O Guardião
— Nariz bonitinho? Meu Deus, garoto, você…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Sua maior preocupação era que a Gestapo os encontrasse antes disso e enviasse uma equipe de assalto a 1989 para eliminá-los. Era sua única preocupação, mas bastava.
Com extremo cuidado, esperando a todo momento o fulgor de relâmpagos e o ronco do trovão, fizeram uma pausa, no domingo, para fazer compras. Laura, ainda objeto da atenção da mídia, ficou no carro enquanto Chris e Stefan entraram no supermercado. Nenhum relâmpago rasgou o céu e voltaram para casa com a mala do carro cheia de compras.
Quando Laura começou a tirar as compras das sacolas, na cozinha, viu que um terço era de guloseimas: sorvete de três sabores, barras de chocolate, biscoitos, creme de amêndoas e tira-gostos; sacos tamanho família de flocos de todos os tipos; batatas fritas, rosquinhas, flocos de tortilla, pipoca com queijo, amendoim; quatro tipos de biscoitos doces; um bolo de chocolate, uma torta de cereja, uma caixa de rosquinhas etc.
Stefan estava ajudando a guardar as coisas e Laura disse:
— Você deve ser o homem mais guloso do mundo.
— Quer saber, esta é outra coisa que acho maravilhosa neste seu futuro — disse ele. — Imagine, não existe mais diferença nutricional entre um bolo de chocolate e um bife. Essas batatas fritas têm tantas vitaminas e minerais quanto uma salada verde. A gente pode comer só doces e continuar saudável como quem se alimenta com refeições balanceadas. Incrível! Como conseguiram isso?
Laura voltou-se a tempo de ver Chris esgueirando-se para fora da cozinha.
— Pare aí, seu grande embromador.
Fazendo cara de bonzinho, o garoto disse:
— Imagine só. O sr. Krieger tem cada idéia engraçada sobre nossa cultura!
— Eu sei onde ele arranjou esta idéia — disse Laura. — Que maldade a sua.
Chris suspirou e tentou falar com voz sombria:
— É. Mas eu pensei... se estamos sendo caçados por agentes da Gestapo, pelo menos podemos comer quantos biscoitos quisermos, por- que cada refeição pode ser a última. — Olhou para a mãe com o canto dos olhos para ver se ela estava aceitando aquele argumento de homem condenado.
O que o menino estava dizendo tinha parte de verdade, o bastante para explicar seu truque, mas não para desculpá-lo, e Laura não o puniu.
Naquela noite, depois do jantar, Laura trocou o curativo de Stefan. O impacto da bala havia deixado uma mancha roxa no peito, quase no centro, e outra menor em volta do orifício de saída. Os pontos e a parte interna do curativo estavam recobertos por um fluido já seco, saído da ferida. Depois de lavar os ferimentos, retirando o fluido seco sem tirar a casca, Laura apalpou levemente a carne em volta, provocando uma pequena exudação, mas sem sinal de infecção. Podia haver um abcesso interno, mas não era provável, porque não tinha febre.
— Continue com a penicilina — disse ela — e vai ficar bom. O dr. Brenkshaw fez um bom trabalho.
Enquanto Laura e Stefan passavam horas trabalhando no computador, na segunda e na terça-feira, Chris assistia televisão, procurava nas estantes alguma coisa para ler, olhava uma coleção encadernada de antigos desenhos de Barbarella...
— Mamãe, o que quer dizer orgasmo?
— O que você está lendo? Dê-me isso.
... e de um modo geral se distraía sem incomodar ninguém. Uma vez ou outra ia até a saleta onde estavam trabalhando e ficava observando durante um ou dois minutos. Depois de uma dezena dessas visitas, ele disse:
— Em De volta ao futuro, eles tinham aquele carro para viajar no tempo, e apertavam alguns botões no painel e partiam, pop!, as sim. Por que na vida real nada é tão fácil quanto nos filmes?
Na terçar feira, 19 de janeiro, procuraram não se mostrar enquanto o jardineiro cuidava das plantas. Era a primeira pessoa que viam em quatro dias; nenhum vendedor tinha batido na porta, nem mesmo testemunhas de Jeová procurando vender a revista Watchtower.
— Estamos seguros aqui — disse Stefan. — Obviamente nossa presença na casa não é do conhecimento público. Do contrário a Ges tapo já teria nos visitado.
Mesmo assim, Laura mantinha o sistema de alarme ligado quase durante 24 horas por dia. E à noite ela sonhava que o destino refazia o padrão, Chris deixando de existir, ela acordando numa cadeira de rodas.
9
Devianj chegar às oito horas com tempo suficiente para estar no local em que a primeira equipe havia localizado a mulher e o garoto, mas não Krieger. Porém quando o tenente Klietmann piscou os olhos a 45 anos da sua era, percebeu imediatamente que estavam com umas duas horas de atraso. O sol estava muito alto. A temperatura era de mais ou menos 23°C, quente demais para oito horas de uma manhã de inverno no deserto.
Como uma rachadura branca na abóbada azul brilhante, o relâmpago fulgurou. Outros o seguiram, as fagulhas saltando como que provocadas pelas patas de um touro celeste solto numa loja de louças.
Quando o ronco do trovão diminuiu, Klietmann voltou-se para ver se von Manstein, Hubatsch e Bracher tinham chegado bem. Estavam com ele, segurando as pastas, e os óculos escuros nos bolsos superiores dos ternos caros.
O problema era que a uns dez metros do tenente e dos seus auxi-liares, duas mulheres idosas, de cabelos brancos, com calças e blusas de cor pastel estavam paradas ao lado de um carro perto da porta dos fundos de uma igreja, olhando atônitas para Klietmann e sua equipe. Elas seguravam o que pareciam ser caçarolas.
Klietmann olhou em volta e viu que estavam no estacionamento da igreja. Além do carro das mulheres havia mais dois, estacionados, e mais ninguém à vista. O estacionamento era cercado por um muro, de modo que, para sair, teriam de passar pelas mulheres e pelo lado da igreja.
Concluindo que uma atitude ousada era a melhor política, Klietmann caminhou diretamente para as mulheres, como se não houvesse nada de anormal no fato de quatro homens aparecerem do ar. Os outros o seguiram. Mesmerizadas, as mulheres ficaram olhando para eles.
— Bom dia, senhoras. — Como Krieger, Klietmann tinha apren dido a pronúncia americana na esperança de servir como espião, mas não perdera seu sotaque completamente. Embora seu relógio estivesse ajustado no tempo local, sabia que não podia mais confiar nele, por tanto disse:
— Podiam ter a bondade de me dizer as horas?
As duas olharam para ele.
—As horas? — repetiu o tenente.
A mulher de amarelo girou o pulso sem largar a caçarola, olhou para o relógio e disse:
— Ah, são dez e quarenta.
Estavam com um atraso de duas horas e quarenta minutos. Não podiam perder tempo alugando um carro, especialmente quando ali estava um à sua disposição com chaves e tudo. Klietmann estava disposto a matar as duas mulheres para conseguir o carro. Não podia deixar os corpos no estacionamento; o alarme seria dado quando fossem encontrados e logo depois a polícia estaria atrás do carro — uma complicação desagradável. Teria de enfiar os corpos na mala e levá-los com eles.
A mulher de azul disse:
— Por que vocês vieram para nós? Vocês são anjos?
Klietmann imaginou se ela estaria caduca. Anjos com ternos de executivos? Então compreendeu que tinham aparecido miraculosamente perto da igreja, portanto era lógico que uma pessoa religiosa os tomasse por anjos, apesar das roupas. Talvez não precisasse perder tempo matando-as. Ele disse:
— Sim, senhora, somos anjos, e Deus precisa do seu carro.
A mulher de amarelo perguntou:
— Este meu Toyota?
— Sim, senhora. — A porta no lado da direção estava aberta e Klietmann pôs sua pasta sobre o banco. — Estamos numa missão urgente para Deus, as senhoras nos viram sair dos portões aperolados do céu, bem na frente dos seus olhos, e precisamos de transporte.
Von Manstein e Bracher já estavam no outro lado do Toyota. Abriram as portas e entraram. A mulher de azul disse:
— Shirley, você foi escolhida para ceder seu carro.
— Deus o devolverá — disse Klietmann —, quando nosso trabalho estiver terminado. — Lembrando os racionamentos de gasolina da sua era castigada pela guerra e sem saber se não acontecia o mesmo em 1989, ele acrescentou: — É claro que, não importa quanta gasolina tenha no tanque agora, o carro será devolvido com o tanque cheio.
Aquele negócio de multiplicação de pães e peixes.
— Mas aí dentro tem a salada de batata para o lanche da igreja — disse a mulher de amarelo.
Felix Hubatsch abriu a porta esquerda traseira do carro e encontrou a salada de batatas. Tirou o prato do carro e o deixou no chão perto da mulher.
Klietmann entrou, fechou a porta, ouviu que Hubatsch fechava 261
a sua, encontrou as chaves na ignição, ligou o motor e saiu do estacionamento da igreja. Quando olhou pelo retrovisor, as duas mulheres continuavam lá paradas, segurando suas caçarolas.
10
A cada dia que passava aperfeiçoavam os cálculos e Stefan exercitava o braço e'o ombro tanto quanto era possível, evitando que ficassem rígidos, procurando manter o tono dos músculos. Na tarde de sábado, 21 de janeiro, quase completando uma semana de estada em Palm Springs, terminaram os cálculos e chegaram ao tempo exato e às coordenadas precisas de tempo e espaço necessárias para as viagens que teria de fazer quando voltasse a 1944.
— Agora, só preciso de mais alguns dias para ficar completamente bom — disse ele, levantando-se da cadeira na frente do computador e girando o braço esquerdo no ar.
— Foi ferido há 11 dias — disse Laura. — Ainda sente dor?
— Um pouco. Uma dor mais profunda, mais aguda. E não o tempo todo. Mas a força ainda não voltou. Acho melhor esperar mais al guns dias. Se estiver melhor na próxima quarta-feira, 25, volto ao instituto. Antes disso, se puder, mas certamente não depois da próxima quarta-feira.
Naquela noite Laura acordou de um pesadelo no qual estava outra vez presa à cadeira de rodas e o destino, sob a forma de um homem sem rosto com um manto negro, ocupava-se em apagar Chris da realidade, como se o menino fosse um desenho a lápis num vidro de janela. Estava molhada de suor, e por alguns minutos ficou sentada na cama, o ouvido atento aos ruídos da casa, mas ouvindo apenas a respiração regular e suave do filho ao seu lado.
Mais tarde, sem poder dormir, começou a pensar em Stefan Krieger. Era um homem interessante, extremamente controlado e às vezes difícil de compreender.
Desde quarta-feira da semana anterior, quando ele explicou que havia se tornado seu guardião por ter se apaixonado por ela e desejado melhorar sua vida, Stefan não havia falado de amor. Não havia repetido o que sentia por ela, não a havia sujeitado a olhares interessados, não havia representado o papel de um homem apaixonado. Depois da explicação, estava dando a ela tempo para pensar nele e conhecê-lo antes de resolver alguma coisa. Laura tinha a impressão de que ele esperaria anos, se necessário, e sem se queixar. Stefan tinha a paciência criada pela extrema adversidade, uma coisa que Laura compreendia.
Era um homem quieto e pensativo a maior parte do tempo, ocasionalmente melancólico, um resultado talvez dos horrores que tinha visto na sua Alemanha do passado. Aquela tristeza profunda podia ter origem nas coisas que ele havia feito e das quais se arrependia agora, coisas que ele jamais poderia reparar. Afinal, tinha dito que havia um lugar reservado para ele no inferno. Não revelou nada mais do seu passado além do que havia contado para Laura e Chris no motel, mais de dez dias atrás. Entretanto, Laura tinha a impressão de que ele estava disposto a contar todos os detalhes, os que o desacreditavam, bem como os que o exaltavam; não esconderia nada dela; apenas esperava que ela resolvesse o que pensava a seu respeito e se queria saber mais.
Apesar daquela tristeza, profunda e escura como sangue, Stefan tinha senso de humor. Era bom para Chris e sabia fazer o garoto rir, o que para Laura era um ponto a seu favor. O sorriso dele era caloroso e bom.
Laura ainda não o amava, e talvez nunca viesse a amá-lo. Perguntava a si mesma como podia estar tão certa. Depois de pensar durante umas duas horas, ali no quarto, no escuro, começou a suspeitar que não podia amar Stefan porque ele não era Danny. Seu Danny era um homem diferente de todos os outros e com ele ela conhecera o amor tão perfeito quanto era possível neste mundo. Agora, procurando ganhar sua afeição, Stefan Krieger estaria sempre lutando contra um fantasma.
Laura reconhecia a morbidez da situação, e compreendia tristemente a solidão a que essa atitude a condenava. No íntimo queria ser amada e amar, mas no seu relacionamento com Stefan via apenas a paixão dele não correspondida, sua própria esperança não realizada.
Ao seu lado, Chris resmungou dormindo, depois suspirou.
Eu te amo, meu bem, pensou Laura. Eu te amo demais.
O filho, o único que teria, era o centro da sua existência agora e no futuro, sua razão para continuar a viver. Se acontecesse alguma coisa com Chris, Laura sabia que nunca mais encontraria alívio no humor negro da vida; este mundo onde tragédia e comédia andavam de mãos dadas se transformaria, para ela, exclusivamente num lugar de tragédia, negro e triste demais para ser suportado.
11
A três quarteirões da igreja, Erich Klietmann parou o Toyota branco numa rua transversal de Palm Canyon Drive, no distrito comercial de Palm Springs. Dezenas de pessoas passeavam nas calçadas, olhando as vitrines. Algumas mulheres jovens usavam shortse blusas curtas sem mangas, que Klietmann achou escandalosos e constrangedores, mostrando os corpos naturalmente, com um desembaraço desconhecido no seu tempo. Sob o governo de aço do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores do Führer, aquele comportamento desavergonhado não seria permitido. O triunfo de Hitler teria como resultado um mundo diferente, onde a moralidade seria estritamente observada, onde aquelas mulheres de pernas e braços nus, sem sutiã, só se exporiam com risco de prisão e reeducação, onde criaturas decadentes não seriam toleradas. Olhando as nádegas das mulheres contraindo-se e relaxando sob os shorts justos, os seios ondulando sob a fazenda fina das camisetas, o que mais perturbava Klietmann era o desejo desesperado que sentia de dormir com todas elas, mesmo que fossem representantes dos genes impuros da humanidade que Hitler abominava.
Ao lado de Klietmann, o cabo Rudy von Manstein examinava o mapa de Palm Springs fornecido pela equipe de buscas que havia localizado a mulher e o garoto. Ele disse:
— Onde atacamos?
Klietmann tirou de um bolso interno do paletó o papel dobrado que havia recebido do dr. Juttner. Abriu-o e leu em voz alta:
— Na estrada 111, aproximadamente a nove quilômetros dos limites da cidade de Palm Springs, a mulher será detida por um policial da Polícia Rodoviária da Califórnia às 1 lh 20min da manhã de quarta- feira, 25 de janeiro. Ela estará dirigindo um Buick Riviera negro. O garoto estará com ela e será mantido sob custódia. Aparentemente Krie ger estará lá, mas não temos certeza; tudo indica que ele vai fugir da polícia, mas não sabemos como.
Von Manstein já havia traçado no mapa o caminho que os levaria a Palm Springs e à rodovia 111.
— Temos 31 minutos — disse Klietmann, olhando para o relógio no painel do carro.
— Vai ser fácil — disse von Manstein. — Quinze minutos no máximo.
— Se chegarmos cedo — observou Klietmann — podemos matar Krieger antes que consiga fugir da polícia rodoviária. De qualquer mo do, precisamos estar lá antes que a mulher e o garoto sejam levados sob custódia porque será muito mais difícil alcançá-los se estiverem na cadeia. — Virou para trás e olhou para Bracher e Hubatsch. — Compreendido?
Ambos fizeram um sinal afirmativo com a cabeça, e então o sargento Hubatsch bateu com a mão no bolso superior do seu paletó e disse:
— Senhor, e os óculos escuros?
— O que tem os óculos? — perguntou Klietmann impaciente.
— Devemos usar agora? Será que isso ajudará a nos misturarmos com os cidadãos locais? Estive estudando o povo nas ruas e embora vários usem óculos escuros, muitos não usam.
Klietmann olhou para os pedestres, tentando não se distrair com as mulheres pouco vestidas e viu que Hubatsch estava certo. Mais ainda, notou que nenhum dos homens na rua estava vestido com o power look preferido pelos jovens executivos. Talvez todos os jovens executivos estivessem nos seus escritórios àquela hora. Fosse qual fosse a ra-zão para a inexistência de ternos escuros e sapatos pretos Bally, Klietmann sentia-se deslocado, mesmo dentro do carro. Como muitos pedestres estavam usando óculos escuros, achou que se usasse também teria alguma coisa em comum com eles.
Quando o tenente pôs seu Ray-Ban von Manstein, Bracher e Hubatsch fizeram o mesmo.
— Muito bem, vamos — disse Klietmann.
Mas antes que pudesse soltar o freio de mão e engatar a marcha, alguém bateu na janela do carro ao seu lado. Era um policial de Palm Springs.
12
Laura sentia que, de um modo ou de outro, aquela dura prova estava chegando ao fim. Destruiriam o instituto ou morreriam tentando, e ela estava quase achando que o fim do medo era desejável, não importava como fosse conseguido.
Em 25 de janeiro, na manhã de quarta-feira, Stefan sentia ainda dor muscular no ombro, mas não era insuportável. A mão e o braço estavam perfeitos, o que significava que a bala não havia atingido nenhum nervo. Devido aos exercícios diários, recuperara mais da metade da força no braço e no ombro, o bastante para ter certeza de que seria capaz de realizar seu plano. Mas Laura percebeu que Stefan temia a viagem que estava para fazer.
Stefan pôs na cintura o cinto de Kokoschka que Laura tirara do cofre no dia em que ele foi ferido. O medo dele era evidente, mas assim que pôs o cinto, a ansiedade cedeu lugar a uma determinação férrea.
Na cozinha, às dez horas, os três tomaram duas cápsulas do antídoto contra o gás Vexxon. Engoliram com copos de suco de laranja.
As três Uzi, um dos revólveres .38 e o Colt Commander Mark IV equipado com silenciador, além de uma pequena mochila de náilon cheia de livros foram colocados no carro.
Os dois cilindros pressurizados de Vexxon estavam ainda na mala do Buick. Depois de ler as instruções nos folhetos que acompanhavam os cilindros, Stefan resolveu que só ia precisar de um para seu trabalho. Vexxon era um gás fabricado especialmente para o uso em ambientes fechados — para matar inimigos nos quartéis, abrigos e subterrâneos — mais do que para soldados no campo de batalha. Ao ar livre, o gás é rapidamente dispersado — e desintegra-se depressa à luz do sol — não chegando a ser eficaz a duzentos metros do ponto de lançamento. Entretanto, completamente aberto, um único cilindro pode contaminar uma estrutura de 4.600m2 em poucos minutos, o que era o bastante para seu objetivo.
Às 10h 35min entraram no carro e saíram da casa de Gaines, seguindo para 0 deserto pela rodovia 111, ao norte de Palm Springs. Laura verificou o cinto de segurança de Chris e o garoto disse:
— Está vendo? Se você tivesse um carro-máquina do tempo, iríamos confortavelmente até 1944.
Alguns dias antes tinham ido à noite até o deserto para procurar um ponto de onde Stefan pudesse partir para 1944. Precisavam saber a localização geográfica com antecedência a fim de fazer os cálculos que possibilitariam sua volta depois de terminar o trabalho planejado.
Stefan pretendia abrir a válvula do cilindro de Vexxon antes de apertar o botão do cinto, assim o gás estaria se dispersando quando passasse pelo portão, entrando no instituto, matando todos que estivessem no laboratório na extremidade de 1944 da Estrada do Relâmpago. Desse modo, dispersaria um pouco do gás no ponto de partida também, e parecia mais prudente fazer isso num lugar isolado. A rua na frente da casa de Gaines ficava a menos de duzentos metros, dentro do raio de alcance do Vexxon e eles não queriam matar pessoas inocentes.
Além disso, embora o gás conservasse seu poder letal de quarenta a sessenta minutos, Laura temia que o resíduo desativado, não letal, pudesse ter efeitos tóxicos não conhecidos, a longo prazo. Não pretendia deixar nenhum resto da substância na casa de Thelma e Jason.
O dia estava claro, azul e sereno.
Depois de alguns quarteirões, quando desciam pela estrada ladeada de imensas tamareiras, Laura teve a impressão de ver um clarão estranho no pedaço de céu captado pelo retrovisor. Como seria um relâmpago num céu azul, brilhante e sem nuvens? Não tão dramático quanto num dia nublado e tempestuoso, pois estaria competindo com a luz do sol. Seria exatamente como aquilo que ela acabava de ver — uma pulsação estranha e breve de luz.
Laura apertou o freio, mas estavam no fim da descida e não via mais o céu pelo retrovisor, somente a colina atrás deles. Pensou ter ouvido o rugir do trovão também, distante, mas não tinha certeza, por causa do zumbido do ar-condicionado do Buick. Parou no acostamento, e procurou controlar os botões de ventilação.
— O que aconteceu? — perguntou Chris quando Laura saiu do carro. Stefan saiu também.
—Laura?
Laura olhava para o pedaço de céu que podia ver do fundo do vale, a mão em pala sobre os olhos.
— Você ouviu, Stefan?
No dia quente e seco do deserto, um ribombar distante morria no ar.
— Pode ser um jato — ele disse.
— Não. A última vez que eu pensei ser um jato, eram eles.
O céu pulsou outra vez, a última. Laura não viu o relâmpago, não o raio em ziguezague cortando o céu, mas só o reflexo na atmosfera, uma fraca onda de luz acendendo-se na abóbada azul.
— Eles estão aqui — ela disse.
— Tem razão — observou Stefan.
— Em alguma parte do nosso caminho na estrada 111, alguém vai nos deter, talvez um guarda rodoviário, ou talvez um acidente, alguma coisa que será registrada legalmente, e então eles aparecerão. Stefan, precisamos voltar para casa.
— Não adianta — disse ele.
Chris saiu do carro:
— Ele tem razão, mamãe. Não importa agora. Aqueles viajantes do tempo estão aqui porque já espiaram no futuro e sabem onde nos encontrar talvez daqui a uma hora, talvez daqui a dez minutos. Tanto faz voltarmos para casa ou continuarmos viagem; eles já nos viram cm algum lugar... talvez até mesmo na casa. Por mais que a gente mude de planos, nossos caminhos vão se cruzar.
Destino.
— Merda! — disse Laura, dando um pontapé no carro, que não serviu sequer para sentir-se melhor. — Detesto isto. Como podemos esperar vencer esses malditos viajantes do tempo? É o mesmo que jogar vinte-e-um com Deus.
Os relâmpagos cessaram.
— Pensando bem — disse Laura —, a vida toda é um jogo de vinte-e-um onde Deus dá as cartas, certo? Portanto, isto não é o pior do que todo o resto. Entre no carro, Chris. Vamos em frente.
Atravessando a área oeste da cidade de veraneio, Laura estava com os nervos tensos como um arame de garrote, atenta para qualquer problema, mas sabia que ia acontecer quando menos esperava.
Sem incidentes, chegaram à extremidade norte de Palm Canyon Drive e entraram na rodovia 111. Tinham pela frente vinte quilômetros de deserto antes do cruzamento com a Interestadual 10.
13
Esperando poder evitar a catástrofe, o tenente Klietmann abaixou o vidro do carro e sorriu para o policial de Palm Springs que se inclinava para ver seu rosto.
— Qual é o problema, patrulheiro?
— Não viu a faixa vermelha quando estacionou aqui?
— Faixa vermelha? — disse Klietmann sorrindo, imaginando que diabo era aquilo.
— Ora, senhor — disse o policial com voz estranhamente zombeteira —, não vai dizer que não viu a faixa vermelha?
— Sim, senhor, é claro que vi.
— É isso aí, sabia que não ia mentir — disse o policial, como se conhecesse Klietmann e confiasse na sua reputação de sinceridade, o que deixou o tenente confuso. — Então, se viu a faixa vermelha, senhor, por que parou aqui?
— Ah, compreendo — disse Klietmann —, só se pode parar onde o meio-fio não é pintado de vermelho. Certo, é claro.
O policial olhou intrigado para o tenente. Depois para Manstein, no banco da frente, para Bracher e Hubatsch no banco de trás, sorriu e cumprimentou com um movimento de cabeça.
Klietmann não precisava olhar para seus homens para saber que estavam nervosos. O ar dentro do carro estava pesado de tensão.
O policial olhou outra vez para Klietmann, sorriu um tanto hesitante e disse:
— Será que estou certo... vocês são quatro pregadores?
— Pregadores? — repetiu Klietmann, sem entender a pergunta.
— Eu tenho uma mente muito dedutiva — disse o policial, ainda sorrindo. — Não sou Sherlock Holmes. Mas os adesivos no seu carro dizem 'Eu amo Jesus' e 'Cristo Ressuscitou'. E como está havendo uma convenção batista na cidade, e vocês estão com ternos escuros...
Por isso tinha certeza de que Klietmann não mentiria. Pensava que eram batistas.
— Isso mesmo — disse Klietmann imediatamente. —- Estamos com a convenção batista. Desculpe o estacionamento ilegal. Não temos faixas vermelhas na nossa cidade. Agora, se...
— De onde vocês vêm? — perguntou o policial, apenas procurando ser amistoso.
Klietmann sabia muito sobre os Estados Unidos, mas não o suficiente para esse tipo de conversa. Acreditava que os batistas fossem do sul do país; não sabia se havia batistas no norte, leste ou oeste, portanto disse o nome de uma cidade do sul.
— Sou da Geórgia — disse ele, antes de perceber como a afirmação parecia absurda com seu sotaque alemão carregado.
O sorriso do policial ficou mais hesitante ainda. Olhando para von Manstein, perguntou:
— E o senhor, de onde é?
Seguindo a idéia do tenente, mas falando com sotaque mais carregado, ele disse:
— Geórgia.
No banco traseiro, antes que o policial perguntasse, Hubatsch e Bracher disseram: "Geórgia, somos da Geórgia", como se estivessem pronunciando uma palavra mágica para enfeitiçar o patrulheiro.
O sorriso do policial desapareceu por completo. Com o cenho franzido, disse para Klietmann:
— Senhor, quer descer do carro por um momento?
— Certamente — disse Klietmann, notando, quando abriu a por ta, que o policial recuou alguns passos e levou a mão à arma que tinha na cintura. — Mas estamos atrasados para uma prece pública...
No banco de trás, Hubatsch abriu sua pasta e tirou a Uzi com a rapidez de um guarda pessoal do presidente. Não abriu a janela, mas encostou o cano da arma no vidro e atirou no policial, antes que ele pudesse sacar seu revólver. O vidro estourou. Atingido por umas vinte balas, quase à queima-roupa, o policial foi atirado para trás, no meio da rua. Freios rangeram quando um carro parou para não passar sobre o guarda, e do outro lado da rua vitrines se partiram quando as balas atingiram uma loja de roupas masculinas.
Com a frieza e a rapidez de ação que fazia Klietmann orgulhar-se de pertencer à Schutzstaffel, Martin Bracher saiu do Toyota e despejou um extenso arco de balas para criar o caos e facilitar sua fuga. Vitrines implodiam nas butiques da rua, não apenas na rua transversal onde estavam, mas até o cruzamento no lado leste de Palm Canyon Drive. Os pedestres gritavam, atiravam-se no chão, abrigavam-se nos portais. Klietmann viu carros que passavam em Palm Canyon atingidos por balas e alguns motoristas talvez feridos, talvez em pânico, saíam em ziguezague, de uma pista para a outra; um Mercedes bege abalroou de lado um caminhão e um carro esporte vermelho subiu na calçada, raspou o tronco de uma palmeira e entrou numa loja de presentes.
Klietmann entrou no carro e soltou o freio de mão. Ouviu Bracher e Hubatsch entrando atrás, engrenou a marcha e saiu com o Toyota para Palm Canyon, sempre à esquerda, seguindo para o norte. Logo descobriu que estava na contramão. Praguejando, desviava desesperadamente dos carros que vinham na sua direção. O Toyota sacudia e estremecia com suas molas cansadas e o porta-luvas se abriu, esparramando tudo que continha no colo de von Manstein. Klietmann entrou à direita no primeiro cruzamento. Logo adiante avançou um sinal vermelho, quase atropelando os pedestres na faixa e entrou à esquerda em outra avenida na pista que ia para o norte.
— Temos só 21 minutos — disse von Manstein, apontando para o relógio do painel.
— Para onde vou agora? — disse Klietmann. — Estou perdido.
— Não, não está — respondeu von Manstein, tirando o conteudo do porta-luvas: lenços de papel, chaves soltas, um par de luvas bran cas, pacotinhos individuais de catchup e mostarda, vários documentos de cima do mapa que estava no seu colo. — Não está perdido. Esta rua vai dar em Palm Canyon onde ela tem duas mãos. De lá vamos em linha reta até a rodovia 111.
14
Aproximadamente dez quilômetros ao norte de Palm Springs, onde a terra árida parecia deserta, Laura passou para o acostamento. Percorreu algumas centenas de metros em marcha lenta até chegar ao ponto em que o lado da estrada descia até quase o nível do deserto, permitindo que levasse o carro para a planície. A não ser por alguns tufos de capim e alguns arbustos de mesquite ressequidos, a única vegetação era mato raso e seco — uma parte com algum verde e as raízes presas ao solo, outra parte, arrancada e rolando com o deslocamento de ar provocado pelo carro.
O solo duro tinha uma base de xisto sobre a qual a areia alca-lina espiralava em alguns lugares. Como fizera na noite em que haviam encontrado o lugar, Laura procurou ficar longe da areia, parando onde havia apenas o xisto rosa-acinzentado, a trezentos metros da estrada, fora do alcance do Vexxon usado ao ar livre, ao lado de um regato seco com seis metros de largura e nove de profundidade, um canal natural de drenagem formado por breves enchentes na curta estação chuvosa do deserto; antes disso, à noite, cautelosamente, guiando-se só pelos faróis do carro, só por sorte não tinham caído na enorme vala.
Embora os relâmpagos não fossem seguidos pelo aparecimento de homens armados, sentiam a necessidade de urgência; Laura, Chris e Stefan moviam-se como se ouvissem um relógio marcando o tempo de uma explosão iminente. Enquanto Laura retirava um dos cilindros de Vexxon da mala do carro, Stefan passou os braços pelas correias da mochila de náilon verde cheia de livros, afivelando-a bem. Chris levou uma das Uzi até uns seis metros do carro colocando-a no centro de um círculo de xisto descoberto onde não crescia nem mato, a área determinada para a partida de Stefan de 1989. Laura juntou-se ao filho e Stefan os acompanhou, segurando o Colt Commander com silencia-dor na mão direita.
Ao norte de Palm Springs, na rodovia 111, Klietmann estava exigindo máximo do Toyota, o que não era muito. O carro tinha rodado setenta quilômetros marcados no odômetro e sem dúvida a sua dona nun-ca andava a mais de oitenta, por isso não respondia ao comando de Klietmann. Quando tentou passar dos noventa quilômetros, o Toyota começou a vibrar e tossir, obrigando-o a ir mais devagar.
Mesmo assim, a três quilômetros ao norte dos limites da cidade de Palm Springs, ficaram atrás de uma radiopatrulha da Polícia Rodoviá-ria da Califórnia e Klietmann achou que devia ser o policial que ia en-contrar e prender Laura Shane e seu filho. A radiopatrulha ia a menos de 85 quilômetros, numa zona onde a velocidade máxima era de 85.
— Mate o policial — disse Klietmann para o cabo Martin Bracher que estava sentado do lado direito do carro.
Klietmann olhou pelo retrovisor e não viu nenhum carro atrás deles; havia movimento na pista em sentido contrário. Passou para a esquerda e preparou-se para ultrapassar a radiopatrulha a noventa quilômetros.
Bracher, no banco direito traseiro, abaixou o vidro. O outro, do lado esquerdo, já estava aberto desde que Hubatsch matara o guarda em Palm Springs, e o vento vindo de trás agitava o mapa que estava ainda no colo de Manstein.
O policial da Polícia Rodoviária da Califórnia olhou para o lado surpreso, pois poucos motoristas se atreviam a ultrapassar o carro da polícia que estava a um ou dois quilômetros abaixo do limite permitido. Quando Klietmann pôs o Toyota a mais de noventa, o carro estremeceu e tossiu, acelerando sob protesto. O policial notou o excesso de velocidade e deu um toque rápido da sirene, aparentemente ind-cando que Klietmann devia diminuir a marcha e parar no acostamento.
Porém, o tenente fez o Toyota acelerar acima de cem quilômetros, e o carro parecia a ponto de se partir, mas o bastante para passar um pouco à frente do atônito policial, colocando a janela de Bracher na linha da janela da frente da radiopatrulha. O cabo abriu fogo com sua Uzi.
As janelas da radiopatrulha estouraram, e o policial morreu instantaneamente. Tinha de estar morto, pois o ataque fora inesperado e várias balas o atingiram na cabeça e na parte superior do corpo. A radiopatrulha virou na direção do Toyota, pegando-o de raspão, antes que Klietmann tivesse tempo de evitar, e depois virou para o acostamento.
Klietmann freou, ficando atrás da radiopatrulha descontrolada.
A estrada de quatro pistas ficava a uns três metros acima da planície deserta e a radiopatrulha desceu a rampa sem proteção. Ficou no ar por alguns segundos, depois caiu com tamanha violência que os pneus estouraram com o impacto. Duas portas se abriram, uma delas a do motorista.
Klietmann passou para a pista da direita lentamente e von Manstein disse:
— Eu estou vendo o homem lá embaixo, deitado sobre a direção.
Ele não é mais problema para nós.
Os motoristas que vinham na outra pista viram o vôo espetacular da radiopatrulha. Pararam no acostamento. Pelo retrovisor Klietmann viu as pessoas saindo dos carros parados, bons samaritanos atravessando a rodovia para socorrer o policial. Se alguém sabia o motivo do acidente, resolveu não perseguir Klietmann. O que era bastante prudente.
Klietmann acelerou novamente, olhou para o odômetro e disse:
— A cinco quilômetros daqui, aquele policial ia prender a mulher e o garoto. Portanto, vamos procurar um Buick preto. Cinco qui lômetros.
De pé ao sol brilhante do deserto, no pedaço de xisto nu, ao lado do Buick, Laura observava Stefan passar a correia a tiracolo da Uzi pelo ombro. A arma ficou solta, não interferindo com a mochila cheia de livros.
— Agora estou pensando se preciso levar a arma — disse Stefan.
— Se o gás funcionar como espero, provavelmente não vou precisar nem do revólver, muito menos da metralhadora.
— Leve assim mesmo — disse Laura sombria.
Stefan fez um gesto de assentimento.
— Tem razão. Nunca se sabe.
— É pena que não tenha também algumas granadas — disse Chris.
— Granadas seriam ótimas.
— Vamos esperar que as coisas não fiquem tão feias por lá — observou Stefan.
Soltou a trava do revólver que levava na mão. Segurando o cilindro de Vexxon pela alça de metal, ele o sopesou com a mão esquerda para ver a resistência do seu ombro ferido.
— Sinto alguma dor — disse ele. — Repuxa um pouco o ferimento. Mas não é demais e posso controlar.
Tinham cortado o arame do gatilho no cilindro, o que permitia o uso manual. Stefan passou o dedo pela alça de abertura.
Quando terminasse sua missão em 1944, faria sua última viagem no tempo, voltando para 1989, e segundo seus planos, a volta estava programada para alguns minutos depois da partida. Stefan disse:
— Vejo vocês daqui a pouco. Nem vão perceber que viajei.
De repente Laura teve medo que ele nunca mais voltasse. Pôs a mão no rosto de Stefan e o beijou:
— Boa sorte, Stefan.
Foi um beijo no rosto, não um beijo de amor, nem mesmo uma promessa; apenas o beijo afetuoso de uma amiga, o beijo de uma mulher que devia gratidão eterna, mas não seu coração. Laura viu tudo isso nos olhos dele. No íntimo, apesar dos momentos de humor, Stefan era um homem triste e ela gostaria de fazê-lo feliz. Tinha pena de não poder pelo menos fingir que sentia alguma coisa diferente, mas estava certa de que Stefan perceberia que estava fingindo.
— Quero que você volte — disse ela. — De verdade. Quero muito.
— Isso é suficiente. — Stefan olhou para Chris. — Tome conta da sua mãe enquanto eu estiver fora.
— Vou tentar — disse Chris. — Mas ela é muito boa nisso de se cuidar.
Laura puxou o filho para perto dela.
Stefan ergueu mais o cilindro de 15 quilos de Vexxon e apertou o gatilho.
Quando o gás começou a sair sob pressão, sibilando como uma dezena de serpentes em coro, Laura foi assaltada por uma breve sensação de pânico, temendo que os comprimidos não os protegessem do tóxico, fazendo-os cair no chão em convulsões até a morte. O Vexxon era incolor mas não inodoro ou insípido; mesmo ali ao ar livre, onde dispersava-se rapidamente, podia-se sentir um cheiro adocicado de abricó e um gosto acre nauseante de um misto de suco de limão e leite azedo. Porém, embora sentisse o cheiro e o gosto, não sentiu nenhum efeito adverso.
Segurando o revólver contra o corpo, Stefan enfiou a mão sob a camisa e com um dos dedos livres apertou três vezes o botão que o levaria de volta ao instituto.
Von Manstein foi o primeiro a avistar o carro negro na planície de areia branca e rochas claras, a uns cem metros a leste da rodovia. Chamou a atenção dos outros.
O tenente Klietmann não podia ver a marca do carro daquela distância, mas tinha certeza de que era o que procuravam. Três pessoas estavam ao lado do carro, vultos indefinidos envoltos na névoa transparente e aquosa como miragens ao sol do deserto, mas Klietmann notou que eram dois adultos e uma criança.
De repente, um dos adultos desapareceu. Não era uma ilusão de ótica do deserto. O vulto não apareceu logo depois. Klietmann teve certeza de que se tratava de Krieger.
— Ele voltou! — disse Bracher, atônito.
— Por que vai voltar — disse von Manstein — se todos no instituto querem sua pele?
— Pior — disse Hubatsch atrás do tenente. — Ele veio a 1989 alguns dias antes de nós. Assim, o cinto que usou o levará de volta ao mesmo lugar, ao dia em que Kokoschka atirou nele... a exatamente 11 minutos depois de ter sido atingido pelo tiro de Kokoschka. Mas sabemos com certeza que ele não voltou nesse dia. Que diabo está acontecendo aqui?
Klietmann também ficou preocupado, mas não tinha tempo para descobrir o que se passava. Sua tarefa era matar a mulher e o filho, mesmo que não matasse Krieger. Disse:
— Preparem-se — e diminuiu a marcha do carro parando alguns metros no acostamento.
Hubatsch e Bracher já haviam retirado as Uzi das pastas em Palm Springs. Von Manstein retirou a sua também.
A planície ficava alguns metros abaixo da rodovia. Klietmann fez o carro descer a pequena encosta até o deserto e dirigiram-se para a mulher e o garoto.
Quando Stefan ativou o cinto, o ar ficou pesado e Laura teve a impressão de estar sob um enorme peso invisível. Fez uma careta sentindo o cheiro de fios elétricos aquecidos e isolantes queimados, misturado ao cheiro de ozônio e ao cheiro de abricó do Vexxon. A pressão do ar aumentou, a mistura de odores ficou mais intensa e Stefan deixou o mundo dela com um estalido sonoro e repentino. Por um momento foi como se não houvesse ar para respirar, mas o breve vácuo foi acompanhado por uma lufada de vento quente trazendo o cheiro levemente alcalino do deserto.
Perto da mãe, abraçado a ela, Chris disse:
— Puxa! Não é um barato, mamãe? Não foi legal?
Laura não respondeu porque viu o carro branco saindo da rodovia 111 e descendo para a planície. Ia na direção deles, acelerado.
— Chris, entre na frente do Buick e fique abaixado!
O menino viu o carro que se aproximava e obedeceu rapidamente.
Laura abriu a outra porta do carro e apanhou uma das metralhadoras. Foi para trás do Buick e ficou perto da mala, de frente para o carro branco.
O Toyota estava a menos de duzentos metros e aproximava-se rapidamente. A luz do sol iluminava e refletia-se nos cromados, cintilava no pára-brisa.
Laura considerou a possibilidade de os ocupantes não serem agentes alemães de 1944 e sim pessoas inocentes. Porém, era uma probabilidade tão remota que não podia permitir que a inibisse naquele momento.
O destino luta para refazer o padrão do que estava determinado.
Não. Que droga, não.
Quando o carro branco estava a uns cem metros, Laura atirou. As balas da Uzi, em duas rajadas cerradas, fizeram pelo menos dois orifícios no pára-brisa. O resto do vidro imediatamente ficou rendado.
O carro — Laura via agora que era um Toyota — rodou num círculo de 360°, depois outro de 90°, formando nuvens de poeira, entrando no meio do mato raso ainda verde. Parou a uns sessenta metros, virado para o norte, o lado direito voltado para Laura.
As portas se abriram no outro lado e Laura percebeu que os ocupantes estavam saindo agachados, do carro, procurando se esconder. Abriu fogo outra vez, não para que as balas atravessassem o Toyota, mas procurando atingir o tanque de gasolina; assim talvez uma faguIha de fogo, provocada por alguma bala escorregando em metal, incendiasse a gasolina apanhando os homens nas chamas. Mas Laura esvaziou o pente da Uzi sem conseguir seu intento, embora tivesse certeza de ter atingido o tanque de combustível.
Laura jogou a arma no chão, abriu a porta traseira do Buick e apanhou a outra Uzi, carregada. Apanhou também o .38 especial do banco da frente, sem tirar os olhos do Toyota branco por mais de um ou dois segundos. Desejou que Stefan tivesse deixado a terceira Uzi, afinal.
Do outro carro, a sessenta metros, um dos homens abriu fogo com uma metralhadora portátil, e Laura não teve mais dúvidas de quem eles eram. Ela agachou ao lado do Buick, enquanto as balas batiam com um ruído surdo na tampa aberta da mala, no pára-brisa traseiro, raspavam os pára-lamas, ricocheteavam no pára-choque traseiro, atingindo o solo duro de xisto com estalos secos, levantando pequenas nuvens de areia branca.
Uma ou duas balas cortaram o ar perto da sua cabeça com um silvo mortal, estridente, murmurante — e Laura começou a recuar na direção da frente do carro, ficando perto dele, tentando oferecer o menor alvo possível aos atiradores. Logo estava ao lado de Chris, agachado contra a grade do carro.
O atirador do Toyota cessou fogo.
— Mamãe? — disse Chris assustado.
— Está tudo bem — respondeu Laura, tentando acreditar no que dizia. — Stefan estará de volta em menos de cinco minutos, meu bem.
Ele está com a outra Uzi, o que vai equilibrar as forças. Tudo vai dar certo. Só precisamos deter esses homens por alguns minutos. Só alguns minutos.
15
O cinto de Kokoschka levou Stefan rapidamente de volta ao instituto, e ele entrou pelo portão com o cilindro de Vexxon todo aberto. Apertava a alça e o gatilho com tanta força que sua mão doía e começava a sentir o braço e o ombro ferido.
De dentro do barril via apenas uma pequena parte do laboratório. Dois homens com ternos escuros espiavam na outra extremidade do portão. Pareciam agentes da Gestapo — todos os filhos da mãe pareciam clones de um pequeno grupo de degenerados e fanáticos — e era bom saber que não podiam vê-lo tão bem quanto ele os via; por um momento pelo menos pensariam que era Kokoschka.
Stefan deu alguns passos para a frente, o cilindro sibilante de Vexxon na mão esquerda, o revólver na direita, e antes que os homens no laboratório percebessem que alguma coisa estava errada, o gás mortal os atingiu. Caíram no chão, abaixo do portão elevado e quando Stefan desceu para o laboratório contorciam-se em agonia. Tinham vomitado violentamente. O sangue escorria das suas narinas. Um deles estava deitado de lado, as pernas fazendo movimentos convulsivos, as mãos como garras no pescoço; outro em posição fetal parecia querer arrancar os olhos com os dedos. Perto do painel de programação, três homens com aventais brancos — Stefan os conhecia: Hoepner, Eicke e Schmauser — estavam também caídos. Arranhavam o próprio corpo como se estivessem loucos ou atacados de raiva. Os cinco homens agonizantes tentavam gritar, mas suas gargantas tinham inchado instantaneamente, fechando a passagem do ar; faziam apenas sons fracos, patéticos, arrepiantes, como ganidos de dor de pequenos animais torturados. Stefan ficou no meio deles, fisicamente ileso, mas chocado, e em trinta segundos estavam todos mortos.