada pelos aliados; o abrigo estremecia com o impacto das bombas, e mesmo àquela profundidade o estrondo do ataque abafou os sons da chegada de Stefan.

Hitler voltou-se na cadeira giratória e olhou para Stefan. Não demonstrou mais surpresa do que Churchill, porém, é claro, estava a par do trabalho do instituto e Churchill não, e compreendeu imediatamente como Stefan tinha se materializado no seu escritório particular. Além disso conhecia Stefan, filho de um leal seguidor e oficial da SS, que há muito tempo trabalhava para a causa.

Stefan não esperava ver surpresa no rosto de Hitler, e sim medo nos traços vulturinos. Afinal, se der Führer lera os relatórios da Gestapo sobre os últimos acontecimentos no instituto — o que era certo — sabia que Stefan era acusado da morte de Penlovski, Januskaya e Volkaw, seis dias atrás, em 15 de março, tendo depois fugido para o futuro. Provavelmente pensou que Stefan havia feito essa viagem ilicitamente há seis dias, um pouco antes de matar os cientistas, e que ia matá-lo também. Mas não parecia assustado. Controlou o medo. Continuou sentado, calmo, abriu uma gaveta da mesa e tirou uma Luger.

Quase simultaneamente com a última descarga de energia, Stefan estendeu o braço para a frente na saudação nazista e disse com todo o falso entusiasmo que conseguiu fingir: "Heil Hitler!" Para provar rapidamente que suas intenções não eram hostis, dobrou um joelho, como se estivesse na frente de um altar, e inclinou a cabeça, tornando-se assim um alvo fácil e indefeso.

— Mein Führer, estou aqui para limpar meu nome e avisá-lo da existência de traidores no instituto e no contingente da Gestapo responsável pela segurança.

O ditador não disse nada por um longo tempo.

As ondas de choque do bombardeio lá em cima atravessavam a terra, o aço de seis metros de espessura e as paredes de concreto, enchendo o abrigo com um som ameaçador, contínuo e abafado. Cada vez que uma bomba caía perto, os três quadros — retirados do Louvre depois da conquista da França — batiam contra a parede, e na mesa do Führer um pote de bronze cheio de lápis vibrava com um som cavernoso.

— Levante-se, Stefan — disse Hitler. — Sente aqui. — Indicou uma poltrona de couro, uma das cinco peças de mobiliário no escritó rio abafado e sem janelas. Pôs a Luger sobre a mesa, mas ao alcance da mão. — Não só por sua honra, mas pela honra do seu pai e da SS, espero que seja tão inocente quanto afirma.

Stefan falou com voz decidida porque sabia que Hitler admirava atitudes decididas. Mas também com fingida reverência, como se realmente acreditasse estar na presença do homem que era o verdadeiro espírito do povo alemão, passado, presente e futuro. Mais do que uma atitude decidida, Hitler apreciava a temerosa reverência de alguns dos seus subordinados. Era uma linha estreita para ser percorrida, mas aquele não era o primeiro encontro de Stefan com o homem; tinha certa prática em agradar o megalomaníaco, aquela víbora disfarçada em ser humano.

— Mein Führer, não matei Vladimir Penlovski, Januskaya e Volkaw. Foi Kokoschka. Ele era um traidor do Reich e eu o surpreendi na sala de documentos, no instituto, logo depois que matou Januskaya e Volkaw. Ele me feriu também. — Stefan levou a mão ao peito, perto do ombro esquerdo. — Posso mostrar o ferimento, se quiser.

Ferido, fugi dele para o laboratório principal. Eu estava atordoado, sem saber quantos estavam envolvidos na traição. Não sabia a quem recorrer, portanto só tinha um meio de salvação... fugi para o futuro, antes que Kokoschka pudesse me matar.

— O relatório do coronel Kokoschka conta uma história diferente. Diz que o feriu quando você fugia pelo portão, depois de ter assassinado Penlovski e os outros.

— Se isso fosse verdade, Mein Führer, eu teria voltado para limpar meu nome? Se eu fosse um traidor, acreditando mais no futuro do que no senhor, não teria ficado no futuro, onde estava a salvo, ao invés de voltar para cá?

— Mas, estaria mesmo a salvo no futuro, Stefan? — perguntou Hitler com um sorriso maldoso. — Fui informado de que duas equipes da Gestapo e mais tarde uma equipe da SS foram enviadas à sua procura no futuro.

Stefan sobressaltou-se à menção da equipe da SS, pois tinha certeza de que se tratava do grupo que tinha chegado a Palm Springs menos de uma hora antes da sua partida, o grupo que havia provocado o relâmpago no céu claro do deserto. Sua preocupação por Laura e Chris cresceu, porque seu respeito pela dedicação e capacidade assassina da SS era muito maior do que a que sentia pela Gestapo.

Compreendeu também que as equipes da Gestapo haviam sido derrotadas por uma mulher; o ditador pensava que fora Stefan, que na verdade estava em coma naquela ocasião. Tudo isso combinava com as mentiras que pretendia contar.

—Meu Führer, enfrentei aqueles homens em boa consciência por que sabia que eram traidores, sabia que queriam me matar evitando assim que eu pudesse alertar o senhor contra esse ninho de subversivos que trabalhava... e ainda trabalha... no instituto. Kokoschka desapa receu, certo? Bem como cinco homens do instituto. Não acreditavam no futuro do Reich, e temendo que fosse descoberto o papel que de sempenharam nos assassinatos do dia 15 de março, fugiram para o futuro, escondendo-se em outra era.

Stefan fez uma pausa para esperar o efeito das suas palavras.

As explosões lá em cima diminuíram e logo fez-se uma pausa no bombardeio. Hitler observou Stefan com atenção. Era um exame tão direto quanto o de Winston Churchill, mas não havia nele nada da avaliação honesta homem a homem que caracterizava a atitude do primeiro-ministro. Hitler observava Stefan com a perspectiva de um deus auto-divinizado olhando uma criatura criada por ele para detectar sinais de mutação perigosa. Um deus maligno que não amava suas criaturas, que amava apenas o fato da sua obediência.

Finalmente, der Führer disse:

— Se existem traidores no instituto, qual é o objetivo deles?

— Enganá-lo — disse Stefan. — Estão fornecendo falsas informações sobre o futuro para levá-lo a sérios erros militares. Disseram que no último ano e na metade da guerra, praticamente todas as suas decisões militares serão um fracasso, mas isso não é verdade. O futuro nos diz que perderá a guerra mas por uma pequena margem. Com poucas alterações na sua estratégia, o senhor pode vencer.

Hitler adotou uma expressão severa, com os olhos entrecerrados, não por duvidar de Stefan, mas porque de repente suspeitava de todos os homens do instituto, das suas afirmações de que todos os seus movimentos militares seriam malsucedidos. Stefan o encorajava a acreditar novamente na própria infalibilidade, e aquele louco estava ávido para confiar no próprio gênio.

— Com poucas e pequenas alterações nas minhas estratégias? — perguntou Hitler. — E quais são essas alterações?

Stefan descreveu rapidamente seis mudanças na estratégia militar afirmando que seriam de importância vital nas batalhas vindouras; na verdade, não fariam nenhuma diferença no resultado final, e as batalhas das quais falou não seriam as mais importantes do fim da guerra.

Mas der Führer queria acreditar que era quase um vencedor e não um perdedor certo, e agora aceitava como verdadeiras as afirmações de Stefan, pois sugeriam estratégias ousadas, pouco diferentes das que o ditador teria usado. Levantou da cadeira e começou a andar pela sala nervosamente.

— Desde os primeiros relatórios do instituto, percebi que havia alguma coisa errada no futuro que eles descreviam. Senti que não podia ter conduzido esta guerra com tanto brilhantismo no começo... e então, de repente ser derrotado por uma série de erros. Oh, sim, atravessamos um período de trevas agora, mas não vai durar. Quando os aliados efetuarem a tão esperada invasão da Europa, falharão; nós os expulsaremos de volta até o mar. — Falava quase num murmúrio, mas com o arrebatamento que usava nos seus discursos públicos. — Nesse ataque eles vão usar a maior parte das suas reservas; terão de recuar para uma frente mais extensa, e não poderão recuperar as forças para nova ofensiva, durante muitos meses. E então fortaleceremos nosso domínio na Europa, derrotaremos os bárbaros russos e estaremos mais fortes do que nunca! — Parou de andar, piscou os olhos como se voltasse de um transe auto-induzido e disse: — Sim, e quanto à invasão da Europa? O dia D, como me disseram que será chamado. Relatórios do instituto informam que os aliados vão desembarcar na Normandia. — Mentiras — disse Stefan.

Chegava agora ao ponto central, o principal motivo da sua viagem ao abrigo de Hitler naquela noite de março. Hitler fora informado pelo instituto que a invasão se daria nas praias da Normandia. No futuro que o destino reservara para ele, der Führer cometeria um erro de julgamento e ia se preparar para um desembarque em outro local, deixando a Normandia sem defesa adequada. Devia ser encorajado a levar adiante a estratégia que teria usado se o instituto não existisse. Precisava perder a guerra, como estava destinado, e a tarefa de Stefan consistia em anular a influência do instituto, garantindo o sucesso da invasão da Normandia.

22

Klietmann conseguiu avançar mais alguns metros para leste, passando o Buick, enganando a mulher. Deitado de bruços atrás de uma pequena elevação rochosa, esperava que Hubatsch se aproximasse mais dela, ao sul. Quando a mulher estivesse distraída com o movimento de Hubatsch, Klietmann sairia correndo do esconderijo, atirando com a Uzi. Podia fazê-la em pedaços antes que ela pudesse se voltar e ver o rosto do seu assassino.

Vamos, sargento, não se esconda aí como um judeu covarde, pensou Klietmann selvagemente. Mostre-se. Procure atrair a atenção dela.

Um momento depois Hubatsch apareceu e a mulher o viu. Enquanto Laura observava Hubatsch, Klietmann saltou de trás da rocha com veios de quartzo.

 

23

Inclinando-se para a frente na cadeira de couro do abrigo, Stefan disse:

— Mentiras, tudo mentira, meu Führer. A tentativa de convencê-lo de que a invasão será na Normandia faz parte do plano dos traidores do instituto. Querem obrigá-lo a cometer um erro vital que o senhor não está destinado a cometer. Querem que se concentre na Normandia quando a verdadeira invasão será em...

— Calais? — disse Hitler.

— Sim.

— Sempre pensei que seria perto de Calais, mais ao norte do que a Normandia. Eles cruzarão o canal no lugar mais estreito.

— Está certo, meu Führer — disse Stefan. — Os homens chegarão à Normandia no dia 7 de junho...

Na verdade, seria no dia 6, mas o tempo estaria tão desfavorável no dia 6, que o Alto Comando alemão não ia acreditar que os aliados tentassem um desembarque naquele mar encapelado.

— ... mas será uma força limitada, uma diversão, para atrair suas divisões de elite Panzer para a costa da Normandia enquanto a verda deira frente invasora desembarca em Calais.

Essa informação jogava com todos os preconceitos do ditador e com sua crença na própria infalibilidade. Voltou para a cadeira e bateu com o punho fechado na mesa.

— Isto sim parece realidade, Stefan. Mas... eu vi documentos, páginas de histórias da guerra trazidas do futuro...

— Falsificações — disse Stefan, contando com a paranóia de Hitler para tornar plausível sua mentira. — Não mostraram os verdadei ros documentos do futuro, mas falsificações.

Se tivessem sorte, Churchill ordenaria o bombardeio do instituto no dia seguinte, destruindo o portão, todos que podiam reconstruí-lo, e todo o material trazido do futuro. Então der Führer jamais teria oportunidade de conduzir uma investigação completa para verificar o que Stefan estava dizendo.

Hitler ficou em silêncio durante quase um minuto, olhando para a Luger sobre a mesa, pensando.

Lá em cima o bombardeio recomeçou com maior intensidade, sacudindo os quadros nas paredes e os lápis no pote de bronze.

Stefan esperou ansiosamente a confirmação de que o ditador acreditava nele.

— Como chegou aqui? — perguntou Hitler. — Como conseguiu asar o portão, agora? Quero dizer, tem estado tão bem guardado desde a deserção de Kokoschka e dos outros cinco.

Continuar: parte 4 de 4