O nascimento da metapsicologia: a obra inicial de Freud

Capítulo 2 - A área da linguagem segundo Freud

Capítulo 2 - A área da linguagem

segundo Freud

 

Freud analisa um a um os segmentos do esquema de Lichtheim – que fora, quanto ao essencial, adotado por Wernicke – e procura refutar todas as hipóteses que pudessem ser contraditas por dados clínicos e todas aquelas que se revelassem inferidas de maneira arbitrária. Ao cabo desse trabalho, como será visto, uma nova concepção sobre a área cerebral da linguagem irá emergir, a qual implicará uma nova concepção sobre o funcionamento da linguagem, com conseqüências decisivas para a formulação do conceito freudiano de representação.

As duas primeiras hipóteses afastadas por Freud são as da afasia de condução, postulada por Wernicke, e a da distinção anatômica entre as vias A-M e B-M do esquema de Lichtheim. O argumento que permite isso é, em linhas gerais, o seguinte: a perturbação da função da linguagem atribuída por Wernicke às lesões na via A-M não pode ser deduzida do esquema que ele propôs – isto é, haveria uma inconsistência interna na teoria – e, além disso, o distúrbio que pode ser deduzido desse esquema nunca foi constatado, de modo que, além de internamente inconsistente, a teoria não seria passível de verificação empírica e clínica. De acordo com Wernicke, uma lesão em A-M – da qual resultaria uma afasia de condução – provocaria, como sintoma, apenas a parafasia; contudo, de acordo com o esquema proposto, o que deveria ocorrer seria apenas a incapacidade de repetir palavras ouvidas, uma vez que essa via é especificamente responsável por essa função. Freud argumenta que a capacidade de repetir nunca é perturbada enquanto a fala espontânea e a compreensão da linguagem ouvida permaneçam intactas e que essa perturbação só ocorre se a fala estiver ausente ou se a audição estiver deteriorada. Partindo daí, ele conclui que, se a capacidade de repetir nunca se encontra perdida isoladamente – ou seja, se sempre que a fala espontânea estiver intacta a capacidade de repetir também o estará – “uma única e mesma via serve para a fala e para a repetição de palavras ouvidas” (Freud, 1891, p. 28); em outras palavras, a via B-M teria de ser idêntica à via A-M. Logo em seguida, ele afirma ainda: “estamos justificados ao negar a existência da afasia de condução de Wernicke, porque foi demonstrado que é impossível encontrar um transtorno de linguagem que possua as características postuladas” (Id. ibid.). Freud menciona, em acréscimo – como argumento suplementar a favor da sua hipótese de que a afasia de condução, tal como descrita por Wernicke, não existe –, uma constatação de Bastian, segundo a qual lesões na insula, região anatômica onde, segundo Wernicke, estaria situada a via A-M, provocam afasia motora típica, o que quer dizer que a parafasia não é uma perturbação característica de lesões nessa região.

Assim, com esse primeiro argumento, Freud suprime um dos lados do triângulo do esquema de Lichtheim e nega a existência da afasia de condução. Como conseqüência, a hipótese da afasia motora transcortical, que resultaria de uma lesão em B-M, também é refutada, e o quadro clínico considerado característico dessa forma de afasia será, posteriormente, atribuído por Freud a um outro conjunto de fatores. Ao afirmar que a mesma via serve tanto para a repetição de palavras quanto para a fala espontânea, Freud propõe algo que seria inconcebível de acordo com a teoria de Wernicke e Lichtheim e que consistirá em uma das principais características depois atribuídas ao seu aparelho de linguagem: uma mesma área anatômica pode abrigar mais de uma função. Nesse argumento também está implícito uma outra característica do aparelho de linguagem depois proposto por Freud: o centro motor da linguagem não é funcionalmente independente, pois, se a fala espontânea ocorre pela mesma via que a repetição de palavras ouvidas, ela, de alguma maneira, também depende das imagens acústicas. Dessa forma, um problema na fala espontânea pode decorrer tanto de lesões na área sensorial da linguagem quanto de lesões na área motora, ou seja, lesões localizadas em regiões cerebrais diferentes podem provocar quadros clínicos semelhantes. Essa conclusão também seria incompatível com a teoria de Wernicke e Lichtheim, segundo a qual uma lesão só poderia provocar uma alteração na função específica sediada pela região lesada, uma vez que os centros de linguagem seriam, por hipótese, funcionalmente independentes. Embora para Wernicke as imagens acústicas continuassem exercendo uma função de controle sobre a linguagem espontânea, ele considerava que esta última, após determinado período, deixaria de ser executada pela via B-A-M e passaria a ser executada diretamente pela via B-M. Assim, de acordo com o esquema por ele proposto, apenas uma lesão nessa via poderia impedir a fala espontânea.

A próxima parte do esquema de Lichtheim a ser descartada por Freud é a via A-B. Ele chega a essa conclusão após analisar e utilizar como argumento um caso que foi apresentado por Heubner, um pediatra alemão, de um paciente afásico cujos sintomas eram a incapacidade de falar espontaneamente e de compreender a linguagem falada e escrita, mas com manutenção da capacidade de repetir palavras ouvidas e de ler. Segundo Greenberg (1997), este caso foi apresentado por Heubner à sociedade médica de Leipzig, em 1888, quando o paciente ainda estava vivo; nessa apresentação, Heubner avaliou o caso de acordo com a teoria de Wernicke. A autópsia, contudo, revelou que a localização da lesão era bem diferente da prevista. Esse resultado levantou uma objeção contra a teoria localizacionista, que é, então, retomada por Freud. Heubner reapresentou o caso em 1889, já com os dados da autópsia, e apontou a sua incompatibilidade com a teoria de Wernicke.

O paciente apresentaria, segundo o esquema de Lichtheim, um misto de afasia sensorial transcortical e de afasia motora transcortical. No entanto, a autópsia acabou revelando que havia uma lesão em torno da área considerada como o centro sensorial – a primeira circunvolução temporal –, que isolava quase completamente essa área, assim como uma pequena lesão na terceira circunvolução frontal. Freud argumenta que, tal como Heubner já havia considerado, a lesão na área motora era pequena demais para ser responsável pelo distúrbio e que, portanto, este devia resultar de uma lesão na área sensorial. Esse caso revelou que o isolamento da área sensorial – ou seja, uma lesão sensorial transcortical – poderia provocar a perda da linguagem espontânea. Diante disso, Freud conclui que a fala espontânea e a compreensão de palavras ouvidas devem ocorrer pela mesma via, isto é, “que a via B-M é idêntica à A-B, ou que a linguagem é produzida somente por intermédio das imagens acústicas” (Freud, 1891, p. 41). Com esse argumento, ele explicita a hipótese, que já podia ser inferida a partir de sua conclusão anterior, de que a fala espontânea depende

também das imagens acústicas 3 e recusa a distinção que havia restado entre as vias A-M e A-B. Conseqüentemente, a noção de afasia sensorial transcortical também pode ser descartada. Dessa conclusão e da anterior, segue-se que B-M é igual a A-M e que B-M é igual a A-B; portanto, B-M, A-M e A-B devem ser idênticas; em outras palavras, a repetição, a fala espontânea e a compreensão de palavras ouvidas devem ocorrer pela mesma via. Dessa forma, o triângulo superior do esquema de Lichtheim perde totalmente sua função e justificação. Restam, então, a via A-M, as vias subcorticais da linguagem, além da hipótese das lacunas funcionais.

Na seqüência do texto, as próximas partes do esquema a serem suprimidas são os próprios centros sensorial e motor da linguagem. Logo a seguir, Freud descarta a hipótese das lacunas funcionais – como sua existência estava implícita na teoria de Wernicke, elas serão tratadas como se fizessem parte do esquema – e, por último, a das vias subcorticais da linguagem. Na continuidade, essa última conclusão de Freud será comentada em primeiro lugar.

Freud argumenta, quanto a isso, que não há casos relatados de pessoas que tenham adquirido uma surdez ou uma cegueira verbal em razão de lesões nas vias aferentes subcorticais. Ele cita um caso, relatado por Giraudeau, de um paciente que apresentava os sintomas característicos da afasia sensorial subcortical – capacidade de falar intacta e surdez verbal –, mas cujo exame post mortem revelou uma lesão situada na primeira e na segunda circunvolução temporal, ou seja, na região cuja lesão deveria estar associada à afasia sensorial comum. Freud argumenta que esse caso analisado por Giraudeau não demonstra a existência do feixe de fibras α-A e conclui que a afasia sensorial subcortical não se deve a uma lesão dessa suposta via, mas sim a uma lesão na área sensorial cortical.

Freud reconhece a existência de uma via subcortical motora, mas nega a possibilidade de um dano nesta via causar afasia. Comenta que, de acordo com Wernicke, o único traço característico que distinguiria a afasia motora cortical da subcortical seria a incapacidade, na primeira, de o paciente estabelecer o número de sílabas da palavra. Freud afirma que esse transtorno particular da linguagem pode ser considerado mais uma disartria – um problema apenas de articulação – que uma afasia e menciona, a favor dessa conclusão, um caso observado por Eisenlohr, o qual sugere que as lesões situadas abaixo da área de Broca provocam um distúrbio de linguagem que representa uma transição em direção à disartria. Ele, então, conclui que: “é necessário, pois, conceder somente para a parte motora do aparelho de linguagem uma via especial que leva à periferia” (Freud, 1891, p. 86).

Contudo, o transtorno de linguagem decorrente de um dano nessa via não pode ser considerado uma afasia, e sim uma anartria ou disartria: “o aparelho de linguagem, tal como nós o concebemos, não tem vias aferentes ou eferentes próprias, exceto um feixe de fibras, cuja lesão causa disartria” (Freud, 1891, p. 86). Freud, então, aceita a hipótese de que haveria uma via subcortical eferente própria da linguagem, mas recusa a possibilidade de que lesões nessa via provoquem transtornos efetivamente afásicos. Desse modo, mais uma parte do esquema de Lichtheim é suprimida – a via α-A – e mais dois tipos de afasia são, com isso, descartados: as afasias sensorial e motora subcorticais. Dessas conclusões já se pode antecipar que a afasia virá a ser considerada, por Freud, como um distúrbio exclusivamente cortical.

Até aqui, as vias transcorticais e uma das vias subcorticais foram suprimidas; portanto, permanecem do esquema de Wernicke– Lichtheim apenas os centros de linguagem A e M, a via associativa que os conecta, a via eferente da linguagem e a hipótese das lacunas funcionais. Ainda há, pois, duas hipóteses a serem descartadas: a dos centros e a das lacunas funcionais – Freud conservará, como será constatado, a idéia das vias associativas da linguagem.

No início de sua monografia, Freud assinala que a hipótese da afasia central poderia ser considerada supérflua: “[…] toda hipótese de uma lesão central pode ser deslocada por outra baseada na lesão de várias vias, sem abandonar, por isso, a teoria da localização das funções psíquicas nas áreas dos centros” (Freud, 1891, p. 33), ou seja, uma lesão na totalidade das vias de acesso tornaria um centro inacessível e, portanto, seria funcionalmente equivalente à lesão ou à destruição deste centro. Mas, para descartar definitivamente a hipótese dos centros de linguagem, é necessário negar a função que lhes foi atribuída, isto é, recusar que é preciso haver locais de armazenamento das impressões sensoriais e motoras da linguagem no córtex, o que Freud faz no quinto capítulo ao revisar certas hipóteses de Meynert que, como já foi observado, estavam pressupostas e consistiam no fundamento da teoria de Wernicke.

Uma das hipóteses de Meynert discutida por Freud é, então, a de que haveria centros corticais onde estariam armazenadas as impressões sensoriais e motoras. Segundo Freud, a idéia da existência de centros cujas células armazenariam as diversas imagens sensoriais e motoras fundamentava-se na hipótese de que os fenômenos neurológicos e os psíquicos deveriam possuir as mesmas características, pois a um simples psíquico – uma impressão sensorial – deveria corresponder um simples neurológico – um engrama contido em uma célula. Freud argumenta que essa transposição de termos psicológicos em termos neurológicos, empreendida por Meynert e mantida por seus seguidores, é um procedimento arbitrário, pois os fenômenos psíquicos e neurológicos não precisam possuir necessariamente as mesmas características. É essa confusão entre o neurológico e o psicológico que deve, então, ser desfeita. Freud pergunta a si mesmo se a suposição de que as células dos centros corticais da linguagem contêm as imagens de palavras é admissível e, imediatamente, responde negativamente.

Na psicologia, a idéia simples é para nós algo elementar que

podemos diferenciar claramente de sua conexão com outras

idéias. Esta é a razão por que nos sentimos tentados a

presumir que o seu correlato fisiológico, a dizer, a modificação

das células nervosas que se originam pela estimulação das

fibras nervosas, seja também algo simples e localizável.

Tal inferência, com certeza, carece de todo fundamento; as qualidades dessa modificação têm que ser estabelecidas em si mesmas e independentemente de seus concomitantes psicológicos (Freud, 1891, p. 70).

Freud reconhece como um progresso o fato de Wernicke ter declarado que somente os elementos psíquicos mais simples – a saber, as diferentes classes de percepções sensoriais – poderiam ser localizados no córtex, isto se comparado à tendência anterior da medicina para localizar as faculdades mentais em sua totalidade, mesmo as mais complexas. Contudo, não deixa de reconhecer que, em princípio, Wernicke teria cometido o mesmo erro de seus predecessores.

[…] não se comete por acaso, em princípio, o mesmo erro tanto

quando se pretende localizar um conceito complicado, como

toda uma faculdade, ou um elemento psíquico? É justificado

submergir uma fibra nervosa, que ao longo de todo o seu curso

havia sido somente uma estrutura fisiológica sujeita a

modificações fisiológicas, com sua terminação no psíquico e

dotar esta terminação de uma idéia ou recordação? (Freud,

1891, p. 69).

Freud sustenta, entre outras coisas, que é necessário estabelecer um limite preciso que separe os fenômenos neurológicos dos psíquicos, necessidade que já havia sido apontada por Hughlings Jackson. Ele cita, em uma nota de rodapé, a seguinte afirmação de Jackson (1884, p. 72):

[…] devemos estar atentos contra a falácia de que o que são

estados físicos nos centros inferiores tornem-se estados

psíquicos nos centros superiores; que, por exemplo, vibrações

nervosas sensoriais se tornem sensações…

A posição assumida por Freud (1891, p. 70) diante dessa questão é a mesma de Jackson:

A relação entre a cadeia de processos fisiológicos que se dão

no sistema nervoso e os processos mentais provavelmente não

é de causa e efeito. Aqueles não cessam quando estes

começam; tendem a continuar, porém, a partir de um certo

momento, um fenômeno mental corresponde a cada parte da

cadeia ou a várias partes. O processo psíquico é, portanto,

paralelo ao fisiológico, um concomitante dependente.

De acordo com a doutrina da concomitância de Jackson, os estados mentais (ou conscientes) e os estados nervosos transcorreriam paralelamente, mas não haveria interferência causal ou de qualquer outro tipo de um sobre o outro. Para cada estado mental, haveria, portanto, um processo nervoso correlativo.

Citando um exemplo: em uma percepção visual há um circuito físico que vai da periferia sensorial para os centros superiores e, destes, retornando à periferia muscular do organismo. A imagem visual, que seria um estado puramente mental, surge durante as – mas não resulta das – atividades dos elos superiores dessa cadeia de eventos puramente física (Jackson, 1884).

Essa posição de Jackson confere autonomia ao seu objeto de estudo e ao campo da pesquisa neurológica, permitindo-lhe que se distancie da confusão entre o que é físico e o que é psíquico mencionada acima. Forrester (1983) comenta que um dos primeiros

ataques aos “fazedores de diagramas” 4 veio dessa união de argumentos psicológicos e filosóficos que se encontra no trabalho de Jackson. Sobretudo, este estava interessado em escapar à flutuação entre termos psicológicos e fisiológicos que afetava as teorias sobre as afasias, assim como, a seu ver, a neurologia em geral. De acordo com Forrester, a doutrina da concomitância – um argumento firme para uma separação rigorosa entre os processos psíquicos e os físicos – protegeu a neurologia contra um psicologismo rasteiro. Diante da necessidade de tratar os processos psíquicos e os fisiológicos como dois tipos de fenômenos independentes, Freud adota a concepção de Jackson, segundo a qual esses dois processos, embora concomitantes, não interferem um sobre o outro.

Nesta passagem mencionada, em que Freud aproveita a citação de Jackson para questionar a idéia de que o que são estados físicos nos centros inferiores tornam-se estados psíquicos nos centros superiores, ele parece referir-se à teoria de seus opositores como se esta se fundamentasse na hipótese de que os fenômenos psíquicos e os físicos fossem idênticos. Mas, logo em seguida, reconhece que, na verdade, tais autores consideravam que as modificações neurológicas das fibras nervosas mediante os estímulos sensoriais produziriam outras modificações nas células nervosas centrais, as quais, então, seriam convertidas no “correlato fisiológico” da idéia ou representação. Em outras palavras, as modificações nas células corticais seriam tão-somente os correlatos das idéias, para Meynert e Wernicke, e não as próprias idéias. Freud argumenta que a insuficiência do conhecimento a respeito dos processos fisiológicos levou esses autores a empregarem termos psicológicos para se referirem a fenômenos fisiológicos, confundindo assim esse dois domínios:

Como sabem muito mais acerca das idéias que acerca das

modificações fisiológicas que permanecem ainda mal definidas

e pouco conhecidas, empregam a frase elíptica: uma idéia está

localizada na célula nervosa. No entanto, esta substituição leva

imediatamente à confusão de dois processos que não

necessitam ter nada em comum um com o outro (Freud, 1891,

p. 70).

Ao sustentar que os correlatos de uma idéia simples se localizam em algo igualmente simples – ou seja, em uma célula do córtex cerebral –, Meynert teria atribuído as propriedades do fenômeno psíquico ao fenômeno neurológico, reiterando o pressuposto de que ambos possuam as mesmas propriedades. Freud contesta a legitimidade desse procedimento – dessa transposição das hipóteses da psicologia associacionista para a neurologia, apontada por Amacher (1965) – e procura formular uma hipótese alternativa que seja capaz de contornar este equívoco. Segundo Marx (1967), o que há de mais importante na monografia de Freud sobre as afasias é o fato de ela ter apontado o que há de ilógico em se construir um modelo anatômico a partir de uma concepção psicológica, com o que Freud teria identificado uma das maiores falácias inerentes às principais formulações psicofisiológicas dessa época. Após essa crítica, Freud se pergunta qual seria, afinal, o correlato fisiológico da idéia simples e responde:

Obviamente, nada estático, mas algo que tenha o caráter de um processo. Este processo não é incompatível com a localização.

Começa em um ponto específico do córtex e, a partir daí, se

difunde por todo o córtex e ao longo de certas vias. Quando

este fato ocorre, deixa atrás de si uma modificação, com a

possibilidade de uma recordação na parte do córtex afetada

(Freud, 1891, p. 71).

Agindo dessa forma, Meynert e Wernicke teriam reduzido as “faculdades” de Gall a agregados de impressões sensoriais e motoras elementares, e Freud, por sua vez, fez corresponder essas impressões elementares a algo neurologicamente mais complexo, ou seja, a intrincados processos associativos cerebrais. Provavelmente, Freud fundamentou suas hipóteses na concepção de Jackson de que a idéia é o correlato de um processo sensório-motor: o correlato fisiológico de uma idéia simples seria, assim, um processo e não um engrama simples contido em uma célula individual. Para Freud, então, o que é simples do ponto de vista psíquico corresponderia a um processo complexo do ponto de vista fisiológico. Disto se segue que não seria possível distinguir nitidamente entre os correlatos fisiológicos da associação e os da representação, pois o correlato de uma idéia simples é um processo associativo, de modo que, para haver representação, é necessário que haja associação. Com isso, a associação deixa de ser considerada um processo que ocorre apenas entre os correlatos das representações simples, levando com isso à constituição dos correlatos da representação complexa, e passa a ser considerada como a condição necessária de todo correlato neural da representação. Como conseqüência, a noção de centros de linguagem fica consideravelmente vazia de sentido: se não há correlatos de representações armazenados em células corticais, não é necessário haver locais de armazenamento, isto é, os centros de linguagem que funcionem como tais. A área da linguagem seria, portanto, uma área exclusivamente associativa:

Mediante esta refutação da existência de localizações

separadas para a ideação e para a associação descartamos

uma razão importante para diferenciar entre centros e vias de

linguagem. Em cada parte do córtex que está a serviço da

linguagem temos que supor processos funcionais similares e

não necessitamos apelar para os feixes de fibras brancas para

a associação das idéias dentro do córtex (Freud, 1891, p. 72).

Então, mais uma parte do esquema de Wernicke e Lichtheim – os centros de linguagem – pode ser descartada e, conseqüentemente, os dois tipos de afasias centrais desaparecem com eles. Além disso, Freud também recusa a hipótese de que é necessário supor feixes de fibras subcorticais responsáveis pelas associações da linguagem – Wernicke considerava que a via A-M associaria os correlatos das imagens acústicas aos correlatos das imagens cinestésicas e que a associação entre os correlatos das diferentes imagens acústicas ou das diferentes imagens cinestésicas seria executada pelos feixes de fibras subcorticais. Contra esta última hipótese, ele cita uma conclusão de Pick, assim como o caso relatado por Heubner, nos quais se esperava, seguindo Wernicke, uma lesão nos feixes de fibras subcorticais, mas que a autópsia revelou que a lesão se situava exclusivamente no córtex. Para Freud, portanto, a área da linguagem converte-se em uma região exclusivamente associativa, ao mesmo tempo em que a associação passa a ser considerada um processo exclusivamente cortical.

A última hipótese sobre a constituição da região da linguagem descartada por Freud são as lacunas funcionais, contra a qual ele usa dois argumentos. O primeiro refere-se ao modo como a existência dessas lacunas foi inferida, em que, mais uma vez, o método utilizado pelos localizacionistas pode ser criticado. De acordo com Freud, as áreas que apresentavam maior superposição de lesões nos exames post mortem foram consideradas como centros de linguagem, ou seja, como áreas cuja integridade seria indispensável para que a linguagem funcionasse normalmente. As demais áreas foram, por exclusão, consideradas como regiões desprovidas de função. Ele argumenta, contudo, que tal inferência não se justifica, porque pode perfeitamente haver outras áreas corticais que também estejam a serviço da linguagem, ainda que sua destruição possa ser tolerada mais facilmente e, além disso, também seria perfeitamente possível que uma lesão em uma região provocasse uma alteração no funcionamento de outra, ou seja, uma lesão poderia provocar uma alteração funcional generalizada. Por isso, o fato de determinadas áreas não estarem associadas a casos de afasia não permite concluir que elas não sejam responsáveis por nenhuma função da linguagem, nem que elas consistam, portanto, nas chamadas lacunas funcionais.

O segundo argumento de Freud dirige-se contra a função que foi atribuída a tais lacunas; mais precisamente, dirige-se contra a hipótese de que a aprendizagem da linguagem consistiria em um processo de ocupação de regiões anteriormente desocupadas. Usando a analogia empregada por Freud para expressar a concepção de aprendizagem de Meynert, esta última ocorreria de maneira similar à expansão de uma cidade quando as pessoas se instalam nas regiões que estão fora de suas muralhas. Freud argumenta que quando se examina a utilidade dessa hipótese para a compreensão dos distúrbios afásicos, constata-se que o que ocorre é exatamente o oposto do que pode ser previsto pela suposição das lacunas funcionais. Se a aprendizagem da língua ocorresse da forma como acreditava Meynert, deveria ser possível, no caso de uma lesão na área da linguagem, que o uso da língua materna fosse prejudicado ou abolido e o uso de outra língua adquirida posteriormente permanecesse intacto, pois cada uma delas poderia, em princípio, estar armazenada em uma área totalmente diferente. Contudo, argumenta Freud, jamais acontece de uma lesão orgânica afetar a língua materna e não uma língua aprendida posteriormente; o que invariavelmente ocorre em todas as perturbações da linguagem é o contrário. Ele comenta que, ao revisar o material pertinente, nota-se que dois fatores determinam o caráter do transtorno de linguagem em poliglotas – a influência da ordem de aquisição da língua e a influência da prática – e que esses fatores operam sempre na mesma direção. O prejuízo da linguagem seguiria sempre uma ordem contrária à da aprendizagem, ou seja, as línguas posteriormente adquiridas seriam sempre as primeiras a serem afetadas, a não ser que uma língua adquirida mais tarde tenha sido mais usada que a materna. Portanto, pode-se inferir que:

[…] um novo conjunto de associações pode sobrepor-se às

associações já estabelecidas que intervêm na fala… O conjunto

de associações sobrepostas é danificado antes que o primário,

seja qual for a localização da lesão (Freud, 1891, p. 75).

Deste modo, a aprendizagem da linguagem não parece consistir num processo de ocupação de áreas desocupadas, e sim num processo de “sobreassociação” (Superassoziation), em que todas as aquisições da linguagem ocorreriam na mesma área, com as associações sobrepondo-se umas às outras. Assim, seria desnecessário supor a existência de lacunas funcionais, e essa hipótese também poderia ser descartada por Freud.

A hipótese de que as funções da linguagem são afetadas na ordem das mais recentes para as menos recentes está de acordo com o conceito de “dissolução”, proposto por Hughlings Jackson, para dar conta das patologias do sistema nervoso. Freud refere-se a ele como o “autor, sobre cujas opiniões tenho baseado quase todos os argumentos que venho empregando para refutar a teoria localizacionista das afasias” (Freud, 1891, p. 75). Jackson (1879-80) teria aplicado a doutrina da evolução de Herbert Spencer ao sistema nervoso e proposto que os distúrbios nervosos consistem em reversões do processo evolutivo, isto é, em dissoluções das funções constituídas ao longo deste processo. A evolução do sistema nervoso significa, para Jackson, a passagem dos centros inferiores – que seriam mais organizados, mais simples e mais automáticos – para os centros superiores – que seriam menos organizados, mais complexos e menos automáticos. Para Jackson, não há inconsistência em se falar de centros como sendo, ao mesmo tempo, mais complexos e menos organizados. Para ele, um centro constituído apenas por dois elementos sensoriais e dois motores, em que esses elementos estivessem bem-associados, de forma que as correntes fluíssem facilmente dos primeiros para os segundos, embora muito simples, seria altamente organizado. Por outro lado, um centro constituído por quatro elementos sensoriais e quatro motores, no qual a articulação entre os elementos sensoriais e motores fosse imperfeita e dificultasse a passagem da corrente nervosa, embora fosse um centro mais complexo que o anterior, não poderia ser considerado mais organizado.

A dissolução, sendo o reverso da evolução, seria um processo que se orientaria no sentido do menos organizado, mais complexo e menos automático para o mais organizado, mais simples e mais automático. Em todos os casos de dissolução, a sintomatologia das patologias do sistema nervoso se formaria segundo uma dupla condição, havendo tanto elementos positivos quanto negativos. Os primeiros consistiriam, do lado físico, na atividade das partes do centro que não tivessem sido afetadas por processos patológicos; os segundos consistiriam no esgotamento ou na perda da função de alguma parte de algum dos centros. As disposições nervosas superiores evoluiriam a partir das intermediárias, estas, a partir das inferiores e, estas, por sua vez, a partir das funções periféricas. Apesar disso, as disposições superiores passariam a controlar as inferiores, de um certo momento em diante, assim como um governo surgido na história de uma nação passa a controlar essa nação, exemplifica Jackson. Assim, se o processo de evolução ocorresse mesmo dessa maneira, o processo reverso de dissolução não consistiria apenas numa supressão do funcionamento superior, mas também numa liberação do inferior. Conseqüentemente, os sintomas positivos não seriam causados pela dissolução, embora fossem permitidos por ela.

Recapitulando, então, a crítica de Freud procede descartando as partes do esquema de Wernicke e Lichtheim uma após a outra. Primeiro, a hipótese da via B-M e, com ela, a da afasia motora transcortical; em segundo lugar, a da via A-B e, com ela, a da afasia sensorial transcortical; em terceiro lugar, a hipótese dos centros de linguagem e, com ela, a das afasias centrais. A seguir, a hipótese das lacunas funcionais e, por último, a da via sensorial subcortical da linguagem e a das afasias subcorticais. Desse modo, só o que permanece do esquema original é a via associativa A-M e a via eferente subcortical. Freud suprimiu desse esquema tudo o que não resistiu à análise crítica, e as partes que foram mantidas podem ser apontadas, então, como as verdadeiras constituintes da área da linguagem. Com efeito, após discutir a noção de lacunas funcionais, ele afirma:

Rejeitamos a hipótese de que o aparelho da linguagem seja

constituído por centros distintos separados por áreas carentes

de função e de que as idéias (recordações) que servem para a

linguagem estão armazenadas em certas partes do córtex

chamadas centros, enquanto que sua associação é executada

exclusivamente por feixes de fibras subcorticais. Só nos resta

formular a opinião de que a área da linguagem é uma região

cortical contínua dentro da qual ocorrem as associações e

transmissões que subjazem às funções da linguagem; estas

são de uma complexidade que ultrapassa toda compreensão

(Freud, 1891, p. 76).

Freud acrescenta depois que esta área da linguagem estaria situada no hemisfério esquerdo, entre as terminações dos nervos ótico, acústico e motor. No último capítulo, como já foi mencionado, ao analisar os casos de afasias subcorticais, Freud conclui que deveria haver uma via eferente específica da linguagem.

Mas, se a área da linguagem é uma área cortical contínua e exclusivamente associativa, ou seja, se não há centros de linguagem, por que a anatomia patológica teria conduzido a esta última hipótese? Freud considera que as áreas que foram consideradas centros de linguagem seriam as regiões mais próximas às terminações nervosas e que, como lesões nas partes periféricas dessa região associativa subtrairiam das associações da linguagem todos ou quase todos os elementos de um determinado tipo, isso teria levado à conclusão de que nessas partes se situavam os centros que conteriam esses elementos. Por exemplo, uma lesão na área adjacente à terminação do nervo acústico poderia impedir toda e qualquer associação dos elementos acústicos dentro da área da linguagem, dependendo de sua extensão, e o efeito disso seria uma surdez verbal. Já uma lesão situada na região central da área da linguagem provocaria uma alteração generalizada nas funções lingüísticas, mas sem ser capaz de suprimir totalmente nenhuma delas. Freud propõe então que, em toda a região da linguagem, ocorram processos similares e que a hipótese dos centros possui significado apenas para a patologia da linguagem, mas não para sua fisiologia normal:

As partes da região da linguagem que fazem fronteira com os

campos corticais dos nervos cranianos ótico, acústico e motor

adquirem o significado demonstrado pela anatomia patológica,

que os tem definido como centros de linguagem. Esse

significado, porém, vale somente para a patologia e não para a

fisiologia do aparelho de linguagem, porque não se pode

sustentar que nestas partes ocorram outros processos, ou

processos mais importantes, do que naquelas partes da área da

linguagem cuja deterioração é melhor tolerada (Freud, 1891, p.

78).

Em conclusão, portanto, para Freud, a área da linguagem seria uma área cortical homogênea, situada no hemisfério esquerdo, cujas regiões periféricas adquiririam o significado de centros para a anatomia patológica, em razão do fato de essa área se situar entre as terminações dos nervos acústicos, óticos e motores.

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Freud não apenas recusou o esquema específico elaborado por Wernicke e Lichtheim para as afasias, como também procurou refutar os pressupostos básicos da teoria desses autores, sem os quais suas hipóteses se tornariam insustentáveis. Em primeiro lugar, uma vez que uma mesma área pode abrigar mais de uma função e que as diferentes funções não são independentes umas das outras – o que tem como conseqüência que lesões de mesma localização podem provocar quadros clínicos diferentes e vice-versa –, não é possível inferir a função abrigada por uma área cortical específica apenas a partir da relação entre os sintomas afásicos e a localização da lesão; não é possível nem explicar o distúrbio apenas a partir da localização da lesão, nem, a partir desta última, fazer previsões precisas a respeito do quadro clínico que dela decorreria. Em segundo lugar, uma vez que se considera que o que é simples do ponto de vista psicológico corresponde a algo complexo do ponto de vista neurológico – ou seja, que uma idéia simples corresponda a um intrincado processo associativo –, não há como falar de engramas ou representações elementares armazenados no córtex e, portanto, torna-se desnecessário falar de áreas de armazenamento, isto é, de centros que executam autônoma e exclusivamente cada uma das diversas funções da linguagem.

A hipótese formulada por Freud sobre a área da linguagem fundamenta-se, assim, em uma concepção própria sobre a localização das funções cerebrais e sobre a relação entre os fenômenos psíquicos e os fisiológicos. As hipóteses de Gall sobre a localização de funções cerebrais compostas são, em parte, aceitas, pois Freud admite que o cérebro não atue como um todo, mas seja funcionalmente composto; mas são também, em parte, recusadas, pois Freud não aceita a hipótese de que cada uma das funções da linguagem se localize em uma área diferente e de que todas as funções sejam independentes umas das outras. Segundo ele, não se pode falar de centros que executem as diferentes funções da linguagem: algumas dessas funções estão localizadas numa mesma área e parte delas são funcionalmente dependentes umas das outras. Freud propõe, então, que só é possível estabelecer a região mais ampla onde transcorrem os processos correlativos às funções psíquicas, ou seja, que apenas é possível falar de uma “área da linguagem” e não de “centros e vias associativas da linguagem”. Passa-se a examinar, a partir de agora, como Freud concebe esse “aparelho de linguagem” que tal área abrigaria.

 

3 A hipótese de que a linguagem espontânea é produzida por intermédio das imagens acústicas já estava presente no esquema da linguagem proposto em Grashey (1889), que é apresentado por Freud no quarto capítulo. Embora Freud discorde de Grashey em alguns aspectos, concorda com ele em outros, e este é um deles. As concepções de Grashey serão retomadas adiante.

4 Essa expressão – diagram makers – foi utilizada por Head (1926) para se referir aos neurologistas que procuravam explicar os distúrbios afásicos e o funcionamento da linguagem em termos localizacionistas e expunham suas concepções por meio de diagramas, tal como Wernicke e Lichtheim, entre outros.