O Iluminado
Os segredos do Hotel Overlook
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Duas noites antes, quando o médico e a esposa leiloaram um quatro de paus, Lottie bagunçou as cartas em uma onda repentina de irritação muito incomum a ela. Costumava manter as emoções bem mais controladas.
— Você podia ter seguido meu naipe de espadas naquela terceira vaza! —
ela reclamou com Bill. — Isso teria feito tudo acabar bem ali!
— Mas, querida — respondeu Bill, nervoso —, eu achei que você estava com poucas cartas de espadas…
— Se eu estivesse com poucas cartas de espadas, não teria leiloado duas, certo? Não sei por que continuo jogando isso com você!
Os Verecker olharam para eles com uma surpresa branda. Mais tarde, a sra.
Verecker, a mulher dos olhos brilhantes, comentaria com o marido que achava que eles formavam um casal tão bonito, tão amoroso, mas que, quando Lottie bagunçou as cartas daquele jeito, pareceu uma bruxa rabugenta…
Bill estava olhando para ela com a boca aberta.
— Sinto muito — disse ela, retomando as rédeas e puxando com força. —
Acho que estou um pouco abalada. Não tenho dormido muito bem.
— Que pena — comentou o médico. — Normalmente, esse ar da montanha… nós estamos quase quatro mil metros acima do nível do mar, sabe… é muito propício a um bom descanso. Tem menos oxigênio, sabe. O
corpo não…
— Eu ando tendo pesadelos — Lottie interrompeu secamente.
E vinha tendo mesmo. Não apenas sonhos ruins, mas pesadelos. Ela não era muito de sonhar (o que sem dúvida dizia alguma coisa repugnante e freudiana sobre a psique dela), mesmo quando criança. Ah, sim, teve alguns sonhos, em geral bem maçantes. O único do qual ela conseguia se lembrar, que chegava perto de ser um pesadelo, foi um em que estava fazendo um discurso de Boa Cidadã na assembleia escolar, olhou para baixo e viu que tinha esquecido de se vestir. Mais tarde, alguém comentou com ela que quase todo mundo já teve um sonho assim em algum momento.
Os pesadelos que ela teve no Overlook foram bem piores. Não era o caso de um sonho ou dois se repetindo com variações; eram todos diferentes. Só o ambiente era similar; cada vez ela estava em uma parte diferente do Hotel Overlook. Cada pesadelo começava com a percepção de que estava sonhando e de que algo terrível e assustador ia acontecer com ela ao longo do sonho.
Havia uma sensação de inevitabilidade que era particularmente horrível.
Em um deles, ela estava correndo para pegar o elevador porque estava atrasada para o jantar, tão atrasada que Bill já havia descido antes, mal-humorado. Ela apertou o botão do elevador, que na mesma hora abriu as portas. Estava vazio, exceto pelo ascensorista. Apesar de o hotel idiota só estar com metade da lotação, o elevador tinha uma capacidade ridiculamente pequena. Sua inquietação aumentou quando o elevador desceu e continuou descendo… por tempo demais. Eles já deviam ter chegado no saguão ou até no porão, mas o ascensorista não abriu a porta, e o impulso de movimento para baixo continuava. Ela então bateu no ombro dele com um sentimento misto de indignação e pânico, ciente tarde demais da textura esponjosa e estranha dele, como um espantalho de palha podre. E, quando ele virou a cabeça e sorriu para ela, Lottie viu que o elevador estava sendo manejado por um homem morto; o rosto em um tom branco-esverdeado de cadáver, os olhos afundados, o cabelo debaixo do quepe sem vida, ressecado, os dedos segurando a alavanca decompostos até os ossos.
Enquanto enchia os pulmões para gritar, o cadáver virou a alavanca e murmurou “Seu andar, senhora” com uma voz rouca e vazia. A porta se abriu e revelou chamas, montes de lava e o fedor de enxofre. O ascensorista tinha levado Lottie para o inferno.
Em outro pesadelo, ela estava no parquinho, perto do entardecer. A luz estava curiosamente dourada, embora o céu estivesse preto de nuvens de tempestade. Cortinas de água dançavam entre dois dos picos irregulares a oeste. Parecia um quadro de Bruegel, um momento de sol e tranquilidade. E
ela sentiu alguma coisa se movendo atrás dela. Alguma coisa nos arbustos.
Quando se virou, viu com horror congelado que eram os arbustos: os animais esculpidos nas plantas saíram do lugar e estavam se arrastando na direção dela, os leões verdes, o búfalo, até o coelho, que normalmente parecia tão cômico e simpático. As feições horríveis das folhas estavam viradas para ela enquanto os bichos se deslocavam lentamente na direção do parquinho sobre as patas de plantas, verdes, silenciosos e mortais sob as nuvens negras.
No último pesadelo, que ela tinha acabado de ter, o hotel estava pegando fogo. Ela despertou no quarto e viu que Bill tinha desaparecido e a fumaça se espalhava lentamente pelo apartamento. Ao tentar fugir, ainda de camisola, se perdeu nos corredores estreitos, que estavam turvos de fumaça. Todos os números pareciam ter sumido das portas, e não havia como saber se estava correndo na direção da escada e do elevador ou no sentido oposto deles. Ela dobrou uma esquina e viu Bill de pé, na frente da janela do final do corredor, acenando para ela. De alguma forma, Lottie havia corrido para os fundos do hotel, e ele estava lá, no patamar da saída de emergência. Agora, o calor queimava suas costas através do tecido fino da camisola. O hotel deve estar pegando fogo atrás de mim, ela pensou. Talvez tivesse sido a caldeira. Era preciso ficar de olho na caldeira, senão ela podia te pegar. Lottie saiu andando, e de repente algo se enroscou no seu braço como uma cobra, prendendo-a. Era uma das mangueiras de incêndio que estavam nas paredes do corredor, uma mangueira de lona branca dentro de uma moldura vermelha.
Tinha ganhado vida, inexplicavelmente. A mangueira se contorcia e se enroscava em Lottie, agora segurando sua perna, e então o outro braço. Ela estava bem presa, e o ar estava ficando cada vez mais quente. O estalo faminto das chamas podia ser ouvido, metros atrás. O papel de parede estava descascando e formando bolhas. Bill tinha sumido do patamar da saída de emergência. E então, ela foi…
Lottie acordou na cama grande, sem cheiro de fumaça e com Bill Pillsbury dormindo o sono dos justos idiotas ao seu lado. Ela estava suada e, se não fosse tão tarde, se levantaria para tomar um banho. Eram 3h15 da madrugada.
O dr. Verecker se ofereceu para lhe prescrever um remédio para dormir, mas Lottie recusou. Ela não confiava em nenhuma substância para apagar a mente. Era como abrir mão do comando do seu navio voluntariamente, e ela tinha jurado para si mesma que nunca faria isso.
Mas nos quatro dias seguintes… bem, o dr. Verecker jogava shuffleboard de manhã com a esposa de olhos brilhantes. Talvez ela o procurasse para
pegar a prescrição do remédio, no fim das contas.
Lottie olhou para o teto branco bem acima, que cintilava de maneira fantasmagórica, e admitiu mais uma vez que o Overlook tinha sido um erro muito ruim. Nenhuma das propagandas do hotel na New Yorker e na The American Mercury mencionava que a verdadeira especialidade do local parecia ser deixar as pessoas morrendo de medo. Ficariam mais quatro dias e pronto. Foi um erro, sim, mas um erro que ela jamais admitiria, ou que teria que admitir. Na verdade, ela tinha certeza de que podia…
Era preciso ficar de olho na caldeira, senão ela podia te pegar. O que isso queria dizer? Ou era só uma daquelas coisas sem sentido que às vezes surgiam nos sonhos, um monte de baboseira? Claro que havia uma caldeira no porão ou em algum outro lugar para aquecer o hotel, até resorts de verão precisavam de aquecimento às vezes, certo (mesmo que só para fornecer água quente)? Mas te pegar? Uma caldeira iria te pegar?
Era preciso ficar de olho na caldeira.
Parecia uma daquelas charadas malucas. O que é o que é um rato quando corre, quando um corvo fica igual a uma escrivaninha, o que é uma caldeira que te pega? Como as topiarias, talvez? Ela tinha tido um sonho em que os arbustos podados em forma de animais iam atrás dela. E uma mangueira que… o quê? Deslizava?
Um arrepio percorreu seu corpo. Não era bom pensar muito em pesadelos à noite e no escuro. Você podia… bem, podia ficar incomodada. Era melhor pensar nas coisas que faria quando voltasse para Nova York… por exemplo, em convencer Bill que um bebê não era uma boa ideia por um tempo, até que ele estivesse firme na vice-presidência que o pai deu a ele como presente de casamento…
Ela vai te pegar.
… e em encorajá-lo a levar trabalho para casa, para ele se acostumar com a ideia de que ela se envolveria nele, se envolveria muito.
Ou o hotel todo se movia? Era essa a resposta?
Vou ser uma boa esposa para ele, pensou Lottie freneticamente . Vai dar certo da mesma forma que sempre deu certo na parceria de bridge. Ele conhece as regras do jogo e sabe o suficiente para me deixar guiá-lo. Vai ser como no bridge, bem assim, e se as coisas andam estranhas aqui, não quer dizer nada, é só o hotel, os sonhos…
Uma voz assertiva: Isso mesmo. O lugar todo. Ele… se move.
— Ah, merda — sussurrou Lottie Kilgallon no escuro. Era consternador
perceber como estava psicologicamente abalada. Como na outra noite, não conseguiria mais dormir. Ficaria deitada na cama até o sol começar a subir, depois teria uma hora inquieta ou duas.
Fumar na cama era um hábito ruim, um hábito terrível, mas ela tinha começado a deixar os cigarros em um cinzeiro no chão, ao lado da cama, para o caso de ter pesadelos. Às vezes fumar a acalmava. Ela esticou o braço para pegar o cinzeiro, e o pensamento explodiu como uma revelação: Se move mesmo, o hotel todo… como se estivesse vivo!
Foi nesse momento que a mão surgiu de debaixo da cama e segurou o pulso dela com firmeza… quase com volúpia. Um dedo frio e áspero como uma lona arranhou sugestivamente a palma da sua mão, e alguma coisa estava ali embaixo, alguma coisa estava ali o tempo todo, e Lottie começou a gritar. Ela gritou até ficar rouca, os olhos quase saltarem das órbitas e verem Bill acordado e pálido de terror ao seu lado.
Quando ele acendeu o abajur, ela pulou da cama, correu até o canto mais distante do quarto e se encolheu, com o polegar na boca.
Bill e o dr. Verecker tentaram descobrir o que havia acontecido; ela contou, mas ainda com o polegar na boca, e eles demoraram para entender que ela estava dizendo “Se arrastou para debaixo da cama. Se arrastou para debaixo da cama”.
E, apesar de eles terem virado a colcha e de Bill ter levantado a cama toda do chão para mostrar que não havia nada lá embaixo, nem um amontoado de poeira, ela não quis se mover do canto. Quando o sol nasceu, ela finalmente saiu de lá. Tirou o polegar da boca e se manteve longe da cama. Olhou para Bill Pillsbury com o rosto branco como um cadáver.
— Nós vamos voltar para Nova York — ordenou ela. — Esta manhã.
— Claro — murmurou Bill. — Claro, querida.
O pai de Bill Pillsbury morreu de ataque cardíaco duas semanas depois da quebra da bolsa. Bill e Lottie não conseguiram manter a empresa a salvo do naufrágio, e as coisas foram de mal a pior. Nos anos seguintes, ela pensava com frequência na lua de mel no Hotel Overlook, nos pesadelos e na mão de lona que saiu de debaixo da cama para apertar a dela. Pensava nessas coisas cada vez mais. Em 1949, Lottie cometeu suicídio no quarto de um hotel de beira de estrada, em Yonkers; uma mulher prematuramente grisalha e prematuramente enrugada. A mão que segurou o seu pulso quando ela esticou o braço para pegar o cinzeiro, vinte anos atrás, nunca a largou. Ela deixou um bilhete de suicídio com apenas uma frase, escrito em um papel de carta do
Holiday Inn, que dizia: Eu queria que tivéssemos ido para Roma.
Cena III: Na noite do Grande Baile de Máscaras
No andar de baixo, no andar de cima, nos cantos e nos corredores, a festa prosseguia. A música estava alta, as risadas estavam altas, os gritos estavam altos. Aos ouvidos de Roger Toner, porém, pareciam cada vez menos gritos de prazer e diversão e mais gritos de dor, o som de sofrimento e de morte.
Talvez fossem. Havia um monstro no hotel. Na verdade, um monstro era dono do hotel agora. O nome dele era Horace Derwent.
Roger Toner, que havia ido para o baile fantasiado de cachorro (a pedido de Horace, claro), chegou ao segundo andar e seguiu o corredor na direção do quarto, os ombros caídos dentro da fantasia abafada. Segurava debaixo do braço a cabeça do cachorro, com seu focinho repuxado em uma careta de rosnado.
Ele dobrou uma esquina e viu um casal entrelaçado ao lado de uma das mangueiras de incêndio. Era uma das secretárias da Derwent Enterprises (Patty? Sherry? Merry?) com um dos jovens e brilhantes subalternos de Derwent, um sujeito chamado Norman alguma coisa. Primeiro, ele achou que a garota estava usando uma meia-calça de bailarina, mas logo percebeu que era pele: ela estava nua da cintura para baixo. Norman estava vestindo uma espécie de roupa árabe, até com sapatilhas de bicos pontudos. O bigodinho de escovinha, cultivado à semelhança do chefe, parecia ridículo em comparação.
Patty-Sherry-Merry deu uma risada quando o viu e nem tentou se cobrir.
Ela estava acariciando Norman abertamente. A coisa estava virando uma orgia.
— É Roger — anunciou ela. — Au-au, cachorrinho!
— Faça algum truque — disse Norman com voz grossa, soprando bafo de uísque na cara dele. — De pé, garoto, de pé! Rola! Dá a patinha.
Roger saiu correndo, perseguido pelas gargalhadas bêbadas dos dois.
Vocês vão ver só, pensou ele. Vocês vão ver só quando ele se virar contra vocês como se virou contra mim hoje.
Primeiro, ele não conseguiu entrar no quarto, pois a porta estava trancada, e a chave estava no bolso da calça, e a calça estava embaixo da fantasia de cachorro, e o zíper da fantasia ficava nas costas. Então ele esticou a mão, alcançou o zíper e o puxou um pouco, e finalmente conseguiu tirar a fantasia.
Imaginou que devia estar grotescamente parecido com uma mulher se contorcendo para sair de um vestido, quando finalmente a fantasia abafada de
cachorro escorregou pelos ombros e caiu até os pés. Atrás dele, as gargalhadas continuaram, opressivas e mecânicas, fazendo-o se lembrar de um encontro com seu primeiro amante, um marinheiro de carreira nascido em San Diego. O nome dele era Ronnie, e ele sempre era chamado de Carcamano de San Diego. Ou só Carcamano. Eles foram a um parque de diversões e, à esquerda do palco principal, embaixo de um cartaz de lona que dizia Casa das Mil Emoções, havia uma casa maluca com um palhaço mecânico que ria sem parar, do mesmo jeito que estavam rindo dele agora, enquanto procurava a chave do quarto no bolso. O palhaço ria sem parar, como se prisioneiro de uma fita infinita na barriga, gargalhando no meio de uma noite inquieta de brinquedos barulhentos e homens e cerveja e lâmpadas nuas. O corpo mecânico se balançava para a frente e para trás enquanto ria, e pareceu a Roger naquele momento que o palhaço estava rindo dele, um garoto magro de dezenove anos, usando óculos, que caminhava bem perto do corpulento marinheiro de trinta e poucos anos, a ponto de os quadris dos dois roçarem de tempos em tempos com uma eletricidade inquietante. O palhaço berrava uma gargalhada rouca, rindo dele da mesma forma que o casal seminu no corredor ria, rindo da mesma forma como todos riram lá embaixo no salão, quando Horace Derwent o fez pagar.
Au-au, cachorrinho. Rola. Dá a patinha.
A chave girou na fechadura, ele entrou e trancou a porta.
— Graças a Deus — murmurou, encostando a testa na porta. Ele mexeu com nervosismo na tranca adicional e a fechou. Prendeu a corrente.
Finalmente, se sentou no chão e tirou completamente a fantasia. Jogou a cabeça no sofá, onde ficou rosnando para si mesmo no espelho da penteadeira.
Ele foi amante de Horace durante quanto tempo? Desde 1939. Podia mesmo haver sete anos agora? Podia. Havia. As pessoas disseram que Derwent podia ser inconstante, e Roger não acreditou. Não acreditou, não.
Não foi bem isso.
Era irrelevante para você, o quarto pareceu sussurrar para ele.
Ele olhou ao redor com gratidão. Era isso, era exatamente isso. Ele entrou na empresa de Derwent como escriturário, dez anos antes, em 1936, logo depois que Derwent reergueu o estúdio de cinema no mercado em depressão.
“A Loucura de Derwent”, as pessoas chamaram. Elas não conheciam Horace Derwent, refletiu Roger.
Horace não era como os outros, os rapidinhos e afobados no parque, os
marinheiros, os garotos gordos e suados do secundário que passavam tempo demais nos banheiros do cinema.
Eu sei o que eu sou, ele disse para Roger. As trancas e correntes de medo, enferrujadas há tempos, se soltaram do coração de Roger, como se Horace tivesse tocado em um lugar secreto com uma varinha mágica. Eu escolho aceitar o que eu sou. A vida é curta demais para deixar o mundo dizer a um homem o que ele deve e não deve fazer.
Roger foi contador-chefe da Derwent Enterprises desde o começo dos anos 1940. Ele possuía um apartamento no East Side, em Nova York, e um bangalô em Hollywood. Horace Derwent tinha a chave dos dois. E, em algumas noites, ficava deitado acordado ao lado do homenzarrão (Roger pesava sessenta e um quilos, e Horace Derwent pesava pouco menos do que o dobro) até o amanhecer cinzento surgir atrás das cortinas. Ele escutava Derwent falar sobre tudo… seus planos de se tornar o indivíduo mais rico do planeta Terra.
A guerra está chegando, afirmou Derwent. Vamos entrar nela por volta de abril de 1942 e, se tivermos sorte, ficamos até 1948. A Derwent Enterprises pode planejar ganhar três milhões de dólares por ano só com os aviões.
Faça as contas, Rog. Quando a guerra terminar, a Derwent vai ser a maior empresa dos Estados Unidos.
Nem sempre era sobre negócios. Falava sobre centenas de outras coisas.
Derwent especulava sobre o quanto podia faturar na World Series se conseguisse comprar os dois juízes. Derwent falava sobre Las Vegas e os planos que ele e alguns sócios tinham para a cidade — Vegas vai ser o playground dos Estados Unidos nos anos 1960 se tudo der certo, Rog. O
medo obcecado que tinha do câncer, que matou sua mãe aos quarenta e seis anos e seus quatro avós. Seu interesse em geologia, em previsão do tempo, em máquinas de fotocópia e em uma possível coisa chamada filmes em 3-D.
Roger ouviu esses longos monólogos, enfeitiçado, sem falar quase nada, pensando: Ele conta essas coisas pra mim. Só pra mim.
E, assim, quando correram boatos de que Horace tinha o hábito de se deitar com qualquer aquisição feminina do estúdio antes de assinar o contrato, quando falaram que ele sustentava uma mulher que era a febre da Broadway em uma cobertura na Quinta Avenida, quando fofocas contavam que Horace era um estudo perfeito de amoralidade, um homem que realmente se achava o único ser totalmente vivo no mundo, Roger riu da cara de todos. Aquelas pessoas não conheciam o homem como ele conhecia, não o ouviam falar a noite toda, pulando de assunto em assunto como um bailarino… ou como uma coisa mais mortal, um esgrimista, talvez, o maior e melhor esgrimista da sua época.
Ele se levantou e foi até o banheiro, encher a banheira de água quente. O
corpo estava coberto de suor azedo. A cabeça doía. O estômago estava embrulhado. E ele sabia que, mesmo com um banho quente, o sono não chegaria naquela noite. E ele não havia levado seus comprimidos para dormir. Até tivera sorte de conseguir um assento em um voo de Nova York até Denver. Ele não fora convidado para o avião fretado cheio de festeiros de Horace. Até seu convite havia chegado tarde. Mais um insulto calculado.
O banheiro era de azulejos brancos, antiquado, um horror. Roger colocou o tampão no ralo e abriu a torneira da banheira. Ficaria deitado insone na cama a noite inteira; ouvindo os gritos de alegria vindos de baixo, repetindo o pesadelo acordado sem parar… por que ele esqueceu os comprimidos?
Rola, cachorrinho. Se finge de morto. Au-au.
Os dois se envolveram em 1939 e, quando Roger serviu seu propósito, Horace cortou o relacionamento. Aconteceu naquela noite. Roger foi humilhado na frente de todo mundo.
Mas você não sabia que isso ia acontecer? , ele perguntou com tristeza a si mesmo enquanto a água enchia a banheira, fumegando. As chaves do apartamento e do bangalô voltaram para ele em um envelope da Derwent Enterprises, com um bilhete impessoal da secretária particular de Horace, informando que Roger devia ter esquecido as duas no escritório. De repente, ficou muito difícil ver o chefe, que vivia ocupado. Roger foi ignorado para a vaga que abriu no comitê quando o velho Hanneman sofreu um ataque cardíaco… uma vaga que Horace praticamente prometeu para ele na primavera de 1943. Horace foi visto por Nova York acompanhando uma atriz da Broadway, o que não incomodou Roger, mas também com seu novo secretário para assuntos sociais, o que incomodou. O novo secretário era britânico, um homem pequeno e compacto, dez anos mais novo do que Roger. E, claro, Roger nunca foi muito bonito. Pior, Horace comprou o Overlook sem sequer informar a ele, seu próprio contador-chefe. Foi Burrey, um dos executivos da divisão de aeronaves, que teve pena de Roger a ponto de contar que agora ele era contador-chefe apenas no nome, só por contrato.
— Ele vai atrás de você, camarada — avisou Burrey. — Ele tem uma vara afiada com seu nome nela. Não vai despedir nem destituir você, não é o estilo dele. Não é assim que o Destemido Líder se diverte. Ele vai cutucar você com
a vara afiada. Nas pernas, na barriga, no pescoço, nas bolas. Ele vai cutucar e cutucar até você sair correndo. E, se você ficar depois que ele se cansar da brincadeira, ele vai arrancar seus olhos com a vara.
— Mas por quê? — perguntou Roger. — O que eu fiz? Meu trabalho tem sido perfeito, meu… meu… — Mas não havia como falar sobre aquilo com Burrey.
— Você não fez nada — respondeu Burrey com paciência. — Ele não é como as outras pessoas, Rog. Ele é como um bebê grande e inteligente cheio de brinquedos bonitos. Ele brinca com um até se cansar, depois joga fora e brinca com um novo. Aquele inglês Hart é o novo. Você foi para o lixo. E
estou avisando: não force a barra. Ele vai fazer você lamentar profundamente, se forçar.
— Ele falou com você? Foi isso?
— Não. E não vou falar mais com você. Porque as paredes aqui têm ouvidos, e eu gosto do meu emprego. Gosto mais ainda de comer. Bom dia, Rog.
Mas Roger não conseguiu esquecer Derwent. Mesmo quando o convite para o baile de máscaras chegou tarde (sem nenhuma passagem para o voo que Derwent fretaria de Nova York para o Colorado), ele não conseguiu esquecer. Ficou fascinado pela ordem rabiscada no pé do convite, escrita a lápis, como tantas das correspondências que recebia dele: Se você vier, venha de cachorro.
Mesmo nesse momento, apesar de tudo o que Burrey contou estar evidente naquela frase rabiscada, Roger não conseguiu esquecer. Preferiu ver como um pedido pessoal de Horace, ainda que brusco, para que ele fosse. Ele foi à loja de fantasias mais cara de Nova York e, mesmo quando estava saindo de lá com a fantasia embrulhada em papel pardo debaixo do braço, se recusou a enxergar a situação de outra forma. Ele queria enxergar como Venha, querido, tudo está perdoado, e não Se você vier, vou arrancar seus olhos, Roger — este é seu único aviso.
E agora, ele sabia. Ah, sim, sabia. Tudo.
A banheira estava cheia. Roger fechou a torneira e tirou as roupas lentamente. Um banho quente devia relaxar, era o que diziam. Ajudar você a dormir. Mas nada o ajudaria naquela noite, a não ser seus comprimidos. Que estavam no armário de remédios do apartamento dele, mais de três mil quilômetros a leste dali.
Ele voltou o olhar para o armário de remédios do banheiro sem muita
esperança. Nunca havia nada nos armários de remédios de hotel, exceto talvez uma caixa de lenços de papel. Ainda assim, ele o abriu e olhou, mesmo cético. Havia uma caixa pequena de Kleenex, um copo de água enrolado em papel encerado e um pequeno vidro com o rótulo simples de Seconal. Ele pegou o vidro e abriu. Os comprimidos dentro eram grandes e rosados. Não se pareciam com nenhum Seconal que Roger já tivesse visto.
Só vou tomar um, pensou ele. Era burrice tomar remédio de outra pessoa.
Além de perigoso. E o hotel estava vazio desde 1936, ele lembrou a si mesmo, quando o último dono faliu e se matou com um tiro. Aqueles comprimidos podiam estar ali desde 1936, não podiam? Um pensamento inquietante. Talvez fosse melhor não tomar nenhum.
Para cima, garoto, para cima! Au-au! Cachorro bonzinho… toma um osso, cachorrinho.
Só um, então. E um banho quente. Talvez eu consiga dormir.
Mas ele colocou dois comprimidos na mão e, depois de desembrulhar o copo de água e os ingerir, decidiu tomar um terceiro. Em seguida, para a banheira. Um banho rápido. As coisas ficariam melhores de manhã.
Ele foi encontrado depois das três horas da tarde seguinte. Aparentemente, adormeceu na banheira e se afogou. O legista de Sidewinder, no entanto, não tinha certeza de como um acidente assim podia ter acontecido, a não ser que o homem estivesse bêbado ou drogado. Os exames não mostraram sinais de nenhuma das duas coisas. O legista pediu uma reunião particular com Horace Derwent, que foi autorizada.
— Escute — começou o legista. — Você declarou que havia uma grande festa acontecendo naquela noite.
Horace Derwent assentiu.
— Seria possível que alguém tenha ido até o quarto desse tal de Toner e segurado a cabeça dele embaixo d’água? De brincadeira, claro. O tipo de brincadeira que às vezes vai longe demais.
Derwent protestou fortemente.
— Bom, eu sei que você é um homem ocupado — continuou o legista —, e a última coisa que quero é causar confusão para um homem que nos ajudou a vencer a guerra, o mesmo homem que está planejando reabrir o Hotel Overlook… O Overlook sempre contratou muitas camareiras e carregadores de malas aqui de Sidewinder, sabe…
Derwent agradeceu pelo elogio e garantiu que o Overlook continuaria usando a força de trabalho de Sidewinder.
— Mas você tem que entender a posição em que eu estou.
Derwent garantiu que se esforçaria.
— Com a água nos pulmões de Toner, o patologista do condado afirma que a causa da morte foi por afogamento. Mas um homem não se afoga em uma banheira. Se ele adormece e a boca e o nariz vão para debaixo da água, ele acorda. A não ser que seus reflexos estejam severamente afetados. Mas esse homem só tinha um leve traço de álcool no organismo, nenhum barbitúrico, nada. Não havia galo na cabeça dele para indicar que podia ter escorregado quando estava saindo. Compreende a situação em que estou?
Derwent concordou que era um enigma.
— Eu tenho que, pelo menos, considerar que alguém pode tê-lo assassinado — prosseguiu o legista. — Suicídio está descartado. É possível se matar por afogamento, mas não na banheira. Mas assassinato… Bem.
Derwent perguntou sobre digitais.
— Que perspicaz — comentou o legista com admiração. — Você deve estar pensando na limpeza do local, um mês antes da festa. O delegado também pensou o mesmo, pois a irmã dele era uma das funcionárias vindas de Sidewinder que ajudaram no trabalho. Aproximadamente trinta faxineiras estiveram lá em cima, esfregando aquele lugar de cabo a rabo. E, como não havia mais ninguém trabalhando lá quando a festa aconteceu, o chefe mandou um homem da polícia estadual procurar digitais em todo o quarto. Só encontraram as de Toner.
Derwent sugeriu que esse fato ajudava muito a provar que a teoria de assassinato não era sustentável.
— Ah, mas claro que não — respondeu o legista, puxando um suspiro fundo das profundezas da grande barriga. — Poderia ajudar, se vocês estivessem tendo uma festa comum. Mas não era uma festa comum; era uma festa à fantasia. E só Deus sabe quantas pessoas estavam de luvas ou com mãos falsas como parte dos trajes. Sabe Hart? O sujeito britânico?
Derwent admitiu conhecer seu secretário para assuntos sociais.
— Esse rapaz informou ter ido fantasiado de diabo, e você foi de apresentador de circo. Então, vocês dois estavam de luvas. De certa forma, Toner também estava usando luvas se pensarmos na fantasia dele. Percebe a situação em que estamos?
Derwent respondeu que percebia.
— Não fico feliz em ter que instruir aquele júri a dar um veredito de
“causa desconhecida”. Vai sair em todos os malditos jornais do país.
Industrial milionário. Morte misteriosa. Orgia noturna em resort na montanha.
Derwent protestou com certa aspereza que foi uma festa, não uma orgia.
— Ah, mas é a mesma coisa para aquele pessoal da imprensa marrom —
argumentou o legista. — Eles conseguem encontrar cocô de cachorro em um buquê de lírios. Sujam seu nome antes mesmo de você abrir o local. Você acaba tendo que começar debaixo de uma nuvem negra. Que merda.
Horace Derwent se inclinou para a frente e começou a falar. Ele discutiu vários aspectos da vida e das finanças na pequena comunidade montanhosa de Sidewinder, Colorado. Falou de vários contratos que podiam ser feitos entre o Hotel Overlook e a Prefeitura de Sidewinder. Falou da necessidade da cidade de ter uma biblioteca e um aumento na escola. Lamentou pelo salário que o legista recebia, tão inadequado para um médico aposentado. O legista começou a sorrir e assentir. E, quando Horace Derwent se levantou, um pouco mais pálido do que o habitual, o legista se levantou com ele.
— Acredito que possa ter sido algum tipo de convulsão — concluiu o legista. — Morte acidental. Infeliz.
A história chegou no máximo à página dois, mesmo nos jornais do Colorado. O Overlook abriu na data marcada, e quase cinquenta por cento dos funcionários eram de Sidewinder. Foi bom para a cidade. A nova biblioteca, doada pelo Automatic Service Company of Colorado (que por sua vez pertencia ao Automatic Service Company of America, que por sua vez pertencia à Derwent Enterprises), foi boa para a cidade. O delegado recebeu uma viatura nova e dois anos depois comprou um chalé de esqui em Aspen. E
o legista se aposentou na Flórida.
O Overlook acabou se provando um fardo para Horace Derwent, embora ele nunca tenha conseguido levar o hotel à falência. Mas ele o havia concebido como um tipo glorioso de brinquedo com o qual se divertiria, e o brinquedo perdeu a graça quando Roger de certa forma virou o jogo da vingança e morreu de forma misteriosa na banheira. Ele foi obrigado a comprar uma cidade inteira para poder começar sua operação. Mas isso não foi humilhação; a forma como Roger morreu não foi o que fez Derwent odiá-lo. Humilhante foi se tornar vítima de uma chantagem comum por um legista sorridente de cidade pequena e ter que ceder. Anos depois, quando ele já tinha lavado as mãos para o Overlook, Derwent acordava à noite no meio de um pesadelo em que o legista, lenta e eficientemente, o encurralava em um canto, exigindo que ele pagasse para sair dali.
Ele ficava deitado no escuro depois do pesadelo, pensando: Câncer. Minha mãe estava morta de câncer na minha idade.
E claro que ele nunca conseguiu lavar as mãos para o Overlook, não totalmente. Seu relacionamento com o hotel terminou, mas não o do hotel com ele. Só passou a ser oculto. Permaneceu em livros secretos, guardados em cofres de lugares como Las Vegas e Reno. Esses livros pertenciam a pessoas que fizeram favores a ele, a quem, em troca, devia favores. O tipo de pessoa que às vezes aparecia no brilho dos holofotes de uma notícia sobre o subcomitê do Senado. Mudanças de propriedade. Lavagem de dinheiro.
Esconderijos e sexo secreto. Não, ele nunca se livrou do Overlook.
Aconteceu um assassinato lá, de alguma forma, e aconteceria de novo.
Cena IV: E agora, essa notícia de New Hampshire
Naquele longo e quente verão de 1953, o verão em que Jack Torrance completou seis anos, seu pai chegou em casa do hospital certa noite e quebrou o braço do filho. Ele quase matou o garoto. Estava bêbado.
Jacky estava sentado no degrau da varanda da frente, lendo um gibi de Combat Casey, quando seu pai surgiu na rua, cambaleando, completamente massacrado pela cerveja. Como sempre, o garoto sentiu uma mistura de amor-ódio-medo no peito ao ver o pai, que parecia um fantasma malevolente e gigantesco com aquela roupa branca de hospital. Ele era enfermeiro no Berlin Community Hospital. Seu pai era como um Deus, como a natureza: às vezes amável, às vezes terrível. Nunca se sabia como ele estaria. A mãe de Jacky o temia e o servia. Seus irmãos o odiavam. Só Jacky, dentre todos, ainda o amava, apesar do medo e do ódio. E às vezes a mistura volátil de emoções o fazia ter vontade de chorar ao ver o pai vindo, de simplesmente gritar: Eu amo você, papai! Vai embora! Me abraça! Vou matar você! Tenho tanto medo de você! Preciso de você! E seu pai parecia sentir, de sua maneira burra (ele era um homem burro e egoísta), que todos estavam fora do alcance dele, menos Jacky, o mais novo, e que o único jeito de poder afetar os outros era à base da força, até conseguir atenção. Mas com Jacky ainda existia amor.
Algumas vezes ele socou a boca do filho até sair sangue e depois abraçou o menino com uma força terrível. Uma força assassina mal controlada por alguma outra coisa. Jacky se deixava abraçar na atmosfera profunda de malte e lupilina que pairava eternamente ao redor do pai, desanimado, amando, temendo.
Ele pulou do degrau e correu metade do caminho antes de sentir alguma
coisa o travar.
— Pai? — perguntou ele. — Onde está o carro?
Torrance se aproximou dele, e Jacky percebeu o quanto estava bêbado.
— Bati — respondeu ele com voz rouca.
— Ah… — Agora atento. Atento com o que ia dizer. Atento pela sua vida.
— Que pena.
Seu pai parou e olhou Jacky com os olhos estúpidos de porco. Jacky prendeu a respiração. Em algum lugar atrás da testa daquele homem, debaixo do corte de cabelo, quase raspado, as engrenagens estavam girando. A tarde quente ficou parada enquanto Jacky esperava, olhando com ansiedade o rosto do pai para ver se ele passaria um braço grosso de urso sobre seu ombro, pressionando a bochecha de Jacky contra o couro áspero e rachado do cinto que segurava sua calça branca e diria me leve para casa, garotão, daquele jeito duro e desdenhoso que era o único jeito que ele tinha de demonstrar amor sem se destruir, ou se aconteceria outra coisa.
Naquela noite, aconteceu outra coisa.
Nuvens negras surgiram na testa de Torrance.
— O que você quer dizer com que pena? Que tipo de merda é essa?
— Só… que pena, papai. É só o que quero dizer. É…
A mão de Torrance disparou na ponta do braço, uma mão enorme, um braço comprido e veloz, sim, muito veloz, e Jacky caiu de bunda, com o lábio cortado e sinos de igreja tocando na cabeça.
— Seu merda — gritou o pai, prolongando o E.
Jacky não disse nada. Nada ia adiantar agora. O equilíbrio tinha pendido para o lado errado.
— Você não vai ser insolente comigo — disse Torrance. — Não vai ser insolente com seu papai. Vem aqui tomar seu remédio.
Havia alguma coisa no rosto dele daquela vez, algo sombrio e ardente. E
Jacky de repente soube que desta vez poderia não haver abraço no final dos golpes. E, se houvesse, ele talvez estivesse inconsciente e fora de si… talvez até morto.
E saiu correndo.
Atrás dele, o pai soltou um urro de fúria e correu, um espectro oscilante de jaleco branco, um gigante do mal seguindo o filho da varanda da frente até o quintal.
Jacky correu, temendo por sua vida. A casa na árvore, ele estava pensando. Papai não consegue subir lá, a escada presa na árvore não vai
aguentar, vou subir lá, falar com ele, talvez ele durma. Ah, Deus. Por favor, faz ele dormir, choramingava de terror enquanto corria.
— Volte aqui, merda! — rugiu o pai atrás dele. — Volte aqui e tome seu remédio! Seja homem!
Jacky voou pela escada dos fundos. Sua mãe, uma mulher magra e derrotada, esquálida com um vestido desbotado, saiu da cozinha pela porta de tela, bem na hora em que Jacky passou correndo com o pai berrando logo atrás. Ela abriu a boca como se quisesse falar ou gritar, mas a própria mão se fechou sobre ela, a impedindo de dizer o que talvez dissesse, guardando em segurança atrás dos dentes. Ela temia pelo filho, mas tinha ainda mais medo de o marido se virar contra ela.
— Pode parar! Volte aqui!
Jacky chegou ao grande olmo no quintal, o olmo onde, um ano antes, o pai envenenou uma colônia de vespas com fumaça e queimou o ninho com gasolina. O garoto subiu pelos degraus pregados como um relâmpago desajeitado, mas não conseguiu ser rápido o suficiente. A mão forte e enfurecida do pai segurou o tornozelo de Jacky em um aperto de aço, escorregou um pouco e só conseguiu tirar o sapato dele. O garoto subiu os últimos três degraus e se agachou no piso da casa na árvore três metros e meio acima do chão, ofegando e chorando, de quatro.
O pai pareceu enlouquecer. Percorreu em volta da árvore como um índio, berrando toda a sua fúria. Bateu com os punhos na árvore, fazendo casca voar e gerando filetes de sangue nos dedos. Chutou a árvore. A enorme cara de lua estava branca de frustração e vermelha de raiva.
— Por favor, papai — gemeu Jacky. — O que eu disse… desculpa por eu ter dito…
— Desça! Desça daí agora e tome sua porra de remédio, seu covarde!
Agora!
— Eu vou descer… vou descer se você prometer não… não me bater com muita força… não me machucar… só dar umas palmadas, mas não me machucar…
— Desça dessa árvore! — gritou o pai.
Jacky olhou para a casa, mas de nada adiantou. Sua mãe tinha recuado para algum lugar distante, para um terreno neutro.
— SAI DAÍ AGORA!
— Ah, papai, não tenho coragem! — gritou ele, e era verdade. Porque agora o pai podia matá-lo.
Houve um período de impasse. Um minuto, talvez, ou possivelmente dois.
Seu pai andou em volta da árvore, bufando e soprando como uma baleia.
Jacky se virou engatinhando, acompanhando o movimento. Eles pareciam peças de um relógio aberto.
Na segunda ou na terceira vez em que chegou à escada que levava à casa na árvore, Torrance parou. Olhou especulativamente para a escada. Colocou as mãos no degrau na altura de seus olhos. E começou a subir.
— Não, papai, não vai aguentar você — sussurrou Jacky.
Mas o pai seguiu sem parar, como o destino, como a morte, como o fim.
Subindo e subindo, mais perto da casa na árvore. Um degrau soltou debaixo das mãos e ele quase caiu, mas se segurou no seguinte com um grunhido e um pulo. Um dos degraus girou da horizontal para a perpendicular, sob o peso dele, com um grito arranhado de pregos arrancados, mas Torrance não cedeu. E, de repente, o rosto vermelho de esforço e cansaço ficou visível acima do patamar da casa da árvore e, por aquele momento em sua infância, Jack Torrance teve o pai encurralado. Se tivesse conseguido chutar aquele rosto com o pé que ainda estava calçado, chutado onde o nariz terminava entre os olhos de porco, poderia ter derrubado o pai da escada, talvez o matado (e, se ele o tivesse matado, alguém diria algo diferente de “Obrigado, Jacky”?). Mas foi o amor que o impediu; foi o amor que não o deixou esconder o rosto nas mãos e desistir quando primeiro uma das mãos gordas e de dedos curtos do pai apareceu nas tábuas, depois a outra.
— Agora, por Deus — sussurrou o pai. Ele ficou de pé acima do filho.
Naquela posição, encolhido, parecia um gigante.
— Ah, papai — lamentou Jacky pelos dois. E por um momento seu pai parou, o rosto oscilando com linhas de incerteza, e Jack sentiu uma pontada de esperança.
Mas o rosto se contraiu novamente, e Jacky conseguiu sentir o cheiro da cerveja. Seu pai falou:
— Vou ensinar você a não ser insolente comigo.
E toda a esperança se foi quando o pé voou, se enterrando na barriga de Jacky, tirando todo o ar de seu corpo de uma só vez enquanto ele voava do patamar na casa da árvore em direção ao chão. Ele caiu em cima do cotovelo esquerdo, que estalou como um galho verde se quebrando. Jacky nem teve ar para gritar. A última coisa que viu antes de desmaiar foi o rosto do pai, que parecia no final de um túnel comprido e escuro. A expressão do homem aparentava estar se enchendo de surpresa, da mesma forma como uma jarra
podia se encher de um líquido pálido.
Ele está começando a entender o que fez, pensou Jacky de forma incoerente.
E, logo depois disso, veio um pensamento sem nenhum sentido, coerente ou não, um pensamento que o acompanhou até a inconsciência enquanto ele caía para trás na grama irregular e maltratada do gramado dos fundos: O que você vê é o que você vai ser, o que você vê é o que você vai ser, o que…
A fratura no braço ficou curada em seis meses. Os pesadelos duraram bem mais. De certa forma, nunca pararam.
Cena V: O Hotel Overlook, terceiro andar, 1958
Os assassinos subiram a escada calçando apenas meias.
Os dois homens que estavam posicionados do lado de fora da Suíte Presidencial não os escutaram. Eram jovens, usando ternos Ivy League mais folgados do que a moda pregava. Não se podia usar uma Magnum .357
escondida em um coldre de ombro e ao mesmo tempo estar na moda. Eles estavam discutindo se os Yankees ganhariam outro título. Faltavam dois dias para setembro, e, como sempre, o time estava indo bem. Só de falar sobre os Yankees eles já se sentiam um pouco melhor. Eles eram garotos de Nova York, emprestados de Walt Abruzzi, e estavam bem longe de casa.
O homem lá dentro era uma engrenagem importante da Organização. Era tudo o que eles sabiam, tudo o que queriam saber. “Se vocês fizerem seu trabalho, todos ficamos bem”, orientara Abruzzi. “O que há para saber?”
Eles ouviram coisas, claro. Que no Colorado havia um lugar que era campo neutro. Um lugar onde qualquer bandido da Costa Oeste como Tony Giorgio podia se sentar e tomar um conhaque caro em uma taça de cristal junto com os Coroas Grisalhos, que o viam como uma espécie de inseto com ferrão homicida a ser esmagado. Um lugar onde caras de Boston que estavam acostumados a colocar uns aos outros em porta-malas de carros em becos atrás de boliches em Malden ou em latas de lixo em Roxbury podiam se reunir, jogar gin e contar piadas sobre os polacos. Um lugar onde era possível fazer as pazes ou comprar brigas, fazer pactos, explicar planos. Um lugar onde as pessoas calorosas às vezes podiam esfriar.
Bem, eles estavam ali, e as coisas não eram para tanto — na verdade, os dois estavam com saudade de Nova York, e era por isso que estavam falando dos Yankees. Mas eles nunca mais viram Nova York nem os Yankees.
A voz deles ecoava pelo corredor até a escada, onde os assassinos se encontravam, seis degraus abaixo, com as cabeças cobertas de meias de seda.
Estavam fora da linha de visão para quem estivesse olhando pelo corredor da porta da Suíte Presidencial. Eram três na escada, vestidos de calças e casacos escuros, carregando escopetas com os canos serrados para quinze centímetros. As armas estavam carregadas com balas de caça expansivas.
Um dos três fez sinal, e eles subiram a escada em direção ao corredor.
Os dois em frente à porta só os viram quando os assassinos já estavam em cima deles. Um estava dizendo com animação:
— Veja Ford. Quem é melhor na American League do que Whitey Ford?
Não, eu estou perguntando com sinceridade, porque, quando chega a hora de correr, ele…
O homem que estava falando levantou o rosto e viu três formas pretas sem rostos identificáveis a menos de dez passos. Por um momento, não conseguiu acreditar. Eles estavam parados ali. Ele balançou a cabeça, esperando que fossem embora como os pontos pretos que às vezes apareciam flutuando na escuridão. Mas eles não foram. De repente, ele soube.
— Qual é o problema? — perguntou o colega. — O que…?
O jovem que estava falando sobre Whitey Ford enfiou a mão embaixo do paletó para pegar a arma. Um dos assassinos encostou a culatra da escopeta em uma tira de couro presa na barriga, embaixo da camisa escura de gola alta, e puxou os dois gatilhos. O estrondo no estreito corredor foi ensurdecedor. O
brilho no cano, roxo, pareceu um relâmpago de verão. Um fedor de cordite. O
jovem foi jogado para trás no corredor em uma nuvem desintegrada de paletó Ivy League, sangue e cabelo. O braço girou para trás, jogando a Magnum para longe dos dedos moribundos, e a pistola bateu inofensiva no carpete com a trava ainda presa.
O segundo jovem nem tentou pegar a arma. Levantou as mãos no ar e molhou a calça ao mesmo tempo.
— Eu me rendo, não atirem em mim, está tudo bem…
— Diga oi para Albert Anastasia quando chegar lá embaixo, seu punk —
disse um dos assassinos, e encostou o cano da escopeta na barriga dele.
— Eu não sou problema, eu não sou problema! — gritou o homem com sotaque pesado do Bronx. O impacto do tiro o levantou no ar e o jogou no papel de parede sedoso com a estampa delicada em alto-relevo. Ele até grudou por um momento antes de cair no chão do corredor.
Os três caminharam até a porta da suíte. Um tentou girar a maçaneta.
— Trancada.
— Tudo bem.
O terceiro homem, que ainda não tinha atirado, parou na frente da porta, mirou a arma um pouco acima da maçaneta e puxou os dois gatilhos. Um buraco irregular apareceu na porta, fazendo a luz passar. O mesmo homem enfiou a mão no buraco e mexeu na tranca do outro lado. Ouviu-se um tiro de pistola, depois mais dois. Nenhum dos três reagiu.
A tranca abriu fazendo um estalo, e o terceiro homem chutou e abriu a porta. Na sala ampla, em frente à grande janela que agora só mostrava uma paisagem na escuridão, estava um homem de uns trinta e cinco anos, usando apenas uma cueca samba-canção. Em cada mão ele segurava uma pistola e, quando os assassinos entraram, ele começou a atirar, disparando loucamente.
Algumas balas arrancaram lascas da moldura da porta, abriram buracos no tapete, arrancaram pedaço de gesso do teto. Ele disparou cinco vezes, e o mais perto que chegou de qualquer um dos assassinos foi uma bala que raspou a calça no joelho esquerdo do segundo homem.
Eles levantaram as escopetas com uma meticulosidade quase militar.