O nascimento da metapsicologia: a obra inicial de Freud
Apresentação
O livro que o leitor tem em mãos constitui uma análise meticulosa, cuidadosa e exaustiva de um dos períodos mais difíceis da psicanálise: o de sua constituição como disciplina autônoma.
Como se sabe, Freud foi neuropatologista antes de ser o fundador da psicanálise. Foi exatamente perscrutando um dos seus textos – mais famosos posteriormente – que Fátima Caropreso começou sua análise. Trata-se da Concepção das afasias: texto que redundou num fracasso de crítica e de público ao ser lançado, mas que operou a desconstrução, ponto por ponto, da teoria vigente na época.
Dizia Freud que nele “era muito despudorado, terço armas com seu amigo Wernicke, com Lichtheim e Grashey, e chego até a arranhar o poderosíssimo ídolo Meynert” (Masson, carta nove, p. 28). Na verdade, sua crítica é arrasadora tanto de seus pressupostos (a teoria dos “engramas”) como de suas conseqüências. Tudo é, literalmente, demolido.
É de se estranhar que Freud tenha lido apenas a bibliografia sobre o assunto, não apresentando um caso sequer que se contrapusesse, ou melhor, não é de se estranhar em se tratando de um gênio como foi Freud.
Mas Freud vai além: não só desconstrói uma concepção da afasia dominante na época – e em períodos posteriores –, como a essa opõe sua própria concepção do distúrbio afásico. É na concepção de linguagem – melhor, de “aparelho de linguagem” – que ele vai, basicamente, contra os “engramistas” e cria uma solução original e consistente: a rede lingüística é um complexo onde estão interligadas várias ou mesmo todas as facetas da linguagem.
Haveria um longo percurso da neurologia até chegar, atualmente, às conclusões que Freud chegara no início do século retrasado. Mas, em essência, chegou.
Em seguida, Caropreso analisa, com base na Concepção das afasias, o “Projeto de uma Psicologia”. Trabalho de fôlego, já que esse é um dos textos mais difíceis de Freud. A autora não só expõe as teses fundamentais do “Projeto”, como explica, pari passo, os conceitos basilares ali expressos, aliando-os com as teses da Concepção das afasias.
Em uma carta de 6 de dezembro de 1896, Freud diz o seguinte: “Postulei a existência de uma espécie semelhante de rearranjo algum tempo atrás (Aphasia), com respeito às vias que provêm da periferia do corpo até o córtex”. Bastava fazer no jogo interno o mesmo circuito. Aliás, já estava feito na Concepção das afasias. O que faltava era aplicar rigorosamente esse mesmo esquema. Quer dizer, a idéia de uma sobredeterminação, já presente no “conceito de afasia”, foi aplicada a partir dessa carta (de no 103 na edição da correspondência realizada por Masson) para que se constituísse essa aliança fundamental.
O resultado do trabalho aqui apresentado não poderia ser melhor: dessa combinação Fátima Caropreso faz nascer, aos nossos olhos, a Metapsicologia, ciência fundamental no entender do próprio Freud.
Sim, é exatamente dessa aliança até agora pouco estudada, entre a Concepção e o “Projeto”, que ela vê o nascimento da metapsicologia, quando insere, num “golpe de mestre”, as associações lingüísticas da Concepção no âmago da teoria do “Projeto”, revelando assim o imbricamento entre as duas obras-chave do fundador da psicanálise. Junção por meio da qual Freud tornou possível desenvolver o projeto de uma metapsicologia.
Alia-se a isso o fato de que nossa autora se distingue na leitura de numerosos textos relativos à “História da Psicanálise” (freqüentemente uma história de bastidores e que alinha textos sem relacioná-los), porque ela não só trata dos textos centrais, mas também estabelece uma verdadeira análise conceitual – fazendo ver como brotaram os conceitos centrais da Teoria Psicanalítica.
Enfim, um livro que vem preencher uma lacuna na história das idéias.
Luiz R. Monzani
Vila Santo Antônio,
inverno de 2007