O nascimento da metapsicologia: a obra inicial de Freud
Introdução
Os fenômenos neuróticos, como se sabe, revelaram a Freud que apenas uma parte da atividade psíquica era acessível à consciência dos enfermos, ou seja, que havia “representações inconscientes” determinando os sintomas e que, portanto, a identidade estabelecida na psicologia e na filosofia anteriores entre o psíquico e o consciente e, conseqüentemente, entre a consciência e o campo da representação precisaria ser repensada. O objetivo deste trabalho é analisar o desenvolvimento de algumas concepções freudianas do período crucial que se estende de 1891 a 1895, as quais permitiram a Freud dissociar o conceito de “representação” e o de “consciência”, afastando-se, assim, das concepções psicológicas tradicionais. Uma atenção especial será concedida a dois dos principais trabalhos desse período: a monografia Sobre a concepção das afasias (1891) e o manuscrito do “Projeto de uma psicologia” (1895).
Em Sobre a concepção das afasias, Freud faz uma ampla revisão das principais hipóteses então vigentes sobre os distúrbios afásicos e, a partir da recusa dos fundamentos subjacentes a essas hipóteses, propõe uma nova concepção sobre o funcionamento normal e sobre as patologias da linguagem, apoiando-se em algumas concepções de autores como Hughlings Jackson, Charlton Bastian e Stuart Mill. A crítica de Freud dirige-se, principalmente, à teoria de Wernicke e à de Lichtheim sobre as afasias e à teoria sobre o funcionamento do sistema nervoso de Meynert, que fundamentava as duas teorias anteriores. Uma vez que a teoria de Meynert se apoiava em muitas das hipóteses da psicologia associacionista, como apontaram diversos autores (Forrester, 1983; Amacher, 1965), a crítica dessas hipóteses neurológicas sobre as afasias resultou numa revisão das concepções psicológicas a elas subjacentes. O que está em questão aqui é como, neste movimento, as concepções sobre a fisiologia e a anatomia da linguagem propostas por Freud acabaram por conduzir a uma formulação consideravelmente distinta do conceito de representação.
A concepção de representação formulada por Freud em sua monografia sobre as afasias distancia-se da concepção subjacente à teoria neurológica localizacionista em vários aspectos, no entanto, a identificação entre o psíquico e o consciente é ainda claramente sustentada por ele nesse texto. Assim, de acordo com essa teoria, “inconsciente” seria ainda sinônimo de ausência de processos psíquicos, e, portanto, a expressão “representação inconsciente” só poderia ser entendida como uma fórmula autocontraditória ou, no máximo, como uma expressão metafórica ou figurada. Nos textos sobre as neuroses, do período que vai de 1891 a 1895, embora Freud reconheça a necessidade de admitir a existência de processos inconscientes atuando na determinação das neuroses, continua hesitando em atribuir-lhes uma natureza psíquica. Mesmo assim, a identidade entre o mental e o consciente começa a ser pouco a pouco questionada. Nos Estudos sobre a histeria (Freud, 1895), ele aponta para a necessidade de uma reflexão sobre a natureza da consciência que torne possível explicar o modo como operam as representações inconscientes envolvidas na etiologia das neuroses. É justamente essa reflexão que está presente, entre muitas outras coisas, no “Projeto de uma psicologia” (Freud, 1895/1950), em que Freud finalmente abandona a restrição do psíquico ao consciente, dissociando, assim, os conceitos de representação e de consciência. Deste modo, de acordo com a teoria exposta no “Projeto”, a expressão “representação inconsciente” deixaria de ser uma contradição em termos ou de possuir um significado apenas metafórico.
Com o objetivo de propiciar uma compreensão satisfatória da complexa monografia de Freud sobre as afasias, é apresentada, primeiramente, uma análise de algumas das concepções dos autores a que ele ali se opõe, assim como de concepções dos autores em que ele se apóia para empreender sua crítica. Essas noções são apresentadas paralelamente ao comentário do próprio texto de Freud.
Após essa análise do texto de 1891 e da concepção de representação que nele toma forma, são examinados alguns dos textos sobre as neuroses que antecedem a redação do “Projeto”, com o intuito de esclarecer de que modo o conceito de representação foi utilizado por Freud ao longo desse período de transição entre os dois trabalhos principais. Por último, serão expostos os resultados da análise de um conjunto de hipóteses do “Projeto” mais diretamente relacionadas com o tema em foco, numa tentativa de explicitar como a relação entre os conceitos de representação e de consciência passa a ser pensada a partir daí.