O nascimento da metapsicologia: a obra inicial de Freud

Conclusão

 

A revisão crítica e a reformulação das teorias sobre a neurologia e a psicologia da linguagem empreendida por Freud na monografia Sobre a concepção das afasias acabaram por levar à formulação de um conceito de representação que se distanciou em diversos aspectos daquele que estava subentendido nas teorias criticadas. Em vez de uma cópia dos estímulos que chegam à periferia sensorial, a representação, para Freud, seria uma construção do sistema nervoso. Em vez de um processo de expansão topográfica, a constituição da representação consistiria num processo de sobreassociação, em que o significado das representações seria transferido das mais antigas para as mais recentes, formandose, assim, cadeias associativas de mesma significação. Em vez de ser o correlato de um engrama contido em uma célula cortical, a representação simples passa a ser concebida como o correlato de um processo associativo, e, com isso, a distinção entre representação e associação desaparece no nível neurológico. No entanto, a identificação entre o psíquico e a consciência – e, do ponto de vista freudiano, entre representação e consciência – é ainda mantida nesse texto. Freud sustenta aí que os processos psíquicos são concomitantes dependentes de certos processos nervosos e recusa, declaradamente, a possibilidade da existência de um psiquismo inconsciente. Portanto, de acordo com o que ele propõe em 1891, a expressão “representação inconsciente” não passaria de uma contradição em termos, se entendida literalmente.

As observações clínicas das diversas psicopatologias, no entanto, colocaram em questão essa identificação do psíquico ao consciente. Nos textos sobre as neuroses imediatamente posteriores à monografia de 1891, Freud afirma que há representações inconscientes envolvidas na gênese das neuroses, mas não chega a esclarecer em que consistiriam essas representações. Nos Estudos sobre a histeria, ele deixa claro que não tem uma hipótese claramente definida sobre a natureza dessas representações inconscientes e aponta para a necessidade de uma relexão sobre a consciência para esclarecê-la. Essa relexão, ao que parece, é um dos desenvolvimentos esboçados no “Projeto”. Nesse trabalho, Freud recusa a identificação entre o mental e a consciência e abre espaço em sua teoria para a noção de um psiquismo inconsciente. Propõe que os fenômenos conscientes sejam paralelos a uma parte dos processos nervosos – aqueles que constituiriam o psíquico inconsciente – e, conseqüentemente, que toda representação consista num processo cortical totalmente independente a princípio da consciência. Esta última passa a ser concebida, então, como algo posterior e restrito em relação ao campo da atividade representacional. Portanto, ao atribuir uma natureza psicológica àqueles processos corticais, que no texto sobre as afasias eram considerados concomitantes aos fenômenos psíquicos, e ao deslocar o paralelismo, que antes definia a relação entre os processos nervosos e os psíquicos, para a relação entre os processos psíquicos inconscientes e os conscientes, Freud pôde incorporar a noção de uma mente inconsciente em sua teoria. Essa noção não apenas começa a ser esboçada no “Projeto”, mas se reveste aí de características que permanecem nos desenvolvimentos posteriores da teoria freudiana. Além disso, no “Projeto”, as características dos processos associativos que constituiriam as representações são especificadas por meio das noções de neurônio, quantidade, barreira de contato e facilitação, assim como os mecanismos que governariam a atividade representacional.

É possível, a partir desses textos iniciais, portanto, apreender as singularidades do conceito freudiano de representação – o qual se distancia consideravelmente daquele que predominava na psicologia e na filosofia da época – e apreender o modo como Freud desvincula os conceitos de consciência e de representação, abrindo caminho para a formulação do conceito de um inconsciente psíquico e representacional, peça-chave em todos os desenvolvimentos posteriores da teoria psicanalítica.

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Fátima Caropreso

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